Psicologia
POR QUE A MENTIRA ATRAI TANTO?
Desde a independência das colônias das garras
europeias no século XIX, a geopolítica foi desenhada para definir as
relações e a vida da humanidade pelo globo. A geopolítica nasceu da comunicação,
que encontrou nas tecnologias a queda de barreiras culturais e redesenharia as
relações internacionais. E da comunicação veio a Internet – que está aí
até hoje.
A internet surgiu como ferramenta de espionagem
contra os nazistas e a URSS. Em 1995, foi popularizada através da automação ofertando
uma montanha de páginas (sites) para tudo quanto é função de
consumo popular, bem como trabalho à distância. Agora, o mundo se conecta por
inteiro graças às atuais plataformas de redes sociais (Facebook, X,
LinkedIn, Bluesky, Youtube, TikTok, Instagram, etc.).
A rede social pioneira Orkut
(2004-14) sucumbiu ao fim do contrato do Google com o engenheiro turco Orkut
Büyükkökten. O criador não o fez para espionar, o que só entendemos agora. As
supracitadas possuem o algoritmo, que redireciona e manipula as
preferências de cada usuário, e define o que diferentes perfis poderão postar.
Assim, elas criam novas relações e mudam as antigas.
Vivendo dos perfis de usuários pessoais e
empresariais, as redes sociais viraram o campo fértil de notícias falsas
(fake news). Perfis falsos são muitos, como usuários reais ou bots
(fantasmas eletrônicos) identificados com dados fictícios ou reais. Eles são
personagens centrais na reprodução sistemática de mentira explorando muito um
tema inevitável e pantanoso: a política.
A política merece ser debatida porque ela define
a vida de nações inteiras e as relações internacionais. Mesmo que o
entretenimento ocupe 70% do ciberespaço, inicialmente estatal e hoje
privatizado. Corredores de notícias frescas em tempo real, redes sociais são o
maior terreno de debate público no tema, tendo influencers como o
deputado federal Nikolas Ferreira.
Candidato à reeleição, Nikolas quer repetir o seu
recorde de votos. Foi como influenciador teen gospel que ele atingiu
carreira política. Sua escola on-line Destra (nome autoexplicativo) dá
curso de política na linha cristofascista. A Destra é outro caminho da
disseminação da mentira política contra adversários ideológicos, especialmente
na questão econômica do Brasil.
Jornalões ajudam na mentira política. As previsões
econômicas negativas no noticiário reforçam afirmações falsas como “o país
tá quebrado”, “recorde de inflação caindo o poder de compra”, “lojas
fechando e demitindo gente”, “roubalheira no INSS” e “combustível
muito caro”, desmentidas só em fast-checks online como
Aos Fatos, Uol Confere, Agência Lupa, etc.
Muito comércio físico se tornou virtual (e-commerce,
aplicativos). O volume de demissões é, na verdade, readaptação funcional
dos empregados em apps. O valor salarial baixo é histórico e
mercadológico, com aumento seguindo a média oficial inflacionária e não pulos
isolados. O PIB maior é tão claro que os jornalões não conseguem negar.
O roubo no INSS é histórico e quem investiga e ressarce é o governo
Lula. E combustível muito caro se deve às refinarias privatizadas.
Mas a mentira está em tudo. Se um crime é
descoberto, seu autor capturado o nega até cair em contradição. Cobrado por seu
par devido a indícios evidentes, o cônjuge nega pular a cerca. A criança
traquina nega ter quebrado o vaso valioso da mãe brava por medo de reprimenda
feia. O comerciante enrola o comprador para vender seu produto de qualidade
inferior. Por que usamos esse ato, condenável em todas as culturas conhecidas
no mundo?
Por mais sinceros e honestos que sejamos ou queiramos
ser, a mentira encontra espaço. Ela surge sempre que há circunstância forte
o suficiente que impeça a verdade 100% pura. Por ordem social concordamos
com a norma coletiva, mas buscamos escape quando sua pressão fica
insustentável. Grupos religiosos dogmáticos que cerceiam a livre escolha
amorosa tendem a ser materialistas ou intolerantes contra grupos sociais
diferentes.
Portanto, por mais condenável que seja, a mentira é o apaziguador
social mais eficiente que existe. Na Etologia (ramo da biologia que
estuda o comportamento de cada indivíduo de uma população específica em relação
ao meio e entre si), ela é como o blefe animal na natureza. Nesse
sentido, ela ajuda a resolver um problema e a findar conflitos. A sinceridade pura
pode ser confundida com estupidez em momentos que exigem cautela ao
falar.
Porém, diferente de uma situação social restrita, o terreno
político abrange todo o coletivo regional e/ou nacional. Não falo de
confrontos normais entre candidatos opostos, e sim de inverdades
difamatórias contra a honra do outro. Como supostos fatos pessoais ou
políticos falsamente atribuídos ao adversário – uma especialidade infeliz dos
demagogos reacionários, na mesma tática dos nazistas.
Como esse tipo de mentira afeta negativamente a
coletividade de alguma forma, a legislação eleitoral coíbe falas desse naipe.
Em tempos de inteligência artificial (IA), o TSE já impõe restrições
severas para evitar difamação e inverdades. Como os políticos sabem que a
maioria vota pela emoção, o efeito venenoso da mentira pega justamente aí. E é
nesse terreno quase íntimo da vida humana que a legislação tem mais dificuldade
de agir, pondo em risco o futuro da nação.
Para saber mais
- https://doi.org/10.1590/0102-37722015032213397401 (Mentira:
Aspectos Sociais e Neurobiológicos, Psic.: Teor. e Pesq. 31 (3) •
Jul-Sep 2015).
