Breve apontamento
Não sou analista política, muito menos em geopolítica
– meu foco de estudo são as pedras da vida. Mas isso não me impede a
curiosidade e o interesse em aprender sobre política, com abordagem analítica e
dialética, graças às minhas leituras em fontes indicadas por versados no tema, somadas
aos diálogos com os próprios, em geral virtualmente.
Sei que no mundo político não cabem santos – por mais
bem intencionados que tenham sido ou sejam alguns governantes históricos com
suas nações. Nem estes escaparam dos julgamentos de suas ações no intrincado
jogo das relações de cominação que permeiam as parcerias político-econômicas
com a nação mais proeminente das Américas: os EUA.
Até porque a própria política é a arte de se despir da
santidade e vestir-se da malandragem e do jogo. Nesse ponto, vamos ao artigo
sobre a novidade do momento, que deu a esse início de 2026 um clima altamente
explosivo e preocupante, para, no fim, jogar uma análise crítica dos
desdobramentos dessa notícia.
Introdução –
Após o intervalo da confraternização universal, 2026
começou quente. Na noite de 2/1, os EUA atacam a Venezuela. Na manhã seguinte,
telejornais brasileiros mostravam imagens dos sobrevoos dos caças
estadunidenses e bombardeios na capital Caracas. Estava ali, explícito, um
claro ataque de guerra dos EUs sobre o território venezuelano. Sem
seguida, a notícia do sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa Cília
Flores – que mais soou como sequestro.
Ao amanhecer de 3/1, a Venezuela fechou fronteira com
o Brasil na região de Pacaraima. Militares brasileiros do Exército guardam a
região para evitar a volta de migrantes venezuelanos ao seu país, visando a
segurança e integridade dos próprios. As mídias focaram imagens diversas, desde
os sobrevoos de bombardeiros estadunidenses sobre Caracas, lançando bombas, e uma
aparição pública do presidente estadunidense Donald Trump para conceder
entrevista coletiva.
O fato acima descrito gerou forte controvérsia: os
grandes jornalões brasileiros e emissoras de TV noticiaram que foi uma operação
militar estadunidense. Fontes alternativas já o apontam como invasão
(ou ataque) militar propriamente dita, com direito a bombardeio e deposição
forçada de líder local (golpe).
Também foram mostradas rapidamente imagens de suposta
comemoração do povo venezuelano tão logo fora comunicada a deposição do
presidente local Nicolás Maduro e sua substituição pela sua vice Delcy
Rodríguez – tudo confirmado pelo próprio Trump em pronunciamento posterior. Cabe
ressaltar que os jornalões só mostraram os que comemoraram, em detrimento dos
que foram contra – que certamente não foram poucos.
Operação ou invasão, deposição ou golpe, na análise
final serão pautados os desdobramentos desse fato, que já revela uma posição
unilateral dos EUs, bem como a conduta das emissoras e das fontes alternativas
a respeito de um fato tão grave para a Venezuela e – certamente depois – a toda
a América Latina e, claro, o Brasil.
O pronunciamento de um ditador –
Desde as primeiras imagens da invasão militar
estadunidense em Caracas até a chegada de Nicolás Maduro em solo estadunidense,
vestido com roupa de prisioneiro e escoltado por militares do DEA, até a
aparição de Donald Trump na sua suntuosa residência em Mar-a-Lago, na cidade de
Palm Beach, Flórida, para entrevista coletiva no dia 3/1, se passaram pouco
mais de 12 horas. Como podemos ver, toda a estratégia até a meta foi
estranhamente muito rápida.
A grande mansão de Mar-a-Lago não é só o seu refúgio
de descanso e de fuga do inverno rigoroso de Washington ou Nova York. É onde
prefere receber seus amigos e aliados políticos. À frente há um púlpito
especialmente erguido para concessão de entrevistas à imprensa. Foi lá que ele se
pronunciou aos jornalistas, na manhã de 3/1, perto de meio-dia em Brasília. Na
entrevista, sua felicidade arrogante pelo sucesso da invasão contrastava com os
protestos populares que se formaram nos EUs e na Europa.
