domingo, 1 de fevereiro de 2026

CURTAS 105 - ANÁLISES (a primeira é boa pipoca)

 

LIÇÃO CAMPONESA COLOMBIANA

                Respectivamente colonizados por portugueses e espanhóis, Brasil e Colômbia viraram palcos de destruição de culturas socioambientais originárias por bíblia, língua, costumes e valores, e escravidão – que alimentaram duas elites, a mineradora e a latifundiária. No século XX, as duas elites elegeram presidentes ditatoriais para reprimir movimentos de resistência.
                Apesar das diferenças geográficas, idiomáticas e culturais, os dois países se convergem na história de escravização na espoliação de recursos biológicos e minerais, na diversidade da produção agrícola e nas lutas dos movimentos camponeses pela reforma agrária e contra o avanço do agronegócio, a repressão estatal e a devastação do meio natural.
               No Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) são os maiores e mais conhecidos. Na Colômbia, o mais conhecido é o Sindicato dos Trabalhadores Camponeses de Sumapaz (Sintrapaz), do povoado de Sumapaz, situado no misterioso páramo colombiano.
                Páramo – a Colômbia tem 3 feições principais: o litoral, a Cordillera dos Andes e a planície amazônica. O páramo é uma zona montanhosa entre 2500-4500 metros acima do nível do mar. O clima é frio e úmido. A vegetação (fraillejones) é perene, baixa, densa e com folhas peludas que retêm umidade nevoenta. O páramo colombiano é o maior do mundo.
                Cada qual ao seu modo, todo bioma natural retém e mantém umidade aérea, mas o fraillejones o faz ao ponto de contribuir com as geleiras na manutenção dos cursos d’água. A função mantém o ciclo do raso solo local, cuja fertilidade se deve à riqueza mineral das rochas vulcânicas. A Colômbia tem vulcões ativos, a maioria no ramo ocidental da cordillera.
                Essa dinâmica possibilitou a agricultura de largo alcance. O café é o principal produto nas zonas mais baixas e quentes do páramo. E vale salientar: a Colômbia e o Brasil são os maiores produtores e exportadores mundiais de café. Antes dos latifúndios do agronegócio, os camponeses do atual Sintrapaz já o produziam ali com método agroecológico.
                MST, MPA e Sintrapaz – o MST e o MPA são movimentos rurais organizados que lutam pelo assentamento de terras improdutivas analisadas sub judice pelo Incra. O Sintrapaz é um sindicato de pequenos produtores rurais cadastrados do páramo de Sumapaz. Em comum, eles praticam agricultura ecológica em minifúndios – e em constante luta.
                Sustentabilidade – eles só desmatam a área necessária à atividade, mantendo intacto o restante das terras. Nascentes e mananciais são protegidos por matas nativas. No Brasil, o MST vai além do Código Florestal¹. Seus bolsões de pasto se intercalam com fragmentos florestais nativos interligados. Lavouras são próximas a mata nativa. A produção é orgânica.
                Legado do MST e outros movimentos rurais, a recuperação de áreas degradadas com plantio de espécies nativas é ignorada pelo povo urbano massacrado pelo lobby do agro. Essas práticas ecológicas foram levadas para os movimentos rurais colombianos, incluso o Sintrapaz. Daí a preservação das fraillejones no páramo e das florestas em altitudes menores.
                Mas, toda essa atuação tem um preço pesado: assim como aqui, os produtores do Sintrapaz também não têm paz.
                Desafios – são muito parecidos com aqueles vividos pelo MST e outros movimentos campesinos brasileiros. Assédio de latifundiários, invasão de áreas de vegetação nativa por jagunços a mando daqueles, e ameaças de investimento em hidrelétricas em rios preservados mais extensos e enérgicos são os principais. Fake news também são um problema.
                Aqui no Brasil, a mentira tem poder político maior. Chegamos a assistir a uma fracassada CPI montada pelos reacionários para tornar o MST um grupo terrorista. Lá, o Sintrapaz é acusado pelo agronegócio de se associar às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e a facções do narcotráfico, visando fomentar a repressão policial contra ele.
                No Brasil, a CPI foi o ápice das provas históricas de como o campo é antidemocrático, revelando os coronéis que ainda persistem influenciando nas eleições, e assassinatos são quase sempre silenciados pela mídia. Em matéria da BdF de 2020, mais de 1000 camponeses foram mortos, após acordo selado com latifundiários e políticos realizado em 2016.
                Resistência pela democracia – em 2022, o MST viu em Lula o aliado capaz de amansar os jornalões que sempre o acusavam de “invadir propriedade alheia” presenteando-os com cestos cheios de produção orgânica. Na Colômbia, Gustavo Petro foi eleito com ajuda valiosa do Sintrapaz e outros movimentos rurais locais. Mas, nossa vizinha está na frente.
                Sonho antigo dos campesinos, a reforma agrária visa a democratização da produção rural de grande escala. Ela está avançando mais na Colômbia. O governo Petro reconhece a agroecologia como a grande salvagjuarda da segurança alimentar, do meio ambiente e da economia, por preservar áreas naturais, recuperar as degradas e inibir a inflação dos preços.
                O MST e o MPA fazem o mesmo. Postagens de seus perfis nas redes sociais são provas disso. O problema maior é o andamento da política de reforma agrária. Diferente da Colômbia, o Brasil segue tímido, devido ao forte lobby político do agronegócio. Por ela os campesinos seguem lutando, por verem nela a chance de realizar a justa divisão de terras que garante a democracia rural.
Nota:
¹ Lei de Proteção da Vegetação Nativa em propriedades rurais,  de 2012 – obriga a preservação de vegetação nativa em parte de propriedades rurais cadastradas. 
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A ONU PARALELA DE TRUMP

