sábado, 9 de maio de 2026

CURTAS 110- ANÁLISES (fatos a 6 meses da eleição)

 

O LAVAJATISMO REACIONÁRIO

                    Quando ouvimos falar do termo Lava-Jato pela primeira vez, como denominação de uma operação investigativa com PF, políticos do Centrão e altos membros do judiciário, já estávamos na era Dilma Rousseff. Só que, na prática, essa operação já havia começado na primeira era Lula, com as operações conhecidas como Petrolão (reiniciada após paralisação pela ditadura) e Mensalão. Na época, o relator no STF foi Joaquim Barbosa.
                    Com as prisões de vários membros petistas – e também a inevitável condenação do ex-governador mineiro Eduardo Azeredo (PSDB) ao colapso político –, o nome Lava-Jato ainda continuava acobertado pela penumbra midiática enquanto a empreiteira Odebrecht virou alvo. Ele só veio à tona no 1º governo Dilma, no prosseguir da ação da PF, que já começava a mirar vários nomes do Centrão. Daí o golpe “com STF, com tudo” em 2016.
                    Lula foi preso e o eleito presidente foi Bolsonaro. Repetindo sempre a cantilena “no meu governo não tem 1 caso de corrupção”, ele paralisou a operação Lava-Jato, que se esturricou com a reportagem investigativa Vaza-Jato, do Intercept Brasil, da qual tivemos pouco conhecimento porque o governante empregou a censura-modelo do regime de terror e chumbo de 21 anos. Ele paralisou a Lava-Jato porque iria ser queimado pelas provas da PF.
                    Como previu, Lula saiu da prisão e voltou ao Planalto. Agora segura o mais pressionado dos governos. Sem substância para forjar novas provas contra a conduta do petista, jornalões se unem ao Centrão já aliançado com a ultradireita – e apostam em Flávio Bolsonaro presidente, não importando as suas evidentes ligações com o crime organizado no RJ. Daí vemos a tentativa midiática de ligar Lula e STF ao Master. E agora vieram dois problemões.
                    Messias derrotado— Senado, 29/4. Mesmo evangélico e basicamente conservador, Jorge Messias foi derrotado por 42 dos 79 senadores presentes. Segundo o líder do governo no Congresso Nacional Randolfe Rodrigues (PT), “o governo nunca teve indicados derrotados em 120 anos”. Mas buscou contemporizar: “esse resultado faz parte da prerrogativa do Senado”. Que, na prática, cheira à forte suspeita de golpismo – uma versão 2.0 da Lava-Jato.
                    Após o fechamento da votação, enquanto alguns senadores confortavam Messias que chorava, outros abraçavam o presidente do Senado Davi Alcolumbre. Se foi normal o reacionário presidenciável Flávio Bolsonaro abraçar Alcolumbre, o petista Jaques Wagner surpreendeu ao fazer o mesmo.
                    Derrota do veto ao banditismo— Congresso, 30/4. O Brasil ainda estava estarrecido com a derrota de Messias quando o Congresso todo se reuniu para decidir na votação plenária do veto de Lula ao PL da Dosimetria. O projeto da ultradireita propõe reduzir as penas dos cabeças da intentona de 8/1/23 para facilitar a soltura de Bolsonaro e dos financiadores. Ele inclui estupradores, feminicidas, latrocidas e outros tipos barra-pesada como beneficiários.
                    Para derrotar o veto de Lula, o presidente do senado Davi Alcolumbre retirou do texto da Dosimetria artigos que contrapõem o já sancionado PL das Facções do governo. É que tais artigos estendiam o benefício aos faccionados, respeitando a CF no que tange à igualdade de todos perante a Lei. O PL governista endurece as penas para as facções, com acréscimo de pena relativa a outros delitos. Não foi um favor ao governo, nem nada contra bandidos faccionados. Foi só o caminho para derrotar o veto.
                    Análise pungente— ora, cada fato é uma estratégia de golpismo. O aprove do PL da dosimetria afronta tanto o STF por ter condenado os partícipes, líderes e financiadores da intentona, quanto o intento de Lula em endurecer penas para crimes pesados e orcrims, e a sua liderança de presidenciável. Além de traição a Lula, a derrota de Messias afetou de certo modo André Mendonça, um “irmão de fé”, mesmo aliados a políticos opostos.
