terça-feira, 16 de junho de 2026

CURTAS 113 - ANÁLISES (pauta bomba, Zema)

 

ROYALTIES: MUITA GRANA, POUCOS SETORES

                    No Brasil, os estudos prospectivos em óleo e gás se proliferam a cada descoberta de regiões petrolíferas promissoras nas bacias sedimentares marinhas. Em 2006, o governo Lula 1 comemorou a descoberta de imensas jazidas no pré-sal, um pacotão sedimentar depositado de 200-160 milhões de anos atrás, antes do divórcio América do Sul-África que criou o oceano Atlântico. Hoje o pacote está a 6 km abaixo do leito marinho., e seu potencial petrolífero foi confirmado pela Petrobras em 2006.
                    O governo Lula 1 comemorou, e iniciou uma exploração política de 3 anos, até virem os primeiros leilões de poços para iniciar a produção de fato. A façanha tecnológica da Petrobras foi vista como caminho para a autossuficiência na produção e refino de óleo, muitos R$ bilhões em lucro para a estatal e também em royalties.
                    Royalties— é um termo inglês que designa o quantum arrecadável estipulado pelo Estado sobre o PIB produzido pelos setores produtivos em geral (recursos do subsolo, agronegócio e indústrias). Por razão ética óbvia, o destino principal dessa grana arrecadada deveria ser o investimento em políticas públicas de bem-estar social e reserva interna em momentos de crise. Mas, na prática, grossa parcela tem servido ao mercado financeiro, sem contrapartida em impostos, por anos.
                    Os royalties já foram vistos por cada Estado como um troféu. Em 2009, o então governador do RJ Sergio Cabral Fº queria a maior parte da grana do pré-sal para o estado do RJ, por ser o maior produtor nacional. Patrocinou um show musical na Cinelândia, centro da capital, para colocar o povo ao seu lado e comover o Congresso. Reeleito em 2010, ele repetiu a façanha, pois o Congresso votaria só após o pleito. E o aprove final foi da distribuição mais fluida em todo o território nacional.
                    Hoje, uma pauta-bomba— enquanto a Petrobrás estuda a geologia da bacia sedimentar a 500 km da foz real do Amazonas autorizada pelo Ibama, o senado aprovou uma proposta que gera R$ 815 bilhões em benesses, principalmente para o agronegócio, mediante royalties públicos. O governo se preocupou com o impacto dessa pauta-bomba, mas o presidente-senador Alcolumbre não quis ouvi-lo sobre a renegociação da dívida de R$ 1,39 tri do agro à União, sinalizando uma ruptura com o Executivo.
                    A razão dessa recusa é que Alcolumbre acatou apelos dos colegas, muitos dos quais fazendeiros endividados – inclusive ele próprio. O problema dessa birra é atrapalhar a votação da PEC governista de 5x2, já aprovada na Câmara. Mas essa trava tem um motivo paralelo: dar fôlego para a votação da perigosa PEC da jornada flexível do bolsonarista Rogério Marinho, propagada por seus pares ideológicos como “PEC 4x3”, como disse o deputado-pastor Sóstenes Cavalcante.
                    Críticas— o governo criticou a recusa de Alcolumbre em dialogar sobre a resolução da dívida dos grandes ruralistas. Os dirigentes do MST apontaram o descaso com os pequenos agricultores, que costumam ser os mais afetados pelos extremos climáticos e poucos recursos mesmo colocando 70% dos alimentos nas mesas dos brasileiros. Solidários aos movimentos campesinos, os nomes da esquerda acusaram o senado de olhar apenas para os grupos econômicos que os bancam diretamente.
                    Impacto em cascata arriscada— os jornalões acusam o governo de “grande gastador público” ao invés de informar a realidade dos impactos aprovados pelo Congresso sobre as contas públicas. Se omitem sobre gastos hoje desnecessários, como o Perse, criado para sustentar eventos e artistas durante a pandemia de C19. E também sobre grandes empresas que se tornam devedoras após findar o tempo determinado de isenção fiscal. São pontos especialmente nevrálgicos para as contas públicas.
                    Em fria análise final, o aprove de benesses pelo Senado poderá impulsionar outras empresas a fazerem o mesmo para não negociar dívidas com a União. A desoneração da folha também força o gasto, mas o Congresso aprovou a renovação em 2024. Ainda não sabemos do total da dívida de todo o numus privado, mas ela é trilionária, inclusive em previdência.
                    Se mantida a birra do Congresso, os já limitados recursos das políticas públicas podem ser mais solapados do que já o são agora, para alimentar com grana pública um capitalismo em grande parte inútil. E quem paga a conta, como sempre, é a nação, a maior vítima desse sistema. E aí parte do Congresso chia quando é taxado de “inimigo do povo”. Dessa forma confessa que o é.
Para saber mais
- https://www.gov.br/pgfn/pt-br. (dívida de R$ 1,39 trilhão do agronegócio)
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ZEMA NAS ENTRELINHAS

