quinta-feira, 29 de outubro de 2026

ANÁLISE: Eleição 2026-dos ilícitos à vitória democrática

 

              Antes de apresentar o artigo a seguir, peço sinceras desculpas pela demora em publicar novos artigos. É que, pelo momento especial da nossa história sociopolítica, digo que a elaboração do texto a ser publicado me invocou uma pesquisa refinada das fontes de referência e intensa reflexão analítica dos acontecimentos, posta da forma mais resumida possível. Mas, espero que o resultado final abaixo valha a leitura.
                    
                    Acompanhando as estatísticas em avaliação popular sobre o governo Lula e diante do debate público sobre a renovação do Congresso, os institutos de pesquisa voltaram às ruas a partir da segunda metade de 2025 para iniciar a nova etapa: levantar a intenção de voto para 2026. Com o passar do tempo, o índice de indecisos mitigou paulatinamente. Em agosto/26, 89% se diziam decididos, com Lula à frente.
                    Na última semana do voto, o progressista Lula se manteve à frente do reacionário Flávio Bolsonaro. Nesse sentido, a decisão dos eleitores pareceu consolidada para a reeleição do velho petista, apesar da popularidade menor em comparação à aos governos de outrora e o indicativo de eleição acirrada. Mas, o fechamento da contagem de votos revelou Flávio em vantagem de 1,8%. Silêncio aterrador.
                    O desejo de renovação do Congresso também se revelou desolador, especialmente para os movimentos populares. O PL de Flávio comemorou com a captura imbatível de cadeiras: 28 no Senado e 121 na Câmara. Como já predizia Julian Lemos, ex-bolsonarista agora pró-Lula e eleito suplente na Paraíba pelo PP, tudo indica que a nova legislatura será bem pior do que esta que chega ao seu fim. Mas, vale pensar no poder do Centrão de isolar a ultradireita, daí eu não ver no Congersso o pior dos problemas.
                   O poder que mais em sofrido com as irregularidades eleitorais é o Executivo. No Rio de Janeiro, o ex-prefeito carioca Eduardo Paes era líder na preferência popular para governador estadual. Mas perdeu para o reacionário ex-PM Ruas.  Em MG – estado que se reflete no país –, Lula estava à frente, mas à noite, ao fim da contagem dos votos, Flávio virou. Veio um silêncio aterrador e o alerta na equipe de campanha.
                    Essas viradas no primeiro turno chamaram a atenção dos analistas. Buscando evitar preocupações maiores e censura prévia judicial, eles tentaram explicar, em vão, os fatores do fenômeno. Os jornalões pasteurizaram o fato como se não houvesse nada anormal no processo. Mas, especialmente entre as conversas de bar, várias causas possíveis foram especuladas, e apenas duas se evidenciam até o momento.

Boca de urna— 
                    É o crime eleitoral mais comum. Assim como o comércio de voto, ele ocorre diante da entrada dos locais de votação. A autoria varia: pode ser simples eleitores ou militantes partidários previamente pagos, em grupos pequenos e dispersos para não chamar atenção, daí a sutileza do delito. Eles fazem proselitismo eleitoral para convencer eleitores a votar em candidatos ou na legenda deles, ferindo-lhes o direito de escolha.
                    Por serem os maiores colégios eleitorais do Brasil, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo acumulam maior incidência de flagrantes neste ano. E os municípios de pequeno e médio porte do interior foram os campeões, devido à fiscalização precária. Além disso, cabe assinalar que, quanto mais isolado é o interior dos Estados, mais penetrante é o coronelismo das elites políticas locais.
                    A lei eleitoral não considera boca de urna o eleitor usar uma camisa contendo estampa sugestiva de algum candidato ou partido no momento de votar. Explica-se no mesmo significado da camisa de time esportivo. Portanto, seu uso é tão legítimo quanto a famosa cola eleitoral, que facilita a digitação correta dos números dos escolhidos pelo eleitor na urna eletrônica – mesmo sendo apenas item opcional.

