sexta-feira, 2 de outubro de 2026

CURTAS 119 - ANÁLISES (fatos pré-eleição)

 

Psicologia
POR QUE A MENTIRA ATRAI TANTO?

                    Desde a independência das colônias das garras europeias no século XIX, a geopolítica foi desenhada para definir as relações e a vida da humanidade pelo globo. A geopolítica nasceu da comunicação, que encontrou nas tecnologias a queda de barreiras culturais e redesenharia as relações internacionais. E da comunicação veio a Internet – que está aí até hoje.
                    A internet surgiu como ferramenta de espionagem contra os nazistas e a URSS. Em 1995, foi popularizada através da automação ofertando uma montanha de páginas (sites) para tudo quanto é função de consumo popular, bem como trabalho à distância. Agora, o mundo se conecta por inteiro graças às atuais plataformas de redes sociais (Facebook, X, LinkedIn, Bluesky, Youtube, TikTok, Instagram, etc.).
                    A rede social pioneira Orkut (2004-14) sucumbiu ao fim do contrato do Google com o engenheiro turco Orkut Büyükkökten. O criador não o fez para espionar, o que só entendemos agora. As supracitadas possuem o algoritmo, que redireciona e manipula as preferências de cada usuário, e define o que diferentes perfis poderão postar. Assim, elas criam novas relações e mudam as antigas.
                    Vivendo dos perfis de usuários pessoais e empresariais, as redes sociais viraram o campo fértil de notícias falsas (fake news). Perfis falsos são muitos, como usuários reais ou bots (fantasmas eletrônicos) identificados com dados fictícios ou reais. Eles são personagens centrais na reprodução sistemática de mentira explorando muito um tema inevitável e pantanoso: a política.
                    A política merece ser debatida porque ela define a vida de nações inteiras e as relações internacionais. Mesmo que o entretenimento ocupe 70% do ciberespaço, inicialmente estatal e hoje privatizado. Corredores de notícias frescas em tempo real, redes sociais são o maior terreno de debate público no tema, tendo influencers como o deputado federal Nikolas Ferreira.
                    Candidato à reeleição, Nikolas quer repetir o seu recorde de votos. Foi como influenciador teen gospel que ele atingiu carreira política. Sua escola on-line Destra (nome autoexplicativo) dá curso de política na linha cristofascista. A Destra é outro caminho da disseminação da mentira política contra adversários ideológicos, especialmente na questão econômica do Brasil.
                    Jornalões ajudam na mentira política. As previsões econômicas negativas no noticiário reforçam afirmações falsas como “o país tá quebrado”, “recorde de inflação caindo o poder de compra”, “lojas fechando e demitindo gente”, “roubalheira no INSS” e “combustível muito caro”, desmentidas só em fast-checks online como Aos Fatos, Uol Confere, Agência Lupa, etc.
                    Muito comércio físico se tornou virtual (e-commerce, aplicativos). O volume de demissões é, na verdade, readaptação funcional dos empregados em apps. O valor salarial baixo é histórico e mercadológico, com aumento seguindo a média oficial inflacionária e não pulos isolados. O PIB maior é tão claro que os jornalões não conseguem negar. O roubo no INSS é histórico e quem investiga e ressarce é o governo Lula. E combustível muito caro se deve às refinarias privatizadas.
                    Mas a mentira está em tudo. Se um crime é descoberto, seu autor capturado o nega até cair em contradição. Cobrado por seu par devido a indícios evidentes, o cônjuge nega pular a cerca. A criança traquina nega ter quebrado o vaso valioso da mãe brava por medo de reprimenda feia. O comerciante enrola o comprador para vender seu produto de qualidade inferior. Por que usamos esse ato, condenável em todas as culturas conhecidas no mundo?
                    Por mais sinceros e honestos que sejamos ou queiramos ser, a mentira encontra espaço. Ela surge sempre que há circunstância forte o suficiente que impeça a verdade 100% pura. Por ordem social concordamos com a norma coletiva, mas buscamos escape quando sua pressão fica insustentável. Grupos religiosos dogmáticos que cerceiam a livre escolha amorosa tendem a ser materialistas ou intolerantes contra grupos sociais diferentes.
                    Portanto, por mais condenável que seja, a mentira é o apaziguador social mais eficiente que existe. Na Etologia (ramo da biologia que estuda o comportamento de cada indivíduo de uma população específica em relação ao meio e entre si), ela é como o blefe animal na natureza. Nesse sentido, ela ajuda a resolver um problema e a findar conflitos. A sinceridade pura pode ser confundida com estupidez em momentos que exigem cautela ao falar.
                    Porém, diferente de uma situação social restrita, o terreno político abrange todo o coletivo regional e/ou nacional. Não falo de confrontos normais entre candidatos opostos, e sim de inverdades difamatórias contra a honra do outro. Como supostos fatos pessoais ou políticos falsamente atribuídos ao adversário – uma especialidade infeliz dos demagogos reacionários, na mesma tática dos nazistas.
                    Como esse tipo de mentira afeta negativamente a coletividade de alguma forma, a legislação eleitoral coíbe falas desse naipe. Em tempos de inteligência artificial (IA), o TSE já impõe restrições severas para evitar difamação e inverdades. Como os políticos sabem que a maioria vota pela emoção, o efeito venenoso da mentira pega justamente aí. E é nesse terreno quase íntimo da vida humana que a legislação tem mais dificuldade de agir, pondo em risco o futuro da nação.
Para saber mais
- https://doi.org/10.1590/0102-37722015032213397401 (Mentira: Aspectos Sociais e Neurobiológicos, Psic.: Teor. e Pesq. 31 (3) • Jul-Sep 2015).
- https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-47941465 (BBC- sem mentiras, o que aconteceria com as relações sociais?, 26/5/2019). 
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RELIGIÃO PELO GOLPISMO

