quarta-feira, 24 de junho de 2026

CURTAS 115 - ANÁLISES (André suspeito, 6x1 e jornalões)

 

Rapidinha

UM SUSPEITO NO STF?

                    Indicado para o lugar de Barroso no STF, Jorge Messias foi barrado pelo Senado ao fim da sabatina. Apesar de controverso entre ministros do STF – alguns o elogiavam, outros o viam com reserva – Messias nunca despertou dúvidas quando aos pré-requisitos essenciais para integrar a Suprema Corte. Mas o que levou ao reprove foram dois tópicos: a lealdade a Lula e, mais ainda, sua retidão ética à frente da Advocacia Geral da União (AGU). Agora, vamos voltar aos turbulentos anos 2019-22.
                    Dois ministros do STF se aposentaram aos 75 anos: Celso de Mello (Kássio Nunes Marques entrou logo) e Marco Aurélio Mello, cuja cadeira ficou vazia durante meses de relutância do Senado em sabatinar o novo indicado de Bolsonaro. Talvez temesse a mesma retidão ética que, anos depois, rechaçaria Messias. Mas o novo nome foi, enfim, sabatinado e aprovado: o “terrivelmente evangélico” André Mendonça.
                    Breve currículo—André Mendonça é pastor presbiteriano em São Paulo. Sociólogo especializado em Direito, professor e teólogo, ele ocupou os cargos de ministro da Justiça e, depois, da AGU. Sua lealdade à famiglia já era então notável, o que pavimentou de vez a curta estrada para a sua entrada no STF. E antes mesmo de entrar na Corte, ele já se destacou por polêmicas, o que continua já no atual cargo.
                    Anulação negada- ele era ainda juiz da Justiça Comum quando negou pedido de anulação da sentença de uma cidadã que furtou 4 pacotes de fraldas descartáveis num supermercado. Ele se baseou na reincidência dela em receptação e furto. Mas concedeu regime aberto devido ao valor do roubo superar 10% do salário mínimo. Por critério técnico, esta foi a menor polêmica, pois, pensando bem, a balança foi equilibrada nesse caso.
                    Referências duvidosas- durante julgamento do indulto dado pelo ex-presidente Bolsonaro ao ex-deputado já preso Daniel Silveira, André se referiu ao colunista do O Globo Valdo Cruz, o qual ele considerou ter “ouvido a voz do povo” e fez outras citações correlatas, ao responder a Xandão, então contrário ao indulto, que perguntou quais referências do presbiteriano.
                    Momento de perdão cristão- durante julgamento dos Atos Antidemocráticos na era Bolsonaro, André optou pelo julgamento individualizado e se referia como pregador religioso, como no caso do ex-deputado Daniel Silveira, um dos mentores daquele fato. Na 2ª turma do STF, ele votou pela “condenação suave” dos líderes da intentona do 8/1, mas foi duro com alguns réus “bagrinhos”, como ficaram conhecido os vândallos que deprerdaram e cagaram o patrimônio público.
                    Ameaça a liberdade de imprensa- quando ministro da Justiça, ele criou política persecutória a servidores, jornalistas e cartunistas críticos ao governo, alegando basear-se na hoje extinta Lei de Segurança Nacional, conforme narrou em seus perfis nas redes sociais na época. Anos depois, Xandão anulou tudo, baseando-se na liberdade constitucional de expressão e de imprensa. Mas ele mostraria que não aprendeu nada com isso.
