quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

ANÁLISE: PEC 18/2025 e nova vitória do crime

 

                A comoção nacional e internacional com o horror letal da megaoperação Contenção no Alemão e na Penha em 28/10 gerou terremoto em Brasília. O Congresso rapidinho retirou das gavetas um texto elaborado pelo Ministério da Justiça, para apreciação e votação urgentes. Esse texto é a PEC 18 de 2025, popularizada como PL Antifacção.
                A proposta de emenda à Constituição (PEC) altera um ou mais artigos da Constituição de 1988 como adaptação à necessidade do contexto nacional do momento, sem que haja perda da essência da Carta. Ela objetiva a ação integração das polícias – PF, PRF e estaduais – nas operações de combate ao crime organizado (facções traficantes e milicianas).
                Sua elaboração já ocorria quando a Carbono Oculto da PF desbaratou esquema bilionário envolvendo PCC, políticos, megaempresários e fintechs na Faria Lima. E já estava no Congresso durante a chacina no Rio com 121 mortos oficiais, dos quais 47 inocentes, fora as sempre ignoradas subnotificações. Foi a operação carioca que fez desengavetar a proposta.

                Relatoria –- o governo entregou ao presidente da Câmara Hugo Motta e o imbuiu de escolher um relator neutro, mas de conhecimento da causa. Quem Motta escolheu? Guilherme Derrite, o licenciado secretário da SSP paulista do reacionário governo Tarcísio de Freitas, o presidenciável dos jornalões.
                Mesmo traído por Motta, o governo seguiu a institucionalidade. Decidiu “pagar para ver” o que viria, mesmo já imaginando o viés populista penal. E testemunhou um trabalhão para o próprio Derrite, que deparou com a tempestade de críticas do governo, de governistas, da esquerda e de especialistas.

                Alterações desastrosas –- Derrite mostrou aos colegas da casa porque foi escolhido a dedo por Tarcísio para comandar a SSP-SP, e nunca é demitido pelo governador, apesar das críticas tanto de especialistas da área quanto dos adversários políticos na Alesp. Seguem os tópicos que mais incendiaram o debate público nas redes sociais e os apontamentos de analistas.
                Restrição do papel da PF –- no texto original do governo, a PF tem preservadas as suas atribuições plenas e originárias, como instituição independente de determinismos dos mandatários regionais. A alteração de Derrite condiciona a PF nos Estados a uma solicitação formal feita pelo governador. Ou seja, sem esse documento, a PF não poderia atuar localmente.
                Bancos estaduais de dados de integrantes do crime organizado –- em si não foi um dispositivo ruim, pois já estava previsto no texto original do governo, para haver protagonismo estadual na integração funcional das forças policiais. Os reforços de Derrite foram o condicionamento acima descrito e o maior aporte de grana federal aos Estados para as suas polícias e aos Bancos.
                Paridade funcional de facções criminosas a grupos terroristas –- os requisitos do conceito de terrorismo são: prejuízos ao patrimônio e à ordem social motivados pelo ódio requisitado como base política. No Direito internacional, a pena para crimes tipificados como terrorismo é longa. No Brasil, ela pode alcançar 40 anos em regime fechado – reclusão máxima legal.
                O acréscimo desse item seguiu Donald Trump, que tem aumentado os ataques a embarcações no mar do Caribe no intuito de ferrar Nicolás Maduro. Como já publicado no artigo sobre o significado político da megaoperação Contenção no Rio de Janeiro, a elite do crime tem ligações diretas e indiretas com empresários e políticos. E alguns têm mandato político – um verdadeiro efeito colateral do problema.
                Confisco/perda de bens ---o texto original, da PEC 18/2025 previu o confisco ou tomada de bens tanto de sujeitos investigados em prisão preventiva quanto daqueles já condenados. Derrite quase baniu esse item ao restringir esse poder judicial apenas relativo a quem já fosse condenado transitado em julgado, e já estando em cumprimento de pena.

                Das críticas ao recuo –- a 1ª alteração foi entregue para comissão especial da Câmara e ao governo e publicado em portais oficiais (Câmara dos Deputados e Agência Brasil), para leitura pública. O temporal de críticas nas redes sociais e nos encontros sociais foi tamanho que até impediu os colegas bolsonaristas manifestar apoio, temendo a perda eleitoral.
                A PF e o governo criticaram o papel operacional condicionado a solicitação formal dos governadores estaduais, por saberem que alguns deles simplesmente não o fariam devido ao próprio rabo preso. O que praticamente impediria o objetivo da PEC, a ação integrada das polícias para efetuar desmontes inteligentes do crime organizado.
                Além do governo e dos parlamentares governistas e da esquerda, especialistas apontaram que considerar crime organizado terrorista facilitará a desnecessária intervenção estadunidense que pode bagunçar a vida social e desencadear uma ruptura diplomática, o que decorreria numa crise interna de proporção ainda não seguramente mensurável em sua amplitude.
                Pressionado e irritado, Derrite recuou e criou uma nova versão, também criticada. Veio a terceira, a quarta e a quinta versões, que receberam críticas por todos os lados, mesmo com retorno parcial ou alterado de vários tópicos. Alguns analistas se esperançaram com o retorno do original. Mas, aí veio uma ideia sigilosa.

