terça-feira, 16 de junho de 2026

CURTAS 113 - ANÁLISES (pauta bomba, Zema)

 

ROYALTIES: MUITA GRANA, POUCOS SETORES

                    No Brasil, os estudos prospectivos em óleo e gás se proliferam a cada descoberta de regiões petrolíferas promissoras nas bacias sedimentares marinhas. Em 2006, o governo Lula 1 comemorou a descoberta de imensas jazidas no pré-sal, um pacotão sedimentar depositado de 200-160 milhões de anos atrás, antes do divórcio América do Sul-África que criou o oceano Atlântico. Hoje o pacote está a 6 km abaixo do leito marinho., e seu potencial petrolífero foi confirmado pela Petrobras em 2006.
                    O governo Lula 1 comemorou, e iniciou uma exploração política de 3 anos, até virem os primeiros leilões de poços para iniciar a produção de fato. A façanha tecnológica da Petrobras foi vista como caminho para a autossuficiência na produção e refino de óleo, muitos R$ bilhões em lucro para a estatal e também em royalties.
                    Royalties— é um termo inglês que designa o quantum arrecadável estipulado pelo Estado sobre o PIB produzido pelos setores produtivos em geral (recursos do subsolo, agronegócio e indústrias). Por razão ética óbvia, o destino principal dessa grana arrecadada deveria ser o investimento em políticas públicas de bem-estar social e reserva interna em momentos de crise. Mas, na prática, grossa parcela tem servido ao mercado financeiro, sem contrapartida em impostos, por anos.
                    Os royalties já foram vistos por cada Estado como um troféu. Em 2009, o então governador do RJ Sergio Cabral Fº queria a maior parte da grana do pré-sal para o estado do RJ, por ser o maior produtor nacional. Patrocinou um show musical na Cinelândia, centro da capital, para colocar o povo ao seu lado e comover o Congresso. Reeleito em 2010, ele repetiu a façanha, pois o Congresso votaria só após o pleito. E o aprove final foi da distribuição mais fluida em todo o território nacional.
                    Hoje, uma pauta-bomba— enquanto a Petrobrás estuda a geologia da bacia sedimentar a 500 km da foz real do Amazonas autorizada pelo Ibama, o senado aprovou uma proposta que gera R$ 815 bilhões em benesses, principalmente para o agronegócio, mediante royalties públicos. O governo se preocupou com o impacto dessa pauta-bomba, mas o presidente-senador Alcolumbre não quis ouvi-lo sobre a renegociação da dívida de R$ 1,39 tri do agro à União, sinalizando uma ruptura com o Executivo.
                    A razão dessa recusa é que Alcolumbre acatou apelos dos colegas, muitos dos quais fazendeiros endividados – inclusive ele próprio. O problema dessa birra é atrapalhar a votação da PEC governista de 5x2, já aprovada na Câmara. Mas essa trava tem um motivo paralelo: dar fôlego para a votação da perigosa PEC da jornada flexível do bolsonarista Rogério Marinho, propagada por seus pares ideológicos como “PEC 4x3”, como disse o deputado-pastor Sóstenes Cavalcante.
                    Críticas— o governo criticou a recusa de Alcolumbre em dialogar sobre a resolução da dívida dos grandes ruralistas. Os dirigentes do MST apontaram o descaso com os pequenos agricultores, que costumam ser os mais afetados pelos extremos climáticos e poucos recursos mesmo colocando 70% dos alimentos nas mesas dos brasileiros. Solidários aos movimentos campesinos, os nomes da esquerda acusaram o senado de olhar apenas para os grupos econômicos que os bancam diretamente.
                    Impacto em cascata arriscada— os jornalões acusam o governo de “grande gastador público” ao invés de informar a realidade dos impactos aprovados pelo Congresso sobre as contas públicas. Se omitem sobre gastos hoje desnecessários, como o Perse, criado para sustentar eventos e artistas durante a pandemia de C19. E também sobre grandes empresas que se tornam devedoras após findar o tempo determinado de isenção fiscal. São pontos especialmente nevrálgicos para as contas públicas.
                    Em fria análise final, o aprove de benesses pelo Senado poderá impulsionar outras empresas a fazerem o mesmo para não negociar dívidas com a União. A desoneração da folha também força o gasto, mas o Congresso aprovou a renovação em 2024. Ainda não sabemos do total da dívida de todo o numus privado, mas ela é trilionária, inclusive em previdência.
                    Se mantida a birra do Congresso, os já limitados recursos das políticas públicas podem ser mais solapados do que já o são agora, para alimentar com grana pública um capitalismo em grande parte inútil. E quem paga a conta, como sempre, é a nação, a maior vítima desse sistema. E aí parte do Congresso chia quando é taxado de “inimigo do povo”. Dessa forma confessa que o é.
Para saber mais
- https://www.gov.br/pgfn/pt-br. (dívida de R$ 1,39 trilhão do agronegócio)
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ZEMA NAS ENTRELINHAS

