sábado, 18 de abril de 2026

CURTAS 109 - ANÁLISES (política 2026)

 

TSE PEGOU CASTRO. E DENARIUM?

                    No embalo da popularizada megachacina de 28/10/25, o sanguinário governador Claudio Castro (RJ) e seu vice Pampolha renunciaram aos cargos em 23/3/26 para manter direitos políticos. Em 24/3, os ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ainda presidido por Carmen Lúcia, votaram pela inelegibilidade por 8 anos, graças a denúncias da esquerda na ALERJ.
                    Elaboradas em 2024, as denúncias foram entregues inicialmente ao aparelhado TRE-RJ, que absolveu Castro. Mas o Ministério Público Eleitoral (MPE) as acatou e repassou ao TSE. Elas acusam Castro de abuso de poder político e econômico (folhas de pagamento secretas) no pleito-202 e contratações irregulares na Fundação Ceperj e na Uerj.
                    O uso da megachacina nos CPXs do Alemão e da Penha – com 47 inocentes admitidos pela Polícia na identificação parcial divulgada – como estratégia de campanha antecipada e abuso de poder ainda não foi confirmado pela Justiça. Entretanto, alguns parlamentares da ALERJ concordam que tenha havido o ilícito.
                    Quando ainda na iminência de cassação, o presidente da ALERJ Douglas Rios (PL-RJ) foi eleito para manter o bolsonarismo no poder regional. Mas, a cassação veio logo e a eleição indireta foi anulada pelo TJ-RJ, impedindo também o presidente em exercício da ALERJ Guilherme Delaroli (PL) de assumir interinamente o cargo.
                    A renúncia de Castro prejudicou a cassação, mas não sua inelegibilidade. E Delaroli substituíra Rodrigo Bacellar, que foi afastado por ter ligação com o CV, daí o TJ-RJ desconsiderar legitimidade dessa linha sucessória. Assim, o magistrado e presidente do próprio TJ-RJ, Ricardo Couto, assumiu o cargo interinamente.
                    A renúncia de Castro impediu o salvou da cassação, mas não da inelegibilidade – o que, na prática, breca a ambição eleitoral, jogando no brejo a corrida pelo senado. Como a Justiça brecou a manutenção de Delaroli por deslegitimar a sua eleição pelas lideranças bolsonaristas na ALERJ, o RJ agora segue sem governador.
                    Denarium/Damião — agora que o caso Castro foi resolvido, que tal falar da chapa bolsonarista Denarium-Damião, de Roraima? Entregues ao TRE-RR em 2024, as denúncias de irregularidades administrativas e abuso de poder político foram julgadas e o citado tribunal votou pela cassação. No TSE, o julgamento foi interrompido por vários pedidos de vista.
                    A indefinição atual se deve a recursos do próprio TSE sobre condutas específicas do governo Denarium, além dos pedidos de vista. E vale citar a relação com o próprio ministro André Mendonça, fundador do Instituto Iter, contratado pelo governo estadual – sem licitação – para ministrar cursos de oratória, direito público para servidores e, acreditem, licitações.
                    A contratação do Insituto Iter por pouco mais de R$ 270 mil pelo governo roraimense foi uma especificidade que levou à suspensão do julgamento de cassação em 2/11/ 25 pelo próprio Mendonça.  Veio a suspeita de conflito de interesses – não confirmada oficialmente, claro. Mas, o protagonismo do inistro emplacou a suspeita.
                    Em fria análise final, a própria diferença de tempo e eficácia comparativa entre os dois julgamentos nos leva a refletir que interesses de força maior levaram às suspensões do julgamento. O fato de a chapa ser do Centrão aliado do bolsonarismo pode ter peso, mas vale enfatizar que Castro é bolsonarista e foi tornado inelegível.
                    O enlace entre Denarium e Mendonça mediante contratação do Iter tem peso fundamental na suspensão. Mas não é o maior dos problemas  considerando-se a licença do ministro da sociedade do Instituto e a importância das irregularidades, como abuso de comunicação política em ações sociais e malversação de recursos públicos.
                    É posr isso que o público e os demais ministros – talvez exceto Nunes Marques – fazem pressão para que o caso Denarium seja resolvido após 2  longos anos. Já basta as famílias dos mais de 120 chacinados aguardarem a justiça. E a nação se mostra cansada da falta de equidade judiciária ao julgar políticos de diferentes vieses.
                    Para o andamento correto da justiça, é importante a independência da direção política e ideológica, de classe social e dos interesses de mercado. O Iter ganhou R$ 4,8 milhões dando cursos de Direito Público para vários entes públicos. O grande valor da Justiça é a ação equitativa sobre os demais poderes, para coibir abusos de poder. Vale a ordem nacional.
Para saber mais
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ELEIÇÕES: NOVO ESTRESSE

