quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

CURTAS 103 - ANÁLISES (os 2 pesos e medidas da Câmara)

 
UM PODER AUTOCRÁTICO

                Em reta final de ano, a ruptura relacional entre congresso e governo tem se intensificado. Ela piorou com a indicação de Jorge Messias para o STF, e não Rodrigo Pacheco, que Xandão também preferia. Mas André Mendonça e Kássio Nunes se solidarizam com Messias, respectivos por fé e origem. Movimentos socioculturais se preocupam.
                Negros, indígenas, mulheres e minorias sexuais percebem a falta de representatividade que será necessária após a aposentadoria de Carmem Lúcia. Teme-se que outro “terrivelmente evangélico” queira restringir o já tão apertado espaço participativo desses grupos. Enquanto isso, a guerra declarada pelo Congresso continua.
                Duas bancadas ideológicas dominam o Congresso: os reacionários MBListas e bolsonaristas, e os coronéis do Centrão. Este quer as bilionárias emendas, antigas e atuais, a todo custo. A ultradireita quer Bolsonaro livre e novamente elegível em pouco tempo. Ambas se juntam em duplo mecanismo: sequestrar funções do Executivo e do Judiciário.
                Contra Lula – o PL Antifacção do governo aprovado foi alterado com restrição de recursos da PF. O Congresso derrubou 56 dos 63 vetos do governo no PL da Devastação, poucos dias após o fim da COP30. O orçamento da União-2026 aprovado corta recursos de políticas públicas para engordar emendas parlamentares em R$ 64 bilhões.
                Responsável pelo Tesouro Nacional, o Executivo é quem calcula o valor das emendas, que não pode ser justificado em cortes nas políticas públicas, já arrochadas pelo ajuste fiscal e pela inflação. Mas o Congresso desrespeitou. E acreditem: emenda parlamentar e teto de gasto público são vergonhas exclusivas do Brasil.
                Recentemente reforçada pelo STF que incluiu minorias sexuais e povos indígenas, a Lei Antirracista-1989 foi alterada pelo Congresso. Lideranças cristãs poderão demonizar crenças de matriz africana e indígena livremente em seus cultos. Num afago ao agronegócio, o texto original do Marco Temporal anti indígena foi aprovado na calada da noite.
                Enquanto o primeiro enfatiza o ódio pregado pelos líderes religiosos e mesmo por direções institucionais rasgando a lei, o segundo ameaça os acordos fechados na COP30 para a proteção dos povos originários e dos seus respectivos ambientes naturais, considerados sagrados pelas culturas ancestrais.
                Contra o STF – julgando os casos dos fugitivos Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, condenados com trânsito em julgado pelo STF, a Câmara aprovou a manutenção de seus cargos. Isso enquanto Hugo Motta se omitia sobre a situação de outro fugitivo, Eduardo Bolsonaro, que foi para os EUA para cometer crimes de lesa-pátria e de coação à Justiça.
                Na citada Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026, a parte relacionada às emendas se deve a um jabuti referente ao recebimento de emendas antigas, por sua vez referentes a restos da emenda de relator, o popular “orçamento secreto” criado na era Bolsonaro e mantido ilegalmente como “emendas pix”, bloqueadas por Flávio Dino há 1 ano.
                Em novembro, o presidente do senado Davi Alcolumbre reclamou da hashtag #congressoinimigodopovo, popularizada nas redes. Prometeu processar o criador dela e quem postá-la, em franco ataque à liberdade constitucional de expressão popular. Como resposta, a patuleia viralizou ainda mais a hashtag, usada até por jornais independentes.
                Reações – no STF, Xandão revogou o voto do Congresso sobre Zambelli e Ramagem, por condenações em definitivo. E já aceitou denúncia da PGR contra Eduardo Bolsonaro por coação de processo judicial. Percebendo a cifra tão alta, Dino brecou o resto do orçamento secreto a pagar (emendas antigas), contido na LOA-26. Tensão total na reta final de ano.
                Por sua vez, Lula disse a jornais que vetará pontos inconstitucionais nas propostas aprovadas após “análise cuidadosa” por sua equipe. Ele sabe do diálogo de Alcolumbre e Motta com Xandão sobre a dosimetria. Partilhada com analistas políticos, sua preocupação é a de que a pena reduzida é porta aberta para novas tentativas de golpe de Estado.
                Até onde sabemos, o ministro não deixará seu legalismo para favorecer uma redução para anistia que pode ser um precedente perigoso.
                Análise final – os textos aprovados têm pontos inconstitucionais. O Marco Temporal original já foi brecado antes, e o jabuti na Lei Antirracista o será, por violar a lei de 2003 sobre ensino de cultura africana (e agora, também indígena) e também artigos da CF sobre direitos e garantias constitucionais, e a lei de liberdade religiosa de 2006.
                Sobre o breque às emendas antigas, Dino explica que não é possível “ressuscitar modalidade de emenda [...] reputada inconstitucional”, por intransparência. O valor anormalmente nos faz suspeitar de abuso de poder econômico. E sobe as análises das PLs, a chance de Lula vetar artigos estranhos à Carta é alta – com torcida pela ajuda do STF.
                E como os jornalões atuam sobre esse desnível de poderes? O STF e o governo têm sido alvos de editoriais caprichados criticando seus atos respectivos. Em relação aos abusos do Congresso, quase há afago. Até Dino – quem diria! – já foi criticado por uma das grandes fontes por “impedir a atenção aos municípios mais necessitados”.
                A própria posição dessas mídias nos reforça a má impressão que o próprio Congresso já passa para nós. Pois omitir críticas aos seus descarados abusos feitos para desafiar o Judiciário e o Executivo nos repassa a impressão de que a Legislatura não é um poder como os demais, e sim uma esfera autocrática, autoritária e – quiçá – golpista.
Para saber mais
----