                    O presidenciável Flávio Bolsonaro estava apavorado com a queda das intenções de voto em meio à enxurrada de fatos do caso Master, quando Michele Bolsonaro lançou aquele vídeo-bomba em que expôs a “relação desajustada” entre ela e o enteado, e saiu do PL Mulher. Apoiadoras evangélicas pentecostais sentiram o impacto e passaram a rejeitar Flávio. Este correu para reverter.
                    Em vídeo, ele afirma ter feito as pazes com a madrasta “pelo meu pai”. Outro vaza o contrário: “se não fosse casada com meu pai, eu a teria estancado” – “matado”, na gíria miliciana –. Ainda mantendo alta rejeição, as evangélicas procuraram alternativas presidenciáveis à direita, como o ruralista de pinta de galã Ronaldo Caiado e o psiquiatra dos drones Augusto Cury.
                    Com a ajuda da dupla André-Kássio no TSE, dos jornalões O Globo e Estadão e dos machões de plantão, Flávio voltou a empatar com Lula nas pesquisas. Em Minas Gerais, 2º maior colégio eleitoral, uma delas o jogou à frente de Lula, fazendo soar a sirene de alerta na campanha. Mas, eis que nova série de fatos muda tudo, direcionando os números para Lula.
                    Advogado do crime— ainda na Alerj, Flávio concedeu ao matador preso Adriano da Nóbrega a medalha Tiradentes. Na época, ele advogou os milicianos que executaram a juíza Patrícia Acioli. Defendeu presos que agrediram outra juíza num presídio e afagou o PM Delaroli, que matou, sem confronto nem motivo, a menina Ana Clara, de 5 anos, numa comunidade carioca.
                    Segundo Flávio, Acioli “humilhou os réus” e pagou com a vida, e a outra juíza foi agredida por ter “zombado da condição desumana” dos PMs presos. A tese de confronto alegada por Delaroli  e reiterada pelo então senador foi derrubada pela perícia e pelas testemunhas da comunidade. E vale lembrar de que ele defendeu a atuação das milícias nas favelas na plenáriaa da Alerj.
                    A santa da discórdia—para os católicos, qualquer Nossa Senhora é Maria mãe de Jesus. A Aparecida caiu no radar eleitoral. Então pré-candidato, Flávio acenou aos evangélicos: se eleito, “o Brasil será do senhor Jesus”. Não teve alarde, mas Flávio repetiu e mexeu com a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Veio novo conflito coletivo, com ataques monitorados pela Igreja desde 2019.
                    A CNBB entendeu a fala dele nas entrelinhas. Refere-se a um projeto de 2007 do ex-deputado Victório Galli, que rebaixa o título da santa ao de “padroeira dos brasileiros católicos romanos”. O texto foi arquivado sem trâmite em 2008, mas não morreu pelo regimento. É aí que pesa o incômodo da representação católica – interpretável em dois sentidos: o tradicional e o estatístico.
                    Tradicionalmente, ela alega “desrespeito aos católicos” e à historicidade. Conta-se que, em outubro de 1717, pescadores acharam na rede uma imagem de santa sem cabeça no Paraíba do Sul, na região da atual Aparecida do Norte, durante uma pesca ruim. Em novo arremesso veio a cabeça. Daí, a pesca foi abundante. O conto tem grande valor transgeracional.
                    O outro incômodo da CNBB é estatístico. Desde os anos 1990, o IBGE verifica a retração gradual do catolicismo a quase 1% por ano, explicando o avanço evangélico neopentecostal. O papado reformista de Francisco mitigou o processo, mas com a morte deste se teme nova aceleração. O papa Leão XIV tenta segurar. É uma rivalidade entre as matrizes cristãs desde a reforma de Lutero.
                    A “pele” escura da santa é outro tópico importante. Esculpida em ocre castanho, a imagem teria se escurecido por fuligem das velas, ou pela água percolada no material. Mas entre os descendentes dos escravos pescadores há a crença no suposto milagre da pesca pelo temor de serem castigados a mando de seu dono. Seja como for, a cor virou marca indelével da santa brasileira.
                    Nesse ínterim cabe ainda assinalar a recente censura de André Mendonça em mais de 1000 posts referentes à Nossa Senhora Aparecida incluindo a ironia de Paulo Tabet sobre racismo misógino da família miliciana e a decisão da Meta em bloquear o canal da própria CNBB para não render o asssunto e proteger Flávio. Como vemos, tudo isso remete a outro fator: o cristofascismo brasileiro.
                    Visando contestar o mito, um pastor alegou a cor da santa de sujeira. A contestação é razoável, mas não os ataques aos devotos e à tradição brasileira. Vale lembrar que as matrizes pentecostais no Brasil se fascistizaram colaborando na fundação das ditaduras militares na América Latina e, agora, os recentes  fatos envolvendo André Mendonça e a proposta de Flávio. Isso merece memória constante na história.
                    Quando o Brasil se redemocratizou, o cristofascismo não morreu, só baixou a voz. Em 2007 Galli tentou elevar a voz, mas foi calado. Marco Feliciano queria negar a diversidade sexual no cura gay. O MBL e o bolsonarismo ressuscitaram o pânico moral. Flávio Bolsonaro deixou isso claro na promessa. Parte dos evangélicos percebeu isso e se solidariza aos católicos. Mas só no resultado final da eleição saberemos se a tradição se mantém ou se desfaz.
Para saber mais
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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ANÁLISE: Himalaia: o alerta global

