quinta-feira, 10 de setembro de 2026

CURTAS 118- ANÁLISES (falência mineira; misoginia na eleição)

 

FALÊNCIA MINEIRA

                    Em 2014, os mineiros já estavam cansados da dinastia tucana no governo estadual. Foi Eduardo Azeredo (1995-99), Aécio Neves (2003-10) e depois Antônio Anastasia (2011-14), interrompidos somente pela breve era Itamar Franco (2000-02). No pleito de 2014, o povo da Grande Belo Horizonte escolheu o petista Fernando Pimentel (2015-18) devido à irrepreensível administração como prefeito da capital.
                    Além da capital e adjacências, a eleição de Pimentel foi fortemente impulsionada pela população do Norte e Nordeste de MG, tradicionalmente lulistas. Muito empobrecida (só superada pelo Norte), a outrora próspera Zona da Mata também o escolheu. Mas ele não conseguiu resolver tantos problemas acumulados em 4 anos e deu lugar, em 2018, a alguém até então desconhecido da maioria dos mineiros: Romeu Zema, do mal conhecido partido Novo.
                        De biografia já abordada no blog (vide Zema nas Entrelinhas em CURTAS 113), Zema foi eleito como novidade – uma jogada para substituir velhos nomes que mais pareciam nuca querer resolver os problemas, tal como aconteceu com Jair Bolsonaro na presidência. O que a patuleia mineira certamente não imaginava é que nem toda novidade vale a pena. E Zema mostraria, aos poucos, essa verdade que terminaria sendo um tanto cruel para todo o Estado de Minas Gerais.
                        Político novato, Zema prometeu 1001 maravilhas e propôs gerir MG com “olhar diferente”. Mas, parcela considerável do povo percebeu depois que ele geriu o Estado como se fosse negócio seu. Congelou salários dos servidores enquanto os perseguia. Vendeu 112 empresas estaduais por bagatela. Deu isenção fiscal às mineradoras e ao seu Grupo Zema. Ferrou a política ambiental¹.
                        E as rodovias? As MGs ficaram ao léu – exceto o trecho de acesso ao seu sítio no Triângulo. As BRs têm alguns trechos em obras e outros em fase de concessão para a iniciativa privada. Ligando MG a SP, a ponte Sacramento foi alvo de debates recentes sobre a obra dividida (o lado paulista renovado, o mineiro largado), tornando o governo Zema uma piada nacional.
                    Dívida assombrosa— mas foi somente pouco antes de Zema renunciar ao governo para se lançar presidenciável, que a maioria do povo mineiro iria saber da relação de Zema com o erário público. Considerou a privataria “grande investimento”. Oriundo principalmente da carga tributária estadual – uma das mais pesadas do país – a riqueza em dinheiro foi convertida na maior dívida estadual da História: R$ 205 bilhões no total. Isso mesmo: 205 bi-lhões.
                    Muito desse rombo todo pode ser compreendido pelos maus feitos citados em Zema nas entrelinhas. A grana da privataria virou pretexto para pagar parte da dívida. Mas o valor das estatais de pequeno porte (e subsidiárias) e de participações acionárias menores foi baixo. Esperava vender as grandes, mas enfrentou a barreira sindical e de Brasília. E beneficiou o Master com R$ milhões.
                    Diante da dívida impagável e da pressão de manter grandes estatais públicas, Zema propôs o regime de recuperação fiscal (RRF). O governo Lula o homologou de 1/1/25 a 31/12/33. Depois, o ministério da Fazenda mudou para o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), com novo refinanciamento da dívida do estado com a União.
                    O patrimônio pessoal— enquanto a ultradireita faz cortina de fumaça sobre a compra de trajes e acessórios finos e a sobra de grana declarada pela deputada Erika Hilton (Psol-SP), que visa a reeleição, Romeu Zema ri à toa. Como os aliados reacionários, ele enricou muito: R$ 49 milhões só no segundo mandato. Entre outras coisas que vale a pena investigar, enfatiza-se aqui que ele reajustava seu próprio salário, do seu vice e de seus secretários, em cerca de 300% ao ano.
                    Tamanho reajuste se deve a um dispositivo criado e sancionado pelo próprio Zema, que propunha essa proporção surreal, que não se restringe a ele. Estende-se ao vice-governador e aos seus secretários, o que decorre naturalmente num rombo bilionário considerável no Tesouro estadual. Não por acaso, só o salário do governador, de R$ 10.500, saltou para R$ 41,8 mil neste ano.
                    Spoiler: segundo jornais, o reacionário Nikolas Ferreira declarou ter R$ 36,8 mil em 2022. Hoje sua finança saltou para R$ 3,9 milhões, mais de 10 mil vezes. Não é motivo de parabéns, mas de vergonha recorde. Cabe frisar que isso exclui os vultosos penduricalhos além do salário de R$ 42 mil, a passagem como vereador e já ser influenciador de amplo público jovem. Daí vem uma análise crítica.
                    Embora não tenha provas do contrário, a relativamente pouca grana declarada em 2022 não significa que ela seja verdade. Ele já era influencer notório antes de ser vereador. Mas isso não se resume a um ou outro nome. Declarar menos do que realmente tem é um artifício típico entre agentes políticos. A vergonha disso está no uso impune da política para enriquecer tanto em tão poucos anos.
                    Fria análise final —como os demais artigos que já escrevi, este tem somente a intenção dialética de analisar criticamente um governo a partir da verdade por trás dos fatos noticiados. Em si, o reajuste salarial é lícito e moral. O imoral é a proporção de 300% anual e “corrigir inconstitucionalidade” é um desrespeito vergonhoso aos cofres estaduais, que não se comparam com os da União.
                    Caro Zema, inconstitucionalidade foi punir servidores estaduais com insistente congelamento salarial e desmonte através de privataria à revelia popular. Fora a persecução a servidores críticos de seu governo. Inconstitucional foi a barbárie contra ambiental ao dar aval para mineração ilegal em áreas proibidas (de preservação) e críticas como a Serra do Curral, que abastece a Grande BH.
                    Enfim, quase inconstitucional é o seu descaramento de se tornar presidenciável depois de tudo isso. Ainda bem que as suas chances são mínimas, pois a maioria já viu que seus feitos são uma verdadeira piada de mau gosto – ou um perigo para o Brasil, após pôr Minas Gerais de joelhos e de pires na mão.
Nota: ¹deu licenças ilegais para mineradoras atuarem à noite em áreas proibidas por proteção permanente legal.
Para saber mais
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NA ELEIÇÃO, O FEMININO

