domingo, 26 de abril de 2026

ANÁLISE: Especial - as vitais correntes marinhas

 


          Em artigo recente sobre clima pormenorizei sobre fatores de padronização, eventos meteorológicos (condições de tempo) e o aquecimento global natural e humano, e a mudança climática. Entre todos os fatores naturais de longo prazo, estáveis e de duração geológica em alguns tipos), o único tipo não abordado foram as correntes marinhas.
                    A exclusão das correntes marinhas naquele artigo foi proposital, decorrência da riqueza de detalhes que implicaria em explicações em artigo à parte – este aqui. Essa categoria fenomenológica merece atenção especial por sua abrangência, variedade, abrangência e suma importância planetária.
                    
CORRENTES MARINHAS
                    As correntes marinhas ou oceânicas são movimentos de massas d’água em todos os oceanos da Terra. Há correntes frias e quentes, sendo as primeiras mais profundas e as últimas superficiais. Seus principais fatores são: geografia continental, esfericidade e rotação planetária, e características da água (profundidade, salinidade, temperatura e densidade).
                    Em todos os mares, as correntes marinhas são majoritariamente isoladas ou individuais, influenciando as regiões alcançadas por cada uma. Mas elas também podem formar pares, criando sistemas pareados, que podem assumir importância de nível mais amplo, planetário, a despeito da localização de cada exemplo identificado.
                    A seguir, seguem os seus fatores de formação e de distribuição.
                    Temperatura e função ambiental — é um meio de classificação e identificação (corrente fria/corrente quente). Regiões específicas onde podemos sentir “bolsões d’água” frios e quentes em um só tempo são designadas zonas de ressurgência, que podem cobrir grandes áreas e se revelam, como pontos de encontro (com movimentação circular do corpo d'água local) e de dispersão das correntes díspares.
                    Correntes frias (em azul na figura acima) são mais profundas, de águas mais salgadas e densas, e distribuem grandes volumes de nutrientes em todos os mares, contribuindo desta forma para espalhar e manter grandes populações bióticas. Correntes quentes (em vermelho) são superficiais, de água mais leve e menos salgada, e propiciam grande biodiversidade marinha nos litorais alcançados. As diferentes massas d’água não se misturam, daí a movimentação em bolsões frios e quentes nas ressurgências.
                    Quente, a Corrente do Golfo (México) é conhecida por amenizar invernos das regiões frias por ela alcançadas (costa oriental norte-americana e ocidental europeia, incluindo Noruega e sul da Islândia). Fria, a Corrente de Humboldt esfria todo o litoral sul-americano no Pacífico rendendo formações desérticas até o Peru. Há outras correntes frias e quentes importantes, como a da Austrália Ocidental (fria) e a do Brasil (quente).
                    Influência climática e ambiental— as vastas regiões florestais úmidas, como as vistas nos trópicos, são influenciadas por correntes quentes. Mas até países como Áustria e Suíça, montanhosos e sem mar, são florestados graças aos ventos úmidos soprados do tépido Mediterrâneo, governado por uma corrente quente local. 
                    Aqui cabe uma questão interessante. Se a corrente do Mediterrâneo é quente, por que as regiões em torno parecem mais secas? A resposta é simples:  no entrono o relevo acidentado (montanhoso) impede a extensão da umidade para o interior desértico no Mediterrâneo. E os ventos predominantes sopram em direção norte (Europa) e nordeste (Turquia e Líbano no Oriente Médio).
                    Regiões desérticas e semidesérticas são influenciadas por correntes marinhas frias e moldadas pelo relevo. Na América do Sul, o estreito deserto do Atacama (Chile) se limita ao litoral devido às altas montanhas andinas., ue impedem a umidade oriunda do leste do continente As partes mais altas são contíguas no Altiplano Boliviano, cujo clima é moldado também pela atmosfera rarefeita das grandes altitudes locais.
                    Ressurgência — os pontos de ressurgência amplificam a dispersão e redirecionam correntes quentes e frias por muitas regiões costeiras influenciando em variados padrões climáticos locais e também na formação de biomas específicos e adaptados às suas respectivas localidades. A ressurgência brasileira cobre desde o litoral do Paraná até o norte do RJ.
                    
