domingo, 18 de junho de 2023

CURTAS 33 - Análises (Santas Casas de JF e RJ, jornadas e kids pretos)

 

As Santas Casas sem misericórdia

                Sabemos que o brasileiro – de classes populares até as médias altas – paga muito imposto: de 1 ano, 5 meses correspondem só a impostos federais, estaduais e municipais. E quanto menor a faixa de renda, maior o imposto proporcional: é a injusta taxação regressiva.
                Ela tem contribuído mais para satisfazer a gula do rentismo da ciranda financeira em detrimento das políticas públicas essenciais, e abre portas para os desvarios com recursos públicos, com tantos exemplos já midiatizados.
                A saúde pública tem sido vítima preferencial de desvarios com o tesouro, muitas vezes para enriquecer ilicitamente operadoras de planos de saúde. Agora, a mídia divulga novo escândalo, através da abertura de operação investigativa do MPs de MG e RJ.
                É a operação No Mercy, aberta pelas citadas instituições para investigar um desvio de R$ 8 milhões em recursos públicos, recebidos inicialmente pela Santa Casa de Juiz de Fora, e agora envolve a carioca. Não por acaso, no mercy é, literalmente, “sem misericórdia”.
                Santas Casas de Misericórdia – São hospitais da rede filantrópica da Igreja Católica, que inicialmente atendiam os mais carentes, sem acesso à saúde pública do antigo INPS (hoje INSS), quando o SUS inexistia.
                A sede de Juiz de Fora (MG) é hoje o melhor hospital, graças aos recursos obtidos, em sua maior parte, pelas mensalidades do PLASC, um plano de saúde criado pela diretoria no fim dos anos 1980 e exclusivo desta sede.
                A sede carioca não tem PLASC, mas se sustenta pelos recursos públicos e também pelas consultas particulares populares e pelos “planos de coparticipação”. A sustentação das duas sedes não é ilegal e talvez não tenha a ver com o foco da operação no Mercy.
                Apontamentos – Segundo o MPMG, a operação resultou de denúncias de que os recursos públicos e privados eram desviados para favorecimento pessoal possivelmente de alguns profissionais, que foram afastados por determinação do órgão.
                Devido ao sigilo imposto na investigação não há muita coisa explícita. Ainda assim, o que foi noticiado até agora sobre a operação já é suficiente para suscitar especulações.
                Bolsonaro – Juiz de Fora, 6/9/2018: Jair Bolsonaro sofreu atentado durante corpo-a-corpo no cruzamento das ruas Halfeld e Batista de Oliveira. Foi atendido às pressas na Santa Casa, e depois, já recuperado, doou R$ 1,3 milhão à instituição “por gratidão”.
                Em 2020, Bolsonaro remeteu mais R$ 2 milhões para a mesma Santa Casa como parte de uma emenda parlamentar. Até prova em contrário, não há ligação das doações com o desvario investigado pela No Mercy.
                CPI da C19 – Por outro lado, em 2021, durante a CPI da C19, o ex-governador do RJ Wilson Witzel soltou uma bomba: a influência do senador Flávio Bolsonaro sobre a direção dos hospitais e institutos federais no RJ, indicando os diretores dessas instituições.
                Verdade ou não, a bomba fez sentido a partir de quando Witzel pediu segurança para sua família e, no início de 2023, com Lula de volta, em que as instituições estiveram uns dias sem direção. Todavia, até prova em contrário, não há ligação com o caso das Santas Casas.
                Mas chama a atenção porque na era Bolsonaro houve vários momentos suspeitos envolvendo igrejas evangélicas e casas filantrópicas. Nesse caso, se confirmada alguma ligação, as Santas Casas de MG e RJ entrariam como mais dois exemplos suspeitos. Isso se houver provas futuras.

Nota da autoria
* na mais recente publicação da mídia, o presidente da Santa Casa de JF Renato Loures e seus familiares foram afastados por suspeita de desvio de recursos públicos. Renato é médico. O padre Lelis assumiu a frente, interinamente.

