YPÊ E A BACTÉRIA COMUNISTA
Na primeira semana de maio, a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (ANVISA) determinou recolhimento de mais de 20 diferentes
produtos da marca Ypê nos comércios e residências em todo o Brasil. A
notícia surpreendeu geral, e não é sem razão. Seus produtos saneantes (higiene
e limpeza) são bastante consumidos.
A fabricante — especializada em produtos saneantes, a Ypê pertence
à Amparo Indústria Química. O nome se deve ao município do interior
paulista onde foi fundada em 1950. Hoje a Amparo tem unidades fabris em Salto
(SP), Simões Filho (BA), Anápolis (GO), Goiânia (GO) e Itapissuma (PE).
No setor, a Ypê compete no mercado com outras
pertencentes a marcas nacionais (Bombril, Girando Sol) e multinacionais
(Santher, Softys e as dos portfólios Reckitt Benckiser,
que inclui fármacos e alimentos, e P&G, que fabrica creme dental e
fraldas descartáveis).
Com tanto tempo no mercado, é natural a sua
popularidade, mesmo com concorrentes fortes como os citados. Até iniciar maio,
quando surgiu um calhau (termo jornalístico para textos de capa pequenos
e pouco relevantes) sobre uma “dura fiscal” justamente na sede de Amparo.
Um detalhe: essa não é a primeira irregularidade encontrada em produtos da Ypê. Em novembro de 2025, a sede paulista da Amparo ordenou recolhimento voluntário (recall) por suspeita de contaminação.
Entra a Anvisa — os fabricantes executam controle de
qualidade nos laboratórios produtivos. Segundo o blog Semear Foods, as normas para os saneantes são a RDC[1] 989/2025 e a Instrução
Normativa-IN 394/2025, com novos critérios para a sua regularização. Nesse sentido, segundo a mesma fonte, cada categoria de setor
produtivo tem normas específicas.
A Anvisa é conhecida pelo rigor resolutivo, mais
restritivo do que o da FDA estadunidense em certos casos. Para a Regulatory
Affairs/Global Business-RAGB, nem saneantes escapam desse rigor. E foi
neles que a dura fiscal descobriu algo que não devia estar nos conteúdos.
Bactéria perigosa — o algo indevido é a bactéria Pseudomonas
aeruginosa. Tem ampla distribuição ambiental (locais úmidos e com água –
instalações residenciais, comerciais, hoteleiras e hospitalares; solos e cursos
d’água em geral). Suas colônias criam um biofilme superficial cheirando a uva. Um odor capaz de enganar pessoas incautas com facilidade.
Esse microrganismo tem vida livre, mas pode infectar alguém oportunamente. É oportunista. Tem
risco patogênico baixo, mas com potencial bem grave em pessoas imunodeprimidas
(transplantados, crianças, idosos, hospitalizados de longo tempo). Mas pode
infectar saudáveis em momento propício.
Enquanto fontes diversas recomendavam a suspensão de
uso doméstico até sair o relatório final da Anvisa, a Ypê disse “não ter
problema”. Entrou com recurso, mas no fim cedeu à medida da agência. Nesse
ínterim, importante parcela do povo se rebelou.
Politização do caso, uma análise final – a notícia caiu na
má politização. Populares bolsonaristas protestaram alegando “injustiça” com a
marca e acusaram o governo. O oportunista senador bolsonarista Cleitinho criticou a agência reguladora, e o papagaiesco Véio da Havan se filmou fazendo uso de detergente.
São protestos em conduta de seita: produtos Ypê
quase mágicos de tão “infalíveis” – mesmo sendo a 2ª irregularidade na
marca em menos de 1 ano. Um homem se ensaboa, outro “bebe” e uma mulher lava o
frango com detergente. Chamaram a bactéria de comunista, que não viveria nos "poderosos" detergentes. Uma tragédia mental que rendeu
memes.
Nessa confusão bizarra de tradição com infalibilidade,
acreditem, o protesto tem um sentido. A Ypê foi uma das entidades privadas que financiaram as campanhas de Bolsonaro
em 2018 e 22, em cifras milionárias, sem falar dos valores do fundão partidário
– e olha que o patrocínio privado de campanha política é ilegal desde 2016!
Mas o que torna o contexto mais bizarro é o fato de
que, no recall de novembro/25, não houve alarde nas mídias, nem reação
bolsonarista. O que ajuda a explicar o furor atual é a influência de políticos
e empresários e a sucessão de escândalos envolvendo o presidenciável Flávio Bolsonaro, cuja imagem já se infecciona com aumento de rejeição nas intenções de voto. Nesse sentido, valeuzão aí, bactéria comunista!
Entretanto, dado o baixo potencial patogênico dessa bactéria "comunista", todo cuidado é pouco.