                    Governador de MG em dois mandatos – o segundo interrompido pela pré-candidatura à presidência – Romeu Zema já teve sua biografia brevemente abordada em artigo publicado no blog em 23/3/25. Mas agora ele retorna aqui, como tema importante a ser desvendado em relação aos seus segredos nem tão secretos assim.
                    Neto paterno de imigrantes italianos, ele nasceu em Araxá, no Triângulo Mineiro. Na juventude, mesmo estudando, ele manteve a vocação comercial dos avós e do pai. Na sua vez à frente, ele se mostrou mais do que comerciante: virou gestor e investidor. Transformou a antiga loja familiar no atual Grupo Zema, que hoje consta uma financeira e posto de combustível. Hoje, Romeu é um dos maiores empresários do Brasil.
                    Seu sotaque é naturalmente pronunciado devido às características linguísticas e culturais de sua região natal e, por que não, certa influência de seus avós paternos. Apesar de sua atual situação classista, Zema continuaria a ser um desconhecido do grande público se não tivesse entrado na vida política, através da sua filiação ao partido Novo, conhecido por agregar um “público selecionado” de empresários e banqueiros que pregam o Estado mínimo e mercado máximo.
                    Em 2018 Zema estreou politicamente ao ser eleito governador de Minas Gerais. A escolha da maioria dos mineiros pelo petista Fernando Haddad à presidência (que se candidatou após a impugnação da candidatura de Lula, que já estava preso) indica que Zema não foi eleito na esteira bolsonarista, mas sim por representar sangue novo, diferente do que foram os políticos mais tradicionais que não conseguiram resolver os problemas do Estado, como os tucanos Geraldo Azeredo e Aécio Neves, ou o petista Pimentel.
                    O seu segundo mandato não se completou: ele renunciou para se lançar candidato à presidência da República, concorrendo com outros pré-candidatos. O que não impediu a sucessão de feitos um tanto grotescos expostos a seguir.
                    A máscara caiu— somente ao assumir a cadeira do Palácio da Liberdade, residência oficial do governador, que Zema mostrou o seu verdadeiro caráter. Na campanha se dissera ao lado de Lula, e já governador, se alinhou a Bolsonaro, e assim se manteria em todo o tempo todo de seus mandatos. Já em 2019 ele queria que iria implantar uma política privatista, que deixou servidores e população em apreensiva polvorosa. E o que se seguiu foi uma sucessão de desastres.
                    Primeiro governo- propôs privatizar a Central Energética de Minas Gerais (Cemig), mas recuou com a pressão ruidosa dos empregados públicos. Triplicou o seu salário e o de seu vice Simões e congelou os dos servidores estaduais, nos 4 anos. Trocou 11 Secretários de Meio Ambiente, por discordarem com permissões ilegais para mineração em várias áreas proibidas pelo Ibama. Liberou aos seus gestores públicos política persecutória contra servidores críticos de seu governo.
                    Entregou à ALMG proposta de cogestão público-privada da Federação Hospitalar de MG (Fhemig). Recebeu verba para reverter a péssima condição da malha viária estadual, mas só caprichou mesmo um pequeno trecho de acesso para sua fazenda em Araxá. Na onda bolsonarista, ele propôs escolas cívico-militares, mas o TJ-MG suspendeu e, como alternativa, rapidamente elaborou proposta de PPP como para a Fhemig.
