domingo, 29 de março de 2026

ANÁLISES-CURTAS 107 (clima: do natural ao humano)

 


CLIMA EXTREMO: NATURAL OU NÃO?

                    A abundância de notícias de desastres por extremos climáticos – tempestades, ondas de calor ou frio e secas – chama a atenção coletiva. Em meio a ondas solidárias, alguns apontam “sinais divinos”, outros culpam prefeituras e governos e outros, aquecimento global. Na percepção de maior frequência e intensidade, pergunta-se: por que tanto extremo?
                    Enquanto climas temperados têm 4 estações distintas, os tropicais têm 2: chuvosa (primavera-verão no Brasil) e seca (outono-inverno), diferindo-se em médias térmicas e pluviométricas. A dinâmica cíclica não é muito regular, havendo variações pontuais em anos de série histórica, por poderosos fatores naturais e induzidos pelo homem.
                    Fatores naturais – os de curto prazo são oceânicos (El Niño- aquece o Pacífico equatorial; e La Niña- o contrário), podendo chegar a 5 anos cada. Os de longo prazo, o Ciclo de Milankovich (mudança angular no eixo de rotação terrestre em 23-35 mil anos) e a constância vulcânica global em tempo parecido são bem documentados na geologia.
                    Os citados fenômenos oceânicos respondem pelas mudanças geográficas de padrão meteorológico e térmico no decorrer das estações, com intensidade e duração variáveis. Já os outros dois são documentados como fatores de extinções em massa mediante estudos geoquímicos e datações em estratos rochosos e colunas de gelo fóssil polar.
                    Fatores artificiais – são induzidos por atividade humana intensiva a partir da exploração de recursos maturais e de modificações ambientais profundas e culminando nas atividades econômicas diversas. Compostos químicos industriais poluem água, solo e ar por vários meios (agrotóxicos, armas químicas, acidentes), e gases alteram a atmosfera. 
                    O lema “Domar a natureza” moldou culturas, valores e sistemas econômicos consolidando civilizações. Hoje, quase 70% dos ambientes naturais foram alterados ou degradados, se tornando irrecuperáveis em algumas regiões. A constância cumulativa em anos resulta em importantes e profundas alterações na dinâmica climática.
                    Aquecimento global e mudanças climáticas – há uma confusão popular sobre os termos que já foram abordados no blog. Apesar das informações midiáticas, a compreensão geral ainda é baixa. Fala-se muito de aquecimento global como fenômeno recente, o que revela o desconhecimento da existência de formas distintas e classificadas.
                    Os principais são CO2, metano e vapor d’água. Seu volume no ar aumenta ou diminui conforme a intensidade dos fenômenos naturais (vulcões, decomposição orgânica, umidade), mas sem a constante sobrecarga intensiva da ação antrópica. A atividade econômica os emite até 150 vezes mais do que erupções vulcânicas e decomposição juntas.
                    Mudança climática é a oscilação no padrão sobretudo climático. A natural foi longa e gradual, determinada por ciclo de Milankovich, ciclos solares e gás-estufa, com extremos meteorológicos mais raros. Já a antrópica é a mudança exacerbada e rápida, e se caracteriza por extremos sazonais e meteorológicos mais intensos e frequentes.
                    Decorrências – apesar da atualidade midiática dos extremos meteorológicos, a ciência aponta a história da Terra recheada de mudanças climáticas. As Terra bola de neve de 717-635 milhões de anos atrás e as alternâncias glaciais-interglaciais de 2,6 milhões de anos ao presente são as mais conhecidas em interferências do clima sobre toda a biosfera.
                    A humanização das tragédias climáticas tem nas narrativas dos escribas da Antiguidade os seus primeiros registros. Mas a indução sobre s efeitos globais do fenômeno só veio com a teoria da evolução por seleção natural de Darwin no século XIX, e as medições históricas das médias térmicas globais, trefinadas e tornadas obrigatórias no século XX.
                    A humanização da tragédia climática não só reforça a comprovação científica das mudanças do clima na história do planeta. Ela também nos faz pensar que existe uma mutualidade retroalimentar na relação entre pressão ambiental sobre os seres vivos (aí inclusas as sociedades humanas) e as reações destes ao próprio meio, ontem, hoje e amanhã.
                    As mudanças climáticas são originalmente naturais. Mas nossas ações acumuladas as apressaram o aquecimento natural, e veio a emergência climática – que agora vivemos e nos preocupa. Há solução? Não vejo um retorno, mas é possível estabilizar as condições atuais, a elas nos adaptar e manter a biodiversidade ainda vigente por mais tempo. Mas aí já envolve uma política única e coletiva para toda a comunidade global – cuja viabilidade só a experiência dirá.
Nota[1] espécies fósseis indicadoras de especificidades ambientais (clima, substrato ou fonte alimentar, profundidade em meio aquático, etc.)
Para saber mais
 https://www.youtube.com/watch?v=Tuq4kdoYNrE&t=221 (BBC News Brasil4 falácias sobre as mudanças climáticas, 26/12/23)
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CLIMA: A OPÇÃO PELO ESTRAGO