          Agora, ele mandou retirar do ar matérias comprometedoras que envolvem Flávio Bolsonaro. Para equilibrar a balança, censurou postagem falsa do bolsonarista Gustavo Gayer acusando o PT pela facada em Bolsonaro em 6/9/18 em Juiz de Fora. Acontece que os escândalos criminais de Flávio são evidências cabais, e não ofensas, o que fere a liberdade constitucional de imprensa referente aos políticos, que são agentes públicos.
                    INSS e Caso Master- incomodado por seu envolvimento no caso Master, Dias Toffoli passou a relatoria para Mendonça. Este então decretou prisões preventivas de envolvidos conforme dados da PF. Mas poupou Vorcaro de depor na CPI do INSS, apesar das evidências constadas nas descobertas da PF., inclusive uma relação talvez indireta com Flávio Bolsonaro. Gilmar Mendes criticou a atuação de Mendonça comparando com a Lava-Jato, o que pode ter mais força com o senador petista Jaques Wagner no caso Master.
                    Jaques Wagner e Master— a entrada de Jaques se relaciona a Augusto Lima, que gere a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal). Augusto é ex-sócio de Vorcaro e dono do Banco Pleno. O dinheiro indevido para o senador ocorreu com a privatização da Ebal em 2017. Só que em 2017 era outro banco e não o Master, que renasceu das cinzas do ex-banco Máxima em 2019 por autorização de Campos Neto, recém-empossado no BC por Bolsonaro. Aí me pergunto: como Mendonça vai conduzir o caso sem dar suspeita? Só se comprovar que Lima e Vorcaro foram sócios no Pleno, ou no Máxima.
                    Fria análise final— é bem provável que Mendonça se aproveite dos holofotes sobre si para frear a liderança eleitoral de Lula usando Jaques de bode expiatório. O senador tem que renunciar à liderança do PT na Casa para proteger Lula eleitoralmente até provar inocência. E, por higidez moral cristã, Mendonça tem que autorizar a PF investigar Flávio, dadas as sabidas evidências, como o fez com Ciro Nogueira e Jaques.
                    A censura midiática sobre as investigações da PF relacionadas aos escândalos do “BolsoMaster”, como ficou conhecido através dos parlamentares petistas, não tem garantido melhoras para Flávio nas pesquisas de intenção de voto para presidente. André Mendonça pode ser bolsonarista por convicção, mas a balança da Justiça é a mesma da ética ilibada e do saber jurídico. Se continuar blindando um em detrimento de outro dessa forma, não adiantará nada chorar se ficar conhecido como o “ministro suspeito do STF”. Ainda tem tempo para mudar, e o momento é agora.
                    Ah! Estendo meu recado para Kássio Nunes Marques que, à frente do TSE, outro que blinda o bebê chorão que não enfrenta os próprios crimes.
PAra saber mais
- https://www.youtube.com/watch?v=XigUTvo7Dyo (CNN Brasil, 17/6/26- Gilmar critica Mendonça e compara caso Master à Lava-Jato).
- https://www.youtube.com/watch?v=QFp-0DgvKJw (Desmascarando, 21/6/26- Eliane Catanhede humilha André Mendonça e cobra ação da PF contra Flávio, que fica nervoso)
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Rapidinha