                    Foi suposto que Messias não era unanimidade no STF. Na prática reinou a indiferença, só cortada por Gilmar Mendes, que o elogiou, e André Mendonça, devido à fé. A religiosidade talvez desse o temor de mais uma voz a dar tom bíblico indevido aos julgamentos colegiados num ambiente laico por lei. Afinal, é a constitucionalidade das leis o objeto de julgamento, mesmo que possa ferir alguns princípios cristãos. Fora isso, nada mais a ver.
                    Abraços da traição— já se imaginando presidente, Flávio abraçou o seu chefe de gratidão dupla. Além da derrota de Messias abrir caminho para indicar um substituto de Barroso se for eleito, ele agradeceu por Alcolumbre ter conversado com Xandão para este autorizar seu pai Jair Bolsonaro se internar novamente no DF Star. Afinal, Davi havia prometido ao colega que "faria mesmo a sua parte" (no acordo),
                    O abraço do sorridente Jaques Wagner incomodou o Planalto e a cúpula do PT. O gesto foi estranho. A indicação de Messias foi conselho de Jaques, pelo advogado ter sido seu assessor parlamentar. O pior foi ter dado certeza da vitória dele por agradar boa parte da bancada bíblica. Se declarando “amigo partidário e pessoal de Lula há décadas”, Wagner passou a impressão de trair o presidente.
                    E vale citar o antes do abraço: foi captado áudio em que o senador petista cochicha meio alto para Davi, já dizendo em tom muito tranquilo que Messias "irá perder por 8". Isso, antes da fim da votação plenária. Estranho como um parlamentar parece gesticular contra quem foi seu próximo e é aliado de Lula.
                    Conduta dos jornalões— silentes, os jornalões regozijam junto com Flávio, a quem se aliaram na corrida eleitoral: os acordos selariam o fim político de Lula por falta de base. Os dois adversários lideram tecnicamente empatados nas intenções de voto, com Lula à frente. Notícias frequentemente falseadas têm mais alcance do que a comunicação oficial do governo sobre seus bons feitos.
                    Outro exemplo falseado mirou Alexandre de Moraes. No O Globo, Malu Gaspar teve teve incoerência brutal. Se Moraes jantou com aliados de Lula, entre eles  Mário Sarrubbo, o n. 2 do Min. Justiça, como o ministro fechou acordo com Davi e Flávio para a derrota de Messias e do veto de Lula no PL da Dosimetria (diferente das penas que ele deu para os golpistas)? 
                    Mas...—acontece que nada é tão simples quanto parece. Enquanto Flávio joga como sempre fez, Lula não sinaliza desistir, mesmo chateado agora. Enquanto pensa numa indicação palatável à maioria, ele certamente fará o certo: jogar o jogo do Congresso. É o melhor a ser feito. Enquanto ele junta grana para novas emendas, o texto da dosimetria já está com o STF para julgar sua constitucionalidade. 
                    O apoio popular a Flávio Bolsonaro é mais empurrado pela enxurrada de mentiras muito fluidas em mensageiros virtuais e jornalísticas, e entre os religiosos, pela politização ilegal nos cultos (vide Lei das Eleições 9.504/1997). Mesmo com falhas, a própria trajetória política de Lula fala por si. Ele continua um comunicador popular nato, não importa quão maçantes possam ser seus discursos. E aposta no poder da lei e da Carta Magna, pela qual ele assinou como partícipe em 1988.
                    Está dado o recado: a ultradireita prcisará muito do apoio dos jornalões para ganhar a parada no Planalto. E justamente pelos nomes da direita contarem com a grande mídia, Lula tem que ver que esta última é o seu maior e mais perigoso adversário político.
Para saber mais
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cq8pxex574zo (BBC Brasil - como imprensa internacional noticiou a rejeição de Jorge Messias: derrota histórica de Lula, 30 abril 2026)
- https://www.youtube.com/watch?v=YZiJLhnDs8Q&pp=wgIGCgQQAhgB (Portal do José, 2/5/26 – Segredos revelados. O que está por trás da derrota de Messias. Malu delira. Clone: Flávio imita Lula).
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O MAIOR DESAFETO DE LULA