Comércio ilegal de votos— 
                    É outro crime muito conhecido na nossa legislação. Todos os pleitos se marcam por flagrantes em diversas regiões do país. Mas é menos comum do que a boca de urna, por não ter a mesma discrição e sempre envolver grana. A abordagem é sutil, com oferta imediata de quantia determinada para o eleitor votar no candidato ou legenda por trás do delito. Ocorre em qualquer cidade, mas o interior é mais visado.
                    No primeiro turno houve o recorde de flagrantes do delito, confirmado em 23 Estados. No Rio de Janeiro, o maior número de flagras ocorreu na Baixada, na região metropolitana. Na capital, votos quase totais para um candidato nas comunidades periféricas reflete claramente o problema, cujo combate é impossibilitado pelas orcrims locais e alguns pastores evangélicos locais em conluio com o crime.

O eterno assédio eleitoral— 
                    O termo assédio eleitoral é, na prática, a outra designação, talvez técnica, do famoso curral eleitoral. É a chantagem com ameaça para o eleitor votar em determinado candidato ou legenda. Nos sertões dominantemente rurais do passado, os coronéis ameaçavam os populares em seus domínios de prisão ou até morte. Hoje, outras lideranças aderiram ao mesmo estratagema. Os patrões ameaçam empregados de demissão sumária, e os presbíteros, de expulsão. Agora propõem tais demissões como lei, inclusive para atingir servidores públicos "petistas".
                    Graças aos novos personagens, o crime foi midiatizado em 2022. Na diversificada mídia nacional, a chantagem eleitoral patronal para votar em Jair Bolsonaro foi marcada por muitos flagrantes. Em 3 matérias publicadas em 2022, a BBC Brasil enumerou chantagens e ameaças de pastores de expulsar fiéis que votassem em Lula. Alguns youtubers denunciaram, inclusive, cultos pela reeleição de Jair Bolsonaro, com direito a telões com sua foto no recinto. E em 2026, os cultos são para Flávio, com o mesmo formato.

Os santinhos fraudulentos— 
                    Aquele papel com a foto, o nome e o número de um ou mais candidatos ajuda como uma colinha optativa na hora de votar. Afinal, os eleitores digitam os números dos mesmos. Apesar da nossa escolha por determinados candidatos, os primeiros algarismos decimais (10, 11, 12, 13, 22, 25, 27, 30, 55, 65, etc.) representam o partido. Candidatos a cargos do Executivo usam esses números, e os demais, números maiores. Ao votar em alguém, o eleitor beneficia, primordialmente, o partido dele.
                    A numeração é necessária para identificar a sigla e, apesar de imoral em tese, o benefício partidário é lícito. Mas houve a fraude dos santinhos. Entre os milhares de santinhos emporcalhando as ruas das cidades do RJ, muitos eram enganosos. Eles continham a foto do ex-candidato a governador Eduardo Paes com um reluzente 22 ao invés do 55 de seu partido PSD. O 22 é do PL, do deputado estadual Alexandre Ruas, aliado da famiglia Bolsonaro.
                    Essa fraude pareceu novidade, pois nunca foi citada antes na mídia. Pesquisei no Google, com ajuda do ChatGPT, para saber se houve santinhos fraudulentos em outros Estados. Entretanto, não encontrei nenhuma fonte que afirmasse a existência deles fora do Rio de Janeiro. Parece se tratar mesmo de novo crime eleitoral, que encontrou no Rio de Janeiro, tomado há décadas pelo crime organizado, o melhor palco para a sua prática.
                    Ciente de sua liderança pré-eleição e dos votos enganados, Paes foi à justiça. O PSD entrou com Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) no STF para haver 2º turno, com incentivo do canal popular Exército do Dudu no WhatsApp. Mas o TRE-RJ o tornou inelegível por 8 anos, por ter usado o Plano Estratégico municipal como mote de campanha. Agora o ex-prefeito terá uma luta ferrenha para vencer essa situação.

Garotinho— 
                    Na lista dos candidatos a governador estadual no RJ estava o campista Anthony Garotinho. Ex-governador, ele tentou nova investida após anos sem poder disputar a política devido a processos judiciais a que respondeu. Se candidatando sub judice por recurso, ele ficou em 3º lugar ao findar o primeiro turno. Mas desistiu do recurso. O TSE distribuiu seus votos para Paes e Ruas. Com esse adicional, Ruas foi eleito em 1º turno.
                    A desistência de Garotinho num momento tão crucial foi vista como um verdadeiro golpe entre o público. Entre os eleitores no tribunal da internet, a acusação mais comum foi a de ter enterrado a chance de segundo turno que elegeria Eduardo Paes. Outra acusação igualmente importante foi a de entregar o Estado novamente para o bolsonarismo, após o desembargador Ricardo Couto dar lição de como governar um Estado despoluindo instituições e deixando as contas em dia.
                    