As equipes de reportagem fizeram poucas e cautelosas,
mas complexas perguntas, em dois direcionamentos básicos: por que depuseram
Nicolás Maduro, e qual é o real objetivo relacionado ao petróleo venezuelano. Trump
foi direto: no primeiro sentido, ele disse que “Maduro pregou um regime
ditatorial, e para se perpetuar no poder, não reconheceu o resultado das eleições,
prendeu opositores e violou direitos humanos. Por isso o capturamos, e ele responderá
por seus crimes aqui em Washington”.
Ainda respondendo a perguntas do primeiro
direcionamento, o estadunidense não hesitou em se lançar para a velha
demagogia: “vocês viram que o povo venezuelano está cansado de Maduro. Nós
queremos restabelecer naquele país a liberdade, a prosperidade e o bem-estar
para o seu povo, como fizemos em outros países”. Trump ainda justificou o
ataque na doutrina Monroe, “a América para os americanos” – na verdade,
para os estadunidenses, que a têm levado a ferro e fogo. E o bem-estar declarado é miséria e ruína.
No segundo direcionamento, um repórter perguntou: “Mas o
objetivo dessa operação na Venezuela é restabelecer a democracia no país, ou visa
mesmo a exploração petrolífera por nossas empresas?”. Tranquilo, ele novamente não hesitou: “sim,
nós entramos na Venezuela e bombardeamos Caracas para depor e trazer Maduro,
pois ele recusava negociar a produção petrolífera por nós. Agora
nós exploraremos e produziremos o petróleo da Venezuela para restaurar a
economia”.
Foi uma resposta perfeita e completa em que usou o
tradicional ufanismo estadunidense com demagogia para justificar a posse
indébita de recurso de outro país. Sobre o governo interino na Venezuela até a
próxima eleição, Trump respondeu: “após diálogo, a vice-presidente Delcy
tomou posse. Ela se mostrou mais aberta a negociar a exploração do petróleo”.
Mas, a ameaçou: “caso não siga as nossas recomendações, ela terá um destino
pior do que o de Maduro”.
Sobre a escolha da vice Delcy Rodríguez, por sinal chavista, ao invés da líder
oposicionista Maria Corina Machado, laureada com o Nobel da Paz, e o
companheiro político Edmundo González, supostamente impedido por Maduro na
eleição, Trump foi enfático: “Maria Corina não tem o respeito da Venezuela”.
Na realidade, a resposta não surpreendeu quem se lembra da sua birra por não ter sido o premiado.
Sua consideração sobre Edmundo González teve o mesmo tom de desprezo.
O descarte de dois opositores de Maduro por Trump não
surpreende os observadores. O presidente estadunidense reflete a cultura de
preconceito antilatino, tão profunda quanto o racismo anti-africano. Dois dias
após a invasão, ele disse que “os venezuelanos são feios”, devido à
mestiçagem comum na América Latina, exceto – talvez – Jamaica e Haiti, com populações quase todas de origem africana.
A birra de Trump por não ter recebido o Nobel – apesar
de Corina tê-lo dedicado a ele – é só um detalhe. Seu olhar político também
explica o desprezo extensivo à democracia, mesmo com 250 anos de forte ilusão coletiva
de os EUs serem a referência democrática global. Reacionário, autoritário,
Trump se identifica com governantes iguais. Que o diga o elogio desprendido ao
norte-coreano Kim Jong-Um, e ao saudita Bin Salman, ambos ditadores absolutistas.
A estranha justificativa de um sequestro –
Pelo linguajar dos jornalões, Nicolás Maduro foi deposto
pelas forças militares estadunidenses após o bombardeio aéreo pelas aeronaves
estadunidenses em sobrevoo no céu de Caracas. Donald Trump negou ter havido confronto
armado. “A operação foi um sucesso. Teve apenas um ferido, mas nenhum morto”,
disse o secretário de Estado Marco Rubio. Mentira. Na real mesmo, segundo as mais recentes contagens, mais de 100 pessoas morreram, a maioria civil. E pode haver bem mais.