- https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-47941465 (BBC- sem
mentiras, o que aconteceria com as relações sociais?, 26/5/2019).
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O presidenciável Flávio Bolsonaro estava apavorado com
a queda das intenções de voto em meio à enxurrada de fatos do caso Master,
quando Michele Bolsonaro lançou aquele vídeo-bomba em que expôs a “relação
desajustada” entre ela e o enteado, e saiu do PL Mulher. Apoiadoras
evangélicas pentecostais sentiram o impacto e passaram a rejeitar Flávio. Este
correu para reverter.
Em vídeo, ele afirma ter feito as pazes com a madrasta
“pelo meu pai”. Outro vaza o contrário: “se não fosse casada com meu
pai, eu a teria estancado” – “matado”, na gíria miliciana –. Ainda mantendo
alta rejeição, as evangélicas procuraram alternativas presidenciáveis à
direita, como o ruralista de pinta de galã Ronaldo Caiado e o psiquiatra dos
drones Augusto Cury.
Com a ajuda da dupla André-Kássio no TSE, dos
jornalões O Globo e Estadão e dos machões de plantão, Flávio voltou a empatar
com Lula nas pesquisas. Em Minas Gerais, 2º maior colégio eleitoral, uma delas
o jogou à frente de Lula, fazendo soar a sirene de alerta na campanha. Mas, eis
que nova série de fatos muda tudo, direcionando os números para Lula.
Advogado do crime— ainda na Alerj, Flávio concedeu ao matador
preso Adriano da Nóbrega a medalha Tiradentes. Na época, ele advogou os milicianos
que executaram a juíza Patrícia Acioli. Defendeu presos que agrediram outra juíza
num presídio e afagou o PM Delaroli, que matou, sem confronto nem motivo, a
menina Ana Clara, de 5 anos, numa comunidade carioca.
Segundo Flávio, Acioli “humilhou os réus” e pagou
com a vida, e a outra juíza foi agredida por ter “zombado da condição desumana”
dos PMs presos. A tese de confronto alegada por Delaroli e reiterada pelo então senador foi derrubada pela perícia e
pelas testemunhas da comunidade. E vale lembrar de que ele defendeu a atuação das milícias nas favelas na plenáriaa da Alerj.
A santa da discórdia—para os católicos, qualquer Nossa Senhora
é Maria mãe de Jesus. A Aparecida caiu no radar eleitoral. Então pré-candidato,
Flávio acenou aos evangélicos: se eleito, “o Brasil será do senhor Jesus”.
Não teve alarde, mas Flávio repetiu e mexeu com a Confederação Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB). Veio novo conflito coletivo, com ataques monitorados
pela Igreja desde 2019.
A CNBB entendeu a fala dele nas entrelinhas. Refere-se
a um projeto de 2007 do ex-deputado Victório Galli, que rebaixa o título da
santa ao de “padroeira dos brasileiros católicos romanos”. O texto foi
arquivado sem trâmite em 2008, mas não morreu pelo regimento. É aí que pesa o
incômodo da representação católica – interpretável em dois sentidos: o tradicional
e o estatístico.
Tradicionalmente, ela alega “desrespeito aos católicos”
e à historicidade. Conta-se que, em outubro de 1717, pescadores acharam na rede
uma imagem de santa sem cabeça no Paraíba do Sul, na região da atual Aparecida
do Norte, durante uma pesca ruim. Em novo arremesso veio a cabeça. Daí, a pesca
foi abundante. O conto tem grande valor transgeracional.
O outro incômodo da CNBB é estatístico. Desde os
anos 1990, o IBGE verifica a retração gradual do catolicismo a quase 1% por ano,
explicando o avanço evangélico neopentecostal. O papado reformista
de Francisco mitigou o processo, mas com a morte deste se teme nova aceleração.
O papa Leão XIV tenta segurar. É uma rivalidade entre as matrizes cristãs desde
a reforma de Lutero.
A “pele” escura da santa é outro tópico importante.
Esculpida em ocre castanho, a imagem teria se escurecido por fuligem das
velas, ou pela água percolada no material. Mas entre os descendentes dos
escravos pescadores há a crença no suposto milagre da pesca pelo temor de serem
castigados a mando de seu dono. Seja como for, a cor virou marca indelével da santa
brasileira.
Nesse ínterim cabe ainda assinalar a recente censura de André Mendonça em mais de 1000 posts referentes à Nossa Senhora Aparecida incluindo a ironia de Paulo Tabet sobre racismo misógino da família miliciana e a decisão da Meta em bloquear o canal da própria CNBB para não render o asssunto e proteger Flávio. Como vemos, tudo isso remete a outro fator: o cristofascismo brasileiro.
Visando contestar o mito, um pastor alegou a cor da santa de sujeira. A contestação é razoável, mas
não os ataques aos devotos e à tradição brasileira. Vale lembrar que as
matrizes pentecostais no Brasil se fascistizaram colaborando na fundação das ditaduras militares na América Latina e, agora, os recentes fatos envolvendo André Mendonça e a proposta de Flávio. Isso merece memória constante na história.
Quando o Brasil se redemocratizou, o cristofascismo
não morreu, só baixou a voz. Em 2007 Galli tentou elevar a voz, mas foi calado. Marco Feliciano queria negar a diversidade sexual no cura gay. O MBL e o bolsonarismo ressuscitaram o pânico moral. Flávio Bolsonaro deixou isso
claro na promessa. Parte dos evangélicos percebeu isso e se solidariza aos
católicos. Mas só no resultado final da eleição saberemos se a tradição se
mantém ou se desfaz.
Para saber mais
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