quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ANÁLISE: Himalaia: o alerta global

 

                    A Terra é um planeta dinâmico. Entre os leigos, toda cadeia de montanha é quase uma coisa só. Mas geógrafos e geólogos reconhecem dois tipos: serra e cordilheira. Serra denomina agrupamentos antigos e dissecados pela erosão, em geral alinhados a falhas antigas e de menor extensão e altitude. Já cordilheira designa cadeias formadas por compressão recente e ainda operante de placas tectônicas, que podem atingir extensão transcontinental e grandes altitudes.
                    As serras brasileiras são em geral antigas linhas de falha com relativa estabilidade geológica. Mas há uma exceção notável: a Serra do Espinhaço. Ela é tecnicamente cordilheira, graças à complexidade geológica (compressão antiga de placas, sedimentação, neotectônica e erosão), e também à grande extensão (de Ouro Branco, centro mineiro, até a Chapada Diamantina na Bahia). Hoje, ela é patrimônio da Unesco, como reserva da biosfera – sob ameaça.

Diferentes visões 
                    Em toda a sua imponência e beleza, as cordilheiras atraem diferentes olhares. Para os nativos originários, as montanhas são sagradas moradas espirituais. Para turistas de aventura, elas são desafios excitantes para explorar.  Para os cientistas, elas possibilitam novos achados. E para este artigo vale a dinâmica da ciência – e daí um alerta à ignorância geral sobre o papel delas e seus perigos subjacentes.

Papel— 
                    Tanto as serras quanto as cordilheiras exercem papel na configuração da superfície e na distribuição da biota, do clima e dos recursos hídricos. Mas, graças às dimensões imponentes, as cordilheiras o exercem de forma ainda mais evidente. Picos nevados são nascentes de rios que atravessam os trópicos úmidos de um lado e impedem a umidade do outro lado.
                    Graças aos Andes sul-americanos e à Sierra Madre centro-americana, a América Latina é quase totalmente tropical úmida. O mesmo se verifica no subcontinente indiano e adjacências devido ao arco do Himalaia. As respectivas áreas secas se limitam à zona costeira oeste latino-americana e à Ásia central (altiplano tibetano, Mongólia e noroeste chinês).

Perigo iminente e o desastre do Nepal/Tibete— 
                    Se de um lado as cordilheiras funcionam como divisores climáticos e ambientais, por outro lado elas proporcionam eventos naturais que podem se tornar desastres humanitários. Terremotos fortes são comuns e compartilham com eventos climáticos como fatores de deslizamentos (avalanches de neve, fluxos de detritos), um risco constante para a vida humana.
                    Como as vertentes são muito íngremes e os vales em geral bastante estreitos e altos e profundos, em forma de V, encaixados, resta aos moradores residirem nas estreitas áreas planas e nas partes mais baixas das vertentes, que se tornam os caminhos dos canais de escoamento dos rios e também de avalanches e fluxos de massa. E é nesse cenário que entra um fato trágico que deu fez os olhos do mundo inteiro se virarem para um pequeno e pitoresco país da Ásia Central.

Nepal 
                    O Nepal é um país conhecido pela população de fé majoritariamente hindu e budista, e arquitetura que mistura influências indiana e tibetana. Ele se “espreme” ao sul com a Índia, ao norte com o Tibete e com a China, e a oeste com Butão. O relevo é montanhoso, havendo mais planícies florestadas úmidas ao sul. A capital Katmandu fica num altiplano que dá vista para algumas das montanhas mais altas do mundo. O “topo do mundo” Everest está bem na fronteira com o Tibete.
                    Grande gerador de divisas para um país pobre, o turismo abrange dupla face do Nepal: a natural, que atrai turistas de aventura nas montanhas e nas florestas do sul; e a humana, pela diversidade étnica (mais de 70, entre elas os sherpas que guiam alpinistas e turistas de montanha), gastronômica e religiosa (as principais são hinduísmo e budismo tibetano). Os nepaleses viviam essa rotina normalmente, até vir 26/8/26.