SISTEMAS DE EQUILÍBRIO (PAREADOS)
                    Por sistemas de equilíbrio são designados os grandes “pares” de correntes (uma fria e uma quente), formados em zonas de ressurgência e em obediência à geografia continental, à forma e à rotação do planeta. De acordo com estudos sistemáticos de universidades e agências de Climatologia, esses sistemas possuem responsabilidade crucial para a manutenção da homeostase climática global. Daí advir a designação acima.
                    Existem vários grupos, mas os mais importantes, dada a sua extensão e localização geográfica, são três: as duas grandes Correntes (ou Sistemas) Circumpolares (Antártica e Ártica), e a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico, ou, em inglês, Atlantic Meridional Overturning Circulation-AMOC. Esta última tem sido muito falada ultimamente e vocês saberão dos motivos e implicações.
                    Sistemas Circumpolares— são correntes pareadas que movimentam os Oceanos Glaciais, Ártico no hemisfério Norte e a sua contraparte sulista Glacial Antártico. Seus movimentos propiciam os vórtices atmosféricos polares, sistemas ciclônicos de alta pressão que mantêm as condições gélidas nos polos. A velocidade das Circumpolares varia naturalmente – só que com limites.
                    Estudos recentes revelam que os sistemas estão mais lentos, o que poderia desencadear o colapso dos vórtices polares atmosféricos e “vazar” ondas gélidas invernais para as latitudes tropicais. Naturalmente, a ocorrência do vazamento é mais rara no polo antártico do que no ártico (o que explica maior aquecimento lá), mas teme-se que a mudança climática atual desencadeie maior intensidade e frequência desequilibrando a homeostase climática global.
                    AMOC— a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico é um amplo sistema alternado de correntes que percorrem o oceano Atlântico no sentido Sul-Norte (quente) e Norte-Sul (frio). Na prática, o sistema agrega várias correntes importantes, quentes e frias, que interagem em várias zonas ressurgentes litorâneas ao longo da rota atlântica, e governam os climas em torno do oceano.
                    Além de várias universidades e outros centros científicos, a NOAA (agência de pesquisas atmosféricas dos EUs), o nosso Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas-IPCC/ONU perceberam, em seus muitos estudos, que a AMOC tem valor climático planetário. E daí compartilham uma preocupação.

IMPLICAÇÕES DE POSSÍVEL COLAPSO
                    Assim como os sistemas circumpolares supramencionados, a AMOC também está ficando mais lenta. Os cientistas já perceberam que há uma relação íntima natural entre os ciclos de renovação e degelo das calotas polares e o ritmo das correntes. Mas a conclusão sobre qual parte é a causa dessa redução de velocidade desses sistemas ainda não está definitiva. Só que não é tão inexplicável quanto parece.
                    Existem várias teorias, sendo a mais plausível a de que o aquecimento global derivado das ações humanas acelera o degelo das calotas polares. Como os diferentes níveis salinos de todo o corpo d’água oceânico favorecem as correntes, a água doce formada pelo degelo massivo decai localmente a salinidade da água resultando no enfraquecimento da corrente superficial. Mas, agora vale um questionamento.
                    El Niño e La Niña— abordados no artigo anterior[1], esses dois fenômenos que alteram a temperatura superficial do Pacífico Equatorial merecem atenção aqui. Já é conhecido na Climatologia que, quando um dos fenômenos está fortemente ativo, um tipo ou classe de corrente ganha mais força em detrimento do outro. É dessa forma que se percebe quando as médias térmicas dos oceanos estão mais altas ou mais baixas.
                    Já se percebeu que as correntes frias perdem força considerável em tempos de El Niño dominante. O exemplar recuo da corrente de Humboldt resulta em escassez de nutrientes na costa oeste sul-americana, diminuindo as populações de animais. A La Niña faz o contrário, criando ilhas de calor concentrado no Atlântico médio e gerando a intensificação da temporada de furacões no Caribe, especialmente na primavera no Hemisfério Norte.
                    Embora essa correlação de forças seja bem documentada, ainda não sabemos se esses fenômenos interferem de forma significativa na força e na velocidade dos grandes sistemas pareados. Ou seja, se estão por trás da “lentidão” atual. E caso isso se afirme, é possível que, em condições naturais, seja evento transitório. Daí vale pesquisar onde termina o natural e começa o antrópico nessa relação (difícil essa).

SOLUÇÕES – E FRIA ANÁLISE FINAL
                    Como como já exposto no artigo anterior (Clima: do natural ao humano), em 2024 ultrapassamos a marca térmica global limítrofe (1,5°C de 1850 a hoje, segundo o IPCC) para revertermos a exacerbação do aquecimento antrópico. O que não significa, entretanto, o fim da nossa esperança de melhora.
                    Segundo as entidades, ainda estamos em tempo de, ao menos, manter o novo padrão climático, mediante os meios disponíveis citados no artigo anterior. E, como já apontado, aguardar os resultados, em prazo mais ou menos longo. Esses meios exigirão muita disposição e boa vontade sociopolítica e mercadológica – imprescindíveis para a sobrevivência do tão adorado capitalismo.
                    E como reforço na análise final deste artigo, cabe acrescentar que, a despeito da suma importância dos grandes sistemas pareados de equilíbrio para a homeostase climática global, cada corrente individualmente citada tem seu papel imprescindível para a vida. O Saara “doa” suas areias para o fundo oceânico e para fertilizar as terras da Amazônia e do Caribe e garantir alimento e equilíbrio econômico. Assim, o colapso de uma delas desencadeará desequilíbrio climático, ambiental e social nas regiões de influência e adjacências. E, se nada fizermos para evitar, a extinção em massa virá a galope.
Para saber mais
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