LIÇÃO CAMPONESA
COLOMBIANA
Respectivamente colonizados por portugueses e
espanhóis, Brasil e Colômbia viraram palcos de destruição de culturas socioambientais
originárias por bíblia, língua, costumes e valores, e escravidão – que
alimentaram duas elites, a mineradora e a latifundiária. No século XX, as duas
elites elegeram presidentes ditatoriais para reprimir movimentos de
resistência.
Apesar das diferenças geográficas, idiomáticas e
culturais, os dois países se convergem na história de escravização na espoliação
de recursos biológicos e minerais, na diversidade da produção agrícola e nas
lutas dos movimentos camponeses pela reforma agrária e contra o avanço do
agronegócio, a repressão estatal e a devastação do meio natural.
No Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem-Terra (MST) e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) são os
maiores e mais conhecidos. Na Colômbia, o mais conhecido é o Sindicato dos
Trabalhadores Camponeses de Sumapaz (Sintrapaz), do povoado de Sumapaz, situado
no misterioso páramo colombiano.
Páramo – a Colômbia tem 3 feições principais: o
litoral, a Cordillera dos Andes e a planície amazônica. O páramo
é uma zona montanhosa entre 2500-4500 metros acima do nível do mar. O clima é
frio e úmido. A vegetação (fraillejones) é perene, baixa, densa e com
folhas peludas que retêm umidade nevoenta. O páramo colombiano é o maior
do mundo.
Cada qual ao seu modo, todo bioma natural retém e
mantém umidade aérea, mas o fraillejones o faz ao ponto de contribuir
com as geleiras na manutenção dos cursos d’água. A função mantém o ciclo do
raso solo local, cuja fertilidade se deve à riqueza mineral das rochas
vulcânicas. A Colômbia tem vulcões ativos, a maioria no ramo ocidental da cordillera.
Essa dinâmica possibilitou a agricultura de largo
alcance. O café é o principal produto nas zonas mais baixas e quentes do
páramo. E vale salientar: a Colômbia e o Brasil são os maiores
produtores e exportadores mundiais de café. Antes dos latifúndios do
agronegócio, os camponeses do atual Sintrapaz já o produziam ali com método agroecológico.
MST, MPA e Sintrapaz – o MST e o MPA são movimentos rurais
organizados que lutam pelo assentamento de terras improdutivas analisadas sub
judice pelo Incra. O Sintrapaz é um sindicato de pequenos produtores
rurais cadastrados do páramo de Sumapaz. Em comum, eles praticam agricultura
ecológica em minifúndios – e em constante luta.
Sustentabilidade – eles só desmatam a área necessária à
atividade, mantendo intacto o restante das terras. Nascentes e mananciais são
protegidos por matas nativas. No Brasil, o MST vai além do Código Florestal¹.
Seus bolsões de pasto se intercalam com fragmentos florestais nativos
interligados. Lavouras são próximas a mata nativa. A produção é orgânica.
Legado do MST e outros movimentos rurais, a
recuperação de áreas degradadas com plantio de espécies nativas é ignorada pelo
povo urbano massacrado pelo lobby do agro. Essas práticas ecológicas foram
levadas para os movimentos rurais colombianos, incluso o Sintrapaz. Daí a preservação
das fraillejones no páramo e das florestas em altitudes menores.
Mas, toda essa atuação tem um preço pesado: assim como
aqui, os produtores do Sintrapaz também não têm paz.
Desafios – são muito parecidos com aqueles vividos pelo
MST e outros movimentos campesinos brasileiros. Assédio de latifundiários,
invasão de áreas de vegetação nativa por jagunços a mando daqueles, e ameaças de
investimento em hidrelétricas em rios preservados mais extensos e enérgicos são
os principais. Fake news também são um problema.
Aqui no Brasil, a mentira tem poder político maior.
Chegamos a assistir a uma fracassada CPI montada pelos reacionários para tornar
o MST um grupo terrorista. Lá, o Sintrapaz é acusado pelo agronegócio de se
associar às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e a facções do
narcotráfico, visando fomentar a repressão policial contra ele.
