domingo, 21 de junho de 2026

CURTAS 114 - ANÁLISES (Cleitinho; Duda e Erika)

 

CLEITINHO: POLÍTICA-ESPETÁCULO

                    
                    Em 2022, a farra de privilégios ao Centrão de Arthur Lira e seus aliados pelo então presidente Jair Bolsonaro com orçamento secreto (emenda com transações a destinatários ocultos no Portal da Transparência) levou militantes às redes sociais para encampar campanha pela renovação do Congresso, antes e durante abertura da corrida eleitoral daquele ano pelo TSE. Com a crescente antipatia popular ao Centrão, muitos eleitores aderiram à ideia.
                    Desconhecidos apareciam como candidatos novos., em santinhos distribuídos nas ruas. A democracia burguesa era colorida por partidos nanicos ao redor dos principais. Só que, passado o pleito e feita a contagem eletrônica de votos, veio uma certeza: a maioria dos ilustres eleitos é de partidos de direita. Nada demais aí, não fossem as federações partidárias que se formaram após a posse da nova legislatura em fevereiro de 2023.
                    Entre tantas novidades eleitas antes ignoradas pelo grande público, Minas Gerais conseguiu eleger ao menos três delas, que têm mostrado grande popularidade: a indígena Célia Xakriabá (deputada federal do Psol), o também deputado federal Nikolas Ferreira (PL, vide artigos disponíveis neste blog), e o senador Cleiton Gontijo de Azevedo, ou melhor, Cleitinho (Republicanos), o sujeito deste presente artigo.
                    De vendedor a político— de Divinópolis, Cleitinho não tem formação superior. Vendedor, músico gospel e microempresário varejista, foi eleito vereador em 2016, e em 2018 deputado estadual, pelo Cidadania (ex-PPS). Em 2022 foi eleito senador pelo Republicanos, partido da IURD de Macedo, com mais de 6 milhões de votos. Tem dois irmãos que também entraram na política, um deles o atual prefeito de Divinópolis.
                    O que explica a popularidade de Cleitinho são seus discursos populistas na tribuna e nas redes – só que à direita, embora de modo bem singular. Sempre discursa o que o povo quer ouvir. Nega ser populista, mas diz refletir “o sentimento do povo”. Se diz oposição a Lula, mas já defendeu o socialista Glauber Braga na tribuna. O traje formal de terno e gravata na tribuna se transforma em roupa esportiva com camisa de futebol em seus vídeos nas redes.
                    Graças a esse formato político, ele é hoje apontado como líder na preferência dos mineiros da grande BH e do sudoeste de MG para governador – caso realmente decida a se candidatar. Só que ele já adiou essa possibilidade 4 vezes. O motivo ainda não parece muito claro, mas há duas hipóteses correndo. Uma delas é a de seus adversários, que acreditam ser “medo de ser vidraça”; e outra é a de possível decepção: “se houver oportunidade para ser apresentador, saio da política”. Ou, mero rolo para a plateia para o pós-Copa.
                    Entre o discurso e a efetividade— segundo o site oficial do Senado, Cleitinho é coautor de 165 projetos de lei (PLs, 87 emendas à Carta (PECs), 12 leis complementares (PLCs) e 4 decretos legislativos (PDLs). Quase todos ainda estão no Senado. Entre os que foram para a Câmara, em geral têm sido reprovados. Apesar de algumas propostas realmente ter apelo popular, ele defende algumas mais bolsonaristas, como a PEC da jornada flexível, também já abordada em artigo recentemente publicado.
