O LAVAJATISMO REACIONÁRIO
Quando ouvimos falar do termo Lava-Jato pela
primeira vez, como denominação de uma operação investigativa com PF, políticos
do Centrão e altos membros do judiciário, já estávamos na era Dilma Rousseff. Só
que, na prática, essa operação já havia começado na primeira era Lula, com as
operações conhecidas como Petrolão (reiniciada após paralisação
pela ditadura) e Mensalão. Na época, o relator no STF foi Joaquim
Barbosa.
Com as prisões de vários membros petistas – e também a
inevitável condenação do ex-governador mineiro Eduardo Azeredo (PSDB) ao
colapso político –, o nome Lava-Jato ainda continuava acobertado pela penumbra
midiática enquanto a empreiteira Odebrecht virou alvo. Ele só veio à tona no 1º governo Dilma, no
prosseguir da ação da PF, que já começava a mirar vários nomes do Centrão. Daí
o golpe “com STF, com tudo” em 2016.
Lula foi preso e o eleito presidente foi Bolsonaro. Repetindo
sempre a cantilena “no meu governo não tem 1 caso de corrupção”, ele
paralisou a operação Lava-Jato, que se esturricou com a reportagem
investigativa Vaza-Jato, do Intercept Brasil, da qual tivemos
pouco conhecimento porque o governante empregou a censura-modelo do regime de
terror e chumbo de 21 anos. Ele paralisou a Lava-Jato porque iria ser queimado pelas
provas da PF.
Como previu, Lula saiu da prisão e voltou ao Planalto.
Agora segura o mais pressionado dos governos. Sem substância para forjar novas
provas contra a conduta do petista, jornalões se unem ao Centrão já aliançado
com a ultradireita – e apostam em Flávio Bolsonaro presidente, não importando as
suas evidentes ligações com o crime organizado no RJ. Daí vemos a tentativa midiática
de ligar Lula e STF ao Master. E agora vieram dois problemões.
Messias derrotado— Senado, 29/4. Mesmo evangélico e basicamente conservador,
Jorge Messias foi derrotado por 42 dos 79 senadores presentes. Segundo o líder
do governo no Congresso Nacional Randolfe Rodrigues (PT), “o governo nunca
teve indicados derrotados em 120 anos”. Mas buscou contemporizar: “esse
resultado faz parte da prerrogativa do Senado”. Que, na prática, cheira à
forte suspeita de golpismo – uma versão 2.0 da Lava-Jato.
Após o fechamento da votação, enquanto alguns
senadores confortavam Messias que chorava, outros abraçavam o presidente do
Senado Davi Alcolumbre. Se foi normal o reacionário presidenciável Flávio Bolsonaro
abraçar Alcolumbre, o petista Jaques Wagner surpreendeu ao fazer o mesmo.
Derrota do veto ao banditismo— Congresso, 30/4. O
Brasil ainda estava estarrecido com a derrota de Messias quando o Congresso
todo se reuniu para decidir na votação plenária do veto de Lula ao PL da
Dosimetria. O projeto da ultradireita propõe reduzir as penas dos cabeças
da intentona de 8/1/23 para facilitar a soltura de Bolsonaro e dos
financiadores. Ele inclui estupradores, feminicidas, latrocidas e outros tipos
barra-pesada como beneficiários.
Para derrotar o veto de Lula, o presidente do senado Davi
Alcolumbre retirou do texto da Dosimetria artigos que contrapõem o já
sancionado PL das Facções do governo. É que tais artigos
estendiam o benefício aos faccionados, respeitando a CF no que tange à
igualdade de todos perante a Lei. O PL governista endurece as penas para as
facções, com acréscimo de pena relativa a outros delitos. Não foi um favor ao
governo, nem nada contra bandidos faccionados. Foi só o caminho para derrotar o veto.
Análise pungente— ora, cada fato é uma estratégia de golpismo. O
aprove do PL da dosimetria afronta tanto o STF por ter condenado os
partícipes, líderes e financiadores da intentona, quanto o intento de Lula em endurecer
penas para crimes pesados e orcrims, e a sua liderança de presidenciável. Além
de traição a Lula, a derrota de Messias afetou de certo modo André Mendonça, um “irmão de fé”,
mesmo aliados a políticos opostos.