 

                    A Terra é um planeta dinâmico. Entre os leigos, toda cadeia de montanha é quase uma coisa só. Mas geógrafos e geólogos reconhecem dois tipos: serra e cordilheira. Serra denomina agrupamentos antigos e dissecados pela erosão, em geral alinhados a falhas antigas e de menor extensão e altitude. Já cordilheira designa cadeias formadas por compressão recente e ainda operante de placas tectônicas, que podem atingir extensão transcontinental e grandes altitudes.
                    As serras brasileiras são em geral antigas linhas de falha com relativa estabilidade geológica. Mas há uma exceção notável: a Serra do Espinhaço. Ela é tecnicamente cordilheira, graças à complexidade geológica (compressão antiga de placas, sedimentação, neotectônica e erosão), e também à grande extensão (de Ouro Branco, centro mineiro, até a Chapada Diamantina na Bahia). Hoje, ela é patrimônio da Unesco, como reserva da biosfera – sob ameaça.

Diferentes visões— 
                    Em toda a sua imponência e beleza, as cordilheiras atraem diferentes olhares. Para os nativos originários, as montanhas são sagradas moradas espirituais. Para turistas de aventura, elas são desafios excitantes para explorar.  Para os cientistas, elas possibilitam novos achados. E para este artigo vale a dinâmica da ciência – e daí um alerta à ignorância geral sobre o papel delas e seus perigos subjacentes.

