terça-feira, 14 de janeiro de 2025

ANÁLISE: Ultradireita na rede: velha novidade, nova tática

 

                    Iniciada nos Estados Unidos, a história da Internet se confunde com a da informática (EUA-Inglaterra), dada a época de seu germe, a sua origem estatal e os seus objetivos de rastreamento político de nazistas e soviéticos – aos quais as populações se viam alheias, por ter sido segredo de Estado.
                    A privatização e a posterior popularização dessas tecnologias possibilitou a proximidade virtual por afinidade, em que usuários acessam maior gama de informações cotidianas ou acadêmicas, e entretenimentos como chats de relacionamento e jogos. Foi um pulo para chegar em nossas telas os mensageiros instantâneos e as redes sociais.
                    
Efeito fulminante
                    Mensageiros instantâneos e redes sociais concretizaram proximidades virtuais por afinidades gerando nova dinâmica de relações interpessoais e sociais, bem como entre usuários comuns, empresas, órgãos públicos e grupos políticos. E viraram terreno fértil para a ultradireita.
                    Foi pelas redes de contato que políticos extremistas penetraram na vida pública seduzindo milhares de usuários com suas publicações, numa eficiência comunicacional eficiente baseada no disparo massivo. Os nazifascistas Donald Trump e Jair Bolsonaro foram eleitos dessa forma.
                    O disparo massivo de posts audiovisuais de conteúdo apelativo tem alcance muito longo, até públicos mais isolados, pouco ou não letrados e de mentalidade moral-punitivista, não detectores de desinformação e esquecidos pela esquerda. Assim se beneficia a capilaridade da ultradireita.
                    
Outros ataques
                    No calor dos fatos sociopolíticos no Brasil e no mundo em meados de 2024, o trilhardário Elon Musk entrou na sua rede X (ex-Twitter) acusando o STF de censura. Acabou tendo o X temporariamente suspenso, só retornando após pagar uma multa milionária.
                    Por Musk depreciar governos progressistas do Brasil, da Austrália e da Bolívia, e o nosso STF, os bolsonaristas viram no X a sua maior e melhor referência ideológica. Mas Musk já mostrou o seu viés após comprar a rede: ele demitiu sumariamente funcionários de viés progressista.
                    Como se não bastasse, outro CEO entrou em cena no início dessa semana. É Mark Zuckerberg, dono do Facebook, uma das plataformas integrantes da Meta. Esta última agrega empresas de aplicativos, entre elas os muito populares Instagram (rede social) e WhatsApp (mensageiro instantâneo).
                    Segundo "Zuck", como é conhecido, “tribunais secretos na América Latina” (leia-se STF) “querem censurar a liberdade de expressão dos usuários”, e declarou que suas redes sociais “não farão mais checagem rápida em postagens comprometedoras ou que possam ofender minorias”.
                    Ele disse ainda que suas redes abolirão a política de diversidade e permitirão posts que julguem condutas como homossexualidade e transexualidade doenças, mesmo após a OMS as excluir em definitivo. E completou que as redes precisam ter “mais energia masculina”. E ganhou um aliado nesses pontos.
                    A franquia de fast food McDonalds declarou em nota que não seguirá mais a política de diversidade, e ganhou a simpatia dos bolsonaristas, que certamente lotarão suas lanchonetes só por causa disso. A empresa agradecerá com os lucros tão volumosos quanto os incentivos fiscais do governo brasileiro.
                    E não esqueçamos do advogado e Pulitzer do jornalismo, o ex-Intercept Brasil Glenn Greenwald. Homossexual assumido, ele tem defendido divulgadores de conteúdos de ódio. Como judeu, já defendeu um neonazista. Ele se justifica nos “princípios libertários da Primeira Emenda Constitucional dos EUA”.
                    Não por acaso, ele acusa principalmente o STF de censura, ao criticar o banimento judicial de perfis que postam conteúdos de ódio contra a honra de alguém ou a minorias, e reiteradas mentiras contra a ciência e a história. Uma clara defesa à imposição global dos princípios em que acredita. O problema é que o Brasil não é os EUA e isso tem que ser respeitado.

