CRÍTICA CERTA, FUTURO INCERTO
Enfim já corre 2026, novo ano eleitoral para
presidente. Enquanto blocos e escolas de samba esquentam as percussões no
colorido dos ritmos e das multidões no mosaico de sotaques, já está quente o
movimento nos bastidores da política. Convenções partidárias definem
candidatos, e os respectivos líderes dialogam novas alianças regionalmente
diferenciadas.
Nesse rearranjar das coisas, o carnaval respira
mais crítica política. O tema é velho no carnaval, mas foi no bolsonarismo que
se aprofundou em consciência e acidez, com a bela atuação da escola Paraíso
do Tuiuti no Sambódromo carioca em 2018. Ela reviveu o lawfare que
tirou o petismo do poder em 2016 e prendeu Lula para eleger a ultradireita em
2018.
Eleito em 2022, Lula levantou o Brasil. Ele
chegou a declarar 2026 como “o ano da colheita”, mas os 4 anos de
pressão externa não lhe foram suficientes. A fusão centrão-ultradireita agora
apoia o presidenciável Flávio Bolsonaro. Empurrado pela militância, Lula se diz
disposto à reeleição, enquanto o nome à sua altura não se anuncia.
Da crítica à homenagem – o pesadelo de
2019-22 aprofundou a acidez da crítica política. Entre 2023-25, os alvos foram os
mandantes da intentona de 8/1 e a direita congressista querendo mais dinheiro e
suspendendo mandatos de 2 deputados governistas. Em 2026, o carnaval carioca veio
com homenagem que caiu na boca popular – e na Justiça.
A escola de samba Acadêmicos de Niterói
criou uma poesia-enredo biográfica “Do alto do mulungu surge a esperança:
Lula, o operário do Brasil”. Sua passagem fez o público na avenida entoar
uníssona o refrão “olê, olê olê olá, Lula, Lula” usado em campanhas
eleitorais, e “Sem anistia!”, durante e após a passagem de todas as
alas.
Judicialização prévia – a letra-enredo lulista
já era debatida quando, antes mesmo do primeiro dia do desfile das escolas cariocas,
petições entregues à Justiça solicitavam o impedimento imediato ao desfile da Acadêmicos
de Niterói. A alegação foi óbvia: crime de campanha eleitoral antecipada
– que supostamente poderia condenar Lula à inelegibilidade.
Nas redes sociais e no Youtube, vídeo da TV
Justiça no STF divulgou falas dos ministros André Mendonça e Carmen Lúcia,
que advertiram sobre o perigo de crime eleitoral possível. Mas Carmen acrescentou
que as ações de impedimento judicial ao desfile sinalizam censura prévia,
criminalizada pela Carta Magna de 1988.
Por sua vez, parlamentares bolsonaristas e
bíblicos anseiam pela inelegibilidade de Lula devido à ala das famílias em
conserva da agremiação. O texto só critica a higidez do conceito de família
evocando as incoerências na vida prática, sem menção religiosa. Mas os
bíblicos acusam Lula, e não a escola, de “atacar as igrejas evangélicas”,
em pura politicagem.
O que pode dar? Fria análise – enquanto a justiça
não desfecha, a escola foi aplaudida pela maior parte do público. Enquanto o
público niteroiense ansiava pela manutenção da escola na elite, dado o sucesso
popular de seu samba-enredo, a nota final divulgada pelo narrador da Liga
das Escolas de Samba (Liesa) revelou o rebaixamento da agremiação.
Havendo honestidade, o crivo jurídico certamente
negará qualquer intento eleitoral na letra-enredo. Os supracitados refrões dos jingles
eleitorais foram entoados pela plateia, conforme vídeos disponíveis no Youtube
e outras plataformas, respeitando o art. 36-A da Lei das Eleições 9504/97. Não há
nenhum traço de exortação de campanha para Lula.
Lula na avenida: de fato, Lula foi
convidado a assistir a todos os desfiles no Sambódromo. Ele recebeu um
chapéu Panamá de cada escola. Há vídeos da troca de chapéus respeitando as
escolas apresentadas – o que refuta qualquer apoio específico à Acadêmicos de Niterói,
comprovando a intenção espontânea desta última em escolher o tema.
A Empresa Brasileira de Turismo
(Embratur) não deu nenhum dinheiro a mais ou outro privilégio à Acadêmicos
de Niterói. Agremiações cariocas de maior calibre e tradição como Beija-Flor
de Nilópolis, Mocidade Independente de Padre Miguel, Mangueira e Portela
receberam mais grana. Ainda assim, sua presença na avenida foi arriscada.