                    Nesse ponto podemos entender por que cientistas políticos em geral criticam o populismo. Não como estratégia garantidora de bom potencial de elegibilidade, mas pela tendência demagógica do eleito. Por mais bem intencionado a resolver os problemas da nação, o populista se depara com a realidade da nossa real politique (política real): querer não é poder fazer, e ter poder não significa efetividade, daí obter likes na rede. Foi nesse mundo que Cleitinho mergulhou, voluntariamente.
                    Contradições— Cleitinho acusou Lula de corrupto, mas omitiu colegas bolsonaristas manchados. Postou vídeos ensinando a burlar pedágios em algumas estradas mineiras desviando por “estradas privadas”, pois “as públicas cobram pedágio” (na real é o contrário). Na CPI das Bets, fez um discurso em favor da influencer Virginia Fonseca como “geradora de riqueza, de emprego” e postou selfie com ela. Na prática, os viciados é que dão riqueza para Virgínia e outros famosos milionários.
                    Outra contradição é a sua relação com a vida pública. Após dizer, no ano passado, se sentir “frustrado” com suas propostas emperradas, ele posteriormente negou cogitar abandonar a carreira política. O que mais revela uma personalidade oportunista ou – para quem achar ofensivo demais – um surfista político, o que na prática dá no mesmo. Mesmo voluntariamente sabendo como a política funciona, ele viu nela a chance mais rápida e fácil de ascensão social, algo sonhado desde a sua juventude.
                    Oufra contradição que vale muito a pena colocar aqui é ele ter, como suplente Alex Diniz, emprersário do setor supermercadista, mas não aparentado a Abílio Diniz, da rede Pão de Açúcar. Uma polêmmica criminal aponta o seu filho, Moisés Diniz, como mandante de uma chacina ligada à grilagem de terras no Amazonas, ocorrida em junho deste ano. Detalhe: o citado suplente é filiado ao PL bolsonarista.
                    Crítica a alvo errado— ao desabafar que seu sonho é ser apresentador de TV e que cogita sair da política, Cleitinho abre portas para duas hipóteses. Uma delas é a frustração com o emperramento de suas muitas proposições. A outra hipótese se relaciona à declaração de “ter que fazer acordo com quem não está nem aí para o povo” – a face desagradável da política real, com a qual Lula aprendeu a lidar em mais de 40 anos de experiência nos bastidores da vida pública.
                    Vergonha de selfie e puxa-saquismo à parte – persona non sense no mundo público –, Cleitinho não me parece criminoso, por eu desconhecer nele as evidências de diversos crimes graves que envolvem praticamente toda a direita. O que não o inocenta. Ele foi tão oportunista quanto os demais da comitiva capitaneada pelo agora ex-deputado Eduardo Bolsonaro nas viagens aos EUs, apoiando, silente, a solicitação de interferência trumpista na institucionalidade do país.
                    Análise final— minha análise final é a de que, sem querer desmerecer Cleitinho, este não tem como assumir agora um poder tão espinhoso quanto o executivo (prefeito, senador ou presidente). Mesmo razoável ao criticar colegas “que não ligam para o povo”, ele primeiramente precisa amadurecer sobre onde acredita que fará o melhor espetáculo: se na política (nos lembremos de Bolsonaro, Zema ou Claudio Castro!), ou num programa de auditório. Caso seja o primeiro, que se mantenha no Congresso, que ultimamente virou um teatro de terror.
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ENTRE PEQUENOS, DUAS GIGANTES

