terça-feira, 12 de outubro de 2021

Reflexão- Witzel: Flávio Bolsonaro e o perigo nos hospitais federais


Resumo: desde que Witzel abriu a boca na CPI sobre a influência na gestão de seis hospitais e nove institutos - todos federais - no Rio de Janeiro, a temperatura nos bastidores sobe. E os senadores sabem por que.

        Rio de Janeiro, 2020-21: entre os hospitais federais do Rio de Janeiro, o Hospital Federal de Bonsucesso é eleito uma referência no atendimento de pacientes com C19, quando a pandemia deu seu primeiro boom no Brasil. A partir daí, ele seria palco de importantes notícias, algumas das quais extensivas a outras unidades. Como a suspeita do sinistro método "escolha de Sofia", pelo qual, devido ao grande número de doentes, se selecionaria quem deveria viver - então, os mais jovens e sem comorbidades. Uma série de conflitos entre a direção e alguns servidores. Em paralelo aconteceu um importante incêndio , que decorreu em danos e perdas materiais e de vidas. E, finalmente, com o setor de emergência chegando a ser fechado, os fatos supramencionados seriam “esquecidos” pelos meios de comunicação, que sequer os relembrariam para concatenar com o presente. Uma operação abafa.
        Brasília, 2021. após o sinistro recorde pela C19 em março, redundando em quase 100 mil mortes notificadas, começa no final de abril a CPI da C19, já prometendo calores altos e forte audiência a partir do depoimento do ex-MS Henrique Mandetta, que expôs a público a má conduta do governo Bolsonaro em retaliação às regras de segurança da OMS. Quando o ex-governador do RJ Wilson Witzel compareceu por vontade própria para depor, o calor da CPI teve seu primeiro pico: ele expôs para a cúpula e para a tribuna a influência do senador Flávio Bolsonaro (Patriotas-RJ) na gestão dos seis hospitais e três institutos federais, redundando em intenso tumulto quase incontornável. Novos picos desse calor reapareceriam em depoimentos posteriores, com direito a sexismo e homofobia, rebatidos com discursos bastante civilizatórios e históricos. Mas, o depoimento de Witzel, com o complemento do da advogada dos ex-médicos da Prevent Sênior Bruna Morato, seria decisivo para os novos e definitivos rumos investigativos da CPI.

OSs nos hospitais federais- Para se ter uma ideia do quão explosivo foi o depoimento de Witzel, foi preciso continuá-lo no privado, em diligência, pela qual senadores na tribuna não podem participar. E foi lá que o ex-governador apontou Flávio de atuar como “dono” dos hospitais federais, não só indicando direções, como emitindo ordens diretamente de Brasília às direções, e os fornecedores de materiais e medicamentos, bem como a autorização para servidores de organizações sociais (OSs) para atuar nessas unidades. Ou seja, um claro tráfico de influência em larga escala. Em todos esses casos estão envolvidas pessoas ligadas a Flávio.
        O depoimento detalhado de Witzel, que teve que solicitar proteção a si e sua família, fez com que a cúpula da CPI decidisse pela quebra de sigilos bancário e fiscal de sete OSs criadas pelo governo de Witzel, uma vez que as mesmas têm sido partícipes dos esquemas de recursos no Estado, e que o seu impeachment teria sido financiado por uma máfia da saúde local, por trás da qual está uma milícia – e daí, correr risco de vida, como o próprio declarou.
        Entre as OSs envolvidas no depoimento, se destaca a Associação Filantrópica Nova Esperança, cuja a receita saltou de R$ 337,3 mil para R$ 17 milhões no período 2018-19, ou seja, aumento de 50 vezes em prazo tão curto. E, entre 2019-20, de R$ 17 milhões para R$ 249 milhões. Além desses aumentos tão estranhos, as movimentações financeiras envolveram grandes quantias em espécie, ou seja, dinheiro vivo, conforme analistas dos documentos - o que a referida OS nega em sua nota oficial. É nesse crescimento da suspeita que reside a acusação de desvio pelo ex-governador.
        Quanto às empresas fornecedoras de equipamentos hospitalares, há também menção de ligações de seus representantes com Flávio Bolsonaro. A Malugue Comércio Ltda., empreendimento localizado no bairro da Saúde, no Rio de Janeiro, pertence a Stelvio Bruni Rosi, advogado e empresário. Stelvio tem outros empreendimentos, entre eles uma pousada em Itacaré, litoral baiano. Foi dessa pousada que ele teria enviado um e-mail para o senador, solicitando que houvesse reunião com o MS e com representantes do laboratório estadunidense Vaxxinity, produtor da vacina idem. Apesar das suspeitas de desvio, não houve menção de quantias envolvidas que pudessem gerar suspeitas de superfaturamento ou outra irregularidade.
        Detalhe: a vacina estadunidense ainda está em fase de testes, sem, autorização da OMS para uso emergencial. Quando a informação vazou na imprensa, Stelvio, procurado, disse "ter-se expressado mal" no e-mail, em esforço para tirar Flávio da reta. Também procurado, Elcemar Almeida, que nas redes sociais se apresenta como presidente da Vaxxinity no Brasil, negou ter feito qualquer contato com Stelvio e Flávio. Não foram encontradas fontes que detalhassem quantias envolvidas para a compra dessa vacina, nem indícios de conclusão do negócio.