                Comemorando seu ataque militar à Venezuela, Donald Trump segue mais criticado do que elogiado. Governos europeus se silenciam. Lula, Orsí, Petro e Shainbaum seguem a crítica popular contrária. Dando de ombros, Trump assinou ordem para seu país sair de dezenas de organizações internacionais, até da OTAN, que absorveu o centro-norte da Europa.
                Ignorando seus opostos, ele voou para Davos, Suíça, famosa sede do elitista Fórum Econômico Mundial. Na reunião, apresentou um livro fino de capa dura escura estampada com um desenho dourado. É o texto do Board of Pace, o Conselho de Paz para Gaza. Os presentes estranharam: ali se discutem soluções capitalistas para problemas socioeconômicos.
                Seria o momento oportuno para apontar o investimento em US$ trilhões em armamentos de guerra como fator de caos socioambiental e econômico. Mas falta coragem ou sobra cautela: ali havia governantes de países subjugados pelos EUs. Dos 59 países afirmados por Trump, até o momento 23 formalizaram alinhamento. Agora, Trump almeja os indecisos.
                A maioria dos assinantes é da ultradireita liberal (Leste europeu exceto Polônia, Letônia, Ucrânia e Romênia; Argentina e Paraguai na AL; Cazaquistão e Azerbaijão na Ásia Central; Vietnã e Indonésia no sul asiático), e teocracias (Arábia Saudita, Egito, Marrocos e Catar). Chama atenção, entre os assinantes, o Vietnã, o único país de governo socialista reeleito.
                Já convidado para participar do Conselho, Lula disse que só responderá após consultar conselheiros de confiança, como seu ex-ministro Celso Amorim, que tem acompanhado os desdobramentos da atual fase trumpista. Entre nós, a torcida de parlamentares governantes e militantes de esquerda pela recusa é imensa. Por razões bem consolidadas.
                Personalismo – os EUs não são essa democracia toda. Não é tanto por fraqueza, a esquerda não alcança a presidência por impedimento. O protecionismo nacional-capitalista é marca comum entre os 2 partidos do poder, daí as guerras que arruínam outras nações. Trump não é diferente, mas seu governo é personalista – narcisista e sociopático.
                Trump despreza líderes covardes ou fracos. Gosta dos que desafiam o seu sentimento de supremacia. Como Nicolás Maduro, só derrubado por intervenção militar. Já elogiou o sanguinário príncipe saudita Bin Salman “pelos direitos humanos” e o Aiatolá Khamenei. Despreza o Direito Internacional e os países massacrados pelas intervenções militares dos EUs.
                Conteúdo bizarro – Idealizada, desenvolvida e presidida por Trump, a carta tem mesmo a sua cara. Sem epígrafes e assinada no final, a apresentação da carta é curta e estruturada como um texto de lei. Maior mesmo é o seu anexo, onde estão as explicações. Na capa dura frontal, a logo dourada lembra a da ONU, mas tem o globo com os EUs no centro.
                A volumosa assinatura em caneta grossa permanente intimida as de seu vice Vance e seu secretário Rubio, como se validasse uma obra-prima definitiva, pétrea e indelével.
                Podemos vislumbrar o conteúdo. Ao O Globo, Celso Amorim diz que “a carta é confusa, porque começa a falar de uma coisa e depois vai alargando no anexo”. Engloba qualquer conflito. Em relação à ONU, ele diz: “eu não vejo como aceitar. Não dá para considerar uma reforma da ONU feita por um país”. Algo tão ilegítimo quanto bizarro.
                Além do logo, mais bizarrice. Vou destacar duas. A administração do Conselho é exclusiva do governo estadunidense, centrada na pessoa presidencial. Cada assinante alinhado só assume sua cadeira se desembolsar previamente US$ 1 bilhão. Os pagamentos deverão ser depositados no fundo do Conselho, a ser administrado exclusivamente por Trump.
                Muitos podem questionar a cobrança, pois a ONU também tem um fundo em que os membros depositam valores conforme sua possibilidade, para sustentar forças de paz. Mas a ONU é oficialmente independente –, mas seu corpo jurídico sofre pressão dos governos estadunidenses, que já dão a última palavra nas reuniões de seu Conselho de Segurança.
                Muitos podem não ver bizarrice na cobrança das cadeiras, pois a ONU também tem fundos, cujas contribuições os países-membros fazem para manter os recursos para as intervenções necessárias. Além de flexíveis, os valores pagos à ONU são geralmente módicos. Para alguns dos alinhados, US$ 1 bilhão é um valor enorme para seus recursos.
                Chance de sucesso – é possível o grupo dar certo? Se fosse um programa como FAO, ACNUR, Unesco, OIT, Unicef e outros da ONU, a chance aumenta desde que suas regras seguissem o Direito internacional e fosse reforço independente daquele na resolução de conflitos. Em fria análise, a subjetividade total da carta a torna inviável de se aceitar – exceto se for engolida pela força bruta.
                E é aí que mora o perigo, dada a visão soberba de mundo e a ganância desmedida de seu criador.
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sábado, 17 de janeiro de 2026