                    Segundo governo- Zema fez mais desastre. Em Brasília, deixou reunião de governadores com Lula sobre segurança pública. Mais do que dobrou a dívida estadual chegando a R$ 188 bilhões. Lula 3 propôs federalizar Cemig, sem ter resposta. Extinguiu a sede da escola de formação de pessoal da Cemig. Manteve congelados os salários de servidores. A situação das rodovias piora. Propostas de PPP na Fhemig e na educação estadual avançam, mas ainda não houve desfecho na ALMG.
                    Tenta privatizar a Copasa, o que segue em impasse. Cria PPP de áreas de preservação permanente. Segue mineração ilegal[1] na Serra do Curral, principal fonte d’água para a grande BH. Servidores apontam precarização e descaso, ameaçam greve. Zema meteu MG em regime de recuperação fiscal; professores, piso zero. Beneficiou o banco Master, cuja liquidação deu prejuízo financeiro a mais a MG. Quis retirar da Carta de MG a consulta popular obrigatória sobre privatizações.
                    Ainda no segundo mandato, ele outro atentado contra a saúde pública ao dizer que “os pais não são obrigados a vacinar seus filhos”, com apoio do deputado Nikolas Ferreira. E ele ainda foi denunciado por supostas irregularidades contra auxiliares de serviços gerais que trabalham nas instituições estaduais de ensino, e é acusado de atividade antissindical contra os empregados públicos da Cemig e da Copasa. Ainda quis vetar promoção a professores de nível superior.
                    Triste, mas necessária— apesar disso tudo, tenho percebido que Zema recebe elogios de eleitores de outros Estados, como alguns cariocas. Por ser bolsonarista? Por muitos cariocas alimentarem simpatia por mineiros, seja pelos produtos alimentícios ou pelo sotaque típico? Pela omissão de seus feitos reais pelos jornalões? Ou, talvez, tudo junto. Percebo que o peso da desinformação sobre seu governo é maior do que a publicidade eleitoral. Por isso, cabe dar chance à verdade, referenciada nas fontes linkadas abaixo.
                    A dívida hoje impagável de MG à União desmente a notícia sobre contas públicas ajustadas. A precariedade vivida pelos setores em risco de privatização. O ódio antipopular por trás da PEC que desobriga a consulta pública. O perigo de repetir o crime bolsonarista contra a saúde pública sobre vacinação infantil. A crítica a Flávio Bolsonaro por “bandidagem” desmentida pelo decreto benéfico ao Master então vigente, e no querer ser vice de Flávio, que preferiu Júlia Zanatta.
                    Sei que tantas revelações aqui expostas decepcionarão muitos de seus admiradores. Mas, por mais incômoda que seja, a verdade precisa ser dita. Pelo fato de Zema se colocar presidenciável, a verdade se estende para além dos mineiros, vai para o Brasil todo. Quanto a Flávio Bolsonaro, até os jornalões se renderam às evidências impossíveis de se ignorar. Só resta falar sobre Cleitinho e outro presidenciável Ronaldo Caiado. Mas estes deixarei para outro artigo.
Nota: [1] acontece à noite, conforme já denunciado e m transimissão ao vivo pela deputada federal Duda Salabert (PDT).
Para saber mais
- https://www.tce.mg.gov.br/. (também suspendeu a proposta de escolas cívico-militares em MG)
- https://www.almg.gov.br/ (Zema apresentou PEC 24/2023, que retira obrigatoriedade de consulta popular em decisões políticas sobre privataria na Cemig e Copasa).
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sexta-feira, 12 de junho de 2026