Uma fria análise dos fatos—
                    Sem dúvida, desde 2018, as eleições passaram a se carregar de atipicidades. Em 2018, pastores ajudaram a disseminar mentiras políticas em cultos. O despreparado presidente Jair Bolsonaro deixou Arthur Lira e Paulo Guedes conduzir o governo enquanto se divertia por aí. Em 2022, igrejas fizeram culto a Jair e ameaçaram fiéis, patrões assediaram seus empregados e a PRF bloqueou estradas nordestinas. E Lula venceu.
                    Neste 2026, a atipicidade envolveu 3 ministros do STF de lealdade canina aos Bolsonaro, e todos afogados até o talo em escândalos com Vorcaro. Censura prévia sabotando a campanha de Lula com ajuda da Meta. Censura bizarra a uma santa católica. Recordes de flagrantes de compra de votos em 23 Estados. Santinhos falsos fizeram o Rio de Janeiro voltar ao reacionarismo corrupto e sanguinário após Ricardo Couto fazer a limpa.
                    Não esqueci da sabotagem judicial de Nunes Marques e Mendonça contra a campanha de Lula através de censuras. Apontei o que sobreveio durante o pleno dia 4 de outubro. As censuras prévias – que contaram com a ajuda criminosa da Meta com bloqueios de contas pró-Lula e números falsos para nomes como Nikolas Ferreira – já ocorriam antes, como a campanha antecipada feita pelo próprio Flávio pelo Brasil, que ainda não foi punida.
                    Não me esqueci também das relações escusas de Flávio com criminosos barra-pesada, ao ponto de escolher para vice um senhor que só entrou na política para escapar à acusação de estupro de vulnerável. Aliás, ele parece gostar desse tipo de gente. No passado defendeu assassino de criança e premiou com emenda parlamentar um miliciano envolvido na execução da ex-vereadora Mariele Franco – o que torna os Bolsonaro mais suspeitos.
                    Quanto aos santinhos fraudados, cabe assinalar que ela foi bem-sucedida para que Ruas ultrapassasse o antes líder Paes no primeiro turno. Para tanto, a equipe de campanha de Ruas se aproveitou de um defeito infeliz que grassa entre a grande maioria da população: a rejeição crônica à leitura. A leitura permite não só se informar mais e melhor. Ela incentiva a pesquisa, tão fácil na internet – inclusive sobre o número correto do candidato.
                    
Análise do pós-eleição—
                    Na véspera do 2º turno, Lula disse: “agora o povo escolhe o Brasil que deseja”. Feliz com a vantagem do 1º turno, Flávio já se sentia eleito, com equipe ministerial e decretaço montados. Mas não contava com a maior massa popular da nossa história, em parte movida pelos canais Exército do Lula e Canal do Lula de André Janones; e Tropa da Erika Hilton, que uniram mais de 11 milhões de soldados populares. O povo escolheu o Brasil democrático representado por Lula, em inédita e histórica virada.
                    Inédita porque nunca ocorreu virada em segundo turno para presidente. Inédito também é ele ser eleito 4 vezes pelo povo. Lula se crava em definitivo na história política brasileira. Um nordestino pobre que compensou a baixa escolaridade pelo letramento sociopolítico e se tornou, por vocação, o maior presidente do Brasil e um líder global. Aqui e no exterior, o gesto L (de Lula) virou símbolo de soberania e de resistência contra o extremismo.
                    Mas tamanha representação traz para Lula nova e enorme responsabilidade. Internamente, ele poderá, ou não, enfrentar um Congresso ainda mais reacionário, ou não, a depender do Centrão. Externamente, ele põe o Brasil na liderança estratégica do Cone Sul contra as investidas gananciosas de Trump. Já na sua equipe de governo, finalizo com o clamor popular: por favor, ponha André Janones e Erika Hilton na comunicação digital e nos direitos humanos, respectivamente. Eles foram decisivos para a democracia, e o serão na nova guerra interna que virá.
Para saber mais
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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

CURTAS 119 - ANÁLISES (fatos pré-eleição)

 

Psicologia
POR QUE A MENTIRA ATRAI TANTO?

