E Lula subiu a
rampa...
Sal Ross
Por tempos depois da
derrota eleitoral de Jair Bolsonaro, nas claques bolsonaristas surgiu a ideia
de que Lula não assumiria o governo. As “motivações” foram as mais variadas
possíveis, atingindo o auge de que Lula não subiria a rampa porque teria
morrido no hospital Sírio-Libanês por câncer de laringe, e seria substituído
por um sósia.
Mesmo sendo um fake
descarado, o vídeo viralizou com boas risadas dos internautas. E, após o
encerramento da catarse, vieram outras fake, como a suposta prisão de Alexandre
de Moraes e anúncios de mais 72h de fatos não ocorridos. Até que, em 31/12,
veio outra: a de suposto cancelamento da posse de Lula. Novo surto festivo.
Então chega o
1/1/2023. A Praça dos Três Poderes de Brasília estava em preparativos desde a
manhã para a solenidade de posse presidencial. De prima veio uma “previsão”, a
de que Bolsonaro “subiria a rampa no corpo de Lula”, como forma de enganar a
multidão de vermelho que se juntava na praça desde 31/12.
Ansiosos e
anestesiados pela catarse, os bolsonaristas aguardavam o momento, marcado para
as 15h. E ao chegar o momento, transmitido em telões nas proximidades, se
depararam Lula acompanhado de pessoas como um indígena, um menino negro, uma
PCD¹, e representantes de classes trabalhadoras. Acharam esquisito.
Do estranhamento veio
a certeza de que era Lula de fato, pois não é de Bolsonaro andar com esse
pessoal diverso. A decepção com a verdade explícita nas cenas foi tão grande
que alguns dos acampados resolveram ir embora. E quem ficou assimilou a nova:
com faixa presidencial falsa, Lula “não tomou posse de verdade”.
Essa fake foi
a máxima, mas a alegria tomou conta dos poucos manifestantes. Ainda mais por
ter sido divulgada pela agora ex-atriz Regina Duarte, filha de milico, mulher
de latifundiário e que continua no bolsonarismo mesmo após ter sido humilhada
pelo então presidente em uma solenidade quando esteve secretária de cultura.
Pela fake
divulgada pela ex-atriz – que recebeu críticas de alguns colegas das artes
cênicas – isso foi estratégia de Bolsonaro para supostamente “invalidar a
posse, cumprindo a palavra de que Lula não seria mesmo presidente da República”.
Mas, Lula subiu a rampa... com uma faixa genuinamente legítima.
Para quem não sabe,
há mais de uma faixa presidencial legítima, sendo a mais antiga a de 1910, e
usada na terceira posse de Lula. O gesto de passar a faixa é meramente
simbólico, e não sacramenta a posse. Esta, por seu turno, se consolida quando o
eleito assina um documento de aquisição do cargo no Congresso, antes da posse
ministerial.
Em fria análise, a
implantação da ignorância política coletiva por meio de fake news pode
indicar a despolitização da patuleia, mas nem de longe significa uma ação
antipolítica. Pelo contrário, é política, pois ser político implica em tomar
atitudes sobre e para a coletividade. Mesmo que seja contra esta,
como o foi o bolsonarismo.
E para destruir a
crueldade política bolsonarista, vale outra decisão política, que pode implicar
em uma verdadeira guerra contra o stablishment ideológico implantado,
com armas estratégicas inteligentes para mitigar esse importante desafio que
promete tornar o Lula 3 tão difícil. Mas trata-se de necessidade premente e
política.
E para declarar essa
guerra, além de tratar tantas decisões governamentais, que um Lula legítimo e
verdadeiro subiu a rampa. E subiu com alegria e um rico ineditismo e cheio de
simbolismo. Com oito pessoas para representar a diversidade social, uma delas
com o nobre mister de colocar nele a faixa presidencial.
Vai nessa, Lula. E
que os bolsonaristas voltem para casa, pois a sua luta está perdida, para o bem
deles próprios.
Notas da autoria
¹ Sigla de "pessoas com deficiência", não importando o tipo desta e incluindo as múltiplas.
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Privataria abortada. Até quando?
Programa Nacional de Desestatização. Quem viveu principalmente as eras Collor e FHC com atenção deve se lembrar bem dessa expressão, bem como seu significado e as consequências de sua efetuação. E viveu também a quase paralisação do programa na era petista, e a retomada do mesmo na era Bolsonaro.
Agora, em seu retorno
político, Lula assinou, entre vários decretos, o que dispõe de interrupção da
desestatização de cerca de 8 entidades públicas importantes, que estavam na
mira do governo anterior. Mas, o que define a desestatização? Como era o
programa tão reverenciado nos dois mandatos de FHC?
