domingo, 4 de janeiro de 2026

LIGEIRINHAS 27 (Siglinhas de gigantes, destino de Dudu Bolsonaro)

 

SIGLAS PEQUENAS, NOMES GIGANTES

                A entrada de 2026 fecha as minhas reflexões sobre alguns fatos políticos do Brasil em 2025. Neste ano agitado houve vitórias populares, como rendas até R$ 5 mil sem IRRF, Vale-Gás, Luz para Todos e pleno emprego formal com menor dependência de Bolsa Família. Nesse tempo, novos nomes louváveis se insurgiram.
                A esquerda Fênix – surgido em 1980 e de rica história até ser o maior partido do Brasil, o PT não é o primeiro partido à esquerda. A 1ª sigla do Brasil foi o Partido Comunista Brasileiro (PCB), de 1922 até hoje. Logo após surgiram as siglas de caráter fascista, seguidas das liberais-democráticas de centro-direita.
                O PCB decaiu a partir dos anos 1950. Mas inspirou novas siglas de esquerda: PCdoB, democrático trabalhista (PDT), popular socialista (PPS, hoje Cidadania), socialista brasileiro (PSB) e Verde (PV), todos com eleitos ativos, mesmo minoritários no cenário político nacional. E há as siglas de visão radical.
                O PSTU (socialista dos trabalhadores unidos), PCO (causa operária), UP (unidade popular) e PCBR também não têm eleitos, sobrevivendo de militância. O PT teve dissidências que deram à luz o Psol (socialismo e liberdade) e o Rede sustentabilidade, ambos com representantes ativos hoje, e por isso, alvos desse presente artigo.
                Siglas de gigantes – fundado em 2004 pelos ex-PT Heloísa Helena, Babá, Luciana Genro e João Fontes, o Psol agregou depois Plínio de Arruda Sampaio, Chico Alencar, Marcelo Freixo, Guilherme Boulos, Ivan Valente, Glauber Braga, Sâmia Bonfim, Célia Xakriabá, Sonia Guajajara, Erika Hilton e intelectuais.
                A fundação foi um protesto contra a reforma previdenciária de 2003. Sua linha é de esquerda progressista (ecossocialismo, laicidade, proteção às culturas tradicionais originárias e à diversidade) e revolucionária (caráter marxista-leninista não stalinista). O TSED reconheceu o Psol como partido em 2005.
                Criado por Marina Silva em 2013, o Rede Sustentabilidade só virou partido em 2015, quando obteve as 500 mil assinaturas mínimas. Se define de centro-esquerda “sustentabilista, progressista, humanista e ambientalista”. É o menor partido de esquerda com eleitos ativos e compõe a federação com Psol.
                Apesar do pequeno porte, a Rede teve alguns destaques, hoje em outros partidos (senador Randolfe Rodrigues, deputados Miro Teixeira, João Derly, Aliel Machado e Eliziane Gama), e hoje conta com Joênia Wapichana (presidente da Funai), Túlio Gadelha, Lucas Abrahão e Heloísa Helena, alguns deles governistas.
                Outros nomes que já compuseram bancadas importantes no partido e hoje estão fora podem ser aqui citados: Randolfe Rodrigues (hoje PT), Alessandro Molon (PSB), João Derly (ex-PCdoB), Aliel Machado (hoje PV), Eliziane Gama (hoje PSD) e Miro Teixeira (hoje PDT).
                Pequenez compensada – Psol e Rede formaram uma federação em 2023, de apoio a Lula 3, governo de frente ampla. O porte da federação se equipara ao de partidos de centro menos expressivos como Avante ou Solidariedade. Mas, a qualidade de alguns quadros políticos compensa bem o pequeno tamanho.
                Mesmo no PT, Randolfe Rodrigues é o terror dos reacionários em CPIs. Célia Xakriabá ataca o Marco Temporal sem temer ruralistas. Érika Hilton encaixa um quebra-cabeças fático em minutos. A assertiva Sâmia Bomfim se inspira em Erundina, e em seu esposo Glauber Braga, a verdade autêntica e corajosa.
                A verdade corajosa típica revela as relações dos parlamentares de Psol e Rede com adversários políticos e com o governo. A este, podem se aliar conforme a essência da proposta. Seus inimigos políticos não precisam ser opostos ideológicos: basta denunciar-lhes as sujeiras às instâncias judiciárias competentes.
                Não por acaso, Arthur Lira e seus aliados lutam para banir Glauber Braga da política. Erika Hilton sofre ameaça de morte desde que desmentiu Nikolas (pix) com sucesso. Jandira Feghali (PCdoB) já foi ameaçada por Paulo Bilynsky. Xakriabá enfrentou o racismo de Kataguiri e a fúria dos representantes dos latifundiários.
                Além do destaque pessoal na cena política, esses gigantes mostram que não precisam estar em partidos de grande porte para se revelarem. Eles já dão, por si mesmos, a sua grandeza ética diante dos antiéticos que insistem em dominar a política. E o povo já os reconhece – justamente por serem grandes.
Para saber mais
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É VÁLIDO ELE VOLTAR À PF?