No Brasil, a CPI foi o ápice das provas históricas de
como o campo é antidemocrático, revelando os coronéis que ainda persistem
influenciando nas eleições, e assassinatos são quase sempre silenciados pela
mídia. Em matéria da BdF de 2020, mais de 1000 camponeses foram mortos, após
acordo selado com latifundiários e políticos realizado em 2016.
Resistência pela democracia – em 2022, o MST viu em
Lula o aliado capaz de amansar os jornalões que sempre o acusavam de “invadir
propriedade alheia” presenteando-os com cestos cheios de produção orgânica.
Na Colômbia, Gustavo Petro foi eleito com ajuda valiosa do Sintrapaz e outros movimentos
rurais locais. Mas, nossa vizinha está na frente.
Sonho antigo dos campesinos, a reforma agrária visa
a democratização da produção rural de grande escala. Ela está avançando mais na
Colômbia. O governo Petro reconhece a agroecologia como a grande salvagjuarda
da segurança alimentar, do meio ambiente e da economia, por preservar áreas
naturais, recuperar as degradas e inibir a inflação dos preços.
O MST e o MPA fazem o mesmo. Postagens de seus perfis
nas redes sociais são provas disso. O problema maior é o andamento da política
de reforma agrária. Diferente da Colômbia, o Brasil segue tímido, devido ao
forte lobby político do agronegócio. Por ela os campesinos seguem
lutando, por verem nela a chance de realizar a justa divisão de terras que
garante a democracia rural.
Nota:
¹ Lei de Proteção da Vegetação Nativa em propriedades
rurais, de 2012 – obriga a preservação
de vegetação nativa em parte de propriedades rurais cadastradas.
Para saber mais
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Comemorando seu ataque militar à Venezuela, Donald
Trump segue mais criticado do que elogiado. Governos europeus se silenciam.
Lula, Orsí, Petro e Shainbaum seguem a crítica popular contrária. Dando de
ombros, Trump assinou ordem para seu país sair de dezenas de organizações
internacionais, até da OTAN, que absorveu o centro-norte da Europa.
Ignorando seus opostos, ele voou para Davos, Suíça,
famosa sede do elitista Fórum Econômico Mundial. Na reunião, apresentou
um livro fino de capa dura escura estampada com um desenho dourado. É o texto
do Board of Pace, o Conselho de Paz para Gaza. Os presentes
estranharam: ali se discutem soluções capitalistas para problemas socioeconômicos.
Seria o momento oportuno para apontar o investimento
em US$ trilhões em armamentos de guerra como fator de caos socioambiental e
econômico. Mas falta coragem ou sobra cautela: ali havia governantes de países
subjugados pelos EUs. Dos 59 países afirmados por Trump, até o momento 23
formalizaram alinhamento. Agora, Trump almeja os indecisos.
A maioria dos assinantes é da ultradireita liberal
(Leste europeu exceto Polônia, Letônia, Ucrânia e Romênia; Argentina e Paraguai
na AL; Cazaquistão e Azerbaijão na Ásia Central; Vietnã e Indonésia no sul
asiático), e teocracias (Arábia Saudita, Egito, Marrocos e Catar). Chama
atenção, entre os assinantes, o Vietnã, o único país de governo
socialista reeleito.
Já convidado para participar do Conselho, Lula disse
que só responderá após consultar conselheiros de confiança, como seu
ex-ministro Celso Amorim, que tem acompanhado os desdobramentos da atual fase
trumpista. Entre nós, a torcida de parlamentares governantes e militantes de
esquerda pela recusa é imensa. Por razões bem consolidadas.
Personalismo – os EUs não são essa democracia toda. Não é
tanto por fraqueza, a esquerda não alcança a presidência por impedimento.
O protecionismo nacional-capitalista é marca comum entre os 2 partidos
do poder, daí as guerras que arruínam outras nações. Trump não é diferente, mas
seu governo é personalista – narcisista e sociopático.
