domingo, 9 de agosto de 2026

CURTAS 117 - ANÁLISES (Golpismo à solta, discordâncias)

 

NOVIDADES DO GOLPISMO

                    Na rodada de pesquisas de intenção de voto ocorrida em 29/7, o presidenciável Flávio Bolsonaro agora dista do líder Lula em média de 6%. Para os bolsonaristas empedernidos, o green card autorizado por Trump a Eduardo Bolsonaro teve efeito na reaproximação. Apesar de pessoalmente boa, Flávio se mantém preocupado: surgiram comprometedoras novidades na mídia.
                    Alegada por ele como criação de IA, a foto dele com capanga de Vorcaro em restaurante é, sim, verídica, segundo a PF. A deepfake audiovisual de IA com imagem, voz e linguajar de Jair Bolsonaro foi feita para acusar o PT de cria-la para a campanha televisiva. Aí, Xandão ameaçou interferência do STF caso Nunes Marques e André Mendonça no TSE não impeçam a ilegalidade.
                    Para acalmar o climão, a ilícita deepfake foi alegada pela defesa de Flávio Bolsonaro na "pura razão política". Acontece que juristas como Xandão e Dino não qualquer coisa. Ainda asssim, em ato desafiador do PL em Santa Catarina, Flávio exibiu o post para seu público. Ainda durante o climão, outra notícia veio ao ar.
                    Ligado aos esquemas ilícitos de Vorcaro envolvendo políticos e o filme Dark Horse, Victor Lima foi capturado pela operação Compliance Zero da PF em Dubai e já está preso no Brasil. Aqui ele confessou sua partcipação e integrar Os Meninos, grupo suspeito de de ataques cibernéticos a instituições, monitoramento ilegal e intimidação a autoridades.
                    Na mesma semana, o Itamaraty vetou os vistos de dois supostos jornalistas estadunidenses que vieram questionar se as urnas eletrônicas funcionam mesmo sem internet e se são seguras. Além da razoável desconfiança do governo com os visitantes, é interessante a coincidência fática entre o veto dos vistos e a prisão de Victor Lima em Dubai.
                    Mas a semana continuou movimentada. O ex-ICL Leandro Demori divulgou nas redes sociais que o consulado dos EUs recrutou influenciadores brasileiros de direita, alguns deles da Brasil Paralelo, para impulsionar a campanha de Flávio Bolsonaro, a mando de Trump. A notícia foi replicada até pelos jornalões, aumentando o efeito de retirada protocolar de apoio dos caciques do Centrão, iniciado quando daquele vídeo da madrasta Michele.
                    O Brasil não deixou passar barato. Escolhendo a dedo, o STF convidou 26 influenciadores de grande destaque entre o público para um evento de debates sobre temas do Judiciário, como o funcionamento das instituições a ele ligadas, o julgamento da constitucionalidade de projetos de lei e outros assuntos. O objetivo é amplificar a penetração dos temas entre a população através das mídias sociais.
                    Sem saída? — toda essa rede de notícias frescas fez muita gente acreditar que o PL correria atrás de outro nome para limpar a própria imagem institucional, já apodrecida na visão popular. Só que não: com a batuta do todo poderoso Valdemar da Costa Neto, a convenção partidária votou pela manutenção de Flávio. Tudo porque o chefe disse que “ele foi o escolhido pelo pai Jair Bolsonaro para presidir o país”.
                    Sejamos bem realistas: Valdemar se fez estrategicamente de besta ao dar essa declaração para a mídia. Ele acompanha os fatos sobre Eduardo, os influenciadores convocados, as ações do Itamaraty e as do Judiciário. Sobre este último, já que André Mendonça novamnete corre atrás de Lulinha para ter efeito. Sabe do significado de cada fato e acredita que a ultradireita estadunidense supre o afastamento da maioria do Centrão, e que as pesquisas indicam solidez dos números de Flávio. É por isso que a convenção votou nele.
                    Enquanto a militância da esquerda conta com a campanha continuamente moribunda de Flávio, os bolsonaristas torcem pela vitória da investida trumpista sobre a resistência de Lula. Por isso é muito difícil, ou muito cedo, fazer uma predição segura sobre a resistência da campanha de Flávio a cada escândalo novo que certamente surgirá e ao embate político entre Lula e Trump. O que sabemos é que o golpismo segue pleno.
                    Também não podemos predizer precisamente sobre os resultados do pleito. Mas sabemos que as eleições estão no foco de interesses díspares – ultradireita liderada pelos EUs, as democracias europeias e canadense, potências como China e Rússia, e enfim, Japão e Índia. Sabemos também que este será o pleito mais tenso da história republicana. Mas torcemos para que, mesmo delicada, a democracia vença mais uma vez e, nos próximos 4 anos, os progressistas apontem o sucessor à altura do próprio Lula. Ele existe e nós talvez o conhecemos. Nos resta ter fé nele.
Para saber mais
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DISCORDÂNCIAS SOCIOPOLÍTICAS