Papel— 
                    Tanto as serras quanto as cordilheiras exercem papel na configuração da superfície e na distribuição da biota, do clima e dos recursos hídricos. Mas, graças às dimensões imponentes, as cordilheiras o exercem de forma ainda mais evidente. Picos nevados são nascentes de rios que atravessam os trópicos úmidos de um lado e impedem a umidade do outro lado.
                    Graças aos Andes sul-americanos e à Sierra Madre centro-americana, a América Latina é quase totalmente tropical úmida. O mesmo se verifica no subcontinente indiano e adjacências devido ao arco do Himalaia. As respectivas áreas secas se limitam à zona costeira oeste latino-americana e à Ásia central (altiplano tibetano, Mongólia e noroeste chinês).

Perigo iminente e o desastre do Nepal/Tibete— 
                    Se de um lado as cordilheiras funcionam como divisores climáticos e ambientais, por outro lado elas proporcionam eventos naturais que podem se tornar desastres humanitários. Terremotos fortes são comuns e compartilham com eventos climáticos como fatores de deslizamentos (avalanches de neve, fluxos de detritos), um risco constante para a vida humana.
                    Como as vertentes são muito íngremes e os vales em geral bastante estreitos e altos e profundos, em forma de V, encaixados, resta aos moradores residirem nas estreitas áreas planas e nas partes mais baixas das vertentes, que se tornam os caminhos dos canais de escoamento dos rios e também de avalanches e fluxos de massa. E é nesse cenário que entra um fato trágico que deu fez os olhos do mundo inteiro se virarem para um pequeno e pitoresco país da Ásia Central.

Nepal— 
                    O Nepal é um país conhecido pela população de fé majoritariamente hindu e budista, e arquitetura que mistura influências indiana e tibetana. Ele se “espreme” ao sul com a Índia, ao norte com o Tibete e com a China, e a oeste com Butão. O relevo é montanhoso, havendo mais planícies florestadas úmidas ao sul. A capital Katmandu fica num altiplano que dá vista para algumas das montanhas mais altas do mundo. O “topo do mundo” Everest está bem na fronteira com o Tibete.
                    Grande gerador de divisas para um país pobre, o turismo abrange dupla face do Nepal: a natural, que atrai turistas de aventura nas montanhas e nas florestas do sul; e a humana, pela diversidade étnica (mais de 70, entre elas os sherpas que guiam alpinistas e turistas de montanha), gastronômica e religiosa (as principais são hinduísmo e budismo tibetano). Os nepaleses viviam essa rotina normalmente, até vir 26/8/26.

A magnitude de um desastre— 
                    Na manhã dessa mesma data, nossas telas foram invadidas por imagens aterradoras de um gigantesco, escuro e espesso tsunami que num piscar de olhos engoliu obras monumentais e pessoas que correram no puro instinto. Tudo foi tão repentino que só alguns minutos depois deparamos que foi um desastre, sobre o qual só compreenderíamos mais tarde. Foi um poderoso fluxo de massa.
                    Ele assim foi classificado devido à sua composição (gelo derretido, rochas e água). Algumas mídias chamaram o evemto de avalanche, devido ao bloco de gelo desprendido. Mas uma avalanche propriamente dita é composta essencialmente de neve não firme cujo acúmulo no declive da encosta se sucumbe à força gravitacional. Ventos catabáticos que sopram declive abaixo, esquis e pisoteio facilitam o fenômeno.
                    A energia desse fluxo foi tão colossal que o Serviço Geológico dos EUs (USGS) cogitou inicialmente um terremoto de até 5,2 magnitudes, depois refutado com ajuda de satélite. Fotos do Google Earth após o fenômeno revelam o seu ponto de partida em Langtang e a extensão total alcançada, mais de 200 km, numa velocidade de 200 km/. A fisiografia dos vales percorridos mudou, a base alargada por metros de sedimentos.