                    Assim como em outros países latino-americanos, a ditadura militar brasileira foi favorecida pelo pânico moral criado pelo macarthismo estadunidense, através do envio de grupos missionários com bagagem de pregação cristofascista. Nesse meio, se esperava que a diversidade sexual devia ser criminalizada e banida pelo chumbo, ou coberta pelo escuro manto moral cristão. Mas, os milicos a viam com ambiguidade – mesmo tendo havido prisões e repressão nas ruas.
                    Os nossos milicos sabiam que as minorias sexuais então conhecidas e identidades transgêneros, se somavam num público amplo, em todas as classes socioeconômicas, pelo país. Outros gêneros identitários foram reconhecidos no pós-ditadura, tendo suas iniciais designativas inseridas no que é a atual sigla LGBTQIAPN+. Mas, até onde sabemos, e exceto homossexuais velados, não havia lugar – mesmo sem coibição legal – para se eleger transgêneros ou travestis.
                    Só após o STF reconhecer legalmente o casamento homoafetivo e depois identidades transgênero, que houve movimento efetivo pela diversidade sexual na política. Na ALEP (Assembleia Legislativa de SP), a deputada Mônica Seixas (Psol) criou a Bancada Ativista, a partir do mandato coletivo, em que um político divide o poder com um grupo de cidadãos. Veio o irreversível ambiente favorável à eleição de transgêneros, filiados especialmente em partidos de esquerda.
                    Uma mineira em vários atos— nativa de BH, Duda Salabert se transicionou em 2014. Em 2020 foi a vereadora campeã de votos (11% entre 41 eleitos), pelo PDT. Mesmo eleita, deu teleaulas de língua portuguesa e literatura pelo Colégio Bernouille durante a pandemia, até ser demitida em 2021. Ela alegou preconceito dos pais dos alunos, e a escola, incompatibilidade de dedicação política e educativa (para mim valem ambas). Em 2022, Duda se elegeu deputada federal. Neste 2026 trocou o PDT pelo Psol.
                    Duda tem enfrentado repetidas ofensas transfóbicas. Só do cristofascista Nikolas Ferreira, ela já obteve duas vitórias em processos judiciais. E desde então usa a camisa do ativismo ambiental, ao denunciar os descasos públicos com os parques de BH. Agora deputada federal, ela já publicou posts filmando a mineração ilegal noturna na Serra do Curral, que tem área protegida devido ao lençol freático que sustenta os mananciais que banham e abastecem toda a Grande BH.
                    Uma voz premiada— de Franco da Rocha (SP), Erika Hilton foi expulsa por parentes em Itu por ser trans. Prostituindo, estudou na EJA e depois cursou Pedagogia na UFSCar, quando escolheu a política. Em 2015 entrou no Psol, tentou e perdeu a vereança em 2016 e, em 2018 entrou na Bancada Ativista no mandato coletivo da ALEP. Campeã de votos em 2020, virou a 1ª vereadora trans mulher paulistana, ferrando Bruno Covas e João Doria por abolirem a gratuidade de idosos no transporte público. E veio 2022.
                    Erika se tornou a primeira deputada federal negra trans mulher da história. Nas várias frentes de atuação, a principal é de Direitos Humanos. Com falas incisivas e raciocínio rápido, ela foi premiada: Generation Change-MTV Europe e Personalidade Destaque da IstoÉ (2021), Congresso em Foco (2023-4-5, da 1ª à 3ª posição), Top 100 mais influentes-BBC, Mais Influente Mulher de Ascendência Africana-ONU, Top 100 mulheres mais influentes 2022-Time, e Melhor Deputada de SP.
                    Produção parlamentar— Duda e Erika se destacam pela intensa atividade parlamentar, como partícipes de comissões temáticas e CPIs, presidência de comissão (Erika, comissão da Mulher) e na elaboração de proposições legislativas de variados temas. Não há faltas injustificadas entre ambas, e somente Duda tem se ausentado às vezes por motivação oficial. Ambas presenciaram a votação vitoriosa da PEC governista da escala 5x2 (já abordada neste blog) na Câmara, e seguem com outro ponto comum.
                    Ataques transfóbicos— desde os tempos de vereança, Duda e Erika têm sofrido repetidamente a mesma modalidade de ataque: a transfobia. Elas têm buscado meios judiciais para inibir as ofensas, embora tenham muita dificuldade. Embora os colegas reacionários escancarem a agressividade, ambas sabem que a transfobia se conecta ao sexismo, que é um problema cultural e não ideológico, mas assim tornado por conta do sequestro do princípio moral. Mas há algo além disso.
                    Vem da cultura do meio de trabalho. Sabem que, quanto melhor é um funcionário, mais este sofre assédio ofensivo de chefe ou colega? Pois é. Nesse sentido, as ofensas a Duda e Erika têm paralelo aos ataques machistas sofridos pela ministra Marina Silva há vários meses atrás. É uma maneira de disfarçar – muito mal – certa inveja da popularidade crescente dessas parlamentares, que conseguem tornar efetiváveis as suas propostas, quando aprovadas pelo Congresso.
                    Final— por isso imagino que, a despeito de a pauta identitária ser central nas suas propostas, diante do contexto dos fatos Erika e Duda não se importam exatamente com o que pensam delas, e sim com a conduta criminosa resultante de tais pensamentos, dos colegas e/ou de seus seguidores. E cabe assinalar também que a predileção de Nikolas em atacar Erika com mais veemência se deve ao efeito fulminante do vídeo-resposta que ela lançou à falaciosa taxação do pix em 2025 que, doce sabor da ironia, Flávio Bolsonaro quer.
                    Existem gigantes no Congresso. Gigantes de ética, causa e proposta. Eles são poucos, em meio à multidão de gente pequena, imersa em seu reacionarismo de ódio e crime. E Duda e Erika são duas gigantes, que incomodam por serem tão necessárias para a nação.
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terça-feira, 16 de junho de 2026

