A Terra é um planeta dinâmico. Entre os leigos, toda
cadeia de montanha é quase uma coisa só. Mas geógrafos e geólogos reconhecem
dois tipos: serra e cordilheira. Serra denomina agrupamentos antigos
e dissecados pela erosão, em geral alinhados a falhas antigas e de menor
extensão e altitude. Já cordilheira designa cadeias formadas por
compressão recente e ainda operante de placas tectônicas, que podem atingir
extensão transcontinental e grandes altitudes.
As serras brasileiras são em geral antigas linhas de
falha com relativa estabilidade geológica. Mas há uma exceção notável: a Serra
do Espinhaço. Ela é tecnicamente cordilheira, graças à complexidade
geológica (compressão antiga de placas, sedimentação, neotectônica e erosão),
e também à grande extensão (de Ouro Branco, centro mineiro, até a
Chapada Diamantina na Bahia). Hoje, ela é patrimônio da Unesco, como reserva da
biosfera – sob ameaça.
Diferentes visões—
Em toda a sua imponência e beleza, as
cordilheiras atraem diferentes olhares. Para os nativos originários, as
montanhas são sagradas moradas espirituais. Para turistas de aventura,
elas são desafios excitantes para explorar.
Para os cientistas, elas possibilitam novos achados. E para este
artigo vale a dinâmica da ciência – e daí um alerta à ignorância geral sobre
o papel delas e seus perigos subjacentes.
Papel—
Tanto as serras quanto as cordilheiras exercem
papel na configuração da superfície e na distribuição da biota, do clima e dos
recursos hídricos. Mas, graças às dimensões imponentes, as cordilheiras o
exercem de forma ainda mais evidente. Picos nevados são nascentes de rios que
atravessam os trópicos úmidos de um lado e impedem a umidade do outro lado.
Graças aos Andes sul-americanos e à Sierra Madre
centro-americana, a América Latina é quase totalmente tropical úmida. O
mesmo se verifica no subcontinente indiano e adjacências devido ao arco do
Himalaia. As respectivas áreas secas se limitam à zona costeira oeste
latino-americana e à Ásia central (altiplano tibetano, Mongólia e noroeste
chinês).
Perigo iminente e o desastre do Nepal/Tibete—
Se de um lado as
cordilheiras funcionam como divisores climáticos e ambientais, por outro lado
elas proporcionam eventos naturais que podem se tornar desastres humanitários. Terremotos
fortes são comuns e compartilham com eventos climáticos como fatores de
deslizamentos (avalanches de neve, fluxos de detritos), um risco constante para
a vida humana.
Como as vertentes são muito íngremes e os vales em
geral bastante estreitos e altos e profundos, em forma de V, encaixados, resta aos moradores residirem nas
estreitas áreas planas e nas partes mais baixas das vertentes, que se tornam os caminhos dos canais de escoamento dos rios e também de avalanches e fluxos de massa. E é nesse cenário que entra um fato trágico que deu fez os olhos
do mundo inteiro se virarem para um pequeno e pitoresco país da Ásia Central.
Nepal—
O Nepal é um país conhecido pela população de
fé majoritariamente hindu e budista, e arquitetura que mistura influências
indiana e tibetana. Ele se “espreme” ao sul com a Índia, ao norte com o Tibete
e com a China, e a oeste com Butão. O relevo é montanhoso, havendo mais
planícies florestadas úmidas ao sul. A capital Katmandu fica num altiplano que
dá vista para algumas das montanhas mais altas do mundo. O “topo do mundo”
Everest está bem na fronteira com o Tibete.
Grande gerador de divisas para um país pobre, o
turismo abrange dupla face do Nepal: a natural, que atrai turistas de
aventura nas montanhas e nas florestas do sul; e a humana, pela
diversidade étnica (mais de 70, entre elas os sherpas que guiam alpinistas
e turistas de montanha), gastronômica e religiosa (as principais são hinduísmo
e budismo tibetano). Os nepaleses viviam essa rotina normalmente, até vir
26/8/26.
A magnitude de um desastre—
Na manhã dessa
mesma data, nossas telas foram invadidas por imagens aterradoras de um
gigantesco, escuro e espesso tsunami que num piscar de olhos engoliu obras
monumentais e pessoas que correram no puro instinto. Tudo foi tão repentino que
só alguns minutos depois deparamos que foi um desastre, sobre o qual só
compreenderíamos mais tarde. Foi um poderoso fluxo de massa.
A energia desse fluxo foi tão colossal que o Serviço
Geológico dos EUs (USGS) cogitou inicialmente um terremoto de até 5,2
magnitudes, depois refutado com ajuda de satélite. Fotos do Google Earth
após o fenômeno revelam o seu ponto de partida em Langtang e a extensão total alcançada,
mais de 200 km, numa velocidade de 200 km/. A fisiografia dos vales percorridos
mudou, a base alargada por metros de sedimentos.