                    Temos eleições de 2 em 2 anos, intercalando pleitos municipais com os estaduais e federal. E estamos em novo ano eleitoral para a presidência da República e governos estaduais. E a patuleia se depara, desde 2016, com informes virtuais, principalmente mentiras, algumas bem requentadas – agora com apoio dos jornalões. Por isso, as eleições presidenciais são mais estressantes.
                    Desde os últimos rearranjos políticos, o TSE oficialmente tem em mãos os dados de vários presidenciáveis, mais variados em perfis pessoais do que políticos, e que podem convergir em algumas propostas. Mas novos rearranjos poderão ocorrer até agosto ou setembro. Os definidos até o momento seguem abaixo.
                    Lula (PT)—só este ano decidiu se candidatar à reeleição, ao lançar o pupilo Haddad para o governo de SP, já quase empatando com Tarcísio na corrida. Apesar do alto índice de reprovação nas pesquisas entre pentecostais e jovens, graças ao disparo de mentiras e dos ataques dos jornalões, sua chance de reeleição permanece alta Spoiler: as últimas pesquisas revelam sua liderança.
                    Flávio Bolsonaro (PL)— antecipadamente se lançou candidato à presidência, propondo continuar o governo do pai. Mas sem ilusão: ele é inteligente, discreto e muito perigoso. Um regime militar-miliciano-neopentecostal será muito provável – e pode pegar mais pesado do que a ditadura militar, para vender o Brasil no atacado.
                    Por enquanto aproveita a democracia imperfeita seguindo com mentiras contra Lula, tanto requentadas quanto novas.
                    Michele Bolsonaro (PL)—ainda que seu alvo seja Lula, ela se torna, na prática, adversária do enteado na corrida.Embora sejam do mesmo espectro político, eles têm públicos diferentes: ele entre os homens e jovens, ela entre as mulheres evangélicas pentecostais e neopentecostais. E para essa base ela tem propostas, nada feministas. Pelo contrário.
                    Ronaldo Caiado (PSD)— o representante da elite do agro entra como aposta de 3ª via pelos jornalões com a desistência de Tarcísio. Entrou no PSD, partido teoricamente governista hoje, não só como alternativa despolarizadora, e para isolar Lula politicamente. Além do agro, sua principal proposta é nacionalizar seu violento modelo de segurança pública.
                    Zema (Novo-MG)— tido pelos jornalões como centro-direita, ele é um reacionário – nega ter havido ditadura militar – e é um privatista extremista  como Flávio Bolsonaro. Como Caiado em relação à segurança pública, ele pretende aplicar a todo o Brasil o modelo PPP (participação público-privada) na educação e na saúde, em propostas avançadas na ALMG.
                    Aldo Rebelo (DC)—o ex-comunista e ex-ministro da era petista que já propôs o Dia do Saci em crítica ao popularizado Halloween de 31 de outubro, hoje se liga à direita abublegue.  Ainda não sabemos bem de suas propostas, mas não duvido muito que sejam muito similares às dos supracitados. Sua posição nanica nas pesquisa revela sua expressão rebaixada.
                    Cabo Daciolo (Mobiliza)—ex-deputado conhecido pelo jeito caricato misturado com fervor religioso, ele mistura propostas progressistas com as conservadoras. Só nos resta saber qual adversário ele vai acusar de ter criado a suposta proposta de União das Repúblicas Socialistas da América Latina (URSAL)1, já que o acusado Ciro Gomes agora está fora.
                    Renan Santos (Missão)—representante do Movimento Brasil Livre (MBL), uma facção de ultradireita, ele é empresário e influenciador político visado na corrupção (já fez boa referência a Flávio Dino em relação a esse crime). Sua postura agressiva e a relação do MBL com neonazistas mais tendem a afastar do que agregar valor eleitoral. Nanico.
                    Eduardo Leite (PSD)—ao querer culpar o governo federal, o governador gaúcho se notabilizou pela omissão nas motivações ambientais e infraestruturais que levaram às enchentes históricas no seu Estado. Mas ainda tem boa expressão política local e se disonibiliza. Mas sua posição no ranking das pesquisas é tão nanica quanto a de Rui Pimenta e outros nomes.
                    Augusto Cury (Avante)—médico psiquiatra de formação e escritor, ele é pouco conhecido da população. Mas foi eleito na convenção por sua intelctualidade e postura moderada, agregando ideais progressistas que podem aliá-lo a Lula em caso de reeleição deste. Sua proposta central é na saúde pública, na qual já exerce sua profissão. Mas ainda é nanico nas pesquisas.
                    Rui Costa Pimenta (PCO)—se declara extrema-esquerda, mas converge com Bolsonaro em pautas como população geral armada, narrativas de persecução política pelo STF e rejeição a propostas de minorias como o combate a crimes de ódio. Daí muito bolsonarista se simpatizar com ele. Mas ocupa os últimos lugares nas pesquisas.
                    Há articulações ainda em andamento, com entrada possível de novos candidatos. Ao menos dois deles, Hertz Dias (PSTU) e Samara Martins (UP), trotskistas como Rui, são possíveis candidatos na corrida. Mas sabemos que serão mais nanicos do que o próprio líder do PCO, que pelo menos pode ter melhor expressão por ser mais conhecido.
                    Poderoso em Goiás, seu Estado natal, onde governa com mãos férreas, Caiado criou desculpa palatável ao se dizer alternativa despolarizadora. Mas, pragmaticamente, a polarização é inevitável. As pesquisas de intenção de voto já a revelam, se mantendo no 1º turno. No 2º, os dois finalistas se opõem, mesmo sendo da mesma direção política. A polarização só se destrói na inevitável vitória de um deles.
                    Mas vale apontar um fator diferencial de polarização nas eleições de 2026: os algoritmos com direito a IA. Pesquisas já apontam sinais de sua manipulação, enervando a população e jogando o público jovem num buraco político antes de terem consciência plena da complexidade do assunto. Por isso, já aviso aqui: todo cuidado e consciência são válidos nessas eleições, pois não é a polarização o problema!
Nota: 1 
Para saber mais
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CURTAS 108 - ANÁLISES (caso Master, Dino)