Para saber mais
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Jornadas de 2013 e terror bolsonarista: elo ligante

                Brasil, 2013: enquanto o mundo se atentava a fatos sociopolíticos na Turquia e na Primavera Árabe, as mídias brasileiras divulgaram sobre o primeiro manifesto massivo que teria decorrido do aumento em R$ 0,20 no valor das passagens nos transportes coletivos.
                Aquela reação muito massiva e cheia de cantos de ordem pareceu exagerada a um fator tão... torpe. Mera cortina de fumaça: atrás dela rolava um violento stress político.
                A grande mídia (Lava-Jato) e o Congresso pressionavam o governo Dilma Rousseff até a sua deposição (2016), a prisão de Lula (abr/2018) e a eleição de Bolsonaro (out/2018).
                A corrupção política sempre foi criticada em seu caráter leviano. Mas foi com grupos como Vem Pra Rua (VPR) e Movimento Contra Corrupção (MCC) a partir de 20/6/2013, que o viés ideológico então libertário das Jornadas seria sequestrado pela extrema-direita.
                Jornadas de Junho – Foram os protestos populares massivos ocorridos em todo o país em junho/2013. Inicialmente libertários e à esquerda, solidários ao PT devido à pressão do Congresso e da mídia, eles também clamavam ao partido para punir os criminosos.
                Mas os manifestos foram usados pela grande mídia, o empresariado e o Congresso para pesar a mão contra o governo Dilma, apesar dos melhores índices socioeconômicos, ambientais e o mais baixo nível de desemprego e de inflação da Nova República.
                Com a entrada do VPR, MCC e correlatos, grupos de esquerda eram atacados com ajuda de P2 (policiais à paisana infiltrados) e uma turba de preto mascarada inicialmente confundida com os black blocks. Mas, na verdade, eles eram outra coisa: kids pretos.
                Fato kafkiano – As jornadas perderiam a força. A prisão do catador Rafael Braga por porte de coquetel Molotov (era desinfetante!) motivou novo protesto da esquerda, que foi reprimido com tiro, porrada e bomba pela PM, mesmo com solidariedade de black blocks.
                Fim – O fim foi brusco: a midiatizada prisão de um estudante do Ceará teria colapsado a rebeldia. Em 2013, o último grande protesto foi de professores, em outubro, com apoio de grupos de servidores, da esquerda e black blocks. Findou com tiro, porrada e bomba da PM.
                Extremismo, do poder ao terror – O antipetismo elegeu o extremista Bolsonaro, que prometeu matar a esquerda. Mas só conseguiu narcotizá-la o suficiente para liberar suas práticas nazifascistas. A extrema-direita mostrou sua face real com plena liberdade.
                A derrota eleitoral em 2022 levou bolsonaristas a se acamparem em estradas e portas de quarteis. Atos estranhos ao moralismo se desenrolaram: tráfico, prostituição, mentiras sortidas constantes e trilha sonora cívica e gospel. Outros gêneros musicais, nem pensar.
                Entre contradições e delírios, explosivos e armas. Entre amarelo e verde, máscaras pretas e trajes escuros de alguns se concentravam em acampamentos de Brasília, que virou palco de momentos de terror com veículos incendiados e várias tentativas de explosão.
                8/1 – No auge do terror que depredou patrimônio do STF, Congresso e Planalto, no mar amarelo-verde havia mascarados de roupas escuras – exatamente como nas Jornadas de 2013: os kids pretos. Eram os “petistas infiltrados” citados por parlamentares bolsonaristas para desestabilizar o governo Lula.
                Kids pretos – Expressão que designa um grupo de operações especiais do Exército. São altamente treinados para, entre outras coisas, as “guerras irregulares”, como ações de sabotagem e de insurgência popular de massa. No alto oficialato há kids pretos, homens de maior confiança de Bolsonaro.
                Quando militar, Jair Bolsonaro queria ser kid preto. Se inscreveu duas vezes na escola especial da AMAN, mas em ambas foi desclassificado logo na triagem. O motivo, cada leitor tira sua conclusão.
                Entre grupos de extrema-direita nas jornadas de 2013 e no terror verde-amarelo do pós-eleição e início da nova era Lula, os kids pretos se infiltraram para sabotar a esquerda. Eles foram o elo ligante entre dois fatos históricos para o retorno da extrema-direita.
                No presente momento estão quietos, mas estão sempre à espreita. A inelegibilidade de Bolsonaro pode enxuricá-los de novo. Ou não. Depende do ministro José Múcio e do chefe das FFAA nomeado por Lula.