Privataria- desestatização é o
eufemismo técnico para designar o ato de entregar entidades estatais para a
iniciativa privada. Ou seja, em verdade, é privatização de entes públicos. Apesar
de referenciada nas eras Collor e FHC, a privatização já estava prevista na
legislação criada ainda na ditadura militar.
Critérios- a constituição de 1988 estabelece, pela primeira vez, princípios para o bom funcionamento da Administração Pública, devido à maior cobrança popular sobre o seio público. Os princípios são: publicidade, moralidade, legalidade, impessoalidade e eficiência. Mas eles não vieram apenas pela participação pública.
Um deles, a eficiência, foi usada em nome do neoliberalismo, que visa o mercado ilimitado e capaz de "dar um Estado mais eficiente pela cobertura privada", como a grande mídia dizia nos anos 1990. A "cobertura" na era Collor virou privatização na era FHC, na alegação de suposta ineficiência dos serviços públicos.
Nessa alegação, as mídias de concessão pública (emissoras de TV) ainda produziam programação em que atores encarnavam servidores públicos supostamente ricos, ociosos e indiferentes ou grosseiros com a população, o que desencadeou frequentes reações contrárias da parte dos servidores públicos.
Mas, além da suposta eficiência de mercado, fica implícito outro critério obrigatório: a entidade pública se torna apta a ser privatizada se tiver boa saúde financeira, ou seja, estiver lucrando. Mas a mídia "informa" a patuleia exatamente o contrário: uma fake news institucionalizada.
Lula 3- a terceira era Lula veio disposta a fazer diferente. Entre os decretos assinados no primeiro dia de 2023, consta o que aborta o andamento das privatizações de 8 entidades estatais que estavam na mira do governo anterior. Foi o suficiente para o mercado e a grande mídia chiarem novamente. E o petista ignorou.
Lula tem sua razão para ignorar mídia e mercado. A equipe deparou com a despesa geral da União em mais de R$ 5 trilhões, sendo R$ 2,56 trilhões de dívida pública federal, por sua vez 38 vezes maior do que a despesa com funções primárias¹ (R$ 67 bilhões), segundo Paulo Lindsay, diretor da ASSIBGE².
Ainda de acordo com Linday, a cifra da dívida pública federal paga sozinha o equivalente ao orçamento secreto por três dias - para se ter uma ideia do valor atingido à emenda destinada sem transparência a nomes ligados aos deputados e senadores do Centrão na era anterior, hoje felizmente reprovado pelo STF.
A explicação de Lindsay reforça o prejuízo bilionário do Brasil com a privataria desde a era Collor, com ápice na era FHC, com diversos escândalos envolvendo o sistema Telebrás e alguns bancos públicos, que não foram devidamente investigados, e cujos valores malversados giram em torno de dezenas de bilhões.
Lula sabe dos prejuízos da privataria das eras Collor, FHC, Temer e Bolsonaro. E ainda da astronômica cifra explanada por Lindsay. O problema é que até hoje não há transparência sobre o destino dos recursos da privataria desses tempos. A consequência mais palpável foi a demissão massiva de empregados públicos.
Por ordem de Lula, a privataria planejada na era Bolsonaro-Guedes foi abortada. Resta-nos saber até quando o mercado e a mídia hegemônica terão paciência, e se o presidente vai resistir às súplicas.
Notas da autoria
¹ Se referem a categorias funcionais de escalões mais altos, que consomem mais de 80% da folha salarial da União.
² Associação dos Servidores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Paulo também é do Núcleo Sindical Canabarro e da Auditoria Cidadã do RJ.
³ Lei Orçamentária Anual
Para saber mais
- https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/128572/lei-5362-67
(lei que prevê privatização, e alterada pela Lei n° 8.031 de 12/04/1990, que
cria o Programa Nacional de Desestatização e dá outras providências)
- https://www.clp.org.br/limpe-os-5-principios-da-administracao-publica-mlg2/
(os 5 princípios fundamentais da Adm Pública CF 1988)
- https://www1.siop.planejamento.gov.br
(link de site oficial, entrar de modo não seguro)
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Bolsonaro foi, mas o delírio fica
Como vimos, Bolsonaro se elegeu e manter sua popularidade entre os seus apoiadores, graças a uma teia estratégica unindo sua sacralização dentro da fé cristã, disparo massivo de mentiras em redes sociais, lives semanais e conversas no cercadinho, onde incluía discursos épicos e viris no repertório.
Desse jeito se seguiu o governo, de cujos fatos já sabemos, até que no finalzinho deixou sua patuleia de apoiadores desconcertada com o súbito abandono do cargo, levando consigo dinheiro público para realizar o seu sonho - viver adoidado com muita grana sem esforço.