ANÁLISE: TRUMP NA VENEZUELA E O CONE SUL

 

Breve apontamento
          Não sou analista política, muito menos em geopolítica – meu foco de estudo são as pedras da vida. Mas isso não me impede a curiosidade e o interesse em aprender sobre política, com abordagem analítica e dialética, graças às minhas leituras em fontes indicadas por versados no tema, somadas aos diálogos com os próprios, em geral virtualmente.
                    Sei que no mundo político não cabem santos – por mais bem intencionados que tenham sido ou sejam alguns governantes históricos com suas nações. Nem estes escaparam dos julgamentos de suas ações no intrincado jogo das relações de cominação que permeiam as parcerias político-econômicas com a nação mais proeminente das Américas: os EUA.
                    Até porque a própria política é a arte de se despir da santidade e vestir-se da malandragem e do jogo. Nesse ponto, vamos ao artigo sobre a novidade do momento, que deu a esse início de 2026 um clima altamente explosivo e preocupante, para, no fim, jogar uma análise crítica dos desdobramentos dessa notícia.

Introdução
                    Após o intervalo da confraternização universal, 2026 começou quente. Na noite de 2/1, os EUA atacam a Venezuela. Na manhã seguinte, telejornais brasileiros mostravam imagens dos sobrevoos dos caças estadunidenses e bombardeios na capital Caracas. Estava ali, explícito, um claro ataque de guerra dos EUs sobre o território venezuelano. Sem seguida, a notícia do sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa Cília Flores – que mais soou como sequestro.
                    Ao amanhecer de 3/1, a Venezuela fechou fronteira com o Brasil na região de Pacaraima. Militares brasileiros do Exército guardam a região para evitar a volta de migrantes venezuelanos ao seu país, visando a segurança e integridade dos próprios. As mídias focaram imagens diversas, desde os sobrevoos de bombardeiros estadunidenses sobre Caracas, lançando bombas, e uma aparição pública do presidente estadunidense Donald Trump para conceder entrevista coletiva.
                    O fato acima descrito gerou forte controvérsia: os grandes jornalões brasileiros e emissoras de TV noticiaram que foi uma operação militar estadunidense. Fontes alternativas já o apontam como invasão (ou ataque) militar propriamente dita, com direito a bombardeio e deposição forçada de líder local (golpe).
                    Também foram mostradas rapidamente imagens de suposta comemoração do povo venezuelano tão logo fora comunicada a deposição do presidente local Nicolás Maduro e sua substituição pela sua vice Delcy Rodríguez – tudo confirmado pelo próprio Trump em pronunciamento posterior. Cabe ressaltar que os jornalões só mostraram os que comemoraram, em detrimento dos que foram contra – que certamente não foram poucos.
                    Operação ou invasão, deposição ou golpe, na análise final serão pautados os desdobramentos desse fato, que já revela uma posição unilateral dos EUs, bem como a conduta das emissoras e das fontes alternativas a respeito de um fato tão grave para a Venezuela e – certamente depois – a toda a América Latina e, claro, o Brasil.

