CLEITINHO: POLÍTICA-ESPETÁCULO
Em 2022, a farra de privilégios ao Centrão de Arthur
Lira e seus aliados pelo então presidente Jair Bolsonaro com orçamento
secreto (emenda com transações a destinatários ocultos no Portal da
Transparência) levou militantes às redes sociais para encampar campanha pela
renovação do Congresso, antes e durante abertura da corrida eleitoral daquele
ano pelo TSE. Com a crescente antipatia popular ao Centrão, muitos eleitores
aderiram à ideia.
Desconhecidos apareciam como candidatos novos., em
santinhos distribuídos nas ruas. A democracia burguesa era colorida por
partidos nanicos ao redor dos principais. Só que, passado o pleito e feita a
contagem eletrônica de votos, veio uma certeza: a maioria dos ilustres eleitos
é de partidos de direita. Nada demais aí, não fossem as federações
partidárias que se formaram após a posse da nova legislatura em fevereiro
de 2023.
Entre tantas novidades eleitas antes ignoradas pelo
grande público, Minas Gerais conseguiu eleger ao menos três delas, que têm
mostrado grande popularidade: a indígena Célia Xakriabá (deputada federal do
Psol), o também deputado federal Nikolas Ferreira (PL, vide artigos disponíveis
neste blog), e o senador Cleiton Gontijo de Azevedo, ou melhor, Cleitinho
(Republicanos), o sujeito deste presente artigo.
De vendedor a político— de Divinópolis,
Cleitinho não tem formação superior. Vendedor, músico gospel e microempresário
varejista, foi eleito vereador em 2016, e em 2018 deputado estadual, pelo
Cidadania (ex-PPS). Em 2022 foi eleito senador pelo Republicanos, partido da
IURD de Macedo, com mais de 6 milhões de votos. Tem dois irmãos que também
entraram na política, um deles o atual prefeito de Divinópolis.
O que explica a popularidade de Cleitinho são seus
discursos populistas na tribuna e nas redes – só que à direita, embora
de modo bem singular. Sempre discursa o que o povo quer ouvir. Nega ser
populista, mas diz refletir “o sentimento do povo”. Se diz oposição a
Lula, mas já defendeu o socialista Glauber Braga na tribuna. O traje formal de
terno e gravata na tribuna se transforma em roupa esportiva com camisa de
futebol em seus vídeos nas redes.
Graças a esse formato político, ele é hoje apontado
como líder na preferência dos mineiros da grande BH e do sudoeste de MG para
governador – caso realmente decida a se candidatar. Só que ele já adiou essa
possibilidade 4 vezes. O motivo ainda não parece muito claro, mas há duas
hipóteses correndo. Uma delas é a de seus adversários, que acreditam ser “medo
de ser vidraça”; e outra é a de possível decepção: “se houver
oportunidade para ser apresentador, saio da política”. Ou, mero rolo para a plateia para o
pós-Copa.
Entre o discurso e a efetividade— segundo o site
oficial do Senado, Cleitinho é coautor de 165 projetos de lei (PLs, 87 emendas
à Carta (PECs), 12 leis complementares (PLCs) e 4 decretos legislativos (PDLs).
Quase todos ainda estão no Senado. Entre os que foram para a Câmara, em geral
têm sido reprovados. Apesar de algumas propostas realmente ter apelo popular,
ele defende algumas mais bolsonaristas, como a PEC da jornada flexível, também
já abordada em artigo recentemente publicado.
Nesse ponto podemos entender por que cientistas
políticos em geral criticam o populismo. Não como estratégia garantidora
de bom potencial de elegibilidade, mas pela tendência demagógica do
eleito. Por mais bem intencionado a resolver os problemas da nação, o populista
se depara com a realidade da nossa real politique (política real):
querer não é poder fazer, e ter poder não significa efetividade, daí obter likes
na rede. Foi nesse mundo que Cleitinho mergulhou, voluntariamente.
Contradições— Cleitinho acusou Lula de corrupto, mas omitiu
colegas bolsonaristas manchados. Postou vídeos ensinando a burlar pedágios em
algumas estradas mineiras desviando por “estradas privadas”, pois “as
públicas cobram pedágio” (na real é o contrário). Na CPI das Bets, fez
um discurso em favor da influencer Virginia Fonseca como “geradora de
riqueza, de emprego” e postou selfie com ela. Na prática, os viciados é que
dão riqueza para Virgínia e outros famosos milionários.
