domingo, 1 de fevereiro de 2026

CURTAS 105 - ANÁLISES (a primeira é boa pipoca)

 

LIÇÃO CAMPONESA COLOMBIANA

                Respectivamente colonizados por portugueses e espanhóis, Brasil e Colômbia viraram palcos de destruição de culturas socioambientais originárias por bíblia, língua, costumes e valores, e escravidão – que alimentaram duas elites, a mineradora e a latifundiária. No século XX, as duas elites elegeram presidentes ditatoriais para reprimir movimentos de resistência.
                Apesar das diferenças geográficas, idiomáticas e culturais, os dois países se convergem na história de escravização na espoliação de recursos biológicos e minerais, na diversidade da produção agrícola e nas lutas dos movimentos camponeses pela reforma agrária e contra o avanço do agronegócio, a repressão estatal e a devastação do meio natural.
               No Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) são os maiores e mais conhecidos. Na Colômbia, o mais conhecido é o Sindicato dos Trabalhadores Camponeses de Sumapaz (Sintrapaz), do povoado de Sumapaz, situado no misterioso páramo colombiano.
                Páramo – a Colômbia tem 3 feições principais: o litoral, a Cordillera dos Andes e a planície amazônica. O páramo é uma zona montanhosa entre 2500-4500 metros acima do nível do mar. O clima é frio e úmido. A vegetação (fraillejones) é perene, baixa, densa e com folhas peludas que retêm umidade nevoenta. O páramo colombiano é o maior do mundo.
                Cada qual ao seu modo, todo bioma natural retém e mantém umidade aérea, mas o fraillejones o faz ao ponto de contribuir com as geleiras na manutenção dos cursos d’água. A função mantém o ciclo do raso solo local, cuja fertilidade se deve à riqueza mineral das rochas vulcânicas. A Colômbia tem vulcões ativos, a maioria no ramo ocidental da cordillera.
                Essa dinâmica possibilitou a agricultura de largo alcance. O café é o principal produto nas zonas mais baixas e quentes do páramo. E vale salientar: a Colômbia e o Brasil são os maiores produtores e exportadores mundiais de café. Antes dos latifúndios do agronegócio, os camponeses do atual Sintrapaz já o produziam ali com método agroecológico.
                MST, MPA e Sintrapaz – o MST e o MPA são movimentos rurais organizados que lutam pelo assentamento de terras improdutivas analisadas sub judice pelo Incra. O Sintrapaz é um sindicato de pequenos produtores rurais cadastrados do páramo de Sumapaz. Em comum, eles praticam agricultura ecológica em minifúndios – e em constante luta.
                Sustentabilidade – eles só desmatam a área necessária à atividade, mantendo intacto o restante das terras. Nascentes e mananciais são protegidos por matas nativas. No Brasil, o MST vai além do Código Florestal¹. Seus bolsões de pasto se intercalam com fragmentos florestais nativos interligados. Lavouras são próximas a mata nativa. A produção é orgânica.
                Legado do MST e outros movimentos rurais, a recuperação de áreas degradadas com plantio de espécies nativas é ignorada pelo povo urbano massacrado pelo lobby do agro. Essas práticas ecológicas foram levadas para os movimentos rurais colombianos, incluso o Sintrapaz. Daí a preservação das fraillejones no páramo e das florestas em altitudes menores.
                Mas, toda essa atuação tem um preço pesado: assim como aqui, os produtores do Sintrapaz também não têm paz.
                Desafios – são muito parecidos com aqueles vividos pelo MST e outros movimentos campesinos brasileiros. Assédio de latifundiários, invasão de áreas de vegetação nativa por jagunços a mando daqueles, e ameaças de investimento em hidrelétricas em rios preservados mais extensos e enérgicos são os principais. Fake news também são um problema.
                Aqui no Brasil, a mentira tem poder político maior. Chegamos a assistir a uma fracassada CPI montada pelos reacionários para tornar o MST um grupo terrorista. Lá, o Sintrapaz é acusado pelo agronegócio de se associar às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e a facções do narcotráfico, visando fomentar a repressão policial contra ele.
                No Brasil, a CPI foi o ápice das provas históricas de como o campo é antidemocrático, revelando os coronéis que ainda persistem influenciando nas eleições, e assassinatos são quase sempre silenciados pela mídia. Em matéria da BdF de 2020, mais de 1000 camponeses foram mortos, após acordo selado com latifundiários e políticos realizado em 2016.
                Resistência pela democracia – em 2022, o MST viu em Lula o aliado capaz de amansar os jornalões que sempre o acusavam de “invadir propriedade alheia” presenteando-os com cestos cheios de produção orgânica. Na Colômbia, Gustavo Petro foi eleito com ajuda valiosa do Sintrapaz e outros movimentos rurais locais. Mas, nossa vizinha está na frente.
                Sonho antigo dos campesinos, a reforma agrária visa a democratização da produção rural de grande escala. Ela está avançando mais na Colômbia. O governo Petro reconhece a agroecologia como a grande salvagjuarda da segurança alimentar, do meio ambiente e da economia, por preservar áreas naturais, recuperar as degradas e inibir a inflação dos preços.
                O MST e o MPA fazem o mesmo. Postagens de seus perfis nas redes sociais são provas disso. O problema maior é o andamento da política de reforma agrária. Diferente da Colômbia, o Brasil segue tímido, devido ao forte lobby político do agronegócio. Por ela os campesinos seguem lutando, por verem nela a chance de realizar a justa divisão de terras que garante a democracia rural.
Nota:
¹ Lei de Proteção da Vegetação Nativa em propriedades rurais,  de 2012 – obriga a preservação de vegetação nativa em parte de propriedades rurais cadastradas. 
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A ONU PARALELA DE TRUMP