                Graça à solidez de seu reduto eleitoral nos morros cariocas dominados por facções e milícias, Jair Bolsonaro construiu sólida carreira política. Influenciou os filhos Flávio, Carlos e Eduardo a ganhar vida na política, mesmo a partir de cargos de assessoria ou suplência. O sobrenome os catapultou para terem o mesmo sucesso do pai.
                Ainda estudando Direito, Flavio se iniciou como vereador, depois virou deputado estadual e hoje é senador. Político inexpressivo, ele se compensou empregando gente do hoje finado chefe miliciano Adriano da Nóbrega, a quem entregou, na prisão, medalha de honra ao mérito. Adriano foi executado no interior baiano em 2021.
                Inexperiente e com 18 anos incompletos, a mando do pai, Carlos foi eleito para seu primeiro mandato como vereador carioca – e reeleito.  Aos 18, o irmão Eduardo se iniciou assessor de gabinete de Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB. Estudou e se formou em Direito, fez concurso de escrivão na PF e ficou pouco tempo no cargo.
                Dudu – eleito deputado federal desde 2014, ele seguiu as trocas partidárias do pai. Sua proposta legal mais conhecida visa criminalizar o comunismo. Sua carreira se marcou por indecoros ofensivos. Em fevereiro/25, ele se foi para os EUs por “licença particular” – coação contra a Justiça no julgamento de seu pai. E não voltou mais.
                As homenagens da direita do Congresso apenas serviram para protelar a cassação do mandato de Eduardo, que seguia na coação – crime pelo qual foi denunciado pela PGR e o STF já aceitou. Como ele já está há 11 meses nos EUs, seu mandato foi cassado por falta. E mesmo assim, custou. E eis que ele recebeu um chamado da PF.
                Humilhação final – ciente do mandato cassado, a PF já chamou Eduardo para voltar e retomar seu cargo de escrivão em 30 dias. Só que a Mesa Diretora da Câmara cancelou seu passaporte diplomático, o que impede sua volta e resultará em perda do cargo. Ele já recorrerá a um passaporte apátrida, de quem não define o país de origem.
                Quando reconhecido pelo governo do país-destino, o passaporte apátrida permite a permanência legal. Agora, Eduardo certamente não será recebido por Trump ou seus aliados, pois estará descreditado – o que pode dificultar a obtenção do documento. Mas essa não será a primeira humilhação sofrida por Eduardo nos EUs.
                Em viagens anteriores, Eduardo e turba já depararam com a distância fria de alguns congressistas trumpistas. Apenas uma vez houve conversa, sem resultado. Já fecharam as portas nas suas caras. Ainda assim, Eduardo maquiava com discursos sobre os “diálogos produtivos contra a ditadura do governo e do judiciário”.
                Em fria análise final, digamos que as coisas dão certo e Eduardo chegue a tempo para retomar seu cargo público. Caso isso ocorra, nos cabe perguntamos: de tantas imoralidades e crimes de lesa-pátria, a retomada do cargo de escrivão não significará uma visão pública ruim à imagem institucional da PF?  Certamente que sim.
                Ao prender Lula em 2018, condenado por “fatos indeterminados” por juízes curitibanos incompetentes para julgar processo federal (daí a posterior nulidade pelo STF), a PF foi considerada “indigna de confiança” em pesquisas de opinião pública, apesar do bolsonarismo em voga. Agora com os Bolsonaro em baixa, como vai ser?
                Sabemos que, se Eduardo Bolsonaro retomar seu cargo de escrivão dentro dos prazos definidos em lei, a PF terá apenas cumprido seu papel. Ainda assim, ela já não será bem vista. Mas, cá entre nós, dados os crimes cometidos por ele – inclusive ofensas à diretoria da PF – ele não merece esse cargo de volta de forma alguma. Por justiça!
                Mas, a realidade parece se voltar contra Eduardo. Se retornar ao Brasil, a chance de ser conduzido à prisão pela PF já no aeroporto é altíssima. Daí querer o passaporte apátrida. Ficando nos EUs, ele se tornará foragido da Justiça, procurado pela Interpol ou até ser preso, como Carla Zambelli na Itália. Agora comemorando a invasão da Venezuela, ele cavou o seu próprio fim.
Para saber mais
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cdxjvk27egko (Lula e Eduardo Bolsonaro reagem diferente à invasão da Venezuela por Trump).
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