A magnitude de um desastre 
                    Na manhã dessa mesma data, nossas telas foram invadidas por imagens aterradoras de um gigantesco, escuro e espesso tsunami que num piscar de olhos engoliu obras monumentais e pessoas que correram no puro instinto. Tudo foi tão repentino que só alguns minutos depois deparamos que foi um desastre, sobre o qual só compreenderíamos mais tarde. Foi um poderoso fluxo de massa.
                    Ele assim foi classificado devido à sua composição (gelo derretido, rochas e água). Algumas mídias chamaram o evemto de avalanche, devido ao bloco de gelo desprendido. Mas uma avalanche propriamente dita é composta essencialmente de neve não firme cujo acúmulo no declive da encosta se sucumbe à força gravitacional. Ventos catabáticos que sopram declive abaixo, esquis e pisoteio facilitam o fenômeno.
                    A energia desse fluxo foi tão colossal que o Serviço Geológico dos EUs (USGS) cogitou inicialmente um terremoto de até 5,2 magnitudes, depois refutado com ajuda de satélite. Fotos do Google Earth após o fenômeno revelam o seu ponto de partida em Langtang e a extensão total alcançada, mais de 200 km, numa velocidade de 200 km/. A fisiografia dos vales percorridos mudou, a base alargada por metros de sedimentos.

O fator 
                    Tudo começou quando um bloco de gelo semiderretido de 610 metros de largura, já contendo detritos rochosos em seu corpo, se desprendeu da vertente de uma montanha em Langtang. Escorregou em queda quase livre pelo permafrost já instável da vertente quase vertical de 1200 metros. Agregando mais blocos de rocha, lama e vegetação pelo caminho, o fluxo de massa se engrossou ao atingir os rios abaixo.
                    [Permafrost é um solo congelado. Sua água sólida estabiliza unindo a camada superficial ao horizonte orgânico (turfa) logo abaixo e o substrato rochoso inferior. Seu inimigo é calor global exacerbado por nós. As dolinas (buracos) na Sibéria resultam da liberação explosiva do metano da turfa pelo degelo. No Nepal, gelo e permafrost atingiram um lago glacial represado por moraina (muro sedimentar deixado por geleira) e gerou um fluxo de massa por rompimento de lago glacial (GLOF em inglês)].

Os números do desastre— 
                    Após o fluxo, o mundo estarrecido voltou-se para o Nepal. Equipes de resgate de vários países se juntaram para buscar sobreviventes e o maior número possível de vítimas fatais. Foi preciso desafiar o relógio para identificar os corpos ainda íntegros o suficiente para chancelar a identificação. No momento em que escrevo este arquivo, os números do trabalho árduo de resgate podem ter atingido muito mais gente do que as matérias têm citado, enquanto as autoridades calculam os prejuízos materiais.
                    Nas primeiras horas de 27/8 vieram os primeiros números. A BBC de Londres divulgou o resgate de mais de 380 mortos e estimou em torno de 900 desaparecidos. Mais tarde, o Vatican News divulgou 788 corpos e um total estimado de 90 mil pessoas atingidas. A imprecisão numérica maior é de desaparecidos, variando entre 1900 a mais de 3000 – devido à extensão do fluxo.