Iniciativa privada- a intenção que move a intenção da decisão tomada pela cúpula da CPI da C19 em investigar essa provável interferência de Flávio Bolsonaro nas nove instituições federais no Rio de Janeiro reside na ideia de que o filho do presidente supostamente tenha a intenção de efetuar entrega paulatina, por via irregular, dessas instituições para a iniciativa privada. Se evidenciada, a suspeita de irregularidade se desdobraria de dois modos: a ausência de licitação para sorteio da terceirizada a gerir as unidades hospitalares; e o propósito dessa terceirizada (uma das OSs dita como de caráter filantrópico ligada ao senador) agir por trás no desvio de mais volumes de recursos públicos. Mas, vale ressaltar que, a despeito das evidências materiais, os fatos são considerados pelos senadores e órgãos investigativos como indícios, justamente por carecerem, ainda, de investigação.
        A privatização na área de saúde é um sonho político pelo menos desde a era Collor. Muitos servidores antigos estimaram que a Lei 8080/1990 nunca foi seguida em sua integralidade - uma verdade infeliz -, pois sempre sofreu subinvestimento e, agora, é sistematicamente desinvestido, abrindo portas para a criação de OS, terceirizadas de capital público e direito privado que empregam (muito mal) profissionais de saúde, substituindo os urgentemente necessários concursos públicos (o último grande concurso com garantia de estabilidade ocorreu em 2005, seguido de um para cargos específicos em 2010).
        Quando a Constituição de 1988 tornou pétrea a saúde pública como direito popular e dever estatal, o sonho do SUS privatizado nasceu difícil de ser realizado. Mas, com o subinvestimento cada vez mais profundo ao ponto do desinvestimento da era atual, e com a aplicação de Lei específica para contratados temporários da União (CTUs) em casos de calamidade pública, portas para terceirizações indiscriminadas e outras irregularidades foram abertas, ao ponto de vermos terceirizados na direção de grandes instituições da Administração Pública direta e indireta, com substituição crescente de servidores por CTUs e terceirizados em vez de concursados. A senha para a interferência da elite econômica e política.
        Com os Bolsonaro no poder, essas portas antes entreabertas foram escancaradas aos olhos dos espectadores desavisados. Mas, foi somente com o desenrolar de revelações na CPI que podemos ver com mais clareza os detalhes sórdidos com que, em nome da família do presidente, ou de quaisquer nomes da elite econômica, crimes contra o erário público como um todo têm acontecido.
        As práticas nazistas com pacientes da Prevent Sênior (também a Hapvida e, quiçá, outras operadoras das quais nem sabemos ainda), reveladas pela advogada Bruna Morato e alguns ex-médicos na CPI, em nome de uma ideologia torpe que se voltou contra a vida e a dignidade de pacientes e familiares, nos leva a inferir sobre as possibilidades de a interferência de Flávio Bolsonaro nas nove unidades federais no Rio se mover na intenção de estender esses métodos escabrosos nelas e, em seguida, pelas demais unidades do SUS, no sentido de padronização. E tudo gerido não por servidores públicos, mas pela iniciativa privada, seja esta OS ou operadora de plano de saúde, que lucraria muito mais às custas do SUS, da dignidade pública e de vidas humanas.

Reflexões finais
        As revelações de Witzel não amenizaram o seu início político aliado aos Bolsonaro, nem a sua inclinação para a privatização dos serviços na saúde pública através das terceirizações em massa, que resultaram na criação de sete OSs. Por isso mesmo, não está inocentado. Mas, por outro lado, o seu impeachment pode ter servido ao menos para refletir sobre os perigos da aliança com uma família cujas ligações com gente muito suspeita dão margem para a queda de aliados, pois estes são vistos pelo Bolsonaro pai como potenciais adversários ao menor passo em falso.
        Por outro lado, é inegável que seu depoimento se mostrou assaz útil para que aqueles servidores que votaram em Bolsonaro por antipetismo ou por infrutífera crença em mudança a partir da moralização da política pudessem repensar seus conceitos e aceitar a sua mea culpa pelo status deteriorado a que a saúde pública chegou, obrigando os servidores da área a um esforço hercúleo e traumático para salvar tantas vidas na pandemia.
        Embora a referência à série de infortúnios passada pelos hospitais federais do RJ, como as citadas no de Bonsucesso, não tenha sido falada publicamente por Witzel, a decisão de investigação pela cúpula da CPI, se levada a cabo sem ser impedida por tentativas de impedimento que certamente ocorrerão, poderá elucidar os fatores para muitos desses fatos, e até descobrir novos e escabrosos fatos não revelados no tempo útil da Comissão. Como, quiçá, alguns indícios de projeto de extensão privatista para padronizar o atendimento em C19 à la Prevent Sênior nas unidades federais. É meter a cabeça, e nós torcermos para que renda frutos. Pois Witzel, por pior que tenha sido como político, como testemunha abriu caminhos para a dissolução de uma ideologia de morte do povo a partir da pulverização do Estado. 

----
Imagem: Google (Witzel e Flávio Bolsonaro)

Nota da autoria deste artigo: o conteúdo é uma reflexão, não reflete obrigatoriamente a opinião da autoria.

Para saber mais


segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Análise: vitórias da CPI da C19

 

        Como qualquer comissão parlamentar de inquérito (CPI), a CPI da C19 iniciou passando ao público a impressão ligada de que iria terminar em pizza, sem desmascarar ou abrir portas para punir os envolvidos no tema da sindemia de C19. Mas. ela acabou se diferenciando, graças à objetividade e firmeza de sua cúpula (presidente Omar Aziz, relator Renan Calheiros e o vice Randolfe Rodrigues), e seus membros na tribuna.
        Uma mostra dessas qualidades foi a sua prorrogação por mais três meses, totalizando perto de 6 meses, graças à sua cúpula e membros como Alessandro Vieira, Simone Tebet, Rogério Carvalho e outros. O que, ainda antes do fim, gerou resultados muito interessantes a serem abordados aqui.

Por que a visão popular negativa sobre as CPIs

        Como dito acima, as CPIs sempre foram mal vistas pelo imaginário popular, pois os integrantes dizem que a CPI surge para investigar explorando determinado tema que chama a atenção pública. Talvez daí a geral pensa que no final todos os errados "deveriam ir logo pra cadeia".
        Em verdade, essa é uma visão errada, incutida desde muito por políticos populistas sob eventual investigação em atos ilícitos de grande magnitude. Como o próprio presidente Bolsonaro tem feito para depreciar a CPI corrente.
        Segundo o cientista político Leonardo Rossato, a visão errada vem justamente do trabalho que a CPI faz de investigar fatos, tarefa tradicionalmente policial. Mas, se trata de uma investigação política, atribuição regida em regimento interno do parlamento brasileiro. É uma investigação política.
        A investigação aufere à CPI o seu poder discricionário (polícia) concatenando vários fatos ligados a um tema. A CPI da C19 expôs ao público ações ilícitas e seus envolvidos, incluindo as omissões do governo na gestão da sindemia que resultaram em mais de 600 mortos e milhares de sequelados1.
        O "ninguém será preso" é uma ideia errônea ligada à desinformação. CPIs têm poder limitado de polícia, no máximo tornar depoente um investigado e dar voz de prisão em caso de desacato ou de excessos, como já aconteceu com dois ou três casos, todos hoje investigados.
        Mas mesmo com seu poder de polícia, a CPI não tem poder judicial, daí não dar veredictos após a verificação do relatório final. Sua função essencial é desvendar as teias de relações e entrelinhas do tema explorado, e mostrar os protagonistas e coadjuvantes, tudo no espectro político.