O pronunciamento de um ditador
                    Desde as primeiras imagens da invasão militar estadunidense em Caracas até a chegada de Nicolás Maduro em solo estadunidense, vestido com roupa de prisioneiro e escoltado por militares do DEA, até a aparição de Donald Trump na sua suntuosa residência em Mar-a-Lago, na cidade de Palm Beach, Flórida, para entrevista coletiva no dia 3/1, se passaram pouco mais de 12 horas. Como podemos ver, toda a estratégia até a meta foi estranhamente muito rápida.
                    A grande mansão de Mar-a-Lago não é só o seu refúgio de descanso e de fuga do inverno rigoroso de Washington ou Nova York. É onde prefere receber seus amigos e aliados políticos. À frente há um púlpito especialmente erguido para concessão de entrevistas à imprensa. Foi lá que ele se pronunciou aos jornalistas, na manhã de 3/1, perto de meio-dia em Brasília. Na entrevista, sua felicidade arrogante pelo sucesso da invasão contrastava com os protestos populares que se formaram nos EUs e na Europa.
                    As equipes de reportagem fizeram poucas e cautelosas, mas complexas perguntas, em dois direcionamentos básicos: por que depuseram Nicolás Maduro, e qual é o real objetivo relacionado ao petróleo venezuelano. Trump foi direto: no primeiro sentido, ele disse que “Maduro pregou um regime ditatorial, e para se perpetuar no poder, não reconheceu o resultado das eleições, prendeu opositores e violou direitos humanos. Por isso o capturamos, e ele responderá por seus crimes aqui em Washington”.
                    Ainda respondendo a perguntas do primeiro direcionamento, o estadunidense não hesitou em se lançar para a velha demagogia: “vocês viram que o povo venezuelano está cansado de Maduro. Nós queremos restabelecer naquele país a liberdade, a prosperidade e o bem-estar para o seu povo, como fizemos em outros países”. Trump ainda justificou o ataque na doutrina Monroe, “a América para os americanos” – na verdade, para os estadunidenses, que a têm levado a ferro e fogo. E o bem-estar declarado é miséria e ruína.
                    No segundo direcionamento, um repórter perguntou: “Mas o objetivo dessa operação na Venezuela é restabelecer a democracia no país, ou visa mesmo a exploração petrolífera por nossas empresas?”. Tranquilo, ele novamente não hesitou: “sim, nós entramos na Venezuela e bombardeamos Caracas para depor e trazer Maduro, pois ele recusava negociar a produção petrolífera por nós. Agora nós exploraremos e produziremos o petróleo da Venezuela para restaurar a economia”.
                    Foi uma resposta perfeita e completa em que usou o tradicional ufanismo estadunidense com demagogia para justificar a posse indébita de recurso de outro país. Sobre o governo interino na Venezuela até a próxima eleição, Trump respondeu: “após diálogo, a vice-presidente Delcy tomou posse. Ela se mostrou mais aberta a negociar a exploração do petróleo”. Mas, a ameaçou: “caso não siga as nossas recomendações, ela terá um destino pior do que o de Maduro”.
                    Sobre a escolha da vice Delcy Rodríguez, por sinal chavista, ao invés da líder oposicionista Maria Corina Machado, laureada com o Nobel da Paz, e o companheiro político Edmundo González, supostamente impedido por Maduro na eleição, Trump foi enfático: “Maria Corina não tem o respeito da Venezuela”. Na realidade, a resposta não surpreendeu quem se lembra da sua birra por não ter sido o premiado. Sua consideração sobre Edmundo González teve o mesmo tom de desprezo.
                    O descarte de dois opositores de Maduro por Trump não surpreende os observadores. O presidente estadunidense reflete a cultura de preconceito antilatino, tão profunda quanto o racismo anti-africano. Dois dias após a invasão, ele disse que “os venezuelanos são feios”, devido à mestiçagem comum na América Latina, exceto – talvez – Jamaica e Haiti, com populações quase todas de origem africana.
                    A birra de Trump por não ter recebido o Nobel – apesar de Corina tê-lo dedicado a ele – é só um detalhe. Seu olhar político também explica o desprezo extensivo à democracia, mesmo com 250 anos de forte ilusão coletiva de os EUs serem a referência democrática global. Reacionário, autoritário, Trump se identifica com governantes iguais. Que o diga o elogio desprendido ao norte-coreano Kim Jong-Um, e ao saudita Bin Salman, ambos ditadores absolutistas.

