TRUMP FINDOU O SÉCULO XX?
Para “fazer a América grande de novo”, Donald Trump
fez a sua política interna. Deportou milhares de imigrantes
ilegais. Demitiu servidores públicos. Cortou benefícios a aposentados e
vulneráveis. Revogou políticas inclusivas e trabalhistas de Joe Biden. Aumentou
impostos para “recuperar o PIB interno” e meteu tarifaços em produtos
importados.
Sua política externa é hostil. Alega “combate
ao narcotráfico” ao bombardear embarcações no mar do Caribe e já acertou
petroleiros. A paz nas zonas de guerra segue incerta. Ao tarifaço, ameaça aos
BRICS e ao desejo de anexar territórios vieram incidentes diplomáticos. Meteu lei
Magnitsky em autoridades brasileiras. Aprofundou sanções econômicas a
Cuba, Coreia do Norte, Venezuela e Rússia.
Os recentes bombardeios ao território da Venezuela e a
um petroleiro desse país ameaça toda a América Latina, onde também excita a
direita reacionária em alguns países. A ameaça ao BRICS revela o seu medo de
perder controle econômico sobre o Sul Global: é que os BRICS discutem a criação
de sua moeda, capaz de competir em páreo com o Euro e o Dólar na hegemonia
econômica global.
Trump acredita que a tripartição da hegemonia
cambial de dólar, euro e “Brics” (a suposta moeda dos BRICS) pode irritar o
orgulho estadunidense típico. Mas não se registra temor de possível nova
depressão econômica, e sim a maior relevância da multipolaridade no setor. Daí veio
o tarifaço – cujo efeito de ameaça aos BRICS foi totalmente inverso: o
bloco se fortaleceu.
Impacto socioeconômico interno – as medidas de Trump se refletiram muito na
vida ods estadunidenses. Imagens de redes sociais revelaram “desertos urbanos”,
com restaurantes e lojas fechados movimentados por imigrantes. Agora
contratando mão-de-obra nativa mais cara, a produção rural encareceu refletindo,
assim, em inflação maior para o consumidor final.
Postagens diversas em redes sociais mostraram a vida social estadunidense bem afetada pelas políticas. As
deportações distanciaram amizades e romperam amores. Mesmo qualificada, a
mão-de-obra nativa foi insuficiente para cobrir o vazio repentino de pessoal necessário à boa produção interna, que ficou ainda mais cara refletindo nos preços
de seus bens e serviços.
A xenofobia dos supremacistas autodeclarados
anglo-saxões se fortaleceu. Com o corte de benefícios sociais, uma onda de
novos desamparados se revelou, explodindo a população de rua nas cidades de todo o país e aumentando as desigualdades internas e a epidemia
de fentanil e heroína, que os nossos jornalões sempre se recusaram a mostrar.
O tarifaço foi a resposta de Trump aos governos
“adversários” que não se submetem a seus caprichos. Mas seu efeito se voltou
contra os estadunidenses, impedidos de consumir produtos importados tão
encarecidos. Assim como Lula conseguiu novos parceiros importadores de café,
carne e grãos, os restantes dos BRICS também se rearranjaram de boa.
Alvo de reclames e protestos dos estadunidenses, o
encarecimento severo dos produtos importados fez Trump revogar o tarifaço de
numerosos produtos dos países-alvos, permitindo a volta do consumo interno. Mas
o Brasil mantém seu rearranjo de parcerias e a inflação dos EUs se mantém
relativamente alta devido à carestia dos meios internos de produção.
O fim da hegemonia? – enquanto os estadunidenses lidam com os
impactos sociais que mais parecem os de um país emergente, o mundo segue
direção multipolar. A possível moeda Brics já citada poderá completar e
consolidar essa tendência inevitável, que pode se tornar a marca registrada da vida
global do século XXI. E essa impressão de liberdade já foi publicada na Carta
Capital de 22/12.
Escrita pelo correspondente internacional Jamil Chade,
hoje no ICL Notícias, a coluna Adeus, século XX reflete a
impressão de que “o fim de 2025 pode encerrar o século XX” – graças a
Trump. Explico: no século XX, os EUs se autoproclamavam a referência global de ordem,
democracia, liberdade e pujança. Mas, às custas da espoliação de recursos dos
países emergentes – e de milhões de vidas.
Interpretando a coluna, a impressão do momento atual é
que, ao tentar o ufanismo político contra os demais países, Trump apequenou sua
própria nação ao se negar a entender e
conviver com o multilateralismo político e econômico inevitável, num desmonte
da antiga hegemonia iniciada no fim do século XIX e com ápice no XX.