Justiça: em relação à Lei 5904/97, supondo que a
decisão do ministro-relator do STF seja punição, está será, no máximo, multa a
Lula e à escola. O presidente pelo mau planejamento da comunicação oficial, e a
agremiação por ter extrapolado na controvérsia das famílias em conserva.
E o ministro-relator, quem será escalado para julgar?
Se este for André Mendonça ou Nunes Marques,
terá moralismo. Lula sempre foi acusado de “destruir a família”. Mesmo focando incoerência moral, a escola
mexeu no vespeiro. Não se convence fiéis do cristofascismo, que alimenta
o conceito único de família na heteroafetividade cristã, um valor histórico
enraizado, mesmo na velha diversidade familiar brasileira.
Aqui vale mencionar a presidente da OAB-RJ Ana Tereza
Basílio, que fez coro com Damares Alves ao acusar a escola de “intolerância religiosa”. Ao menos acusou o alvo certo. Zero surpresa: ela foi
eleita para o triênio 2024-7 com forte apoio de líderes evangélicos influentes,
entre eles um bispo da cristofascista IURD, a mesma que contamina as polícias
militares estaduais.
Corrida eleitoral: embora as pesquisas apontem a tendência final
de Lula sair reeleito devido à concretude dos benefícios sociais e econômicos, os
índices de rejeição estão maiores, e aproves caíram. E há pesquisas apontando o
perigo do suspeitíssimo Flávio Bolsonaro, novo queridinho dos jornalões, terminar
a preliminar do pleito na frente.
Mais do que a homenagem em si ou a ida à
avenida, a ala das famílias enlatadas foi o fator mais forte nesse
entrave eleitoral. Agora Lula lutará para convencer os evangélicos de que o
intento da ala não reflete a sua educação católica conservadora. Basta ele
lembra-los da sanção de leis relevantes para os fiéis, como a da Marcha para
Jesus., por exemplo.
Por outro lado, se verifica uma incoerência
estatística: segundo pesquisa da AtlasIntel sobre a reação à ala famílias em
conserva, 52% dos entrevistados negaram terem visto qualquer ofensa no intento
da ala. A pesquisa foi publicada por algumas fontes, entre elas a CNN
que, não se enganem, é jornalão à direita.
Antijornalismo: no jornalão O
Globo, o colunista Lauro Jardim associou a Lula e PT a queda da Acadêmicos
de Niterói na pontuação final da Liesa. Quem acompanhou a cobertura pela TV
percebeu que o desfile da escola – o primeiro do grupo da 1ª divisão – foi claramente
censurado pela emissora. A TV Globo fez evidente antijornalismo
político.
A censura da TV Globo contrasta com a incoerência
estatística obtida em pesquisa feita pela Atlas Intel, feita entre 16 e
24/2 com 4.986 pessoas. Ao todo, 56,2% dos entrevistados negaram terem visto
qualquer ofensa no intento da ala famílias em conserva., contra 39,2% de
ofendidos. Pode ser ponto positivo
eleitoralmente, se Lula e o PT se aproveitarem desse dado.
Enfim, perseguida antes do desfile e rebaixada
nos pontos finais, a Acadêmicos de Niterói exerceu um papel fundamental da arte,
percebido por seu pessoal. Enquanto o PT se culpa, a escola causou admiração e
fascínio, indignação e repulsa. As pontuações foram técnicas, mas não seus
motivos. Mas isso não importa: a escola carrega o troféu de popularidade e de
estar no papel central da crítica política.
Para saber mais
- https://g1.globo.com/carnaval/2026/noticia/2026/02/22/lula-criticas-academicos-niteroi-desfile.ghtml
- https://www.cnnbrasil.com.br/politica/atlas-562-nao-sentiram-ofensa-por-familia-em-conserva-392-sim/
- https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9504.htm (lei das eleições,
1997)
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POLILAMININA: PROMESSA POLÊMICA
Por muito tempo, a medicina e a biologia
consideravam o sistema nervoso central como tecido incapaz de regeneração. A
afirmação foi sustentada pela ciência por décadas, após experimentos repetidos
em cada estudo envolvendo nova molécula de potencial efeito farmacológico na
busca da reversão de paralisias e outros males.
Enquanto Trump ameaça universidades de bloqueio
financeiro, cientistas brasileiros brilham na neurociência. Após o
neurocientista Miguel Nicolelis apresentar em 2014 seu exoesqueleto que
estimula eletricamente membros paralisados a se mover, a pesquisadora da UFRJ Tatiana
Coelho Sampaio descobre, em 2025, uma esperança farmacológica.
Polilaminina – antes desconhecida, Tatiana descobriu uma
proteína de enorme peso molecular chamada polilaminina. Por sua vez,
esta última resulta da junção de várias moléculas de laminina extraída de ratos. É, portanto, um polímero. Essa descoberta se baseou através de
uma tecnologia própria desenvolvida na UFRJ, de uma das lamininas existentes no
organismo.
