Em artigo recente sobre clima pormenorizei sobre fatores
de padronização, eventos meteorológicos (condições de tempo) e o aquecimento
global natural e humano, e a mudança climática. Entre todos os fatores
naturais de longo prazo, estáveis e de duração geológica em alguns tipos),
o único tipo não abordado foram as correntes marinhas.
A exclusão das correntes marinhas naquele artigo foi
proposital, decorrência da riqueza de detalhes que implicaria em explicações em
artigo à parte – este aqui. Essa categoria fenomenológica merece atenção
especial por sua abrangência, variedade, abrangência e suma importância
planetária.
CORRENTES MARINHAS
As correntes marinhas ou oceânicas são
movimentos de massas d’água em todos os oceanos da Terra. Há correntes frias e
quentes, sendo as primeiras mais profundas e as últimas superficiais. Seus
principais fatores são: geografia continental, esfericidade e rotação
planetária, e características da água (profundidade, salinidade, temperatura e
densidade).
Em todos os mares, as correntes marinhas são
majoritariamente isoladas ou individuais, influenciando as
regiões alcançadas por cada uma. Mas elas também podem formar pares, criando sistemas
pareados, que podem assumir importância de nível mais amplo, planetário, a despeito da
localização de cada exemplo identificado.
A seguir, seguem os seus fatores de formação e de distribuição.
Temperatura e função ambiental — é um meio de classificação e identificação
(corrente fria/corrente quente). Regiões específicas onde podemos sentir “bolsões
d’água” frios e quentes em um só tempo são designadas zonas de ressurgência, que podem
cobrir grandes áreas e se revelam, como pontos de encontro (com movimentação circular do corpo d'água local) e
de dispersão das correntes díspares.
Correntes frias (em azul na figura acima) são mais profundas, de águas mais salgadas e
densas, e distribuem grandes volumes de nutrientes em todos os mares, contribuindo
desta forma para espalhar e manter grandes populações bióticas. Correntes quentes (em vermelho) são superficiais, de água mais leve e menos salgada, e propiciam grande
biodiversidade marinha nos litorais alcançados. As diferentes massas d’água não se misturam, daí a
movimentação em bolsões frios e quentes nas ressurgências.
Quente, a Corrente do Golfo (México) é
conhecida por amenizar invernos das regiões frias por ela alcançadas (costa
oriental norte-americana e ocidental europeia, incluindo Noruega e sul da
Islândia). Fria, a Corrente de Humboldt esfria todo o litoral
sul-americano no Pacífico rendendo formações desérticas até o Peru. Há outras
correntes frias e quentes importantes, como a da Austrália Ocidental (fria) e a
do Brasil (quente).
Influência climática e ambiental— as vastas regiões florestais
úmidas, como as vistas nos trópicos, são influenciadas por correntes quentes.
Mas até países como Áustria e Suíça, montanhosos e sem mar, são florestados
graças aos ventos úmidos soprados do tépido Mediterrâneo, governado por uma corrente quente local.
Aqui cabe uma questão interessante. Se a corrente do Mediterrâneo é quente, por que as regiões em torno parecem mais secas? A resposta é simples: no entrono o relevo acidentado (montanhoso) impede a extensão da umidade para o interior desértico no Mediterrâneo. E os ventos predominantes sopram em direção norte (Europa) e nordeste (Turquia e Líbano no Oriente Médio).
Regiões desérticas e
semidesérticas são influenciadas por correntes marinhas frias e moldadas pelo relevo. Na América do
Sul, o estreito deserto do Atacama (Chile) se limita ao litoral devido às altas montanhas andinas., ue impedem a umidade oriunda do leste do continente As partes mais altas são contíguas no Altiplano Boliviano, cujo clima é moldado também pela atmosfera rarefeita das grandes altitudes locais.
Ressurgência — os pontos de ressurgência amplificam a
dispersão e redirecionam correntes quentes e frias por muitas regiões costeiras
influenciando em variados padrões climáticos locais e também na formação de
biomas específicos e adaptados às suas respectivas localidades. A ressurgência
brasileira cobre desde o litoral do Paraná até o norte do RJ.
SISTEMAS DE EQUILÍBRIO (PAREADOS)
Por sistemas de equilíbrio são designados os grandes “pares” de correntes (uma fria e uma quente), formados em zonas de ressurgência
e em obediência à geografia continental, à forma e à rotação do planeta. De acordo com estudos sistemáticos de universidades e agências de Climatologia, esses sistemas possuem responsabilidade crucial para a manutenção da homeostase
climática global. Daí advir a designação acima.
Existem vários grupos, mas os mais importantes, dada a sua extensão e localização geográfica, são três: as duas grandes Correntes (ou Sistemas) Circumpolares (Antártica e Ártica), e
a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico, ou, em inglês, Atlantic
Meridional Overturning Circulation-AMOC. Esta última tem sido muito falada ultimamente e vocês saberão dos motivos e implicações.