                    A misoginia (aversão ao feminino que potencializa a opressão contra a mulher) é um tema multifatorial e complexo. Apesar do termo em si ser recente, seu pragmatismo tem longa história, por fatores morais e religiosos. Se discute opressão há mais de 1 século, com temas variando da participação no mercado de trabalho à política.
                    No Brasil, o Código Penal (1940) já criminalizava a violência doméstica. Mas havia brechas, só cobertas pela lei Maria da Penha (2006), décadas depois de o tema cair no debate político. Apesar dos avanços, ainda há inércia policial frequente, certa dificuldade jurídica e subinvestimento em política protetiva efetiva à vítima.
                    Mas a criminalização da misoginia segue debatida em virtude de outro fator. Resultado da ideologização do machismo cultural pela ultradireita, o movimento masculinista culpa a vítima pelos ataques e valoriza o “orgulho macho alfa hétero”, além de inverter dados da violência de gênero como o fez o ator Juliano Cazarré, celebridade novelesca da TV Globo.
                    Impulsionado pela ultradireita (MBL e bolsonarismo), o masculinismo já bateu de frente com decisões do STF em direitos humanos (união homoafetiva em 2011, anencefalia como fator de aborto legal em 2012 e criminalização da LGBTfobia em 2019). Grupos masculinistas como redpills e legendários ainda querem o fim do voto feminino, tornado mais um ideário da ultradireita, que vê nas mulheres um obstáculo para a sua vitória.
                    É um terreno fértil que torna a discussão acerca do feminino tão importante.
                    No avanço legal, o crime — durante o governo Dilma 2, em 2015, foi sancionada a Lei do Feminicídio, que inclui o termo (um neologismo que designa o homicídio de mulheres) no CP e inclui mulheres trans como vítimas a partir de 2024*. Hoje, feminicídio é crime hediondo que pode dar até 40 anos de cadeia, a depender da gravidade. Apesar dos avanços, o flagelo não foi mitigado. Pelo contrário.
                    Entre 2018-22, a agressão não letal subiu 19% e a fatal, 23%. Crimes sexuais inflaram 45%. Entre 2022 e 2024, as denúncias de feminicídio explodiram 121%, em relatos com ou sem agressão anterior (crime sexual, ameaça, cárcere privado, espancamento). Na população geral, 30% das mulheres afirmam ter sofrido ao menos um ataque, principalmente por autores conhecidos. Entre as evangélicas, essa cifra chega a até 40%, o que surpreende quem vê nessa fé uma mensagem de paz.
                    Embora específica ao assunto político, a violência política de gênero também importa, por ter aumentado de forma muito significativa. Ela se explica na ultrapassagem da fronteira dos ambientes políticos, a mutilar as relações afetivas entre amigos e a intimidade dos núcleos familiares. É o ódio fascista usando “Deus, família e liberdade” como slogan, claramente herdado dos nazistas,
                    O tema nas eleições— a direita usa a retórica “bandido bom é bandido morto” como segurança ostensiva. A esquerda e a centro-esquerda propõem meios mais efetivos de medida protetiva às vítimas sobreviventes da violência de gênero. Esses grupos progressistas também defendem penas mais duras aos feminicidas. Mas vem uma pergunta: o tema relacionado à mulher garante eleição?
                    Vale uma resposta qualitativa direta: sim. A penetração eleitoral é grande entre mulheres em geral, idem evangélicas. Estas últimas querem integridade física e psicossocial; as demais, a plenitude de ser mulher. A saída de Michele Bolsonaro do PL Mulher possibilita às cristãs devotas migrar seu voto para candidatos progressistas, preferencialmente mulheres.
                    A penetração eleitoral do tema é maior entre antifascistas e mulheres – idem evangélicas considerando-se, claro, a criminalidade. Nesse sentido, o tema daria uma boa margem de votação. Entretanto, a saída de Michele Bolsonaro do PL Mulher, antes grande nicho de base, possibilita resultar em grande margem de dúvida entre as cristãs devotas.
                    Diante disso percebemos mudanças de conduta de alguns políticos reacionários. É na linguagem. Para se manter reelegíveis, eles mudam a linguagem fazendo seus apoiadores entenderem uma defesa à pauta. E podem se reeleger, para na nova legislatura votarem contra qualquer proposta que criminalizem a misoginia.
                    Mas isso não significa derrota do tema. Ele tem poder de voto. A maioria dos eleitores é feminina. E talvez a maioria masculina seja ciente do valor da mulher, apesar da cultura machista. Portanto, a pauta contra a misoginia tem grande chance de apoio político – até porque quem é da direita precisa das eleitoras para sua continuidade.
Notas:
* Mediante decisão do STF de 2019.
Para saber mais
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