                    Durante boa parte de seu atual governo, o presidente Lula evitava discutir a possibilidade de buscar a reeleição. Porém, as novas e diversas pressões advindas do Congresso – apoiados economicamente pelos grandes grupos e do agro – e a nova ameaça do bolsonarismo representada por Flávio Bolsonaro o levaram a mudar de ideia em meados de 2025.
                    Saúde de ferro e incentivo da esposa foram outros gatilhos. Eleito, ele conseguiu aliviar a pressão do Congresso com aprove e execução de boa parte das promessas de campanha. O seu último feito foi livrar do Leão rendas até R$ 5 mil (pouco mais de 3 salários mínimos). Mas a avaliação positiva de seu governo estagnou nos 50%.
                    A alta rejeição atual não impede necessariamente a reeleição. Mas, comparado aos governos de outrora, ele voa baixo. Já citei a bolsonarização coletiva, a má comunicação oficial e a alta fluidez das mentiras da ultradireita nas redes sociais (a nova banca de jornais do povo) como os principais fatores. Mas a fé também entra.
                    Os dois governos anteriores terminaram muito populares porque as redes sociais não eram como hoje, a comunicação oficial era mais eficiente e havia apoio maciço dos evangélicos. O empate técnico com Flávio Bolsonaro se mantém no lulismo revelado entre nordestinos, espíritas afro e católicos progressistas.
                    Mentiras e desinformação — já foram o principal fator de alta impopular enfrentada pelo atual governo entre 2024-5. Seu efeito atual parece menor (parlamentares desmascarados por desmentidos bem feitos), mas elas continuam ativas, e agora têm novo vetor: a chamada mídia tradicional – os famosos jornalões.
                    Jornalões não desmentem fatos nem os atribuem a outros, mas podem omiti-los. No caso Master, O Globo acusa Xandão devido ao alto valor contratual do escritório advocatício da esposa. Mas omite que o escritório é privado, e que bancos grandes pagam alto mesmo – o que é lícito, mas socialmente imoral.
                    A mesma mídia também tem omitido sobre Flávio Bolsonaro no caso Master. A mansão de supostos R$ 6 milhões (deve valer mais) foi presente pago com parte da grana pública do Banco de Brasília (BRB) aplicada no Banco Master, contribuindo para a quase falência da instituição estatal pelo golpe financeiro.
                    Bomba Ciro-Master — as novas evidências dificultam a continuidade da omissão jornalística das falcatruas de Flávio Bolsonaro. A descoberta da PF de que Ciro Nogueira (PP) recebia mesadas até R$ 500mil via cartão de Vorcaro caiu como uma bomba nos bastidores do Congresso, mais ainda no Centrão.
                    Com essa mesada tão polpuda, ele viajava com a namorada para destinos turísticos de puro luxo, poupando os seus proventos de parlamentar. Não se sabe se a grana resultava de investimentos do Master ou de descontos ilegais de aposentadorias – em que Vorcaro está envolvido e foi poupado na CPI do INSS.
                    A investigação descobriu algo por trás da quase maternal relação Ciro-Master é antiga. Ciro apresentara ao Congresso um PL protegeria empresas financeiras do pente fino estatal. Só que a autoria do texto não é do governo ou parlamentar: foi elaborada por gente do próprio Master. Como um bom filho retribuindo a mãezona, Ciro fez o que achou que devia fazer.
                    A bomba respingou estilhaços em Flávio Bolsonaro, cujo sobrenome proporciona o empate técnico atual com Lula nas pesquisas. Numa entrevista, ele disse que Ciro é “o vice ideal”. Selando apoio a ele, os jornalões maquiam matérias culpando outros terceiros, ou distraindo atacando Xandão.
                    Em fria análise final, todos sabemos que Lula tem muitos inimigos, dentro e fora da política. Só no Congresso, alguns deles o são há décadas. Mesmo bem atendidos, o mercado financeiro e o agronegócio nunca lhe foram amigáveis de fato. Mas, se há alguém que o veja como “um problema a ser tirado da cena política”, esse alguém é a grande imprensa. Mesmo que nunca tenha sido hostilizada pelo petista.
Para saber mais
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domingo, 26 de abril de 2026