O fator— 
                    Tudo começou quando um bloco de gelo semiderretido de 610 metros de largura, já contendo detritos rochosos em seu corpo, se desprendeu da vertente de uma montanha em Langtang. Escorregou em queda quase livre pelo permafrost já instável da vertente quase vertical de 1200 metros. Agregando mais blocos de rocha, lama e vegetação pelo caminho, o fluxo de massa se engrossou ao atingir os rios abaixo.
                    [Permafrost é um solo congelado. Sua água sólida estabiliza unindo a camada superficial ao horizonte orgânico (turfa) logo abaixo e o substrato rochoso inferior. Seu inimigo é calor global exacerbado por nós. As dolinas (buracos) na Sibéria resultam da liberação explosiva do metano da turfa pelo degelo. No Nepal, gelo e permafrost atingiram um lago glacial represado por moraina (muro sedimentar deixado por geleira) e gerou um fluxo de massa por rompimento de lago glacial (GLOF em inglês)].

Os números do desastre— 
                    Após o fluxo, o mundo estarrecido voltou-se para o Nepal. Equipes de resgate de vários países se juntaram para buscar sobreviventes e o maior número possível de vítimas fatais. Foi preciso desafiar o relógio para identificar os corpos ainda íntegros o suficiente para chancelar a identificação. No momento em que escrevo este arquivo, os números do trabalho árduo de resgate podem ter atingido muito mais gente do que as matérias têm citado, enquanto as autoridades calculam os prejuízos materiais.
                    Nas primeiras horas de 27/8 vieram os primeiros números. A BBC de Londres divulgou o resgate de mais de 380 mortos e estimou em torno de 900 desaparecidos. Mais tarde, o Vatican News divulgou 788 corpos e um total estimado de 90 mil pessoas atingidas. A imprecisão numérica maior é de desaparecidos, variando entre 1900 a mais de 3000 – devido à extensão do fluxo.

Uma reflexão do pós-desastre— 
                    Após terminado esse grande fluxo de massa, novas fotos de satélite já disponíveis na internet e no Google Earth revelam mais mudanças fisiográficas nas montanhas e no ponto de partida (Langtang) do que o que as supracitadas. Já surgiram dois novos lagos glaciais adjacentes à citada região montanhosa. Eles mandam um recado claro: novo fluxo de massa acontecerá em futuro próximo, pois estamos em emergência climática.
                    Nepaleses e outros povos do Himalaia conhecem os fluxos de massa, em geral ligados a terremotos. A diferença é que, com o progredir do aquecimento global, a tendência será a de amento da frequência e da magnitude do fenômeno. E, para quem não sabe, as grandes cordilheiras são alvos de estudos do clima. Não só pelo papel que exercem, mas pela sensibilidade a mudanças ambientais e atmosféricas fora da curva, que talvez se explique na rarefação do ar em grandes altitudes.
                    De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que reúne 2000 cientistas de dezenas de países, o Himalaia – a terceira maior reserva de água doce congelada do mundo, e por isso alcunhado de 3º Polo – sofre maior velocidade de aumento térmico do que a média global. Cerca de 65% da cobertura do gelo da cordilheira foram perdidos pelo aquecimento global desde 1990. Estima-se que até 2100, se chegue a 85%, se continuar o atual ritmo de emissão de gases-estufa.
                    Atualmente, o Himalaia abriga mais de 300 lagos glaciais, dos quais 121 representam perigo iminente para novas ocorrências desastrosas de magnitude parecida, ou talvez até maior do que o recente desastre em futuro próximo. E,falando em lagos, logo após o grande fluxo de massa se formaram mais dois lagos, explicados pela mudança fisiográfica do alto do vale Langtang pelos blocos rochosos deslocados.
                    Humanamente, isso já se reflete. A mudança climática hoje só perde para a guerra como fator de migrações massivas. Vale afirmar que capital, guerra e clima se interligam mais do que só por causa e efeito. O capital gera a guerra. Esta coalbora significativamente na exacerbação do aquecimento global. Este piora o clima e a degradação ambiental preexistente, que força a migração para áreas melhores, já cobiçadas mesmo sendo desabitadas. É um feedback perverso e constante em nome do lucro.
                    Só que nada é para sempre. Como os demais recursos, a água findará um dia, e no final, pobres e ricos estarão no mesmo patamar. Em 30 anos, 40% da água doce já se foram da superfície. Dos 8 bilhões de pessoas, quase 50% perderam acesso constante, e 2,5 bilhões não têm água potável. Insegurança alimentar afeta até 2,5 bilhões de bocas. Capitalização excessiva do recurso, guerra e degradação ambiental estão por trás e o calor planetário crescente agrava esse processo.
                    Por enquanto, a água se renova em ciclos, que se tornam mais irregulares com o aquecimento global turbinado. Esse calor extra torna mais alta a taxa de evaporação em relação à de reposição. Ainda estamos em tempo de buscar soluções capazes de brecar a emissão de carbono – e também de criar tecnologias de absorção de excedentes de carbono atmosférico. O Himalaia já deu seu recado. E outras cordilheiras o darão também, talvez com a mesma magnitude. Ou, quiçá, maior.
Para saber mais
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/c70l4jen7qro (BBC News 27/8/26 --- colapso glacial: o fenômeno que causou a enchente na fronteira entre Nepal e Tibete).
- https://globoplay.globo.com/v/14905031/ (vídeo- 26/8/26- novas imagens mostram avalanche avançando e destruindo vilarejos)
- https://news.un.org/pt/story/2025/08/1850796 (ONU, 22//1/2026- Mundo tem 2,1 bilhões de pessoas sem água potável e 3,4 bilhões sem saneamento).
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CURTAS 118- ANÁLISES (falência mineira; misoginia na eleição)

