A doutrinação religiosa cristã é uma questão bem
antiga. No início foi a Igreja Católica. Depois veio o protestantismo tradicional.
Hoje são as denominações neopentecostais, com o retumbante pioneirismo da
IURD. E no mesmo caráter, agora ela se infiltrou nos quarteis das PMs de vários
Estados.
Iniciada em 2016, sua entrada nos quarteis foi
paulatina. Nos presídios foi positiva para muitos casos, mas há convertidos e
pastores, que impõem intolerância religiosa nas comunidades dominadas – o que
me levou a escrever uma reflexão em artigo publicado em julho deste ano.
No referido texto publicado foi abordado o
crescimento da IURD como força doutrinadora nas polícias militares em vários
Estados, numa reflexão sobre seus efeitos possíveis em relação às atividades de
rotina, inclusive na violência policial nos cinturões de pobreza.
Tudo porque ocorre uma estranha coincidência. Em
SP, o governador Tarcísio deu ao violento secretário de segurança Guilherme Derrite
pleno aval para a violência letal nas “operações” policiais em favelas. E isso
acontece justamente com a PM-SP já completamente tomada pela IURD.
Tudo porque coincide estranhamente o aumento da
violência letal das polícias militares nas favelas na medida em que as raízes
da IURD avançam no seio dos quarteis e doutrinam seus quadros. E não fica só
nisso: há relatos de assédio vertical, geralmente de altos oficiais contra
subordinados.
Assédios e ameaças
– consultados em reportagem investigativa publicada pelo Intercept Brasil,
os denunciadores identificados com nomes fictícios relataram várias situações
de assédio moral, motivadas por suas recusas em participar de cultos e
palestras de oficiais religiosos (capelães).
Mas há acontecimentos de teor mais grave. Três
deles – um ateu de esquerda, um católico e outro de matriz afrobrasileira –
relataram terem sido ameaçados de expulsão da carreira policial, caso se
recusem novamente a participar dos cultos e das palestras organizadas pela
IURD.
Reveladores de uma verdadeira denúncia, aos
relatos dos policiais citados são válidos para as PMs dos demais Estados onde a
IURD entrou por completo. Esse ambiente de assédio e ameaça tem ocasionado um
clima pesado na caserna, em especial sobre os de patentes mais baixas.
Efeitos na rotina
– quando observamos o trabalho da polícia militar, costumeiramente pensamos ser
limitado a operações de guerra nas periferias e rondas com eventuais
abordagens. Acontece, porém, que as funções da PM nas ruas são variadas e
demandam boa saúde psicológica.
Policiais são pessoas únicas como qualquer
outra. Mas, assédios e ameaças atestam a recusa dos oficiais em respeitar um
quesito hoje valorizado para a boa qualidade do trabalho. Daí compreendermos
como a desigualdade militarista pode pesar sobre o preparo e a saúde mental
entre as patentes mais baixas.
A culpa da IURD
– mas só ofensa não justifica a violência policial contra pobres e submissão
aos mais bem providos. A neofascistização evangélica – uma reedição do
cristofascismo pregado pelos missionários macarthistas[1] de outrora – pode
explicar também. Ameaças para impor participação nos cultos atestam isso.
O casamento entre o ideário bolsonarista e as
duas maiores correntes evangélicas (neopentecostal e pentecostal) desde o
pós-Dilma recrudesceu o instinto violento no seio das casernas, já sob
infiltração da IURD – que por oportunismo apoiou Jair Bolsonaro antes e durante
a presidência.
Luz no fim do túnel
– as casernas militares têm sido o lugar mais fértil para mais um pioneirismo
da IURD: a teologia do domínio. Na prática com viés ideológico, ela visa
homogeneizar a sociedade pela versão mais purista e radical de cristianismo –
se for na linha evangélica, melhor ainda para o poder deles.
Apesar do protagonismo militar na implantação de
regimes totalitários, as instituições militares não são necessariamente
monolíticas. No Brasil, se herdeiros da ditadura como Augusto Heleno e
Vilas-Boas quiseram novo golpe, outro grupo do oficialato militar impediu Jair
Bolsonaro de ir à frente.
A nova fascistização da fé nas casernas não chega
a atingir 100% dos quadros. Os casos
acima expostos são apenas amostra de uma parcela que pode ser considerável. Há nomes
importantes, como o deputado estadual Leonel Radde (PT-RS), um dos pioneiros
dos PMs antifascistas no Brasil.