LIGEIRINHAS 26 (serão mesmo novos tempos?)

 

TRUMP FINDOU O SÉCULO XX?

                Para “fazer a América grande de novo”, Donald Trump fez a sua política interna. Deportou milhares de imigrantes ilegais. Demitiu servidores públicos. Cortou benefícios a aposentados e vulneráveis. Revogou políticas inclusivas e trabalhistas de Joe Biden. Aumentou impostos para “recuperar o PIB interno” e meteu tarifaços em produtos importados.
                Sua política externa é hostil. Alega “combate ao narcotráfico” ao bombardear embarcações no mar do Caribe e já acertou petroleiros. A paz nas zonas de guerra segue incerta. Ao tarifaço, ameaça aos BRICS e ao desejo de anexar territórios vieram incidentes diplomáticos. Meteu lei Magnitsky em autoridades brasileiras. Aprofundou sanções econômicas a Cuba, Coreia do Norte, Venezuela e Rússia.
                Os recentes bombardeios ao território da Venezuela e a um petroleiro desse país ameaça toda a América Latina, onde também excita a direita reacionária em alguns países. A ameaça ao BRICS revela o seu medo de perder controle econômico sobre o Sul Global: é que os BRICS discutem a criação de sua moeda, capaz de competir em páreo com o Euro e o Dólar na hegemonia econômica global.
                Trump acredita que a tripartição da hegemonia cambial de dólar, euro e “Brics” (a suposta moeda dos BRICS) pode irritar o orgulho estadunidense típico. Mas não se registra temor de possível nova depressão econômica, e sim a maior relevância da multipolaridade no setor. Daí veio o tarifaço – cujo efeito de ameaça aos BRICS foi totalmente inverso: o bloco se fortaleceu.
                Impacto socioeconômico interno – as medidas de Trump se refletiram muito na vida ods estadunidenses. Imagens de redes sociais revelaram “desertos urbanos”, com restaurantes e lojas fechados movimentados por imigrantes. Agora contratando mão-de-obra nativa mais cara, a produção rural encareceu refletindo, assim, em inflação maior para o consumidor final.
                Postagens diversas em redes sociais mostraram a vida social estadunidense bem afetada pelas políticas. As deportações distanciaram amizades e romperam amores. Mesmo qualificada, a mão-de-obra nativa foi insuficiente para cobrir o vazio repentino de pessoal necessário à boa produção interna, que ficou ainda mais cara refletindo nos preços de seus bens e serviços.
                A xenofobia dos supremacistas autodeclarados anglo-saxões se fortaleceu. Com o corte de benefícios sociais, uma onda de novos desamparados se revelou, explodindo a população de rua nas cidades de todo o país e aumentando as desigualdades internas e a epidemia de fentanil e heroína, que os nossos jornalões sempre se recusaram a mostrar.
                O tarifaço foi a resposta de Trump aos governos “adversários” que não se submetem a seus caprichos. Mas seu efeito se voltou contra os estadunidenses, impedidos de consumir produtos importados tão encarecidos. Assim como Lula conseguiu novos parceiros importadores de café, carne e grãos, os restantes dos BRICS também se rearranjaram de boa.
                Alvo de reclames e protestos dos estadunidenses, o encarecimento severo dos produtos importados fez Trump revogar o tarifaço de numerosos produtos dos países-alvos, permitindo a volta do consumo interno. Mas o Brasil mantém seu rearranjo de parcerias e a inflação dos EUs se mantém relativamente alta devido à carestia dos meios internos de produção.
                O fim da hegemonia? – enquanto os estadunidenses lidam com os impactos sociais que mais parecem os de um país emergente, o mundo segue direção multipolar. A possível moeda Brics já citada poderá completar e consolidar essa tendência inevitável, que pode se tornar a marca registrada da vida global do século XXI. E essa impressão de liberdade já foi publicada na Carta Capital de 22/12.
                Escrita pelo correspondente internacional Jamil Chade, hoje no ICL Notícias, a coluna Adeus, século XX reflete a impressão de que “o fim de 2025 pode encerrar o século XX” – graças a Trump. Explico: no século XX, os EUs se autoproclamavam a referência global de ordem, democracia, liberdade e pujança. Mas, às custas da espoliação de recursos dos países emergentes – e de milhões de vidas.
                Interpretando a coluna, a impressão do momento atual é que, ao tentar o ufanismo político contra os demais países, Trump apequenou sua própria nação ao se negar a entender e conviver com o multilateralismo político e econômico inevitável, num desmonte da antiga hegemonia iniciada no fim do século XIX e com ápice no XX.
                Trump enfraqueceu os orgulhosos EUs. Só enfrenta governos adversários menores como na Vebezuela, Nicarágua ou Cuba. Ainda assim, tais governos seguem ilesos. Evita enfrentar a Rússia de Putin e a China de Jinping reconhecendo-os como construtores de superpotências econômicas, tecnológicas e armamentistas – sem darem um único tiro nele.
                Já o ministro aposentado do STF Celso de Mello vê no texto uma advertência: apesar do multilateralismo exigir a partilha harmônica da hegemonia com China e Rússia, não subestimemos Trump. A ameaça à América Latina é grande e o bastião da paz será o Brasil. Será essa a geopolítica do século XXI? No que vai dar? Bem, o espetáculo já se inicia. Nos cuidemos.
Para saber mais
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O QUE ESPERAR DE 2026

