Traduzido livremente como “comodidade”, o
termo Commodity ganha outro conceito na macroeconomia. Neste ramo do
conhecimento, ele denomina vários tipos de produtos, em geral matérias-primas para
exportação e manufatura no exterior, especialmente na poderosa China. Entre as referências
globais no setor, o nome da vez é o Brasil.
O baixo valor agregado das matérias-primas é
compensado pelos grandes volumes de produção e exportação, sem taxação pela
maioria dos importadores, como a China.
As nossas principais commodities
atualmente são petróleo cru, aço carbono e minérios (especialmente ferro), não
necessariamente nessa ordem. Mas, para este artigo, o tipo destacado é o alimentar,
principalmente em grãos (milho, arroz, soja, feijão e café), carne (boi, porco
e frango) e frutas tropicais (banana, mamão, caju).
A China é o principal e maior consumidor de grãos,
e Europa e EUA, de frutas. Os grãos vão para a indústria de ração animal e
outros produtos. Com a taxação do café nos EUA, o Brasil buscou outros
parceiros negociando com 138 empresas na Rússia, Indonésia, Índia e, agora, a
China. É, parece que santo de fora faz mesmo milagre, pois aqui...
Guerra interna – internamente,
a indústria de gêneros alimentícios declarou guerra fria com o governo federal.
Não é conflito novo. Ele surgiu no primeiro governo Lula, em 2007, quando surgiu
o programa Merenda Escolar Saudável, motivo da tensão política entre o
governo e o agro – reacendendo agora após aprove da PEC tributária por um
imposto.
Imposto seletivo
– alcunhado imposto do pecado, ele é uma novidade na política tributária para sobretaxar produtos prejudiciais à saúde humana e ao ambiente,
como bebidas alcoólicas, cigarro, refrigerantes, combustíveis poluentes,
agrotóxicos em geral e armas de fogo. Por melindrar duas bancadas (bala e boi),
a tensão política piorou.
No dia da votação final, jabutis de
última hora entraram retirando armas de fogo, agrotóxicos e veículos de
trabalho agrícola do imposto seletivo. Sem tempo para correções, a PEC foi aprovada
e promulgada. Mas ainda restou uma polêmica: a dos alimentos industriais ultraprocessados.
Alimentos industriais
– enquanto alimentos naturais podem ser minimamente processados em casa,
os industriais podem ser processados (naturais temperados com sal, óleo
e/ou açúcar para realçar sabor) e ultraprocessados (cheios de temperos
químicos que dão dose extra de sal e açúcar e ainda há conservantes, corantes,
acidulantes, flavorizantes).
A polêmica é que o governo listou
ultraprocessados como sobretaxáveis, dada a relação entre eles e doenças crônicas
como obesidade, dislipidemia, hipertensão e males cardiovasculares, diabetes e
até câncer, se consumidos sempre. Todos sabem disso, mas a tensão se move por
interesse mais profundos do que nós e eles gostaríamos de admitir.
É que setores ligados ao agronegócio se beneficiam
com os ultraprocessados, cuja matéria-prima de manufatura são sobras não
exportadas. Gigantes como JBS e BRF (carnes embutidas reais e veganas), Nestlé
(comidas infantis, flocos de cereais e biscoitos), Danone (laticínios),
Mondelez (biscoitos e salgadinhos), PepsiCo e Coca-Cola (bebidas) são exemplos.
E quem os consome regularmente os considera práticos para o
dia a dia e gostosos.
Desafios – como isso tudo banca a
maioria do Congresso, a implantação do Merenda Escolar Saudável enfrenta
desafios ainda hoje. Parado entre 2019-22, o programa retorna tímido em Lula 3 para
tomar parte do espaço ocupado pelos ultraprocessados, ou entrar preferencialmente
aonde ainda não há merenda – e onde estudam os mais pobres.
Enquanto governo tenta acordo com empresários,
algumas escolas públicas já possuem sua solução: refeitório como lugar
de almoço ou jantar, e cantina para lanches processados, mas pagos. Até
porque, entre os alunos mais pobres, um prato de comida saudável pode ser sua
única refeição diária e oportuniza seu aprendizado.
Os políticos sabem que dispor de cantina e
refeitório em todas as escolas é a melhor solução e todos saem ganhando. O que
falta mesmo é vergonha na cara e boa vontade.