A estranha justificativa de um sequestro –
                    Pelo linguajar dos jornalões, Nicolás Maduro foi deposto pelas forças militares estadunidenses após o bombardeio aéreo pelas aeronaves estadunidenses em sobrevoo no céu de Caracas. Donald Trump negou ter havido confronto armado. “A operação foi um sucesso. Teve apenas um ferido, mas nenhum morto”, disse o secretário de Estado Marco Rubio. Mentira. Na real mesmo, segundo as mais recentes contagens, mais de 100 pessoas morreram, a maioria civil. E pode haver bem mais.
                    Segundo Rubio, o bunker na maior base militar da Venezuela foi bombardeado para Nicolás se entregar. Ele teria se refugiado lá desde que bombardeios atingiram um petroleiro da estatal PDVSA em dezembro/25. Segundo fontes locais, a residência presidencial, Palácio Miraflores, teria sido ocupada por junta militar do Exército, até a posse de Delcy Rodríguez. Daí as imagens da escola de Maduro e esposa Cília escoltados pelo DEA surgirem após o bombardeio.
                     A escolta do casal pelo DEA – força militar que já atuou contra Pablo Escobar – foi estratégia de Trump para “informar” seu povo e o mundo que prendeu o líder do narcotráfico venezuelano – o que não foi confirmado no pronunciamento à imprensa na Flórida, e despertou tanta suspeita quanto o suposto bate-papo de Maduro com os guardas que aparentavam admirá-lo. Essa acusação fora a “justificativa” para a deposição e prisão do líder venezuelano.
                    Trump e Rubio acusaram Nicolás Maduro de ser o capo (termo italiano que designa o fundador e patrono de organização mafiosa) da facção Cartel de Los Soles, para quem ele teria trabalhado em transporte, por ter sido motorista no passado. E o julgamento no Supremo revelou uma surpresa: Cartel de Los Soles é designação midiática venezuelana para o alto oficialato militar, devido ao Sol bordado na insígnia das fardas. Ou seja, a facção traficante Cartel de Los Soles não existe!
                    Dizendo-se inocente, Maduro confirmou que foi motorista de ônibus no passado. De fato, nas investigações da CIA e do DEA sobre narcotráfico, Venezuela não consta como local de produção de drogas, e seu transporte ocorre nas fronteiras. A produção e exportação de pasta-base de coca ocorre na Bolívia e na Colômbia. Praga social nos EUs, os opioides sintéticos procedem principalmente da Ásia Central.