Resposta dupla do Brasil
                    Mas os ataques de Musk, Zuck e da rede de fast food não ficaram sem resposta. Antes mesmo da McDonalds lançar seu manifesto em nota, o ministro do STF Alexandre de Moraes disse que o Brasil “não é terra sem lei, as plataformas também têm que seguir a lei”.
                    Vários colegas de STF, entre eles Gilmar Mendes e Flávio Dino, e membros do governo Lula 3 deram plena concordância à resposta de Moraes. Todos sabem que os ataques turbinam o ódio da extrema-direita aqui e mundo afora – uma verdade inconveniente, mas inevitável.
                    Punibilidade- enquanto no Brasil a checagem é obrigatória graças à tipificação de crimes cibernéticos no Código Penal, na Europa ela integra a lei de regulação das mídias, que o PT quer copiar. As big techs aceitam postagens criminosas no Brasil devido à falta de regulação.
                    É claro que, não raramente, as mesmas big techs façam jogo sujo com alguns usuários, tornando indisponíveis à visualização pública algumas postagens inofensivas, ou aquelas que porventura vão contra os interesses de grupos políticos ou empresariais ligados à extrema-direita.
                    Agora, a Advocacia-Geral da União (AGU) já se pronunciou sobre a demonstração de empáfia da Meta, e exigiu desta última uma resposta sobre o fim da moderação de conteúdo. A empresa respondeu, se justificando no suposto comprometimento com a transparência e com direitos humanos.

Em fria análise
                    Glenn Greenwald justifica sua posição na Primeira Emenda Constitucional dos EUA, que prevê a liberdade absoluta de expressão. E vale destacar que, exceto os chineses Tik Tok e Kwai e o russo Telegram, as big techs dominantes que protagonizam essa tática de ódio são todas estadunidenses.
                    No século XX, em especial a partir dos anos 1940, a exportação de cultura (em que subjaz o moralismo de costumes e o liberalismo econômico) para todo o Ocidente, e a exploração direta de recursos em terras alheias incutiram nos estadunidenses o espírito imperialista.
                    O exemplo veio na própria invenção da informática moderna e da internet para espionar nazistas e soviéticos.  E como o capitalismo e a citada Emenda já existiam, não se espera uma democratização política real entre as big techs – daí as postagens de ódio e de extremismo político não serem uma novidade, apenas se renovam e se inovam com o tempo.
                    Mas... cabe frisar que a citada Emenda não impede incoerências práticas. A cultura política dos EUA impede a ascensão de socialistas como Bernie Sanders ao poder, e inibe o interesse pelas verdades inconvenientes do pensador-escritor Noam Chomsky, que vive aqui.
                    Mas a acusação de censura de censura se desculpando na lei estadunidense é tudo que desperta o interesse de Zuck, Musk e outros de franquias como McDonalds. Daí não surpreender a permissividade das big techs a postagens comprometedoras de qualquer ordem.
                    Acontece que não existe lei que obrigue as demais nações de seguirem a lei dos EUA. A legislação brasileira segue o princípio da liberdade relativa de expressão, onde o “fala o que quiser e ouve o que não quer” (de preferência argumentando) fomenta o debate dialógico.
                    Na real, a liberdade absoluta de expressão só funciona na dominação ampla da ordem imaginada de um grupo específico sobre os demais. O elitismo em processos judiciais é um exemplo claro. Se permitido, o debate dialógico o dissolve. Daí a ultradireita não ser novidade nas redes sociais, que surgiram e foram desenvolvidas no meio capitalista.
                    Aê, Lula 3!- o Brasil, tanto pela fala firme de Alexandre de Moraes no STF quanto pela exigência de Jorge Messias na AGU, mostrou que possui institucionalidade e princípios legais, ainda que, por outras experiências, a patuleia tenha conhecido a cultura elitista no mundo do judiciário.
                    E nessa questão da conquista das plataformas pelos grupos de extrema-direita, vale uma sacudida no governo Lula. Mesmo visivelmente ativo para restaurar o país da quebra do governo anterior, Lula 3 não consegue fazer com que seus feitos penetrem no grande público que o elegeu.
                    Isso tem a ver com o formato das suas publicações em redes sociais. Nelas dominam esses enfadonhos banners com textos, em relação aos atraentes vídeos – que unem imagem, mobilidade e converte texto em áudio – com o presidente. Daí a queda da patuleia pelas publicações profissionais e muito bem pagas da ultradireita.
                    Lula 3 pareceu ter atendido a apelos de vários setores: substituiu Paulo Pimenta pelo marqueteiro Sidônio na Secom. Vamos ver se deslancha. E, quiçá, por que não realizar um disparo massivo de audiovisuais dos feitos positivos do governo, considerando-se a veracidade plena e a sua legalidade? Experimentem, de repente vale a pena! Antes tarde do que nunca.