Nota da autoria
¹ os ocorridos e os intentos dos autores configuram crimes terroristas, ainda não julgados pela lei antiterror. Entre os autores estavam os kids pretos.

Para saber mais
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quarta-feira, 14 de junho de 2023

CURTAS 32 - Análises (comunicação, bolsonarismo resiste, traição ao governo, ditadura dos EUA)

 

Nazifascismo resiste ao inelegível

                Nesse presente junho, o ex-presidente Bolsonaro já jogou a toalha reconhecendo-se no hall da inelegibilidade. Ou seja, ele perderá os direitos políticos. Para alguns, a inelegibilidade pode ser o caminho tão esperado para que, pelo menos em longo prazo, não haja mais um novo Bolsonaro para terminar de destruir o que resta.
                Em outras palavras, o mais esperado é que, com esse ostracismo tão esperado, o bolsonarismo, essa versão brazuca e cheia de peculiaridades do nazifascismo tradicional, possa entrar finalmente em dormência. Ou seja, ele não resistiria ao impacto desse afastamento político decidido juridicamente.
                Acontece que o termo dormência não significa a morte do nazifascismo bolsonarista. Nem cabe hipótese plausível aí. Jair Bolsonaro está inevitavelmente fora, pois o TSE está muito bem articulado para que o desejo popular de 8 anos de ostracismo político seja finalmente realizado. Mas devemos nos lembrar de que, mesmo fora de cena, Bolsonaro deixa rastros.
                Esses rastros muito vivos são capitaneados pelos três filhos mais velhos do ex-presidente. Cada um ao seu modo particular, eles manterão vivo na memória popular o legado do personagem político que foi o seu pai. Fora os aliados que, na atual legislatura, desde a sua posse em 1/2/23 vão cumprindo a sua prometida guerra contra Lula 3.
                Graças aos bolsonaristas, em parte – a outra parte tão importante quanto é Arthur Lira, o capitão do centrão e monstro da República – que Lula 3 já enfrenta as primeiras derrotas, mesmo tendo realizado 1/3 das promessas de campanha com a coragem e determinação que lhe são peculiares e sustentam sua popularidade.
                Como já publicado no blog desde o ano passado, Lula 3 se determinou no risco de derrotar Bolsonaro para reconstruir o que foi destruído. Mas o maior de todos os seus desafios será o braço de ferro com o bolsonarismo. Lula certamente governará até o fim, muita coisa realizará, mas terá o bolsonarismo de nefasta companhia até o apagar das luzes.

Sal Ross
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Comunicação mede popularidade

                Durante a corrida eleitoral, Lula enfrentou embate ferrenho. Não com os demais candidatos que, ainda no 1º turno, o “socavam” com a requentadíssima tese da “corrupção petista” que sustentou a Lava Jato, mas sim com um Jair Bolsonaro ainda muito popular apesar de tantos escândalos sobre si.
                Inicialmente, os escândalos de corrupção e outros crimes de Bolsonaro na presidência deram a Lula a disparada liderança na pré-campanha e no início da corrida eleitoral. Mas a distância diminuiu aos poucos entre eles, até chegar a menos de 10 pontos. Havia algo errado aí, mas o que era?
                A equipe de jornalismo do PT notou um problema comunicacional, se empenhou, mas não foi bem. Os youtubers de esquerda apontaram que se deve investir em comunicação popular em redes sociais. Lula correu atrás da Frente Ampla para derrotar Bolsonaro, e se aproximou de André Janones.
                Em entrevistas a telejornais, Lula foi bem e ainda ajudou a melhorar a imagem do MST entre a grande mídia. Diferente de Bolsonaro, que sustentou mentiras e distorções e, para segurança própria, os jornalistas evitaram perguntas referentes aos escândalos de corrupção e crimes durante o governo.
                Chamado para integrar a frente de apoio, André Janones lançou a sua proposta de comunicação popular em redes sociais (avisadas pelos influenciadores) que o PT acatou. A solução: Janones popularizou mais a campanha petista em rede desmentindo fakes dos bolsonaristas, facilitando a eleição de Lula.
                Janones foi essencial à eleição de Lula e contribuiu para desmascarar Bolsonaro para a Justiça. Mas infelizmente ele não foi aproveitado, pois Lula cedeu à exigência do União Brasil pelo ministério das Comunicações, daí a nomeação do pífio Juscelino Filho como ministro.
                É possível que Juscelino Filho não tenha sido o dileto de Lula, mas o UB justificou “idoneidade”. Enquanto isso, Janones segue como comunicador extraoficial do governo anunciando os feitos do governo com a eficiência que falta ao ministro, e com ajuda de Paulo Pimenta da Secom.
                Um dos feitos foi a conclusão da Ferrovia Norte-Sul, que promete reduzir em 40% o valor do frete no país. E apenas a mídia alternativa explica que o petismo foi quem mais investiu na obra que foi iniciada há 36 anos, na era Sarney.
                A ineficiência comunicacional oficial talvez esteja por trás da ligeira redução da popularidade do governo. Como, segundo o Ipec, a base mais pobre tenha apresentado maior contundência nessa queda, o baixo nível de acesso às redes do governo por esse grupo social pode explicar o fenômeno.
                Isso indica que a ação extraoficial de Janones não substitui a capilaridade da grande mídia e dos órgãos oficiais de comunicação do governo. Não é ineficiência da atuação do deputado, mas a falta de investimento no seu potencial para integrar a equipe do governo no setor. 
                Vale lembrar, a comunicação e a popularidade andam de mãos dadas.

