sexta-feira, 24 de outubro de 2025

CURTAS 101 - ANÁLISES (os aporofóbicos, fintechs)

 

OS APOROFÓBICOS

                Dizem que o bolsonarismo e o MBL não se concordam. Ledo engano: ambos são duas faces da ultradireita nazifascista. Deputado federal, Nikolas Ferreira é conhecido por seu ódio contra minorias étnicas, sexuais e não cristãs. Fundador do MBL, empresário e influencer, Renan Santos não faz nada diferente nas redes.
               O mineiro filho de empresário da fé e o paulista almofadinha se juntaram para revelar seu ódio aos periféricos urbanos. Vamos a Diadema.
                 Diadema é uma das cidades do Grande ABCD (Grande São Paulo) industrial, que abrange Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Enfrenta – também – problemas típicos como degradação ambiental, criminalidade, pobreza e favelização.
                 Mudanças – entre 2016-19, periferias de Diadema foram reestruturadas com o modelo de casas-cubo de 2 andares para famílias até 4 pessoas. Com os anos, algumas famílias tiveram carros que, então ao ar livre, se sujeitavam a roubos ou desmonte, outras famílias aumentaram. Só restou uma saída: ampliar os imóveis.
                 À frente, garagens, acima, sobrados. Marca típica, os tijolos expostos se tornaram os objetos do desprezo viral de Renan e Nikolas aos periféricos nas redes.
                Ação e reação – Renan Santos foi o primeiro a se pronunciar. Negando os fatores de origem e de continuidade da pobreza, ele disse que “eles têm a mentalidade de favela”. Seguindo essa linha, Nikolas se manifestou no X apresentando teor de ódio e que teve 5 milhões de visualizações e comentários preconceituosos.
                No post, duas fotos, uma das casas-cubo originais; e outra recente, já com as modificações de tijolos expostos. Apontou a pobreza como problema moral: “falta caráter, espírito, cultura”, negando fatores socioeconômicos. Renan Santos enfatizou que “não adianta fazer nada, eles têm mentalidade de favela”.
                Reação dos moradores – claro que a indignação tomou os moradores locais. Se a midiatização do endereço já não foi agradável em si, a depreciação foi pior, conforme reportagem do Intercept Brasil. “Eles não conhecem a nossa luta diária” e “eles nunca trabalharam, não sabem nada” foram as respostas mais comuns.
                Eles contaram que, em dias chuvosos, as casas-cubo apresentavam problemas estruturais como goteiras, ou não protegiam o suficiente contra o frio. Uma moradora contou foi construído um sobrado para abrigar a avó e a mãe que perderam sua frágil casa em outro local após uma enchente.
                O ex-prefeito à frente do programa habitacional relatou que as casas foram projetadas como “abrigos dignos” aos que então moravam em barracos precários, alguns no meio da rua. E admitiu que não houve consideração pela possibilidade de mudanças futuras na vida dos moradores.
                Em fria análise, o manifesto de Nikolas e Renan não surpreende. Eles são reflexos da cultura elitista, que molda o comportamento da sociedade, apesar dos mais abastados dependerem dos seus empregados pobres para comprar um pão sourdoug na padaria dos bairros ricos.
                Mas o fato de eles serem reflexos da cultura elitista não justifica a sua perpetuação. Aversão ou medo de pobres, a aporofobia é como racismo: é crime e merece ser punido, não importa a condição financeira nem o papel social dos responsáveis. O destino final será o mesmo: todos na irmandade dos túmulos.
Para saber mais


POR TRÁS DO PIX, AS FINTECHS

                O pix resolveu muita cefaleia financeira dos brasileiros. Apesar da vinculação à conta bancária, ele facilita movimentações em tempo real sem taxa, sem que os trabalhadores precisem interromper seu expediente para ir aos bancos físicos (mas estes continuarão existindo para pautas específicas).
                Se facilitou para a patuleia trabalhadora, os bancos estão felizes. A soma do total movido desde sua instituição alcançou a marca de R$ trilhões, nunca antes imaginada na nossa história. Mas há inconformidade proporcional, percebida pelo governo na arrecadação registrada pela Fazenda.
                A arrecadação de menos de R$ 3 tri de arrecadação anual não acompanha o ritmo alucinante das transações financeiras. Os grandes bancos lucram dezenas de bilhões de reais livres. E as marcas de dezenas de trilhões em pix afirmadas pelos próprios e percebidas pelo governo? Incomoda.
                Fiscalização e mentiras – quando Lula 3 lançou medida que autoriza a Receita fiscalizar valores pix acima de R$ 5 mil, a ultradireita se moveu. Nikolas Ferreira viralizou a falácia de taxar pix até R$ 5 mil, cujo efeito geral que fez o governo errar em recuar já sabemos.
                Enquanto o governo luta para conseguir a sonhada justiça tributária na renda, a PF estoura o gigantesco crime financeiro envolvendo PCC, políticos, Faria Lima, bets e as virtuais fintechs, do tipo Nubank. E em meio a essa descoberta se viu uma estranha coincidência.
                Pra cima das fintechs – a PF descobriu que o pix foi o formato da transação criminosa e o volume cresceu após o vídeo de Nikolas, conforme descrito no artigo O porta-voz do crime, neste blog. Não por acaso, a nova MP do governo federal agora mira as fintechs.
                As fintechs não são ilegais. Mas não são reguladas, não patrocinam eventos populares, não pagam R$ 1 de imposto e movem muita grana não fiscalizada. Daí a MP do governo. O problema: mexe com interesses de muitos no Congresso. Daí o nervosismo que levanta suspeita.
                Análise final – não por acaso, a condição “anômala” das fintechs facilita o envolvimento de algumas em crimes financeiros gigantes. Se o vídeo de Nikolas teve, ou não, algum propósito relacionado ao esquema, cabe à PF investigar: Acusação, só institucional,  só com prova material. Coincidência? Impossível responder.
                Agora, quanto ao deputado, se a maioria no Congresso tivesse vergonha na cara, Nikolas já estaria sabatinado a um Conselho de Ética ideologicamente diverso e não monolítico na ultradireita como este que arquivou o processo contra Eduardo Bolsonaro.
                Por isso o governo tem toda a razão em se preocupar com a inconformidade descrita no início deste texto, e daí regular as fintechs como o são os bancos e tributá-las. Mas, claro, insistir em tributar também o topo social, pois o povo cobra justiça tributária.
Para saber mais

















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