Reações gerais
                     Do povo – como a “operação” militar estadunidense foi claramente uma invasão (daí Maduro se esconder numa base militar), os habitantes venezuelanos tiveram reações fortes. Segundo os nossos jornalões (inclusive os do telejornalismo), se deu a entender que todos os venezuelanos comemoraram a intervenção. Calma aí, jornalões! Isso não pode ser visto como uma verdade plena.
                    Como no Brasil o povo venezuelano também é polarizado, dentro e fora do país. Mesmo não legitimado no exterior devido à recusa em mostrar a ata do pleito, Maduro mantém base chavista significativa. Até entre os muitos migrantes, há alguns chavistas. A Venezuela vive uma economia em frangalhos, por não conseguir enfrentar a crise piorada pelas sanções impostas pelos EUs.
                    Para a militância, a posse da vice-presidente Delcy Rodríguez indica que, apesar da invasão agressiva, Trump reconheceu a “legitimidade” do chavismo. Delcy jurou “manter vivo o legado bolivariano de Hugo Chávez”. E um legado é a soberania da produção e da comercialização dos recursos naturais do país, a despeito do autoritarismo maximizado por Maduro.
                    E, em meio a isso, uma incoerência se formou: um grupo de imigrantes venezuelanos nos EUA comemorou a deposição de Maduro, e depois foi parar preso em jaulas como animais num viveiro de aço apertado de zoológico. Entrevistado, um imigrante disse ter acreditado que “havia comemorado a prisão de um bandido”, mas se deu conta de que “o bandido mesmo é o presidente dos EUA, por nos prender dessa forma aqui”.
                    No exterior – na União Europeia, a repercussão da invasão redundou entre a timidez dos governos e a contrariedade das populações. Diplomata chefe das relações exteriores da UE, Kaja Kallas disse que a Europa vê Nicolás Maduro como ilegítimo, mas pediu aos EUs respeito ao Direito Internacional – que por sua vez legitima a autodeterminação dos povos.  Ela pediu a Marco Rubio para ele tratar dos desdobramentos do pós-invasão.
                    A timidez se deve a quase toda a UE, inclusa a Dinamarca, integrar a OTAN. A Dinamarca é responsável pela Groenlândia, território semi-autônomo. E Trump almeja anexá-la a seu país para explorar seus minérios.
                    Rússia e China reprovaram com veemência a intervenção estadunidense em Caracas.  O reprove piorou quando os EUA reconheceram o ataque a um petroleiro russo em Caracas. Não há menção ou indício de ataque potencial a embarcações de bandeira chinesa por lá, mas é sabido que navios chineses atracaram em pontos do litoral brasileiro.
                    Após um tempo sem menção pela mídia, a Coreia do Norte lançou nota de repúdio ao ataque na Venezuela. Houve intensificação do lançamento de mísseis pequenos e não nucleares, de médio alcance (caíram no mar do Japão). Imagens da mídia revelaram o ditador Kim Jon g-Um acompanhando a mostra de novos mísseis e submarinos nucleares.
                     O Japão se comportou na mesma timidez que na Europa. O governo de centro-esquerda da Austrália foi mais incisivo em repudiar a invasão como desrespeito ao Direito Internacional e à soberania da Venezuela, enquanto protestos populares se formaram acompanhando os europeus em solidariedade ao povo venezuelano, que já vive uma situação delicada devido à extrema fragilidade de sua economia e instabilidade política.
                    Na América Latina – os governos da Colômbia e do México, por sinal social-democratas, foram os mais veementes contrários ao ocorrido. Suas declarações também se tornam respostas às ameaças de Trump, que disse a jornalistas: “atacar a Colômbia será uma boa”, ao acusar o presidente Gustavo Petro de narcotráfico, também sem nenhuma prova. Claudia Sheinbaum reagiu ao plano de Trump de “tomar o México” devido ao país ser uma grande rota de tráfico de maconha e cocaína aos EUA.
                    No Brasilo governo Lula foi enfático ao declarar como “ação de sequestro” todo o ocorrido. Lula disse que “a Venezuela tem que ser respeitada como país soberano, ela pertence ao povo venezuelano”. O problema é que Trump também já alveja o nosso território, particularmente na Base Aérea de Natal, e no arquipélago de Fernando de Noronha, pertencente a Pernambuco, no pretexto de "dívida pelos EUA terem feito benfeitorias locais".