Sal Ross
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Traição à vista?

                Apesar de ter cumprido algumas de suas promessas de campanha, o governo Lula tem tido muita dificuldade na sua relação com o Congresso, em especial a Câmara de Deputados de Arthur Lira.
                Como temos visto, o mais poderoso nome do PP no Congresso tem influenciado negativamente no destino de algumas pautas do governo. A vitória inicial do Marco Temporal e o protelamento de votações importantes pioram a tensão, que para alguns, pode destravar apreciação de pedidos de impeachment.
                E é justamente em pedidos de impeachment, parece surpreender que um governo de apenas 5 meses completos de idade já seja alvo de alguns pedidos para a deposição. Especialistas veem nisso uma nova forma de golpe parlamentar, mas o pior disso é saber que há governistas entre os assinantes.
                Sim. Segundo as mídias, pelo menos 4 governistas assinaram a favor da deposição do presidente. Para as mídias mais à esquerda, esses nomes, de partidos de ministros de Lula, representam uma atitude desleal, de traição ao governo após a frente ampla formada para uma vitória eleitoral difícil em 2022.
                Há quem antes pergunte por que eles assinaram esse atestado de deslealdade, se certamente até em campanha eleitoral devem ter se manifestado favoráveis a Lula, dentro da pauta central da reconstrução nacional.
                Embora saibamos que todo julgamento primário seja uma precipitação, não há como não avaliar a atitude desses nomes. Eles devem ser cobrados por sua inesperada atitude num momento tão crucial para a viabilidade governamental.
                Mas a possibilidade real de impeachment fica remota se compararmos aspectos econômicos do período 2015-16, de inflação alta e aumento do desemprego, e o atual momento de inflação e dólar em queda que facilita o mercado interno. Mas vale apontar outras possibilidades de incômodo.
                Lula disse que não pretende privatizar nada. Já tirou quatro estatais da lista da privataria, e outras podem sair também. Lira ambiciona tomar a pasta da Saúde e parlamentares do UB e PSDB querem a privatização do SUS e dirigir a ANS. É nesse setor tão nevrálgico que Lula mantém resistência.
                Ainda assim, a questão da privataria ainda é motivo sem peso relevante para movimentar processo de impeachment. Os interesses de maior relevância se ligam à grana mais gorda de emendas, e a fúria de Lira tem a ver com o remexer de seus vários processos na Justiça em mãos do STF.
                Resta mesmo a cobrança aos parlamentares – os governistas que já assinaram e outros que porventura assinem depois – a explicar seu favorecimento à deposição forçada de Lula. Ou seja, por que eles traíram a confiança do velho petista. A nossa cultura política tem seus meandros, mas estes devem ser explicados.