Para saber mais
- https://youtube.com (canais A nova máquina do tempo, Desmascarando, O historiador, ICL Notícias e outros correlatos)
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domingo, 5 de janeiro de 2025

Ligeirinhas 8 (3ª guerra, golpismo, Brasil real)

 

A iminência de guerra global

            Há uma tradição universalizada em todo o mundo, segundo a qual o início de cada ano corresponde a um novo ciclo, que pode ser interpretado de diversas formas: renascimento, reconstrução ou recuperação. Por isso desejamos o melhor ao outro.
            Mas a crua visão da realidade prática nos mostra que nosso desejo compartilhado se torna inviável. Entre as más notícias que vemos diariamente estão os crimes cometidos por agentes políticos e a escalada das guerras internacionais.
            Os homens guerreiam entre si há milênios. Algumas guerras são seculares e intermitentes, engatilhadas por novos motivos. Estes são os casos da guerra Israel x árabes, e a russo-ucraniana, afinal os dois principais conflitos, encobrindo outros tantos por aí.
            Ambas são exemplos notórios da imensa disponibilidade de arsenal bélico, do qual apenas uma pequena parte tem potencial destrutivo suficiente para exterminar a humanidade – ou mesmo toda a biosfera planetária – mais de uma vez.
            Por envolverem potências como EUA, China e Rússia, só essas duas guerras despertam o temor midiático da iminência da terceira guerra mundial. A julgar pelo arsenal bélico, na prática ela já ocorre – só falta o anúncio oficial. Quem viver, verá.
            Esse anúncio pode ocorrer neste ano – mesmo que alguns países se declarem neutros, como nas primeiras guerras mundiais. Só espero ardentemente que o Brasil seja um dos neutros. Meus pêsames às famílias dos mercenários que entram nessa imbecilidade internacional.



A nova face do golpismo

            Ao fim de 2024, as instâncias judiciárias tomaram ciência das muitas evidências materiais que provam o papel de Bolsonaro como líder da série de crimes ligados à tentativa de golpe de Estado com início desde o pós-eleição de 2022
            Daí sabermos que, neste presente novo ano, as novas descobertas feitas pela continuidade das investigações da PF aumentam o nível de certeza de que a prisão é o destino mais adequado ao ex-presidente e demais lideranças envolvidas.
            Por outro lado, a correnteza das regras institucionais encontra um revés, como a remada contra um recife submerso que redireciona as correntes d’água. No caso, as instituições enfrentam a possibilidade de represália.
            Depois da intentona de 8/1/23, o terror suicida de Tio França – seguido do incêndio de sua casa e a estranha morte da sua ex no Sul – precedeu uma nova tentativa fracassada de terror, dessa vez sem suicídio, em Brasília.
            São fatos recentes que revelam a nova faceta assumida pelo bolsonarismo, adictas à continuidade das fake news. Cientes, as autoridades do DF reforçaram o esquema de segurança para a festa da virada de ano, que costuma atrair muita gente.
            A efetividade da segurança na festa da virada se manterá até o aniversário da intentona, contra novos ataques. Mas parece faltar o mesmo com a desinformação massiva na rede, apesar das medidas severas aplicadas pelo TSE de Xandão.
            A suspensão de perfis divulgadores de mentira e ódio não garante a transparência necessária, proposta na arquivada PL das fake news na advertência às big techs sobre as postagens falsas ou ofensivas de seus usuários.
            Na prática, alcançar a transparência é muito difícil. Se propõe advertir big techs a notificar postagens suspeitas e autores às autoridades judiciárias. Este é o temor dos políticos envolvidos na intentona de 8/1. E, quiçá, também das big techs.
            Será que as bjg techs respeitarão as regras em prol da democratização da verdade? Afinal, o ódio gera muito, muito lucro. Quem viver, verá.


Como diferenciar identidade e identitarismo?