Outra contradição é a sua relação com a vida pública. Após
dizer, no ano passado, se sentir “frustrado” com suas propostas
emperradas, ele posteriormente negou cogitar abandonar a carreira política. O
que mais revela uma personalidade oportunista ou – para quem achar ofensivo
demais – um surfista político, o que na prática dá no mesmo. Mesmo voluntariamente
sabendo como a política funciona, ele viu nela a chance mais rápida e fácil de
ascensão social, algo sonhado desde a sua juventude.
Oufra contradição que vale muito a pena colocar aqui é ele ter, como suplente Alex Diniz, emprersário do setor supermercadista, mas não aparentado a Abílio Diniz, da rede Pão de Açúcar. Uma polêmmica criminal aponta o seu filho, Moisés Diniz, como mandante de uma chacina ligada à grilagem de terras no Amazonas, ocorrida em junho deste ano. Detalhe: o citado suplente é filiado ao PL bolsonarista.
Crítica a alvo errado— ao desabafar que seu
sonho é ser apresentador de TV e que cogita sair da política, Cleitinho abre
portas para duas hipóteses. Uma delas é a frustração com o emperramento de suas
muitas proposições. A outra hipótese se relaciona à declaração de “ter que
fazer acordo com quem não está nem aí para o povo” – a face desagradável da
política real, com a qual Lula aprendeu a lidar em mais de 40 anos de experiência nos bastidores da vida pública.
Vergonha de selfie e puxa-saquismo à parte – persona non
sense no mundo público –, Cleitinho não me parece criminoso, por eu desconhecer
nele as evidências de diversos crimes graves que envolvem praticamente toda a
direita. O que não o inocenta. Ele foi tão oportunista quanto os demais da
comitiva capitaneada pelo agora ex-deputado Eduardo Bolsonaro nas viagens aos EUs,
apoiando, silente, a solicitação de interferência trumpista na
institucionalidade do país.
Análise final— minha análise final é a de que, sem querer desmerecer
Cleitinho, este não tem como assumir agora um poder tão espinhoso quanto o
executivo (prefeito, senador ou presidente). Mesmo razoável ao criticar colegas
“que não ligam para o povo”, ele primeiramente precisa amadurecer sobre
onde acredita que fará o melhor espetáculo: se na política (nos lembremos de
Bolsonaro, Zema ou Claudio Castro!), ou num programa de auditório. Caso seja o
primeiro, que se mantenha no Congresso, que ultimamente virou um teatro de
terror.
Para saber mais
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ENTRE PEQUENOS, DUAS GIGANTES
Assim como em outros países latino-americanos, a ditadura
militar brasileira foi favorecida pelo pânico moral criado pelo macarthismo
estadunidense, através do envio de grupos missionários com bagagem de
pregação cristofascista. Nesse meio, se esperava que a diversidade
sexual devia ser criminalizada e banida pelo chumbo, ou coberta pelo escuro
manto moral cristão. Mas, os milicos a viam com ambiguidade – mesmo tendo
havido prisões e repressão nas ruas.
Os nossos milicos sabiam que as minorias sexuais então
conhecidas e identidades transgêneros, se somavam num público amplo, em todas
as classes socioeconômicas, pelo país. Outros gêneros identitários foram
reconhecidos no pós-ditadura, tendo suas iniciais designativas inseridas no que
é a atual sigla LGBTQIAPN+. Mas, até onde sabemos, e exceto homossexuais
velados, não havia lugar – mesmo sem coibição legal – para se eleger
transgêneros ou travestis.
Só após o STF reconhecer legalmente o casamento
homoafetivo e depois identidades transgênero, que houve movimento efetivo pela diversidade
sexual na política. Na ALEP (Assembleia Legislativa de SP), a deputada Mônica
Seixas (Psol) criou a Bancada Ativista, a partir do mandato coletivo,
em que um político divide o poder com um grupo de cidadãos. Veio o irreversível
ambiente favorável à eleição de transgêneros, filiados especialmente em
partidos de esquerda.
Uma mineira em vários atos— nativa de BH, Duda
Salabert se transicionou em 2014. Em 2020 foi a vereadora campeã de votos (11%
entre 41 eleitos), pelo PDT. Mesmo eleita, deu teleaulas de língua portuguesa e
literatura pelo Colégio Bernouille durante a pandemia, até ser demitida em 2021.