 

UM CASO CORROSIVO

                    Enquanto o governo Lula se mantinha líder na preferência eleitoral em meio a pressões do Congresso, um vazamento indevido da imprensa sobre a investigação de descontos ilegais de aposentadorias pela PF originou a CPMI requerida pela oposição. Só que, no desenrolar do processo, vazou o caso Master, um complexo crime financeiro a envolver empresas, fintechs, crime organizado e igrejas.
                    O esquema é tão complexo que a real do enredo se perdeu para a maioria popular e é difícil fazer um artigo sintético sobre o caso. Jornalões se aproveitam disso para envolver Lula e seu filho, o STF e Galípolo (BC) no esquema de ilicitudes, para promover Flávio Bolsonaro ao Planalto e reeleger Tarcísio de Freitas para continuar a vender SP de vez, a preços de coisa estragada.
                    Ele acontece em meio à recém-findada CPMI do INSS, que virou um espetáculo midiático como o foi a da C19 em 2021. Mas com uma diferença: o relatório da CPI da C9 foi aprovado, com direito a uma cópia em mãos do Tribunal Penal Internacional, em Haia, como mais uma evidência de genocídio mediante uso da pandemia de C19. Diferente desta, a CPMI do INSS teve um fim insólito, com 2 relatórios.
                     O oficial foi redigido pelo relator Alfredo Gaspar (PL-AL) e o alternativo pelos membros governistas. O primeiro tem mais de 200 indiciados e focou no governo Lula. Foi rejeitado pela maioria. O último focou gente do governo Jair Bolsonaro e indiciou este e o filho Flávio, e sua votação foi rejeitada pelo presidente da comissão, o bolsonarista Carlos Viana (Podemios-MG). A comissão teve prorrogação autorizada pelo STF.
                    Em sua contribuição investigativa, a CPMI do INSS evidenciou a relação dos descontos com o caso Master, mas Daniel Vorcaro e Zettel não depuseram, pela bênção de André Mendonça (STF). Evidências materiais em mãos da PF apontam o envolvimento de vários parlamentares, em geral bolsonaristas convictos.
                    Fundado pelo ex-influencer gospel Daniel Vorcaro, o banco Master veio das cinzas do Máxima em 2019, avalizado por Campos Neto (BC).  Especializou-se em CDBs (certificados de depósito bancário por “empréstimo”) de alto rendimento (até 140% do CDI, uma taxa de rendimento). O modelo agressivo de alto risco gerou ativos acima de R$ 80 bilhões.
                    Crimes – se o capital financeiro já não é confiável, imaginem o Master: não eram só altos CDBs. Ao invés de brecar os crimes, Campos Neto deixou rolar. Já grande, o novelo criminal caiu no colo do sucessor Gabriel Galípolo, após a voadora Tramontina de Lula em Vorcaro: “isso é com o Galípolo”. No esgotamento das demais soluções, o BC liquidou de vez o Master em 2025.
                    O Master criou uma insolvência (dívida de valor impagável), roubou fundos e quebrou entidades públicas que nele investiram como RioPrevidência por Claudio Castro e Banco de Brasília por Ibaneis Rocha. Daniel Vorcaro foi preso no aeroporto portando uma mala cheia de grana, foi preso, depois solto e, após alguns dias, voltou à prisão.