CURTAS 113 - ANÁLISES (pauta bomba, Zema)

 

ROYALTIES: MUITA GRANA, POUCOS SETORES

                    No Brasil, os estudos prospectivos em óleo e gás se proliferam a cada descoberta de regiões petrolíferas promissoras nas bacias sedimentares marinhas. Em 2006, o governo Lula 1 comemorou a descoberta de imensas jazidas no pré-sal, um pacotão sedimentar depositado de 200-160 milhões de anos atrás, antes do divórcio América do Sul-África que criou o oceano Atlântico. Hoje o pacote está a 6 km abaixo do leito marinho., e seu potencial petrolífero foi confirmado pela Petrobras em 2006.
                    O governo Lula 1 comemorou, e iniciou uma exploração política de 3 anos, até virem os primeiros leilões de poços para iniciar a produção de fato. A façanha tecnológica da Petrobras foi vista como caminho para a autossuficiência na produção e refino de óleo, muitos R$ bilhões em lucro para a estatal e também em royalties.
                    Royalties— é um termo inglês que designa o quantum arrecadável estipulado pelo Estado sobre o PIB produzido pelos setores produtivos em geral (recursos do subsolo, agronegócio e indústrias). Por razão ética óbvia, o destino principal dessa grana arrecadada deveria ser o investimento em políticas públicas de bem-estar social e reserva interna em momentos de crise. Mas, na prática, grossa parcela tem servido ao mercado financeiro, sem contrapartida em impostos, por anos.
                    Os royalties já foram vistos por cada Estado como um troféu. Em 2009, o então governador do RJ Sergio Cabral Fº queria a maior parte da grana do pré-sal para o estado do RJ, por ser o maior produtor nacional. Patrocinou um show musical na Cinelândia, centro da capital, para colocar o povo ao seu lado e comover o Congresso. Reeleito em 2010, ele repetiu a façanha, pois o Congresso votaria só após o pleito. E o aprove final foi da distribuição mais fluida em todo o território nacional.
                    Hoje, uma pauta-bomba— enquanto a Petrobrás estuda a geologia da bacia sedimentar a 500 km da foz real do Amazonas autorizada pelo Ibama, o senado aprovou uma proposta que gera R$ 815 bilhões em benesses, principalmente para o agronegócio, mediante royalties públicos. O governo se preocupou com o impacto dessa pauta-bomba, mas o presidente-senador Alcolumbre não quis ouvi-lo sobre a renegociação da dívida de R$ 1,39 tri do agro à União, sinalizando uma ruptura com o Executivo.
                    A razão dessa recusa é que Alcolumbre acatou apelos dos colegas, muitos dos quais fazendeiros endividados – inclusive ele próprio. O problema dessa birra é atrapalhar a votação da PEC governista de 5x2, já aprovada na Câmara. Mas essa trava tem um motivo paralelo: dar fôlego para a votação da perigosa PEC da jornada flexível do bolsonarista Rogério Marinho, propagada por seus pares ideológicos como “PEC 4x3”, como disse o deputado-pastor Sóstenes Cavalcante.
                    Críticas— o governo criticou a recusa de Alcolumbre em dialogar sobre a resolução da dívida dos grandes ruralistas. Os dirigentes do MST apontaram o descaso com os pequenos agricultores, que costumam ser os mais afetados pelos extremos climáticos e poucos recursos mesmo colocando 70% dos alimentos nas mesas dos brasileiros. Solidários aos movimentos campesinos, os nomes da esquerda acusaram o senado de olhar apenas para os grupos econômicos que os bancam diretamente.
                    Impacto em cascata arriscada— os jornalões acusam o governo de “grande gastador público” ao invés de informar a realidade dos impactos aprovados pelo Congresso sobre as contas públicas. Se omitem sobre gastos hoje desnecessários, como o Perse, criado para sustentar eventos e artistas durante a pandemia de C19. E também sobre grandes empresas que se tornam devedoras após findar o tempo determinado de isenção fiscal. São pontos especialmente nevrálgicos para as contas públicas.
                    Em fria análise final, o aprove de benesses pelo Senado poderá impulsionar outras empresas a fazerem o mesmo para não negociar dívidas com a União. A desoneração da folha também força o gasto, mas o Congresso aprovou a renovação em 2024. Ainda não sabemos do total da dívida de todo o numus privado, mas ela é trilionária, inclusive em previdência.
                    Se mantida a birra do Congresso, os já limitados recursos das políticas públicas podem ser mais solapados do que já o são agora, para alimentar com grana pública um capitalismo em grande parte inútil. E quem paga a conta, como sempre, é a nação, a maior vítima desse sistema. E aí parte do Congresso chia quando é taxado de “inimigo do povo”. Dessa forma confessa que o é.
Para saber mais
- https://www.gov.br/pgfn/pt-br. (dívida de R$ 1,39 trilhão do agronegócio)
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ZEMA NAS ENTRELINHAS

