A abundância de notícias de
desastres por extremos climáticos – tempestades, ondas de calor ou frio e secas
– chama a atenção coletiva. Em meio a ondas solidárias, alguns apontam “sinais
divinos”, outros culpam prefeituras e governos e outros, aquecimento global. Na
percepção de maior frequência e intensidade, pergunta-se: por que tanto extremo?
Enquanto climas temperados
têm 4 estações distintas, os tropicais têm 2: chuvosa (primavera-verão
no Brasil) e seca (outono-inverno), diferindo-se em médias térmicas e
pluviométricas. A dinâmica cíclica não é muito regular, havendo variações pontuais
em anos de série histórica, por poderosos fatores naturais e induzidos pelo
homem.
Fatores naturais – os de curto prazo são oceânicos (El
Niño- aquece o Pacífico equatorial; e La Niña- o contrário), podendo
chegar a 5 anos cada. Os de longo prazo, o Ciclo de Milankovich (mudança
angular no eixo de rotação terrestre em 23-35 mil anos) e a constância vulcânica
global em tempo parecido são bem documentados na geologia.
Os citados fenômenos
oceânicos respondem pelas mudanças geográficas de padrão meteorológico e
térmico no decorrer das estações, com intensidade e duração variáveis. Já os
outros dois são documentados como fatores de extinções em massa mediante
estudos geoquímicos e datações em estratos rochosos e colunas de gelo fóssil
polar.
Fatores artificiais – são induzidos por atividade humana intensiva a
partir da exploração de recursos maturais e de modificações ambientais
profundas e culminando nas atividades econômicas diversas. Compostos químicos industriais
poluem água, solo e ar por vários meios (agrotóxicos, armas químicas, acidentes),
e gases alteram a atmosfera.
O lema “Domar a natureza”
moldou culturas, valores e sistemas econômicos consolidando civilizações. Hoje,
quase 70% dos ambientes naturais foram alterados ou degradados, se tornando
irrecuperáveis em algumas regiões. A constância cumulativa em anos resulta em
importantes e profundas alterações na dinâmica climática.
Aquecimento global e
mudanças climáticas – há uma confusão popular
sobre os termos que já foram abordados no blog. Apesar das informações
midiáticas, a compreensão geral ainda é baixa. Fala-se muito de aquecimento global
como fenômeno recente, o que revela o desconhecimento da existência de formas
distintas e classificadas.
Os principais são CO2, metano
e vapor d’água. Seu volume no ar aumenta ou diminui conforme a
intensidade dos fenômenos naturais (vulcões, decomposição orgânica, umidade),
mas sem a constante sobrecarga intensiva da ação antrópica. A atividade
econômica os emite até 150 vezes mais do que erupções vulcânicas e decomposição
juntas.
Mudança climática é a oscilação no padrão sobretudo climático. A natural
foi longa e gradual, determinada por ciclo de Milankovich, ciclos solares e
gás-estufa, com extremos meteorológicos mais raros. Já a antrópica é a
mudança exacerbada e rápida, e se caracteriza por extremos sazonais e meteorológicos
mais intensos e frequentes.
Decorrências – apesar da atualidade midiática dos extremos meteorológicos,
a ciência aponta a história da Terra recheada de mudanças climáticas. As Terra
bola de neve de 717-635 milhões de anos atrás e as alternâncias glaciais-interglaciais
de 2,6 milhões de anos ao presente são as mais conhecidas em interferências do
clima sobre toda a biosfera.
A humanização das tragédias
climáticas tem nas narrativas dos escribas da Antiguidade os seus primeiros
registros. Mas a indução sobre s efeitos globais do fenômeno só veio com a teoria
da evolução por seleção natural de Darwin no século XIX, e as medições históricas
das médias térmicas globais, trefinadas e tornadas obrigatórias no século XX.
A humanização da tragédia
climática não só reforça a comprovação científica das mudanças do clima na
história do planeta. Ela também nos faz pensar que existe uma mutualidade retroalimentar
na relação entre pressão ambiental sobre os seres vivos (aí inclusas as sociedades
humanas) e as reações destes ao próprio meio, ontem, hoje e amanhã.
As mudanças climáticas são originalmente
naturais. Mas nossas ações acumuladas as apressaram o aquecimento natural, e veio a emergência
climática – que agora vivemos e nos preocupa. Há solução? Não vejo um
retorno, mas é possível estabilizar as condições atuais, a elas nos adaptar e manter
a biodiversidade ainda vigente por mais tempo. Mas aí já envolve uma política única
e coletiva para toda a comunidade global – cuja viabilidade só a experiência
dirá.
Nota: [1] espécies
fósseis indicadoras de especificidades ambientais (clima, substrato ou fonte
alimentar, profundidade em meio aquático, etc.)
Para saber mais
https://www.youtube.com/watch?v=Tuq4kdoYNrE&t=221 (BBC News Brasil – 4 falácias sobre as
mudanças climáticas, 26/12/23)
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Brasil, anos 1935-40: enquanto grandes inundações destruíram
habitações e mataram pessoas no Sul, secas severas no Norte e no sertão nordestino
desencadearam fome e êxodos massivos para o Centro-Sul, que sofria efeitos dos extremos. Os migrantes viraram operários agropecuários no centro-oeste e industriais no Sudeste. Em 1983, o Brasil reviveu os mesmos extremos. E em
2023-24, novamente o Sul foi inundado.