                    Após surgir na 2ª guerra como tecnologia espiã criptografada, a Internet se tornou popular a partir dos anos 1990. A partir dos anos 2000, se tornou o melhor e mais rápido caminho de obtenção de informações atualizadas, auxiliando as pesquisas científicas. Inauguradas pelo Orkut, as redes sociais se tornaram o meio principal de acesso a todo tipo de informação – inclusive uma diversidade imensa de mentiras.
                    É nesse ponto que entra a minha reflexão sobre o quão longe as mentiras alcançam e são sedimentadas na mentalidade popular. Ciência, história e política são os tópicos mais alvejados, mas a diversidade de saberes – e de mentirosos – é muito maior do que se pensa. A ideologia (ou a visão distorcida da fé ou crença religiosa) se torna o eixo das desconstruções, cujas ondas alcançam maior altura nos anos eleitorais.
                    Nas ciências, nova onda— o bolsonarismo absorveu a anticiência nos anos 2010 via aliança com o olavismo, movimento de desinformação criado pelo hoje finado escritor e influenciador Olavo de Carvalho. Este disseminou teorias malucas como o terraplanismo e a antivacina. E é justamente o tema particular das vacinas contra a Covid19 que voltou a ser a onda preferencial usada por candidatos bolsonaristas nas campanhas eleitorais.
                    São vários os candidatos que protagonizam na nova onda. Um deles é mulher e mãe: Júlia Zanatta, a famosa deputada da tiara de flores. A mesma que expôs seu filho, um bebê de colo, no protesto de seu grupo na mesa diretora da Câmara para pressionar a votação do PL da Anistia, para anular a condenação de Jair Bolsonaro. Para ela, “tudo sobre a Covid19 foi mentira [...], todos os envolvidos na vacinação obrigatória deveriam ser julgados, e alguns condenados”.
                    Zanatta é autora do PL 1978/2026 que, entre outras medidas, propõe anistiar os responsáveis legais multados por não terem vacinado seis filhos contra a C19, quando uma variante hospitalizou milhares de infantes. A julgar pelo caráter desse Congresso, o texto pode ser aprovado – e se tornar verdadeira arma biológica ao possibilitar o benefício aos pais antivax que já recusaram vacinar seus filhos contra males como sarampo, rubéola, pólio e HPV.
                    Enquanto o PL de Zanatta aguarda a votação no Congresso, a negação da vacinação ultrapassou os limites geográficos brasileiros. Fugido e agora legal nos EUs, o ex-deputado e ex-servidor da PF Eduardo Bolsonaro também viralizou um vídeo no qual incita a recusa dos antivax à vacinação das suas crianças contra o sarampo – um velho conhecido cuja maior gravidade está na possibilidade de sequelas sensoriais (surdez e/ou cegueira), ou, pior ainda, em morte.
                    As negações do jornalismo— autodeclarados “a imprensa oficial”, os jornalões estão caprichando em omitir informações importantes para ressuscitar defuntos já exumados. Eles voltaram a endeusar André Mendonça na nova perseguição ao filho de Lula no caso INSS. Na Economia, eles omitem os bons indicadores internos, enfatizando os juros altos, a taxa de exportação de petróleo e o rombo do PIB pela dívida pública sem comparar com países piores.
                    Sobre a interferência de Mendonça no trabalho da PF ao ponto de os 27 superintendentes estaduais defenderem a independência do órgão e o diretor-geral Andrei Rodrigues, foi tentado um tom isento, houve tom lacônico. Nunca houve editorial cobrando investigação da compra de107 imóveis, 51 deles em grana viva. Nem sobre o aumento do tráfico de armas para os CACs na era Bolsonaro. Nem sobre o aporte de mais de R$ 50 milhões de Vorcaro para Zema.
                    Daí a influência, mesmo não intencional, sobre a decisão final dos eleitores diante das urnas – o que tem gerado as consequências deletérias para o correto funcionamento do Estado e o desenvolvimento econômico tão esperado.