                    Governador de MG em dois mandatos – o segundo interrompido pela pré-candidatura à presidência – Romeu Zema já teve sua biografia brevemente abordada em artigo publicado no blog em 23/3/25. Mas agora ele retorna aqui, como tema importante a ser desvendado em relação aos seus segredos nem tão secretos assim.
                    Neto paterno de imigrantes italianos, ele nasceu em Araxá, no Triângulo Mineiro. Na juventude, mesmo estudando, ele manteve a vocação comercial dos avós e do pai. Na sua vez à frente, ele se mostrou mais do que comerciante: virou gestor e investidor. Transformou a antiga loja familiar no atual Grupo Zema, que hoje consta uma financeira e posto de combustível. Hoje, Romeu é um dos maiores empresários do Brasil.
                    Seu sotaque é naturalmente pronunciado devido às características linguísticas e culturais de sua região natal e, por que não, certa influência de seus avós paternos. Apesar de sua atual situação classista, Zema continuaria a ser um desconhecido do grande público se não tivesse entrado na vida política, através da sua filiação ao partido Novo, conhecido por agregar um “público selecionado” de empresários e banqueiros que pregam o Estado mínimo e mercado máximo.
                    Em 2018 Zema estreou politicamente ao ser eleito governador de Minas Gerais. A escolha da maioria dos mineiros pelo petista Fernando Haddad à presidência (que se candidatou após a impugnação da candidatura de Lula, que já estava preso) indica que Zema não foi eleito na esteira bolsonarista, mas sim por representar sangue novo, diferente do que foram os políticos mais tradicionais que não conseguiram resolver os problemas do Estado, como os tucanos Geraldo Azeredo e Aécio Neves, ou o petista Pimentel.
                    O seu segundo mandato não se completou: ele renunciou para se lançar candidato à presidência da República, concorrendo com outros pré-candidatos. O que não impediu a sucessão de feitos um tanto grotescos expostos a seguir.
                    A máscara caiu— somente ao assumir a cadeira do Palácio da Liberdade, residência oficial do governador, que Zema mostrou o seu verdadeiro caráter. Na campanha se dissera ao lado de Lula, e já governador, se alinhou a Bolsonaro, e assim se manteria em todo o tempo todo de seus mandatos. Já em 2019 ele queria que iria implantar uma política privatista, que deixou servidores e população em apreensiva polvorosa. E o que se seguiu foi uma sucessão de desastres.
                    Primeiro governo- propôs privatizar a Central Energética de Minas Gerais (Cemig), mas recuou com a pressão ruidosa dos empregados públicos. Triplicou o seu salário e o de seu vice Simões e congelou os dos servidores estaduais, nos 4 anos. Trocou 11 Secretários de Meio Ambiente, por discordarem com permissões ilegais para mineração em várias áreas proibidas pelo Ibama. Liberou aos seus gestores públicos política persecutória contra servidores críticos de seu governo.
                    Entregou à ALMG proposta de cogestão público-privada da Federação Hospitalar de MG (Fhemig). Recebeu verba para reverter a péssima condição da malha viária estadual, mas só caprichou mesmo um pequeno trecho de acesso para sua fazenda em Araxá. Na onda bolsonarista, ele propôs escolas cívico-militares, mas o TJ-MG suspendeu e, como alternativa, rapidamente elaborou proposta de PPP como para a Fhemig.