Brasil, 1971: foi fundado em SP o Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), por influência da competição sideral
entre EUs e URSS e do interesse em estudar o clima e o mapa de biomas com satélites
de pesquisa. Através dos mapeamentos do INPE, a Amazônia era canteiro de obras
para militares e manto de riquezas para os empresários, o cerrado e o Pantanal
campos agropecuários, e a o sertão da caatinga, uma região desolada e pobre.
Nos mais de 50 anos que se seguiram, os biomas brasileiros
têm sofrido com a intensa predação econômica humana. Povos indígenas – alguns
deles inteiros – sumiram do mapa cultural e linguístico. Rios antes naturais,
que ofereciam água de beber e divertiram muitos, degradaram ou
desapareceram deixando saudades. Nas cidades, hortas de quintal deram lugar alimentos caros e cimento estéril, e também poluição, lixo, degradação e mais recordações dos saudosistas.
Essa foi a senha para outra mudança drástica, a do
clima e dos fenômenos meteorológicos. Todo mundo reparou como calorões duram mais
tempo do que antes e as chuvas se concentraram em poucos dias. Desastres por temporais
sempre existiram, mas eram relativamente esparsos e mais ou menos previsíveis. Hoje
surgem em qualquer época e, às vezes, imprevistos na sua intensidade e
frequência – apesar das chuvas corretamente previstas.
Como já explicado no artigo anterior, a mudança
climática – apressada e exacerbada pela ação humana mais predatória e
gananciosa – se marca de extremos meteorológicos cada vez mais intensos
e frequentes, que sentimos a cada temporada de calorão que impede um passeio agradável
ao ar livre ou nos obriga a botar móveis para o alto a cada temporada agora
imprevisível de enchentes. E, nessa história toda, o que têm feito as partes governantes?
Governos – a maioria dos governos tem exercido medidas de remediação
do desastre, sobretudo na infraestrutura urbana, a partir dos repasses de
recursos por governos federais, enquanto ondas solidárias sempre fazem a sua parte com donativos
em alimentos e vestuário. Mas tais medidas são temporárias e nem sempre dão
certo – seja por parcialidade na reconstrução, insuficiência de recursos (ou
corrupção mesmo), ou despreparo para a repetição de extremos climáticos.
Entre as péssimas exceções, o motivo é o negacionismo
climático – que anda de mãos dadas com greenwashing (engodo publicitário
de falsa ecologia) empresarial, que abundou na COP30, que resultou em
mais fracassos do que vitórias, e agora marca o governo Trump 2. Mas vale
ressaltar: o negacionismo não é apenas de empresário e político. Ele também está
no comportamento da patuleia.
A patuleia – em geral, o povo concorda que o clima “está
cada vez pior porque agredimos a natureza”. Mas depois esquece: no primeiro
momento cortam uma árvore e a descartam ou aproveitam a madeira para seus
luxos. Depois reclamam da feiura paisagística de concreto ou da falta da sombra
fresca de outrora. Nos hoje raros quintais, pomares e hortas dão lugar ao cimento
e a alimentos processados e caros.
Por isso que nós somos outro fator de extremos meteorológicos.
Acostumado com medidas de remediação de desastres, o povo contribui com
políticos omissos. Acham que “os garis são pagos pra limpar nossa sujeira”,
o que não é verdade. A árvore frutífera retirada com raízes pode ser replantada
em local mais adequado, longe da fiação elétrica. Se fossem respeitadas, as
lixeiras não seriam retiradas dos postes.
Solução múltipla – é preciso reconhecer: a emergência
climática se iniciou com a era nuclear (anos 1950-presente). Surgidos nessa época, os satélites aperfeiçoaram a Climatologia, que mapeou regiões críticas, identificou invernos nucleares acidentais e ciclones furiosos com nomes femininos. De início sutil no hemisfério Norte, o novo padrão
climático agora é global – mas só agora o admitimos ao percebermos o mundo 1,5°C
mais quente.
Com esse novo acréscimo, admitimos que o novo clima não
tem mais retorno. Daí a insistência de alguns geólogos de nomearem o
momento a partir dos efeitos da era nuclear há 70 anos, de Antropoceno. O que não significa que a biosfera que
nos envolve findará logo. Ainda há como corrermos atrás de uma solução
múltipla – que começa em repensarmos nossos conceitos nesse tema, já
combatendo o negacionismo e planejando ideias.
A solução depende de todos: sociedade, empresas,
políticos. Conscientização ampla sobre consumo e descarte, recuperação de áreas
degradadas improdutivas com espécies nativas e novas zonas de proteção
permanente, agroecologia ampla, tratamento de esgoto e outros poluentes,
filtragem de escape de veículos e fábricas e combate ao crime organizado
florestal são as políticas principais. Jardins arborizados em praças e
edifícios ajudam.
Os resultados não reverterão o novo padrão global, mas
já serão suficientes para prolongar a habitabilidade planetária em conforto
relativo. Os locais surgem mais rápido, e os mais amplos poderão levar um ou
mais séculos. De qualquer forma, as ações beneméritas amplas já eram para serem
executadas, como as medidas preventivas contra desastres possíveis por
futuros extremos meteorológicos. Mas, claro, tudo tem que ser bem planejado.
Claro que a remediação vai ser necessária. Mas os gastos públicos relaciondos serão bem menores em cidades que adotarem políticas preventivas. A omissão negacionista que origina a desculpa
“não imaginava isso tudo” não deve mais continuar um minuto sequer. A oportunidade de todos revermos nossos
conceitos – especialmente governos e empresários – é agora. A continuidade do protelamento dessas novas políticas significa a opção pelo estrago e pelo sofrimento popular e econômico. Mesmo parcialmente culpado pelos desastres atuais, o povo não pode pagar sozinho.
Para saber mais
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