                O jantar e a votação – Derrite já espumava com as críticas à 5ª versão quando, à noite, um trio elegante de homens entrou num restaurante fino e sentaram numa mesa mais distante e prontamente foram atendidos por um garçom. Conversavam baixo enquanto aguardavam a chegada de seus pratos. Mas não escaparam de uma câmera ainda mais discreta que os tornaria públicos.
                A foto revelou os homens: Arthur Lira, o cassado Eduardo Cunha e Guilherme Derrite. Embora ninguém os escutasse, o assunto especulado pela geral foi um só: a articulação de uma versão definitiva da PEC a ser aprovada sem alarde. E jantaram tranquilamente, como se nada tivesse de estranho. Dito e feito: no dia seguinte foi apresentada a última versão, a ser finalmente votada em plenário.
                Pelo visto, dito e feito. A sexta e última versão do texto de Derrite teve vitória esmagadora: 370 votos versus 110contrários, sem ter havido apreciação crítica dos deputados. Os 110 contrários foram da ala progressista – governistas e da esquerda.  O que revela a força da ruptura relacional já iniciada pelas lideranças do Centrão e da oposição da Câmara com o governo federal.
                Vale acrescentar também que a ruptura da Câmara (e agora do Senado, devido à indicação de Jorge Messias ao STF) com Lula 3 se completa com um aspecto tenebroso na votação da PEC: mesmo cassado por condenação transitada em julgado pelo 8/1 e agora fugido para os EUA, Ramagem teve voto validado por Hugo Motta, o que é ilegal. Tudo por simples birra com o STF, também devido ao bloqueio das emendas por Dino.

                Quem venceu? Fria análise – é certo que o texto original do Ministério da Justiça não tenha sido o supra-sumo da legislação contra as organizações criminosas em geral. A realidade do crime organizado, tanto na vida social quanto nos altos escalões, é bem complexa. E, para quem tanto esperançou por seu aprove, dadas as críticas a Derrite, a notícia a dar sobre qual versão que passou na Câmara não é nada boa. Ela está cheia de gatilhos que dificultam muito o objetivo.
                A redução relativamente severa de recursos do Ministério da Justiça à PF para direcioná-los às polícias estaduais e a maior dificuldade de confiscar ou tomar bens de investigados e condenados parecem ser, a princípio, os piores gatilhos. Se o primeiro limitaria as operações amplas e inteligentes da PF, o segundo impediria a conversão dos bens em recurso compensatório à PF.
                Não por acaso, parlamentares de esquerda e governistas foram às redes sociais para explicar aos seus eleitores, em tom crítico, que o texto da PEC aprovada não foi o proposto pelo governo. Houve quem acrescentasse que quem mais perde com a derrota do governo é o povo – detalhe crucial, que pode ser compreendido em dois sentidos.
                Um dos sentidos é o do impacto orçamentário nos recursos dos poderes públicos – a violência sozinha gera, hoje, um prejuízo público na casa de R$ 2 bilhões com atendimento em saúde às vítimas. O outro está no risco de fortalecimento da criminalidade financeira – através das alianças entre crime organizado, políticos e elite econômica, como no caso da Faria Lima, o que pode elevar a valores imprevisíveis.
                 É, resumidamente, um duplo prejuízo para a nação brasileira – sem falar na insegurança cotidiana vivida pelas populações periféricas, que convivem de perto com a baixa patente do crime organizado. E, de quebra, pagam mais pela conveniência de políticos embolsada pela elite, empresarial (que inclui certamente alguns negociantes da religião) e/ou das organizações criminosas.
                Em resposta, Lula decidiu judicializar. Enquanto Brasília incendia, a PF segue seu curso. Prendeu Rodrigo Bacellar, presidente da ALERJ, ao descobrir suas ligações com o CV através do ex-deputado TH Joias, e o mesmo da parte do próprio governador Cláudio Castro. O desespero o deixou irritado com os repórteres que perguntaram sobre a nota referente às evidências descobertas pela PF.
                Enquanto Lula não resolve a pendenga da PEC junto à Justiça, o crime organizado comemora o aprove da versão Derrite na Câmara dos Deputados. A PEC consolida o poder do Primeiro Comando do Congresso, como o historiador e cientista político Carlito Neto alcunha a aliança Centrão-ultradireita. Enfim assistimos, impotentes, à vitória não só do crime organizado e de suspeitos políticos de uma aliança tão poderosa quanto nefasta, cujos resultados criminais podem ter ido além do que sabemos.
                Enquanto essa turba toda comemora, quem perde é, como sempre, a população. Esta segue a vida submersa na lama de um sistema viciado do qual não consegue encontrar uma brecha para respirar. Segue presa numa falsa sensação de liberdade enquanto trabalha e continua a pagar pelos pecados alheios. Será que Lula conseguirá ter a voz necessária da justiça nessa hora? Considero bem difícil, mas minha visão não é fato. Só nos resta aguardar. 

Para saber mais
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