ANÁLISE: Especial - as vitais correntes marinhas

 


          Em artigo recente sobre clima pormenorizei sobre fatores de padronização, eventos meteorológicos (condições de tempo) e o aquecimento global natural e humano, e a mudança climática. Entre todos os fatores naturais de longo prazo, estáveis e de duração geológica em alguns tipos), o único tipo não abordado foram as correntes marinhas.
                    A exclusão das correntes marinhas naquele artigo foi proposital, decorrência da riqueza de detalhes que implicaria em explicações em artigo à parte – este aqui. Essa categoria fenomenológica merece atenção especial por sua abrangência, variedade, abrangência e suma importância planetária.
                    
CORRENTES MARINHAS
                    As correntes marinhas ou oceânicas são movimentos de massas d’água em todos os oceanos da Terra. Há correntes frias e quentes, sendo as primeiras mais profundas e as últimas superficiais. Seus principais fatores são: geografia continental, esfericidade e rotação planetária, e características da água (profundidade, salinidade, temperatura e densidade).
                    Em todos os mares, as correntes marinhas são majoritariamente isoladas ou individuais, influenciando as regiões alcançadas por cada uma. Mas elas também podem formar pares, criando sistemas pareados, que podem assumir importância de nível mais amplo, planetário, a despeito da localização de cada exemplo identificado.
                    A seguir, seguem os seus fatores de formação e de distribuição.
                    Temperatura e função ambiental — é um meio de classificação e identificação (corrente fria/corrente quente). Regiões específicas onde podemos sentir “bolsões d’água” frios e quentes em um só tempo são designadas zonas de ressurgência, que podem cobrir grandes áreas e se revelam, como pontos de encontro (com movimentação circular do corpo d'água local) e de dispersão das correntes díspares.
                    Correntes frias (em azul na figura acima) são mais profundas, de águas mais salgadas e densas, e distribuem grandes volumes de nutrientes em todos os mares, contribuindo desta forma para espalhar e manter grandes populações bióticas. Correntes quentes (em vermelho) são superficiais, de água mais leve e menos salgada, e propiciam grande biodiversidade marinha nos litorais alcançados. As diferentes massas d’água não se misturam, daí a movimentação em bolsões frios e quentes nas ressurgências.
                    Quente, a Corrente do Golfo (México) é conhecida por amenizar invernos das regiões frias alcançadas por ela (costa oriental norte-americana e ocidental europeia, incluindo Noruega e sul da Islândia). Fria, a Corrente de Humboldt esfria quase todo o litoral sul-americano no Pacífico rendendo formações desérticas até o Peru. Há outras correntes frias e quentes importantes, como a da Austrália Ocidental (fria), responsável pelo grande deserto australiano, e a do Brasil (quente), ligada à nossa Mata Atlântica.
                    Influência climática e ambiental— as vastas regiões florestais úmidas, como as vistas nos trópicos, são influenciadas por correntes quentes. Mas até países como Áustria e Suíça, montanhosos e sem mar, são florestados graças aos ventos úmidos soprados do tépido Mediterrâneo, governado por uma corrente quente local. 
                    Aqui cabe uma questão interessante. Se a corrente do Mediterrâneo é quente, por que as regiões em torno parecem mais secas? A resposta é simples:  no entrono o relevo acidentado (montanhoso) impede a extensão da umidade para o interior desértico no Mediterrâneo. E os ventos predominantes sopram em direção norte (Europa) e nordeste (Turquia e Líbano no Oriente Médio). Situação parecida ocorre no Nordeste brasileiro: a mata atlântica é limitada pelo relevo do interior, separando-a do sertão semiárido.
                    Nesse sentido, mesmo resultando da atuação de correntes oceânicas, os biomas têm limites moldados pelo relevo. Na América do Sul, o estreito deserto do Atacama (Chile) se limite entre o litoral e as montanhas andinas, que bloqueiam os ventos úmidos advindos do leste do continente. As partes mais altas do Atacama são contíguas ao Altiplano Boliviano, cujo clima é também moldado pela atmosfera rarefeita típica das grandes altitudes.
                    Ressurgência — os pontos de ressurgência têm uma função peculiar e essencial: amplificam a dispersão e redirecionam correntes quentes e frias para várias direções a partir das muitas regiões costeiras, contribuindo para gerar influência em variados padrões climáticos locais e também na formação de biomas específicos e adaptados às suas respectivas localidades. Cobrindo uma grande área entre o litoral sul do Paraná até o norte do Rio de Janeiro, a ressurgência brasileira responde, junto com a geografia, pela biodiversidade particular nesse trecho.
                    