                Convencionalmente, 2026 se iniciou. No breve rito de passagem chamado réveillon – termo francês para tornar chique e turística a tradição afro-brasileira do axé –, o povo festejou o nascer do novo ano. Ecoados antes, os desejos de amor, prosperidade e paz foram brindados com espumantes e fogos de artifício.
                 Não sigo mais fé nem religião alguma, e minha luta me tornou mais realista a cada ano novo. O ano não fica melhor por mágica, e sim por nossos esforços para tanto – o que não me impede de desejar tudo de bom aos meus próximos como todo mundo. A tradição do bem desejar nos torna socialmente mais coesos.
                Entre sobressaltos sociopolíticos, 2025 terminou com algumas vitórias para a nação. O STF condenou e prendeu Bolsonaro e seu bando golpista de 8/1. Ainda falta justiça às 700 mil vítimas da C19. Rendas até R$ 5mil se livraram do Leão; Vale-Gás e Luz para Todos voltaram; maior renda per capita e menor desemprego da história foram importantes.~
                Parece que a consciência política popular melhorou. Lula subiu nas pesquisas após o povo perceber o peso do Congresso. Daí muitos entenderem que de nada adianta eleger presidente bom e um Congresso péssimo. Maus influenciadores vão perdendo palco. 2025 deixou portas abertas para dias melhores, cabe a nós sermos inteligentes.
                A festa de Ano Novo me fez observar o prefeito carioca Eduardo Paes. Competente administrador e político, conhece a cidade como poucos. Velho aliado de Lula, abraçou evangélicos bolsonaristas em 2025. Como prometeu a Mafalaia e Macedo, ergueu o Palco Gospel em Copacabana. Vieram as críticas à conduta do prefeito.
                Primeiro: o Palco Gospel em Copacabana empurrou a tradição do axé para outras praias, como a da Urca. Segundo: foi investida grana pública, paga também por descrentes e não cristãos, para satisfazer a apenas um segmento religioso. O axé sempre foi praticado sem intervenção estatal.  Até cristãos concordaram com a crítica.
                Paes não gostou das críticas, mas elas foram razoáveis. Além de desrespeitar um espaço tradicional afro-brasileiro, o patrocínio público violou o art 19 da CF-1988 referente à laicidade de Estado. E privilegiar um segmento religioso em detrimento dos demais violou os direitos e garantias fundamentais da Carta laica
                Sim, entramos em ano eleitoral. Mas, pela letra fria da lei, ainda é cedo para campanha eleitoral. Paes é pré-candidato a governador do RJ (aí ok), e certamente será eleito após conquistar os neopentecostais na festa. Mas, talvez como voto crítico, muitos investirão no gigantesco Glauber Braga nas urnas. Sim, Glauber Braga!
                Após escapar de duas tentativas de cassação de seu mandato com ajuda da pressão popular em todo o país, ele pode ser um adversário difícil para Paes e outros da direita. Se for golpeado durante seu tempo de suspensão, ele crescerá mais ainda. E deveria ser uma lição para os mineiros, que andam ruim de escolher governador para MG.
                2026 será, certamente, o ano da colheita para Lula – que não pode reconstruir tudo oque quis por encontrar impedimentos do Congresso. E será o de nova semeadura também. Enquanto ele segue líder para a presidência, os pleitos para os governos estaduais podem ser a chance de semeaduras melhores, rumo a políticas mais progressistas. Aproveitemos o tempo para pesquisarmos melhor. Por enquanto, bem-vindo, 2026!