                    Desde a independência das colônias das garras europeias no século XIX, a geopolítica foi desenhada para definir as relações e a vida da humanidade pelo globo. A geopolítica nasceu da comunicação, que encontrou nas tecnologias a queda de barreiras culturais e redesenharia as relações internacionais. E da comunicação veio a Internet – que está aí até hoje.
                    A internet surgiu como ferramenta de espionagem contra os nazistas e a URSS. Em 1995, foi popularizada através da automação ofertando uma montanha de páginas (sites) para tudo quanto é função de consumo popular, bem como trabalho à distância. Agora, o mundo se conecta por inteiro graças às atuais plataformas de redes sociais (Facebook, X, LinkedIn, Bluesky, Youtube, TikTok, Instagram, etc.).
                    A rede social pioneira Orkut (2004-14) sucumbiu ao fim do contrato do Google com o engenheiro turco Orkut Büyükkökten. O criador não o fez para espionar, o que só entendemos agora. As supracitadas possuem o algoritmo, que redireciona e manipula as preferências de cada usuário, e define o que diferentes perfis poderão postar. Assim, elas criam novas relações e mudam as antigas.
                    Vivendo dos perfis de usuários pessoais e empresariais, as redes sociais viraram o campo fértil de notícias falsas (fake news). Perfis falsos são muitos, como usuários reais ou bots (fantasmas eletrônicos) identificados com dados fictícios ou reais. Eles são personagens centrais na reprodução sistemática de mentira explorando muito um tema inevitável e pantanoso: a política.
                    A política merece ser debatida porque ela define a vida de nações inteiras e as relações internacionais. Mesmo que o entretenimento ocupe 70% do ciberespaço, inicialmente estatal e hoje privatizado. Corredores de notícias frescas em tempo real, redes sociais são o maior terreno de debate público no tema, tendo influencers como o deputado federal Nikolas Ferreira.
                    Candidato à reeleição, Nikolas quer repetir o seu recorde de votos. Foi como influenciador teen gospel que ele atingiu carreira política. Sua escola on-line Destra (nome autoexplicativo) dá curso de política na linha cristofascista. A Destra é outro caminho da disseminação da mentira política contra adversários ideológicos, especialmente na questão econômica do Brasil.
                    Jornalões ajudam na mentira política. As previsões econômicas negativas no noticiário reforçam afirmações falsas como “o país tá quebrado”, “recorde de inflação caindo o poder de compra”, “lojas fechando e demitindo gente”, “roubalheira no INSS” e “combustível muito caro”, desmentidas só em fast-checks online como Aos Fatos, Uol Confere, Agência Lupa, etc.
                    Muito comércio físico se tornou virtual (e-commerce, aplicativos). O volume de demissões é, na verdade, readaptação funcional dos empregados em apps. O valor salarial baixo é histórico e mercadológico, com aumento seguindo a média oficial inflacionária e não pulos isolados. O PIB maior é tão claro que os jornalões não conseguem negar. O roubo no INSS é histórico e quem investiga e ressarce é o governo Lula. E combustível muito caro se deve às refinarias privatizadas.
                    Mas a mentira está em tudo. Se um crime é descoberto, seu autor capturado o nega até cair em contradição. Cobrado por seu par devido a indícios evidentes, o cônjuge nega pular a cerca. A criança traquina nega ter quebrado o vaso valioso da mãe brava por medo de reprimenda feia. O comerciante enrola o comprador para vender seu produto de qualidade inferior. Por que usamos esse ato, condenável em todas as culturas conhecidas no mundo?
                    Por mais sinceros e honestos que sejamos ou queiramos ser, a mentira encontra espaço. Ela surge sempre que há circunstância forte o suficiente que impeça a verdade 100% pura. Por ordem social concordamos com a norma coletiva, mas buscamos escape quando sua pressão fica insustentável. Grupos religiosos dogmáticos que cerceiam a livre escolha amorosa tendem a ser materialistas ou intolerantes contra grupos sociais diferentes.
                    Portanto, por mais condenável que seja, a mentira é o apaziguador social mais eficiente que existe. Na Etologia (ramo da biologia que estuda o comportamento de cada indivíduo de uma população específica em relação ao meio e entre si), ela é como o blefe animal na natureza. Nesse sentido, ela ajuda a resolver um problema e a findar conflitos. A sinceridade pura pode ser confundida com estupidez em momentos que exigem cautela ao falar.
                    Porém, diferente de uma situação social restrita, o terreno político abrange todo o coletivo regional e/ou nacional. Não falo de confrontos normais entre candidatos opostos, e sim de inverdades difamatórias contra a honra do outro. Como supostos fatos pessoais ou políticos falsamente atribuídos ao adversário – uma especialidade infeliz dos demagogos reacionários, na mesma tática dos nazistas.
                    Como esse tipo de mentira afeta negativamente a coletividade de alguma forma, a legislação eleitoral coíbe falas desse naipe. Em tempos de inteligência artificial (IA), o TSE já impõe restrições severas para evitar difamação e inverdades. Como os políticos sabem que a maioria vota pela emoção, o efeito venenoso da mentira pega justamente aí. E é nesse terreno quase íntimo da vida humana que a legislação tem mais dificuldade de agir, pondo em risco o futuro da nação.
Para saber mais
- https://doi.org/10.1590/0102-37722015032213397401 (Mentira: Aspectos Sociais e Neurobiológicos, Psic.: Teor. e Pesq. 31 (3) • Jul-Sep 2015).
- https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-47941465 (BBC- sem mentiras, o que aconteceria com as relações sociais?, 26/5/2019). 
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RELIGIÃO PELO GOLPISMO

