FALÊNCIA MINEIRA
Em 2014, os mineiros já estavam cansados da dinastia
tucana no governo estadual. Foi Eduardo Azeredo (1995-99), Aécio Neves
(2003-10) e depois Antônio Anastasia (2011-14), interrompidos somente pela
breve era Itamar Franco (2000-02). No pleito de 2014, o povo da Grande Belo
Horizonte escolheu o petista Fernando Pimentel (2015-18) devido à
irrepreensível administração como prefeito da capital.
Além da capital e adjacências, a eleição de Pimentel
foi fortemente impulsionada pela população do Norte e Nordeste de MG,
tradicionalmente lulistas. Muito empobrecida (só superada pelo Norte), a
outrora próspera Zona da Mata também o escolheu. Mas ele não conseguiu resolver
tantos problemas acumulados em 4 anos e deu lugar, em 2018, a alguém até então
desconhecido da maioria dos mineiros: Romeu Zema, do mal conhecido partido
Novo.
De biografia já abordada no blog (vide Zema nas
Entrelinhas em CURTAS 113), Zema foi eleito como novidade – uma
jogada para substituir velhos nomes que mais pareciam nuca querer resolver os
problemas, tal como aconteceu com Jair Bolsonaro na presidência. O que a
patuleia mineira certamente não imaginava é que nem toda novidade vale a pena.
E Zema mostraria, aos poucos, essa verdade que terminaria sendo um tanto cruel
para todo o Estado de Minas Gerais.
Político novato, Zema prometeu 1001 maravilhas e propôs
gerir MG com “olhar diferente”. Mas, parcela considerável do povo percebeu depois
que ele geriu o Estado como se fosse negócio seu. Congelou salários dos servidores
enquanto os perseguia. Vendeu 112 empresas estaduais por bagatela. Deu isenção
fiscal às mineradoras e ao seu Grupo Zema. Ferrou a política ambiental¹.
E as rodovias? As MGs ficaram ao léu – exceto o trecho
de acesso ao seu sítio no Triângulo. As BRs têm alguns trechos em obras e
outros em fase de concessão para a iniciativa privada. Ligando MG a SP, a ponte
Sacramento foi alvo de debates recentes sobre a obra dividida (o lado
paulista renovado, o mineiro largado), tornando o governo Zema uma piada
nacional.
Dívida assombrosa— mas foi somente pouco antes de Zema renunciar
ao governo para se lançar presidenciável, que a maioria do povo mineiro iria
saber da relação de Zema com o erário público. Considerou a privataria “grande
investimento”. Oriundo principalmente da carga tributária estadual – uma
das mais pesadas do país – a riqueza em dinheiro foi convertida na maior dívida
estadual da História: R$ 205 bilhões no total. Isso mesmo: 205 bi-lhões.
Muito desse rombo todo pode ser compreendido pelos
maus feitos citados em Zema nas entrelinhas. A grana da privataria virou
pretexto para pagar parte da dívida. Mas o valor das estatais de pequeno porte
(e subsidiárias) e de participações acionárias menores foi baixo. Esperava
vender as grandes, mas enfrentou a barreira sindical e de Brasília. E beneficiou
o Master com R$ milhões.
Diante da dívida impagável e da pressão de manter grandes
estatais públicas, Zema propôs o regime de recuperação fiscal (RRF). O
governo Lula o homologou de 1/1/25 a 31/12/33. Depois, o ministério da Fazenda mudou
para o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), com
novo refinanciamento da dívida do estado com a União.
O patrimônio pessoal— enquanto a ultradireita faz cortina de fumaça
sobre a compra de trajes e acessórios finos e a sobra de grana declarada pela
deputada Erika Hilton (Psol-SP), que visa a reeleição, Romeu Zema ri à toa. Como
os aliados reacionários, ele enricou muito: R$ 49 milhões só no segundo mandato.
Entre outras coisas que vale a pena investigar, enfatiza-se aqui que ele reajustava
seu próprio salário, do seu vice e de seus secretários, em cerca de 300% ao
ano.
Tamanho reajuste se deve a um dispositivo criado e
sancionado pelo próprio Zema, que propunha essa proporção surreal, que não se
restringe a ele. Estende-se ao vice-governador e aos seus secretários, o que decorre
naturalmente num rombo bilionário considerável no Tesouro estadual. Não por acaso,
só o salário do governador, de R$ 10.500, saltou para R$ 41,8 mil neste ano.
Spoiler: segundo jornais, o reacionário Nikolas Ferreira
declarou ter R$ 36,8 mil em 2022. Hoje sua finança saltou para R$ 3,9 milhões, mais
de 10 mil vezes. Não é motivo de parabéns, mas de vergonha recorde. Cabe frisar
que isso exclui os vultosos penduricalhos além do salário de R$ 42 mil, a passagem
como vereador e já ser influenciador de amplo público jovem. Daí vem uma análise
crítica.
Embora não tenha provas do contrário, a relativamente
pouca grana declarada em 2022 não significa que ela seja verdade. Ele já era
influencer notório antes de ser vereador. Mas isso não se resume a um ou outro
nome. Declarar menos do que realmente tem é um artifício típico entre agentes
políticos. A vergonha disso está no uso impune da política para enriquecer
tanto em tão poucos anos.
Fria análise final —como os demais artigos que já escrevi, este
tem somente a intenção dialética de analisar criticamente um governo a partir da
verdade por trás dos fatos noticiados. Em si, o reajuste salarial é lícito e moral.
O imoral é a proporção de 300% anual e “corrigir inconstitucionalidade”
é um desrespeito vergonhoso aos cofres estaduais, que não se comparam com os da
União.
Caro Zema, inconstitucionalidade foi punir servidores
estaduais com insistente congelamento salarial e desmonte através de privataria
à revelia popular. Fora a persecução a servidores críticos de seu governo.