Segundo Rubio, o bunker na maior base militar da
Venezuela foi bombardeado para Nicolás se entregar. Ele teria se refugiado lá
desde que bombardeios atingiram um petroleiro da estatal PDVSA em dezembro/25. Segundo
fontes locais, a residência presidencial, Palácio Miraflores, teria sido ocupada
por junta militar do Exército, até a posse de Delcy Rodríguez. Daí as imagens da
escola de Maduro e esposa Cília escoltados pelo DEA surgirem após o bombardeio.
A escolta do casal pelo DEA – força militar que já
atuou contra Pablo Escobar – foi estratégia de Trump para “informar” seu povo e
o mundo que prendeu o líder do narcotráfico venezuelano – o que não foi confirmado
no pronunciamento à imprensa na Flórida, e despertou tanta suspeita quanto o suposto
bate-papo de Maduro com os guardas que aparentavam admirá-lo. Essa acusação fora
a “justificativa” para a deposição e prisão do líder venezuelano.
Trump e Rubio acusaram Nicolás Maduro de ser o capo
(termo italiano que designa o fundador e patrono de organização mafiosa) da
facção Cartel de Los Soles, para quem ele teria trabalhado em transporte,
por ter sido motorista no passado. E o julgamento no Supremo revelou uma
surpresa: Cartel de Los Soles é designação midiática venezuelana para o alto
oficialato militar, devido ao Sol bordado na insígnia das fardas. Ou seja, a facção traficante Cartel de Los Soles não
existe!
Dizendo-se inocente, Maduro confirmou que foi motorista
de ônibus no passado. De fato, nas investigações da CIA e do DEA sobre
narcotráfico, Venezuela não consta como local de produção de drogas, e seu transporte
ocorre nas fronteiras. A produção e exportação de pasta-base de coca ocorre na
Bolívia e na Colômbia. Praga social nos EUs, os opioides sintéticos procedem principalmente
da Ásia Central.
Reações gerais –
Do povo – como a “operação” militar estadunidense foi claramente uma invasão
(daí Maduro se esconder numa base militar), os habitantes venezuelanos tiveram
reações fortes. Segundo os nossos jornalões (inclusive os do telejornalismo),
se deu a entender que todos os venezuelanos comemoraram a intervenção. Calma aí,
jornalões! Isso não pode ser visto como uma verdade plena.
Como no Brasil o povo venezuelano também é polarizado,
dentro e fora do país. Mesmo não legitimado no exterior devido à recusa em
mostrar a ata do pleito, Maduro mantém base chavista significativa. Até entre os
muitos migrantes, há alguns chavistas. A Venezuela vive uma economia em frangalhos,
por não conseguir enfrentar a crise piorada pelas sanções impostas pelos EUs.
Para a militância, a posse da vice-presidente Delcy Rodríguez
indica que, apesar da invasão agressiva, Trump reconheceu a “legitimidade” do chavismo.
Delcy jurou “manter vivo o legado bolivariano de Hugo Chávez”. E um legado
é a soberania da produção e da comercialização dos recursos naturais do
país, a despeito do autoritarismo maximizado por Maduro.
E, em meio a isso, uma incoerência se formou: um grupo
de imigrantes venezuelanos nos EUA comemorou a deposição de Maduro, e depois
foi parar preso em jaulas como animais num viveiro de aço apertado de zoológico. Entrevistado,
um imigrante disse ter acreditado que “havia comemorado a prisão de um
bandido”, mas se deu conta de que “o bandido mesmo é o presidente dos
EUA, por nos prender dessa forma aqui”.
No exterior – na União Europeia, a
repercussão da invasão redundou entre a timidez dos governos e a contrariedade
das populações. Diplomata chefe das relações exteriores da UE, Kaja Kallas
disse que a Europa vê Nicolás Maduro como ilegítimo, mas pediu aos EUs respeito
ao Direito Internacional – que por sua vez legitima a autodeterminação
dos povos. Ela pediu a Marco Rubio
para ele tratar dos desdobramentos do pós-invasão.