                    Brasil, anos 1935-40: enquanto grandes inundações destruíram habitações e mataram pessoas no Sul, secas severas no Norte e no sertão nordestino desencadearam fome e êxodos massivos para o Centro-Sul, que sofria efeitos dos extremosOs migrantes viraram operários agropecuários no centro-oeste e industriais no Sudeste. Em 1983, o Brasil reviveu os mesmos extremos. E em 2023-24, novamente o Sul foi inundado.
                    Brasil, 1971: foi fundado em SP o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), por influência da competição sideral entre EUs e URSS e do interesse em estudar o clima e o mapa de biomas com satélites de pesquisa. Através dos mapeamentos do INPE, a Amazônia era canteiro de obras para militares e manto de riquezas para os empresários, o cerrado e o Pantanal campos agropecuários, e a o sertão da caatinga, uma região desolada e pobre.
                    Nos mais de 50 anos que se seguiram, os biomas brasileiros têm sofrido com a intensa predação econômica humana. Povos indígenas – alguns deles inteiros – sumiram do mapa cultural e linguístico. Rios antes naturais, que ofereciam água de beber e divertiram muitos, degradaram ou desapareceram deixando saudades. Nas cidades, hortas de quintal deram lugar alimentos caros e cimento estéril, e também poluição, lixo, degradação e mais recordações dos saudosistas.
                    Essa foi a senha para outra mudança drástica, a do clima e dos fenômenos meteorológicos. Todo mundo reparou como calorões duram mais tempo do que antes e as chuvas se concentraram em poucos dias. Desastres por temporais sempre existiram, mas eram relativamente esparsos e mais ou menos previsíveis. Hoje surgem em qualquer época e, às vezes, imprevistos na sua intensidade e frequência – apesar das chuvas corretamente previstas.
                    Como já explicado no artigo anterior, a mudança climática – apressada e exacerbada pela ação humana mais predatória e gananciosa – se marca de extremos meteorológicos cada vez mais intensos e frequentes, que sentimos a cada temporada de calorão que impede um passeio agradável ao ar livre ou nos obriga a botar móveis para o alto a cada temporada agora imprevisível de enchentes. E, nessa história toda, o que têm feito as partes governantes?
                    Governos – a maioria dos governos tem exercido medidas de remediação do desastre, sobretudo na infraestrutura urbana, a partir dos repasses de recursos por governos federais, enquanto ondas solidárias sempre fazem a sua parte com donativos em alimentos e vestuário. Mas tais medidas são temporárias e nem sempre dão certo – seja por parcialidade na reconstrução, insuficiência de recursos (ou corrupção mesmo), ou despreparo para a repetição de extremos climáticos.
                    Entre as péssimas exceções, o motivo é o negacionismo climático – que anda de mãos dadas com greenwashing (engodo publicitário de falsa ecologia) empresarial, que abundou na COP30, que resultou em mais fracassos do que vitórias, e agora marca o governo Trump 2. Mas vale ressaltar: o negacionismo não é apenas de empresário e político. Ele também está no comportamento da patuleia.