Para saber mais
https://www.youtube.com/watch?v=MgCWy9QNkg8 (O Historiador – partidos de ministros de Lula têm traído o governo e até assinado pedidos de impeachment).
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A ditadura por trás das narrativas

                Ao receber a visita do líder venezuelano Nicolás Maduro, Lula fez discurso hospitaleiro no qual disse que as acusações de ditadura eram “narrativas depreciativas” (de adversários e da mídia). A grande mídia se rendeu em detalhismo crítico ao discurso.
                O chamado de Lula era para conversar sobre a extensão do Mercosul para todos os países da América Latina ou da América do Sul, integrando a Venezuela. A conversa ainda está em curso, pois parece haver restrição por parte de alguns governos sul-americanos e europeus.
                Líder polêmico – Vice-presidente por vários anos, Nicolás Maduro só aparecia na mídia quando o titular Hugo Chávez se ausentava por problemas de saúde ou em viagem internacional.
                Hugo Chávez fundou uma versão singular e personalista de socialismo, o chavismo, e mudou o nome oficial do país para República Bolivariana da Venezuela, em referência ao bolivarianismo, um ideal simbólico de liberdade relacionado às amarras diplomáticas dos EUA por motivos econômicos.
                Chávez foi tão carismático entre os venezuelanos quanto Lula é para os brasileiros pobres, pelo potencial político e governamental. Chávez imortalizou a paráfrase “Socialismo o muerte”, em referência à “Independência ou morte!” atribuída ao nosso D. Pedro I.
                Em seus dois mandatos (1999-2013), Chávez melhorou a vida socioeconômica do seu povo e a qualidade dos serviços públicos essenciais, a despeito das denúncias de corrupção e antidemocracia. Morreu de câncer em 2013, dando lugar a Nicolás Maduro, que prometeu continuar o seu legado.
                Mas Maduro logo imprimiu estilo próprio. Foi acusado pelos EUA e outros governos liberais de aparelhamento institucional, prisão de opositores e censura à imprensa. Principal sustentáculo dessas acusações, os EUA impuseram sanção econômica à Venezuela, e daí, severas carências internas.
                Carências essas que continuam mesmo que os EUA comprem o petróleo, segundo discursou recentemente o duvidoso Donald Trump, em cuja pessoa já deveríamos aprender a não confiar.
                Sanção– A sanção econômica é uma tática da política externa dos EUA, seguida por vários países alinhados, para enfraquecer politicamente o governo “inimigo da hegemonia econômica” liderada, claro, pelo dólar estadunidense.
                Ao abordar o tema, a grande mídia brazuca não fala do estado de carência generalizada interna que explode em fome e conflitos sociopolíticos – os “culpados” pelas carências e a emigração em massa dos venezuelanos para os países vizinhos.
                Agora, o Brasil pode ser o próximo alvo. Pois propõe expandir o Mercosul a todos os países sul-americanos para livre transação com moeda uníssona própria e fazer algo análogo com os BRICS. Um senador republicano dos EUA alardeou a proposta de sanção ao Brasil pela independência ao dólar.
                O governo Maduro merece críticas ao obscurecer sua realidade ao mundo, alimentando a tese de ditadura – a qual sempre associamos ao sovietismo e seus derivados, ou a governos militares de extrema-direita como os da América Latina nos anos 1960-80. Uma noção reduzida e enganosa.
                Um governo civil eleito autoproclamado democrático pode ser, sim, autoritário e autocrático. Ao aplicar sanção econômica a algum país, o governo dos EUA interfere na multipolaridade da democracia econômica em escala global, interferindo na autodeterminação e equilíbrio social dos povos.
                Os iludidos pelos EUA podem achar sandice nossa observar o governo estadunidense como ditatorial. Mas isso é uma realidade inapagável, pois gerou consequências nefastas a outros povos pelas sanções e pelas deposições de governos à força pela guerra direta. Os EUA têm postura ditatorial.
               A fala de Trump sobre a compra do petróleo da Venezuela intentou culpar a corrupção de Maduro para explicar a carência interna do povo venezuelano, ou seja, mente ao excluir a sanção de que todos sabem devido ao seu caráter global.
               Só que o mundo responde a essa postura: as citadas propostas do Brasil sobre BRICS e Mercosul mais amplos e sem dólar são recados de que no mundo multipolar não há mais lugar para um país mandar nos demais. E isso é bom – só que os EUA não vão deixar isso barato. É a ditadura do capital, a pior de todas.