                    Governador de MG em dois mandatos – o segundo interrompido pela pré-candidatura à presidência – Romeu Zema já teve sua biografia brevemente abordada em artigo publicado no blog em 23/3/25. Mas agora ele retorna aqui, como tema importante a ser desvendado em relação aos seus segredos nem tão secretos assim.
                    Neto paterno de imigrantes italianos, ele nasceu em Araxá, no Triângulo Mineiro. Na juventude, mesmo estudando, ele manteve a vocação comercial dos avós e do pai. Na sua vez à frente, ele se mostrou mais do que comerciante: virou gestor e investidor. Transformou a antiga loja familiar no atual Grupo Zema, que hoje consta uma financeira e posto de combustível. Hoje, Romeu é um dos maiores empresários do Brasil.
                    Seu sotaque é naturalmente pronunciado devido às características linguísticas e culturais de sua região natal e, por que não, certa influência de seus avós paternos. Apesar de sua atual situação classista, Zema continuaria a ser um desconhecido do grande público se não tivesse entrado na vida política, através da sua filiação ao partido Novo, conhecido por agregar um “público selecionado” de empresários e banqueiros que pregam o Estado mínimo e mercado máximo.
                    Em 2018 Zema estreou politicamente ao ser eleito governador de Minas Gerais. A escolha da maioria dos mineiros pelo petista Fernando Haddad à presidência (que se candidatou após a impugnação da candidatura de Lula, que já estava preso) indica que Zema não foi eleito na esteira bolsonarista, mas sim por representar sangue novo, diferente do que foram os políticos mais tradicionais que não conseguiram resolver os problemas do Estado, como os tucanos Geraldo Azeredo e Aécio Neves, ou o petista Pimentel.
                    O seu segundo mandato não se completou: ele renunciou para se lançar candidato à presidência da República, concorrendo com outros pré-candidatos. O que não impediu a sucessão de feitos um tanto grotescos expostos a seguir.
                    A máscara caiu— somente ao assumir a cadeira do Palácio da Liberdade, residência oficial do governador, que Zema mostrou o seu verdadeiro caráter. Na campanha se dissera ao lado de Lula, e já governador, se alinhou a Bolsonaro, e assim se manteria em todo o tempo todo de seus mandatos. Já em 2019 ele queria que iria implantar uma política privatista, que deixou servidores e população em apreensiva polvorosa. E o que se seguiu foi uma sucessão de desastres.
                    Primeiro governo- propôs privatizar a Central Energética de Minas Gerais (Cemig), mas recuou com a pressão ruidosa dos empregados públicos. Triplicou o seu salário e o de seu vice Simões e congelou os dos servidores estaduais, nos 4 anos. Trocou 11 Secretários de Meio Ambiente, por discordarem com permissões ilegais para mineração em várias áreas proibidas pelo Ibama. Liberou aos seus gestores públicos política persecutória contra servidores críticos de seu governo.
                    Entregou à ALMG proposta de cogestão público-privada da Federação Hospitalar de MG (Fhemig). Recebeu verba para reverter a péssima condição da malha viária estadual, mas só caprichou mesmo um pequeno trecho de acesso para sua fazenda em Araxá. Na onda bolsonarista, ele propôs escolas cívico-militares, mas o TJ-MG suspendeu e, como alternativa, rapidamente elaborou proposta de PPP como para a Fhemig.