                    A patuleia – em geral, o povo concorda que o clima “está cada vez pior porque agredimos a natureza”. Mas depois esquece: no primeiro momento cortam uma árvore e a descartam ou aproveitam a madeira para seus luxos. Depois reclamam da feiura paisagística de concreto ou da falta da sombra fresca de outrora. Nos hoje raros quintais, pomares e hortas dão lugar ao cimento e a alimentos processados e caros.
                    Por isso que nós somos outro fator de extremos meteorológicos. Acostumado com medidas de remediação de desastres, o povo contribui com políticos omissos. Acham que “os garis são pagos pra limpar nossa sujeira”, o que não é verdade. A árvore frutífera retirada com raízes pode ser replantada em local mais adequado, longe da fiação elétrica. Se fossem respeitadas, as lixeiras não seriam retiradas dos postes.
                    Solução múltipla – é preciso reconhecer: a emergência climática se iniciou com a era nuclear (anos 1950-presente). Surgidos nessa época, os satélites aperfeiçoaram a Climatologia, que mapeou regiões críticas, identificou invernos nucleares acidentais e ciclones furiosos com nomes femininos. De início sutil no hemisfério Norte, o novo padrão climático agora é global – mas só agora o admitimos ao percebermos o mundo 1,5°C mais quente.
                    Com esse novo acréscimo, admitimos que o novo clima não tem mais retorno. Daí a insistência de alguns geólogos de nomearem o momento a partir dos efeitos da era nuclear há 70 anos, de AntropocenoO que não significa que a biosfera que nos envolve findará logo. Ainda há como corrermos atrás de uma solução múltipla – que começa em repensarmos nossos conceitos nesse tema, já combatendo o negacionismo e planejando ideias.
                    A solução depende de todos: sociedade, empresas, políticos. Conscientização ampla sobre consumo e descarte, recuperação de áreas degradadas improdutivas com espécies nativas e novas zonas de proteção permanente, agroecologia ampla, tratamento de esgoto e outros poluentes, filtragem de escape de veículos e fábricas e combate ao crime organizado florestal são as políticas principais. Jardins arborizados em praças e edifícios ajudam.
                    Os resultados não reverterão o novo padrão global, mas já serão suficientes para prolongar a habitabilidade planetária em conforto relativo. Os locais surgem mais rápido, e os mais amplos poderão levar um ou mais séculos. De qualquer forma, as ações beneméritas amplas já eram para serem executadas, como as medidas preventivas contra desastres possíveis por futuros extremos meteorológicos. Mas, claro, tudo tem que ser bem planejado.
                    Claro que a remediação vai ser necessária. Mas os gastos públicos relaciondos serão bem menores em cidades  que adotarem políticas preventivas. A omissão negacionista que origina a desculpa “não imaginava isso tudo” não deve mais continuar um minuto sequer.  A oportunidade de todos revermos nossos conceitos – especialmente governos e empresários – é agora. A continuidade do protelamento dessas novas políticas significa a opção pelo estrago e pelo sofrimento popular e econômico. Mesmo parcialmente culpado pelos desastres atuais, o povo não pode pagar sozinho.
Para saber mais
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sábado, 7 de março de 2026