Para saber mais
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domingo, 11 de junho de 2023

ANÁLISE: as marcas corporativas da ditadura

 
                Que em 1964 houve um golpe que pegou a geral de surpresa e alegrou a elite, matou milhares e não apenas centenas, e que a censura serviu para distração da patuleia sobre os "desaparecimentos" de opositores políticos foi a tônica por 21 anos, disso todo mundo sabe. Nem todos admitem, mas todos que viveram sabem.
                O que talvez não saibam é que os militares protagonistas de todo o sombrio conjunto de fatos não atuaram sozinhos, apesar da natureza autocrática dos governos. Além do ensino de tortura por samangos dos EUA e Israel, nossos milicos tiveram um cúmplice poderoso: o mundo corporativo.
                Sem dúvida, para garantir o capital pleno e livre no país, as grandes multinacionais colaboraram com a ditadura militar por meio de rígidos esquemas de monitoramento de seus trabalhadores. de carona entra aí o setor público representado pela Administração Pública direta e indireta e autarquias estatais.

Corporações multinacionais

                No Brasil, a indústria cresceu no pós-guerra e no início dos anos 1960 experimentou o seu boom. Em 1964, diferente da classe trabalhadora, as direções corporativas comemoraram o golpe como "barreira necessária contra o comunismo". Há no Youtube numerosos vídeos com vários relatos de trabalhadores da época.
                Volkswagen - a matriz da montadora alemã fabricou veículos de guerra para suprir as forças de Hitler. No Brasil do golpe, as subsidiárias monitoraram seus trabalhadores com rigor. Os "suspeitos" eram entregues a militares em salas improvisadas no subsolo, onde eram interrogados e torturados. No pátio havia revista prévia ao expediente.
                Bayer - a farmacêutica química alemã fabricou cianeto de potássio que asfixiou milhares em câmaras de gás durante a II guerra. No Brasil do golpe, fabricou o gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral para os militares reprimirem funcionários. Os gases são ainda usados pelas PMs para reprimir manifestos populares.
                Fiat - a montadora italiana usou o mesmo modus operandi da Volks. Protagonizou a vigilância e perseguição a seus funcionários nas fábricas em Duque de Caxias (RJ), Salvador e Betim. Assim como em outras multinacionais, vários trabalhadores foram levados para os DOI-CODIs e alguns nunca mais retornaram.
                Para que tudo isso ocorresse, a empresa construiu em suas sedes uma sala exclusiva para pregar interrogatórios de horas em seus funcionários, a partir de um esquema de espionagem. Foi na proximidade com os milicos que ela montou sua sede em Betim, na zona metropolitana de BH.
                Coca-Cola - por ter fábricas espalhadas pelo país, a gigante estadunidense de refrigerantes tenha sido a corporação com o monitoramento mais extenso de seus funcionários. De praxe, as reuniões sindicais eram proibidas. Ainda não foi levantado o número de ex-trabalhadores denunciados, mas há relatos de casos de tortura sistemática.
                Estes são apenas quatro entre tantos exemplos de grandes corporações que contribuíram para a perseguição política dos trabalhadores. Há relatos denunciadores contra corporações brasileiras, como empreiteiras partícipes das obras de engenharia, bancos, ramos industriais e mesmo os entes públicos.