FIM DA 6X1 E O DRAMA DOS JORNALÕES

          Como já publicado, o governo Lula conseguiu uma vitória quase improvável na Câmara ao ter aprovada a PEC que maximiza a jornada semanal em 40 horas e escala 5x2. Mas, no Senado, o presidente local Davi Alcolumbre determinou o emperramento da votação da PEC e liberou a pauta da PEC bolsonarista que pode gerar a escala 7x0.
                    Como André Mendonça (STF) e Kassio Nunes (TSE) se uniram em defesa do presidenciável Flávio Bolsonaro, “vitimado” pelas pancadas de descobertas da PF sobre seus infindáveis escândalos, os jornalões tiveram que se arranjar em prender a atenção da patuleia com manchetes de ataque. Desta vez, o alvo é o futuro econômico em caso de aprove da PEC 5x2.
                    Velha ladainha— os jornalões voltaram ao velho alarmismo sobre o futuro do país em caso de aprovação da PEC defendida pelo atual governo. Segundo eles, a redução da carga horária máxima a 40h semanais vai “aumentar os gastos com os serviços públicos, como saúde e educação, em torno de R$ 34,5 bilhões”. Manchetes de capa com breves sinopses seguindo títulos garrafais negritados.
                    Não comprei nenhum jornal nas bancas. E sabia que as marcas referidas – O Globo, Folha de São Paulo, Estadão – na internet são restritas para assinantes. Mas, se as letras garrafais eram perfeitas para chamar a atenção da patuleia, o pouco que apareceu nas sinopses deu subsídio suficiente para uma abordagem analítica e crítica neste presente artigo.
                    Velha prática— o alarmismo de rombo público nas letras garrafais e na cifra nas sinopses é explicado pela necessidade de contratar mais pessoal. A estratégia psicológica causa nos incautos a impressão de que servidores “trabalham menos do que deveriam e ganham muito”, cortando o raciocínio sobre a farra da terceirização, em que cada funcionário onera até 3 vezes o ente contratante do que o servidor efetivo.
                    E detalhe: a área administrativa – a mais impactada pela terceirização – é essencial não só para legitimar as atividades dos entes públicos, como também responde por denunciar ilicitudes burocráticas que geram malversação de recursos públicos por servidores e terceirizados a mando de gestores de indicação política. É, portanto, a área mais nevrálgica da Administração Pública.
                    Desmistificando— como servidora da saúde pública desmistifico esse folclore: na prática real, a carga horária máxima de 40 horas em escala 5x2, e plantões 12x36/12x48 são universais nos poderes públicos há décadas. A maior carga média de jornada e de escala é a do Poder Executivo. No Legislativo e no Judiciário, suas médias respectivas de carga são menores – com direito a penduricalhos que não temos, que sugam sozinhos mais de 70% dos gastos salariais pela Administração Pública.
                    Sobre os servidores cabe assinalar: não é que trabalhemos pouco. Na lei 8112/1990 (Estatuto do Servidor, ou regime jurídico único-RJU, a lei trabalhista dos servidores concursados efetivos), os diaristas podem trabalhar por 6 ou 8h/dia se segunda a sexta, geralmente sem intervalo de almoço como na CLT. Plantonistas na saúde trabalham em geral 30h/semana.
                    Os jornalões jogam com o mesmo feitiço desde o decreto da CLT em 1943. Direitos trabalhistas posteriores entraram sem impactar a sobrevida de empresas privadas e o Estado. O rombo no Tesouro está na amortização da dívida pública, da privataria e das isenções fiscais a grandes entes privados. Reestatizar empresas privatizadas e substituir terceirização por concurso são as metas para maior produtividade no trabalho com jornadas menos pesadas. E só resta aos jornalões reconhecerem que até o mercado que os rege também emprega gente com jornadas menores do que a defendida nas suas manchetes.
Para saber mais
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domingo, 21 de junho de 2026

CURTAS 114 - ANÁLISES (Cleitinho; Duda e Erika)

 