                    O presidenciável Flávio Bolsonaro estava apavorado com a queda das intenções de voto em meio à enxurrada de fatos do caso Master, quando Michele Bolsonaro lançou aquele vídeo-bomba em que expôs a “relação desajustada” entre ela e o enteado, e saiu do PL Mulher. Apoiadoras evangélicas pentecostais sentiram o impacto e passaram a rejeitar Flávio. Este correu para reverter.
                    Em vídeo, ele afirma ter feito as pazes com a madrasta “pelo meu pai”. Outro vaza o contrário: “se não fosse casada com meu pai, eu a teria estancado” – “matado”, na gíria miliciana –. Ainda mantendo alta rejeição, as evangélicas procuraram alternativas presidenciáveis à direita, como o ruralista de pinta de galã Ronaldo Caiado e o psiquiatra dos drones Augusto Cury.
                    Com a ajuda da dupla André-Kássio no TSE, dos jornalões O Globo e Estadão e dos machões de plantão, Flávio voltou a empatar com Lula nas pesquisas. Em Minas Gerais, 2º maior colégio eleitoral, uma delas o jogou à frente de Lula, fazendo soar a sirene de alerta na campanha. Mas, eis que nova série de fatos muda tudo, direcionando os números para Lula.
                    Advogado do crime— ainda na Alerj, Flávio concedeu ao matador preso Adriano da Nóbrega a medalha Tiradentes. Na época, ele advogou os milicianos que executaram a juíza Patrícia Acioli. Defendeu presos que agrediram outra juíza num presídio e afagou o PM Delaroli, que matou, sem confronto nem motivo, a menina Ana Clara, de 5 anos, numa comunidade carioca.
                    Segundo Flávio, Acioli “humilhou os réus” e pagou com a vida, e a outra juíza foi agredida por ter “zombado da condição desumana” dos PMs presos. A tese de confronto alegada por Delaroli  e reiterada pelo então senador foi derrubada pela perícia e pelas testemunhas da comunidade. E vale lembrar de que ele defendeu a atuação das milícias nas favelas na plenáriaa da Alerj.
                    A santa da discórdia—para os católicos, qualquer Nossa Senhora é Maria mãe de Jesus. A Aparecida caiu no radar eleitoral. Então pré-candidato, Flávio acenou aos evangélicos: se eleito, “o Brasil será do senhor Jesus”. Não teve alarde, mas Flávio repetiu e mexeu com a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Veio novo conflito coletivo, com ataques monitorados pela Igreja desde 2019.
                    A CNBB entendeu a fala dele nas entrelinhas. Refere-se a um projeto de 2007 do ex-deputado Victório Galli, que rebaixa o título da santa ao de “padroeira dos brasileiros católicos romanos”. O texto foi arquivado sem trâmite em 2008, mas não morreu pelo regimento. É aí que pesa o incômodo da representação católica – interpretável em dois sentidos: o tradicional e o estatístico.
                    Tradicionalmente, ela alega “desrespeito aos católicos” e à historicidade. Conta-se que, em outubro de 1717, pescadores acharam na rede uma imagem de santa sem cabeça no Paraíba do Sul, na região da atual Aparecida do Norte, durante uma pesca ruim. Em novo arremesso veio a cabeça. Daí, a pesca foi abundante. O conto tem grande valor transgeracional.
                    O outro incômodo da CNBB é estatístico. Desde os anos 1990, o IBGE verifica a retração gradual do catolicismo a quase 1% por ano, explicando o avanço evangélico neopentecostal. O papado reformista de Francisco mitigou o processo, mas com a morte deste se teme nova aceleração. O papa Leão XIV tenta segurar. É uma rivalidade entre as matrizes cristãs desde a reforma de Lutero.
                    A “pele” escura da santa é outro tópico importante. Esculpida em ocre castanho, a imagem teria se escurecido por fuligem das velas, ou pela água percolada no material. Mas entre os descendentes dos escravos pescadores há a crença no suposto milagre da pesca pelo temor de serem castigados a mando de seu dono. Seja como for, a cor virou marca indelével da santa brasileira.
                    Nesse ínterim cabe ainda assinalar a recente censura de André Mendonça em mais de 1000 posts referentes à Nossa Senhora Aparecida incluindo a ironia de Paulo Tabet sobre racismo misógino da família miliciana e a decisão da Meta em bloquear o canal da própria CNBB para não render o asssunto e proteger Flávio. Como vemos, tudo isso remete a outro fator: o cristofascismo brasileiro.
                    Visando contestar o mito, um pastor alegou a cor da santa de sujeira. A contestação é razoável, mas não os ataques aos devotos e à tradição brasileira. Vale lembrar que as matrizes pentecostais no Brasil se fascistizaram colaborando na fundação das ditaduras militares na América Latina e, agora, os recentes  fatos envolvendo André Mendonça e a proposta de Flávio. Isso merece memória constante na história.
                    Quando o Brasil se redemocratizou, o cristofascismo não morreu, só baixou a voz. Em 2007 Galli tentou elevar a voz, mas foi calado. Marco Feliciano queria negar a diversidade sexual no cura gay. O MBL e o bolsonarismo ressuscitaram o pânico moral. Flávio Bolsonaro deixou isso claro na promessa. Parte dos evangélicos percebeu isso e se solidariza aos católicos. Mas só no resultado final da eleição saberemos se a tradição se mantém ou se desfaz.
Para saber mais
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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ANÁLISE: Himalaia: o alerta global