                     Um banco e duas CPIs—a CPMI do INSS e a CPI do Crime Organizado surgiram de ações da oposição para, de alguma forma, incriminar o governo Lula por ligações criminosas relacionadas: ele seria o “grande chefão”. Só que os dados disponibilizados pela PF às comissões até o momento não têm encontrado provas do envolvimento de Lula, nem de seu filho Lulinha.
                    Devido ao vazamento estratégico e proposital dos jornalões de investigação sigilosa da PF, a CPMI do INSS visou ligar o governo atual aos descontos ilegais das aposentadorias. Só que, no andamento da CPMI, os nomes levantados foram de parlamentares da direita, fintechs, empresários, associações, facções e líderes evangélicos.
                    A CPI do Crime Organizado foi criada para “provar” a suposta ligação de Lula com o crime organizado, dada a recusa deste em considerá-las terrorstas, e a suposta participação de Alexandre de Moraes no caso Master. Convocado como testemunha, ciente de não poder mentir nessa condição, Gabriel Galípolo desmentiu o Globo e o Estadão numa tacada só: “não conversamos pelo telefone, fui ao STF e o único asunto com o Moraes foi sobre a lei Magnitsky”.
                    Efeito colateral—o governo Lula tinha aprove popular crescente após a hoje válida isenção de rendas até R$ 5mil do Leão e diante da hostilidade do Congresso desde que Dino brecou as emendas ilícitas. O ataque dos jornalões inverteu a lógica popular, aumentando novamente os índices de reprovação diante do concorrente Flávio Bolsonaro. Os jornalões se extasiaram com seu novo queridinho.
                    Em paralelo a esse orgasmo (spoiler: Lula agora volta a crescer), os jornalões noticiaram a confissão de Dias Toffoli como sócio minoritário de empresa que administrou o resort Tayayá em negócios com o Master. Ele já havia passado a relatoria do caso para o colega André Mendonça, que poupou Vorcaro, Zettel e outros nomes duvidosos de depor nas CPIs citadas.
                    A interferência de Mendonça não impediu o fechamento da igreja da Lagoinha de Valadão e Zettel, encalacrada pelo envolvimento evidente de sua fintech e o Master em descontoss ilegais de aposentadorias. Sentindo-se enganados, os fiéis que lotavam o templo luxuoso finalmente devem ver que quem fechou a igreja não foi Lula, e sim seus próprios líderes junto às financeiras.
                    O mesmo Master que, blindado pelo jornalão-emissora O Globo em todo esse tempo, graças aos negócios milionários traçados entre ambos, agora corrói duramente a imagem do poderoso grupo empresarial de comunicação de massa.  É, Galípolo, talvez sem o saber, salvou o Brasil ao liquidar o Master. O troço corroeu todos que com ele tiveram algum contato.
Para saber mais
- https://www.youtube.com/watch?v=VNfmt9-E5Ec (O historiador – ESTADÃO TENTA ATACAR A ESQUERDA E EXPÕE LAURO JARDIM DA GLOBO EM PAGAMENTO DO BANCO MASTER)
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cqxdrwyl7leo (como dinheiro do contribuinte pode acabar sendo usado para cobrir parte do rombo bilionário do Banco Master, 10/2/26)
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DINO, O JUSTO