            Brasil, desde 2013: vemos mudanças profundas. As conversas se tornam mais ríspidas em discordância de temas diversos. Se intensificam ataques racistas e de classe; igualmente a terreiros de religiões de matriz africana. Há mais violência contra a mulher.
             Brasília: a partir de 2015 surgem ideias legislativas retrógradas. Direito a porte de armas para cidadão em posse legal; punição a meninas e mulheres que abortarem até nas circunstâncias legais; protesto reacionário à sanção da tipificação criminal do feminicídio.
            O auge bolsonarista em 2019-22 se desenhou na pandemia de C19, na boiada antiambiental, na liberação geral de armas e no ódio profundo a minorias – em que se rendeu bem, ocasionando divisões e consequentes hostilizações internas quase constantes.
            A hostilidade entre grupos minoritários nos dá pista para entendermos que identidade e identitarismo são conceitualmente distintos, mesmo que haja ligação entre um e outro, de forma que a patuleia entenda ambos como sendo um só.
            Identitarismo é a resposta ampla, eloquente ou até agressiva a um estímulo discriminatório. Identidade é a consciência confiante de seu pertencimento específico (racial, cultural-ancestral, sexual, de procedência, social, etc.), sem se rebaixar à discriminação.
            Exemplos identitários são os movimentos pela legalização da união homoafetiva para ter os mesmos direitos da união heteroafetiva; e os feministas pela equidade entre gêneros em direitos e deveres. Historicamente, os negros são um exemplo valioso.
            Nesse sentido, o identitarismo não é necessariamente negativo. Pelo contrário. Seus movimentos históricos protagonizaram a pressão sobre os governos para criar leis mitigadoras de injustiças sociais. Ele propiciou, assim, o sentimento confiante da identidade.
            Se torna negativo quando alguém usa sua prerrogativa para prejudicar alguém (pessoa ou empresa) sem justificativa provável. Ou se a organização usa a pauta identitária para se promover junto à sociedade, à mídia e ao governo, a fim de lucrar mais.
            Nesse sentido, a pauta identitária deve ser usada com sabedoria, em justificativa e materialidade documental ou testemunhal. Estamos num país que abriga 75% de minorizados, um povo imenso que pode ser usado no tema em prol do capitalismo.
            Isso é um recado para a esquerda, em sua pretensão de atingir o auge político. Com tantas minorias diferentes constituindo uma nação, o melhor a ser feito para atendê-las é maximizar a universalização das políticas públicas. Aí, o problema passaria a ser a direita elitista do Congresso.



O antidemocrático ataque ao jornalismo

            No blog há artigos referentes aos meios de comunicação jornalística em diferentes tópicos: a importância do jornalista, os tipos e portes de mídias existentes e quem as detém, e enfim, a intenção do PT na polêmica regulamentação da imprensa.
            Mesmo distintos entre si, os tópicos referidos se ligam de alguma forma. O jornalista tem papel informativo e contributivo à investigação (ramo investigativo), e seus informes chegam ao público, pendendo para o campo ideológico de seu empregador.
            Os jornalões são meios hegemônicos antigos, de viés liberal-capitalista, longos textos de teor academicista e recebem concessão pública. Eles alcançam as classes populares via TV, rádio ou versões impressas ou online de matérias de linguagem acessível.
            Meios não hegemônicos ganham espaço público crescente mediante redes sociais, canais do Youtube ou newsletters de e-mails. Alguns são independentes, sobrevivendo da ajuda financeira de assinantes e de compartilhamentos das matérias visualizadas.
            Mas o valor das mídias não as torna imune a ataques. O ataque a jornalistas – principalmente mulheres – pelo bolsonarismo virou moda. Principais alvos, os jornalões O Globo virou “Globolixo” e a Folha de SP viraram, respectivamente, “globo lixo” e “folha lixo”.
            Bolsonaro se foi, mas o ódio dos apoiadores à mídia continua. E vale destacar que, no Brasil moderno, as primeiras críticas vieram de grupos de esquerda. Mas as críticas podem ser tão construtivas quanto o contrário, este revelado nas expressões bolsonaristas.
            A crítica às mídias em geral – especialmente os jornalões, dado o alcance de público – são salutares para a posterior correção. Até as matérias cujos títulos já revelam viés ideológico devem ser apontadas criticamente para responsabilização dos difusores.
            Matérias desinformativas ou muito enviesadas não torna as mídias “lixos”. Não há jornal imparcial, porque ninguém o é. O que falta é regulamentação para democratizar a informação em diferentes vieses, capazes de alimentar a reflexão crítica do público – o papel maior do jornalismo.