 

                    A Terra é um planeta dinâmico. Entre os leigos, toda cadeia de montanha é quase uma coisa só. Mas geógrafos e geólogos reconhecem dois tipos: serra e cordilheira. Serra denomina agrupamentos antigos e dissecados pela erosão, em geral alinhados a falhas antigas e de menor extensão e altitude. Já cordilheira designa cadeias formadas por compressão recente e ainda operante de placas tectônicas, que podem atingir extensão transcontinental e grandes altitudes.
                    As serras brasileiras são em geral antigas linhas de falha com relativa estabilidade geológica. Mas há uma exceção notável: a Serra do Espinhaço. Ela é tecnicamente cordilheira, graças à complexidade geológica (compressão antiga de placas, sedimentação, neotectônica e erosão), e também à grande extensão (de Ouro Branco, centro mineiro, até a Chapada Diamantina na Bahia). Hoje, ela é patrimônio da Unesco, como reserva da biosfera – sob ameaça.

Diferentes visões— 
                    Em toda a sua imponência e beleza, as cordilheiras atraem diferentes olhares. Para os nativos originários, as montanhas são sagradas moradas espirituais. Para turistas de aventura, elas são desafios excitantes para explorar.  Para os cientistas, elas possibilitam novos achados. E para este artigo vale a dinâmica da ciência – e daí um alerta à ignorância geral sobre o papel delas e seus perigos subjacentes.

Papel— 
                    Tanto as serras quanto as cordilheiras exercem papel na configuração da superfície e na distribuição da biota, do clima e dos recursos hídricos. Mas, graças às dimensões imponentes, as cordilheiras o exercem de forma ainda mais evidente. Picos nevados são nascentes de rios que atravessam os trópicos úmidos de um lado e impedem a umidade do outro lado.
                    Graças aos Andes sul-americanos e à Sierra Madre centro-americana, a América Latina é quase totalmente tropical úmida. O mesmo se verifica no subcontinente indiano e adjacências devido ao arco do Himalaia. As respectivas áreas secas se limitam à zona costeira oeste latino-americana e à Ásia central (altiplano tibetano, Mongólia e noroeste chinês).