A timidez se deve a quase toda a UE, inclusa a Dinamarca, integrar a OTAN. A Dinamarca é responsável pela Groenlândia, território semi-autônomo. E Trump almeja anexá-la a seu país para explorar seus minérios.
Rússia e China reprovaram com veemência a
intervenção estadunidense em Caracas. O reprove
piorou quando os EUA reconheceram o ataque a um petroleiro russo em Caracas. Não
há menção ou indício de ataque potencial a embarcações de bandeira chinesa por
lá, mas é sabido que navios chineses atracaram em pontos do litoral brasileiro.
Após um tempo sem menção pela mídia, a Coreia do
Norte lançou nota de repúdio ao ataque na Venezuela. Houve
intensificação do lançamento de mísseis pequenos e não nucleares, de médio
alcance (caíram no mar do Japão). Imagens da mídia revelaram o ditador Kim Jon
g-Um acompanhando a mostra de novos mísseis e submarinos nucleares.
O Japão se comportou na mesma timidez que
na Europa. O governo de centro-esquerda da Austrália foi mais
incisivo em repudiar a invasão como desrespeito ao Direito Internacional e à soberania
da Venezuela, enquanto protestos populares se formaram acompanhando os europeus
em solidariedade ao povo venezuelano, que já vive uma situação delicada devido à extrema fragilidade de sua economia e instabilidade política.
Na América Latina – os governos da Colômbia e do
México, por sinal social-democratas, foram os mais veementes contrários ao ocorrido. Suas declarações também se tornam respostas às ameaças
de Trump, que disse a jornalistas: “atacar a Colômbia será uma boa”, ao
acusar o presidente Gustavo Petro de narcotráfico, também sem nenhuma prova. Claudia
Sheinbaum reagiu ao plano de Trump de “tomar o México” devido ao país ser
uma grande rota de tráfico de maconha e cocaína aos EUA.
No Brasil, o governo Lula foi enfático ao declarar como “ação
de sequestro” todo o ocorrido. Lula disse que “a Venezuela tem que ser
respeitada como país soberano, ela pertence ao povo venezuelano”. O problema é que Trump também já alveja o nosso território, particularmente na Base Aérea de Natal, e no arquipélago de Fernando de Noronha, pertencente a Pernambuco, no pretexto de "dívida pelos EUA terem feito benfeitorias locais".
Desdobramentos –
Na Venezuela – é certo que parte dos sul-americanos, de
direita ou simplesmente contrária a Maduro, comemorou o seu sequestro pelas
forças estadunidenses a mando do presidente dos EUs. Mas, passado o tempo
“necessário” à euforia, se descortinou a vista da realidade profunda por trás
dos fatos. A consequência mais negativa do ataque foi a destruição de um centro
de atendimento a pacientes renais crônicos necessitados de diálise, e de outro
de distribuição de medicamentos.
O mais pungente desse fato, escancarado em imagens
reveladas por mídias como Brasil de Fato e BBC, por exemplo, é
saber não só do quão desproporcional e desnecessário foi o ataque. Foi criminoso
e desumano. Exatamente a cara e o caráter de Donald Trump. E como
não se bastasse já estar em frangalhos há anos e no fundo do poço a partir das
sanções dos EUs, cabe a pergunta: como o governo Rodríguez vai se reerguer, se
a recuperação na saúde pública depende das reservas de arrecadação?
No dia seguinte ao ataque, a fumaça ainda tomava o ar da
capital venezuelana e as ruas estavam vazias, segundo relatos de moradores
locais. Os escombros também relatados podem ser dos centros de saúde, mas pode
haver outras construções destruídas próximas ao foco dos bombardeios. Árvores de
praça próxima pegaram fogo ao serem atingidas pelos incêndios dos bombardeios.
Trump expôs para a imprensa as regras que impôs sobre
o governo venezuelano. Uma delas é a extração de 50 milhões de barris de petróleo
pesado exclusivamente destinado aos EUs, pela estatal PDVSA. Em seguida, a
mesma PDVSA entregará as instalações de extração e refino do óleo para empresas
petrolíferas estadunidenses. Ou seja, a Venezuela perde o seu principal símbolo
econômico e de soberania, propagandeado desde antes do chavismo.
