Antes de apresentar o artigo a seguir, peço sinceras
desculpas pela demora em publicar novos artigos. É que, pelo momento especial
da nossa história sociopolítica, digo que a elaboração do texto a ser publicado
me invocou uma pesquisa refinada das fontes de referência e intensa reflexão
analítica dos acontecimentos, posta da forma mais resumida possível. Mas, espero
que o resultado final abaixo valha a leitura.
Acompanhando as estatísticas em avaliação popular
sobre o governo Lula e diante do debate público sobre a renovação do Congresso,
os institutos de pesquisa voltaram às ruas a partir da segunda metade de
2025 para iniciar a nova etapa: levantar a intenção de voto para 2026. Com o
passar do tempo, o índice de indecisos mitigou paulatinamente. Em agosto/26,
89% se diziam decididos, com Lula à frente.
Na última semana do voto, o progressista Lula se
manteve à frente do reacionário Flávio Bolsonaro. Nesse sentido, a decisão dos
eleitores pareceu consolidada para a reeleição do velho petista, apesar da
popularidade menor em comparação à aos governos de outrora e o indicativo de
eleição acirrada. Mas, o fechamento da contagem de votos revelou Flávio em
vantagem de 1,8%. Silêncio aterrador.
O desejo de renovação do Congresso também se revelou
desolador, especialmente para os movimentos populares. O PL de Flávio comemorou
com a captura imbatível de cadeiras: 28 no Senado e 121 na Câmara. Como já
predizia Julian Lemos, ex-bolsonarista agora pró-Lula e eleito suplente na
Paraíba pelo PP, tudo indica que a nova legislatura será bem pior do que esta
que chega ao seu fim. Mas, vale pensar no poder do Centrão de isolar a ultradireita, daí eu não ver no Congersso o pior dos problemas.
O poder que mais em sofrido com as irregularidades
eleitorais é o Executivo. No Rio de Janeiro, o ex-prefeito carioca Eduardo Paes
era líder na preferência popular para governador estadual. Mas perdeu para o
reacionário ex-PM Ruas. Em MG – estado que
se reflete no país –, Lula estava à frente, mas à noite, ao fim da contagem dos
votos, Flávio virou. Veio um silêncio aterrador e o alerta na equipe de
campanha.
Essas viradas no primeiro turno chamaram a atenção dos
analistas. Buscando evitar preocupações maiores e censura prévia judicial, eles
tentaram explicar, em vão, os fatores do fenômeno. Os jornalões pasteurizaram o
fato como se não houvesse nada anormal no processo. Mas, especialmente entre as
conversas de bar, várias causas possíveis foram especuladas, e apenas duas se
evidenciam até o momento.
Boca de urna—
É o crime eleitoral mais comum. Assim como o
comércio de voto, ele ocorre diante da entrada dos locais de votação. A autoria
varia: pode ser simples eleitores ou militantes partidários previamente pagos,
em grupos pequenos e dispersos para não chamar atenção, daí a sutileza do
delito. Eles fazem proselitismo eleitoral para convencer eleitores a votar em
candidatos ou na legenda deles, ferindo-lhes o direito de escolha.
Por serem os maiores colégios eleitorais do Brasil,
Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo acumulam maior incidência de
flagrantes neste ano. E os municípios de pequeno e médio porte do interior foram
os campeões, devido à fiscalização precária. Além disso, cabe assinalar que,
quanto mais isolado é o interior dos Estados, mais penetrante é o coronelismo
das elites políticas locais.
A lei eleitoral não considera boca de
urna o eleitor usar uma camisa contendo estampa sugestiva de algum candidato ou
partido no momento de votar. Explica-se no mesmo significado da camisa de time
esportivo. Portanto, seu uso é tão legítimo quanto a famosa cola eleitoral,
que facilita a digitação correta dos números dos escolhidos pelo eleitor na
urna eletrônica – mesmo sendo apenas item opcional.
Comércio ilegal de votos—
É outro crime muito conhecido na nossa
legislação. Todos os pleitos se marcam por flagrantes em diversas regiões do
país. Mas é menos comum do que a boca de urna, por não ter a mesma discrição e
sempre envolver grana. A abordagem é sutil, com oferta imediata de quantia
determinada para o eleitor votar no candidato ou legenda por trás do delito. Ocorre
em qualquer cidade, mas o interior é mais visado.
