SIGLAS PEQUENAS, NOMES GIGANTES
A entrada de 2026 fecha as minhas reflexões
sobre alguns fatos políticos do Brasil em 2025. Neste ano agitado houve
vitórias populares, como rendas até R$ 5 mil sem IRRF, Vale-Gás, Luz
para Todos e pleno emprego formal com menor dependência de Bolsa Família. Nesse
tempo, novos nomes louváveis se insurgiram.
A esquerda Fênix – surgido em 1980 e
de rica história até ser o maior partido do Brasil, o PT não é o primeiro
partido à esquerda. A 1ª sigla do Brasil foi o Partido Comunista Brasileiro
(PCB), de 1922 até hoje. Logo após surgiram as siglas de caráter fascista,
seguidas das liberais-democráticas de centro-direita.
O PCB decaiu a partir dos anos 1950. Mas
inspirou novas siglas de esquerda: PCdoB, democrático trabalhista (PDT),
popular socialista (PPS, hoje Cidadania), socialista brasileiro (PSB)
e Verde (PV), todos com eleitos ativos, mesmo minoritários no cenário
político nacional. E há as siglas de visão radical.
O PSTU (socialista dos trabalhadores
unidos), PCO (causa operária), UP (unidade popular) e PCBR
também não têm eleitos, sobrevivendo de militância. O PT teve
dissidências que deram à luz o Psol (socialismo e liberdade) e o Rede
sustentabilidade, ambos com representantes ativos hoje, e por isso, alvos desse presente artigo.
Siglas de gigantes – fundado em 2004
pelos ex-PT Heloísa Helena, Babá, Luciana Genro e João Fontes, o Psol agregou
depois Plínio de Arruda Sampaio, Chico Alencar, Marcelo Freixo, Guilherme
Boulos, Ivan Valente, Glauber Braga, Sâmia Bonfim, Célia Xakriabá, Sonia
Guajajara, Erika Hilton e intelectuais.
A fundação foi um protesto contra a reforma previdenciária
de 2003. Sua linha é de esquerda progressista (ecossocialismo,
laicidade, proteção às culturas tradicionais originárias e à diversidade) e revolucionária
(caráter marxista-leninista não stalinista). O TSED reconheceu o Psol
como partido em 2005.
Criado por Marina Silva em 2013, o Rede
Sustentabilidade só virou partido em 2015, quando obteve as 500 mil
assinaturas mínimas. Se define de centro-esquerda “sustentabilista,
progressista, humanista e ambientalista”. É o menor partido de esquerda com
eleitos ativos e compõe a federação com Psol.
Apesar do pequeno porte, a Rede teve alguns
destaques, hoje em outros partidos (senador Randolfe Rodrigues, deputados Miro
Teixeira, João Derly, Aliel Machado e Eliziane Gama), e hoje conta com Joênia
Wapichana (presidente da Funai), Túlio Gadelha, Lucas Abrahão e Heloísa Helena,
alguns deles governistas.
Outros nomes que já compuseram bancadas
importantes no partido e hoje estão fora podem ser aqui citados: Randolfe
Rodrigues (hoje PT), Alessandro Molon (PSB), João Derly (ex-PCdoB), Aliel
Machado (hoje PV), Eliziane Gama (hoje PSD) e Miro Teixeira (hoje PDT).
Pequenez compensada – Psol e Rede
formaram uma federação em 2023, de apoio a Lula 3, governo de frente
ampla. O porte da federação se equipara ao de partidos de centro menos
expressivos como Avante ou Solidariedade. Mas, a qualidade de
alguns quadros políticos compensa bem o pequeno tamanho.
Mesmo no PT, Randolfe Rodrigues é o terror dos
reacionários em CPIs. Célia Xakriabá ataca o Marco Temporal sem temer
ruralistas. Érika Hilton encaixa um quebra-cabeças fático em minutos. A
assertiva Sâmia Bomfim se inspira em Erundina, e em seu esposo Glauber Braga, a
verdade autêntica e corajosa.
A verdade corajosa típica revela as relações dos
parlamentares de Psol e Rede com adversários políticos e com o governo. A este,
podem se aliar conforme a essência da proposta. Seus inimigos políticos não
precisam ser opostos ideológicos: basta denunciar-lhes as sujeiras às instâncias
judiciárias competentes.
Não por acaso, Arthur Lira e seus aliados lutam
para banir Glauber Braga da política. Erika Hilton sofre ameaça de morte desde
que desmentiu Nikolas (pix) com sucesso. Jandira Feghali (PCdoB) já foi
ameaçada por Paulo Bilynsky. Xakriabá enfrentou o racismo de Kataguiri e a fúria dos representantes dos latifundiários.