CURTAS 106 - ANÁLISES (Lula e samba; Polilaminina)

 

CRÍTICA CERTA, FUTURO INCERTO

                    Enfim já corre 2026, novo ano eleitoral para presidente. Enquanto blocos e escolas de samba esquentam as percussões no colorido dos ritmos e das multidões no mosaico de sotaques, já está quente o movimento nos bastidores da política. Convenções partidárias definem candidatos, e os respectivos líderes dialogam novas alianças regionalmente diferenciadas.
                    Nesse rearranjar das coisas, o carnaval respira mais crítica política. O tema é velho no carnaval, mas foi no bolsonarismo que se aprofundou em consciência e acidez, com a bela atuação da escola Paraíso do Tuiuti no Sambódromo carioca em 2018. Ela reviveu o lawfare que tirou o petismo do poder em 2016 e prendeu Lula para eleger a ultradireita em 2018.
                    Eleito em 2022, Lula levantou o Brasil. Ele chegou a declarar 2026 como “o ano da colheita”, mas os 4 anos de pressão externa não lhe foram suficientes. A fusão centrão-ultradireita agora apoia o presidenciável Flávio Bolsonaro. Empurrado pela militância, Lula se diz disposto à reeleição, enquanto o nome à sua altura não se anuncia.
                    Da crítica à homenagem – o pesadelo de 2019-22 aprofundou a acidez da crítica política. Entre 2023-25, os alvos foram os mandantes da intentona de 8/1 e a direita congressista querendo mais dinheiro e suspendendo mandatos de 2 deputados governistas. Em 2026, o carnaval carioca veio com homenagem que caiu na boca popular – e na Justiça.
                    A escola de samba Acadêmicos de Niterói criou uma poesia-enredo biográfica “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. Sua passagem fez o público na avenida entoar uníssona o refrão “olê, olê olê olá, Lula, Lula” usado em campanhas eleitorais, e “Sem anistia!”, durante e após a passagem de todas as alas.
                    Judicialização prévia – a letra-enredo lulista já era debatida quando, antes mesmo do primeiro dia do desfile das escolas cariocas, petições entregues à Justiça solicitavam o impedimento imediato ao desfile da Acadêmicos de Niterói. A alegação foi óbvia: crime de campanha eleitoral antecipada – que supostamente poderia condenar Lula à inelegibilidade.
                    Nas redes sociais e no Youtube, vídeo da TV Justiça no STF divulgou falas dos ministros André Mendonça e Carmen Lúcia, que advertiram sobre o perigo de crime eleitoral possível. Mas Carmen acrescentou que as ações de impedimento judicial ao desfile sinalizam censura prévia, criminalizada pela Carta Magna de 1988.
                    Por sua vez, parlamentares bolsonaristas e bíblicos anseiam pela inelegibilidade de Lula devido à ala das famílias em conserva da agremiação. O texto só critica a higidez do conceito de família evocando as incoerências na vida prática, sem menção religiosa. Mas os bíblicos acusam Lula, e não a escola, de “atacar as igrejas evangélicas”, em pura politicagem.
                    O que pode dar? Fria análise – enquanto a justiça não desfecha, a escola foi aplaudida pela maior parte do público. Enquanto o público niteroiense ansiava pela manutenção da escola na elite, dado o sucesso popular de seu samba-enredo, a nota final divulgada pelo narrador da Liga das Escolas de Samba (Liesa) revelou o rebaixamento da agremiação.
                    Havendo honestidade, o crivo jurídico certamente negará qualquer intento eleitoral na letra-enredo. Os supracitados refrões dos jingles eleitorais foram entoados pela plateia, conforme vídeos disponíveis no Youtube e outras plataformas, respeitando o art. 36-A da Lei das Eleições 9504/97. Não há nenhum traço de exortação de campanha para Lula.
                    Lula na avenida: de fato, Lula foi convidado a assistir a todos os desfiles no Sambódromo. Ele recebeu um chapéu Panamá de cada escola. Há vídeos da troca de chapéus respeitando as escolas apresentadas – o que refuta qualquer apoio específico à Acadêmicos de Niterói, comprovando a intenção espontânea desta última em escolher o tema.