Principal recurso do subsolo e da economia da
Venezuela, o petróleo pesado é cobiçado devido ao seu uso em larga
escala. Ele é matéria-prima para fabricação de asfalto rodoviário, de óleos
combustíveis como o diesel, insumos para lubrificantes automotivos e estruturas
industriais, graxas e produtos plásticos.
Apesar de ter considerado a manutenção do chavismo
através da presidência de Delcy Rodríguez, Donald Trump postou em seu perfil
oficial uma fotomontagem com as cores da bandeira venezuelana e se autodeclarando
“o presidente interino da Venezuela”.
México – Trump revela prazer em tomar o mundo. Já
almeja o México, acusando autoridades locais de “insuficiência” em combater os
carteis – que ganham mais com transporte da coca sul-americana do que com
produção e comércio de marijuana (maconha). Ele quer “invadir por
terra”. A presidente Claudia Sheinbaum propõe uma coordenação EUA-México
contra os carteis. Ainda assim, a ameaça trumpista segue contra o país.
Colômbia – conhecida por sua diversidade biológica e
geológica, nossa vizinha tem o presidente de centro-esquerda Gustavo Petro, conhecido
pelo plebiscito popular contra a exploração mineral na Amazônia. Em resposta
dura, ele negou a acusação e, segundo a mídia. disse pretender conversar com o estadunidense
sobre uma integração de forças dos 2 países para combater o narcotráfico no seu
país. Ainda assim, Trump segue desafiando o governante colombiano.
Brasil – há tumores na mídia de que Donald Trump articula
meios para influenciar nas eleições presidenciais de 2026. Segundo os rumores,
o estadunidense deseja fazer com que a reeleição certa de Lula seja impedida
através de algum nome popular, mas politicamente expressivo, preferencialmente
da ultradireita, com a qual é mais afim. O governo brasileiro parece ignorar a
ameaça. O que percebo que todo cuidado é pouco.
O ex-deputado e ex-ministro José Dirceu, que vive de palestras
desde que saiu da prisão, avalia que a situação acima descrita não deve ser ignorada
como uma bobagem. Ele salientou que o golpismo da ultradireita bolsonarista e
pós-bolsonarista está em curso e segue junto com Trump para apostar toda a sua
energia e eficiência comunicativa para virar o jogo eleitoral, diante de um
Lula liderando as pesquisas de opinião.
Caribe – Duas ilhas caribenhas são consideradas muito
caras aos estadunidenses: Cuba e Porto Rico. Como já sabemos,
Cuba tem um “problema”, que é a resistência do governo castrista, que Trump
quer derrubar a todo e qualquer custo. E ele também quer reativar a base
presidiária de Guantánamo, que aprisiona condenados por terrorismo.
O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, disse
às mídias locais que “não há conversação em andamento entre Cuba e EUA”,
desmentindo Donald Trump, que transmitiu ao vivo a suposta conversação. Um dado
que sustenta a negativa do líder cubano é a ausência de detalhes documentados,
e o fato de o estadunidense já ter feito ameaça de mais sanções contra o país
caribenho.
Hoje uma colônia autônoma dos EUs, Porto Rico
tem uma população basicamente latina. Sua história se desvelou numa cultura
atual principalmente hispânica. O espanhol é o idioma principal e cotidiano, e
o inglês, uma língua de escola e comercial. Sua economia é basicamente
turística. Há alguns anos, seus habitantes desejam independência local, com
alguns manifestos, que se intensificaram nos últimos dias.
E vale salientar aqui o que nenhuma mídia pontua: o
olhar de Trump sobre o Haiti. Mesmo em frangalhos em todo sentido – econômico,
sociopolítico e material – a nação segue lutando pela sobrevivência após 2
terremotos violentos (2010 e 2021) e intervenções militares da ONU. E seu
subsolo pode esconder riquezas sob a superfície arrasada pela
miséria e pela fome, e onde se conflitam grupos militantes populares
pró-soberania e gangues possíveis de se ligarem ao tráfico. É um território
fácil de ser tomado pelas grandes potências.