Além do destaque pessoal na cena política, esses
gigantes mostram que não precisam estar em partidos de grande porte para se
revelarem. Eles já dão, por si mesmos, a sua grandeza ética diante dos antiéticos
que insistem em dominar a política. E o povo já os reconhece – justamente por
serem grandes.
Para saber mais
----
Graça à solidez de seu reduto eleitoral nos
morros cariocas dominados por facções e milícias, Jair Bolsonaro construiu sólida
carreira política. Influenciou os filhos Flávio, Carlos e Eduardo a ganhar vida
na política, mesmo a partir de cargos de assessoria ou suplência. O sobrenome
os catapultou para terem o mesmo sucesso do pai.
Ainda estudando Direito, Flavio se iniciou como
vereador, depois virou deputado estadual e hoje é senador. Político
inexpressivo, ele se compensou empregando gente do hoje finado chefe miliciano
Adriano da Nóbrega, a quem entregou, na prisão, medalha de honra ao mérito. Adriano
foi executado no interior baiano em 2021.
Inexperiente e com 18 anos incompletos, a mando
do pai, Carlos foi eleito para seu primeiro mandato como vereador carioca – e reeleito.
Aos 18, o irmão Eduardo se iniciou assessor
de gabinete de Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB. Estudou e se
formou em Direito, fez concurso de escrivão na PF e ficou pouco tempo no cargo.
Dudu – eleito deputado federal desde 2014, ele
seguiu as trocas partidárias do pai. Sua proposta legal mais conhecida visa criminalizar
o comunismo. Sua carreira se marcou por indecoros ofensivos. Em fevereiro/25, ele
se foi para os EUs por “licença particular” – coação contra a Justiça no
julgamento de seu pai. E não voltou mais.
As homenagens da direita do Congresso apenas
serviram para protelar a cassação do mandato de Eduardo, que seguia na coação –
crime pelo qual foi denunciado pela PGR e o STF já aceitou. Como ele já está há
11 meses nos EUs, seu mandato foi cassado por falta. E mesmo assim, custou.
E eis que ele recebeu um chamado da PF.
Humilhação final – ciente do mandato
cassado, a PF já chamou Eduardo para voltar e retomar seu cargo de escrivão em
30 dias. Só que a Mesa Diretora da Câmara cancelou seu passaporte diplomático,
o que impede sua volta e resultará em perda do cargo. Ele já recorrerá a um passaporte
apátrida, de quem não define o país de origem.
Quando reconhecido pelo governo do país-destino,
o passaporte apátrida permite a permanência legal. Agora, Eduardo certamente
não será recebido por Trump ou seus aliados, pois estará descreditado – o que pode
dificultar a obtenção do documento. Mas essa não será a primeira humilhação sofrida
por Eduardo nos EUs.
Em viagens anteriores, Eduardo e turba já depararam
com a distância fria de alguns congressistas trumpistas. Apenas uma vez houve conversa,
sem resultado. Já fecharam as portas nas suas caras. Ainda assim, Eduardo maquiava
com discursos sobre os “diálogos produtivos contra a ditadura do governo e do
judiciário”.
Em fria análise final, digamos que as
coisas dão certo e Eduardo chegue a tempo para retomar seu cargo público. Caso
isso ocorra, nos cabe perguntamos: de tantas imoralidades e crimes de
lesa-pátria, a retomada do cargo de escrivão não significará uma visão pública ruim à
imagem institucional da PF? Certamente
que sim.
Ao prender Lula em 2018, condenado por “fatos
indeterminados” por juízes curitibanos incompetentes para julgar processo federal
(daí a posterior nulidade pelo STF), a PF foi considerada “indigna de confiança”
em pesquisas de opinião pública, apesar do bolsonarismo em voga. Agora com os
Bolsonaro em baixa, como vai ser?
Sabemos que, se Eduardo Bolsonaro retomar seu
cargo de escrivão dentro dos prazos definidos em lei, a PF terá apenas cumprido
seu papel. Ainda assim, ela já não será bem vista. Mas, cá entre nós, dados os
crimes cometidos por ele – inclusive ofensas à diretoria da PF – ele não merece
esse cargo de volta de forma alguma. Por justiça!
Mas, a realidade parece se voltar contra Eduardo.
Se retornar ao Brasil, a chance de ser conduzido à prisão pela PF já no aeroporto é altíssima.
Daí querer o passaporte apátrida. Ficando nos EUs, ele se tornará foragido da
Justiça, procurado pela Interpol ou até ser preso, como Carla Zambelli
na Itália. Agora comemorando a invasão da Venezuela, ele cavou o seu próprio fim.
Para saber mais
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cdxjvk27egko
(Lula e Eduardo Bolsonaro reagem diferente à invasão da Venezuela por Trump).
-----


Nenhum comentário:
Postar um comentário