Brasil de classe média... só que não
            
            Lula foi eleito pela maioria para restaurar o país. Reconstruir não significa pôr na mesa picanha maturada com cerveja gelada – isso é só uma metáfora. E duas reconstruções foram as políticas de valorização do salário mínimo (SM) e da distribuição de renda.
            Essa valorização – superior à inflação oficial + rendimento do PIB no ano anterior – permitiu às classes populares consumirem mais de fato. A fila do osso virou fila da carne real, de segunda ou, eventualmente, de primeira: tudo é válido na vida do povão.
            Outros dados econômicos revelados nas mídias foram o crescimento do PIB e da indústria, e a queda do desemprego, facilitando o salto macroeconômico do país. Apesar da alta dos juros e, mais recentemente, do dólar pela crise cambial.
            Agora, mídias de vieses diferentes como a liberal O Globo e a centro-esquerda Brasil de Fato divulgaram que o Brasil se tornou um “país de classe média”: tudo porque “mais da metade dos lares brasileiros passou a ter renda acima dos R$ 3,4 mil”.
            Claro que, para o Globo, a otimização da economia geral e o crescimento da renda média são produtos de “muita sorte” no governo Lula 3, enquanto que para o Brasil de Fato, tudo é fruto do esforço da equipe do governo. Mas esse não é o foco do artigo.
            Na real, R$ 3400 de renda estão abaixo da soma de 3 SMs de 2025 (R$ 1.518), ou seja, R$ 4.554 – abaixo do SM sugerido pelo DIEESE, de mais de R$ 6 mil, para satisfazer necessidades de uma família de 4 pessoas, conforme a CF de 1988.
            Considerando-se a desvalorização lenta e progressiva do SM oficial até 2022, bem como o conceito de classe média a que tenha hoje renda igual ou maior que R$ 4.554, podemos dizer que o país ainda é classe pobre melhorada. O resto é falácia midiática.
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quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Ligeirinhas 7 (destaques do ano, critica aos críticos, etc)

 

Pacote fiscal: uma bronca aos críticos

            Como soubemos publicamente, o pacote Haddad teve o teor socializante na tributação relacionada ao poder de renda (os do topo. Mas também prevê valorização menor do salário mínimo (sm) e dos benefícios sociais a ele vinculados.
            Por pegar também na base da pirâmide, o pacote Haddad sofreu fortes críticas da maior parte dos grupos de esquerda. Não sem razão, claro. Até porque essa frenagem foi facilmente aprovada pelo Congresso, com uma tesourada a mais.
            A crítica residiu principalmente na restrição de requisitos para obtenção do direito ao benefício de prestação continuada (BPC). Ela foi explorada por parlamentares bolsonaristas para desinformar o povo sobre a real intenção do governo.
            Foi um sacrifício convencer os desinformados da realidade. Na prática, a intenção era restringir o direito ao BPC a pessoas com 25% do SM ou menos, e portadores de deficiências ou necessidades especiais de fato incapacitantes para o trabalho.
            Somando-se todas as deficiências e necessidades especiais na população geral, se estima que até 36 milhões tenham algo. E destes, 18,6 milhões (8,9% da população geral) são, de fato, incapazes de trabalhar necessitando, assim, do BPC.
            Portanto, a parcela com deficiências e/ou necessidades especiais leves têm capacidade para ocupar cargos compatíveis com a sua condição individual. As cotas de concursos públicos e vestibulares preveem essa compatibilidade.
            A afirmação acima não é uma ideologia capacitista, nem identitária. Se a educação e, principalmente trabalho já preveem, por lei, meios inclusivos, vale frisar que a mesma afirmação é, na verdade, uma injeção de autoconfiança aos portadores.
            Isso não invalida de todo a crítica da patuleia esquerdista à menor valorização dos ganhos no andar de baixo. Mas vale a bronca por não criticarem duramente o Congresso de ter deixado os super ricos incólumes à benemérita tributação.