As vitórias da CPI da C19: análise

        Mesmo com todas as suas limitações, pressões externas e depreciações advindas do governo e da Câmara, a CPI da C19 gerou resultados positivos, que Leonardo Rossato enumera em seis pontos, aqui mais condensados para que o texto não fique demasiado prolongado e enfadonho.
        Vacina e C&T- a vacinação se seguia muito devagar: até o início da CPI em 28/4,  só 13,2% dos brazucas receberam a 1ª dose e 5,8% as duas (dados oficiais de Secretarias regionais). Após a vergonha dos cloroquiners e a assertividade de quem exaltou vacinas e ciência, aumentaram as agulhadas.
        Governos regionais e federal aceleraram a aquisição das vacinas disponíveis. Não fosse a CPI, o Brasil levaria mais de ano e meio para cobrir 80% do povo, com morticínio maior. Hoje, pelo menos 78% já tomaram pelo menos 1 dose.
        Antes da CPI, os cientistas não conseguiram dissolver o discurso anticiência bolsonarista. Na CPI, os cientistas Pedro Hallal, Natália Pasternack e Claudio Maierovitch tiveram sucesso, assim como o médico e senador Otto Alencar em detalhes técnicos, mas didáticos, sobre vírus, tratamento precoce e vacinas. 
        Corrupção e práticas nazistas- na CPI foram expostos negócios ilegais com vacinas da Covaxin e AstraZeneca e testes, tudo fantasma, com empresas de fachada para corrupção e lavagem de dinheiro, e o deputado Ricardo Barros e Marcos Tolentino do Fib Bank figuras centrais dessa teia.
        O deputado Luís Miranda expôs a trama com base em denúncia do irmão servidor concursado do MS/ importação. A partir daí, vários nomes foram convocados, inclusive Barros, Toletino e outros que abusaram do direito ao silêncio e de mentiras confrontadas pelos senadores.
        Na alegação de ter patrimônio imobiliário de R$ 7 bilhões (aonde?), o Fib Bank foi criado como banco virtual para atender às volumosas transações ilícitas, como as supracitadas.
        Depois, o nazismo com vidas: prescrição arbitrária de medicações provadamente ineficazes (kit-C19, flutamida para câncer de próstata, ozonioterapia retal, etc.), canto obrigatório de hino com letra nazista, omissão da C19 nos obituários, "estudos" com dados mentirosos e metodologia duvidosa.
        Tudo sob críticas do ex-MS Mandetta, e pleno aval (e pressão) do ex-MS Pazuello e de Queiroga, estes com o gabinete paralelo que ditava as práticas, e o ministério da Economia, em nome da santa Cloroquina, com volumosas cifras por trás disso tudo. Quem sabe, as offshores agradecem.
        As operadoras de planos de saúde envolvidas são a Prevent Senior e a Hapvida, ambas com seus donos próximos à família Bolsonaro. Mas, quiçá, pode haver outras. Afinal, nesse horror que revela a era Bolsonaro, essas operadoras lucraram muito, mesmo sem revelar os valores na CPI.
        Nisso, vale um spoiler dedutivo. A denúncia de Witzel talvez tenha impedido a extensão dessas práticas nos hospitais federais fluminenses, dada a influência de Flávio Bolsonaro, que quer entregá-los à iniciativa privada.
        Percepção civilizatória e política- no campo civilizatório, se destacaram a bancada feminina, ao enfrentar o violento machismo bolsonarista, e Fabiano Contarato, por seus discursos históricos contra a LGBTQIAfobia.
        Simone Tebet foi o principal alvo do machismo de depoentes abusivos e de colegas governistas que a interrompiam a todo custo, e Contarato respondeu por si e por Randolfe (que não é gay) ao empresário Fakhoury e ao MEC Milton Ribeiro. As duas partes chamaram na CPI a atenção sobre a equidade na diversidade social.
        No campo político, não é segredo para ninguém que o brasileiro vê na política como sinônimo de corrupção de todo jeito e desvarios contra a ética - fruto da própria historicidade da cultura corrupta da elite, que secularmente dominou os bastidores da política.
        A CPI foi capaz de mostrar que existem vários políticos sem escândalos em suas carreiras, não importando se são veteranos ou estreantes. E, também, na exposição de tantos fatos relevantes, acabou com o personagem que Bolsonaro plantou para a sua eleição, ao revelar que o mesmo protagoniza o maior esquema de corrupção percebido desde a redemocratização.

        O cancelamento da homenagem às mais de 600 mil vítimas da C19 por Renan Calheiros parece não mexer com o brilho da CPI citado em tantas linhas. Ele explicou que, em decorrência de pressões para encerrar tudo até 20/10, se dedicará à análise do relatório final com Aziz e Randolfe.
        A decisão foi criticada pela mãe do humorista Paulo Gustavo, vítima há poucos meses. Não que não tenha razão. Mas é perfeitamente certo que o enceramento oficial da CPI tenha a homenagem, mesmo simbólica, o que seria feito com chave de ouro.
        Uma vez que tenha produzido esses resultados tão positivos, se espera que no plano civilizatório, se espera da CPI também possibilitar a humanização da vida e da morte na C19, após o aguçamento da banalização pelo bolsonarismo ao ponto da mórbida complacência diante da barbárie.
        Mas, ainda é cedo para se chegar lá. A morte por barbárie permeia a nossa história há séculos. Mas, a CPI poderá ser lembrada na história do futuro como a oportunidade para nossa humanização. Quiçá.
        Os atores da barbárie da C19 no Brasil podem nunca ser presos. Mas sabemos que não é culpa da CPI. Nisso, já é em si mais uma vitória: nem toda CPI tende a terminar em fracasso.

----
Imagens: Google (montagem: autoria do artigo)

Notas da autoria
1. Por efeitos adversos decorrentes pela adesão errrônea ao kit-C19, Milhares desenvolveram sequelas hepáticas, nefrológicas e neurais ou mentais. A adesão foi voluntária em apoiadores do presidente.

