quarta-feira, 2 de junho de 2021

Análise: na sindemia, o 29M


        Com tantos fatos movimentando Brasília, como votações de PLs e PECs no Congresso, junto à esquentada CPI da C19, a patuleia tem se dividido também em temas como a impunidade de Pazuello a pedido presidencial e a indiferença de Bolsonaro às 500 mil mortes pela sindemia, piorada na recente negociação com o Conmebol1 sobre a Copa América no Brasil.
        Outro tema debatido nas redes é a C19: "bolsominions já estão todos imunizados, para se aglomerarem à vontade? Ou ela não é tão grave quanto aparenta?" Na prática, a C19 tem servido como instrumento de desarme da oposição através da liberdade de ódio bolsominion nas ruas.
        Foi partindo dessa resposta que os movimentos sociais e de esquerda se uniram, após intenso debate, que é preciso mudar o autoritário cerceamento imposto à população: "se bolsominions podem, por que nós não?" Foi aí que surgiu a ideia de enfrentar o temível invisível: um manifesto popular de rua.

O 29M: entre o sucesso e a crítica

        Um problema importante que os grupos e movimentos de esquerda debateram, além da C19, foi como atrair uma grande parcela das classes populares, uma vez que muitos dos organizadores eram de classe média C, treinada em sindicatos ou partidos de esquerda e, daí, atentos à realidade brasileira.
        Eles encontraram acenos positivos entre as torcidas organizadas antibolsonaristas de futebol, os artistas e intelectuais, que influenciaram a opinião pública com o progresso da tragédia da C19, e pelas redes sociais chamaram a geral para o manifesto de 29/5: o 29M, em alusão à data. Deu certo.
        Não é o primeiro evento alcunhado. Houve um anterior, também ocorrido na era Bolsonaro, em 15 de maio de 2019, na luta contra o desmonte do sistema de educação pública mediante os cortes mais severos que o setor experimentou pelo próprio MEC desde a sua criação em 1973.
        Embora os cortes na educação tenham ocorrido assim mesmo, o 15M refletiu em interrupção da discussão sobre homeschooling, que perdurou no ano passado por conta da C19, e agora querem o seu retorno enquanto a geral se ocupa com a CPI.
        Já o 29M se moveu por uma gama de fatores que fez contagiar, a partir dos opositores a eleitores bolsonaristas arrependidos, a revolta e indignação com a nação jogada às moscas. A CPI também foi fator importante, pois legitima a evidência do genocídio como objetivo-fim de Bolsonaro.
        O 29M se materializa. Por várias horas do domingo, o vermelho e o branco dominaram os espaços antes tão verde-amarelos dos bolsominions, em mais de 270 cidades do país, reunindo talvez 500 mil pessoas segundo os organizadores, e repercutindo no exterior em manifestos solidários. 
        A repercussão midiática foi imediata. A grande imprensa internacional tratou o 29M como matéria de capa, seguida de alguns tabloides. No Brasil, um paradoxo: de imediato vieram as independentes e as de esquerda, e as grandes Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil. Estadão e O Globo? Só em 31/5.
        Com isso, blogs e youtubers bolsonaristas minimizaram a importância do 29M em fake news com fotos de poucos manifestantes de vermelho, ocultando o grosso para excluir o real do evento. Então, Bolsonaro ironizou que "foi pequeno porque faltou maconha".

29M e os bolsominions: uma análise crítica
        Enquanto os organizadores comemoraram o sucesso do 29M no país, grupos de bolsominions, sem saída diante da real, ironizaram com críticas às aglomerações por tanta gente. Claro que houve, sim, aglomerações inevitáveis, dado o porte coletivo dos manifestos, e há risco de vários adoecimentos. 
        Mas, o que os bolsominions não perceberam, ou não quiseram perceber, foram várias diferenças, em comparação com as suas manifestações. A começar pela quase constância, em paralelo às muitas aparições públicas do presidente, também aglomeradas, com muitos de cara totalmente livre.
        Já os organizadores do 29M planejaram as coisas com inteligência. Raciocinando ser inevitável aglomerar, eles pediram nas redes sociais o uso correto de máscara boa e álcool gel. Para quem não tivesse, eles próprios distribuíram máscaras adequadas, tipo N95 ou superior, e álcool gel.
        Outro detalhe é a organização quase militar dos partícipes. Em geral estavam perfilados, com distância de 1 metro. As vias de passagem foram interditadas em trechos suficientemente longos para facilitar a distribuição dispersa, e ainda assim aglomerados aconteceram aqui e ali.

Reflexões finais

        O risco de adoecimentos por C19 também se torna, entre organizadores e militantes de esquerda, uma pergunta a perturbá-los. Mas a resposta - que eles sabem - se confronta com a necessidade de dar voz a um desabafo uníssono das representações das classes populares, trabalhadoras, estudantes e de minorias em geral que foram no 29M.
        Afinal, a hipótese de que a C19 ser usada como instrumento de silenciamento de representações das classes populares, movimentos sociais progressistas, entidades sindicais e partidos de esquerda se cristalizou com as ruas livres para a (por vezes) violenta militância bolsominion.
        Por conta dessa conjuntura de desigualdade na liberdade de expressão e conflitos interiores em referência à C19, se lançou mão de um 29M com inteligência e maior sensatez possível. Ou seja, de qualquer forma, foi um risco, mesmo calculado. Mas, sem saída para outros recursos, foi necessário o tudo ou nada, por democracia, nação, progresso e pela vida.       
        
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Imagens: Google (montagem: autoria do artigo)

Notas da autoria
1. Entidade que organiza torneios futebolísticos como a Libertadores da América, Copa Sul-Americana e Copa América.

Para saber mais
https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2019/05/15m-resistencia-ao-governo-que-deseduca.html
- https://www.jb.com.br/pais/politica/2021/05/1030475-protestos-contra-bolsonaro-reunem-manifestantes-em-todo-o-pais-em-meio-a-pandemia.html

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