CURTAS 112 - ANÁLISES (jornada 6x1, polêmicas judiciais)

 

FIM DA 6X1: VITÓRIA E ARMADILHA

                    Brasília, 5/10/88— após as rubricas de todos os parlamentares, o presidente da Câmara Ulysses Guimarães pegou e ergueu o livro preto de capa dura. Apresentou-o ao público e, no longo discurso da promulgação, o destaque: “A Constituição [...] não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria! [...]”.
                    Segue outro: “A persistência da Constituição é a sobrevivência da democracia.. Quando, após tantos anos de lutas e sacrifícios, promulgamos o estatuto do homem, da liberdade e da democracia, bradamos por imposição de sua honra: temos ódio à ditadura. Ódio e nojo! [...] Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações, principalmente na América Latina”. Foi fortemente aplaudido pelos 81 senadores e 513 deputados.
                    Quatro anos após o ato histórico, Ulysses morreu no mar e deu seu nome às Casas. Mas o nível dos que viriam depois só decairia com o tempo, até chegar à excrescência ideológica e ética que hoje domina os vetustos recintos e ameaça a Lei Maior e a democracia. Em particular no bem-estar social e nos direitos e garantias fundamentais – em especial no trabalhismo.
                    2025: do Rio a Brasília— em rua do Centro do Rio, um jovem de camisa preta estampada com VAT poderia ser um dos milhares de cidadãos que diariamente madrugam para iniciar novas jornadas longas e depois voltar para casa exaustos. Isso, não fossem os panfletos que distribuía a transeuntes, alguns dos quais paravam para satisfazer a curiosidade e fotografar ou filmar o momento.
                    O rapaz é o vereador carioca Rick Azevedo. O VAT na camisa é a sigla de Vida Além do Trabalho. Postada nas suas redes e nas dos transeuntes que o flagraram, a sigla se tornou o movimento VAT, viral entre os trabalhadores pelo país. Chegou em Brasília, a fervilhante capital da Federação, onde a proposta causou furor inaudito nos bastidores da política.
                    PEC 4x3: do furor ao arquivamento— o efeito do VAT chegou ao governo Lula, que se pronunciou em defesa da redução da carga e mesmo salário. A deputada Erika Hilton criou a PEC 8/2025 propondo escala 4x3 e 36h/semana sem redução salarial, como em alguns países europeus. Sua popularidade desafia a transfobia. Os reacionários protestavam: “demagogia da esquerda”, “vai quebrar a eonomia”, etc. Ela não se surpreendeu.
                    É conhecida a ladainha, repetida como música de LP retirado do fundo do baú. A tese da quebra do país foi usada por décadas por políticos e mídia até hoje hegemônica a cada direito conquistado, agora em dissolução crescente. Mas a PEC de Erika se mantém solidamente defendida pela esquerda, por ter se baseado em pesquisas exaustivas.
                    As pesquisas focaram estudos da legislação trabalhistas dos países que adotaram a 4x3 com 36h/semana e dos efeitos na relação carga menor-índice produtivo. Realista, Erika viu o Centrão engavetar seu texto em nome do interesse dos gigantes que o bancam e hiperexploram o trabalho operário nos países emergentes. Mas não perde a esperança.
                    Pauta 5x2: aprove ameaçado— o governo entregou ao Congresso sua proposta de carga máxima de 40h/semana e pelo menos 2 dias de descanso, com valor salarial mantido. Foi popularizada como PEC 5x2. Visando evitar o mesmo destino da PEC de Erika e percebendo a pressão popular, Lula os turbinou com emendas e exigiu urgência para votação.
                    O texto se justifica em três pautas. Diminuição da jornada como velha luta das classes trabalhadoras. Escala 5x2 e 40h máximas já em vigor entre muitas empresas e nos serviços públicos. E crescente investimento em tecnologia por empresas e instituições para turbinar o trabalho operativo, com maior retorno em lucro e produção.
                    A votação foi quase tão acalorada quanto o debate prévio. Foi recheada de discursos, alguns revelando a contradição da oposição, antes contrária à proposta do “desgoverno Lula”. Vários deles votaram a favor da 5x2, dando vitória ao governo. Governistas e esquerdistas comemoraram. Erik Hilton parabenizou Lula e agradeceu ao mesmo pelo apoio à sua PEC.
                    Na prática, seu discurso foi uma resposta à fala do pastor-deputado Sóstenes Cavalcanti, que se justificou: “muitas empresas já adotarem 40h semanais e 5x2, vamos vançar com a escala 4x3”. Atenção: não é a PEC de Erika. É outra, vem do Senado.
                    Engodo flexível— reagindo à vitória de Lula, o presidente Davi Alcolumbre liberou apreciação de outra proposta sobre o tema. É a PEC 12/2025, PEC da jornada flexível, do senador Rogério Marinho (PL), que propõe jornada elástica de acordo com a necessidade do empregador, e ganhos por hora trabalhada. Parece sedutora, mas muita calma nessa hora.
                    Rogério é coordenador da campanha do presidenciável Flávio Bolsonaro, que quer extinguir equivalência de benefícios INSS ao salário mínimo e quase findar aposentadoria. O texto não extingue a escala 6x1 de imediato, e ainda permite a 7x0 se o empregador julgar necessário. Ou seja, se passar, a PEC pode gerar um risco importante para a classe trabalhadora.
                    Como o patronato sempre impõe sua vontade nas “negciações”, na jornada e valor/hora poderá restar ao funcionário trabalhar jornadas extensas para obter o equivalente ao salário mínimo no total de horas trabalhadas. Lembrará a uberização, com longas jornadas trabalhadas para obter o mínimo desejado, com risco sobre seus direitos constitucionais pétreos. Assunto de reelvância relativa na proximidade eleitoral, podendo jogar a sanção presidencial para depois e dando fôlego à PEC de Marinho.
                    Como a mídia propositalmente mantém suspense, a PEC da jornada sensível segue como instrumento de reação do centrão ao governo, e de manipulação comunicacional de alta capilaridade pela ultradireita, mentindo sobre a proposta governista. É aí que mora a armadilha, que poderá, inclusive, impactar nas decisões eleitorais em outubro. E não é fácil convencer uma galera já seduzida pelo engodo.
Para saber mais
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/clypyrjgjkro. (PEC da Liberdade ou Escravidão? O que pode mudar no regime de trabalho por hora proposto por Flávio Bolsonaro para barrar fim da 6x1. BBC, 8/6/26)
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POLÊMICAS JUDICIAIS