                    A Empresa Brasileira de Turismo (Embratur) não deu nenhum dinheiro a mais ou outro privilégio à Acadêmicos de Niterói. Agremiações cariocas de maior calibre e tradição como Beija-Flor de Nilópolis, Mocidade Independente de Padre Miguel, Mangueira e Portela receberam mais grana. Ainda assim, sua presença na avenida foi arriscada.
                    Justiça: em relação à Lei 5904/97, supondo que a decisão do ministro-relator do STF seja punição, está será, no máximo, multa a Lula e à escola. O presidente pelo mau planejamento da comunicação oficial, e a agremiação por ter extrapolado na controvérsia das famílias em conserva. E o ministro-relator, quem será escalado para julgar?
                    Se este for André Mendonça ou Nunes Marques, terá moralismo. Lula sempre foi acusado de “destruir a família”.  Mesmo focando incoerência moral, a escola mexeu no vespeiro. Não se convence fiéis do cristofascismo, que alimenta o conceito único de família na heteroafetividade cristã, um valor histórico enraizado, mesmo na velha diversidade familiar brasileira.
                    Aqui vale mencionar a presidente da OAB-RJ Ana Tereza Basílio, que fez coro com Damares Alves ao acusar a escola de “intolerância religiosa”.  Ao menos acusou o alvo certo. Zero surpresa: ela foi eleita para o triênio 2024-7 com forte apoio de líderes evangélicos influentes, entre eles um bispo da cristofascista IURD, a mesma que contamina as polícias militares estaduais.
                    Corrida eleitoral: embora as pesquisas apontem a tendência final de Lula sair reeleito devido à concretude dos benefícios sociais e econômicos, os índices de rejeição estão maiores, e aproves caíram. E há pesquisas apontando o perigo do suspeitíssimo Flávio Bolsonaro, novo queridinho dos jornalões, terminar a preliminar do pleito na frente.
                    Mais do que a homenagem em si ou a ida à avenida, a ala das famílias enlatadas foi o fator mais forte nesse entrave eleitoral. Agora Lula lutará para convencer os evangélicos de que o intento da ala não reflete a sua educação católica conservadora. Basta ele lembra-los da sanção de leis relevantes para os fiéis, como a da Marcha para Jesus., por exemplo.
                    Por outro lado, se verifica uma incoerência estatística: segundo pesquisa da AtlasIntel sobre a reação à ala famílias em conserva, 52% dos entrevistados negaram terem visto qualquer ofensa no intento da ala. A pesquisa foi publicada por algumas fontes, entre elas a CNN que, não se enganem, é jornalão à direita.
                    Antijornalismo: no jornalão O Globo, o colunista Lauro Jardim associou a Lula e PT a queda da Acadêmicos de Niterói na pontuação final da Liesa. Quem acompanhou a cobertura pela TV percebeu que o desfile da escola – o primeiro do grupo da 1ª divisão – foi claramente censurado pela emissora. A TV Globo fez evidente antijornalismo político.
                    A censura da TV Globo contrasta com a incoerência estatística obtida em pesquisa feita pela Atlas Intel, feita entre 16 e 24/2 com 4.986 pessoas. Ao todo, 56,2% dos entrevistados negaram terem visto qualquer ofensa no intento da ala famílias em conserva., contra 39,2% de ofendidos.  Pode ser ponto positivo eleitoralmente, se Lula e o PT se aproveitarem desse dado.
                    Enfim, perseguida antes do desfile e rebaixada nos pontos finais, a Acadêmicos de Niterói exerceu um papel fundamental da arte, percebido por seu pessoal. Enquanto o PT se culpa, a escola causou admiração e fascínio, indignação e repulsa. As pontuações foram técnicas, mas não seus motivos. Mas isso não importa: a escola carrega o troféu de popularidade e de estar no papel central da crítica política.
Para saber mais
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POLILAMININA: PROMESSA POLÊMICA