Salete Rossini








                













segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

CURTAS 104 - ANÁLISES (Jornalões e a direita)

 
NOVA LAVA-JATO À VISTA

                Enquanto o PL Antifacção de Derrite aguarda sanção, a PF tem trabalhado intensamente no segundo semestre de 2025. Todos os alvos até agora são da direita e se autodeclaram cristãos.  Silas Malafaia berrou com o escândalo financeiro envolvendo os deputados Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy (PL-RJ) – os exemplos de mais impacto em dezembro.
                Nos mesmos dias, os jornalões puseram à tona o caso do banco Master, que foi comprado pelo Banco de Brasília (BRB) após sua falência determinada pelo BC. Seu ex-dono, Daniel Vorcaro, influencer gospel antes de ser banqueiro, foi preso pela PF no aeroporto de Brasília e depois solto, por ter desviado quantia bilionária referente à dívida do banco.
                Essa história do banco Master envolveu 3 jornalões – Globo, Folha e Estadão – que trataram sobre um suposto contrato de R$c129 milhões do Master com a esposa de Alexandre de Moraes pra fins advocatícios, e de uma conversa deste com o presidente do BC Gabriel Galípolo, na qual eles teriam negociado suposto lobby para o extinto banco.
                Dos três jornalões, quem mais se adiantou foi O Globo, por ter escalado sua colunista Malu Gaspar para escrever longa e caprichada narrativa que, divulgada, foi criticada por nomes sagrados do jornalismo em outras mídias. Procurado por repórteres, Galípolo disse direto que o assunto foi só o efeito da sanção Magnitsky sobre as economias do ministro.
                Sobre o caso, os canais Desmascarando e TV Forum apontaram falta de provas de Malu sobre o Master como tema da conversa de Xandão, e a omissão do evidente contrato milionário com o deputado bolsonarista João Carlos Bacelar, constado no celular de Daniel Vorcaro. Ou seja: o tal contrato da mulher do ministro com o banqueiro não existe.
                Essa evidência foi o combustível que moveu o ministro Dias Toffoli a mandar investigar o contrato do deputado – outro detalhe omitido na coluna. O julgamento cabe à 2ª turma do STF, com Toffoli como relator; Xandão está na primeira. Se tem perguntado: por que tais detalhes evidentes foram omitidos?
                Interesses bem políticos – a da coluna acusativa do Globo ultrapassa a bolha reacionária. No senado, o presidente Davi Alcolumbre (centrão) já aproveita o recesso do judiciário para pautar a deposição de ministros – Xandão, Dino e, quiçá, o PGR Paulo Gonet. O combustível é o mix de emendas retidas e operações investigativas da PF.
                Enquanto Dino retém mais de R$ 100 milhões em resto a pagar do orçamento secreto tornado inconstitucional pelo STF em 2023, Xandão é visto como apoio ao governo contra o PL Antifacção de Derrite que inibe a PF. Agora cabem perguntas: por que os jornalões entram na história, distorcendo e omitindo detalhes importantes?