No primeiro turno houve o recorde de flagrantes do
delito, confirmado em 23 Estados. No Rio de Janeiro, o maior número de flagras
ocorreu na Baixada, na região metropolitana. Na capital, votos quase totais para
um candidato nas comunidades periféricas reflete claramente o problema, cujo
combate é impossibilitado pelas orcrims locais e alguns pastores evangélicos
locais em conluio com o crime.
O eterno assédio eleitoral—
O termo assédio eleitoral é, na
prática, a outra designação, talvez técnica, do famoso curral eleitoral.
É a chantagem com ameaça para o eleitor votar em determinado candidato
ou legenda. Nos sertões dominantemente rurais do passado, os coronéis ameaçavam os populares em seus domínios de prisão ou até morte. Hoje, outras lideranças aderiram ao mesmo estratagema.
Os patrões ameaçam empregados de demissão sumária, e os presbíteros, de
expulsão. Agora propõem tais demissões como lei, inclusive para atingir servidores públicos "petistas".
Graças aos novos personagens, o crime foi midiatizado
em 2022. Na diversificada mídia nacional, a chantagem eleitoral patronal para
votar em Jair Bolsonaro foi marcada por muitos flagrantes. Em 3 matérias publicadas em 2022, a BBC
Brasil enumerou chantagens e ameaças de pastores de expulsar fiéis que
votassem em Lula. Alguns youtubers denunciaram, inclusive, cultos pela
reeleição de Jair Bolsonaro, com direito a telões com sua foto no recinto. E em 2026, os cultos são para Flávio, com o mesmo formato.
Os santinhos fraudulentos—
Aquele papel com a foto, o nome e o número de
um ou mais candidatos ajuda como uma colinha optativa na hora de votar. Afinal,
os eleitores digitam os números dos mesmos. Apesar da nossa escolha por
determinados candidatos, os primeiros algarismos decimais (10, 11, 12,
13, 22, 25, 27, 30, 55, 65, etc.) representam o partido. Candidatos a cargos do Executivo usam esses números, e os demais, números maiores. Ao votar em
alguém, o eleitor beneficia, primordialmente, o partido dele.
A numeração é necessária para identificar a sigla e, apesar de imoral em tese, o benefício partidário é lícito.
Mas houve a fraude dos santinhos. Entre os milhares de santinhos emporcalhando
as ruas das cidades do RJ, muitos eram enganosos. Eles continham a foto do
ex-candidato a governador Eduardo Paes com um reluzente 22 ao invés do 55 de
seu partido PSD. O 22 é do PL, do deputado estadual Alexandre Ruas, aliado da famiglia
Bolsonaro.
Essa fraude pareceu novidade, pois nunca foi citada
antes na mídia. Pesquisei no Google, com ajuda do ChatGPT, para saber se houve santinhos
fraudulentos em outros Estados. Entretanto, não encontrei nenhuma fonte que afirmasse
a existência deles fora do Rio de Janeiro. Parece se tratar mesmo de novo crime
eleitoral, que encontrou no Rio de Janeiro, tomado há décadas pelo crime
organizado, o melhor palco para a sua prática.
Ciente de sua liderança pré-eleição e dos votos
enganados, Paes foi à justiça. O PSD entrou com Arguição de Descumprimento
de Preceito Fundamental (ADPF) no STF para haver 2º turno, com incentivo do
canal popular Exército do Dudu no WhatsApp. Mas o TRE-RJ o tornou inelegível
por 8 anos, por ter usado o Plano Estratégico municipal como mote de campanha. Agora
o ex-prefeito terá uma luta ferrenha para vencer essa situação.
Garotinho—
Na lista dos candidatos a governador estadual
no RJ estava o campista Anthony Garotinho. Ex-governador, ele tentou nova
investida após anos sem poder disputar a política devido a processos judiciais
a que respondeu. Se candidatando sub judice por recurso, ele ficou em 3º
lugar ao findar o primeiro turno. Mas desistiu do recurso. O TSE distribuiu seus
votos para Paes e Ruas. Com esse adicional, Ruas foi eleito em 1º turno.