                    Por muito tempo, a medicina e a biologia consideravam o sistema nervoso central como tecido incapaz de regeneração. A afirmação foi sustentada pela ciência por décadas, após experimentos repetidos em cada estudo envolvendo nova molécula de potencial efeito farmacológico na busca da reversão de paralisias e outros males.
                    Enquanto Trump ameaça universidades de bloqueio financeiro, cientistas brasileiros brilham na neurociência. Após o neurocientista Miguel Nicolelis apresentar em 2014 seu exoesqueleto que estimula eletricamente membros paralisados a se mover, a pesquisadora da UFRJ Tatiana Coelho Sampaio descobre, em 2025, uma esperança farmacológica.
                    Polilaminina – antes desconhecida, Tatiana descobriu uma proteína de enorme peso molecular chamada polilaminina. Por sua vez, esta última resulta da junção de várias moléculas de laminina extraída de ratos.  É, portanto, um polímero.  Essa descoberta se baseou através de uma tecnologia própria desenvolvida na UFRJ, de uma das lamininas existentes no organismo.
                    As Lamininas são proteínas de arranjo molecular plano, daí o nome. As mais bem estudadas existem em mamíferos. Tatiana sabia que elas são dcumentadas em seu papel na regeneração de  tecidos diversos lesionados. O que Tatiana fez foi extrair a proteína da medula espinhal de roedores. Antes de polimerizá-la, ela viu na micrografia (foto  por microscopia) que ela lembra uma cruz - o que deu muito o que falar.
                    Com a polimerização dessa laminina por uma tecnologia própria, ela decidiu então experimentar várias vezes a polilaminina para entender seu potencial de regeneração medular em experimento de lesão em um grupo de ratos. Em experimentação minuciosa repetida e descrita, ela percebeu que alguns ratos lesionados injetados com o polímero readquiriram alguma movimentação.
                    Da patente à Anvisa – valiosíssima para a ciência, a descoberta virou sensação num país que sempre investe pouco em ciência. Tatiana virou sensação nos jornalões, concedendo entrevistas a várias fontes.  Criador do Ciência Sem Fronteiras na 1ª era petista, Lula chegou a encontrar Tatiana. Só que foi noticiada a falta de grana para comprar a patente. Falso ou verídico? Enquanto não sabemos, segue-se a vida.
                    Conforme a legislação em vigor, toda a documentação foi entregue para análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A agência aprovou a fase 1 (biossegurança, em pequenos grupos humanos voluntários). Se aprovada, vêm a fase 2 (definição da dose ideal de eficácia, em pequenos grupos); e a fase 3 (comprovação da eficácia comparada à de outros fármacos e placebo em grupos maiores).
                    Em seu objetivo legal, a Anvisa também mede os efeitos colaterais/adversos possíveis, e contraindicações, tudo comparado aos fármacos correlatos já existentes. Se todas as fases do estudo em humanos forem aprovadas, a polilaminina ainda pode levar até 5 anos para ter sua venda autorizada no mercado, seja venda controlada ao público ou uso restrito em hospitais.
                    O reverso da moeda – em meio à midiatização sobre o significado promissor da polilaminina, o médico colaborador da pesquisa, Paulo Louzada, foi entrevistado pelo Estadão, que disponibilizou vídeos no Youtube. Na entrevista, ele declarou abertamente que “houveram falhas nas testagens”. Também criticou o caráter febril e precoce da midiatização: “perdeu-se o controle”.
                    As declarações se relacionam outra notícia. A reportagem menciona três mortes de pacientes internados durante administração experimental da polilaminina, autorizada pela Anvisa após pedido deles. Segundo a Cristália, responsável pela droga, as mortes não têm relação direta com o fármaco, e sim com complicações infecciosas comuns à longa hospitalização.
                    Enfatizo aqui que Tatiana afirmou ser a polilaminina promissora – o que não garante eficácia em todos os casos de lesão medular. Os estudos apontaram efeitos em casos de lesão não cicatrizada. (a cicatrização a torna irreversível). Já o entusiasmo com a forma de cruz só reflete a religiosidade da cientista. Proteínas mudam a forma conforme seu papel no organismo.
                    Em fria análise, as posições de Louzada e da Cristália são razoáveis. Afinal, como já bem explicado, a polilaminina é ainda experimental – o que reforça o risco assumido pelos falecidos. E, quiçá, a possibilidade de conflito de interesses, pois de qualquer forma, quem se sobressaiu no conhecimento público foi Tatiana, sem se pensar que foi uma pesquisa em equipe.
                    Quase tradicionais na comunidade científica de tão comuns, esses conflitos nos fazem compreender o valor da ciência para a busca de bem-estar social, ambiental-climático, na saúde e no cotidiano, mesmo que o capital muitas vezes a use para negar evidências para atingir metas nada alvissareiras.
                    Enfim, nos resta aguardar os resultados finais dos experimentos com humanos. Torçamos todos para que a esperança se realize. Como qualquer droga, a polilaminina não será eficaz em todas as paraplegias, e pode variar com a pessoa. É possível que Tatiana seja premiada, mas duvido do Nobel de Medicina: este, os estadunidenses parecem tê-lo roubado há muito tempo. O melhor prêmio ela já ganhou: o reconhecimento nacional e da comunidade científica.
Para saber mais
- https://www.youtube.com/watch?v=EK-Kea9VEM8 (Olá, ciênciapolilaminina: o que você precisa saber).
- https://www.estadao.com.br/tudo-sobre/tatiana-sampaio/. (colaborador Paulo Louzada aponta falhas e que a divulgação “saiu do controle”).
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ANÁLISES-CURTAS 107 (clima: do natural ao humano)

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