As Lamininas são proteínas de arranjo molecular plano, daí o
nome. As mais bem estudadas existem em mamíferos. Tatiana sabia que elas são dcumentadas em seu papel na regeneração de tecidos diversos lesionados. O que Tatiana fez foi extrair a proteína da medula espinhal de roedores. Antes de polimerizá-la, ela viu na micrografia (foto por microscopia) que ela lembra uma cruz - o que deu muito o que falar.
Com a polimerização dessa laminina por uma tecnologia própria, ela decidiu
então experimentar várias vezes a polilaminina para entender seu potencial de
regeneração medular em experimento de lesão em um grupo de ratos. Em experimentação
minuciosa repetida e descrita, ela percebeu que alguns ratos lesionados injetados
com o polímero readquiriram alguma movimentação.
Da patente à Anvisa – valiosíssima para
a ciência, a descoberta virou sensação num país que sempre investe pouco em
ciência. Tatiana virou sensação nos jornalões, concedendo entrevistas a várias
fontes. Criador do Ciência Sem Fronteiras
na 1ª era petista, Lula chegou a encontrar Tatiana. Só que foi noticiada a falta
de grana para comprar a patente. Falso ou verídico? Enquanto não sabemos, segue-se a vida.
Conforme a legislação em vigor, toda a documentação foi entregue para análise da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A agência aprovou a fase 1
(biossegurança, em pequenos grupos humanos voluntários). Se aprovada, vêm a fase
2 (definição da dose ideal de eficácia, em pequenos grupos); e a fase 3
(comprovação da eficácia comparada à de outros fármacos e placebo em grupos
maiores).
Em seu objetivo legal, a Anvisa também mede os
efeitos colaterais/adversos possíveis, e contraindicações, tudo
comparado aos fármacos correlatos já existentes. Se todas as fases do estudo em humanos forem
aprovadas, a polilaminina ainda pode levar até 5 anos para ter sua venda
autorizada no mercado, seja venda controlada ao público ou uso restrito em hospitais.
O reverso da moeda – em meio à
midiatização sobre o significado promissor da polilaminina, o médico
colaborador da pesquisa, Paulo Louzada, foi entrevistado pelo Estadão,
que disponibilizou vídeos no Youtube. Na entrevista, ele declarou abertamente que “houveram
falhas nas testagens”. Também criticou o caráter febril e precoce da
midiatização: “perdeu-se o controle”.
As declarações se relacionam outra notícia. A
reportagem menciona três mortes de pacientes internados durante administração
experimental da polilaminina, autorizada pela Anvisa após pedido deles. Segundo
a Cristália, responsável pela droga, as mortes não têm relação direta com o
fármaco, e sim com complicações infecciosas comuns à longa hospitalização.
Enfatizo aqui que Tatiana afirmou ser a
polilaminina promissora – o que não garante eficácia em todos os
casos de lesão medular. Os estudos apontaram efeitos em casos de lesão não
cicatrizada. (a cicatrização a torna irreversível). Já o entusiasmo com a
forma de cruz só reflete a religiosidade da cientista. Proteínas mudam a forma
conforme seu papel no organismo.
Em fria análise, as posições de Louzada e
da Cristália são razoáveis. Afinal, como já bem explicado, a polilaminina é
ainda experimental – o que reforça o risco assumido pelos falecidos. E, quiçá, a
possibilidade de conflito de interesses, pois de qualquer forma, quem se
sobressaiu no conhecimento público foi Tatiana, sem se pensar que foi uma
pesquisa em equipe.
Quase tradicionais na comunidade científica de tão
comuns, esses conflitos nos fazem compreender o valor da ciência para a busca
de bem-estar social, ambiental-climático, na saúde e no cotidiano, mesmo que o
capital muitas vezes a use para negar evidências para atingir metas nada
alvissareiras.
Enfim, nos resta aguardar os resultados finais dos
experimentos com humanos. Torçamos todos para que a esperança se realize. Como qualquer
droga, a polilaminina não será eficaz em todas as paraplegias, e pode variar
com a pessoa. É possível que Tatiana seja premiada, mas duvido do Nobel de
Medicina: este, os estadunidenses parecem tê-lo roubado há muito tempo. O melhor
prêmio ela já ganhou: o reconhecimento nacional e da comunidade científica.
Para saber mais
- https://www.youtube.com/watch?v=EK-Kea9VEM8 (Olá, ciência
– polilaminina: o que você precisa saber).
- https://www.estadao.com.br/tudo-sobre/tatiana-sampaio/. (colaborador Paulo
Louzada aponta falhas e que a divulgação “saiu do controle”).
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