Memória: um governo em risco

            Quando Lula foi declarado eleito pelo TSE, a margem apertada fez muitos pensarem que a vitória só foi possível graças à lábia da Frente Ampla. Com certa razão, pois Bolsonaro só ficou no governo pagando muito caro ao Congresso de forma ilícita.
            Por isso, Lula teve que maximizar o esforço de refinar a sua velha sagacidade política para obter o apoio da ampla rede partidária da Frente Ampla, com o fim de derrotar Bolsonaro. Entre a lábia e o dinheiro, a competição foi acirrada.
            Antes de tomar posse, Lula teve que governar por fora, na PEC da transição, pela qual conseguiu recursos para recuperar o país do desastre. E desde já, ele recebeu olhares hostis, que se rebelariam de verdade após a posse.
            Seu ministério foi como a propaganda do desodorante Rexona: sempre cabe mais um. Pela frente ampla, Lula distribuiu alguns ministérios ao conjunto partidário do Centrão, e nomeou um aliado de Arthur Lira para tomar frente na Caixa.
            Acontece que isso não diminuiu a hostilidade do Congresso, por sua composição de centrão e extremistas à direita nas bancadas da bala, da bíblia e do boi, todas controladas também por uma força maior e unida: o mercado.
            Para se manter, o governo teve que ceder em muita coisa: não conseguiu a desejada justiça tributária na PEC da reforma nem no novo pacote; viu a pirotecnia agrobolsonarista durante a seca; e enfrenta um problema especulativo de juros e dólar altos, de difícil controle.
            Mesmo assim, houve algumas vitórias, mesmo amargas, para cumprir muitas das promessas de campanha. E agora, a restrição de emendas, determinada pelo STf, pode ser mais um desafio imposto pelo Congresso contra a sua governabilidade frente às adversidades.
            Enquanto há rumor de Lira ministro da saúde em 2025, Lula 3 avalia como agirá a partir de janeiro. Mas é certo que, com “tesão de jovem de 18 anos”, ele conclua o governo com chance de tentar se reeleger. E a guerra mercadológica certamente continuará.


A inversão no SUS amplo

           Embora se espalhe em todo o território nacional, a saúde federal operada por servidores diretamente vinculados ao Ministério da Saúde (MS) tem, ao menos, 70% de sua concentração de instituições e trabalhadores na cidade do Rio de Janeiro.
            Herança dos tempos de capital federal, essa concentração tem 6 hospitais federais (HFs) de controle pelo DGH (Departamento de Gestão Hospitalar), e 3 institutos nacionais (INs) de serviço hospitalar e suporte de ensino e ciência e tecnologia.
             Iniciada há mais de 70 anos, essa rede é operada principalmente por trabalhadores efetivos do Ministério da Saúde (RJU-MS), que paulatinamente perdem espaço para os temporários da União (CTUs) por falta de concursos públicos.
            Até aí temos aguentado. Mas a coisa piorou desde 2023, quando o MS declarou “impossibilidade” de continuar gerindo toda a rede no RJ, durante uma negociação. E desde então, os servidores vivem uma guerra hercúlea com Brasília.
            O motivo da guerra é o fatiamento: a Ebserh (que controla os HUs) pegou um HF; o município, dois outros HFs até o momento; e o até então obscuro Grupo Hospitalar Conceição (GHC) pegou outro. Dois HFs ainda estão sem futuro definido.
            Tudo isso acima é repetido, para informar os que ainda estão por fora dos acontecimentos, sem ciência das consequências de todo esse processo – que já se concretizam, por trás da promessa de um SUS mais amplo e completo.
            Desde que tomou controle dos HUs, a Ebserh acabou com a reabilitação cardíaca no HUAP da UFF-Niterói; e na última semana de 2024, o GHC simplesmente “matou” a referência nacional em Nefrologia no HF de Bonsucesso, no Rio.
            Mais um passo, para que o SUS seja fragmentado até a completa dissolução de seu princípio maior: o de ser para todos. Triste será ver nos jornais futuros: “O lucro bilionário do SUS (leia-se empresas) é o resultado de um acerto do governo”.