                    Desde que a internet democratizou as transmissões ao vivo de processos judiciais como audiências de custódia e julgamentos, o debate público se recheia de colocações opinativas diversas e sugestões de endurecimento penal. Somos leigos em Direito, mas desenvolvemos noção do certo e do errado, do justo e do injusto, do moral e do imoral, mesmo confrontando com os pressupostos legais.
                    O contexto de democracia relativa (sim, ela não é absoluta) em que vivemos nos chancelou ver situações inéditas na nossa história, como a condenação dos crimes cometidos por agentes públicos de primeiro escalão pelos tribunais superiores. Que o diga o STF sobre a intentona golpista de 8/1/23, que enjaulou até alto oficialato das forças armadas.
                    Aos nossos olhos, o juiz se torna estrela ou vilão nos julgamentos. Pois ele lê a análise final e dá o veredito que determina o destino das partes julgadas. O veredito é irreversível se transitar em julgado. Do contrário, o recurso é um meio válido para rever a penalidade do réu e a possível vantagem da parte vitimada. A seguir, seguirão alguns exemplos da justiça comum e da especial.
                    Exemplos da justiça comum— a justiça comum julga delitos comuns da sociedade civil, em tribunais de primeira e segunda instância. Nessa esfera ampla há numerosos exemplos que comoveram o Brasil por décadas. Mas somente alguns se seguem para não delongar demais o artigo.
                    Von Richtofen— com ajuda dos irmãos Cravinhos (um deles seu namorado Daniel), Suzane von Richtofen matou seus pais Manfred e Marísia von Richthofen, que dormiam. Sabe-se que os pais reprovavam o namoro. Planejado e de motivo torpe, o hediondo parricídio penalizou os 3 a mais de 30 anos de prisão. Suzane cumpre pena em regime aberto desde 2023.
                    Polêmica- a concessão de regime aberto após testes psicológicos forenses que atestaram manipulação e falta de remorso de Suzane em relação ao significado do parricídio, que negariam bom convívio social. Sabe-se que Suzane hoje vive no interior paulista, em vida anônima, evitando holofotes da imprensa.
                    OsNardoni— em 2008, a menina Isabella Nardoni, de 5 anos, foi jogada do 6º andar do edifício paulista em que morava com o pai Alexandre Nardoni e a madrasta Anna Jatobá, e morreu. Ambos foram acusados, julgados e condenados a 31 e 26 anos, respectivamente, por crime hediondo agravado pela paternidade biológica. Hoje o casal cumpre pena em aberto.
                    Polêmica- os avós paternos de Isabella contestam a penalização do filho, por negarem a sua capacidade de matar a própria filha. Eles requerem nova investigação pericial que confirme invasão do apartamento pelo suposto estranho que tenha jogado Isabella.
                    Henry Borel— em junho/26, 5 anos após o assassinato de Henry Borel, de 5 anos, o ex-médico e ex-vereador dr Jairinho (padrasto) foi finalmente condenado a quase 44 anos de prisão por homicídio qualificado (crime hediondo) e coação de processo. O pai de Henry foi indenizado. A mãe Monique Medeiros foi penalizada a 1,4 ano, mas ganhou liberdade por já ter cumprido pena maior.
                    Polêmica- a juíza deu à ré o criticado perdão judicial, ao considerar o contexto da dominância relacional de Jairinho e supôs o estereótipo do papel de gênero. A condenação culposa foi reconhecida pela negligência diante da violência trágica. O MP-RJ interveio para rever esse veredito. Até o momento não foi divulgado quando irá acontecer.
                    Exemplos da esfera política— os ministros são os juízes dos tribunais superiores que julgam agentes públicos com foro por prerrogativa de função, como políticos, militares e magistrados. Casos da esfera civil com fatos extralegais (jurisprudência) também são julgados nos tribunais superiores. Um exemplo é o da menina capixaba grávida por estupro cometido por um tio.