Inconstitucional foi a barbárie contra ambiental ao dar aval para mineração
ilegal em áreas proibidas (de preservação) e críticas como a Serra do Curral,
que abastece a Grande BH.
Enfim, quase inconstitucional é o seu descaramento de
se tornar presidenciável depois de tudo isso. Ainda bem que as suas chances são
mínimas, pois a maioria já viu que seus feitos são uma verdadeira piada de mau
gosto – ou um perigo para o Brasil, após pôr Minas Gerais de joelhos e de pires
na mão.
Nota: ¹deu licenças ilegais para mineradoras atuarem à
noite em áreas proibidas por proteção permanente legal.
Para saber mais
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2026/06/curtas-112-analises-pauta-bomba.html.
(vide 2º artigo)
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A misoginia (aversão ao feminino que
potencializa a opressão contra a mulher) é um tema multifatorial e complexo.
Apesar do termo em si ser recente, seu pragmatismo tem longa história, por
fatores morais e religiosos. Se discute opressão há mais de 1 século, com temas
variando da participação no mercado de trabalho à política.
No Brasil, o Código Penal (1940) já
criminalizava a violência doméstica. Mas havia brechas, só cobertas pela lei
Maria da Penha (2006), décadas depois de o tema cair no debate político. Apesar
dos avanços, ainda há inércia policial frequente, certa dificuldade jurídica e
subinvestimento em política protetiva efetiva à vítima.
Mas a criminalização da misoginia segue
debatida em virtude de outro fator. Resultado da ideologização do machismo
cultural pela ultradireita, o movimento masculinista culpa a vítima
pelos ataques e valoriza o “orgulho macho alfa hétero”, além de inverter
dados da violência de gênero como o fez o ator Juliano Cazarré, celebridade novelesca da TV Globo.
Impulsionado pela ultradireita (MBL e
bolsonarismo), o masculinismo já bateu de frente com decisões do STF em
direitos humanos (união homoafetiva em 2011, anencefalia como fator de aborto
legal em 2012 e criminalização da LGBTfobia em 2019). Grupos masculinistas como
redpills e legendários ainda querem o fim do voto feminino, tornado mais um ideário da ultradireita, que vê nas mulheres um obstáculo para a sua vitória.
É um terreno fértil que torna a discussão acerca do
feminino tão importante.
No avanço legal, o crime — durante o governo Dilma 2, em 2015, foi
sancionada a Lei do Feminicídio, que inclui o termo (um neologismo que designa o homicídio de
mulheres) no CP e inclui mulheres trans como vítimas a partir de 2024*. Hoje,
feminicídio é crime hediondo que pode dar até 40 anos de cadeia, a depender da
gravidade. Apesar dos avanços, o flagelo não foi mitigado. Pelo contrário.
Entre 2018-22, a agressão não letal subiu 19% e
a fatal, 23%. Crimes sexuais inflaram 45%. Entre 2022 e 2024, as denúncias de feminicídio
explodiram 121%, em relatos com ou sem agressão anterior (crime sexual, ameaça, cárcere
privado, espancamento). Na população geral, 30% das mulheres afirmam ter
sofrido ao menos um ataque, principalmente por autores conhecidos. Entre as evangélicas, essa cifra chega a até 40%, o que surpreende quem vê nessa fé uma mensagem de paz.
Embora específica ao assunto político, a violência
política de gênero também importa, por ter aumentado de forma muito significativa.
Ela se explica na ultrapassagem da fronteira dos ambientes políticos, a mutilar
as relações afetivas entre amigos e a intimidade dos núcleos familiares. É o ódio
fascista usando “Deus, família e liberdade” como slogan, claramente herdado dos nazistas,
O tema nas eleições— a direita usa a retórica “bandido bom é
bandido morto” como segurança ostensiva. A esquerda e a centro-esquerda
propõem meios mais efetivos de medida protetiva às vítimas sobreviventes
da violência de gênero. Esses grupos progressistas também defendem penas mais
duras aos feminicidas. Mas vem uma pergunta: o tema relacionado à mulher garante eleição?
Vale uma resposta qualitativa direta: sim. A
penetração eleitoral é grande entre mulheres em geral, idem evangélicas. Estas
últimas querem integridade física e psicossocial; as demais, a plenitude de ser
mulher. A saída de Michele Bolsonaro do PL Mulher possibilita às cristãs
devotas migrar seu voto para candidatos progressistas, preferencialmente mulheres.
A penetração eleitoral do tema é maior entre
antifascistas e mulheres – idem evangélicas considerando-se, claro, a criminalidade.
Nesse sentido, o tema daria uma boa margem de votação. Entretanto, a saída de
Michele Bolsonaro do PL Mulher, antes grande nicho de base, possibilita
resultar em grande margem de dúvida entre as cristãs devotas.
Diante disso percebemos mudanças de conduta de alguns
políticos reacionários. É na linguagem. Para se manter reelegíveis, eles mudam
a linguagem fazendo seus apoiadores entenderem uma defesa à pauta. E podem se
reeleger, para na nova legislatura votarem contra qualquer proposta que
criminalizem a misoginia.
Mas isso não significa derrota do tema. Ele tem poder
de voto. A maioria dos eleitores é feminina. E talvez a maioria masculina seja
ciente do valor da mulher, apesar da cultura machista. Portanto, a pauta contra
a misoginia tem grande chance de apoio político – até porque quem é da direita
precisa das eleitoras para sua continuidade.
Notas:
* Mediante decisão do STF de 2019.
Para saber mais
- https://www.dw.com/pt-br/o-que-est%C3%A1-por-tr%C3%A1s-da-campanha-contra-o-voto-feminino/a-78238222
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