sexta-feira, 2 de outubro de 2026

CURTAS 119 - ANÁLISES (fatos pré-eleição)

 

Psicologia
POR QUE A MENTIRA ATRAI TANTO?

                    Desde a independência das colônias das garras europeias no século XIX, a geopolítica foi desenhada para definir as relações e a vida da humanidade pelo globo. A geopolítica nasceu da comunicação, que encontrou nas tecnologias a queda de barreiras culturais e redesenharia as relações internacionais. E da comunicação veio a Internet – que está aí até hoje.
                    A internet surgiu como ferramenta de espionagem contra os nazistas e a URSS. Em 1995, foi popularizada através da automação ofertando uma montanha de páginas (sites) para tudo quanto é função de consumo popular, bem como trabalho à distância. Agora, o mundo se conecta por inteiro graças às atuais plataformas de redes sociais (Facebook, X, LinkedIn, Bluesky, Youtube, TikTok, Instagram, etc.).
                    A rede social pioneira Orkut (2004-14) sucumbiu ao fim do contrato do Google com o engenheiro turco Orkut Büyükkökten. O criador não o fez para espionar, o que só entendemos agora. As supracitadas possuem o algoritmo, que redireciona e manipula as preferências de cada usuário, e define o que diferentes perfis poderão postar. Assim, elas criam novas relações e mudam as antigas.
                    Vivendo dos perfis de usuários pessoais e empresariais, as redes sociais viraram o campo fértil de notícias falsas (fake news). Perfis falsos são muitos, como usuários reais ou bots (fantasmas eletrônicos) identificados com dados fictícios ou reais. Eles são personagens centrais na reprodução sistemática de mentira explorando muito um tema inevitável e pantanoso: a política.
                    A política merece ser debatida porque ela define a vida de nações inteiras e as relações internacionais. Mesmo que o entretenimento ocupe 70% do ciberespaço, inicialmente estatal e hoje privatizado. Corredores de notícias frescas em tempo real, redes sociais são o maior terreno de debate público no tema, tendo influencers como o deputado federal Nikolas Ferreira.
                    Candidato à reeleição, Nikolas quer repetir o seu recorde de votos. Foi como influenciador teen gospel que ele atingiu carreira política. Sua escola on-line Destra (nome autoexplicativo) dá curso de política na linha cristofascista. A Destra é outro caminho da disseminação da mentira política contra adversários ideológicos, especialmente na questão econômica do Brasil.
                    Jornalões ajudam na mentira política. As previsões econômicas negativas no noticiário reforçam afirmações falsas como “o país tá quebrado”, “recorde de inflação caindo o poder de compra”, “lojas fechando e demitindo gente”, “roubalheira no INSS” e “combustível muito caro”, desmentidas só em fast-checks online como Aos Fatos, Uol Confere, Agência Lupa, etc.
                    Muito comércio físico se tornou virtual (e-commerce, aplicativos). O volume de demissões é, na verdade, readaptação funcional dos empregados em apps. O valor salarial baixo é histórico e mercadológico, com aumento seguindo a média oficial inflacionária e não pulos isolados. O PIB maior é tão claro que os jornalões não conseguem negar. O roubo no INSS é histórico e quem investiga e ressarce é o governo Lula. E combustível muito caro se deve às refinarias privatizadas.
                    Mas a mentira está em tudo. Se um crime é descoberto, seu autor capturado o nega até cair em contradição. Cobrado por seu par devido a indícios evidentes, o cônjuge nega pular a cerca. A criança traquina nega ter quebrado o vaso valioso da mãe brava por medo de reprimenda feia. O comerciante enrola o comprador para vender seu produto de qualidade inferior. Por que usamos esse ato, condenável em todas as culturas conhecidas no mundo?
                    Por mais sinceros e honestos que sejamos ou queiramos ser, a mentira encontra espaço. Ela surge sempre que há circunstância forte o suficiente que impeça a verdade 100% pura. Por ordem social concordamos com a norma coletiva, mas buscamos escape quando sua pressão fica insustentável. Grupos religiosos dogmáticos que cerceiam a livre escolha amorosa tendem a ser materialistas ou intolerantes contra grupos sociais diferentes.
                    Portanto, por mais condenável que seja, a mentira é o apaziguador social mais eficiente que existe. Na Etologia (ramo da biologia que estuda o comportamento de cada indivíduo de uma população específica em relação ao meio e entre si), ela é como o blefe animal na natureza. Nesse sentido, ela ajuda a resolver um problema e a findar conflitos. A sinceridade pura pode ser confundida com estupidez em momentos que exigem cautela ao falar.
                    Porém, diferente de uma situação social restrita, o terreno político abrange todo o coletivo regional e/ou nacional. Não falo de confrontos normais entre candidatos opostos, e sim de inverdades difamatórias contra a honra do outro. Como supostos fatos pessoais ou políticos falsamente atribuídos ao adversário – uma especialidade infeliz dos demagogos reacionários, na mesma tática dos nazistas.
                    Como esse tipo de mentira afeta negativamente a coletividade de alguma forma, a legislação eleitoral coíbe falas desse naipe. Em tempos de inteligência artificial (IA), o TSE já impõe restrições severas para evitar difamação e inverdades. Como os políticos sabem que a maioria vota pela emoção, o efeito venenoso da mentira pega justamente aí. E é nesse terreno quase íntimo da vida humana que a legislação tem mais dificuldade de agir, pondo em risco o futuro da nação.
Para saber mais
- https://doi.org/10.1590/0102-37722015032213397401 (Mentira: Aspectos Sociais e Neurobiológicos, Psic.: Teor. e Pesq. 31 (3) • Jul-Sep 2015).
- https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-47941465 (BBC- sem mentiras, o que aconteceria com as relações sociais?, 26/5/2019). 
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RELIGIÃO PELO GOLPISMO