Uma reflexão do pós-desastre— 
                    Após terminado esse grande fluxo de massa, novas fotos de satélite já disponíveis na internet e no Google Earth revelam mais mudanças fisiográficas nas montanhas e no ponto de partida (Langtang) do que o que as supracitadas. Já surgiram dois novos lagos glaciais adjacentes à citada região montanhosa. Eles mandam um recado claro: novo fluxo de massa acontecerá em futuro próximo, pois estamos em emergência climática.
                    Nepaleses e outros povos do Himalaia conhecem os fluxos de massa, em geral ligados a terremotos. A diferença é que, com o progredir do aquecimento global, a tendência será a de amento da frequência e da magnitude do fenômeno. E, para quem não sabe, as grandes cordilheiras são alvos de estudos do clima. Não só pelo papel que exercem, mas pela sensibilidade a mudanças ambientais e atmosféricas fora da curva, que talvez se explique na rarefação do ar em grandes altitudes.
                    De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que reúne 2000 cientistas de dezenas de países, o Himalaia – a terceira maior reserva de água doce congelada do mundo, e por isso alcunhado de 3º Polo – sofre maior velocidade de aumento térmico do que a média global. Cerca de 65% da cobertura do gelo da cordilheira foram perdidos pelo aquecimento global desde 1990. Estima-se que até 2100, se chegue a 85%, se continuar o atual ritmo de emissão de gases-estufa.
                    Atualmente, o Himalaia abriga mais de 300 lagos glaciais, dos quais 121 representam perigo iminente para novas ocorrências desastrosas de magnitude parecida, ou talvez até maior do que o recente desastre em futuro próximo. E,falando em lagos, logo após o grande fluxo de massa se formaram mais dois lagos, explicados pela mudança fisiográfica do alto do vale Langtang pelos blocos rochosos deslocados.
                    Humanamente, isso já se reflete. A mudança climática hoje só perde para a guerra como fator de migrações massivas. Vale afirmar que capital, guerra e clima se interligam mais do que só por causa e efeito. O capital gera a guerra. Esta coalbora significativamente na exacerbação do aquecimento global. Este piora o clima e a degradação ambiental preexistente, que força a migração para áreas melhores, já cobiçadas mesmo sendo desabitadas. É um feedback perverso e constante em nome do lucro.
                    Só que nada é para sempre. Como os demais recursos, a água findará um dia, e no final, pobres e ricos estarão no mesmo patamar. Em 30 anos, 40% da água doce já se foram da superfície. Dos 8 bilhões de pessoas, quase 50% perderam acesso constante, e 2,5 bilhões não têm água potável. Insegurança alimentar afeta até 2,5 bilhões de bocas. Capitalização excessiva do recurso, guerra e degradação ambiental estão por trás e o calor planetário crescente agrava esse processo.
                    Por enquanto, a água se renova em ciclos, que se tornam mais irregulares com o aquecimento global turbinado. Esse calor extra torna mais alta a taxa de evaporação em relação à de reposição. Ainda estamos em tempo de buscar soluções capazes de brecar a emissão de carbono – e também de criar tecnologias de absorção de excedentes de carbono atmosférico. O Himalaia já deu seu recado. E outras cordilheiras o darão também, talvez com a mesma magnitude. Ou, quiçá, maior.
Para saber mais
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/c70l4jen7qro (BBC News 27/8/26 --- colapso glacial: o fenômeno que causou a enchente na fronteira entre Nepal e Tibete).
- https://globoplay.globo.com/v/14905031/ (vídeo- 26/8/26- novas imagens mostram avalanche avançando e destruindo vilarejos)
- https://news.un.org/pt/story/2025/08/1850796 (ONU, 22//1/2026- Mundo tem 2,1 bilhões de pessoas sem água potável e 3,4 bilhões sem saneamento).
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CURTAS 118- ANÁLISES (falência mineira; misoginia na eleição)

 