                    Quando assumiu seu terceiro governo, Lula foi visto como a grande esperança para salvar o STF e outras instituições, ameaçadas e aparelhadas pelo governo anterior em 4 anos. O experiente estadista se viu pressionado por duas frentes opostas: os movimentos identitários (feministas e LGBTQIAPN+, e étnico-raciais.), e a grande oposição congressista formada pelo Centrão e pela ultradireita.
                    Até hoje, Lula frustrou os movimentos identitários, preocupados com a ameaçadora falta de representante no STF. Mas o governo priorizou enfrentar a pressão da oposição e a eminente aposentadoria de Ricardo Lewandowski (2023) e Rosa Weber (2024). O paulista Cristiano Zanin entrou em 2023, e no ano seguinte, o maranhense Flávio Dino. Ambos brancos e heterossexuais, mas nada ruins.
                    Dino: uma nomeação necessária – se Zanin aproveitou a Vaza-Jato (Intercept Brasil) para acionar o STF a anular a condenação do então cliente Lula, Dino entrou num momento bem especial. Já abordei sobre ele em artigos anteriores (breve biografia e sua carreira e orientação política). Aqui focarei em induzir os leitores a refletir sobre os motivos que levaram Lula a indica-lo para o STF., bem como suas consequências imediatas.
                    A ida de Dino para o STF frustrou parte da militância esquerdista que via nele o substituto adequado de Lula na presidência. Mas a galera acabou vendo a nomeação como estratégica para o próprio governo atual. São duas as motivações principais a nortearem o fato: os direitos sociais, e a relação do parlamento com os recursos das emendas.
                    Mesmo hoje fora da carreira política e com a sisudez do ambiente jurídico, Dino é politicamente alinhado a Lula em temas sociais. Defende a gestão estatal de serviços públicos essenciais e os direitos trabalhistas, e não esconde sua preocupação com o risco social decorrente das postagens mentirosas e odientas das redes sociais num ambiente livre de regulação.
                    Conquistada na carreira política, sua popularidade não se exauriu como ministro do STF. Exceto pouquíssimas decisões duvidosas, como a da mineração indígena das próprias terras, Dino tem feito o que foi considerado pelos jornalões “interferência indevida no Legislativo”, como o popular bloqueio de emendas ilícitas (sem transparência) . Para os lulistas, um breque na corrupção, para os bolsonaristas, uma ironia financeira.
                    Apesar de servirem como campanha eleitoral, as emendas parlamentares viram recursos para as regiões de origem. Mas acontece que a forma legal é publicamente rastreável no Portal da Transparência. Muito popular pela gratuidade e transações facilitadas, o Pix foi usado para mascarar muito da ilicitude dos repasses, daí as emendas pix. Os envolvidos chiaram pra valer.
                    Os bolsonaristas criticaram também a sua determinação de punir magistrados criminosos com perda de cargo e salário abolindo a aposentadoria compulsória. Ele já havia dado fim nos penduricalhos salariais na elite do funcionalismo público, causando o maior furor entre altos magistrados que ameaçaram greve, mas ficaram nisso, e no Congresso que quis engordar proventos dos servidores das Casas.
                    Tais penduricalhos são facultativos: o nomeado pode abrir mão deles na sua posse. E quiçá, Dino tenha se abstido deles, apesar da tradicional hipocrisia de se tirar dos outros sem se abster dos seus. E, em toda a sua carreira política, Dino nunca foi comprovadamente corrupto – apesar da insistente mentira sobre os respiradores na época da C19, na verdade um dos muitos crimes de Pazuello na pasta da Saúde.
                    Com a adição dessas proezas, a nomeação desse maranhense foi a resposta sagaz de Lula àqueles que sempre insistentemente o rotulam de ladrão e corrupto.  Agora, se esses inimigos políticos entenderam o recado, não importa. O que importa é a clareza escancarada dessa resposta, e até agora indiscutivelmente, a justeza de Dino, que tem afetado a elite nas diversas frentes – doa a quem doer.
Para saber mais
- https://www.youtube.com/watch?v=JqccbXkruTY (CNN BrasilDino aponta falta de transparência em emendas para a Igreja da Lagoinha)
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domingo, 29 de março de 2026