                    Segundo governo- Zema fez mais desastre. Em Brasília, deixou reunião de governadores com Lula sobre segurança pública. Mais do que dobrou a dívida estadual chegando a R$ 188 bilhões. Lula 3 propôs federalizar Cemig, sem ter resposta. Extinguiu a sede da escola de formação de pessoal da Cemig. Manteve congelados os salários de servidores. A situação das rodovias piora. Propostas de PPP na Fhemig e na educação estadual avançam, mas ainda não houve desfecho na ALMG.
                    Tenta privatizar a Copasa, o que segue em impasse. Cria PPP de áreas de preservação permanente. Segue mineração ilegal[1] na Serra do Curral, principal fonte d’água para a grande BH. Servidores apontam precarização e descaso, ameaçam greve. Zema meteu MG em regime de recuperação fiscal; professores, piso zero. Beneficiou o banco Master, cuja liquidação deu prejuízo financeiro a mais a MG. Quis retirar da Carta de MG a consulta popular obrigatória sobre privatizações.
                    Ainda no segundo mandato, ele outro atentado contra a saúde pública ao dizer que “os pais não são obrigados a vacinar seus filhos”, com apoio do deputado Nikolas Ferreira. E ele ainda foi denunciado por supostas irregularidades contra auxiliares de serviços gerais que trabalham nas instituições estaduais de ensino, e é acusado de atividade antissindical contra os empregados públicos da Cemig e da Copasa. Ainda quis vetar promoção a professores de nível superior.
                    Triste, mas necessária— apesar disso tudo, tenho percebido que Zema recebe elogios de eleitores de outros Estados, como alguns cariocas. Por ser bolsonarista? Por muitos cariocas alimentarem simpatia por mineiros, seja pelos produtos alimentícios ou pelo sotaque típico? Pela omissão de seus feitos reais pelos jornalões? Ou, talvez, tudo junto. Percebo que o peso da desinformação sobre seu governo é maior do que a publicidade eleitoral. Por isso, cabe dar chance à verdade, referenciada nas fontes linkadas abaixo.
                    A dívida hoje impagável de MG à União desmente a notícia sobre contas públicas ajustadas. A precariedade vivida pelos setores em risco de privatização. O ódio antipopular por trás da PEC que desobriga a consulta pública. O perigo de repetir o crime bolsonarista contra a saúde pública sobre vacinação infantil. A crítica a Flávio Bolsonaro por “bandidagem” desmentida pelo decreto benéfico ao Master então vigente, e no querer ser vice de Flávio, que preferiu Júlia Zanatta.
                    Sei que tantas revelações aqui expostas decepcionarão muitos de seus admiradores. Mas, por mais incômoda que seja, a verdade precisa ser dita. Pelo fato de Zema se colocar presidenciável, a verdade se estende para além dos mineiros, vai para o Brasil todo. Quanto a Flávio Bolsonaro, até os jornalões se renderam às evidências impossíveis de se ignorar. Só resta falar sobre Cleitinho e outro presidenciável Ronaldo Caiado. Mas estes deixarei para outro artigo.
Nota: [1] acontece à noite, conforme já denunciado e m transimissão ao vivo pela deputada federal Duda Salabert (PDT).
Para saber mais
- https://www.tce.mg.gov.br/. (também suspendeu a proposta de escolas cívico-militares em MG)
- https://www.almg.gov.br/ (Zema apresentou PEC 24/2023, que retira obrigatoriedade de consulta popular em decisões políticas sobre privataria na Cemig e Copasa).
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