Para saber mais
- https://www.youtube.com/watch?v=J_MQpjK4N7c (Meteoro Brasil entrevista Leonardo Rossato, cientista político-CPI já venceu)
- https://nadanovonofront.com/2021/10/01/a-cpi-ja-venceu/
- https://www.nexojornal.com.br/expresso/2021/09/17/O-envolvimento-dos-planos-de-sa%C3%BAde-com-o-tratamento-precoce
- https://oglobo.globo.com/politica/kit-covid-operadoras-de-planos-de-saude-sao-alvo-de-reclamacoes-na-ans-em-dez-estados-1-25231700


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Análise: não bastam os ossos, tem miséria menstrual

 

        O presidente Jair Bolsonaro sancionou essa semana o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual (Lei 14.214), que foi elaborada pela deputada Marília Arraes (PT-PE) em 2019 e desde então tem sido discutida pela bancada feminina da Câmara.
        Entretanto, o aprove da referida lei foi teve um veto do presidente da República, justamente o artigo que previa a distribuição gratuita de absorventes a estudantes de baixa renda e mulheres em vulnerabilidade social.
        Apesar do aprove, o veto foi bastante impactante para Marília Arraes e a relatora Zenaide Maia (Pros-RN). O motivo disso é que a distribuição gratuita a esses grupos mais vulneráveis era um dos destaques da lei, dado o objetivo de combater a precariedade ou pobreza menstrual.

Pobreza menstrual

        Por pobreza menstrual se define a condição de adolescentes e mulheres em situação de forte vulnerabilidade social, como renda insuficiente para a compra de absorventes ou falta de acesso por ser moradora em situação de rua. 
        A pobreza menstrual é consequência direta e natural da própria vulnerabilidade socioeconômica, que ocorre em todo o mundo. Se na África e na Ásia há mais massas migratórias por razão de guerra, degradação ambiental ou violação de direitos, no Brasil cresce devido ao acirramento da concentração de renda, e perda de direitos.
        A pobreza menstrual se agravou com a pandemia de C19, e entra como mais um fator de risco a configurar a sindemia de C19. Vale relembrar: sindemia é a doença complicada por fatores prévios e predisponentes ao seu agravamento (vulnerabilidade socioeconômica, comorbidades, idade avançada, cultura específica. etc.).
        A relatora do então PL lembrou que uma a cada quatro adolescentes deixa de comparecer à aula presencial por estar menstruada e não ter acesso a absorventes e produtos de higiene, por conta de sua vulnerabilidade socioeconômica. Isso, no Brasil.

Lei 14.214/2019

        Diferentemente das propostas e leis em geral, o ainda PL já nascera como um texto bem conciso e curto, dotado de apenas oito artigos simplificados, que atestavam a objetividade clara e direta em duas direções: a promoção à saúde e uma extensão assistencial às meninas e mulheres em vulnerabilidade social.
        O ainda PL constava na sua previsão, além de medidas visando a promoção da saúde menstrual, a garantia de aceso gratuito a absorventes e acessórios para higiene feminina, no seu objetivo mestre de combater à precariedade menstrual, que é a soma da pobreza menstrual e acesso ao programa de promoção da saúde.
        O leque objetivo do PL teria caráter de promoção à saúde feminina e também assistencial. Essa junção se somaria no combate à precariedade menstrual, que tem crescido com o empobrecimento que assumiu uma velocidade recorde na era Bolsonaro.
        Vetos polêmicos- Ao sancionar a Lei, Bolsonaro vetou o artigo referente ao acesso gratuito de absorventes e produtos de higiene feminina, e o outro artigo, o 6º, que apontava as beneficiárias da gratuidade. 
        Outro artigo também vetado foi o 5º, que versava sobre as despesas desprendidas pela União ao SUS, para a aquisição dos novos insumos, que entrariam no rol como "específicos" para a saúde feminina.
        O veto não impediu a manutenção do Art. 2º da lei, que acaba sendo o cerne central que trata da institucionalização do Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual como uma estratégia de promoção à saúde feminina.
        Neste artigo, o governo alegou que absorventes estão fora dos insumos-padrão do SUS, e também da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename). A lista de beneficiárias foi considerada pelo governo como "contrária ao princípio da universalidade do SUS". 
        O alcance social da lei sancionada se restringe às ações, informativas, preventivas e de promoção da saúde pelo poder público (SUS) contidas no Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, de modo a prevenir meninas e mulheres das más consequências sobre a saúde feminina.

Reflexões

        O veto de Bolsonaro ao Art. 1º, que versava sobre a oferta gratuita às socialmente vulneráveis, não atingiu o Inciso I do Art. 2º da referida lei, que define a precariedade menstrual como "falta de acesso a produtos de higiene e a outros itens necessários ao período da menstruação feminina, ou a falta de recursos que possibilitem a sua aquisição". 
        Parece ironia que tenha sido mantido, pois o objetivo do veto foi justamente impedir o acesso dos insumos para as meninas e mulheres socialmente vulneráveis, que define o objetivo assistencial do projeto. 
        Das duas, uma: ou foi um escape despercebido no momento do veto, ou uma interpretação diferenciada por parte do presidente e dos ministros Guedes (Economia) e Milton Ribeiro (MEC). É muito mais certa a segunda hipótese, uma vez que o veto do Art. 6º dissolveu a especificação tácita das beneficiárias potenciais.
        Essa análise crítica se recai sobre dois pontos necessários, ligados às alegações do governo sobre os vetos: a) os absorventes não integram o rol dos insumos-padrão do SUS; e b) a especificação de beneficiárias contradiria o princípio da universalidade do SUS.
        De fato, eles não se incluem na lista-padrão, mas o projeto previa o rol de "insumos especiais" ou "para beneficiárias específicas" a ser incluído no SUS, o que, por si, já dissolve a alegação do governo. Já em relação à Rename, a alegação se faz razoável, pois absorvente não é medicamento.
        Já a especificação de grupos beneficiários não fere necessariamente a universalidade do SUS, pois o então PL já dava a entender que o acesso aos absorventes se estenderia às hospitalizadas em condição menstrual, independente de ser, ou não, socialmente vulnerável.
        Já existem ferimentos, ocasionados pelos gestores em saúde pública ou pelo MS, ao princípio da universalidade do SUS, impedindo a pronta prática do mesmo. Alguns hospitais públicos adquirem fraldas geriátricas para serem usadas em pacientes internados, e outros não, indicando lacuna legal. 
        Daí ser comum usar fraldas geriátricas em internadas menstruadas, justamente pela ausência de absorventes para essa condição específica. E daí haver custo elevado devido a trocas muito frequentes, uma vez que, mesmo menstruadas, as pacientes urinam e eventualmente defecam, arriscando infecção.
        A inclusão de absorventes para fins específicos (hospitalizadas menstruadas e cessão àquelas em risco social) no rol de insumos especiais do SUS pode aliviar os altos gastos com fraldas geriátricas, que seriam utilizadas apenas para os pacientes muito dependentes, que necessitam de uso constante1 delas.
        Intenções do governo: já é de amplo conhecimento que as citadas alegações do governo não são mais credíveis para a maioria popular. Pois desde o início o governo tem agido para a deterioração paulatina dos serviços públicos essenciais e da economia. 
        Tal deterioração parte dos cortes profundos e sucessivos de recursos de serviços essenciais, da privataria de estatais e demissões em massa. Aprovado em comissão especial, o trecentésimo texto da PEC32 está nas mãos do plenário da Câmara, apesar da pressão das representações dos servidores públicos.
        Apesar da vacinação, a sindemia de C19 continua sendo usada pelo governo para causar nova onda da doença e, daí, novo esgotamento na saúde pública e novas atividades nazistas na saúde privada. Um ministro da saúde que xinga populares em outro país vai se preocupar com saúde feminina?
        Claro que não. E, para completar, que o diga Paulo Guedes que tanto depreciou a nossa economia, que reduziu o poder alimentar popular a fragmentos e ossos. Claro que não vão bastar os ossos, valerá a miséria menstrual para completar o quadro, Tudo faz parte do projeto.
        