Para saber mais
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O DUVIDOSO RASTREIO FACIAL
A população global atual é de 8 bilhões de
pessoas. Como a criminalidade está presente em todas as sociedades e cada um de
nós pode ter alguém muito parecido, a biologia e a medicina perceberam que cada
pessoa tem particularidades físicas visíveis como arcada dentária, impressões
digitais e traços anatômicos.
Esses elementos ajudam a identificar vítimas e
criminosos. As marcas criminais revelam o processo criminal em perícia. A
identificação microscópica (tipo sanguíneo e DNA) se seguiu e, finalmente, a
tecnologia digital para rastreio inteligente. A identificação local e o
contexto social completam o trabalho.
Todos integram a Criminologia, ciência
forense, especialidade compatível com áreas superiores como Direito,
Arqueologia (crimes antigos), Biologia, Medicina, Psicologia, tecnologia da
Informação e outras, contando com vários dados eletrônicos para bom
detalhamento pericial.
Reconhecimento facial e IA
– a tecnologia digital complementa as ferramentas analógicas de identificação e
perícia, refinando o serviço investigativo. Substituindo com vantagem o
imprescindível retrato falado manual, o reconhecimento (ou rastreio) facial digital
refina a descrição pela vítima. A inteligência artificial (IA) pode dar mais
precisão com detalhes ultrarrealistas milimétricos.
Na queixa, primeiro passo para a investigação
policial, a ferramenta é usada com seleção de rostos disponibilizados pela
plataforma (ligada a câmeras de segurança em vias públicas), com ajuda da descrição
feita pela vítima, ou de imagens disponibilizadas por uma agência bancária, por
exemplo. No rosto selecionado se emprega IA para refinar detalhes descritos.
Claro que a investigação policial é só uma das
aplicações dessas tecnologias. Na segurança corporativa, o seu uso é cada vez
mais comum por motivo de segurança, pois um mal intencionado qualquer pode ter traços
e cor de pele muito similares aos de alguém de seu quadro de funcionários. Por outro
lado, o mecanismo tem sido adotado para programas espiões.
Vantagens e riscos
– em imagens de multidões em vias públicas, o rastreio facial conta com câmeras
de segurança conectadas à plataforma específica no setor de inteligência
policial. Nas imagens, rostos são selecionados por padronização algorítmica de
traços-chave no programa.
Em teoria, a ferramenta de rastreio facial tem
suas vantagens: maior precisão e rapidez de reconhecimento facial de suspeito
pela vítima (o manual pode induzir a engano); e substituição de pessoas reais
por imagens computadorizadas modificáveis pelo programador, eliminando-se,
portanto, o clima de constrangimento de pessoas do modo tradicional.
Mas há riscos. Como a descrição na plataforma é
algorítmica, é fácil violar dados e desconsiderar combinações (traços africanos
+ pele clara, e traços caucasoides + peles mais escuras) comuns no Brasil, e
preferir endereços periféricos. Entra aí um viés racista e aporofóbico (avesso às classes populares e aos mais pobres).
Pode-se exemplificar a macabra estreia da
Operação Cidade Integrada, iniciada em 19/8/21 na favela do Jacarezinho, Rio:
nesse dia, 1200 PMs fortemente armados e sem identificação ceifaram 29 vidas.
Segundo informações oficiais, a maioria nunca teve passagem pela polícia.
As 22 câmeras de reconhecimento facial
instaladas na comunidade poderiam ter ajudado a PM a caçar os alvos certos,
o que poderia evitar o massacre gratuito ocorrido. É por aí que percebemos o peso do
algoritmo da plataforma de reconhecimento facial na falta de consciência
social.
Solução possível
– caros leitores, vocês devem se perguntar por que digo rastreio e não
reconhecimento facial. Na prática, reconhecer a face conforme o algoritmo nem
sempre – ou quase nunca – coaduna com as descrições feitas pela vítima. Mas soa
uma pergunta: tem solução? Talvez haja um meio possível.
Ele pode estar em fugir do padrão, ou seja, do algoritmo
– mecanismo cuja natureza seletiva sujeita também a IA a erros no reconhecimento
facial. Já sabemos que o algoritmo é movido por questões não só de capital, mas
também culturais, que interferem no seio das instituições influenciando de cima
para baixo. O maior desafio é encontrar o melhor caminho, mas vale a pena.
Para saber mais
- https://www.bbc.com/portuguese/geral-48889883
- BBC: Inteligência artificial: Por que as tecnologias de reconhecimento
facial são tão contestadas.
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