DITADURA DO CONGRESSO

                Brasília, 1º semestre de 2025. Antes do STF bater o martelo, a PL da Anistia aos protagonistas da intentona de 8/1/23 já corria na Câmara há algum tempo. Cientes da inevitável condenação de Bolsonaro e seu grupo golpista, os reacionários pressionavam o hesitante Hugo Motta, que priorizou resolver um momento de tensão com o senador Davi Alcolumbre.
                Em paralelo, numa reação às provocações de um militante do nazifascista MBL, Glauber Braga o expulsou com empurrões das dependências da casa. De pronto o Conselho de Ética se formou para processar o deputado por indecoro. O caso MBL foi a cortina de fumaça sobre o verdadeiro motivo: a denúncia de Braga contra a emenda secreta de Arthur Lira.
                Reprovados todos os recursos de defesa e em cassação iminente de seu mandato, Glauber protestou sozinho com greve de fome por 9 dias, dormindo ao lado da mesa diretora da Câmara, próximo do de recesso parlamentar de julho, e diante da onda solidária popular. Efeito: Hugo Motta prometeu e fez adiar a votação plenária de seu destino.
                A volta pós-recesso nas duas Casas iniciou com a ocupação da mesa diretora pelos deputados e senadores bolsonaristas com suas bocas vendadas por uma reluzente fita adesiva prateada. Ao chegarem, Motta e Alcolumbre foram inicialmente impedidos de sentar. Quando Motta sentou, a mesa diretora ocupada virou foto rapidamente midiatizada.
                A mídia online e impressa deu mais importância ao protesto reacionário do que ao de Glauber. A foto citada viralizou, mas não teve a mesma onda de solidariedade popular que deu ao progressista o gigantismo – o qual foi reconhecido antes com o prêmio de melhor deputado federal pelo Congresso em Foco em 2018.
                No início de outubro de 2025, a mídia impressa e online do Brasil divulgou uma foto de capa: deputados bolsonaristas ocuparam toda a mesa da presidência da Câmara. Quase todos vedaram suas bocas, alguns também nos olhos, com fita adesiva prateada. Era um protesto contra a resistência do presidente Hugo Motta em votar a PL da Anistia.
                Quando Mott chegou para iniciar atividades do dia, Zé Trovão inicialmente o impediu de sentar na cadeira da presidência. Depois pode ocupá-la. Estava tranquilo, envolto pela turba protestante que ali ficou. Foi desse modo que a imagem do fotógrafo do Portal da Câmara dos Deputados viralizou na imprensa e nas redes sociais pelo país.
                 Brasília, 2º semestre de 2025. Hugo Motta autorizou a retomada da votação dos destinos dos mandatos do socialista Glauber Braga e dos bolsonaristas Carla Zambelli e Alexandre Ramagem. Ciente de que poderia ser cassado e os adversários não, Braga sentou na cadeira presidencial em protesto solitário, assistido por aliados e alguns populares.
                Tudo estava sendo registrado pela equipe jornalística do supracitado Portal, que manda na TV Câmara, quando a Polícia Legislativa Federal apareceu e protagonizou uma violência. Mesmo inicialmente protegido pela esposa Sâmia e resistindo, Glauber foi arrancado à força da mesa diretora, recebendo chave. As filmagens firam bruscamente cortadas.
                Como tudo foi transmitido em tempo real, as redes foram inundadas pelos confrontos de opinião pública, enquanto a Meta brecava os perfis oficiais dos parlamentares progressistas, que postaram seus registros em perfis de militantes. O silenciamento revelou a intimidade entre as big techs e a direita, e o autoritarismo de Motta e Lira.
                À coletiva de imprensa, Motta julgou “desrespeitosa” a ocupação da mesa diretora da Câmara por Glauber. “Não serão mais permitidas novas ocupações, por ninguém”, prometeu. Negou a violência da abordagem da PLF a Glauber, se contradizendo em relação à sua calma no protesto bolsonarista. Até um jornalão percebeu tamanha seletividade!!
                Para agradar aos bolsonaristas, Motta permitiu a votação do PL da Anistia, arquivado pelo Senado devido à intensa pressão popular. O posterior PL da Dosimetria reaproximou STF e Centrão, foi aprovado e aguarda sanção. Após aprovar Zambelli e Ramagem, a Câmara suspendeu Glauber por 6 meses e a suplente Heloísa Helena ocupa sua vaga.
                Em fria análise, os parlamentares progressistas foram inteligentes em postarem em perfis populares. Sabem que o silenciamento atinge defensores da regulação das redes e das mídias. Por trás da democratização infomativa e política, a regulação responsabiliza as big techs por mentiras e ódio postados, que são bem mais lucrativos.
                Após a recuperação dos perfis progressistas, o casal Glauber-Sâmia não comemorou a suspensão. É só um fôlego para novas lides. No podcast recente do canal 3 Irmãos no Youtube, ambos debateram com Eduardo Bolsonaro, deixando claro que continuarão resistindo até o fim, contra o que podemos vislumbrar como ditadura do Congresso.
                Cada vitória antecede uma luta ainda mais árdua. Pode parecer contraproducente  dizer o que virá. Mas Glauber, Sâmia e outros políticos progressistas combatentes são imprescindíveis para a manutenção da democracia interna do poder Legislativo, para atuar em paridade nivelada com os demais poderes constituídos. E a maioria do povo já sentiu isso.
Para saber mais
----
                
                


                








Nenhum comentário:

Postar um comentário

LIGEIRINHAS 28 (pipocas brasileiras)

  PEDRO TURRA, A ELITE SEM LIMITE                      Na noite quente de Águas Claras, DF, um grupo juvenil se divertia jogando chicletes e...