----
Imagens: Google (montagem autoria do artigo)

Notas da autoria
1. Uso temporário ou permanente, em internação hospitalar.

Para saber mais
- http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/Lei/L14214.htm#:~:text=L14214&text=Institui%20o%20Programa%20de%20Prote%C3%A7%C3%A3o,essencial%20o%20absorvente%20higi%C3%AAnico%20feminino. (lei 14.214 de 2019, por planalto.gov.br)
- https://www.opovo.com.br/noticias/politica/2021/10/07/bolsonaro-veta-distribuicao-gratuita-de-absorventes-a-mulheres-pobres.html
https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/10/07/bolsonaro-veta-distribuicao-de-absorventes-a-estudantes-e-mulheres-pobres

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Análise: Viraremos zumbis de offshore?

        Neste 3/10/2021, surgiu nas diversas mídias notícia sobre as ligações do ministro da Economia (ME) Paulo Guedes com empresas brasileiras e no exterior, produzindo capital volumoso em dólares em pouco tempo. Ele investe em seu próprio nome e no de sua esposa. 
        A descoberta foi feita pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, em inglês), que também aponta políticos e gente de alto escalão do governo como o presidente do Banco Central (BC) Roberto Campos Neto, neto de Roberto Campos, deputado privatista já falecido.
        Não seria nada demais, pois investir no exterior não é ilegal em si, não fossem detalhes como as relações entre o ME com os envolvidos no descalabro exposto antes pela advogada Renata Morato na CPI, e o fato de que o ME seja chefiado pelo próprio Guedes como ministro, que é uma função pública e causa furor.
        Mas, por que tanta midiatização do tema? O que o depoimento de Morato sobre as relações tem a ver com isso? Há muita coisa em jogo, e procurar refletir as possibilidades é o objetivo deste artigo.

Entendendo um pouco a seletiva agressividade de Guedes

        Paulo Guedes já foi explorado em outros artigos deste blog, desde a biografia até a formação em Harvard e seu apreço à economia anarconeoliberal, que lhe dá fama de investidor agressivo, com certa razão, na forma como se investe na fonte de recursos. Uma agressividade bem seletiva.
        O investimento é agressivo quando vai sobre a fonte para obter os recursos para si. No mercado financeiro, a vendida "necessária mitigação do Estado" explica a forte apropriação de recursos desta fonte. Há duas maneiras: expansão de atividades em outro país, e a privataria.
        Na expansão de atividade econômica, a nossa legislação garante subsídios fiscais por certo prazo. Quando os subsídios extrapolam o prazo legal, a empresa lucra um extra nem sempre declarado, para investir em paraíso fiscal, na conivência do governo. É uma agressividade que Guedes assente como crescente econômico disfarçado de motes populistas. 
        A privataria é uma eficiente apropriação de serviços e recursos de instituições antes públicas. Os recursos são mais volumosos e os métodos de obtenção, mesmo duvidosos, estão mascarados pela lei. Essa prática neoliberal é ainda mais agressiva.
        Mas a agressividade acaba quando o grupo financeiro alcança a meta de acumular capital. Aí, ele se torna conservador, para conservar e acumular mais dinheiro - em paraíso fiscal. O que Guedes vê como sucesso econômico. Uma filosofia aberta aos negócios externos, de offshore.
        E quando se fala em paraíso fiscal, se fala em offshore, que é investimento em empresa, conta ou ação no exterior. Como no capitalismo financeiro o vale-tudo é norma, a empresa pode ser fantasma, como aquela em Bali envolvida na tramoia bilionária com vacinas da Covaxin.
        A reportagem sobre essa conexão da família Guedes, de Roberto Campos Neto, empresários e políticos brazucas com negócios situados em paraísos fiscais faz parte do projeto Pandora Papers, do próprio ICIJ, que reúne mais de 600 profissionais de 117 países e territórios e 150 veículos.
        Breve histórico- tudo começou em 2014, quando Guedes, então sócio da gestora de recursos Bozano Investimentos, fundou a sua Dreadnoughts International, nas Ilhas Virgens Britânicas, paraíso fiscal no Caribe, como estratégia para escapar das turbulências ligadas à reeleição de Dilma Rousseff. 
        A citada offshore surgiu em setembro com US$ 8 milhões, correspondentes a quase R$ 50 milhões hoje, com pai e a filha Paula juntos. Em 2015, a esposa Maria Cristina entra como acionista e diretora, subscrevendo (transferindo) mais US$ 1,55 milhão, totalizando US$ 9,55 milhões.
        A abertura da offshore da família Guedes foi feita pela assessoria especializada Trident Trust, com informes ultraconfidenciais.  Quando a esposa de Guedes entrou, a documentação foi transferida para a funcionária do Crédit Suisse em Atlanta, EUA, conforme mensagens escritas trocadas entre elas.
        Até 28/9/2021 Guedes foi controlador da Dreadnoughts International, à qual se relaciona a maior parte dos 11,9 milhões de papeis do Pandora Papers, com informes como certificados de acionistas em nome de beneficiários, justificativas de aberturas de empresas, comprovantes de aportes de recursos, e e-mails de funcionários encarregados da criação de offshores.
        Outros nomes- a verificação da montanha de papeis relaciona, além de Guedes, os ministros da Economia de Gana, Cazaquistão e Paquistão em offshores. Em países desenvolvidos a coisa explode: a investigação Panama Papers de 2016 ferrou a carreira política de David Cameron, do Reino Unido.
        Roberto Campos Neto criou sua offshore em 2004 com US$ 1,09 milhão, R$ 5,8 milhões hoje, e a fechou oficialmente em outubro de 2020, com capital ignorado devido a aumento do limite mínimo de transferência para US$ 1 milhão, e à má transparência das transferências brazucas. No controle privado tendo cargo público por 1 ano e 10 meses, ele poderia ser enquadrado na lei. 
        Além de Guedes e Campos Neto, outros nomes envolvidos em investimentos em offshores são os donos da operadora de plano de saúde Prevent Senior, envolvida na sujeira nazista com kit-C19; Flávio Rocha, dono das lojas Riachuelo; e Luciano Hang, o famoso Véio das lojas Havan,