 

FALÊNCIA MINEIRA

                    Em 2014, os mineiros já estavam cansados da dinastia tucana no governo estadual. Foi Eduardo Azeredo (1995-99), Aécio Neves (2003-10) e depois Antônio Anastasia (2011-14), interrompidos somente pela breve era Itamar Franco (2000-02). No pleito de 2014, o povo da Grande Belo Horizonte escolheu o petista Fernando Pimentel (2015-18) devido à irrepreensível administração como prefeito da capital.
                    Além da capital e adjacências, a eleição de Pimentel foi fortemente impulsionada pela população do Norte e Nordeste de MG, tradicionalmente lulistas. Muito empobrecida (só superada pelo Norte), a outrora próspera Zona da Mata também o escolheu. Mas ele não conseguiu resolver tantos problemas acumulados em 4 anos e deu lugar, em 2018, a alguém até então desconhecido da maioria dos mineiros: Romeu Zema, do mal conhecido partido Novo.
                        De biografia já abordada no blog (vide Zema nas Entrelinhas em CURTAS 113), Zema foi eleito como novidade – uma jogada para substituir velhos nomes que mais pareciam nuca querer resolver os problemas, tal como aconteceu com Jair Bolsonaro na presidência. O que a patuleia mineira certamente não imaginava é que nem toda novidade vale a pena. E Zema mostraria, aos poucos, essa verdade que terminaria sendo um tanto cruel para todo o Estado de Minas Gerais.
                        Político novato, Zema prometeu 1001 maravilhas e propôs gerir MG com “olhar diferente”. Mas, parcela considerável do povo percebeu depois que ele geriu o Estado como se fosse negócio seu. Congelou salários dos servidores enquanto os perseguia. Vendeu 112 empresas estaduais por bagatela. Deu isenção fiscal às mineradoras e ao seu Grupo Zema. Ferrou a política ambiental¹.
                        E as rodovias? As MGs ficaram ao léu – exceto o trecho de acesso ao seu sítio no Triângulo. As BRs têm alguns trechos em obras e outros em fase de concessão para a iniciativa privada. Ligando MG a SP, a ponte Sacramento foi alvo de debates recentes sobre a obra dividida (o lado paulista renovado, o mineiro largado), tornando o governo Zema uma piada nacional.
                    Dívida assombrosa— mas foi somente pouco antes de Zema renunciar ao governo para se lançar presidenciável, que a maioria do povo mineiro iria saber da relação de Zema com o erário público. Considerou a privataria “grande investimento”. Oriundo principalmente da carga tributária estadual – uma das mais pesadas do país – a riqueza em dinheiro foi convertida na maior dívida estadual da História: R$ 205 bilhões no total. Isso mesmo: 205 bi-lhões.
                    Muito desse rombo todo pode ser compreendido pelos maus feitos citados em Zema nas entrelinhas. A grana da privataria virou pretexto para pagar parte da dívida. Mas o valor das estatais de pequeno porte (e subsidiárias) e de participações acionárias menores foi baixo. Esperava vender as grandes, mas enfrentou a barreira sindical e de Brasília. E beneficiou o Master com R$ milhões.
                    Diante da dívida impagável e da pressão de manter grandes estatais públicas, Zema propôs o regime de recuperação fiscal (RRF). O governo Lula o homologou de 1/1/25 a 31/12/33. Depois, o ministério da Fazenda mudou para o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), com novo refinanciamento da dívida do estado com a União.