A desistência de Garotinho num momento tão crucial foi
vista como um verdadeiro golpe entre o público. Entre os eleitores no tribunal
da internet, a acusação mais comum foi a de ter enterrado a chance de segundo
turno que elegeria Eduardo Paes. Outra acusação igualmente importante foi a de entregar
o Estado novamente para o bolsonarismo, após o desembargador Ricardo Couto dar
lição de como governar um Estado despoluindo instituições e deixando as contas em dia.
Uma fria análise dos fatos—
Sem dúvida, desde 2018, as eleições passaram a se
carregar de atipicidades. Em 2018, pastores ajudaram a disseminar mentiras
políticas em cultos. O despreparado presidente Jair Bolsonaro deixou Arthur
Lira e Paulo Guedes conduzir o governo enquanto se divertia por aí. Em 2022,
igrejas fizeram culto a Jair e ameaçaram fiéis, patrões assediaram seus
empregados e a PRF bloqueou estradas nordestinas. E Lula venceu.
Neste 2026, a atipicidade envolveu 3 ministros do STF de
lealdade canina aos Bolsonaro, e todos afogados até o talo em escândalos com
Vorcaro. Censura prévia sabotando a campanha de Lula com ajuda da Meta. Censura
bizarra a uma santa católica. Recordes de flagrantes de compra de votos em 23
Estados. Santinhos falsos fizeram o Rio de Janeiro voltar ao reacionarismo
corrupto e sanguinário após Ricardo Couto fazer a limpa.
Não esqueci da sabotagem judicial de Nunes Marques e Mendonça contra
a campanha de Lula através de censuras. Apontei o que sobreveio durante o pleno
dia 4 de outubro. As censuras prévias – que contaram com a ajuda criminosa da
Meta com bloqueios de contas pró-Lula e números falsos para nomes como Nikolas Ferreira – já ocorriam antes, como a campanha antecipada feita pelo próprio Flávio
pelo Brasil, que ainda não foi punida.
Não me esqueci também das relações escusas de Flávio
com criminosos barra-pesada, ao ponto de escolher para vice um senhor que só
entrou na política para escapar à acusação de estupro de vulnerável. Aliás, ele
parece gostar desse tipo de gente. No passado defendeu assassino de criança e
premiou com emenda parlamentar um miliciano envolvido na execução da
ex-vereadora Mariele Franco – o que torna os Bolsonaro mais suspeitos.
Quanto aos santinhos fraudados, cabe
assinalar que ela foi bem-sucedida para que Ruas ultrapassasse o antes líder Paes
no primeiro turno. Para tanto, a equipe de campanha de Ruas se aproveitou de um
defeito infeliz que grassa entre a grande maioria da população: a rejeição crônica
à leitura. A leitura permite não só se informar mais e melhor. Ela incentiva
a pesquisa, tão fácil na internet – inclusive sobre o número correto do
candidato.
Análise do pós-eleição—
Na véspera do 2º turno, Lula disse: “agora o povo
escolhe o Brasil que deseja”. Feliz com a vantagem do 1º turno, Flávio já se sentia eleito, com equipe
ministerial e decretaço montados. Mas não contava com a maior massa popular da
nossa história, em parte movida pelos canais Exército do Lula e Canal
do Lula de André Janones; e Tropa da Erika Hilton, que uniram mais de 11 milhões de soldados populares. O povo escolheu o
Brasil democrático representado por Lula, em inédita e histórica virada.
Inédita porque nunca ocorreu virada em segundo turno
para presidente. Inédito também é ele ser eleito 4 vezes pelo povo. Lula
se crava em definitivo na história política brasileira. Um nordestino pobre que
compensou a baixa escolaridade pelo letramento sociopolítico e se tornou, por
vocação, o maior presidente do Brasil e um líder global. Aqui e no exterior,
o gesto L (de Lula) virou símbolo de soberania e de resistência contra o
extremismo.
Mas tamanha representação traz para Lula nova e enorme
responsabilidade. Internamente, ele poderá, ou não, enfrentar um Congresso
ainda mais reacionário, ou não, a depender do Centrão. Externamente, ele põe o Brasil na liderança estratégica
do Cone Sul contra as investidas gananciosas de Trump. Já na sua equipe de
governo, finalizo com o clamor popular: por favor, ponha André Janones e Erika
Hilton na comunicação digital e nos direitos humanos, respectivamente. Eles foram
decisivos para a democracia, e o serão na nova guerra interna que virá.
Para saber mais
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