Desdobramentos
                    Na Venezuela – é certo que parte dos sul-americanos, de direita ou simplesmente contrária a Maduro, comemorou o seu sequestro pelas forças estadunidenses a mando do presidente dos EUs. Mas, passado o tempo “necessário” à euforia, se descortinou a vista da realidade profunda por trás dos fatos. A consequência mais negativa do ataque foi a destruição de um centro de atendimento a pacientes renais crônicos necessitados de diálise, e de outro de distribuição de medicamentos.
                    O mais pungente desse fato, escancarado em imagens reveladas por mídias como Brasil de Fato e BBC, por exemplo, é saber não só do quão desproporcional e desnecessário foi o ataque. Foi criminoso e desumano. Exatamente a cara e o caráter de Donald Trump. E como não se bastasse já estar em frangalhos há anos e no fundo do poço a partir das sanções dos EUs, cabe a pergunta: como o governo Rodríguez vai se reerguer, se a recuperação na saúde pública depende das reservas de arrecadação?
                    No dia seguinte ao ataque, a fumaça ainda tomava o ar da capital venezuelana e as ruas estavam vazias, segundo relatos de moradores locais. Os escombros também relatados podem ser dos centros de saúde, mas pode haver outras construções destruídas próximas ao foco dos bombardeios. Árvores de praça próxima pegaram fogo ao serem atingidas pelos incêndios dos bombardeios.
                    Trump expôs para a imprensa as regras que impôs sobre o governo venezuelano. Uma delas é a extração de 50 milhões de barris de petróleo pesado exclusivamente destinado aos EUs, pela estatal PDVSA. Em seguida, a mesma PDVSA entregará as instalações de extração e refino do óleo para empresas petrolíferas estadunidenses. Ou seja, a Venezuela perde o seu principal símbolo econômico e de soberania, propagandeado desde antes do chavismo.
                    Principal recurso do subsolo e da economia da Venezuela, o petróleo pesado é cobiçado devido ao seu uso em larga escala. Ele é matéria-prima para fabricação de asfalto rodoviário, de óleos combustíveis como o diesel, insumos para lubrificantes automotivos e estruturas industriais, graxas e produtos plásticos.
                    Apesar de ter considerado a manutenção do chavismo através da presidência de Delcy Rodríguez, Donald Trump postou em seu perfil oficial uma fotomontagem com as cores da bandeira venezuelana e se autodeclarando “o presidente interino da Venezuela”.
                    México – Trump revela prazer em tomar o mundo. Já almeja o México, acusando autoridades locais de “insuficiência” em combater os carteis – que ganham mais com transporte da coca sul-americana do que com produção e comércio de marijuana (maconha). Ele quer “invadir por terra”. A presidente Claudia Sheinbaum propõe uma coordenação EUA-México contra os carteis. Ainda assim, a ameaça trumpista segue contra o país.
                    Colômbia – conhecida por sua diversidade biológica e geológica, nossa vizinha tem o presidente de centro-esquerda Gustavo Petro, conhecido pelo plebiscito popular contra a exploração mineral na Amazônia. Em resposta dura, ele negou a acusação e, segundo a mídia. disse pretender conversar com o estadunidense sobre uma integração de forças dos 2 países para combater o narcotráfico no seu país. Ainda assim, Trump segue desafiando o governante colombiano.
                    Brasil – há tumores na mídia de que Donald Trump articula meios para influenciar nas eleições presidenciais de 2026. Segundo os rumores, o estadunidense deseja fazer com que a reeleição certa de Lula seja impedida através de algum nome popular, mas politicamente expressivo, preferencialmente da ultradireita, com a qual é mais afim. O governo brasileiro parece ignorar a ameaça. O que percebo que todo cuidado é pouco.
                    O ex-deputado e ex-ministro José Dirceu, que vive de palestras desde que saiu da prisão, avalia que a situação acima descrita não deve ser ignorada como uma bobagem. Ele salientou que o golpismo da ultradireita bolsonarista e pós-bolsonarista está em curso e segue junto com Trump para apostar toda a sua energia e eficiência comunicativa para virar o jogo eleitoral, diante de um Lula liderando as pesquisas de opinião.
                    Caribe – Duas ilhas caribenhas são consideradas muito caras aos estadunidenses: Cuba e Porto Rico. Como já sabemos, Cuba tem um “problema”, que é a resistência do governo castrista, que Trump quer derrubar a todo e qualquer custo. E ele também quer reativar a base presidiária de Guantánamo, que aprisiona condenados por terrorismo.
                    O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, disse às mídias locais que “não há conversação em andamento entre Cuba e EUA”, desmentindo Donald Trump, que transmitiu ao vivo a suposta conversação. Um dado que sustenta a negativa do líder cubano é a ausência de detalhes documentados, e o fato de o estadunidense já ter feito ameaça de mais sanções contra o país caribenho.
                    Hoje uma colônia autônoma dos EUs, Porto Rico tem uma população basicamente latina. Sua história se desvelou numa cultura atual principalmente hispânica. O espanhol é o idioma principal e cotidiano, e o inglês, uma língua de escola e comercial. Sua economia é basicamente turística. Há alguns anos, seus habitantes desejam independência local, com alguns manifestos, que se intensificaram nos últimos dias.
                    E vale salientar aqui o que nenhuma mídia pontua: o olhar de Trump sobre o Haiti. Mesmo em frangalhos em todo sentido – econômico, sociopolítico e material – a nação segue lutando pela sobrevivência após 2 terremotos violentos (2010 e 2021) e intervenções militares da ONU. E seu subsolo pode esconder riquezas sob a superfície arrasada pela miséria e pela fome, e onde se conflitam grupos militantes populares pró-soberania e gangues possíveis de se ligarem ao tráfico. É um território fácil de ser tomado pelas grandes potências.
                    Europa – vive uma dificuldade desde o início da guerra russo-ucraniana, devido ao corte do fornecimento de gás natural para energia. Em dezembro, a União Europeia tarifou as plataformas estadunidenses irritando Trump – que já havia sancionado as europeias em seu país. Agora, Trump anunciou sair da OTAN, na qual quase toda a Europa entrou, e deixará a Ucrânia se virar na guerra. E ainda quer cortar o fornecimento de gás para a Europa.
                    Explicando: o ataque de Trump às plataformas europeias se deve à atuação destas para combater manifestações de ódio político-ideológico nas redes sociais – o que de certa forma contribui para aprofundar conflitos diplomáticos já desnecessários.
                    Maduro – ao ser capturado e levado pelas forças estadunidenses, Nicolás Maduro não pareceu indignado. Em alguns momentos, a conversa trocada com sua escolta pareceu descontraída, muito diferente da valentia demonstrada no gabinete e no palanque. Por outro lado, ele se declarou inocente em relação ao tráfico durante o julgamento pela Corte em Nova York.  Hoje ele está preso na penitenciária MDC, em Nova York.