Os campeões da ética e moral em 2024

            Quando Lula disse, ainda preso na PF em Curitiba, que “não abre mão da dignidade para ter liberdade”, Lula oportunizou uma observação interessante sobre as possibilidades de haver dignidade na política.
            Isso porque a política se tornou mais do que uma ciência da diplomacia em nome da ordem nacional a partir da governança. Ela se revela um termômetro onde os princípios éticos são constantemente testados na guerra dos discursos.
            A política é mais do que um octógono do MBA. É um campo minado onde impera a guerra ideológica – na qual o mercado marca presença quase constante – em que diferentes figuras se notabilizam em matéria de dignidade, ideológica ou ética.
            Guilherme Boulos: fez boas observações nos Conselhos de Ética da Câmara. Graças às suas análises, André Janones foi absolvido da acusação de rachadinha, e o risco de cassação de Glauber Braga foi enfraquecido ao expor a tática do MBL.
            Glauber Braga: presidente da Comissão de Gestão participativa, não se intimidou com o poder de Arthur Lira ao expor acusações sobre este. Enfrenta processo no Conselho de Ética por ter expulsado um cara do MBL e expor a aliança do movimento com o neonazismo.
            Alexandre de Moraes: num dos cargos mais desafiadores, mostrou-se pleno legalista contra os abusos golpistas do ex-presidente Bolsonaro, e como relator do inquérito da intentona de 8/1/23, com numerosas condenações. E preside inquérito dos cabeças do golpe.
            Flávio Dino: após dar um banho nos bolsonaristas em 2023, com tiradas de simpático cinismo, ele se tornou o terror da turma de Lira ao reter R$ 4,2 bilhões em emendas de comissão de transação ilícita, das quais liberou R$ 370 milhões para manter o piso da saúde pública.
            Esses foram os campeões de dignidade em 2024 em relação à condução política – mesmo que, para tantos casos tenha sido necessária a intervenção da justiça.


O que esperar em 2025

           Enquanto milhões de pessoas se aglomeram nos principais pontos de referência para assistir ao colorido espocar de fogos e música pelo Brasil afora, aqui em Juiz de Fora, MG, a virada é ribombada por um raio. E em Brasília? Não sei, não assisti à TV.
            Mas imagino como deve ter sido. Para os moradores da capital brasileira, um breve momento de descanso decorre após tanto movimento no ano que mal acabou de morrer. E, pasmem, muitos fatos ainda continuarão em 2025. Exemplos a seguir:
            No STF, Dino reterá as emendas restantes até que seja elucidada a sua transação; e Xandão continuará relator dos inquéritos das fake news (iniciado na era Bolsonaro) e da intentona de 8/1/23, acrescida com o plano de matar Lula, Alckmin e ele próprio.
            Na Câmara, Glauber Braga ainda aguarda a continuidade do julgamento, pelo Conselho de Ética, do processo relativo à guerra ideológica implantada pelo MBL, e por estar à frente da Comissão de Legislação Participativa, que visa a participação social.
            A decadência de Bolsonaro gerará rebuliço no PL, compossível evasão de alguns nomes para partidos do Centrão ou mudança de apoio para o próprio Lula. É uma indicação de que o extremismo de Bolsonaro não faz mais sentido de manter.
            Pensando em seu futuro, a esquerda se divide entre pauta identitária e políticas sociais. Ante um eleitorado conservador, o pragmatismo das políticas públicas deve ser posto em 1º plano, deixando o identitarismo como consequência natural.
            Torçamos para que dispositivos como a PL da Anistia e os retrocessos nos direitos fundamentais tenham como destino a poeira da gaveta do arquivo. A primeira envergonhará a República, e as demais são socialmente inviáveis.
            Espero que haja consciência de se ter mais escolas e hospitais do que templos religiosos arrecadatórios. E que o SUS permaneça na Adm Pública regido por servidores estáveis, e não caia mais na rede empresarial de direito privado.
            Que o sol da mudança climática rache as cabeças dos poderosos para tomar ciência de maximizar a mitigação da destruição ambiental, para preservar as áreas socioambientais remanescentes e a capacidade produtiva do próprio agro e da indústria!
            Não quero muito. O que escrevi acima não é milagre. É o suficiente que possamos todos fazer para um futuro melhor. Quem torna melhor o mundo não é o novo ano, e sim a nossa sabedoria e humildade de fazê-lo.
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CURTAS 116 - ANÁLISES (os traidores da pátria; reforço a Flávio)

  A CARTA DA ALTA TRAIÇÃO                      Já dentro do prazo de 90 dias da eleição, o Brasil entrou no defeso eleitoral , um conjunto d...