FALÊNCIA MINEIRA

                    Em 2014, os mineiros já estavam cansados da dinastia tucana no governo estadual. Foi Eduardo Azeredo (1995-99), Aécio Neves (2003-10) e depois Antônio Anastasia (2011-14), interrompidos somente pela breve era Itamar Franco (2000-02). No pleito de 2014, o povo da Grande Belo Horizonte escolheu o petista Fernando Pimentel (2015-18) devido à irrepreensível administração como prefeito da capital.
                    Além da capital e adjacências, a eleição de Pimentel foi fortemente impulsionada pela população do Norte e Nordeste de MG, tradicionalmente lulistas. Muito empobrecida (só superada pelo Norte), a outrora próspera Zona da Mata também o escolheu. Mas ele não conseguiu resolver tantos problemas acumulados em 4 anos e deu lugar, em 2018, a alguém até então desconhecido da maioria dos mineiros: Romeu Zema, do mal conhecido partido Novo.
                        De biografia já abordada no blog (vide Zema nas Entrelinhas em CURTAS 113), Zema foi eleito como novidade – uma jogada para substituir velhos nomes que mais pareciam nuca querer resolver os problemas, tal como aconteceu com Jair Bolsonaro na presidência. O que a patuleia mineira certamente não imaginava é que nem toda novidade vale a pena. E Zema mostraria, aos poucos, essa verdade que terminaria sendo um tanto cruel para todo o Estado de Minas Gerais.
                        Político novato, Zema prometeu 1001 maravilhas e propôs gerir MG com “olhar diferente”. Mas, parcela considerável do povo percebeu depois que ele geriu o Estado como se fosse negócio seu. Congelou salários dos servidores enquanto os perseguia. Vendeu 112 empresas estaduais por bagatela. Deu isenção fiscal às mineradoras e ao seu Grupo Zema. Ferrou a política ambiental¹.
                        E as rodovias? As MGs ficaram ao léu – exceto o trecho de acesso ao seu sítio no Triângulo. As BRs têm alguns trechos em obras e outros em fase de concessão para a iniciativa privada. Ligando MG a SP, a ponte Sacramento foi alvo de debates recentes sobre a obra dividida (o lado paulista renovado, o mineiro largado), tornando o governo Zema uma piada nacional.
                    Dívida assombrosa— mas foi somente pouco antes de Zema renunciar ao governo para se lançar presidenciável, que a maioria do povo mineiro iria saber da relação de Zema com o erário público. Considerou a privataria “grande investimento”. Oriundo principalmente da carga tributária estadual – uma das mais pesadas do país – a riqueza em dinheiro foi convertida na maior dívida estadual da História: R$ 205 bilhões no total. Isso mesmo: 205 bi-lhões.
                    Muito desse rombo todo pode ser compreendido pelos maus feitos citados em Zema nas entrelinhas. A grana da privataria virou pretexto para pagar parte da dívida. Mas o valor das estatais de pequeno porte (e subsidiárias) e de participações acionárias menores foi baixo. Esperava vender as grandes, mas enfrentou a barreira sindical e de Brasília. E beneficiou o Master com R$ milhões.
                    Diante da dívida impagável e da pressão de manter grandes estatais públicas, Zema propôs o regime de recuperação fiscal (RRF). O governo Lula o homologou de 1/1/25 a 31/12/33. Depois, o ministério da Fazenda mudou para o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), com novo refinanciamento da dívida do estado com a União.
                    O patrimônio pessoal— enquanto a ultradireita faz cortina de fumaça sobre a compra de trajes e acessórios finos e a sobra de grana declarada pela deputada Erika Hilton (Psol-SP), que visa a reeleição, Romeu Zema ri à toa. Como os aliados reacionários, ele enricou muito: R$ 49 milhões só no segundo mandato. Entre outras coisas que vale a pena investigar, enfatiza-se aqui que ele reajustava seu próprio salário, do seu vice e de seus secretários, em cerca de 300% ao ano.
                    Tamanho reajuste se deve a um dispositivo criado e sancionado pelo próprio Zema, que propunha essa proporção surreal, que não se restringe a ele. Estende-se ao vice-governador e aos seus secretários, o que decorre naturalmente num rombo bilionário considerável no Tesouro estadual. Não por acaso, só o salário do governador, de R$ 10.500, saltou para R$ 41,8 mil neste ano.
                    Spoiler: segundo jornais, o reacionário Nikolas Ferreira declarou ter R$ 36,8 mil em 2022. Hoje sua finança saltou para R$ 3,9 milhões, mais de 10 mil vezes. Não é motivo de parabéns, mas de vergonha recorde. Cabe frisar que isso exclui os vultosos penduricalhos além do salário de R$ 42 mil, a passagem como vereador e já ser influenciador de amplo público jovem. Daí vem uma análise crítica.
                    Embora não tenha provas do contrário, a relativamente pouca grana declarada em 2022 não significa que ela seja verdade. Ele já era influencer notório antes de ser vereador. Mas isso não se resume a um ou outro nome. Declarar menos do que realmente tem é um artifício típico entre agentes políticos. A vergonha disso está no uso impune da política para enriquecer tanto em tão poucos anos.
                    Fria análise final —como os demais artigos que já escrevi, este tem somente a intenção dialética de analisar criticamente um governo a partir da verdade por trás dos fatos noticiados. Em si, o reajuste salarial é lícito e moral. O imoral é a proporção de 300% anual e “corrigir inconstitucionalidade” é um desrespeito vergonhoso aos cofres estaduais, que não se comparam com os da União.
                    Caro Zema, inconstitucionalidade foi punir servidores estaduais com insistente congelamento salarial e desmonte através de privataria à revelia popular. Fora a persecução a servidores críticos de seu governo. Inconstitucional foi a barbárie contra ambiental ao dar aval para mineração ilegal em áreas proibidas (de preservação) e críticas como a Serra do Curral, que abastece a Grande BH.
                    Enfim, quase inconstitucional é o seu descaramento de se tornar presidenciável depois de tudo isso. Ainda bem que as suas chances são mínimas, pois a maioria já viu que seus feitos são uma verdadeira piada de mau gosto – ou um perigo para o Brasil, após pôr Minas Gerais de joelhos e de pires na mão.
Nota: ¹deu licenças ilegais para mineradoras atuarem à noite em áreas proibidas por proteção permanente legal.
Para saber mais
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NA ELEIÇÃO, O FEMININO