ANÁLISES-CURTAS 107 (clima: do natural ao humano)

 


CLIMA EXTREMO: NATURAL OU NÃO?

                    A abundância de notícias de desastres por extremos climáticos – tempestades, ondas de calor ou frio e secas – chama a atenção coletiva. Em meio a ondas solidárias, alguns apontam “sinais divinos”, outros culpam prefeituras e governos e outros, aquecimento global. Na percepção de maior frequência e intensidade, pergunta-se: por que tanto extremo?
                    Enquanto climas temperados têm 4 estações distintas, os tropicais têm 2: chuvosa (primavera-verão no Brasil) e seca (outono-inverno), diferindo-se em médias térmicas e pluviométricas. A dinâmica cíclica não é muito regular, havendo variações pontuais em anos de série histórica, por poderosos fatores naturais e induzidos pelo homem.
                    Fatores naturais – os de curto prazo são oceânicos (El Niño- aquece o Pacífico equatorial; e La Niña- o contrário), podendo chegar a 5 anos cada. Os de longo prazo, o Ciclo de Milankovich (mudança angular no eixo de rotação terrestre em 23-35 mil anos) os biomas nativos intocados e a constância vulcânica global em tempo parecido são bem documentados na geologia.
                    Os citados fenômenos oceânicos respondem pelas mudanças geográficas de padrão meteorológico e térmico no decorrer das estações, com intensidade e duração variáveis. Já os outros dois são documentados como fatores de extinções em massa mediante estudos geoquímicos e datações em estratos rochosos e colunas de gelo fóssil polar.
                    As correntes oceânicas são também um importante fator de padronização climática. DAda a sua grande riqueza de detalhes, elas serão objetos de artigo específico.
                    Fatores artificiais – são induzidos por atividade humana intensiva a partir da exploração de recursos maturais e de modificações ambientais profundas e culminando nas atividades econômicas diversas. Compostos químicos industriais poluem água, solo e ar por vários meios (agrotóxicos, armas químicas, acidentes), e gases alteram a atmosfera. 
                    O lema “Domar a natureza” moldou culturas, valores e sistemas econômicos consolidando civilizações. Hoje, quase 70% dos ambientes naturais foram alterados ou degradados, se tornando irrecuperáveis em algumas regiões. A constância cumulativa em anos resulta em importantes e profundas alterações na dinâmica climática.
                    Aquecimento global e mudanças climáticas – há uma confusão popular sobre os termos que já foram abordados no blog. Apesar das informações midiáticas, a compreensão geral ainda é baixa. Fala-se muito de aquecimento global como fenômeno recente, o que revela o desconhecimento da existência de formas distintas e classificadas.
                    Os principais são CO2, metano e vapor d’água. Seu volume no ar aumenta ou diminui conforme a intensidade dos fenômenos naturais (vulcões, decomposição orgânica, umidade), mas sem a constante sobrecarga intensiva da ação antrópica. A atividade econômica os emite até 150 vezes mais do que erupções vulcânicas e decomposição juntas.
                    Mudança climática é a oscilação no padrão sobretudo climático. A natural foi longa e gradual, determinada por ciclo de Milankovich, ciclos solares e gás-estufa, com extremos meteorológicos mais raros. Já a antrópica é a mudança exacerbada e rápida, e se caracteriza por extremos sazonais e meteorológicos mais intensos e frequentes.
                    Decorrências – apesar da atualidade midiática dos extremos meteorológicos, a ciência aponta a história da Terra recheada de mudanças climáticas. As Terra bola de neve de 717-635 milhões de anos atrás e as alternâncias glaciais-interglaciais de 2,6 milhões de anos ao presente são as mais conhecidas em interferências do clima sobre toda a biosfera.
                    A humanização das tragédias climáticas tem nas narrativas dos escribas da Antiguidade os seus primeiros registros. Mas a indução sobre s efeitos globais do fenômeno só veio com a teoria da evolução por seleção natural de Darwin no século XIX, e as medições históricas das médias térmicas globais, trefinadas e tornadas obrigatórias no século XX.
                    A humanização da tragédia climática não só reforça a comprovação científica das mudanças do clima na história do planeta. Ela também nos faz pensar que existe uma mutualidade retroalimentar na relação entre pressão ambiental sobre os seres vivos (aí inclusas as sociedades humanas) e as reações destes ao próprio meio, ontem, hoje e amanhã.
                    As mudanças climáticas são originalmente naturais. Mas nossas ações acumuladas as apressaram o aquecimento natural, e veio a emergência climática – que agora vivemos e nos preocupa. Há solução? Não vejo um retorno, mas é possível estabilizar as condições atuais, a elas nos adaptar e manter a biodiversidade ainda vigente por mais tempo. Mas aí já envolve uma política única e coletiva para toda a comunidade global – cuja viabilidade só a experiência dirá.
Nota[1] espécies fósseis indicadoras de especificidades ambientais (clima, substrato ou fonte alimentar, profundidade em meio aquático, etc.)
Para saber mais
 https://www.youtube.com/watch?v=Tuq4kdoYNrE&t=221 (BBC News Brasil4 falácias sobre as mudanças climáticas, 26/12/23)
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CLIMA: A OPÇÃO PELO ESTRAGO