Polêmica - à guisa de reflexão final

        Segundo a Piauí, a abertura de offshores ou de conta no exterior em si não é ilegal, desde que seu saldo seja declarado à Receita Federal e ao Banco Central, e que não desempenhe função pública "com acesso a informações privilegiadas em razão do cargo ou função", conforme o art. 5º da Constituição.
        Paulo Guedes alega ter se desligado da função privada desde que assumiu o cargo público, em resposta à ação pública movida pelo PDT ao STF. Mas, não respondeu à Piauí, mídia do ICIJ, sobre especificidades como a declaração e continuidade de subscrição de recursos para a offshore.
        Tendo fechado sua offshore oficialmente em outubro de 2020, Roberto Campos Neto ficou como controlador privado e presidente do BC por quase 2 anos, o que chancelaria o seu enquadramento. Ele alegou que todas as suas empresas foram declaradas à Receita e ao BC, e quando sabatinado, revelou ter atuado no exterior "com recursos próprios e sem transferências recentes".
        Verdade ou não tais respostas, é certo que o status público-privado dessas pessoas seja ruim, por conflitar com princípios éticos e legais, e à alta nebulosidade que encobre irregularidades nos paraísos fiscais, onde a tributação é muito baixa ou nula e há muita lavagem de dinheiro, pondo criminosos e investidores juntos.
        Verdade ou não as respostas vagas, é certo que a situação público-privada dessas pessoas seja má devido a conflitos com princípios éticos, morais e legais, e à alta nebulosidade que encobre práticas antiéticas em paraísos fiscais, onde a tributação é muito baixa ou nula, e lavagem de dinheiro é típica, colocando criminosos lado a lado com os investidores. 
        A respeito de seus negócios em paraísos fiscais, os investidores com função pública se calam, o que chancela a suspeita de práticas ilegais. Eles agem em sigilo, para blindar seus patrimônios de oscilações econômicas e escapar de tributos mais altos nos países natais (elisão fiscal).
        O Brasil tributa mais de 20% do volume de grana a ser repatriada. Nos paraísos fiscais, as taxas são quase nulas ou inexistem. Cinicamente, Guedes chegou a cogitar uma taxa de repatriamento de até 6% no máximo, bem acima do cobrado nos paraísos fiscais com imposto (até 2%).
        Reforma administrativa- Como Guedes tem o típico perfil de acumulador financeiro, o assunto mexeu com uma parte dos servidores públicos, na crença (não sem razão) da possibilidade de Guedes chancelar, na privataria dos serviços públicos, a captura de grana pública para investir na offshore. O que também explica a extrema ansiedade do ministro pelo aprove pleno da PEC32, da reforma.
        A crença faz sentido. O exemplo se inicia com a ideia de privatizar os Correios pelo deputado cassado Eduardo Cunha, quando, na era Dilma, se iniciou o melhor período lucrativo da instituição, a atingir recorde recentemente. Agora o ente está privatizado, só não sabemos quem o detém hoje.
        Há dois exemplos anteriores, um deles daqui: a privatização de entidade do MS responsável pela excelente logística de medicamentos do SUS, de vacinas e de materiais médicos e hospitalares, em 2018, virando a atual VTClog que se envolveu nos absurdos logísticos da era Bolsonaro.
        O outro foi a colapso da carreira política de David Cameron, que ocorreu logo após o amenizar da privataria das instituições britânicas iniciada nos anos 1990, que por sua vez inspirou o então governo FHC fazer o mesmo por aqui. 
        O termo privatização está implícito na PEC32, mas se entende na "entrega dos serviços públicos à iniciativa privada". Não só o Estado se "livra" de tais serviços, como também R$ bilhões serão títulos da dívida pública, ou repassados aos paraísos fiscais. Em sigilo, como Guedes sempre fez.
        E tal como o Chile de Pinochet-Guedes, o Estado brazuca se resumirá a um zumbi controlado pelos mesmos patronos das offshores.
----
Imagem: Google

Notas da autoria
1. 

Para saber mais
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2021/04/analise-um-orcamento-as-custas-de-vidas.html (PEC 186)
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2021/01/analise-o-pior-golpe-e-o-do-capital.html (ações de Paulo Guedes)
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2020/07/paulo-guedes-antieconomia-milhoes-de.html (sujeito a correção)
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2020/08/quem-de-fato-governa-o-brasil-cada.html (governo Guedes)
- https://www.youtube.com/watch?v=vfZ2_5Vs7p4 (Paulo Ghiraldelli e as offshores)
- https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2021/10/4953211-guedes-e-campos-neto-mantem-empresas-em-paraisos-fiscais-revelam-jornalistas.html
- https://piaui.folha.uol.com.br/paulo-guedes-tem-offshore-milionaria-em-paraiso-fiscal/

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Análise: após mil dias, a encarnação do macrossistema

 

        Nessa semana, o presidente Jair Bolsonaro completou 1000 dias como governante da República. Até aqui, temos visto tudo que pelo menos afasta, entre os fatores negativos, o tédio. Sim, tudo por conta da intensa atividade com direito ao que pensamos ser inimaginável.
        Logo de cara, passado a oficial de posse, Bolso lançamento o Decreto 9661 que regulamenta lei de 2015 sobre política de valorização de salário mínimo a longo prazo, e o 9663, que aprova o estatuto do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão criado em .1998 por lei específica e muito citado na mídia sobre as malversações de recursos públicos cometidos pela classe política.
        Já sabemos que o mau uso de recursos públicos é parte essencial da nossa cultura política. Escaldados por tantas lições de nossa história sociopolítica, aprendemos que basta uma informação nova "de corredor" para já percerbermos que esquemas milionários já rolaram ou vão rolar, graças a denúncias de colegas da independente ou da imprensa. Mas, isso é só um detalhe, comum em todos os governos.
        Além desses esquemas, hoje em ápice até então desconhecido, Bolsonaro divulgado, por trás de seus olhos azuis (que certamente justificariam haver mulheres fãs) e de seu esgar aparentando sorriso, a sua verdadeira essência, que nos leva à referência no capítulo bíblico do Apocalipse , em especial sobre os quatro cavaleiros que revelariam como mazelas vividas pela humanidade.
        Vocês leitores perguntaram: "como assim?". Não é complicado. Se seguirá um compilado das quatro mazelas "apocalípticas" representadas nas atuações do governo Bolsonaro.