                Comemorando seu ataque militar à Venezuela, Donald Trump segue mais criticado do que elogiado. Governos europeus se silenciam. Lula, Orsí, Petro e Shainbaum seguem a crítica popular contrária. Dando de ombros, Trump assinou ordem para seu país sair de dezenas de organizações internacionais, até da OTAN, que absorveu o centro-norte da Europa.
                Ignorando seus opostos, ele voou para Davos, Suíça, famosa sede do elitista Fórum Econômico Mundial. Na reunião, apresentou um livro fino de capa dura escura estampada com um desenho dourado. É o texto do Board of Pace, o Conselho de Paz para Gaza. Os presentes estranharam: ali se discutem soluções capitalistas para problemas socioeconômicos.
                Seria o momento oportuno para apontar o investimento em US$ trilhões em armamentos de guerra como fator de caos socioambiental e econômico. Mas falta coragem ou sobra cautela: ali havia governantes de países subjugados pelos EUs. Dos 59 países afirmados por Trump, até o momento 23 formalizaram alinhamento. Agora, Trump almeja os indecisos.
                A maioria dos assinantes é da ultradireita liberal (Leste europeu exceto Polônia, Letônia, Ucrânia e Romênia; Argentina e Paraguai na AL; Cazaquistão e Azerbaijão na Ásia Central; Vietnã e Indonésia no sul asiático), e teocracias (Arábia Saudita, Egito, Marrocos e Catar). Chama atenção, entre os assinantes, o Vietnã, o único país de governo socialista reeleito.
                Já convidado para participar do Conselho, Lula disse que só responderá após consultar conselheiros de confiança, como seu ex-ministro Celso Amorim, que tem acompanhado os desdobramentos da atual fase trumpista. Entre nós, a torcida de parlamentares governantes e militantes de esquerda pela recusa é imensa. Por razões bem consolidadas.
                Personalismo – os EUs não são essa democracia toda. Não é tanto por fraqueza, a esquerda não alcança a presidência por impedimento. O protecionismo nacional-capitalista é marca comum entre os 2 partidos do poder, daí as guerras que arruínam outras nações. Trump não é diferente, mas seu governo é personalista – narcisista e sociopático.
                Trump despreza líderes covardes ou fracos. Gosta dos que desafiam o seu sentimento de supremacia. Como Nicolás Maduro, só derrubado por intervenção militar. Já elogiou o sanguinário príncipe saudita Bin Salman “pelos direitos humanos” e o Aiatolá Khamenei. Despreza o Direito Internacional e os países massacrados pelas intervenções militares dos EUs.
                Conteúdo bizarro – Idealizada, desenvolvida e presidida por Trump, a carta tem mesmo a sua cara. Sem epígrafes e assinada no final, a apresentação da carta é curta e estruturada como um texto de lei. Maior mesmo é o seu anexo, onde estão as explicações. Na capa dura frontal, a logo dourada lembra a da ONU, mas tem o globo com os EUs no centro.