CLEITINHO: POLÍTICA-ESPETÁCULO

                    
                    Em 2022, a farra de privilégios ao Centrão de Arthur Lira e seus aliados pelo então presidente Jair Bolsonaro com orçamento secreto (emenda com transações a destinatários ocultos no Portal da Transparência) levou militantes às redes sociais para encampar campanha pela renovação do Congresso, antes e durante abertura da corrida eleitoral daquele ano pelo TSE. Com a crescente antipatia popular ao Centrão, muitos eleitores aderiram à ideia.
                    Desconhecidos apareciam como candidatos novos., em santinhos distribuídos nas ruas. A democracia burguesa era colorida por partidos nanicos ao redor dos principais. Só que, passado o pleito e feita a contagem eletrônica de votos, veio uma certeza: a maioria dos ilustres eleitos é de partidos de direita. Nada demais aí, não fossem as federações partidárias que se formaram após a posse da nova legislatura em fevereiro de 2023.
                    Entre tantas novidades eleitas antes ignoradas pelo grande público, Minas Gerais conseguiu eleger ao menos três delas, que têm mostrado grande popularidade: a indígena Célia Xakriabá (deputada federal do Psol), o também deputado federal Nikolas Ferreira (PL, vide artigos disponíveis neste blog), e o senador Cleiton Gontijo de Azevedo, ou melhor, Cleitinho (Republicanos), o sujeito deste presente artigo.
                    De vendedor a político— de Divinópolis, Cleitinho não tem formação superior. Vendedor, músico gospel e microempresário varejista, foi eleito vereador em 2016, e em 2018 deputado estadual, pelo Cidadania (ex-PPS). Em 2022 foi eleito senador pelo Republicanos, partido da IURD de Macedo, com mais de 6 milhões de votos. Tem dois irmãos que também entraram na política, um deles o atual prefeito de Divinópolis.
                    O que explica a popularidade de Cleitinho são seus discursos populistas na tribuna e nas redes – só que à direita, embora de modo bem singular. Sempre discursa o que o povo quer ouvir. Nega ser populista, mas diz refletir “o sentimento do povo”. Se diz oposição a Lula, mas já defendeu o socialista Glauber Braga na tribuna. O traje formal de terno e gravata na tribuna se transforma em roupa esportiva com camisa de futebol em seus vídeos nas redes.
                    Graças a esse formato político, ele é hoje apontado como líder na preferência dos mineiros da grande BH e do sudoeste de MG para governador – caso realmente decida a se candidatar. Só que ele já adiou essa possibilidade 4 vezes. O motivo ainda não parece muito claro, mas há duas hipóteses correndo. Uma delas é a de seus adversários, que acreditam ser “medo de ser vidraça”; e outra é a de possível decepção: “se houver oportunidade para ser apresentador, saio da política”. Ou, mero rolo para a plateia para o pós-Copa.
                    Entre o discurso e a efetividade— segundo o site oficial do Senado, Cleitinho é coautor de 165 projetos de lei (PLs, 87 emendas à Carta (PECs), 12 leis complementares (PLCs) e 4 decretos legislativos (PDLs). Quase todos ainda estão no Senado. Entre os que foram para a Câmara, em geral têm sido reprovados. Apesar de algumas propostas realmente ter apelo popular, ele defende algumas mais bolsonaristas, como a PEC da jornada flexível, também já abordada em artigo recentemente publicado.