Ironias de um doentio: análise final
                    Diante de tudo isso, vale o reforço de que a invasão militar estadunidense na Venezuela é um recado para a ONU – cuja Carta foi tão ignorada por Trump quanto o Direito Internacional – e para a América Latina. Claro que disso já sabemos, mas a validade da afirmação também se reforça pela insistência em mencioná-la sempre que necessário. Mas também nos leva a refletir mais sobre Donald Trump do que os seus adversários.
                     Se pensarmos em seus adversários políticos, percebemos que alguns deles agem levados pela organicidade de seus princípios ideológicos. Mas não necessariamente atentando contra o globo. A alegria inicial de muitos venezuelanos com a retirada forçada de Maduro nos faz pensar sobre a impopularidade do presidente. Só depois refletimos como os governos estadunidenses – não só Trump, mas ele, sobretudo – têm cuidado de seu próprio país.
                    A deportação de imigrantes paralisou muitos serviços. O tarifaço ajudou a inflacionar o custo alimentar. O corte de benefícios sociais aumentou drasticamente a margem de pobreza. A demissão massiva de servidores enfraqueceu poderes públicos. Tavestidos de agentes do ICE, caçadores de recompensas do ICE abordam qualquer grupo, até nativos indígenas, revelando a milicianização institucional na brutal ignorância trumpista.
                    Donald Trump ou é um garoto mimado num corpo idoso, um tirano psicopata ou ambos. Vê o mundo como sua posse para se enriquecer ainda mais. Diz que “libertou os venezuelanos” de seu adversário político, e se proclama “presidente da Venezulea”. Mas não cuida da sua nação. A epidemia de zumbis cheios de opioides nas ruas reflete uma sociedade doente, abandonada e desiludida com a velha realidade paralela de nação democrática.
                    Em sua atenção desmedida às regiões desejadas do mundo – e a América Latina inteira de quintal, a partir da Venezuela –, Donald Trump despreza a sua nação se afundando na crise socioeconômica com mais desigualdade, afrontada por uma anomia instaurada pelo desmonte do Estado e por uma instituição tornada milícia supremacista. Nesse caldo de crise social, a nação se aproxima paulatinamente de se estourar numa guerra civil.
                    Como alguns governos anteriores (Truman nos 1940’s e MacCarthy nos 50’s), Trump mostra os EUs não tão democráticos quanto se propala. Alguns nazistas lá se asilaram e até prestaram serviços obscuros a governos. A ultradireita pode alçar o poder, a esquerda não. Mas, seu desprezo ao Direito Internacional proporciona a multipolaridade, em que outros países podem se pronunciar no poder global e minar de vez a hegemonia estadunidense.
                    Doce sabor da ironia: em seu desejo de ser o dono do mundo, Donald Trump conseguiu apequenar os EUs, a “sua América”, aos olhos do mundo.
Para saber mais
- https://checamos.afp.com/doc.afp.com.69NA9ZX (checamos AFP: venezuelanos comemoram e agradecem a Trump)

Vídeos
- https://www.youtube.com/watch?v=KvXUinsAcng (Desmascarandobagunçou geral: Trump diz que agora Venezuela será colônia dos EUA, 4/1/26)
- https://www.youtube.com/watch?v=wNYqCyZPkV8 (DesmascarandoDudu Bozo delira em live: tiroteio e bombas explodem na sede do governo em Caracas, 5/1/26)
- https://www.youtube.com/watch?v=6zur6k128Kc (Portal do JoséDomingão do delírio! Trump:mataremos nova presidente”. Bolsonaristas vibram. Lula: hora de alerta, 4/1/26)
- https://www.youtube.com/watch?v=cmpnTLoVXMw (Meteoro BrasilRede Globo e Fantástico fazem propaganda explícita dos EUA no caso Venezuela, 5/1/26).
- https://www.youtube.com/watch?v=-QSvZb20lag (Iconografia da Históriao que é o Cartel de Los Soles e como Maduro foi preso acusado de traficante, 6/1/26)
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