As Santas Casas sem
misericórdia
Sabemos que o brasileiro – de classes populares até as médias altas – paga muito imposto: de 1 ano, 5 meses correspondem só a impostos
federais, estaduais e municipais. E quanto menor a faixa de renda, maior o imposto
proporcional: é a injusta taxação regressiva.
Ela tem contribuído mais para satisfazer a gula do
rentismo da ciranda financeira em detrimento das políticas públicas essenciais,
e abre portas para os desvarios com recursos públicos, com tantos exemplos já
midiatizados.
A saúde pública tem sido vítima preferencial de
desvarios com o tesouro, muitas vezes para enriquecer ilicitamente operadoras
de planos de saúde. Agora, a mídia divulga novo escândalo, através da abertura
de operação investigativa do MPs de MG e RJ.
É a operação No Mercy, aberta pelas citadas
instituições para investigar um desvio de R$ 8 milhões em recursos públicos,
recebidos inicialmente pela Santa Casa de Juiz de Fora, e agora envolve a
carioca. Não por acaso, no mercy é, literalmente, “sem misericórdia”.
Santas Casas de Misericórdia –
São hospitais da rede filantrópica da Igreja Católica, que inicialmente
atendiam os mais carentes, sem acesso à saúde pública do antigo INPS (hoje
INSS), quando o SUS inexistia.
A sede de Juiz de Fora (MG) é hoje o melhor hospital,
graças aos recursos obtidos, em sua maior parte, pelas mensalidades do PLASC,
um plano de saúde criado pela diretoria no fim dos anos 1980 e exclusivo desta
sede.
A sede carioca não tem PLASC, mas se sustenta pelos
recursos públicos e também pelas consultas particulares populares e pelos
“planos de coparticipação”. A sustentação das duas sedes não é ilegal e talvez
não tenha a ver com o foco da operação no Mercy.
Apontamentos – Segundo o MPMG, a
operação resultou de denúncias de que os recursos públicos e privados eram
desviados para favorecimento pessoal possivelmente de alguns profissionais, que
foram afastados por determinação do órgão.
Devido ao sigilo imposto na investigação não há muita
coisa explícita. Ainda assim, o que foi noticiado até agora sobre a operação já
é suficiente para suscitar especulações.
Bolsonaro – Juiz de Fora, 6/9/2018: Jair
Bolsonaro sofreu atentado durante corpo-a-corpo no cruzamento das ruas Halfeld
e Batista de Oliveira. Foi atendido às pressas na Santa Casa, e depois, já
recuperado, doou R$ 1,3 milhão à instituição “por gratidão”.
Em 2020, Bolsonaro remeteu mais R$ 2 milhões para a
mesma Santa Casa como parte de uma emenda parlamentar. Até prova em contrário,
não há ligação das doações com o desvario investigado pela No Mercy.
CPI da C19 – Por outro lado, em 2021,
durante a CPI da C19, o ex-governador do RJ Wilson Witzel soltou uma bomba: a
influência do senador Flávio Bolsonaro sobre a direção dos hospitais e
institutos federais no RJ, indicando os diretores dessas instituições.
Verdade ou não, a bomba fez sentido a partir de quando
Witzel pediu segurança para sua família e, no início de 2023, com Lula de
volta, em que as instituições estiveram uns dias sem direção. Todavia, até
prova em contrário, não há ligação com o caso das Santas Casas.
Mas chama a atenção porque na era Bolsonaro houve
vários momentos suspeitos envolvendo igrejas evangélicas e casas filantrópicas.
Nesse caso, se confirmada alguma ligação, as Santas Casas de MG e RJ entrariam
como mais dois exemplos suspeitos. Isso se houver provas futuras.
Nota da autoria
* na mais recente publicação da mídia, o presidente da Santa Casa de JF Renato Loures e seus familiares foram afastados por suspeita de desvio de recursos públicos. Renato é médico. O padre Lelis assumiu a frente, interinamente.
Para saber mais
- https://radioitatiaiajf.com.br/operacao-mercy-mp-apura-desvios-de-recursos-da-saude-em-juiz-de-fora/
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Jornadas de 2013 e terror bolsonarista: elo ligante
Brasil, 2013: enquanto o mundo se
atentava a fatos sociopolíticos na Turquia e na Primavera Árabe, as mídias
brasileiras divulgaram sobre o primeiro manifesto massivo que teria decorrido
do aumento em R$ 0,20 no valor das passagens nos transportes coletivos.