                    O patrimônio pessoal— enquanto a ultradireita faz cortina de fumaça sobre a compra de trajes e acessórios finos e a sobra de grana declarada pela deputada Erika Hilton (Psol-SP), que visa a reeleição, Romeu Zema ri à toa. Como os aliados reacionários, ele enricou muito: R$ 49 milhões só no segundo mandato. Entre outras coisas que vale a pena investigar, enfatiza-se aqui que ele reajustava seu próprio salário, do seu vice e de seus secretários, em cerca de 300% ao ano.
                    Tamanho reajuste se deve a um dispositivo criado e sancionado pelo próprio Zema, que propunha essa proporção surreal, que não se restringe a ele. Estende-se ao vice-governador e aos seus secretários, o que decorre naturalmente num rombo bilionário considerável no Tesouro estadual. Não por acaso, só o salário do governador, de R$ 10.500, saltou para R$ 41,8 mil neste ano.
                    Spoiler: segundo jornais, o reacionário Nikolas Ferreira declarou ter R$ 36,8 mil em 2022. Hoje sua finança saltou para R$ 3,9 milhões, mais de 10 mil vezes. Não é motivo de parabéns, mas de vergonha recorde. Cabe frisar que isso exclui os vultosos penduricalhos além do salário de R$ 42 mil, a passagem como vereador e já ser influenciador de amplo público jovem. Daí vem uma análise crítica.
                    Embora não tenha provas do contrário, a relativamente pouca grana declarada em 2022 não significa que ela seja verdade. Ele já era influencer notório antes de ser vereador. Mas isso não se resume a um ou outro nome. Declarar menos do que realmente tem é um artifício típico entre agentes políticos. A vergonha disso está no uso impune da política para enriquecer tanto em tão poucos anos.
                    Fria análise final —como os demais artigos que já escrevi, este tem somente a intenção dialética de analisar criticamente um governo a partir da verdade por trás dos fatos noticiados. Em si, o reajuste salarial é lícito e moral. O imoral é a proporção de 300% anual e “corrigir inconstitucionalidade” é um desrespeito vergonhoso aos cofres estaduais, que não se comparam com os da União.
                    Caro Zema, inconstitucionalidade foi punir servidores estaduais com insistente congelamento salarial e desmonte através de privataria à revelia popular. Fora a persecução a servidores críticos de seu governo. Inconstitucional foi a barbárie contra ambiental ao dar aval para mineração ilegal em áreas proibidas (de preservação) e críticas como a Serra do Curral, que abastece a Grande BH.
                    Enfim, quase inconstitucional é o seu descaramento de se tornar presidenciável depois de tudo isso. Ainda bem que as suas chances são mínimas, pois a maioria já viu que seus feitos são uma verdadeira piada de mau gosto – ou um perigo para o Brasil, após pôr Minas Gerais de joelhos e de pires na mão.
Nota: ¹deu licenças ilegais para mineradoras atuarem à noite em áreas proibidas por proteção permanente legal.
Para saber mais
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NA ELEIÇÃO, O FEMININO