                    A misoginia (aversão ao feminino que potencializa a opressão contra a mulher) é um tema multifatorial e complexo. Apesar do termo em si ser recente, seu pragmatismo tem longa história, por fatores morais e religiosos. Se discute opressão há mais de 1 século, com temas variando da participação no mercado de trabalho à política.
                    No Brasil, o Código Penal (1940) já criminalizava a violência doméstica. Mas havia brechas, só cobertas pela lei Maria da Penha (2006), décadas depois de o tema cair no debate político. Apesar dos avanços, ainda há inércia policial frequente, certa dificuldade jurídica e subinvestimento em política protetiva efetiva à vítima.
                    Mas a criminalização da misoginia segue debatida em virtude de outro fator. Resultado da ideologização do machismo cultural pela ultradireita, o movimento masculinista culpa a vítima pelos ataques e valoriza o “orgulho macho alfa hétero”, além de inverter dados da violência de gênero como o fez o ator Juliano Cazarré, celebridade novelesca da TV Globo.
                    Impulsionado pela ultradireita (MBL e bolsonarismo), o masculinismo já bateu de frente com decisões do STF em direitos humanos (união homoafetiva em 2011, anencefalia como fator de aborto legal em 2012 e criminalização da LGBTfobia em 2019). Grupos masculinistas como redpills e legendários ainda querem o fim do voto feminino, tornado mais um ideário da ultradireita, que vê nas mulheres um obstáculo para a sua vitória.
                    É um terreno fértil que torna a discussão acerca do feminino tão importante.
                    No avanço legal, o crime — durante o governo Dilma 2, em 2015, foi sancionada a Lei do Feminicídio, que inclui o termo (um neologismo que designa o homicídio de mulheres) no CP e inclui mulheres trans como vítimas a partir de 2024*. Hoje, feminicídio é crime hediondo que pode dar até 40 anos de cadeia, a depender da gravidade. Apesar dos avanços, o flagelo não foi mitigado. Pelo contrário.
                    Entre 2018-22, a agressão não letal subiu 19% e a fatal, 23%. Crimes sexuais inflaram 45%. Entre 2022 e 2024, as denúncias de feminicídio explodiram 121%, em relatos com ou sem agressão anterior (crime sexual, ameaça, cárcere privado, espancamento). Na população geral, 30% das mulheres afirmam ter sofrido ao menos um ataque, principalmente por autores conhecidos. Entre as evangélicas, essa cifra chega a até 40%, o que surpreende quem vê nessa fé uma mensagem de paz.
                    Embora específica ao assunto político, a violência política de gênero também importa, por ter aumentado de forma muito significativa. Ela se explica na ultrapassagem da fronteira dos ambientes políticos, a mutilar as relações afetivas entre amigos e a intimidade dos núcleos familiares. É o ódio fascista usando “Deus, família e liberdade” como slogan, claramente herdado dos nazistas,
                    O tema nas eleições— a direita usa a retórica “bandido bom é bandido morto” como segurança ostensiva. A esquerda e a centro-esquerda propõem meios mais efetivos de medida protetiva às vítimas sobreviventes da violência de gênero. Esses grupos progressistas também defendem penas mais duras aos feminicidas. Mas vem uma pergunta: o tema relacionado à mulher garante eleição?
                    Vale uma resposta qualitativa direta: sim. A penetração eleitoral é grande entre mulheres em geral, idem evangélicas. Estas últimas querem integridade física e psicossocial; as demais, a plenitude de ser mulher. A saída de Michele Bolsonaro do PL Mulher possibilita às cristãs devotas migrar seu voto para candidatos progressistas, preferencialmente mulheres.
                    A penetração eleitoral do tema é maior entre antifascistas e mulheres – idem evangélicas considerando-se, claro, a criminalidade. Nesse sentido, o tema daria uma boa margem de votação. Entretanto, a saída de Michele Bolsonaro do PL Mulher, antes grande nicho de base, possibilita resultar em grande margem de dúvida entre as cristãs devotas.
                    Diante disso percebemos mudanças de conduta de alguns políticos reacionários. É na linguagem. Para se manter reelegíveis, eles mudam a linguagem fazendo seus apoiadores entenderem uma defesa à pauta. E podem se reeleger, para na nova legislatura votarem contra qualquer proposta que criminalizem a misoginia.
                    Mas isso não significa derrota do tema. Ele tem poder de voto. A maioria dos eleitores é feminina. E talvez a maioria masculina seja ciente do valor da mulher, apesar da cultura machista. Portanto, a pauta contra a misoginia tem grande chance de apoio político – até porque quem é da direita precisa das eleitoras para sua continuidade.
Notas:
* Mediante decisão do STF de 2019.
Para saber mais
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domingo, 9 de agosto de 2026