Trump despreza líderes covardes ou fracos. Gosta dos
que desafiam o seu sentimento de supremacia. Como Nicolás Maduro, só derrubado
por intervenção militar. Já elogiou o sanguinário príncipe saudita Bin Salman “pelos
direitos humanos” e o Aiatolá Khamenei. Despreza o Direito Internacional e
os países massacrados pelas intervenções militares dos EUs.
Conteúdo bizarro – Idealizada, desenvolvida e presidida por
Trump, a carta tem mesmo a sua cara. Sem epígrafes e assinada no final, a
apresentação da carta é curta e estruturada como um texto de lei. Maior mesmo é
o seu anexo, onde estão as explicações. Na capa dura frontal, a logo dourada lembra
a da ONU, mas tem o globo com os EUs no centro.
A volumosa assinatura em caneta grossa permanente
intimida as de seu vice Vance e seu secretário Rubio, como se validasse uma obra-prima definitiva, pétrea e indelével.
Podemos vislumbrar o conteúdo. Ao O Globo,
Celso Amorim diz que “a carta é confusa, porque começa a falar de uma
coisa e depois vai alargando no anexo”. Engloba qualquer conflito. Em
relação à ONU, ele diz: “eu não vejo como aceitar. Não dá para considerar
uma reforma da ONU feita por um país”. Algo tão ilegítimo quanto bizarro.
Além do logo, mais bizarrice. Vou destacar duas.
A administração do Conselho é exclusiva do governo estadunidense, centrada na
pessoa presidencial. Cada assinante alinhado só assume sua cadeira se desembolsar
previamente US$ 1 bilhão. Os pagamentos deverão ser depositados no fundo do Conselho,
a ser administrado exclusivamente por Trump.
Muitos podem questionar a cobrança, pois a ONU também
tem um fundo em que os membros depositam valores conforme puderem, para sustentar
ajuda humanitária e forças de paz. Mas a ONU é independente –, ainda quue o seu corpo
jurídico sofra pressão dos governos estadunidenses, que já buscam a todo custo controlar o Conselho
de Segurança da mesma, que reúne os 5 membros permanentes.
É nessa comparação que a cobrança de um valor tão
grande por uma simples cadeira se torna surreal – e muito para a reserva
interna de alguns dos aliados da nova carta. A falta de clareza sobre os destinos
dos recursos desperta suspeita, e parece ser uma compra de cadeira. E esse
Conselho não é independente: a independência institucional é imprescindível.
É nessa comparação que a cobrança de um valor tão
grande por uma simples cadeira se torna surreal – e muito acima das possibilidades dos aliados da nova carta que tenham pouca reserva
interna. A falta de clareza sobre os destinos
dos recursos depositados desperta suspeita parecendo ser uma compra de cadeira. E esse
Conselho não é independente: a independência institucional é imprescindível para abraçar as necessidades globais.
Análise da chance de sucesso – é possível isso dar certo? Se fosse um programa
como FAO, ACNUR, Unicef, OIT e outros da ONU, e respeitasse o Direito
Internacional, a chance aí seria possível. Mas, o objetivo da carta subjaz o desejo
pessoal de dominar o mundo per se, o que mina a força do grupo. O personalismo do texto o revela, mas ninguém
mais o verá. E essa subjetividade revela um perigo maior.
Trump tem todos os predicados essenciais para alimentar
animosidades entre nações e ainda interferir militarmente em antigas brigas
internas entre algumas delas. Tal conduta estadunidense é tradicional, mas para
satisfazer seus desejos íntimos, Trump pode recrudescer ainda mais a força
bruta a um nível ainda inaudito, com o beneplácito de sua Carta.
E é aí que mora o perigo, dada a visão soberba de
mundo e a ganância desmedida de seu criador.
Para saber mais
- https://www.cartacapital.com.br/mundo/trump-assina-em-davos-o-documento-fundador-do-conselho-de-paz/
- https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/23/espanha-recusa-convite-de-trump-para-fazer-parte-do-conselho-da-paz.ghtml (dilemas de Lula sobre
Conselho da Paz de Trump)
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