                Mercado obscuro – os jornalões e toda a direita do Congresso se convergem num elemento comum: o mercado, que determina como agirem para satisfazer seus desmandos contra quem é tido como ameaça aos seus interesses mais imediatos de lucro recorde. Parte do empresariado pego na Carbono Oculto da PF na Faria Lima não vê a hora do PL Antifacção virar lei para inibir a PF.
                Enquanto no governo Lula e Lewandowski se convergem favoráveis aos ministros do STF e à PF, na grande mídia há disparidades internas. No Globo, as críticas à colunista Malu Gaspar foram chamadas de “misóginas”, mesmo que discordem de seu texto. No UOL, Reinaldo Azevedo critica as omissões e Daniela Lima as detalhou em matéria acessível para assinantes, antes mesmo da jornalista global.
                Em fria análise final, a ação da grande imprensa nos remete aos tempos da Lava-Jato dos anos 2010, que projetou ao estrelato os então magistrados Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Só que desta vez entram outros nomes, mais numerosos individualmente, e as vítimas, Xandão e Dino do STF. A PF virou vítima da própria ultradireita que já apoiou em 2018 facilitando a eleiçção da ultradireita.
                Nessa história toda, o alvo final da “Lava-Jato 2025” é o presidente Lula. É, ele não foi esquecido. Os jornalões só o omitem para não alarmar geral e por acreditar que o STF “blinda” Lula 3 enquanto o congresso se move para enfraquecer as duas partes. Mas a chance é remota: Malu confessou ter escrito tudo sem prova contra Xandão e Galípolo.
                Na verdade, o texto de Malu pode ter lá mentiras e omissões. Mas sobre tal contrato de R$ 129 milhões, houve troca de autores. Não é a esposa do ministro, e sim Bacelar. E mesmo se ela tivesse atendido o banqueiro não seria problema: o escritório dela é privado. E mesmo assim, ela tem mais derrotas do que vitórias em sua experiência advocatícia.
                A velha resolução que impediria parentes diretos e colaterais até 3º grau de juízes para função no Direito não tem mais valia, conforme veredito de julgamento plenário do STF em 2023. Mais uma derrota para os jornalões e sua nova Lava-Jato. Xandão e Dino seguirão em frente, Lula também. 2026 está chegando, será outra história.
                Mas, nem por isso vamos relaxar. Os inimigos da democracia estão atentos a cada nova oportunidade, nos mínimos detalhes. E nessas oportunidades o povo deverá se atentar: as ruas estarão ao seu dispor como espaços dos guardiães da democracia.
Para saber mais
- https://www.youtube.com/watch?v=Hbqgwq3cfGc (TV Forum (reprodução)Moraes procurou chefão do BC para falar sobre Master, segundo Malu Gaspar).
- https://www.youtube.com/watch?v=-VxWMUbaKm0 (canal Desmascarandonotícias- ausência de provas de Malu Gaspar no caso Master; fuga de Silvinei Vasques)
- https://www.youtube.com/watch?v=VrGG-sxKi_4 (canal O Historiadorarmação revelada! Ataques ao STF tem motivo revelado e envolve emendas e mercado financeiro)
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AS DIREITAS E AS ORCRIMS