                    Brasil, anos 1935-40: enquanto grandes inundações destruíram habitações e mataram pessoas no Sul, secas severas no Norte e no sertão nordestino desencadearam fome e êxodos massivos para o Centro-Sul, que sofria efeitos dos extremosOs migrantes viraram operários agropecuários no centro-oeste e industriais no Sudeste. Em 1983, o Brasil reviveu os mesmos extremos. E em 2023-24, novamente o Sul foi inundado.
                    Brasil, 1971: foi fundado em SP o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), por influência da competição sideral entre EUs e URSS e do interesse em estudar o clima e o mapa de biomas com satélites de pesquisa. Através dos mapeamentos do INPE, a Amazônia era canteiro de obras para militares e manto de riquezas para os empresários, o cerrado e o Pantanal campos agropecuários, e a o sertão da caatinga, uma região desolada e pobre.
                    Nos mais de 50 anos que se seguiram, os biomas brasileiros têm sofrido com a intensa predação econômica humana. Povos indígenas – alguns deles inteiros – sumiram do mapa cultural e linguístico. Rios antes naturais, que ofereciam água de beber e divertiram muitos, degradaram ou desapareceram deixando saudades. Nas cidades, hortas de quintal deram lugar alimentos caros e cimento estéril, e também poluição, lixo, degradação e mais recordações dos saudosistas.
                    Essa foi a senha para outra mudança drástica, a do clima e dos fenômenos meteorológicos. Todo mundo reparou como calorões duram mais tempo do que antes e as chuvas se concentraram em poucos dias. Desastres por temporais sempre existiram, mas eram relativamente esparsos e mais ou menos previsíveis. Hoje surgem em qualquer época e, às vezes, imprevistos na sua intensidade e frequência – apesar das chuvas corretamente previstas.
                    Como já explicado no artigo anterior, a mudança climática – apressada e exacerbada pela ação humana mais predatória e gananciosa – se marca de extremos meteorológicos cada vez mais intensos e frequentes, que sentimos a cada temporada de calorão que impede um passeio agradável ao ar livre ou nos obriga a botar móveis para o alto a cada temporada agora imprevisível de enchentes. E, nessa história toda, o que têm feito as partes governantes?
                    Governos – a maioria dos governos tem exercido medidas de remediação do desastre, sobretudo na infraestrutura urbana, a partir dos repasses de recursos por governos federais, enquanto ondas solidárias sempre fazem a sua parte com donativos em alimentos e vestuário. Mas tais medidas são temporárias e nem sempre dão certo – seja por parcialidade na reconstrução, insuficiência de recursos (ou corrupção mesmo), ou despreparo para a repetição de extremos climáticos.
                    Entre as péssimas exceções, o motivo é o negacionismo climático – que anda de mãos dadas com greenwashing (engodo publicitário de falsa ecologia) empresarial, que abundou na COP30, que resultou em mais fracassos do que vitórias, e agora marca o governo Trump 2. Mas vale ressaltar: o negacionismo não é apenas de empresário e político. Ele também está no comportamento da patuleia.