Guerra

        Essa referência consta da " guerra cultural ". Baseando-se na intolerância radical contra a diversidade cultural, sexual, étnica e político-ideológica, a guerra cultural se revela de forma híbrida, ou seja, a soma da agressão verbal (pessoal ou por redes sociais, com uso de notícias falsas ou teorias da conspiração) e física, se for o caso. O radicalismo eliminatório se justifica na assimilação do princípio catastrófico, de aura mística, da destruição como o caminho para a reconstrução nacional.
        A guerra cultural aparece no bolsonarismo como direta do olavismo, conjunto de ideias pregadas por Olavo de Carvalho, autoproclamado filósofo e astrólogo que se coloca como um dos principais ideólogos não-políticos da extrema direita. Mas herda também traços tradicionalistas pregados por Steve Bannon, ex-braço direito do ex-presidente dos EUA Donald Trump, ideólogo do trumpismo.
        O trumpismo e o bolsonarismo têm pontos em comum, como a intolerância radical acima carregada e a anticiência. Outro elemento, o cristofacismo (ideologização autocentrada do cristianismo), revelação o caráter político-religioso da ideologia do tradicionalismo , já citado em artigo anterior neste canal. Com o trumpismo, o bolsonarismo ganhou seu corpo atual, solidificado na queda do petismo em 2016.
        Essa solidificação testemunharíamos antes da eleição. Ainda em 2018, foram divulgadas na mídia várias denúncias de agressões, em especial verbais e como corrigidos, praticadas principalmente por pregadores do bolsonarismo. Em certas igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais, o curral bolsonarista revelou o movimento político-religioso via aliança de Bolsonaro com esses segmentos.
        Já governante, Bolsonaro guerra a inimigos imaginários, depois tornados reais por sua culpa exclusiva, tanto externamente quanto internamente. BRigou com o mundo como o fez com a maior parte do nosso povo, composto majoritariamente de minorias as mais diversas: LGBTQIA +, negros e pardos, indígenas, não-cristãos e sem-religião, trabalhadores (incluindo servidores públicos de escalões mais baixos) e opositores políticos (também na direita).
        Os meios foram diversos: socioeconômicos (privataria de entidades públicas, retiradas de direitos conquistados a duras penas, demissões em massa, cortes sistemáticos e reiterados nas áreas sociais, extinção de conselhos populares), sanitários  ( espalhe do vírus da C19), ecocídio ( destruição sistemática dos biomas somada a assassinatos de líderes indígenas e evangelização forçada), violação da liberdade de informação falsas, e perseguição a opositores políticos e servidores públicos.

Peste

        Talvez o grande azar percebido pelos brasileiros tenha sido uma pandemia de C19 ocorrer na era Bolsonaro, não atual recorde de mortos, seguindo de perto os EUA, que com o atual surto que causa 2 mil mortes diárias pela variante Delta, também dominante no território tupiniquim, segue à frente. No Brasil, além da Delta, Beta e Gama, há o recente Mu, identificado na Colômbia na época da Copa América.
        Com o Corona identificado em um brazuca vindo da Itália, por sua vez de tomada pelo primeiro surto, o ex-MS Mandetta quis fechar aeroportos e outras medidas cotidianas para evitar o espalhe do vírus, mas Bolsonaro negou mantendo tudo. Os governadores proibiram viagens interestaduais. Irritado, Bolsonaro criou como grandes aglomerações e propagou o kit-C19 (cloroquina e hidroxi-, ivermectina, azitromicina e dipirona), mesmo com os primeiros estudos já afirmando a sua ineficácia para uma doença - reiterada até hoje em novos estudos.
        Demitido Mandetta, entrou Nelson Teich que mal esquentou uma cadeira do MS, saindo em 28 dias, por discordar da panaceia kit-C19 de Bolsonaro, como tratamento oficial. Depois de meses de ausência, o Pazuello geral, sem formação em saúde, é nomeado ministro. E viria protagonizar a pior fase da sindemia, " cumprindo missão " após mais de 300 mil mortos. Em seu lugar, entra o cardiologista Marcelo Queiroga, um Pazuello civil.
        O horror na era Pazuello viria escancarar o que para os critérios já era óbvio: por trás da maior tragédia sanitária brasileira se desenhava um genocídio . Como algumas mídias divulgaram, o espalhe do vírus pelo mito da imunidade de rebanho foi estratégia proposital - o que se reitera a cada aglomeração festiva do presidente, após (oficialmente) cada números de mortes semanais. 
        Alcançada a marca de 500 mil mortos (oficiais), veio a CPI da C19 a escancarar a dimensão multifacetada do horror cometido pelo conjunto de governo, empresários e parlamentares. A Prevent Sênior protagonizou, junto a políticos amazonenses e outros, práticas comparáveis ​​às do nazista Mengele. Além de fraudes bilionárias em compras de vacinas inexistentes, no maior esquema de corrupção desde a redemocratização. Fora o que ainda não sabemos...

Fome

        A fome é um flagelo mundial com altas opções nas nações socialmente desiguais e subdesenvolvidas, e todos sabemos disso. Muito mais do que resultado da má distribuição da disponibilidade alimentar, ela se tornou um problema fomentado pelo sistema econômico globalizado, pois existe até nas nações mais desenvolvidas.
        No Brasil, ela sempre existiu, sendo piorada no capitalismo clássico com êxito na ditadura militar, quando as desgualdades sociais bateram recordes. Com o plano Real de FHC e as políticas assistenciais e de incentivo à economia popular na era PT, o flagelo diminuiu. Mas a coisa voltou na era Temer (2016-8) devido ao teto dos gastos públicos que reduziu a responsa estatal na economia popular, ao e ao desemprego à fragilização dos direitos trabalhistas.
        Mas, a velocidade de empobrecimento extremo, miserabilização e fome dobrou nos 2 anos da era Bolsonaro, ao ponto de mais de 100 milhões estarem hoje em insegurança alimentar, quando não se sabe se no dia seguinte terá o que comer. 
        Segundo a Brasil de Fato, uma FAO / ONU considerada um país fora do mapa da fome quando é igual ou inferior a 2,5 pessoas a cada 100 habitantes. Hoje, está em desuso, entrando aí a capacidade de o governo fornecer políticas efetivas de combate à fome, como o conjunto Fome Zero na era petista, que seria copiado pelos países africanos.
        Embora isso explique a felicidade dos cabeças do governo (Bolsonaro e Guedes) desde que intensificaram as políticas anarconeoliberais, o sinistro da economia quer aprofundar mais ainda essa política, agora através da "reforma" administrativa, que prevê a privatização dos setores essenciais à população. A proposta abarca servidores de todos os poderes, à exceção da elite do funcionalismo.
        Ou seja, a fome pode aumentar a níveis ainda imprevisíveis, se Arthur Lira continuar com o seu discurso igualmente nazfascista recusando a urgente necessidade de interditar o presidente.