                 Sobre crime organizado, o governo lançou o PL Antifacção, que originalmente visou reforçar a ação da PF junto aos Estados para combater as organizações (orcrims) locais, e a PEC da Segurança Pública, que regulamenta o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e o Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) na integração das forças em escala nacional.
                Os dois textos se interdependem no combate ao crime. Enquanto aguardam sanção presidencial, a PF descobriu assessores de Arthur Lira e de Hugo Motta em crimes com emendas, e 2 deputados federais bolsonaristas, Maranhãozinho e Pastor Gil, integrando uma organização criminosa no Maranhão para distribuir irregularmente emendas parlamentares.
                A PF já sabia que o senador Plínio Valério tem uma propriedade ilegal na Amazônia Legal (área protegida da União para fins econômicos). Agora, a instituição descobriu dinheiro de origem duvidosa em mãos dos deputados federais Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy – também bolsonaristas. Reparem que todos os citados até agora são todos bem à direita.
                A PF descobriu que metade da Alerj tem ligação com crime organizado. TH Joias está preso por se ligar ao CV e, suspeito igual, Rodrigo Bacellar foi para domiciliar a mando de Xandão. Os governos Castro (RJ), Zema (MG) e Tarcísio (SP) se ligam quanto à distribuição de armas de fogo fornecidas por uma fábrica clandestina mineira. Todos são bolsonaristas.
                Na ligação com PCC, o vídeo suspeito de Nikolas Ferreira sobre pix na relação com o crime da Faria Lima e a fábrica clandestina de armas se juntam. No crime financeiro descoberto na operação Carbono Oculto estão envolvidas assessorias da prefeitura paulistana e do governo Tarcísio – que também se enrola sobre o caso das bebidas com metanol chegando a negar a participação do PCC. E há mais gente em associação com o tráfico e porte de drogas em boa quantidade.
                Em 2019, um militar acompanhando Bolsonaro no avião presidencial foi preso na Europa com 39 kg de cocaína. Avião da igreja de tio de Damares Alves carregava 250 kg de maconha. 300 kg da erva estavam em caminhão da fábrica de pescado de Jorge Seif. E mais 30 kg da mesma, no porta-malas do carro de Nikolas em Belo Horizonte.
                Ainda na era Temer (centrão) se iniciaram os descontos ilegais de aposentadorias no INSS, em escala crescente no governo seguinte e descoberta e investigada no atual de Lula – que valeram uma CPMI. Nesta, todos os depoentes convergem seus relatos para o fechar de olhos dos dois governos anteriores às solicitações feitas à época para investigar as fraudes. E agora, a CPMI segue coletando mais dados, já em fase final.
                O legalismo de Xandão e Dino incomoda a ultradireita e o centrão em uma questão interligada: o papel investigativo sobre as emendas. Alcolumbre e Motta pensam em discutir impeachment deles. Não é nada por acaso que surge a trinca de jornalões para criticar o “exagero” do STF e criar nova versão de Lava-Jato contra Xandão (vide artigo anterior).
                Mais uma vez, o trabalho da PF descobriu um novo plano desenvolvido no fim de 2024 para assassinar Lula e Xandão. O plano constava armas de calibre grosso para helicópteros e bombas, conforme matéria da Revista Fórum de janeiro-2025. Ensurdece o silêncio dos jornalões sobre o plano, cuja investigação segue em sigilo. Mas a direita está envolvida.
                Numa fria análise de caráter conclusivo, tantas aparições de nomes políticos da direita – do centrão e extremistas – chegam a surpreender, tanto agora quanto no passado. E por isso se dissolve a tese de que “corrupção e roubo são sinonímias de esquerda”. O que, logicamente, não significa que a esquerda seja um reduto de pura sobriedade ética.
                Se nem templos são santos, como já percebemos, que dirá da política em toda a sua heterogeneidade! Na esquerda há gente duvidosa, que já aprontou das suas e nem pisca. Mas é incontestável a dominância da turma das alas à direita, em número de autores e na magnitude, frequência e poder ofensivo de seus crimes contra a coletividade.
                O que responde por essa diferença está na maior intimidade entre grandes grupos econômicos e os nomes da direita, facilitando a corrupção destes por aqueles. E muitos nomes da justiça entram nessa também, fazendo os direitistas apostarem na impunidade. Nomes progressistas e da esquerda são mais facilmente puníveis.
                Pergunta-se: há solução? Sim – sou da classe dos otimistas. Mas sou realista. A solução é educação cidadã-política de prazo secular, para gerar resultado expressivo. Precisará envolver toda a sociedade, pois dependerá de combater preconceitos que geram divisões e injustiças. E, claro, urge a regulação de todas as formas de mídia, sem exceção.
                E por que, só a longo prazo? É que estaremos lidando com valores que por séculos moldaram nossa sociedade, injusta e desigual. Na Europa foi assim. O uso responsável das redes para esse fim será útil para dar maior alcance às verdades inibindo mentiras e ódio – bases das organizações criminosas e da extrema-direita atual que destrói democracias.
Para saber mais
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3w72y4j82jo (os tentáculos do CV na política do Rio de Janeiro)
- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cly3p9rv5reo (Sóstenes diz que os R$ 400 mil são de venda de imóvel)
- https://www.youtube.com/watch?v=KH08mUCLuVE (silêncio da mídia: PF descobre novo plano para matar Lula, TV Forum, 25/12/25)
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CURTAS 116 - ANÁLISES (os traidores da pátria; reforço a Flávio)

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