Foi suposto que Messias não era unanimidade no STF. Na prática reinou a indiferença, só cortada por Gilmar Mendes, que o elogiou, e André Mendonça, devido à fé. A religiosidade talvez desse o temor de mais uma voz a dar tom bíblico indevido aos julgamentos colegiados num ambiente laico por lei. Afinal, é a constitucionalidade das leis o objeto de julgamento, mesmo que possa ferir alguns princípios cristãos. Fora isso, nada mais a ver.
Abraços da traição— já se imaginando presidente, Flávio abraçou o
seu chefe de gratidão dupla. Além da derrota de Messias abrir caminho para
indicar um substituto de Barroso se for eleito, ele agradeceu por Alcolumbre
ter conversado com Xandão para este autorizar seu pai Jair Bolsonaro se internar
novamente no DF Star. Afinal, Davi havia prometido ao colega que "faria mesmo a sua parte" (no acordo),
O abraço do sorridente Jaques Wagner incomodou o
Planalto e a cúpula do PT. O gesto foi estranho. A indicação de Messias foi
conselho de Jaques, pelo advogado ter sido seu assessor parlamentar. O pior foi
ter dado certeza da vitória dele por agradar boa parte da bancada bíblica. Se
declarando “amigo partidário e pessoal de Lula há décadas”, Wagner passou
a impressão de trair o presidente.
E vale citar o antes do abraço: foi captado áudio em que o senador petista cochicha meio alto para Davi, já dizendo em tom muito tranquilo que Messias "irá perder por 8". Isso, antes da fim da votação plenária. Estranho como um parlamentar parece gesticular contra quem foi seu próximo e é aliado de Lula.
Conduta dos jornalões— silentes, os jornalões
regozijam junto com Flávio, a quem se aliaram na corrida eleitoral: os acordos
selariam o fim político de Lula por falta de base. Os dois adversários lideram
tecnicamente empatados nas intenções de voto, com Lula à frente. Notícias
frequentemente falseadas têm mais alcance do que a comunicação oficial do
governo sobre seus bons feitos.
Outro exemplo falseado mirou Alexandre de Moraes. No O
Globo, Malu Gaspar teve teve incoerência brutal. Se Moraes jantou com
aliados de Lula, entre eles Mário Sarrubbo, o n. 2 do Min. Justiça, como o ministro fechou
acordo com Davi e Flávio para a derrota de Messias e do veto de Lula no PL da
Dosimetria (diferente das penas que ele deu para os golpistas)?
Mas...—acontece que nada é tão simples quanto parece. Enquanto
Flávio joga como sempre fez, Lula não sinaliza desistir, mesmo chateado
agora. Enquanto pensa numa indicação palatável à maioria, ele certamente fará o
certo: jogar o jogo do Congresso. É o melhor a ser feito. Enquanto ele junta grana para novas emendas, o texto
da dosimetria já está com o STF para julgar sua constitucionalidade.
O apoio popular a Flávio Bolsonaro é mais empurrado pela
enxurrada de mentiras muito fluidas em mensageiros virtuais e jornalísticas, e entre os
religiosos, pela politização ilegal nos cultos (vide Lei das Eleições 9.504/1997).
Mesmo com falhas, a própria trajetória política de Lula fala por si. Ele continua um comunicador popular nato, não importa quão maçantes possam ser seus discursos. E aposta no poder da lei e da Carta Magna, pela
qual ele assinou como partícipe em 1988.
Está dado o recado: a ultradireita prcisará muito do apoio dos jornalões para ganhar a parada no Planalto. E justamente pelos nomes da direita contarem com a grande mídia, Lula tem que ver que esta última é o seu maior e mais perigoso adversário político.
Para saber mais
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cq8pxex574zo
(BBC Brasil - como imprensa internacional noticiou a rejeição de
Jorge Messias: derrota histórica de Lula, 30 abril 2026)
- https://www.youtube.com/watch?v=YZiJLhnDs8Q&pp=wgIGCgQQAhgB
(Portal do José, 2/5/26 – Segredos revelados. O que está por trás da
derrota de Messias. Malu delira. Clone: Flávio imita Lula).