Referência na esquerda, Radde tem milhares de
seguidores no Brasil – milicos e civis. Ele pode ser acionado para liderar a
reação contra a evangelização compulsória nos poderes públicos, que são
obrigatoriamente laicos por lei desde 1891, com reforço de dispositivos
posteriores.
Afinal, além da ilegalidade flagrante, as
ameaças dos oficiais contra os que discordam dos cultos obrigatórios da IURD
manifestam intolerância religiosa, que é crime por lei, nas mesmas bases
da lei do racismo de 1989.
Embora seja importante separar a religião da
política – afinal, as ameaças dos oficiais sinalizam intolerância promovida –,
a IURD (e por que não outras denominações correlatas) encontram nas casernas
militares em geral o lugar perfeito para o objetivo da teologia do domínio: a
homogeneização social pela fé.
Nota:
[1] referente ao governo fascista McCarthy (EUA)
que enviou missionários para incitar a fé fascista entre nós nos anos 1950
contra o socialismo.
Para saber mais
- https://www.intercept.com.br/2025/08/03/pms-reagem-a-obrigacao-de-frequentar-templos-da-universal/
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O PORTA-VOZ DO CRIME
Como os demais sudestinos, os mineiros também
têm sido pródigos em votar muito mal. Após 20 anos de PSDB, o desastroso Zema
foi reeleito e, nas recentes pesquisas para 2026, estão em alta para sucedê-lo
bizarrices como o Cleitinho e o rei das mentiras Nikolas Ferreira, agora suspeito
de incentivar um esquema bilionário com PCC e tudo.
Nikolas mais uma vez ganha espaço crítico aqui. Filho
de pastor rico em BH, jovem, branco, limpo e escolado, casado e pai de 2
crianças – uma a caminho –, Nikolas teria tudo para ser um influenciador social
modelo. Mas, em nome de lucro e poder, escolheu enveredar na antiética cristofascista
que agora o melindra.
Vereador – na vereança, ele abraçou
o forte ideário LGBTfóbico que já o condenou judicialmente em três fatos: uma
ofensa viral contra uma aluna trans em banheiro feminino da escola de sua irmã,
e outras duas contra a colega Duda Salabert (2021-2). E foi além: ainda votou
contra a prefeitura de BH.
Para recuperar a cidade afetada pelas enchentes,
Fuad Noman fez proposta orçada em R$ 1 bi. Enquanto Duda votou a favor, Nikolas
votou contra (de minerva) para depois comemorar nas redes, ainda ofendendo
o ex-prefeito com calúnia de incentivo à pedofilia devido à publicação da
ficção Cobiça em 2020.
A repercussão dessa ofensa viral foi tão negativa publicamente que ele foi até chamado de vagabundo por alguns críticos. Alguns políticos também o criticaram. E mesmo assim, não aprendeu nada
com o tempo. Hoje, graças a uma denúncia do MP-MG sobre a calúnia, seu mandato
está mais vulnerável.
Deputado – eleito com recorde de
votos, Nikolas declarou guerra ao eleito Lula 3. Na tribuna em 8/3, com peruca
loira, ele propôs às mulheres procriação em massa porque “estão perdendo
terreno para homens que querem ser mulheres”. Reduziu mulheres a meras parideiras
e ofendeu LGBTQ+.
Na LGBTfobia, seu principal alvo é a colega opositora
Érika Hilton. Fora do sexismo, ele foi favorável à taxa das blusinhas, PL da
devastação ambiental, Marco temporal, comparação penal de aborto a homicídio, isenção
dos mais ricos e porte de armas de fogo. É favorável à PEC da impunidade[1] e à
mídia não regulada.
Das fake news, seu destaque foi a taxação
do pix, cujo impacto social fez o governo recuar em MP que fiscalizaria valores
acima de R$ 5 mil. Érika Hilton o desmentiu com igual impacto e enfrenta
ameaças de morte desde então. Nikolas é coautor de PL que destina material eletrônico
apreendido a escolas. Mas com um objetivo bem diferente.
Empresa cristofascista
– antes da carreira política, Nikolas já era conhecido entre jovens como influencer
cristofascista em vídeos bem editados e com media trainning. Inicialmente
bancado pelo pai, ele lucrou na rede e teve sucesso eleitoral. Além do canal
monetizável[2], ele é um grande empresário online.