CURTAS 117 - ANÁLISES (Golpismo à solta, discordâncias)

 

NOVIDADES DO GOLPISMO

                    Na rodada de pesquisas de intenção de voto ocorrida em 29/7, o presidenciável Flávio Bolsonaro agora dista do líder Lula em média de 6%. Para os bolsonaristas empedernidos, o green card autorizado por Trump a Eduardo Bolsonaro teve efeito na reaproximação. Apesar de pessoalmente boa, Flávio se mantém preocupado: surgiram comprometedoras novidades na mídia.
                    Alegada por ele como criação de IA, a foto dele com capanga de Vorcaro em restaurante é, sim, verídica, segundo a PF. A deepfake audiovisual de IA com imagem, voz e linguajar de Jair Bolsonaro foi feita para acusar o PT de cria-la para a campanha televisiva. Aí, Xandão ameaçou interferência do STF caso Nunes Marques e André Mendonça no TSE não impeçam a ilegalidade.
                    Para acalmar o climão, a ilícita deepfake foi alegada pela defesa de Flávio Bolsonaro na "pura razão política". Acontece que juristas como Xandão e Dino não qualquer coisa. Ainda asssim, em ato desafiador do PL em Santa Catarina, Flávio exibiu o post para seu público. Ainda durante o climão, outra notícia veio ao ar.
                    Ligado aos esquemas ilícitos de Vorcaro envolvendo políticos e o filme Dark Horse, Victor Lima foi capturado pela operação Compliance Zero da PF em Dubai e já está preso no Brasil. Aqui ele confessou sua partcipação e integrar Os Meninos, grupo suspeito de de ataques cibernéticos a instituições, monitoramento ilegal e intimidação a autoridades.
                    Na mesma semana, o Itamaraty vetou os vistos de dois supostos jornalistas estadunidenses que vieram questionar se as urnas eletrônicas funcionam mesmo sem internet e se são seguras. Além da razoável desconfiança do governo com os visitantes, é interessante a coincidência fática entre o veto dos vistos e a prisão de Victor Lima em Dubai.
                    Mas a semana continuou movimentada. O ex-ICL Leandro Demori divulgou nas redes sociais que o consulado dos EUs recrutou influenciadores brasileiros de direita, alguns deles da Brasil Paralelo, para impulsionar a campanha de Flávio Bolsonaro, a mando de Trump. A notícia foi replicada até pelos jornalões, aumentando o efeito de retirada protocolar de apoio dos caciques do Centrão, iniciado quando daquele vídeo da madrasta Michele.
                    O Brasil não deixou passar barato. Escolhendo a dedo, o STF convidou 26 influenciadores de grande destaque entre o público para um evento de debates sobre temas do Judiciário, como o funcionamento das instituições a ele ligadas, o julgamento da constitucionalidade de projetos de lei e outros assuntos. O objetivo é amplificar a penetração dos temas entre a população através das mídias sociais.
                    Sem saída? — toda essa rede de notícias frescas fez muita gente acreditar que o PL correria atrás de outro nome para limpar a própria imagem institucional, já apodrecida na visão popular. Só que não: com a batuta do todo poderoso Valdemar da Costa Neto, a convenção partidária votou pela manutenção de Flávio. Tudo porque o chefe disse que “ele foi o escolhido pelo pai Jair Bolsonaro para presidir o país”.
                    Sejamos bem realistas: Valdemar se fez estrategicamente de besta ao dar essa declaração para a mídia. Ele acompanha os fatos sobre Eduardo, os influenciadores convocados, as ações do Itamaraty e as do Judiciário. Sobre este último, já que André Mendonça novamnete corre atrás de Lulinha para ter efeito. Sabe do significado de cada fato e acredita que a ultradireita estadunidense supre o afastamento da maioria do Centrão, e que as pesquisas indicam solidez dos números de Flávio. É por isso que a convenção votou nele.
                    Enquanto a militância da esquerda conta com a campanha continuamente moribunda de Flávio, os bolsonaristas torcem pela vitória da investida trumpista sobre a resistência de Lula. Por isso é muito difícil, ou muito cedo, fazer uma predição segura sobre a resistência da campanha de Flávio a cada escândalo novo que certamente surgirá e ao embate político entre Lula e Trump. O que sabemos é que o golpismo segue pleno.
                    Também não podemos predizer precisamente sobre os resultados do pleito. Mas sabemos que as eleições estão no foco de interesses díspares – ultradireita liderada pelos EUs, as democracias europeias e canadense, potências como China e Rússia, e enfim, Japão e Índia. Sabemos também que este será o pleito mais tenso da história republicana. Mas torcemos para que, mesmo delicada, a democracia vença mais uma vez e, nos próximos 4 anos, os progressistas apontem o sucessor à altura do próprio Lula. Ele existe e nós talvez o conhecemos. Nos resta ter fé nele.
Para saber mais
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DISCORDÂNCIAS SOCIOPOLÍTICAS