                A volumosa assinatura em caneta grossa permanente intimida as de seu vice Vance e seu secretário Rubio, como se validasse uma obra-prima definitiva, pétrea e indelével.
                Podemos vislumbrar o conteúdo. Ao O Globo, Celso Amorim diz que “a carta é confusa, porque começa a falar de uma coisa e depois vai alargando no anexo”. Engloba qualquer conflito. Em relação à ONU, ele diz: “eu não vejo como aceitar. Não dá para considerar uma reforma da ONU feita por um país”. Algo tão ilegítimo quanto bizarro.
                Além do logo, mais bizarrice. Vou destacar duas. A administração do Conselho é exclusiva do governo estadunidense, centrada na pessoa presidencial. Cada assinante alinhado só assume sua cadeira se desembolsar previamente US$ 1 bilhão. Os pagamentos deverão ser depositados no fundo do Conselho, a ser administrado exclusivamente por Trump.
                Muitos podem questionar a cobrança, pois a ONU também tem um fundo em que os membros depositam valores conforme puderem, para sustentar ajuda humanitária e forças de paz. Mas a ONU é independente –, ainda quue o seu corpo jurídico sofra pressão dos governos estadunidenses, que já buscam a todo custo controlar o Conselho de Segurança da mesma, que reúne os 5 membros permanentes.
                É nessa comparação que a cobrança de um valor tão grande por uma simples cadeira se torna surreal – e muito para a reserva interna de alguns dos aliados da nova carta. A falta de clareza sobre os destinos dos recursos desperta suspeita, e parece ser uma compra de cadeira. E esse Conselho não é independente: a independência institucional é imprescindível.
                É nessa comparação que a cobrança de um valor tão grande por uma simples cadeira se torna surreal – e muito acima das possibilidades dos aliados da nova carta que tenham pouca reserva interna. A falta de clareza sobre os destinos dos recursos depositados desperta suspeita parecendo ser uma compra de cadeira. E esse Conselho não é independente: a independência institucional é imprescindível para abraçar as necessidades globais.
                Análise da chance de sucesso – é possível isso dar certo? Se fosse um programa como FAO, ACNUR, Unicef, OIT e outros da ONU, e respeitasse o Direito Internacional, a chance aí seria possível. Mas, o objetivo da carta subjaz o desejo pessoal de dominar o mundo per se, o que mina a força do grupo.  O personalismo do texto o revela, mas ninguém mais o verá. E essa subjetividade revela um perigo maior.
                Trump tem todos os predicados essenciais para alimentar animosidades entre nações e ainda interferir militarmente em antigas brigas internas entre algumas delas. Tal conduta estadunidense é tradicional, mas para satisfazer seus desejos íntimos, Trump pode recrudescer ainda mais a força bruta a um nível ainda inaudito, com o beneplácito de sua Carta.
                E é aí que mora o perigo, dada a visão soberba de mundo e a ganância desmedida de seu criador.
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