Europa – vive uma dificuldade desde o início da guerra
russo-ucraniana, devido ao corte do fornecimento de gás natural para energia. Em
dezembro, a União Europeia tarifou as plataformas estadunidenses irritando
Trump – que já havia sancionado as europeias em seu país. Agora, Trump anunciou
sair da OTAN, na qual quase toda a Europa entrou, e deixará a Ucrânia se virar
na guerra. E ainda quer cortar o fornecimento de gás para a Europa.
Explicando: o ataque de Trump às plataformas europeias
se deve à atuação destas para combater manifestações de ódio político-ideológico
nas redes sociais – o que de certa forma contribui para aprofundar conflitos
diplomáticos já desnecessários.
Maduro – ao ser capturado e levado pelas forças
estadunidenses, Nicolás Maduro não pareceu indignado. Em alguns momentos, a conversa
trocada com sua escolta pareceu descontraída, muito diferente da valentia
demonstrada no gabinete e no palanque. Por outro lado, ele se declarou inocente
em relação ao tráfico durante o julgamento pela Corte em Nova York. Hoje ele está preso na penitenciária MDC, em
Nova York.
Ironias de um doentio: análise final –
Diante de tudo isso, vale o reforço de que a invasão militar
estadunidense na Venezuela é um recado para a ONU – cuja Carta foi tão ignorada
por Trump quanto o Direito Internacional – e para a América Latina. Claro que
disso já sabemos, mas a validade da afirmação também se reforça pela insistência
em mencioná-la sempre que necessário. Mas também nos leva a refletir mais sobre
Donald Trump do que os seus adversários.
Se pensarmos em seus adversários políticos, percebemos
que alguns deles agem levados pela organicidade de seus princípios ideológicos.
Mas não necessariamente atentando contra o globo. A alegria inicial de muitos
venezuelanos com a retirada forçada de Maduro nos faz pensar sobre a
impopularidade do presidente. Só depois refletimos como os governos
estadunidenses – não só Trump, mas ele, sobretudo – têm cuidado de seu próprio
país.
A deportação de imigrantes paralisou muitos serviços.
O tarifaço ajudou a inflacionar o custo alimentar. O corte de benefícios
sociais aumentou drasticamente a margem de pobreza. A demissão massiva de
servidores enfraqueceu poderes públicos. Tavestidos de agentes do ICE, caçadores
de recompensas do ICE abordam qualquer grupo, até nativos indígenas, revelando a
milicianização institucional na brutal ignorância trumpista.
Donald Trump ou é um garoto mimado num corpo idoso, um
tirano psicopata ou ambos. Vê o mundo como sua posse para se enriquecer ainda
mais. Diz que “libertou os venezuelanos” de seu adversário político, e se
proclama “presidente da Venezulea”. Mas não cuida da sua nação. A epidemia
de zumbis cheios de opioides nas ruas reflete uma sociedade doente, abandonada
e desiludida com a velha realidade paralela de nação democrática.
Em sua atenção desmedida às regiões desejadas do mundo
– e a América Latina inteira de quintal, a partir da Venezuela –, Donald Trump
despreza a sua nação se afundando na crise socioeconômica com mais
desigualdade, afrontada por uma anomia instaurada pelo desmonte do Estado e por
uma instituição tornada milícia supremacista. Nesse caldo de crise social, a
nação se aproxima paulatinamente de se estourar numa guerra civil.
Como alguns governos anteriores (Truman nos 1940’s e
MacCarthy nos 50’s), Trump mostra os EUs não tão democráticos quanto se propala.
Alguns nazistas lá se asilaram e até prestaram serviços obscuros a governos. A
ultradireita pode alçar o poder, a esquerda não. Mas, seu desprezo ao Direito
Internacional proporciona a multipolaridade, em que outros países podem se
pronunciar no poder global e minar de vez a hegemonia estadunidense.
Doce sabor da ironia: em seu desejo de ser o dono do mundo,
Donald Trump conseguiu apequenar os EUs, a “sua América”, aos olhos do mundo.
Para saber mais
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