SISTEMAS DE EQUILÍBRIO (PAREADOS)
                    Por sistemas de equilíbrio são designados os grandes “pares” de correntes (uma fria e uma quente), formados em zonas de ressurgência e em obediência à geografia continental, à forma e à rotação do planeta. De acordo com estudos sistemáticos de universidades e agências de Climatologia, esses sistemas possuem responsabilidade crucial para a manutenção da homeostase climática global. Daí advir a designação acima.
                    Existem vários grupos, mas os mais importantes, dada a sua extensão e localização geográfica, são três: as duas grandes Correntes (ou Sistemas) Circumpolares (Antártica e Ártica), e a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico, ou, em inglês, Atlantic Meridional Overturning Circulation-AMOC. Esta última tem sido muito falada ultimamente e vocês saberão dos motivos e implicações.
                    Sistemas Circumpolares— são correntes pareadas que movimentam os Oceanos Glaciais, Ártico no hemisfério Norte e a sua contraparte sulista Glacial Antártico. Seus movimentos propiciam os vórtices atmosféricos polares, sistemas ciclônicos de alta pressão que mantêm as condições permanentemente gélidas nos polos. Já foi observado que a velocidade das Circumpolares varia naturalmente – ou seja, ciclicamente.
                    Porém, estudos recentes revelam que os sistemas estão mais lentos, o que poderia desencadear o colapso dos vórtices polares atmosféricos e “vazar” ondas gélidas invernais para as latitudes tropicais. Naturalmente, a ocorrência do vazamento é mais rara no polo antártico do que no ártico (o que explica maior aquecimento lá), mas teme-se que a mudança climática atual desencadeie maior intensidade e frequência desequilibrando a homeostase climática global.
                    AMOC— a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico é um amplo sistema alternado de correntes que percorrem o oceano Atlântico no sentido Sul-Norte (quente) e Norte-Sul (frio). Na prática, o sistema agrega várias correntes importantes, quentes e frias, que interagem em várias zonas ressurgentes litorâneas ao longo da rota atlântica, e governam os climas em torno do oceano.
                    Além de várias universidades e outros centros científicos, a NOAA (agência de pesquisas atmosféricas dos EUs), o nosso Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas-IPCC/ONU perceberam, em seus muitos estudos, que a AMOC tem valor climático planetário. E daí compartilham uma preocupação.