                    O presidenciável Flávio Bolsonaro estava apavorado com a queda das intenções de voto em meio à enxurrada de fatos do caso Master, quando Michele Bolsonaro lançou aquele vídeo-bomba em que expôs a “relação desajustada” entre ela e o enteado, e saiu do PL Mulher. Apoiadoras evangélicas pentecostais sentiram o impacto e passaram a rejeitar Flávio. Este correu para reverter.
                    Em vídeo, ele afirma ter feito as pazes com a madrasta “pelo meu pai”. Outro vaza o contrário: “se não fosse casada com meu pai, eu a teria estancado” – “matado”, na gíria miliciana –. Ainda mantendo alta rejeição, as evangélicas procuraram alternativas presidenciáveis à direita, como o ruralista de pinta de galã Ronaldo Caiado e o psiquiatra dos drones Augusto Cury.
                    Com a ajuda da dupla André-Kássio no TSE, dos jornalões O Globo e Estadão e dos machões de plantão, Flávio voltou a empatar com Lula nas pesquisas. Em Minas Gerais, 2º maior colégio eleitoral, uma delas o jogou à frente de Lula, fazendo soar a sirene de alerta na campanha. Mas, eis que nova série de fatos muda tudo, direcionando os números para Lula.
                    Advogado do crime— ainda na Alerj, Flávio concedeu ao matador preso Adriano da Nóbrega a medalha Tiradentes. Na época, ele advogou os milicianos que executaram a juíza Patrícia Acioli. Defendeu presos que agrediram outra juíza num presídio e afagou o PM Delaroli, que matou, sem confronto nem motivo, a menina Ana Clara, de 5 anos, numa comunidade carioca.
                    Segundo Flávio, Acioli “humilhou os réus” e pagou com a vida, e a outra juíza foi agredida por ter “zombado da condição desumana” dos PMs presos. A tese de confronto alegada por Delaroli  e reiterada pelo então senador foi derrubada pela perícia e pelas testemunhas da comunidade. E vale lembrar de que ele defendeu a atuação das milícias nas favelas na plenáriaa da Alerj.
                    A santa da discórdia—para os católicos, qualquer Nossa Senhora é Maria mãe de Jesus. A Aparecida caiu no radar eleitoral. Então pré-candidato, Flávio acenou aos evangélicos: se eleito, “o Brasil será do senhor Jesus”. Não teve alarde, mas Flávio repetiu e mexeu com a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Veio novo conflito coletivo, com ataques monitorados pela Igreja desde 2019.
                    A CNBB entendeu a fala dele nas entrelinhas. Refere-se a um projeto de 2007 do ex-deputado Victório Galli, que rebaixa o título da santa ao de “padroeira dos brasileiros católicos romanos”. O texto foi arquivado sem trâmite em 2008, mas não morreu pelo regimento. É aí que pesa o incômodo da representação católica – interpretável em dois sentidos: o tradicional e o estatístico.
                    Tradicionalmente, ela alega “desrespeito aos católicos” e à historicidade. Conta-se que, em outubro de 1717, pescadores acharam na rede uma imagem de santa sem cabeça no Paraíba do Sul, na região da atual Aparecida do Norte, durante uma pesca ruim. Em novo arremesso veio a cabeça. Daí, a pesca foi abundante. O conto tem grande valor transgeracional.
                    O outro incômodo da CNBB é estatístico. Desde os anos 1990, o IBGE verifica a retração gradual do catolicismo a quase 1% por ano, explicando o avanço evangélico neopentecostal. O papado reformista de Francisco mitigou o processo, mas com a morte deste se teme nova aceleração. O papa Leão XIV tenta segurar. É uma rivalidade entre as matrizes cristãs desde a reforma de Lutero.
                    A “pele” escura da santa é outro tópico importante. Esculpida em ocre castanho, a imagem teria se escurecido por fuligem das velas, ou pela água percolada no material. Mas entre os descendentes dos escravos pescadores há a crença no suposto milagre da pesca pelo temor de serem castigados a mando de seu dono. Seja como for, a cor virou marca indelével da santa brasileira.
                    Nesse ínterim cabe ainda assinalar a recente censura de André Mendonça em mais de 1000 posts referentes à Nossa Senhora Aparecida incluindo a ironia de Paulo Tabet sobre racismo misógino da família miliciana e a decisão da Meta em bloquear o canal da própria CNBB para não render o asssunto e proteger Flávio. Como vemos, tudo isso remete a outro fator: o cristofascismo brasileiro.
                    Visando contestar o mito, um pastor alegou a cor da santa de sujeira. A contestação é razoável, mas não os ataques aos devotos e à tradição brasileira. Vale lembrar que as matrizes pentecostais no Brasil se fascistizaram colaborando na fundação das ditaduras militares na América Latina e, agora, os recentes  fatos envolvendo André Mendonça e a proposta de Flávio. Isso merece memória constante na história.
                    Quando o Brasil se redemocratizou, o cristofascismo não morreu, só baixou a voz. Em 2007 Galli tentou elevar a voz, mas foi calado. Marco Feliciano queria negar a diversidade sexual no cura gay. O MBL e o bolsonarismo ressuscitaram o pânico moral. Flávio Bolsonaro deixou isso claro na promessa. Parte dos evangélicos percebeu isso e se solidariza aos católicos. Mas só no resultado final da eleição saberemos se a tradição se mantém ou se desfaz.
Para saber mais
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