domingo, 4 de janeiro de 2026

LIGEIRINHAS 27 (Siglinhas de gigantes, destino de Dudu Bolsonaro)

 

SIGLAS PEQUENAS, NOMES GIGANTES

                A entrada de 2026 fecha as minhas reflexões sobre alguns fatos políticos do Brasil em 2025. Neste ano agitado houve vitórias populares, como rendas até R$ 5 mil sem IRRF, Vale-Gás, Luz para Todos e pleno emprego formal com menor dependência de Bolsa Família. Nesse tempo, novos nomes louváveis se insurgiram.
                A esquerda Fênix – surgido em 1980 e de rica história até ser o maior partido do Brasil, o PT não é o primeiro partido à esquerda. A 1ª sigla do Brasil foi o Partido Comunista Brasileiro (PCB), de 1922 até hoje. Logo após surgiram as siglas de caráter fascista, seguidas das liberais-democráticas de centro-direita.
                O PCB decaiu a partir dos anos 1950. Mas inspirou novas siglas de esquerda: PCdoB, democrático trabalhista (PDT), popular socialista (PPS, hoje Cidadania), socialista brasileiro (PSB) e Verde (PV), todos com eleitos ativos, mesmo minoritários no cenário político nacional. E há as siglas de visão radical.
                O PSTU (socialista dos trabalhadores unidos), PCO (causa operária), UP (unidade popular) e PCBR também não têm eleitos, sobrevivendo de militância. O PT teve dissidências que deram à luz o Psol (socialismo e liberdade) e o Rede sustentabilidade, ambos com representantes ativos hoje, e por isso, alvos desse presente artigo.
                Siglas de gigantes – fundado em 2004 pelos ex-PT Heloísa Helena, Babá, Luciana Genro e João Fontes, o Psol agregou depois Plínio de Arruda Sampaio, Chico Alencar, Marcelo Freixo, Guilherme Boulos, Ivan Valente, Glauber Braga, Sâmia Bonfim, Célia Xakriabá, Sonia Guajajara, Erika Hilton e intelectuais.
                A fundação foi um protesto contra a reforma previdenciária de 2003. Sua linha é de esquerda progressista (ecossocialismo, laicidade, proteção às culturas tradicionais originárias e à diversidade) e revolucionária (caráter marxista-leninista não stalinista). O TSED reconheceu o Psol como partido em 2005.
                Criado por Marina Silva em 2013, o Rede Sustentabilidade só virou partido em 2015, quando obteve as 500 mil assinaturas mínimas. Se define de centro-esquerda “sustentabilista, progressista, humanista e ambientalista”. É o menor partido de esquerda com eleitos ativos e compõe a federação com Psol.
                Apesar do pequeno porte, a Rede teve alguns destaques, hoje em outros partidos (senador Randolfe Rodrigues, deputados Miro Teixeira, João Derly, Aliel Machado e Eliziane Gama), e hoje conta com Joênia Wapichana (presidente da Funai), Túlio Gadelha, Lucas Abrahão e Heloísa Helena, alguns deles governistas.
                Outros nomes que já compuseram bancadas importantes no partido e hoje estão fora podem ser aqui citados: Randolfe Rodrigues (hoje PT), Alessandro Molon (PSB), João Derly (ex-PCdoB), Aliel Machado (hoje PV), Eliziane Gama (hoje PSD) e Miro Teixeira (hoje PDT).
                Pequenez compensada – Psol e Rede formaram uma federação em 2023, de apoio a Lula 3, governo de frente ampla. O porte da federação se equipara ao de partidos de centro menos expressivos como Avante ou Solidariedade. Mas, a qualidade de alguns quadros políticos compensa bem o pequeno tamanho.
                Mesmo no PT, Randolfe Rodrigues é o terror dos reacionários em CPIs. Célia Xakriabá ataca o Marco Temporal sem temer ruralistas. Érika Hilton encaixa um quebra-cabeças fático em minutos. A assertiva Sâmia Bomfim se inspira em Erundina, e em seu esposo Glauber Braga, a verdade autêntica e corajosa.
                A verdade corajosa típica revela as relações dos parlamentares de Psol e Rede com adversários políticos e com o governo. A este, podem se aliar conforme a essência da proposta. Seus inimigos políticos não precisam ser opostos ideológicos: basta denunciar-lhes as sujeiras às instâncias judiciárias competentes.
                Não por acaso, Arthur Lira e seus aliados lutam para banir Glauber Braga da política. Erika Hilton sofre ameaça de morte desde que desmentiu Nikolas (pix) com sucesso. Jandira Feghali (PCdoB) já foi ameaçada por Paulo Bilynsky. Xakriabá enfrentou o racismo de Kataguiri e a fúria dos representantes dos latifundiários.
                Além do destaque pessoal na cena política, esses gigantes mostram que não precisam estar em partidos de grande porte para se revelarem. Eles já dão, por si mesmos, a sua grandeza ética diante dos antiéticos que insistem em dominar a política. E o povo já os reconhece – justamente por serem grandes.
Para saber mais
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É VÁLIDO ELE VOLTAR À PF?