IMPLICAÇÕES DE POSSÍVEL COLAPSO
                    Assim como os sistemas circumpolares supramencionados, estudos de medição revelam que a AMOC também está ficando mais lenta. Os cientistas já perceberam que há uma relação íntima natural entre os ciclos de renovação e degelo das calotas polares e o ritmo das correntes. Mas a conclusão sobre qual parte é a causa dessa redução de velocidade desses sistemas ainda não está definitiva. Por outro lado, não é tão inexplicável quanto parece.
                    Existem várias teorias, sendo a mais plausível a de que o aquecimento global derivado das ações humanas acelera o degelo das calotas polares. Como os diferentes níveis salinos de todo o corpo d’água oceânico favorecem as correntes, a água doce formada pelo degelo massivo decai localmente a salinidade da água resultando no enfraquecimento da corrente superficial. Mas, agora vale um questionamento.
                    El Niño e La Niña— abordados no artigo anterior[link em Nota], esses dois fenômenos que alteram a temperatura superficial do Pacífico Equatorial merecem atenção aqui. Já é conhecido na Climatologia que, quando um dos fenômenos está fortemente ativo, um tipo ou classe de corrente ganha mais força em detrimento do outro. É dessa forma que se percebe quando as médias térmicas dos oceanos estão mais altas ou mais baixas.
                    Já se percebeu que as correntes frias perdem força considerável em tempos de El Niño dominante, o que explica os oceanos ficarem masi aquecidos na sua vigência. O exemplar recuo da corrente de Humboldt resulta em escassez de nutrientes na costa oeste sul-americana, diminuindo as populações de animais. Já a La Niña faz o contrário, aumentando o campo de resfriamento ao concentrar a ilha de calor no Atlântico médio, explicando a intensificação da temporada de furacões no Caribe, especialmente na primavera no Hemisfério Norte.
                    Embora essa correlação de forças seja hoje bem documentada, ainda não sabemos se esses fenômenos interferem de forma significativa na força e na velocidade dos grandes sistemas pareados de equilíbrio. Ou seja, se estão por trás da “lentidão” atual. E caso isso se afirme, é possível que, em condições naturais, seja evento transitório. Daí vale tenetar encontrar, nas pesquisas, alinha tênue onde termina o natural e começa o antrópico nessa relação (difícil essa!).

SOLUÇÕES – E FRIA ANÁLISE FINAL
                    Como como já exposto no artigo anterior (Clima: do natural ao humano), em 2024 ultrapassamos a marca térmica global limítrofe (1,5°C de 1850 a hoje, segundo o IPCC) para revertermos a exacerbação do aquecimento antrópico. O que não significa, entretanto, o fim da possibilidade de podermos dar sobrevida extra à biosfera planetária.
                    Segundo as entidades científicas, ainda estamos em tempo de, ao menos, manter o novo padrão climático, mediante os meios disponíveis citados no artigo anterior. E, como já apontado, aguardar os resultados, em prazo mais ou menos longo. Esses meios exigirão muita disposição e boa vontade sociopolítica e mercadológica – imprescindíveis para a sobrevivência do tão adorado capitalismo.
                    E como reforço na análise final deste artigo, cabe acrescentar que, a despeito da suma importância dos grandes sistemas pareados de equilíbrio para a homeostase climática global, cada corrente individualmente citada tem seu papel imprescindível para a vida. O Saara “doa” suas areias para o fundo oceânico e para fertilizar as terras da Amazônia e do Caribe e garantir alimento e equilíbrio econômico. Assim, o colapso de uma delas desencadeará desequilíbrio climático, ambiental e social nas regiões de influência e adjacências. E, se nada fizermos para evitar, a extinção em massa virá a galope.
Para saber mais
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CURTAS 110- ANÁLISES (fatos a 6 meses da eleição)

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