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Durante boa parte de seu atual governo, o presidente
Lula evitava discutir a possibilidade de buscar a reeleição. Porém, as novas e
diversas pressões advindas do Congresso – apoiados economicamente pelos grandes
grupos e do agro – e a nova ameaça do bolsonarismo representada por Flávio
Bolsonaro o levaram a mudar de ideia em meados de 2025.
Saúde de ferro e incentivo da esposa foram outros
gatilhos. Eleito, ele conseguiu aliviar a pressão do Congresso com aprove e
execução de boa parte das promessas de campanha. O seu último feito foi livrar
do Leão rendas até R$ 5 mil (pouco mais de 3 salários mínimos). Mas a avaliação
positiva de seu governo estagnou nos 50%.
A alta rejeição atual não impede necessariamente a
reeleição. Mas, comparado aos governos de outrora, ele voa baixo. Já citei a
bolsonarização coletiva, a má comunicação oficial e a alta fluidez das mentiras
da ultradireita nas redes sociais (a nova banca de jornais do povo) como os
principais fatores. Mas a fé também entra.
Os dois governos anteriores terminaram muito populares
porque as redes sociais não eram como hoje, a comunicação oficial era mais
eficiente e havia apoio maciço dos evangélicos. O empate técnico com Flávio
Bolsonaro se mantém no lulismo revelado entre nordestinos, espíritas afro e
católicos progressistas.
Mentiras e desinformação — já foram o
principal fator de alta impopular enfrentada pelo atual governo entre 2024-5. Seu
efeito atual parece menor (parlamentares desmascarados por desmentidos bem
feitos), mas elas continuam ativas, e agora têm novo vetor: a chamada mídia
tradicional – os famosos jornalões.
Jornalões não desmentem fatos nem os atribuem a outros,
mas podem omiti-los. No caso Master, O Globo acusa Xandão devido ao alto
valor contratual do escritório advocatício da esposa. Mas omite que o
escritório é privado, e que bancos grandes pagam alto mesmo – o que é
lícito, mas socialmente imoral.
A mesma mídia também tem omitido sobre Flávio Bolsonaro
no caso Master. A mansão de supostos R$ 6 milhões (deve valer mais) foi presente
pago com parte da grana pública do Banco de Brasília (BRB) aplicada no
Banco Master, contribuindo para a quase falência da instituição estatal pelo
golpe financeiro.
Bomba Ciro-Master — as novas evidências dificultam a continuidade
da omissão jornalística das falcatruas de Flávio Bolsonaro. A descoberta da PF
de que Ciro Nogueira (PP) recebia mesadas até R$ 500mil via cartão de
Vorcaro caiu como uma bomba nos bastidores do Congresso, mais ainda no Centrão.
Com essa mesada tão polpuda, ele viajava com a namorada
para destinos turísticos de puro luxo, poupando os seus proventos de
parlamentar. Não se sabe se a grana resultava de investimentos do Master ou de
descontos ilegais de aposentadorias – em que Vorcaro está envolvido e foi
poupado na CPI do INSS.
A investigação descobriu algo por trás da quase
maternal relação Ciro-Master é antiga. Ciro apresentara ao Congresso um PL protegeria
empresas financeiras do pente fino estatal. Só que a autoria do texto não é do
governo ou parlamentar: foi elaborada por gente do próprio Master. Como um bom filho retribuindo a mãezona, Ciro fez o que achou que devia fazer.
A bomba respingou estilhaços em Flávio Bolsonaro, cujo
sobrenome proporciona o empate técnico atual com Lula nas pesquisas. Numa entrevista,
ele disse que Ciro é “o vice ideal”. Selando apoio a ele, os jornalões maquiam
matérias culpando outros terceiros, ou distraindo atacando Xandão.
Em fria análise final, todos sabemos que
Lula tem muitos inimigos, dentro e fora da política. Só no Congresso, alguns deles
o são há décadas. Mesmo bem atendidos, o mercado financeiro e o agronegócio nunca
lhe foram amigáveis de fato. Mas, se há alguém que o veja como “um problema a
ser tirado da cena política”, esse alguém é a grande imprensa. Mesmo que
nunca tenha sido hostilizada pelo petista.
Para saber mais
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