                    A misoginia (aversão ao feminino que potencializa a opressão contra a mulher) é um tema multifatorial e complexo. Apesar do termo em si ser recente, seu pragmatismo tem longa história, por fatores morais e religiosos. Se discute opressão há mais de 1 século, com temas variando da participação no mercado de trabalho à política.
                    No Brasil, o Código Penal (1940) já criminalizava a violência doméstica. Mas havia brechas, só cobertas pela lei Maria da Penha (2006), décadas depois de o tema cair no debate político. Apesar dos avanços, ainda há inércia policial frequente, certa dificuldade jurídica e subinvestimento em política protetiva efetiva à vítima.
                    Mas a criminalização da misoginia segue debatida em virtude de outro fator. Resultado da ideologização do machismo cultural pela ultradireita, o movimento masculinista culpa a vítima pelos ataques e valoriza o “orgulho macho alfa hétero”, além de inverter dados da violência de gênero como o fez o ator Juliano Cazarré, celebridade novelesca da TV Globo.
                    Impulsionado pela ultradireita (MBL e bolsonarismo), o masculinismo já bateu de frente com decisões do STF em direitos humanos (união homoafetiva em 2011, anencefalia como fator de aborto legal em 2012 e criminalização da LGBTfobia em 2019). Grupos masculinistas como redpills e legendários ainda querem o fim do voto feminino, tornado mais um ideário da ultradireita, que vê nas mulheres um obstáculo para a sua vitória.
                    É um terreno fértil que torna a discussão acerca do feminino tão importante.
                    No avanço legal, o crime — durante o governo Dilma 2, em 2015, foi sancionada a Lei do Feminicídio, que inclui o termo (um neologismo que designa o homicídio de mulheres) no CP e inclui mulheres trans como vítimas a partir de 2024*. Hoje, feminicídio é crime hediondo que pode dar até 40 anos de cadeia, a depender da gravidade. Apesar dos avanços, o flagelo não foi mitigado. Pelo contrário.
                    Entre 2018-22, a agressão não letal subiu 19% e a fatal, 23%. Crimes sexuais inflaram 45%. Entre 2022 e 2024, as denúncias de feminicídio explodiram 121%, em relatos com ou sem agressão anterior (crime sexual, ameaça, cárcere privado, espancamento). Na população geral, 30% das mulheres afirmam ter sofrido ao menos um ataque, principalmente por autores conhecidos. Entre as evangélicas, essa cifra chega a até 40%, o que surpreende quem vê nessa fé uma mensagem de paz.
                    Embora específica ao assunto político, a violência política de gênero também importa, por ter aumentado de forma muito significativa. Ela se explica na ultrapassagem da fronteira dos ambientes políticos, a mutilar as relações afetivas entre amigos e a intimidade dos núcleos familiares. É o ódio fascista usando “Deus, família e liberdade” como slogan, claramente herdado dos nazistas,
                    O tema nas eleições— a direita usa a retórica “bandido bom é bandido morto” como segurança ostensiva. A esquerda e a centro-esquerda propõem meios mais efetivos de medida protetiva às vítimas sobreviventes da violência de gênero. Esses grupos progressistas também defendem penas mais duras aos feminicidas. Mas vem uma pergunta: o tema relacionado à mulher garante eleição?
                    Vale uma resposta qualitativa direta: sim. A penetração eleitoral é grande entre mulheres em geral, idem evangélicas. Estas últimas querem integridade física e psicossocial; as demais, a plenitude de ser mulher. A saída de Michele Bolsonaro do PL Mulher possibilita às cristãs devotas migrar seu voto para candidatos progressistas, preferencialmente mulheres.
                    A penetração eleitoral do tema é maior entre antifascistas e mulheres – idem evangélicas considerando-se, claro, a criminalidade. Nesse sentido, o tema daria uma boa margem de votação. Entretanto, a saída de Michele Bolsonaro do PL Mulher, antes grande nicho de base, possibilita resultar em grande margem de dúvida entre as cristãs devotas.
                    Diante disso percebemos mudanças de conduta de alguns políticos reacionários. É na linguagem. Para se manter reelegíveis, eles mudam a linguagem fazendo seus apoiadores entenderem uma defesa à pauta. E podem se reeleger, para na nova legislatura votarem contra qualquer proposta que criminalizem a misoginia.
                    Mas isso não significa derrota do tema. Ele tem poder de voto. A maioria dos eleitores é feminina. E talvez a maioria masculina seja ciente do valor da mulher, apesar da cultura machista. Portanto, a pauta contra a misoginia tem grande chance de apoio político – até porque quem é da direita precisa das eleitoras para sua continuidade.
Notas:
* Mediante decisão do STF de 2019.
Para saber mais
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