A fuga para os EUA pareceu fertilizar ainda mais a mente da patuleia acampada à frente dos quarteis militares: eles se sustentam na ideia de que o general Heleno agora o substitui no poder impedindo Lula de exercer a presidência a que foi eleito.
Essa nova falácia se seguiu às anteriores, como a de que um sósia de Lula foi eleito, a de que Bolsonaro em espírito havia incorporado o corpo de Lula, e finalmente a de que Lula não teve uma posse verdadeira por causa da faixa presidencial supostamente falsa.
Agora, o ministro da Justiça e Segurança Pública Flávio Dino de Lula 3 mostra a que veio: ele mandou as polícias desmontar compulsoriamente os acampamentos. Afinal, já deu. Com aval de Dino, os governadores autorizaram as PMs no ato, o que desencadeou algumas cenas hilárias.
No Rio, acampados seguravam suas barracas para não serem levadas pelo vento e pelos PMs. Já em Belo Horizonte, homens da PMMG e Guarda Municipal viram bolsominions agarradas às barracas grandes enquanto outros, afastados à força, pareciam aturdidos feito bêbados e outro ajoelhado não se conformava.
Em outra cena em Belo Horizonte, bolsominion desesperado acusou militares de traição à pátria por não tê-los ajudado em golpe pretendido, enquanto filmava, choroso, o desmonte do acampamento pela PMMG.
Reforçando a risibilidade das cenas dos acampados, os bolsominions arrependidos em casa fizeram a sua parte. Revoltado com a realidade da fuga de Bolsonaro, um militar aposentado rasgou suas próprias fotos dos tempos de caserna. Mas a revolta revela a face do delírio que ainda o domina.
O arrependimento desse senhor não se relaciona à ideologia defendida por Bolsonaro, que se coaduna com a extrema-direita da ditadura militar de 1964, e sim com o caráter covarde do ex-presidente através da fuga ao invés de concretizar a prometida eliminação de opositores de esquerda como "naqueles tempos".
Na classe dos arrependidos estão também os que abandonaram os acampamentos, como um policial legislativo aposentado e sua família, que voltam após 60 dias, por estarem "com os nervos à flor da pele" devido ao bombardeio de informes irreais, Hinos¹ constantes, instabilidade de tempo e discussões.
Na classe de apoiadores arrependidos fazem parte também os que abandonam os acampamentos. Em parte, alguns cacem mais fácil na real, enquanto outros revelam estar com os nervos à flor da pele indicando terem sofrido algum tipo de pressão - do ambiente (chuva), de problemas de saúde, ou dos mais radicais.
Entre estes últimos, o arrependimento pode ser muito parecido com o do senhor que rasgou as fotos, por se darem conta de que Bolsonaro não retribuiu apoio como esperado, mesmo mantendo a simpatia aos princípios do nazifascismo bolsonarista.
O desmantelamento progressivo dos acampamentos e a prisão de radicais terroristas demonstra que o governo Lula 3 responde responde no mesmo tom policial, mas fazendo a lei funcionar. Resposta policial esta que foi promessa de campanha para "desbolsonarizar" a patuleia.
A resposta policial do governo pode ser efetiva em combater acampamentos e mitigar chance de terror. Mas não as consequências mentais do ideal surreal do bolsonarismo e do contexto dos acampamentos. Afinal, Bolsonaro se foi e agora se vão as manifestações, mas o delírio ideológico permanece.
Notas da autoria
¹ Hino à Bandeira, Hino Nacional e outros correlatos.
Para saber mais
- https://exame.com/brasil/em-clima-de-despedida-apoiadores-de-bolsonaro-deixam-protesto-e-embarcam-de-volta-para-casa/
- https://noticias.uol.com.br/colunas/thais-oyama/2023/01/04/os-nervos-estao-a-flor-da-pele-diz-bolsonarista-que-deixou-acampamento.htm
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Por que não culpar evangélicos. Nem a esquerda
Como já sabemos, a
era Bolsonaro se caracterizou, entre outras características e fatos, pela forte
proximidade da família do agora ex-presidente com a população evangélica a
partir das suas lideranças, em especial nas correntes neopentecostal e
pentecostal, nessa ordem.
Tal proximidade se
deu através do compartilhamento de valores morais do Brasil profundo, que
serviram como um mote eleitoral tão eficiente que, mesmo decorridos quatro anos
de destruição em todos os setores, motivou a busca pela reeleição de Bolsonaro.
O contexto revelou
uma população muito crédula e vulnerável a manipulações. E de preconceitos.
Fruto da intolerância
religiosa, o preconceito aos evangélicos se tornou uma represália de grupos não
protestantes e até mesmo de não religiosos, como alguns grupos da esquerda –
corrente sociopolítica vítima de preconceitos generalizados.