                    Nesse ponto podemos entender por que cientistas políticos em geral criticam o populismo. Não como estratégia garantidora de bom potencial de elegibilidade, mas pela tendência demagógica do eleito. Por mais bem intencionado a resolver os problemas da nação, o populista se depara com a realidade da nossa real politique (política real): querer não é poder fazer, e ter poder não significa efetividade, daí obter likes na rede. Foi nesse mundo que Cleitinho mergulhou, voluntariamente.
                    Contradições— Cleitinho acusou Lula de corrupto, mas omitiu colegas bolsonaristas manchados. Postou vídeos ensinando a burlar pedágios em algumas estradas mineiras desviando por “estradas privadas”, pois “as públicas cobram pedágio” (na real é o contrário). Na CPI das Bets, fez um discurso em favor da influencer Virginia Fonseca como “geradora de riqueza, de emprego” e postou selfie com ela. Na prática, os viciados é que dão riqueza para Virgínia e outros famosos milionários.
                    Outra contradição é a sua relação com a vida pública. Após dizer, no ano passado, se sentir “frustrado” com suas propostas emperradas, ele posteriormente negou cogitar abandonar a carreira política. O que mais revela uma personalidade oportunista ou – para quem achar ofensivo demais – um surfista político, o que na prática dá no mesmo. Mesmo voluntariamente sabendo como a política funciona, ele viu nela a chance mais rápida e fácil de ascensão social, algo sonhado desde a sua juventude.
                    Oufra contradição que vale muito a pena colocar aqui é ele ter, como suplente Alex Diniz, emprersário do setor supermercadista, mas não aparentado a Abílio Diniz, da rede Pão de Açúcar. Uma polêmmica criminal aponta o seu filho, Moisés Diniz, como mandante de uma chacina ligada à grilagem de terras no Amazonas, ocorrida em junho deste ano. Detalhe: o citado suplente é filiado ao PL bolsonarista.
                    Crítica a alvo errado— ao desabafar que seu sonho é ser apresentador de TV e que cogita sair da política, Cleitinho abre portas para duas hipóteses. Uma delas é a frustração com o emperramento de suas muitas proposições. A outra hipótese se relaciona à declaração de “ter que fazer acordo com quem não está nem aí para o povo” – a face desagradável da política real, com a qual Lula aprendeu a lidar em mais de 40 anos de experiência nos bastidores da vida pública.
                    Vergonha de selfie e puxa-saquismo à parte – persona non sense no mundo público –, Cleitinho não me parece criminoso, por eu desconhecer nele as evidências de diversos crimes graves que envolvem praticamente toda a direita. O que não o inocenta. Ele foi tão oportunista quanto os demais da comitiva capitaneada pelo agora ex-deputado Eduardo Bolsonaro nas viagens aos EUs, apoiando, silente, a solicitação de interferência trumpista na institucionalidade do país.
                    Análise final— minha análise final é a de que, sem querer desmerecer Cleitinho, este não tem como assumir agora um poder tão espinhoso quanto o executivo (prefeito, senador ou presidente). Mesmo razoável ao criticar colegas “que não ligam para o povo”, ele primeiramente precisa amadurecer sobre onde acredita que fará o melhor espetáculo: se na política (nos lembremos de Bolsonaro, Zema ou Claudio Castro!), ou num programa de auditório. Caso seja o primeiro, que se mantenha no Congresso, que ultimamente virou um teatro de terror.
Para saber mais
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ENTRE PEQUENOS, DUAS GIGANTES