                Graça à solidez de seu reduto eleitoral nos morros cariocas dominados por facções e milícias, Jair Bolsonaro construiu sólida carreira política. Influenciou os filhos Flávio, Carlos e Eduardo a ganhar vida na política, mesmo a partir de cargos de assessoria ou suplência. O sobrenome os catapultou para terem o mesmo sucesso do pai.
                Ainda estudando Direito, Flavio se iniciou como vereador, depois virou deputado estadual e hoje é senador. Político inexpressivo, ele se compensou empregando gente do hoje finado chefe miliciano Adriano da Nóbrega, a quem entregou, na prisão, medalha de honra ao mérito. Adriano foi executado no interior baiano em 2021.
                Inexperiente e com 18 anos incompletos, a mando do pai, Carlos foi eleito para seu primeiro mandato como vereador carioca – e reeleito.  Aos 18, o irmão Eduardo se iniciou assessor de gabinete de Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB. Estudou e se formou em Direito, fez concurso de escrivão na PF e ficou pouco tempo no cargo.
                Dudu – eleito deputado federal desde 2014, ele seguiu as trocas partidárias do pai. Sua proposta legal mais conhecida visa criminalizar o comunismo. Sua carreira se marcou por indecoros ofensivos. Em fevereiro/25, ele se foi para os EUs por “licença particular” – coação contra a Justiça no julgamento de seu pai. E não voltou mais.
                As homenagens da direita do Congresso apenas serviram para protelar a cassação do mandato de Eduardo, que seguia na coação – crime pelo qual foi denunciado pela PGR e o STF já aceitou. Como ele já está há 11 meses nos EUs, seu mandato foi cassado por falta. E mesmo assim, custou. E eis que ele recebeu um chamado da PF.
                Humilhação final – ciente do mandato cassado, a PF já chamou Eduardo para voltar e retomar seu cargo de escrivão em 30 dias. Só que a Mesa Diretora da Câmara cancelou seu passaporte diplomático, o que impede sua volta e resultará em perda do cargo. Ele já recorrerá a um passaporte apátrida, de quem não define o país de origem.
                Quando reconhecido pelo governo do país-destino, o passaporte apátrida permite a permanência legal. Agora, Eduardo certamente não será recebido por Trump ou seus aliados, pois estará descreditado – o que pode dificultar a obtenção do documento. Mas essa não será a primeira humilhação sofrida por Eduardo nos EUs.
                Em viagens anteriores, Eduardo e turba já depararam com a distância fria de alguns congressistas trumpistas. Apenas uma vez houve conversa, sem resultado. Já fecharam as portas nas suas caras. Ainda assim, Eduardo maquiava com discursos sobre os “diálogos produtivos contra a ditadura do governo e do judiciário”.
                Em fria análise final, digamos que as coisas dão certo e Eduardo chegue a tempo para retomar seu cargo público. Caso isso ocorra, nos cabe perguntamos: de tantas imoralidades e crimes de lesa-pátria, a retomada do cargo de escrivão não significará uma visão pública ruim à imagem institucional da PF?  Certamente que sim.
                Ao prender Lula em 2018, condenado por “fatos indeterminados” por juízes curitibanos incompetentes para julgar processo federal (daí a posterior nulidade pelo STF), a PF foi considerada “indigna de confiança” em pesquisas de opinião pública, apesar do bolsonarismo em voga. Agora com os Bolsonaro em baixa, como vai ser?
                Sabemos que, se Eduardo Bolsonaro retomar seu cargo de escrivão dentro dos prazos definidos em lei, a PF terá apenas cumprido seu papel. Ainda assim, ela já não será bem vista. Mas, cá entre nós, dados os crimes cometidos por ele – inclusive ofensas à diretoria da PF – ele não merece esse cargo de volta de forma alguma. Por justiça!
                Mas, a realidade parece se voltar contra Eduardo. Se retornar ao Brasil, a chance de ser conduzido à prisão pela PF já no aeroporto é altíssima. Daí querer o passaporte apátrida. Ficando nos EUs, ele se tornará foragido da Justiça, procurado pela Interpol ou até ser preso, como Carla Zambelli na Itália. Agora comemorando a invasão da Venezuela, ele cavou o seu próprio fim.
Para saber mais
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cdxjvk27egko (Lula e Eduardo Bolsonaro reagem diferente à invasão da Venezuela por Trump).
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