Nikolas é sócio de uma startup chamada Destra
– que indica ação à direita. Matéria investigativa do Intercept Brasil
revela que a Destra dá cursos ministrados por bolsonaristas ou olavistas para aspirantes
a políticos cristofascistas. Isso não é ilegal, mas a empresa ganhou R$ 750 mil
em anúncios nas redes da Meta.
PL 1674/2022 – os
lucros extras de Nikolas e aliados levaram o colega Chico Alencar a criar PL
que coíbe agentes públicos e políticos de obter vantagem indevida com monetização
de conteúdo e anúncios de negócio privado. Alcunhado PL anti-Nikolas, chegou
a ser debatido, mas aguarda votação devido ao contexto político do momento.
Primo traficante e crime bilionário
– enquanto a PL de Chico Alencar não segue, a PF flagrou carro contendo mais de
30 quilos de maconha e 3,2 gramas de cocaína no porta-malas em rodovia de BH e
prendeu em flagrante o condutor Glaycon Fernandes, primo de Nikolas – que foi
flagrado estremecendo nas bases.
Nikolas foi pressionado a se pronunciar e foi às
redes: “quem é preso com drogas merece cadeia”. E reagiu acusando a
esquerda de associá-lo à prisão. “Não é algo que me envolva. O que eu vejo é
mais uma tentativa frustrada de desgastarem minha imagem”, desabafou desprezando
o bom intento dos colegas.
A PF descobriu que Glaycon tem ligação
com a facção paulista PCC. Então representada por Ana Carolina Santos Machado,
a defesa dele solicitou liberdade provisória, mas a Justiça de MG converteu a prisão
em flagrante em preventiva, para evitar algo pior. Mas ocorreu algo não imaginado, de outra
forma.
Em Sampa, a operação Carbono Oculto da PF
na Faria Lima descobriu um esquema bilionário envolvendo o PCC, postos de
gasolina, fintechs (financeiras digitais) e assessoria do governador
Tarcísio. A repercussão da notícia respingou em Nikolas, a partir da entrevista
com o secretário da Receita Federal.
Nessa entrevista, o secretário Robinson
Barreirinhas afirmou que o recuo forçado da inclusão do pix maior de R$ 5 mil no
rastreio de transações financeiras se deveu à divulgação da mentira de Nikolas,
permitindo o rolo bilionário da orcrim. Essa fala foi relevante para a
investigação da PF.
Há uma realidade impossível de ser ignorada. Assim
como Jair Bolsonaro enriqueceu mais R$ 30 milhões com pix de doadores, se
suspeita de que o vídeo de Nikolas tenha sido bancado por grana lavada da
orcrim, através de uma empresária ligada aos criminosos. Assim, ele vira alvo
da PF.
Análise final – a
intenção deste artigo passa longe de acusar ou fomentar acusações a Nikolas em
relação à sua fake news do pix. O ônus do acusador é a prova. São os fatos
os maiores acusadores, que o revelam contrário à regulação estatal (legal) das
mídias e do mercado financeiro. Só que a não regulação é terreno fértil para as
orcrims.
Não podemos afirmar ligação de Nikolas ao esquema
PCC-Faria Lima. O intento dele com a mentira do pix foi atingir Lula e blindar os
altos valores em pix feitos pela elite financeira. Mas o efeito de sua mentira foi
deletério para a nação e para os recursos públicos desviados pelos criminosos
no esquema citado.
Mas o que Nikolas parece não refletir é que a
sua coleção de condenações pode aumentar. E pode ultrapassar a simples cassação
de seu mandato e inelegibilidade. Se a investigação comprovar o suspeito
financiamento do vídeo, Nikolas pode ser condenado até mesmo a anos de cadeia –
em regime fechado.
Nota:
[1] propõe que parlamentares só sejam julgados
por 2/3 do colegiado do STF exclusivamente por crimes inafiançáveis flagrados
em cometimento.
[2] recebe por curtidas, inscrições e
divulgação.
Para saber mais
- Clayson – Denúncia grave: Nikolas pode ter sido bancado por criminosos
em vídeo que favoreceu PCC, 29/8/25, in https://www.youtube.com/watch?v=tdfKNpnbFLw
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