Aquela reação muito massiva e cheia de cantos de ordem
pareceu exagerada a um fator tão... torpe. Mera cortina de fumaça: atrás dela rolava
um violento stress político.
A grande mídia (Lava-Jato) e o Congresso pressionavam
o governo Dilma Rousseff até a sua deposição (2016), a prisão de Lula
(abr/2018) e a eleição de Bolsonaro (out/2018).
A corrupção política sempre foi criticada em seu caráter
leviano. Mas foi com grupos como Vem Pra Rua (VPR) e Movimento Contra Corrupção
(MCC) a partir de 20/6/2013, que o viés ideológico então libertário das Jornadas
seria sequestrado pela extrema-direita.
Jornadas de Junho – Foram
os protestos populares massivos ocorridos em todo o país em junho/2013.
Inicialmente libertários e à esquerda, solidários ao PT devido à pressão do
Congresso e da mídia, eles também clamavam ao partido para punir os criminosos.
Mas os manifestos foram usados pela grande mídia, o
empresariado e o Congresso para pesar a mão contra o governo Dilma, apesar dos
melhores índices socioeconômicos, ambientais e o mais baixo nível de desemprego
e de inflação da Nova República.
Com a entrada do VPR, MCC e correlatos, grupos de esquerda
eram atacados com ajuda de P2 (policiais à paisana infiltrados) e uma turba de
preto mascarada inicialmente confundida com os black blocks. Mas, na
verdade, eles eram outra coisa: kids pretos.
Fato kafkiano – As jornadas perderiam a
força. A prisão do catador Rafael Braga por porte de coquetel Molotov (era
desinfetante!) motivou novo protesto da esquerda, que foi reprimido com tiro,
porrada e bomba pela PM, mesmo com solidariedade de black blocks.
Fim – O fim foi brusco: a
midiatizada prisão de um estudante do Ceará teria colapsado a rebeldia. Em 2013,
o último grande protesto foi de professores, em outubro, com apoio de grupos de
servidores, da esquerda e black blocks. Findou com tiro, porrada e bomba
da PM.
Extremismo, do poder ao terror –
O antipetismo elegeu o extremista Bolsonaro, que prometeu matar a esquerda. Mas
só conseguiu narcotizá-la o suficiente para liberar suas práticas nazifascistas.
A extrema-direita mostrou sua face real com plena liberdade.
A derrota eleitoral em 2022 levou bolsonaristas a se
acamparem em estradas e portas de quarteis. Atos estranhos ao moralismo se desenrolaram:
tráfico, prostituição, mentiras sortidas constantes e trilha sonora cívica e
gospel. Outros gêneros musicais, nem pensar.
Entre contradições e delírios, explosivos e armas. Entre
amarelo e verde, máscaras pretas e trajes escuros de alguns se concentravam em
acampamentos de Brasília, que virou palco de momentos de terror com veículos
incendiados e várias tentativas de explosão.
8/1 – No auge do terror que
depredou patrimônio do STF, Congresso e Planalto, no mar amarelo-verde havia mascarados
de roupas escuras – exatamente como nas Jornadas de 2013: os kids pretos. Eram os
“petistas infiltrados” citados por parlamentares bolsonaristas para
desestabilizar o governo Lula.
Kids pretos – Expressão que designa um
grupo de operações especiais do Exército. São altamente treinados para, entre outras
coisas, as “guerras irregulares”, como ações de sabotagem e de insurgência popular
de massa. No alto oficialato há kids pretos, homens de maior confiança de Bolsonaro.
Quando militar, Jair Bolsonaro queria ser kid preto. Se inscreveu
duas vezes na escola especial da AMAN, mas em ambas foi desclassificado logo na
triagem. O motivo, cada leitor tira sua conclusão.
Entre grupos de extrema-direita nas jornadas de 2013 e
no terror verde-amarelo do pós-eleição e início da nova era Lula, os kids
pretos se infiltraram para sabotar a esquerda. Eles foram o elo ligante entre
dois fatos históricos para o retorno da extrema-direita.
No presente momento estão quietos, mas estão sempre à
espreita. A inelegibilidade de Bolsonaro pode enxuricá-los de novo. Ou não. Depende
do ministro José Múcio e do chefe das FFAA nomeado por Lula.
Nota da autoria
¹ os ocorridos e os intentos dos autores configuram
crimes terroristas, ainda não julgados pela lei antiterror. Entre os autores
estavam os kids pretos.
Para saber mais
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