Perigo iminente e o desastre do Nepal/Tibete— 
                    Se de um lado as cordilheiras funcionam como divisores climáticos e ambientais, por outro lado elas proporcionam eventos naturais que podem se tornar desastres humanitários. Terremotos fortes são comuns e compartilham com eventos climáticos como fatores de deslizamentos (avalanches de neve, fluxos de detritos), um risco constante para a vida humana.
                    Como as vertentes são muito íngremes e os vales em geral bastante estreitos e altos e profundos, em forma de V, encaixados, resta aos moradores residirem nas estreitas áreas planas e nas partes mais baixas das vertentes, que se tornam os caminhos dos canais de escoamento dos rios e também de avalanches e fluxos de massa. E é nesse cenário que entra um fato trágico que deu fez os olhos do mundo inteiro se virarem para um pequeno e pitoresco país da Ásia Central.

Nepal— 
                    O Nepal é um país conhecido pela população de fé majoritariamente hindu e budista, e arquitetura que mistura influências indiana e tibetana. Ele se “espreme” ao sul com a Índia, ao norte com o Tibete e com a China, e a oeste com Butão. O relevo é montanhoso, havendo mais planícies florestadas úmidas ao sul. A capital Katmandu fica num altiplano que dá vista para algumas das montanhas mais altas do mundo. O “topo do mundo” Everest está bem na fronteira com o Tibete.
                    Grande gerador de divisas para um país pobre, o turismo abrange dupla face do Nepal: a natural, que atrai turistas de aventura nas montanhas e nas florestas do sul; e a humana, pela diversidade étnica (mais de 70, entre elas os sherpas que guiam alpinistas e turistas de montanha), gastronômica e religiosa (as principais são hinduísmo e budismo tibetano). Os nepaleses viviam essa rotina normalmente, até vir 26/8/26.

A magnitude de um desastre— 
                    Na manhã dessa mesma data, nossas telas foram invadidas por imagens aterradoras de um gigantesco, escuro e espesso tsunami que num piscar de olhos engoliu obras monumentais e pessoas que correram no puro instinto. Tudo foi tão repentino que só alguns minutos depois deparamos que foi um desastre, sobre o qual só compreenderíamos mais tarde. Foi um poderoso fluxo de massa.
                    Ele assim foi classificado devido à sua composição (gelo derretido, rochas e água). Algumas mídias chamaram o evemto de avalanche, devido ao bloco de gelo desprendido. Mas uma avalanche propriamente dita é composta essencialmente de neve não firme cujo acúmulo no declive da encosta se sucumbe à força gravitacional. Ventos catabáticos que sopram declive abaixo, esquis e pisoteio facilitam o fenômeno.
                    A energia desse fluxo foi tão colossal que o Serviço Geológico dos EUs (USGS) cogitou inicialmente um terremoto de até 5,2 magnitudes, depois refutado com ajuda de satélite. Fotos do Google Earth após o fenômeno revelam o seu ponto de partida em Langtang e a extensão total alcançada, mais de 200 km, numa velocidade de 200 km/. A fisiografia dos vales percorridos mudou, a base alargada por metros de sedimentos.

O fator— 
                    Tudo começou quando um bloco de gelo semiderretido de 610 metros de largura, já contendo detritos rochosos em seu corpo, se desprendeu da vertente de uma montanha em Langtang. Escorregou em queda quase livre pelo permafrost já instável da vertente quase vertical de 1200 metros. Agregando mais blocos de rocha, lama e vegetação pelo caminho, o fluxo de massa se engrossou ao atingir os rios abaixo.
                    [Permafrost é um solo congelado. Sua água sólida estabiliza unindo a camada superficial ao horizonte orgânico (turfa) logo abaixo e o substrato rochoso inferior. Seu inimigo é calor global exacerbado por nós. As dolinas (buracos) na Sibéria resultam da liberação explosiva do metano da turfa pelo degelo. No Nepal, gelo e permafrost atingiram um lago glacial represado por moraina (muro sedimentar deixado por geleira) e gerou um fluxo de massa por rompimento de lago glacial (GLOF em inglês)].