                    Segundo governo- Zema fez mais desastre. Em Brasília, deixou reunião de governadores com Lula sobre segurança pública. Mais do que dobrou a dívida estadual chegando a R$ 188 bilhões. Lula 3 propôs federalizar Cemig, sem ter resposta. Extinguiu a sede da escola de formação de pessoal da Cemig. Manteve congelados os salários de servidores. A situação das rodovias piora. Propostas de PPP na Fhemig e na educação estadual avançam, mas ainda não houve desfecho na ALMG.
                    Tenta privatizar a Copasa, o que segue em impasse. Cria PPP de áreas de preservação permanente. Segue mineração ilegal[1] na Serra do Curral, principal fonte d’água para a grande BH. Servidores apontam precarização e descaso, ameaçam greve. Zema meteu MG em regime de recuperação fiscal; professores, piso zero. Beneficiou o banco Master, cuja liquidação deu prejuízo financeiro a mais a MG. Quis retirar da Carta de MG a consulta popular obrigatória sobre privatizações.
                    Ainda no segundo mandato, ele outro atentado contra a saúde pública ao dizer que “os pais não são obrigados a vacinar seus filhos”, com apoio do deputado Nikolas Ferreira. E ele ainda foi denunciado por supostas irregularidades contra auxiliares de serviços gerais que trabalham nas instituições estaduais de ensino, e é acusado de atividade antissindical contra os empregados públicos da Cemig e da Copasa. Ainda quis vetar promoção a professores de nível superior.
                    Triste, mas necessária— apesar disso tudo, tenho percebido que Zema recebe elogios de eleitores de outros Estados, como alguns cariocas. Por ser bolsonarista? Por muitos cariocas alimentarem simpatia por mineiros, seja pelos produtos alimentícios ou pelo sotaque típico? Pela omissão de seus feitos reais pelos jornalões? Ou, talvez, tudo junto. Percebo que o peso da desinformação sobre seu governo é maior do que a publicidade eleitoral. Por isso, cabe dar chance à verdade, referenciada nas fontes linkadas abaixo.
                    A dívida hoje impagável de MG à União desmente a notícia sobre contas públicas ajustadas. A precariedade vivida pelos setores em risco de privatização. O ódio antipopular por trás da PEC que desobriga a consulta pública. O perigo de repetir o crime bolsonarista contra a saúde pública sobre vacinação infantil. A crítica a Flávio Bolsonaro por “bandidagem” desmentida pelo decreto benéfico ao Master então vigente, e no querer ser vice de Flávio, que preferiu Júlia Zanatta.
                    Sei que tantas revelações aqui expostas decepcionarão muitos de seus admiradores. Mas, por mais incômoda que seja, a verdade precisa ser dita. Pelo fato de Zema se colocar presidenciável, a verdade se estende para além dos mineiros, vai para o Brasil todo. Quanto a Flávio Bolsonaro, até os jornalões se renderam às evidências impossíveis de se ignorar. Só resta falar sobre Cleitinho e outro presidenciável Ronaldo Caiado. Mas estes deixarei para outro artigo.
Nota: [1] acontece à noite, conforme já denunciado e m transimissão ao vivo pela deputada federal Duda Salabert (PDT).
Para saber mais
- https://www.tce.mg.gov.br/. (também suspendeu a proposta de escolas cívico-militares em MG)
- https://www.almg.gov.br/ (Zema apresentou PEC 24/2023, que retira obrigatoriedade de consulta popular em decisões políticas sobre privataria na Cemig e Copasa).
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CURTAS 114 - ANÁLISES (Cleitinho; Duda e Erika)

  CLEITINHO: POLÍTICA-ESPETÁCULO                                              Em 2022, a farra de privilégios ao Centrão de Arthur Lira e se...