Sistemas Circumpolares— são correntes
pareadas que movimentam os Oceanos Glaciais, Ártico no hemisfério Norte e a sua
contraparte sulista Glacial Antártico. Seus movimentos propiciam os vórtices
atmosféricos polares, sistemas ciclônicos de alta pressão que mantêm as condições gélidas nos polos. A
velocidade das Circumpolares varia naturalmente – só que com limites.
Estudos recentes revelam que os sistemas estão mais
lentos, o que poderia desencadear o colapso dos vórtices polares atmosféricos e “vazar” ondas
gélidas invernais para as latitudes tropicais. Naturalmente, a ocorrência do vazamento é mais rara no polo antártico do que no ártico (o que explica maior aquecimento lá), mas teme-se que a mudança climática atual desencadeie maior intensidade e frequência desequilibrando a homeostase
climática global.
AMOC— a Circulação de Revolvimento Meridional do
Atlântico é um amplo sistema alternado de correntes que percorrem o oceano
Atlântico no sentido Sul-Norte (quente) e Norte-Sul (frio). Na prática, o
sistema agrega várias correntes importantes, quentes e frias, que interagem em
várias zonas ressurgentes litorâneas ao longo da rota atlântica, e governam os
climas em torno do oceano.
Além de várias universidades e outros centros científicos,
a NOAA (agência de pesquisas atmosféricas dos EUs), o nosso Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e o Painel Intergovernamental
sobre Mudanças Climáticas-IPCC/ONU perceberam, em seus muitos estudos, que
a AMOC tem valor climático planetário. E daí compartilham uma preocupação.
IMPLICAÇÕES DE POSSÍVEL COLAPSO
Assim como os sistemas circumpolares supramencionados, a AMOC também está
ficando mais lenta. Os cientistas já perceberam que há uma relação íntima natural
entre os ciclos de renovação e degelo das calotas polares e o ritmo das
correntes. Mas a conclusão sobre qual parte é a causa dessa redução de velocidade desses sistemas ainda não está definitiva. Só que não é tão inexplicável quanto parece.
Existem várias teorias, sendo a mais plausível a de
que o aquecimento global derivado das ações humanas acelera o degelo das
calotas polares. Como os diferentes níveis salinos de todo o corpo d’água
oceânico favorecem as correntes, a água doce formada pelo degelo massivo decai
localmente a salinidade da água resultando no enfraquecimento da corrente superficial.
Mas, agora vale um questionamento.
El Niño e La Niña— abordados no artigo
anterior[1], esses dois fenômenos que alteram a temperatura superficial do
Pacífico Equatorial merecem atenção aqui. Já é conhecido na Climatologia que, quando
um dos fenômenos está fortemente ativo, um tipo ou classe de corrente ganha
mais força em detrimento do outro. É dessa forma que se percebe quando as
médias térmicas dos oceanos estão mais altas ou mais baixas.
Já se percebeu que as correntes frias perdem força
considerável em tempos de El Niño dominante. O exemplar recuo da
corrente de Humboldt resulta em escassez de nutrientes na costa oeste
sul-americana, diminuindo as populações de animais. A La Niña faz o
contrário, criando ilhas de calor concentrado no Atlântico médio e gerando a intensificação da temporada de furacões no Caribe, especialmente na primavera no Hemisfério Norte.
Embora essa correlação de forças seja bem documentada,
ainda não sabemos se esses fenômenos interferem de forma significativa na força
e na velocidade dos grandes sistemas pareados. Ou seja, se estão por trás da
“lentidão” atual. E caso isso se afirme, é possível que, em condições naturais,
seja evento transitório. Daí vale pesquisar onde termina o natural e começa o
antrópico nessa relação (difícil essa).
SOLUÇÕES – E FRIA ANÁLISE FINAL
Como como já exposto no artigo anterior (Clima: do natural ao humano), em
2024 ultrapassamos a marca térmica global limítrofe (1,5°C de 1850 a
hoje, segundo o IPCC) para revertermos a exacerbação do aquecimento antrópico. O
que não significa, entretanto, o fim da nossa esperança de melhora.
Segundo as entidades, ainda estamos em tempo de, ao
menos, manter o novo padrão climático, mediante os meios disponíveis citados no
artigo anterior. E, como já apontado, aguardar os resultados, em prazo mais ou
menos longo. Esses meios exigirão muita disposição e boa vontade sociopolítica
e mercadológica – imprescindíveis para a sobrevivência do tão adorado
capitalismo.
E como reforço na análise final deste artigo, cabe
acrescentar que, a despeito da suma importância dos grandes sistemas pareados
de equilíbrio para a homeostase climática global, cada corrente
individualmente citada tem seu papel imprescindível para a vida. O Saara “doa”
suas areias para o fundo oceânico e para fertilizar as terras da Amazônia e do
Caribe e garantir alimento e equilíbrio econômico. Assim, o colapso de uma
delas desencadeará desequilíbrio climático, ambiental e social nas regiões de
influência e adjacências. E, se nada fizermos para evitar, a extinção em massa
virá a galope.
Nota: artigo anterior:
https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2026/03/analises-curtas-107-clima-do-natural-ao.html
Para saber mais
- https://doutorrodrigoluz.blogspot.com/search?q=amoc. (conto fictício
sobre clima)
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