Empresas brasileiras privadas e entes públicos

                Companhia Docas - a Docas monitorava seus trabalhadores junto a militares da Marinha, que deixaram embarcações especialmente para prender e torturar trabalhadores "subversivos". A Cia. proibiu seus funcionários de fazer doações para os colegas demitidos e presos, que passavam por vezes fome, sede e frio.
                Relatos de ex-funcionários da Companhia Docas de Santos (CDS) apontam que faziam suas necessidades fisiológicas com vigias armados ao lado, tendo que limpar as latrinas após o uso. Presos no navio da Marinha eram interrogados por mais de 12 horas ininterruptas e não podiam dormir. A CDS também colaborava com o DOPS para captura de "subversivos".
                Cobrasma - Fundada pela família Vidal antes dos anos 1950, a Companhia Brasileira de Materiais Ferroviários atuou como uma fornecedora de ferragens para a extensão de ferrovias da Rede Ferroviária Federal SA (RFFSA). Documentos da época revelam participação dos Vidal pelo golpe de 1964.
                Conta-se também que seus conselheiros faziam "caixinha" para financiar a Oban (Operação Bandeirantes), que capturava os opositores político, desarticulava movimentos e dizimou manifestos de guerrilha. Violações de direitos trabalhistas e repressão da liberdade de diálogo entre trabalhadores foram táticas de caráter rotineiro.
                Docs revelam a Cobrasma partícipe da perseguição a grevistas de Osasco (1968), apontando o manifesto como “subversivo”. A igreja Matriz foi invadida por milicos. O padre e metalúrgico francês Pierre Joseph Waultier foi expulso do país. O líder do Sind. Metalúrgicos de Osasco José Ibrahim¹ foi demitido e, na luta armada, foi preso e torturado.
                Petrobras – fundada em 1953 na era Vargas para explorar petróleo, já considerado bem público por lei, a petrolífera logo mostraria seu pioneirismo tecnológico na exploração em águas profundas e ultraprofundas.  Mas, também, primou pela desqualificação em prol de um capital político ao contribuir com a ditadura.
                Segundo documentos, o modus operandi da petrolífera foi parecido com o da Cobrasma na violação dos direitos trabalhistas. E foi além na participação ativa também junto ao sanguinário ditador Pinochet na operação Condor, que reunia os ditadores sul-americanos na “caça às bruxas”, ou seja, aos seus inimigos políticos.
                Consta-se que o monitoramento de funcionários na BR se iniciava ainda no sistema de recrutamento. Os requisitos básicos eram acompanhados de traduções subjetivas de idoneidade de caráter (apolitismo) e moral (heterossexualidade). Nesse último, um candidato chileno muito bem qualificado foi barrado por ser considerado “anormal” (homossexual).
                Aos militares infiltrados na estatal cabiam as missões de monitoramento. Suspeitos de subversão eram colocados em celas de embarcações militares e ali torturados. Um dos funcionários foi tão torturado que o trauma atingiu sua capacidade de comunicar. Teve as unhas arrancadas e devolvidas pelos samangos.
                Companhia Siderúrgica Nacional – Em Volta Redonda, a outrora estatal CSN empregou milhares de pessoas, sobretudo de MG e Nordeste, desde a sua criação pela era JK. Maior produtora de aço do Brasil, ela foi outra estatal com forte infiltração de samangos visando monitoramento dos trabalhadores durante a ditadura.
                Consta-se em documentos que, antes do expediente produtivo, os funcionários da CSN eram revistados pelos samangos, e ainda ouviam ameaças, que se tornaram rotineiras depois que alguns funcionários críticos ao totalitarismo foram encaminhados ao DOI-CODI nas unidades militares da região.
                Entre os trabalhadores mais visados pelos samangos estavam os negros, que se tornaram vítimas de intensos manifestos racistas, e entravam como alvos preferenciais de tortura e prisão, se não assassinatos. Há documentos relatando desaparecimentos e assassinatos de líderes sindicais e de críticos do governo.
                Bancos estatais – No Brasil da ditadura houve vários bancos estatais, além da Caixa e do Banco do Brasil, que em sua quase totalidade foram privatizados durante os 8 anos da era FHC. No status de outrora, eles também se destacariam entre instituições públicas que monitoraram os seus trabalhadores com rigor, sob os auspícios de militares neles infiltrados.
                Embora não haja dados documentais explícitos sobre os métodos persecutórios, acredita-se que o modus operandi tenha sido basicamente idêntico, ou quase idêntico, ao utilizado nos casos supracitados.
                Itaipu - Na construção daquela que por anos foi a maior hidrelétrica do mundo, as mortes por acidente de trabalho foram muitas, pois na época não havia o devido cuidado com a proteção dos operários. Essa era uma rotina comum entre operários de diversos ramos produtivos no Brasil.
                Mas como durante a ditadura houve forte investimento público na construção de Itaipu, a cúpula das empresas envolvidas e os gestores públicos eram obviamente próximos dos governos. O que contribuiu na implantação de uma política persecutória contra os funcionários.
                Como uma central de espionagem com militares infiltrados, e a partir daí, os interrogatórios, entregas de alguns dos "suspeitos" ao DOPS e DOI-CODI para tortura e prisão e assassinatos. Mais de cem funcionários foram mortos, e os restos mortais de alguns deles até hoje não fora, achados.
                Outras instituições públicas – Por muito tempo perdurou no imaginário coletivo a ideia de que o serviço público é ruim de trabalhar porque “há muito assédio”. De fato, servidores públicos sofrem assédios variados. Mas o setor privado não é nada diferente. Que o digam os casos acima, ontem e hoje.
                Mas, o que pode explicar a verdade por trás da lenda é que, por trabalharem nos poderes públicos, os servidores foram especialmente visados pelos samangos infiltrados nas instituições. Como eram celetistas na época, demissões sumárias de simples críticos eram operadas como justa causa, e mesmo a ampla defesa era extremamente difícil ou mesmo coibida ilegalmente.
                Mas as demissões sumárias não significavam necessariamente que ex-servidores ficassem livres: as persecuções continuavam de modo a impedir novos alistamentos nos movimentos de guerrilha e outras formas de enfrentamento ao stablishment, como manifestos sindicais e outros meios.
                Alguns desses relatos aparecem na Comissão Nacional da Verdade (CNV), o que favorece o pleno reconhecimento de sua importância para a verdade e a justiça. Mas ainda é preciso mais, pois ainda vemos reflexos.