Trump enfraqueceu os orgulhosos EUs. Só enfrenta
governos adversários menores como na Vebezuela, Nicarágua ou Cuba. Ainda assim,
tais governos seguem ilesos. Evita enfrentar a Rússia de Putin e a China de Jinping
reconhecendo-os como construtores de superpotências econômicas, tecnológicas e
armamentistas – sem darem um único tiro nele.
Já o ministro aposentado do STF Celso de Mello vê no
texto uma advertência: apesar do multilateralismo exigir a partilha harmônica
da hegemonia com China e Rússia, não subestimemos Trump. A ameaça à América Latina é grande e o bastião da paz será o Brasil. Será essa a geopolítica do século XXI? No que vai dar? Bem, o espetáculo já se inicia. Nos cuidemos.
Para saber mais
- https://www.cartacapital.com.br/carta-capital/adeus-seculo-xx/ (coluna de Jamil Chade, 22/12/25)
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Convencionalmente, 2026 se iniciou. No breve rito de
passagem chamado réveillon – termo francês para tornar chique e turística a
tradição afro-brasileira do axé –, o povo festejou o nascer do novo ano. Ecoados
antes, os desejos de amor, prosperidade e paz foram brindados com espumantes e
fogos de artifício.
Não sigo mais fé nem religião alguma, e minha luta me
tornou mais realista a cada ano novo. O ano não fica melhor por mágica, e sim
por nossos esforços para tanto – o que não me impede de desejar tudo de bom aos
meus próximos como todo mundo. A tradição do bem desejar nos torna socialmente
mais coesos.
Entre sobressaltos sociopolíticos, 2025
terminou com algumas vitórias para a nação. O STF condenou e prendeu Bolsonaro
e seu bando golpista de 8/1. Ainda falta justiça às 700 mil vítimas da C19. Rendas
até R$ 5mil se livraram do Leão; Vale-Gás e Luz para Todos
voltaram; maior renda per capita e menor desemprego da história foram
importantes.~
Parece que a consciência política popular melhorou.
Lula subiu nas pesquisas após o povo perceber o peso do Congresso. Daí muitos
entenderem que de nada adianta eleger presidente bom e um Congresso péssimo. Maus
influenciadores vão perdendo palco. 2025 deixou portas abertas para dias
melhores, cabe a nós sermos inteligentes.
A festa de Ano Novo me fez observar o prefeito carioca
Eduardo Paes. Competente administrador e político, conhece a cidade como poucos.
Velho aliado de Lula, abraçou evangélicos bolsonaristas em 2025. Como prometeu
a Mafalaia e Macedo, ergueu o Palco Gospel em Copacabana. Vieram as
críticas à conduta do prefeito.
Primeiro: o Palco Gospel em Copacabana empurrou a
tradição do axé para outras praias, como a da Urca. Segundo: foi
investida grana pública, paga também por descrentes e não cristãos, para
satisfazer a apenas um segmento religioso. O axé sempre foi praticado sem
intervenção estatal. Até cristãos
concordaram com a crítica.
Paes não gostou das críticas, mas elas foram razoáveis.
Além de desrespeitar um espaço tradicional afro-brasileiro, o patrocínio
público violou o art 19 da CF-1988 referente à laicidade de Estado. E privilegiar
um segmento religioso em detrimento dos demais violou os direitos e
garantias fundamentais da Carta laica
Sim, entramos em ano eleitoral. Mas, pela letra fria
da lei, ainda é cedo para campanha eleitoral. Paes é pré-candidato a governador
do RJ (aí ok), e certamente será eleito após conquistar os neopentecostais na
festa. Mas, talvez como voto crítico, muitos investirão no gigantesco Glauber
Braga nas urnas. Sim, Glauber Braga!
Após escapar de duas tentativas de cassação de seu mandato
com ajuda da pressão popular em todo o país, ele pode ser um adversário difícil
para Paes e outros da direita. Se for golpeado durante seu tempo de suspensão, ele
crescerá mais ainda. E deveria ser uma lição para os mineiros, que andam ruim
de escolher governador para MG.
2026 será, certamente, o ano da colheita para Lula –
que não pode reconstruir tudo oque quis por encontrar impedimentos do Congresso. E será o
de nova semeadura também. Enquanto ele segue líder para a presidência, os pleitos para
os governos estaduais podem ser a chance de semeaduras melhores, rumo a
políticas mais progressistas. Aproveitemos o tempo para pesquisarmos melhor. Por enquanto, bem-vindo, 2026!
Salete Rossini


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