Não é à toa que o
universo neopentecostal/pentecostal tenha recebido tão bem o eco do discurso
que norteia o bolsonarismo. Nele, a população dessas linhas de fé teve o alento
que supostamente teria sido negado pelos demais grupos.
A barbárie de
8/1/2023 em Brasília foi atribuída nas redes sociais aos evangélicos em geral. Um erro primário
que revela tanto a incompreensão sobre os valores dos fiéis, quanto o reforço
de um preconceito que tanto dá razão aos ressentimentos desses crentes.
Após tanto caos e
violência impostos pelo governo anterior sobre a nação, urge à esquerda, nesse governo
Lula, se aproveitar do momento para fazer uma autocrítica visando eliminar os
preconceitos que a afasta dos evangélicos. Destes, não é todo mundo que percebe
que apenas parte da esquerda está assim.
O combate aos
preconceitos (mesmo inconscientes) enraizados visa a melhor compreensão dos
valores dos evangélicos e, assim, acolhê-los de forma que eles percebam que uma
política progressiva não implica em esgarçamento do tecido moral, mote da extrema-direita
para acusar a esquerda.
A autocrítica pode se
revelar em simples atitudes de acolhimento. E também ajudará os diferentes grupos
de esquerda a se unir contribuindo para as investigações contra os mandantes e
financiadores dos que, se não conseguiram explodir bombas, conseguiram destruir
fisicamente as instituições.
Assim como os evangélicos
foram manipulados por pastores oportunistas (infelizmente muitos), a ala
preconceituosa da esquerda pegou de parte de católicos a carregar preceitos dos
tempos sombrios da Reforma protestante na Europa.
Nesse sentido, não
podemos culpar os crentes. E nem culpar a esquerda. Mas a extrema-direita, sim:
afinal, é esta corrente que, desde o século passado, erroneamente politiza a
religião para ter votos cativos e demonizar a esquerda. Tal como o nazismo, o
bolsonarismo é um exemplo claro disso.
Para saber mais
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Visibilidade indígena, "legado" de Bolsonaro
A era Lula 3 se
iniciou com um jeito bem novo. A começar pelo protagonismo da simbólica
passagem da faixa presidencial, no qual sai o frio e protocolar governante que
encerra mandato e entra a emoção salientada nos representantes da diversidade
popular.
No retorno ao maior
número de ministérios, que tem marcado as gestões anteriores a Bolsonaro, o
novo petismo também cria novidades. Como o Ministério dos Povos Originários
(MPI), sob o comando de Sônia Guajajara, da etnia Guajajara, que habita uma
área demarcada no interior do Maranhão.
A posse de Sonia foi uma das mais marcantes da nossa história política, sendo acompanhada de perto por representantes de diversas etnias originárias, e teve direito a um ritual terena, acompanhado do chocalho rítmico tocado pela nova ministra.
A criação da pasta e
a nomeação de uma indígena são novidades, mas ao contrário do que se imagina, a
visibilidade dos povos indígenas não se iniciou nessa nova era Lula. Ela
começou com a entrada de representantes indígenas na política, e mais
recentemente, com a marcante atuação de Sonia.
A parca representação
se liga ao Marco Temporal, ação do STF que versa sobre a reivindicação de posse
de terras de povos indígenas, e objeto de interesse de grandes mineradores. Pela
Constituição, só teriam direito às terras os povos que as ocupem antes de
5/3-/1988, quando a Carta foi promulgada, o que criaria imbróglios.
Antes de ser
ministra, Sonia Guajajara chefiou a Associação dos Povos Indígenas do Brasil
(APIB), e já foi candidata a vice-presidência de Guilherme Boulos (PSOL) no
pleito de 2018. Sonia fez a APIB atuar como uma Funai paralela à oficial sob o
mando de Jair Bolsonaro (2019-2022), inclusive em reuniões parlamentares.
A era Bolsonaro foi
recordista em denúncias de ataques belicosos contra indígenas em suas terras
por extrativistas ilegais de recursos florestais e minerais, decorrendo em
movimentos coletivos que chamaram a atenção do grande público sobre a
capacidade de atuação dos povos originários.
Ironicamente, a
ditadura do capital, à qual governos de exceção e democráticos abaixam a cabeça
em reverência, tem imposto a invisibilidade de grupos não-consumidores ou
isentos de certos embargos, mas não contava com o efeito da barbárie
bolsonarista, que direcionou os holofotes aos indígenas.
Agora, resta-nos
agradecer a Bolsonaro pelo nível inédito de visibilidade pública sobre povos indígenas,
que adentram em número crescente na vida política.
Para saber mais
- https://www.politize.com.br/marco-temporal/
(o que é marco temporal de terras indígenas)
- https://images03.brasildefato.com.br/503014bd815a1dc2932e11dac1ddd596.jpeg
(foto da posse de Sonia com ritual terena).
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