Morte: além da C19

         A morte é uma marca forte no Brasil. Hoje, a C19 está no centro do debate como fator da maior tragédia sanitária da nossa história. Mas, quanto a C19 se trata de sindemia (doença que que se complica na presença de comorbidades prévias e sociais), tanto se morre dela por complicações diretas ou indiretas. Mas, isso é só um detalhe no amplo espectro da saúde pública.
        Segundo a última estatística do MS (2018), a principal causa de mortalidade são as doenças crônicas . Não há fontes sobre dados de 2019, e desde 2020 a C19 domina e tende a persistir. Por complicar doenças preexistentes e ter muita subnotificação, a C19 impede a estatística confiável, e os cortes absurdos de recursos ao SUS pelo governo agravam a crise, ajudando a ampliar os índices de mortalidade.
        Com tanto desinvestimento, outros velhos inimigos, como o sarampo e a tuberculose, retornam com mais força no governo Bolsonaro, ameaçando a volta de outras infecções, então fortemente mitigadas ou mesmo erradicadas.
        Se a tragédia da C19 surpreende por ter sido perfeitamente evitável se não fosse um governo psicopático, a nossa própria história nos revelação um contexto amplo e macabro que seguiu a formação da sociedade brasileira, desde a colonização das plagas tupiniquins elaborada pela turma de Cabral.
        Sabemos que a turma de Cabral não descobriu o Brasil, pois em seguida os colonizadores já chegaram com sangue nos olhos para disseminar o catolicismo e explorar os recursos naturais. Isso alimentou nos colonizadores a agressividade contra os nativos e, depois, contra os africanos, vindo nos primeiros morticínios, repetidos de tempos em tempos.
        Marcas pretéritas que se refletem hoje. Com bagagem lotada de estupidez, preconceito, ódio e sede de sangue, Bolsonaro sorri com o aumento da violência policial, segundo o Anuário Estatístico de 2019 sobre homicídios. Antes desse Anuário, já sabia que o Brasil tem mais índices do que todos os países da UE, Canadá e Austrália juntos.
        O domínio por milícias e / ou tráfico, tendo a polícia e / ou copartícipes FFAA frequentes, derruba o folclore do "criminoso de rua" como o maior homicida. A grande evidência está nos grandes centros do RJ, SP, CE, PB e outros estados. No Rio se verifica hoje forte ligação entre chacinas policiais nas favelas, milícias, mortes e por "queima de arquivo".
        Homicídios cometidos pelos criminosos sem ligação com ORCRIMs e milícias são geralmente motivados por brigas pessoais, de ódio (racismo, homotransfobia, feminicídio, etc.), ou latrocínio (roubo seguido de morte).
        As mortes no trânsito também destacam. A Lei de Trânsito de 1997 anterior cassar a carteira de habilitação em 20 pontos de infrações cometidas, caindo de mais de 40 para 25 mil. O governo Bolsonaro aumentou a 60 os pontos para a cassação da carteira, daí o aumento da imprudência e as mortes. Em 2020 morreram quase 30 mil, segundo o Portal do Trânsito.

Final de reflexão

        Mesmo respeitando princípios constitucionais, governos pós-ditadura e antes de Bolsonaro não cosneguiram impor índices sociais europeus no Brasil. Mas, fizeram a sua parte em alviar os vergonhosos indicadores de outrora. Até vir Bolsonaro com sua caterva para destruir tais esforços, até ser desmascarado pelos fatos subsequentes.
        Ele seduziu plateias mais crédulas e excitáveis com a ilusão de seus olhos azuis e esgar à guisa de sorriso e seu discurso moralizante de político antissistema. Entre os mais crédulos e excitáveis, ele foi eleito como "enviado de Deus para salvar o Brasil", segundo seus guias nos cultos de algumas denominações cristãs.
        Não é necessário se referir à Bíblia para entender como flagelos sociais se pronunciam em governos e regimes totalitários, desde a Antiguidade, e revelam, hoje, quem é Bolsonaro e quais são suas intenções. Hoje, aqueles religiosos mais crédulos, que agora acordam do sono profundo, ou veem como o Anticristo e seus ministros e aliados, seus cavaleiros.
        O Anticristo é interpretado por uma parcela de estudiosos da Bíblia como o homem mais poderoso economicamente e extremamente autoritário. Para outros, é uma representação do macrossistema econômico e geopolítico global, contra os quais alguns governos travam guerra através de esforços de bem-estar social.
        Seja como for, o Anticristo é uma alegoria. Mas, para o atual momento brasileiro, reviver como mazelas como eram na ditadura militar já personifica viver como quatro grandes pragas acima explicitadas, tendo Bolsonaro o seu grande artífice e comandante. O político que tanto se dizia antissistema se revelação, enfim, a encarnação das práticas do macrossistema.

----
Imagem: Google (edição: autoria do artigo)

Origem do artigohttps://pingback.com/pensamentos/analise-apos-mil-dias-a-encarnacao-do-macrossistema 

Fontes referidas no artigo
https://brasil.elpais.com/brasil/2021-01-21/pesquisa-revela-que-bolsonaro-executou-uma-estrategia-institucional-de-propagacao-do-virus.html
https: // www.brasildefato.com.br/2021/06/30/afinal-o-brasil-esta-ou-nao-no-mapa-da-fome-da-onu
https://www.portaldotransito.com.br/noticias/em-2020-80-pessoas-morreram-por-dia-em-consequencia-de-acidente-de -transito-no-pais /

ANÁLISE: Especial - as vitais correntes marinhas

              Em artigo recente sobre clima pormenorizei sobre fatores de padronização, eventos meteorológicos (condições de tempo) e o aque...