                    Domiciliares de Collor e Bolsonaro— ex-presidente e senador, Collor foi condenado pelo STF por ter participado de corrupção ativa na BR Distribuidora. Alegando doença crônica do réu (Parkinson), sua defesa teve recursos de soltura negados, mas o STF autorizou prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica para cumprir pena.
                    Ex-presidente e deputado, Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de reclusão por planejar e tentar o golpe de Estado que culminou na intentona de 8/1/23, e outros crimes associados (dano ao patrimônio tombado, organização criminosa e atentado violento ao Estado democrático de direito). Crimes contra a saúde pública na pandemia podem ser julgados em breve.
                    Polêmica- a justiça tem se revelado uma mãe com os ex-presidentes, que são, de fato, portadores de doença crônica. As muitas cirurgias abdominais de Jair se devem a outras causas e não à facada (só a primeira em JF foi suficiente, pois o ferimento da facada foi pequeno). Aglora, soluços demais podem indicar câncer, hérnia hiatal ou... chantagem para se manter longe da Papudinha.
                    Censura política— ex-presidente da Câmara, o deputado Arthur Lira teria se envolvido em dois supostos crimes: violência doméstica sobre a ex-esposa, e corrupção com emendas secretas em educação e saúde em seu Estado Alagoas, onde é influente. As mídias censuradas foram a Agência Pública, pelas reportagens investigativas relacionadas aos citados crimes, e o ICL Notícias, por ter reproduzido as matérias daquela.
                    Os escândalos de malversação de grana pública (que incluiu os descontos no INSS e duas autarquias estaduais) envolvendo os Bolsonaro e igrejas no caso Master afundaram as intenções de voto em Flávio Bolsonaro numa pesquisa da AtlasIntel. Monocrático, o presidente do TSE Kássio Nunes mandou suspender a referida pesquisa de opinião a pedido do presidenciável.
                    Polêmicas- Lira: justiça mandou as mídias retirar a matéria do ar e as coibiu de citar Lira em novas matérias nesse teor, afrontando 2 princípios da CF-1988: a responsabilidade civil dos agentes públicos e a liberdade de imprensa com direito ao sigilo da fonte. Flávio: a crítica a Kássio Nunes está na falta de votação colegiada da decisão, que favoreceu um candidato em detrimento dos demais e da opinião pública. E meto gasolina no fogo: não subestimemos o povo, exceto os fanáticos.
                    Zambelli x Luan— 2 crimes ferraram a ex-deputada: invasão de senhas no CNJ (10 anos de cana), e porte ilegal de arma durante perseguição a jornalista na véspera do 2º turno eleitoral em 2022. No segundo caso, o condenado foi o perseguido Luan Araújo, a indenizar Carla com R$ 2000 por difamação, que se não paga pode se converter em cana. Desempregado, ele divulgou vídeo pedindo ajuda.
                    Polêmica- Luan foi condenado por apenas expressar opinião sobre o fanatismo de Zambelli, perdeu emprego e por isso várias entidades criticaram a sua punição desproporcional. Tocado pela situação dele, Alexandre Frota decidiu ajudá-lo. Enquanto isso, a justiça italiana absolveu Zambelli e criticou a “arbitrariedade” de Alexandre de Moraes.
                    A menção da justiça italiana a Xandão como ministro de decisões arbitrárias expressa claramente que as polêmicas judiciais não são exclusividade nossa. Elas ocorrem em todos os países, na dura revelação de que a impessoalidade, que dá peso à imparcialidade jurídica, é o princípio constitucional mais difícil de alcançar.
                    Mas, por outro lado, é fácil impedir descaramentos repletos de pessoalidade como os de Moro-Dallagnol na Lava-Jato e de André Mendonça e Nunes Marques para blindar os Bolsonaro e Daniel Vorcaro diante de seus próprios crimes.
Para saber mais
Esfera civil – casos
Esfera política – exemplos
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CURTAS 113 - ANÁLISES (pauta bomba, Zema)

  ROYALTIES : MUITA GRANA, POUCOS SETORES                      No Brasil, os estudos prospectivos em óleo e gás se proliferam a cada descobe...