O fator—
Tudo começou quando um bloco de gelo
semiderretido de 610 metros de largura, já contendo detritos rochosos em seu
corpo, se desprendeu da vertente de uma montanha em Langtang. Escorregou em
queda quase livre pelo permafrost já instável da vertente quase vertical
de 1200 metros. Agregando mais blocos de rocha, lama e vegetação pelo caminho, o
fluxo de massa se engrossou ao atingir os rios abaixo.
[Permafrost é um solo congelado. Sua
água sólida estabiliza unindo a camada superficial ao horizonte orgânico (turfa)
logo abaixo e o substrato rochoso inferior. Seu inimigo é calor global
exacerbado por nós. As dolinas (buracos) na Sibéria resultam da
liberação explosiva do metano da turfa pelo degelo. No Nepal, gelo e permafrost
atingiram um lago glacial represado por moraina (muro sedimentar deixado
por geleira) e gerou um fluxo de massa por rompimento de lago glacial
(GLOF em inglês)].
Os números do desastre—
Após o fluxo, o
mundo estarrecido voltou-se para o Nepal. Equipes de resgate de vários países
se juntaram para buscar sobreviventes e o maior número possível de vítimas
fatais. Foi preciso desafiar o relógio para identificar os corpos. No momento
em que escrevo este arquivo, os números do trabalho árduo de resgate podem ter
atingido milhares, enquanto as autoridades calculam os prejuízos materiais.
Nas primeiras horas de 27/8 vieram os primeiros
números. A BBC de Londres divulgou o resgate de mais de 380
mortos e estimou em torno de 900 desaparecidos. Mais tarde, o Vatican
News divulgou 788 corpos e um total estimado de 90 mil pessoas
atingidas. A imprecisão numérica maior é de desaparecidos, variando entre 1900
a mais de 3000 – devido à extensão do fluxo.
Uma reflexão do pós-desastre—
Após terminado esse
grande fluxo de massa, novas fotos de satélite já disponíveis na internet e no Google
Earth revelam mais mudanças fisiográficas nas montanhas e no ponto de
partida (Langtang) do que o que as supracitadas. Já surgiram dois novos lagos
glaciais adjacentes à citada região montanhosa. Eles mandam um recado claro:
novo fluxo de massa acontecerá em futuro próximo, pois estamos em emergência
climática.
Nepaleses e outros povos do Himalaia conhecem os
fluxos de massa, em geral ligados a terremotos. A diferença é que, com o
progredir do aquecimento global, a tendência será a de amento da frequência e
da magnitude do fenômeno. E, para quem não sabe, as grandes cordilheiras são
alvos de estudos do clima. Não só pelo papel que exercem, mas pela
sensibilidade a mudanças fora da curva.
O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas
(IPCC), que reúne 2000 cientistas de dezenas de países, o Himalaia – a terceira
maior reserva de água doce congelada do mundo, e por isso alcunhada de 3º
Polo – sofre maior velocidade de aumento térmico do que a média global. Cerca
de 65% da cobertura do gelo foram perdidos pelo aquecimento global desde 1990.
Estima-se que até 2100, se chegue a 85%. O Himalaia abriga mais de 300 lagos
glaciais, dos quais 121 representam perigo iminente de novas ocorrências em futuro próximo.
Humanamente, isso já se reflete. A mudança climática
hoje só perde para a guerra como fator de migrações massivas. Vale afirmar que
capital, guerra e clima se interligam mais do que só por causa e efeito. O
capital gera a guerra. Esta libera aquecimento global. Este piora o clima e a
degradação ambiental preexistente, que força a migração para áreas melhores,
habitadas ou não. É um feedback perverso e constante em nome do lucro.
Só que nada é para sempre. Como os demais recursos, a
água findará um dia, e no final, pobres e ricos estarão no mesmo patamar. Em 30 anos, 40% da água doce já se foram da superfície.
Dos 8 bilhões de pessoas, quase 50% perderam acesso constante, e 2,5 bilhões
não têm água potável. Insegurança alimentar afeta até 2,5 bilhões de bocas. Capitalização
excessiva do recurso, guerra e degradação ambiental estão por trás e o calor planetário crescente agrava esse processo.
Por enquanto, a água se renova em ciclos, que se
tornam mais irregulares com o aquecimento global turbinado. Esse calor extra torna
mais alta a taxa de evaporação em relação à de reposição. Ainda estamos em
tempo de buscar soluções capazes de brecar a emissão de carbono – e também de
criar tecnologias de absorção de excedentes de carbono atmosférico. O Himalaia
já deu seu recado. E outras cordilheiras o darão também, talvez com a mesma magnitude. Ou, quiçá, maior.
Para saber mais
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/c70l4jen7qro (BBC News 27/8/26
--- colapso glacial: o fenômeno que causou a enchente na fronteira entre
Nepal e Tibete).
- https://globoplay.globo.com/v/14905031/ (vídeo- 26/8/26- novas
imagens mostram avalanche avançando e destruindo vilarejos)
- https://news.un.org/pt/story/2025/08/1850796 (ONU, 22//1/2026- Mundo tem 2,1 bilhões de pessoas sem água potável e
3,4 bilhões sem saneamento).
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