                    Seletividade judicial— foi valoroso o papel do STF na contenção dos crimes do então presidente Bolsonaro, e no julgamento dos crimes da intentona golpista de 8/1/23 e do plano Punhal Verde-amarelo de matar Lula, Alckmin e Xandão. Mas ainda me pergunto por que o STF nunca condenou Bolsonaro pela paralisia investigatória imposta sobre a PF. E não foi só sobre o caso Marielle Franco. O milagre da multiplicação patrimonial e financeira dos Bolsonaro também.
                    A incomparável gravidade do atentado violento ao Estado democrático e da intentona de 8/1/23 requiriu julgamento mais imediato para atender à pressão popular contra nova anistia. A retomada do caso Marielle condenou os Brazão e os assassinos, mas não respondeu por que os Bolsonaro se apavoraram com a decisão do então ministro da Justiça Flávio Dino. Ainda falta julgar a relação entre rachadinhas e a grana viva que comprou 51 de 107 imóveis.
                    Por ouro lado vale citar que o TSE está nesse momento presidido por ministros de alta suspeição. A atual dupla dirigente – Nunes Marques presidente e André Mendonça vice – do TSE tem exercido atos de ética duvidosa que indiretamente atacam Lula para favorecer Flávio Bolsonaro. O deepfake com imagens e voz de Jair Bolsonaro só foi banido porque Xandão ameaçou interferência do STF. Mas Flávio o transmitiu em evento do PL em SC – e segue impune.
                    Outra coisa que me coça a cabeça atrás da orelha é a aparente falta de vigilância dos tribunais superiores em relação à chapa Flávio Bolsonaro-Alfredo Gaspar. É que o escolhido vice é investigado por suspeita de estupro de vulnerável, e ainda segue suspeição por participar de irregularidade milionária com emenda parlamentar. Diante dessas credenciais duvidosas, a dupla até que tem tudo em comum mesmo. E será um perigo, se for eleita.
                    Análise reflexiva— os fatos supracitados compõem uma bola de neve que cresce como praga de lavoura. Saudosa dos tempos da ditadura militar, parte da geração mais velha nega a existência da corrupção à época, devido à natureza repressora do regime. Ao ser lembrada da censura, ela alega a moralidade pública de costumes da aliança dos militares com a Igreja Católica. A censura serviu, na prática, para esconder a corrupção dos próprios milicos e dos empresários.
                    Como a internet dissolve a censura ao transmitir notícias ao público, os jornais manipulam a informação a mando de quem os financia. Daí a patuleia ainda não compreender a complexidade do tema político. Por outro lado, parcela crescente do povo já sabe que políticos da direita (Centrão e reacionários) são os maiores ladrões. Na esquerda também há ladrões, mas a pressão seletiva do Legislativo e do Judiciário os torna bem mais raros, enquanto que a galera oposta se deleita, acreditando na impunidade.
                    A consciência crescente se deve a um conjunto de fatores: o movimento pela renovação do Congresso via eleição de nomes progressistas, pesquisas de avaliação pública do Congresso, e transmissão de fatos por fontes online. Em geral independentes, fontes à esquerda têm acesso público maior hoje e denunciam a impunidade de poderosos políticos corruptos. Algumas delas respondem por descobertas comprometedoras, como o caso Master com gente da direita.
                    E, diante disso tudo, o efeito final esperado pelos que querem a resistência democrática será, fatalmente, a escolha popular nas urnas. A luta pela democracia de fato ultrapassa o simples afastamento de reacionários do acesso ao poder. É lutar pelo corte sistemático de mordomias desnecessárias pelas quais muitos se elegem e se reelegem. É fazer a patuleia entender que a relação ética com a grana pública e com o cargo político também significa democracia sociopolítica.
                    É uma luta de longo prazo, mas urgentemente necessária. 
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