Ela alegou preconceito dos pais dos alunos, e a escola, incompatibilidade de dedicação
política e educativa (para mim valem ambas). Em 2022, Duda se elegeu deputada
federal. Neste 2026 trocou o PDT pelo Psol.
Duda tem enfrentado repetidas ofensas transfóbicas. Só
do cristofascista Nikolas Ferreira, ela já obteve duas vitórias em processos
judiciais. E desde então usa a camisa do ativismo ambiental, ao
denunciar os descasos públicos com os parques de BH. Agora deputada federal,
ela já publicou posts filmando a mineração ilegal noturna na Serra do Curral,
que tem área protegida devido ao lençol freático que sustenta os mananciais que
banham e abastecem toda a Grande BH.
Uma voz premiada— de Franco da Rocha (SP), Erika Hilton foi
expulsa por parentes em Itu por ser trans. Prostituindo, estudou na EJA e depois
cursou Pedagogia na UFSCar, quando escolheu a política. Em 2015 entrou no Psol,
tentou e perdeu a vereança em 2016 e, em 2018 entrou na Bancada Ativista no
mandato coletivo da ALEP. Campeã de votos em 2020, virou a 1ª vereadora trans mulher paulistana, ferrando Bruno
Covas e João Doria por abolirem a gratuidade de idosos no transporte público. E
veio 2022.
Erika se tornou a primeira deputada federal negra
trans mulher da história. Nas várias frentes de atuação, a principal é de
Direitos Humanos. Com falas incisivas e raciocínio rápido, ela foi premiada: Generation
Change-MTV Europe e Personalidade Destaque da IstoÉ
(2021), Congresso em Foco (2023-4-5, da 1ª à 3ª posição), Top 100 mais influentes-BBC, Mais
Influente Mulher de Ascendência Africana-ONU, Top 100 mulheres mais
influentes 2022-Time, e Melhor Deputada de SP.
Produção parlamentar— Duda e Erika se destacam pela intensa
atividade parlamentar, como partícipes de comissões temáticas e CPIs, presidência
de comissão (Erika, comissão da Mulher) e na elaboração de proposições
legislativas de variados temas. Não há faltas injustificadas entre ambas, e
somente Duda tem se ausentado às vezes por motivação oficial. Ambas presenciaram
a votação vitoriosa da PEC governista da escala 5x2 (já abordada neste blog) na
Câmara, e seguem com outro ponto comum.
Ataques transfóbicos— desde os tempos de vereança, Duda e Erika têm
sofrido repetidamente a mesma modalidade de ataque: a transfobia. Elas
têm buscado meios judiciais para inibir as ofensas, embora tenham muita
dificuldade. Embora os colegas reacionários escancarem a agressividade, ambas
sabem que a transfobia se conecta ao sexismo, que é um problema cultural e não
ideológico, mas assim tornado por conta do sequestro do princípio moral. Mas há
algo além disso.
Vem da cultura do meio de trabalho. Sabem que, quanto
melhor é um funcionário, mais este sofre assédio ofensivo de chefe ou colega? Pois
é. Nesse sentido, as ofensas a Duda e Erika têm paralelo aos ataques machistas
sofridos pela ministra Marina Silva há vários meses atrás. É uma maneira de disfarçar
– muito mal – certa inveja da popularidade crescente dessas parlamentares, que conseguem
tornar efetiváveis as suas propostas, quando aprovadas pelo Congresso.
Final— por isso imagino que, a despeito de a pauta
identitária ser central nas suas propostas, diante do contexto dos fatos Erika
e Duda não se importam exatamente com o que pensam delas, e sim com a conduta
criminosa resultante de tais pensamentos, dos colegas e/ou de seus seguidores. E
cabe assinalar também que a predileção de Nikolas em atacar Erika com mais veemência
se deve ao efeito fulminante do vídeo-resposta que ela lançou à falaciosa
taxação do pix em 2025 que, doce sabor da ironia, Flávio Bolsonaro quer.
Existem gigantes no Congresso. Gigantes de ética,
causa e proposta. Eles são poucos, em meio à multidão de gente pequena, imersa
em seu reacionarismo de ódio e crime. E Duda e Erika são duas gigantes, que incomodam por serem tão necessárias para a nação.
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