                    Após surgir na 2ª guerra como tecnologia espiã criptografada, a Internet se tornou popular a partir dos anos 1990. A partir dos anos 2000, se tornou o melhor e mais rápido caminho de obtenção de informações atualizadas, auxiliando as pesquisas científicas. Inauguradas pelo Orkut, as redes sociais se tornaram o meio principal de acesso a todo tipo de informação – inclusive uma diversidade imensa de mentiras.
                    É nesse ponto que entra a minha reflexão sobre o quão longe as mentiras alcançam e são sedimentadas na mentalidade popular. Ciência, história e política são os tópicos mais alvejados, mas a diversidade de saberes – e de mentirosos – é muito maior do que se pensa. A ideologia (ou a visão distorcida da fé ou crença religiosa) se torna o eixo das desconstruções, cujas ondas alcançam maior altura nos anos eleitorais.
                    Nas ciências, nova onda— o bolsonarismo absorveu a anticiência nos anos 2010 via aliança com o olavismo, movimento de desinformação criado pelo hoje finado escritor e influenciador Olavo de Carvalho. Este disseminou teorias malucas como o terraplanismo e a antivacina. E é justamente o tema particular das vacinas contra a Covid19 que voltou a ser a onda preferencial usada por candidatos bolsonaristas nas campanhas eleitorais.
                    São vários os candidatos que protagonizam na nova onda. Um deles é mulher e mãe: Júlia Zanatta, a famosa deputada da tiara de flores. A mesma que expôs seu filho, um bebê de colo, no protesto de seu grupo na mesa diretora da Câmara para pressionar a votação do PL da Anistia, para anular a condenação de Jair Bolsonaro. Para ela, “tudo sobre a Covid19 foi mentira [...], todos os envolvidos na vacinação obrigatória deveriam ser julgados, e alguns condenados”.
                    Zanatta é autora do PL 1978/2026 que, entre outras medidas, propõe anistiar os responsáveis legais multados por não terem vacinado seis filhos contra a C19, quando uma variante hospitalizou milhares de infantes. A julgar pelo caráter desse Congresso, o texto pode ser aprovado – e se tornar verdadeira arma biológica ao possibilitar o benefício aos pais antivax que já recusaram vacinar seus filhos contra males como sarampo, rubéola, pólio e HPV.
                    Enquanto o PL de Zanatta aguarda a votação no Congresso, a negação da vacinação ultrapassou os limites geográficos brasileiros. Fugido e agora legal nos EUs, o ex-deputado e ex-servidor da PF Eduardo Bolsonaro também viralizou um vídeo no qual incita a recusa dos antivax à vacinação das suas crianças contra o sarampo – um velho conhecido cuja maior gravidade está na possibilidade de sequelas sensoriais (surdez e/ou cegueira), ou, pior ainda, em morte.
                    As negações do jornalismo— autodeclarados “a imprensa oficial”, os jornalões estão caprichando em omitir informações importantes para ressuscitar defuntos já exumados. Eles voltaram a endeusar André Mendonça na nova perseguição ao filho de Lula no caso INSS. Na Economia, eles omitem os bons indicadores internos, enfatizando os juros altos, a taxa de exportação de petróleo e o rombo do PIB pela dívida pública sem comparar com países piores.
                    Sobre a interferência de Mendonça no trabalho da PF ao ponto de os 27 superintendentes estaduais defenderem a independência do órgão e o diretor-geral Andrei Rodrigues, foi tentado um tom isento, houve tom lacônico. Nunca houve editorial cobrando investigação da compra de107 imóveis, 51 deles em grana viva. Nem sobre o aumento do tráfico de armas para os CACs na era Bolsonaro. Nem sobre o aporte de mais de R$ 50 milhões de Vorcaro para Zema.
                    Daí a influência, mesmo não intencional, sobre a decisão final dos eleitores diante das urnas – o que tem gerado as consequências deletérias para o correto funcionamento do Estado e o desenvolvimento econômico tão esperado.