Os números do desastre— 
                    Após o fluxo, o mundo estarrecido voltou-se para o Nepal. Equipes de resgate de vários países se juntaram para buscar sobreviventes e o maior número possível de vítimas fatais. Foi preciso desafiar o relógio para identificar os corpos ainda íntegros o suficiente para chancelar a identificação. No momento em que escrevo este arquivo, os números do trabalho árduo de resgate podem ter atingido muito mais gente do que as matérias têm citado, enquanto as autoridades calculam os prejuízos materiais.
                    Nas primeiras horas de 27/8 vieram os primeiros números. A BBC de Londres divulgou o resgate de mais de 380 mortos e estimou em torno de 900 desaparecidos. Mais tarde, o Vatican News divulgou 788 corpos e um total estimado de 90 mil pessoas atingidas. A imprecisão numérica maior é de desaparecidos, variando entre 1900 a mais de 3000 – devido à extensão do fluxo.

Uma reflexão do pós-desastre— 
                    Após terminado esse grande fluxo de massa, novas fotos de satélite já disponíveis na internet e no Google Earth revelam mais mudanças fisiográficas nas montanhas e no ponto de partida (Langtang) do que o que as supracitadas. Já surgiram dois novos lagos glaciais adjacentes à citada região montanhosa. Eles mandam um recado claro: novo fluxo de massa acontecerá em futuro próximo, pois estamos em emergência climática.
                    Nepaleses e outros povos do Himalaia conhecem os fluxos de massa, em geral ligados a terremotos. A diferença é que, com o progredir do aquecimento global, a tendência será a de amento da frequência e da magnitude do fenômeno. E, para quem não sabe, as grandes cordilheiras são alvos de estudos do clima. Não só pelo papel que exercem, mas pela sensibilidade a mudanças ambientais e atmosféricas fora da curva, que talvez se explique na rarefação do ar em grandes altitudes.
                    De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que reúne 2000 cientistas de dezenas de países, o Himalaia – a terceira maior reserva de água doce congelada do mundo, e por isso alcunhado de 3º Polo – sofre maior velocidade de aumento térmico do que a média global. Cerca de 65% da cobertura do gelo da cordilheira foram perdidos pelo aquecimento global desde 1990. Estima-se que até 2100, se chegue a 85%, se continuar o atual ritmo de emissão de gases-estufa.
                    Atualmente, o Himalaia abriga mais de 300 lagos glaciais, dos quais 121 representam perigo iminente para novas ocorrências desastrosas de magnitude parecida, ou talvez até maior do que o recente desastre em futuro próximo. E,falando em lagos, logo após o grande fluxo de massa se formaram mais dois lagos, explicados pela mudança fisiográfica do alto do vale Langtang pelos blocos rochosos deslocados.
                    Humanamente, isso já se reflete. A mudança climática hoje só perde para a guerra como fator de migrações massivas. Vale afirmar que capital, guerra e clima se interligam mais do que só por causa e efeito. O capital gera a guerra. Esta coalbora significativamente na exacerbação do aquecimento global. Este piora o clima e a degradação ambiental preexistente, que força a migração para áreas melhores, já cobiçadas mesmo sendo desabitadas. É um feedback perverso e constante em nome do lucro.
                    Só que nada é para sempre. Como os demais recursos, a água findará um dia, e no final, pobres e ricos estarão no mesmo patamar. Em 30 anos, 40% da água doce já se foram da superfície. Dos 8 bilhões de pessoas, quase 50% perderam acesso constante, e 2,5 bilhões não têm água potável. Insegurança alimentar afeta até 2,5 bilhões de bocas. Capitalização excessiva do recurso, guerra e degradação ambiental estão por trás e o calor planetário crescente agrava esse processo.
                    Por enquanto, a água se renova em ciclos, que se tornam mais irregulares com o aquecimento global turbinado. Esse calor extra torna mais alta a taxa de evaporação em relação à de reposição. Ainda estamos em tempo de buscar soluções capazes de brecar a emissão de carbono – e também de criar tecnologias de absorção de excedentes de carbono atmosférico. O Himalaia já deu seu recado. E outras cordilheiras o darão também, talvez com a mesma magnitude. Ou, quiçá, maior.
Para saber mais
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/c70l4jen7qro (BBC News 27/8/26 --- colapso glacial: o fenômeno que causou a enchente na fronteira entre Nepal e Tibete).
- https://globoplay.globo.com/v/14905031/ (vídeo- 26/8/26- novas imagens mostram avalanche avançando e destruindo vilarejos)
- https://news.un.org/pt/story/2025/08/1850796 (ONU, 22//1/2026- Mundo tem 2,1 bilhões de pessoas sem água potável e 3,4 bilhões sem saneamento).
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