                    Assim como em outros países latino-americanos, a ditadura militar brasileira foi favorecida pelo pânico moral criado pelo macarthismo estadunidense, através do envio de grupos missionários com bagagem de pregação cristofascista. Nesse meio, se esperava que a diversidade sexual devia ser criminalizada e banida pelo chumbo, ou coberta pelo escuro manto moral cristão. Mas, os milicos a viam com ambiguidade – mesmo tendo havido prisões e repressão nas ruas.
                    Os nossos milicos sabiam que as minorias sexuais então conhecidas e identidades transgêneros, se somavam num público amplo, em todas as classes socioeconômicas, pelo país. Outros gêneros identitários foram reconhecidos no pós-ditadura, tendo suas iniciais designativas inseridas no que é a atual sigla LGBTQIAPN+. Mas, até onde sabemos, e exceto homossexuais velados, não havia lugar – mesmo sem coibição legal – para se eleger transgêneros ou travestis.
                    Só após o STF reconhecer legalmente o casamento homoafetivo e depois identidades transgênero, que houve movimento efetivo pela diversidade sexual na política. Na ALEP (Assembleia Legislativa de SP), a deputada Mônica Seixas (Psol) criou a Bancada Ativista, a partir do mandato coletivo, em que um político divide o poder com um grupo de cidadãos. Veio o irreversível ambiente favorável à eleição de transgêneros, filiados especialmente em partidos de esquerda.
                    Uma mineira em vários atos— nativa de BH, Duda Salabert se transicionou em 2014. Em 2020 foi a vereadora campeã de votos (11% entre 41 eleitos), pelo PDT. Mesmo eleita, deu teleaulas de língua portuguesa e literatura pelo Colégio Bernouille durante a pandemia, até ser demitida em 2021. Ela alegou preconceito dos pais dos alunos, e a escola, incompatibilidade de dedicação política e educativa (para mim valem ambas). Em 2022, Duda se elegeu deputada federal. Neste 2026 trocou o PDT pelo Psol.
                    Duda tem enfrentado repetidas ofensas transfóbicas. Só do cristofascista Nikolas Ferreira, ela já obteve duas vitórias em processos judiciais. E desde então usa a camisa do ativismo ambiental, ao denunciar os descasos públicos com os parques de BH. Agora deputada federal, ela já publicou posts filmando a mineração ilegal noturna na Serra do Curral, que tem área protegida devido ao lençol freático que sustenta os mananciais que banham e abastecem toda a Grande BH.
                    Uma voz premiada— de Franco da Rocha (SP), Erika Hilton foi expulsa por parentes em Itu por ser trans. Prostituindo, estudou na EJA e depois cursou Pedagogia na UFSCar, quando escolheu a política. Em 2015 entrou no Psol, tentou e perdeu a vereança em 2016 e, em 2018 entrou na Bancada Ativista no mandato coletivo da ALEP. Campeã de votos em 2020, virou a 1ª vereadora trans mulher paulistana, ferrando Bruno Covas e João Doria por abolirem a gratuidade de idosos no transporte público. E veio 2022.
                    Erika se tornou a primeira deputada federal negra trans mulher da história. Nas várias frentes de atuação, a principal é de Direitos Humanos. Com falas incisivas e raciocínio rápido, ela foi premiada: Generation Change-MTV Europe e Personalidade Destaque da IstoÉ (2021), Congresso em Foco (2023-4-5, da 1ª à 3ª posição), Top 100 mais influentes-BBC, Mais Influente Mulher de Ascendência Africana-ONU, Top 100 mulheres mais influentes 2022-Time, e Melhor Deputada de SP.
                    Produção parlamentar— Duda e Erika se destacam pela intensa atividade parlamentar, como partícipes de comissões temáticas e CPIs, presidência de comissão (Erika, comissão da Mulher) e na elaboração de proposições legislativas de variados temas. Não há faltas injustificadas entre ambas, e somente Duda tem se ausentado às vezes por motivação oficial. Ambas presenciaram a votação vitoriosa da PEC governista da escala 5x2 (já abordada neste blog) na Câmara, e seguem com outro ponto comum.
                    Ataques transfóbicos— desde os tempos de vereança, Duda e Erika têm sofrido repetidamente a mesma modalidade de ataque: a transfobia. Elas têm buscado meios judiciais para inibir as ofensas, embora tenham muita dificuldade. Embora os colegas reacionários escancarem a agressividade, ambas sabem que a transfobia se conecta ao sexismo, que é um problema cultural e não ideológico, mas assim tornado por conta do sequestro do princípio moral. Mas há algo além disso.
                    Vem da cultura do meio de trabalho. Sabem que, quanto melhor é um funcionário, mais este sofre assédio ofensivo de chefe ou colega? Pois é. Nesse sentido, as ofensas a Duda e Erika têm paralelo aos ataques machistas sofridos pela ministra Marina Silva há vários meses atrás. É uma maneira de disfarçar – muito mal – certa inveja da popularidade crescente dessas parlamentares, que conseguem tornar efetiváveis as suas propostas, quando aprovadas pelo Congresso.
                    Final— por isso imagino que, a despeito de a pauta identitária ser central nas suas propostas, diante do contexto dos fatos Erika e Duda não se importam exatamente com o que pensam delas, e sim com a conduta criminosa resultante de tais pensamentos, dos colegas e/ou de seus seguidores. E cabe assinalar também que a predileção de Nikolas em atacar Erika com mais veemência se deve ao efeito fulminante do vídeo-resposta que ela lançou à falaciosa taxação do pix em 2025 que, doce sabor da ironia, Flávio Bolsonaro quer.
                    Existem gigantes no Congresso. Gigantes de ética, causa e proposta. Eles são poucos, em meio à multidão de gente pequena, imersa em seu reacionarismo de ódio e crime. E Duda e Erika são duas gigantes, que incomodam por serem tão necessárias para a nação.
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CURTAS 115 - ANÁLISES (André suspeito, 6x1 e jornalões)

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