                    Seletividade judicial— foi valoroso o papel do STF na contenção dos crimes do então presidente Bolsonaro, e no julgamento dos crimes da intentona golpista de 8/1/23 e do plano Punhal Verde-amarelo de matar Lula, Alckmin e Xandão. Mas ainda me pergunto por que o STF nunca condenou Bolsonaro pela paralisia investigatória imposta sobre a PF. E não foi só sobre o caso Marielle Franco. O milagre da multiplicação patrimonial e financeira dos Bolsonaro também.
                    A incomparável gravidade do atentado violento ao Estado democrático e da intentona de 8/1/23 requiriu julgamento mais imediato para atender à pressão popular contra nova anistia. A retomada do caso Marielle condenou os Brazão e os assassinos, mas não respondeu por que os Bolsonaro se apavoraram com a decisão do então ministro da Justiça Flávio Dino. Ainda falta julgar a relação entre rachadinhas e a grana viva que comprou 51 de 107 imóveis.
                    Por ouro lado vale citar que o TSE está nesse momento presidido por ministros de alta suspeição. A atual dupla dirigente – Nunes Marques presidente e André Mendonça vice – do TSE tem exercido atos de ética duvidosa que indiretamente atacam Lula para favorecer Flávio Bolsonaro. O deepfake com imagens e voz de Jair Bolsonaro só foi banido porque Xandão ameaçou interferência do STF. Mas Flávio o transmitiu em evento do PL em SC – e segue impune.
                    Outra coisa que me coça a cabeça atrás da orelha é a aparente falta de vigilância dos tribunais superiores em relação à chapa Flávio Bolsonaro-Alfredo Gaspar. É que o escolhido vice é investigado por suspeita de estupro de vulnerável, e ainda segue suspeição por participar de irregularidade milionária com emenda parlamentar. Diante dessas credenciais duvidosas, a dupla até que tem tudo em comum mesmo. E será um perigo, se for eleita.
                    Análise reflexiva— os fatos supracitados compõem uma bola de neve que cresce como praga de lavoura. Saudosa dos tempos da ditadura militar, parte da geração mais velha nega a existência da corrupção à época, devido à natureza repressora do regime. Ao ser lembrada da censura, ela alega a moralidade pública de costumes da aliança dos militares com a Igreja Católica. A censura serviu, na prática, para esconder a corrupção dos próprios milicos e dos empresários.
                    Como a internet dissolve a censura ao transmitir notícias ao público, os jornais manipulam a informação a mando de quem os financia. Daí a patuleia ainda não compreender a complexidade do tema político. Por outro lado, parcela crescente do povo já sabe que políticos da direita (Centrão e reacionários) são os maiores ladrões. Na esquerda também há ladrões, mas a pressão seletiva do Legislativo e do Judiciário os torna bem mais raros, enquanto que a galera oposta se deleita, acreditando na impunidade.
                    A consciência crescente se deve a um conjunto de fatores: o movimento pela renovação do Congresso via eleição de nomes progressistas, pesquisas de avaliação pública do Congresso, e transmissão de fatos por fontes online. Em geral independentes, fontes à esquerda têm acesso público maior hoje e denunciam a impunidade de poderosos políticos corruptos. Algumas delas respondem por descobertas comprometedoras, como o caso Master com gente da direita.
                    E, diante disso tudo, o efeito final esperado pelos que querem a resistência democrática será, fatalmente, a escolha popular nas urnas. A luta pela democracia de fato ultrapassa o simples afastamento de reacionários do acesso ao poder. É lutar pelo corte sistemático de mordomias desnecessárias pelas quais muitos se elegem e se reelegem. É fazer a patuleia entender que a relação ética com a grana pública e com o cargo político também significa democracia sociopolítica.
                    É uma luta de longo prazo, mas urgentemente necessária. 
Para saber mais
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