Nota: [1] Resolução da Decisão Colegiada, das agências reguladoras, que seguem padrão de votação muito idêntico ao das decisões colegiadas dos tribunais
superiores. Cada votação de Resolução para categoria específica de produtos é prececida de sua RDC.
Para saber mais
- https://ragb.com.br/ (sobre a empresa de
consultoria)
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Conforme previamente prometido na mídia, 2026 entrou
quente. Primeiro, as notícias de ser um ano de super El Niño, cuja chance a
ciência aposta em 37% a partir de outubro. Justamente o mês em que outro tema
aquecerá no ápice: as eleições federais e estaduais. Presidenciáveis e
candidatos a governadores, senadores e deputados já se agitam nos bastidores.
O povo se atenta mais à presidência. Diante da
incontestável liderança de Lula mesmo no Brasil bolsonarizado por intermédio
das sedes evangélicas caça-níqueis, o senador Flávio Bolsonaro aparece como
candidato da ultradireita. E é ele o adversário que funga nas costas de Lula. Seu
2º lugar nas pesquisas se deve ao sobrenome e não pelos feitos no Congresso.
Nos 8 anos de senado, sua atuação se resume a dados
mentirosos em debates e tumultos na falta de argumentos quando confrontado. Sua
única proposta foi a da privatização das praias. Após a borrada em debate como
prefeitável carioca há anos atrás, ele agora enfrenta Lula com jogo sujo:
incentivado pelo irmão auto asilado nos EUs, ele foi lá encontrar Trump.
Quem o ridicularizou devido ao suposto elogio de Trump
a Lula se enganou ao tentar subestimá-lo. Flávio não foi lá à toa: em seguida,
a mídia divulgou que Trump designou nossas maiores facções narcotraficantes (CV-RJ
e PCC-SP) de terroristas globais argumentando a internacionalização de
seus negócios. E meteu taxa de 25% em transações com o Pix.
Pretexto para o golpe final— a declaração de
Trump foi comemorada pelos bolsonaristas no Congresso, alegando segurança
pública. Mas todos sabem: é só caô. Que Flávio vendeu em entrevista à CNN
Brasil: “gostaria muito que houvesse intervenção das forças militares dos
EUs na baía de Guanabara”. O que certamente ninguém captou é outro intento mais
profundo por trás.
Ao ser confrontado, em pergunta posterior sobre reação
institucional (STF) à intervenção de força estrangeira nesse caso, o
presidenciável confessou à CNN Brasil, com desconcertante
naturalidade, que “se necessário, usaremos a força para impedirmos o STF. E
se o STF insistir, então será decretada a intervenção das Forças Armadas e será
preciso aplicar um golpe de Estado”.
Tais afirmações são muito reveladoras. À CNN
Brasil, o ministro dos Transportes Renan Filho alertou: “vejam o
Trump. Ele está mais agressivo agora nesse segundo governo. Aqui, se Jair Bolsonaro foi mais manso, o
filho Flávio, se eleito, vai usar o poder para impor uma ditadura que pode ser
pior do que a que tivemos. Vai abolir a liberdade de imprensa, os direitos
civis”. (com adaptações).
Alerta claro. Se eleito, Flávio Bolsonaro usará a
força para se perpetuar no poder. Sua intolerância às instituições democráticas
é bem clara. A “liberdade de expressão” bolsonarista se restringe ao ditador,
ao capital e, claro, ao crime organizado. Os Bolsonaro são aliados a
braços políticos do CV e ligados a gente da milícia, como os militares da ditadura
com bicheiros.
Significado eleitoral— a prova de escândalos
financeiros envolvendo Flávio e Vorcaro foi o fator de maior impacto, com queda
nas intenções de voto nele. E quem viu e notou os intentos dele naquela
entrevista se indaga sobre o seu futuro político, com base nos arts 359-L (atentado
violento ao Estado democrático de direito) e 359-M (golpe de Estado)
do Cód. Penal, e art 136 daCF-1988 (intervenção estrangeira indevida),
bem como a Lei Antiterror.
Em fria análise final, a citação à lei antiterror
se liga ao viés dos atos pretendidos por Flávio Bolsonaro. O viés de seita cristofascista
abre caminho para a execução de atos terroristas, que no conceito defendido
no direito internacional e brasileiro se definem na condução pelo ódio. O
bolsonarismo odeia a diversidade social, a institucionalidade republicana e,
portanto, a democracia.
Portanto, podemos dizer que, dada a sua essência baseada
no sentimento de ódio, o bolsonarismo é uma mostra do terror político-ideológico
que, quiçá, poderá alcançar a diversidade religiosa para refutá-la. É,
portanto, terrorista. Só que eleitoralmente tende a estar na berlinda. Mas, nunca
o subestimemos.
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