                    A patuleia – em geral, o povo concorda que o clima “está cada vez pior porque agredimos a natureza”. Mas depois esquece: no primeiro momento cortam uma árvore e a descartam ou aproveitam a madeira para seus luxos. Depois reclamam da feiura paisagística de concreto ou da falta da sombra fresca de outrora. Nos hoje raros quintais, pomares e hortas dão lugar ao cimento e a alimentos processados e caros.
                    Por isso que nós somos outro fator de extremos meteorológicos. Acostumado com medidas de remediação de desastres, o povo contribui com políticos omissos. Acham que “os garis são pagos pra limpar nossa sujeira”, o que não é verdade. A árvore frutífera retirada com raízes pode ser replantada em local mais adequado, longe da fiação elétrica. Se fossem respeitadas, as lixeiras não seriam retiradas dos postes.
                    Solução múltipla – é preciso reconhecer: a emergência climática se iniciou com a era nuclear (anos 1950-presente). Surgidos nessa época, os satélites aperfeiçoaram a Climatologia, que mapeou regiões críticas, identificou invernos nucleares acidentais e ciclones furiosos com nomes femininos. De início sutil no hemisfério Norte, o novo padrão climático agora é global – mas só agora o admitimos ao percebermos o mundo 1,5°C mais quente.
                    Com esse novo acréscimo, admitimos que o novo clima não tem mais retorno. Daí a insistência de alguns geólogos de nomearem o momento a partir dos efeitos da era nuclear há 70 anos, de AntropocenoO que não significa que a biosfera que nos envolve findará logo. Ainda há como corrermos atrás de uma solução múltipla – que começa em repensarmos nossos conceitos nesse tema, já combatendo o negacionismo e planejando ideias.
                    A solução depende de todos: sociedade, empresas, políticos. Conscientização ampla sobre consumo e descarte, recuperação de áreas degradadas improdutivas com espécies nativas e novas zonas de proteção permanente, agroecologia ampla, tratamento de esgoto e outros poluentes, filtragem de escape de veículos e fábricas e combate ao crime organizado florestal são as políticas principais. Jardins arborizados em praças e edifícios ajudam.
                    Os resultados não reverterão o novo padrão global, mas já serão suficientes para prolongar a habitabilidade planetária em conforto relativo. Os locais surgem mais rápido, e os mais amplos poderão levar um ou mais séculos. De qualquer forma, as ações beneméritas amplas já eram para serem executadas, como as medidas preventivas contra desastres possíveis por futuros extremos meteorológicos. Mas, claro, tudo tem que ser bem planejado.
                    Claro que a remediação vai ser necessária. Mas os gastos públicos relaciondos serão bem menores em cidades  que adotarem políticas preventivas. A omissão negacionista que origina a desculpa “não imaginava isso tudo” não deve mais continuar um minuto sequer.  A oportunidade de todos revermos nossos conceitos – especialmente governos e empresários – é agora. A continuidade do protelamento dessas novas políticas significa a opção pelo estrago e pelo sofrimento popular e econômico. Mesmo parcialmente culpado pelos desastres atuais, o povo não pode pagar sozinho.
Para saber mais
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CURTAS 109 - ANÁLISES (política 2026)

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