Reflexos atuais

                Para quem acredita que com o fim da ditadura militar os trabalhadores passaram a respirar com alívio, há aí uma verdade e uma não-verdade, que não é exatamente mentirosa, mas reveladora de uma nota de ingenuidade de muitos. O que realmente findou foi a metodologia persecutória usada naquele tempo de chumbo.
                Mas ela ainda se refletiu em dor e saudade entre as famílias dos perseguidos que nunca mais voltaram, e as sequelas físicas, psicológicas e mentais dos muitos que sobreviveram e tiveram que se aposentar por invalidez pela incapacitação imposta pelo estresse pós-traumático.
                Apesar da importância refletida nos relatos denunciadores existentes no documento da CNV, ainda é preciso seguir a exigência dos sobreviventes e suas famílias, das famílias dos mortos e dos representantes sociais e jurídicos: as corporações e entidades públicas envolvidas, e os militares, devem todos ser responsabilizados.
                Pois ainda vemos reflexos no assédio moral circunstancial, rotineiro ou ocasional, sobre os críticos de alguns políticos. De 2019 a 22, servidores federais antibolsonaristas e estaduais críticos ao governo Zema entraram nas respectivas listas de detratores do Min da Justiça e Secretaria estadual, felizmente inativadas pelo STF.
                Pois as persecuções políticas de Zema e Bolsonaro na quadra 2019-22 induziu remoções a outras entidades públicas, realocações setoriais e até mesmo exonerações ocorridas para facilitar o aparelhamento institucional: em MG, a chefia da Secretaria de Meio Ambiente foi trocada 11 vezes.
                No sistema bancário há denúncias de empregados que sofrem assédio moral por aparência "insatisfatória" (traje, penteado e/ou maquiagem), ao racismo estrutural ou institucional, e outros motivos. Todos os assédios denunciados são verticais, hierarquicamente de cima para baixo.
                Os muitos casos de assédio eleitoral com falsas promessas ou ameaças em 2022 se revelam reflexos de uma era pretérita que pretendia se repetir, até que foi tentado o golpe em 8/1/23. E, no caso mineiro em especial, a reeleição de Zema pode dar continuidade à persecução política.
                E mais: Zema propôs retirar da Constituição estadual a participação pública para políticas públicas que requeiram participação popular. A visão de Zema é essencialmente privatista, mas visa refletir o comportamento patronal de uma época cujas marcas tantos lutaram com sangue e lágrimas para combater.
                Pela memória, a verdade e a justiça!

Nota da autoria
¹ Fundou o PT (Osasco), a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a União Geral dos Trabalhadores (UGT). Faleceu em 2013.

Para saber mais
- https://apublica.org/2023/06/fiat-tinha-sistema-de-espionagem-e-sala-exclusiva-para-interrogar-funcionarios-na-ditadura/
- https://apublica.org/2023/06/itaipu-na-ditadura-mais-de-100-operarios-mortos-e-43-mil-acidentes-na-construcao/
- https://apublica.org/2023/06/cobrasma-lucrou-milhoes-ao-apoiar-ditadura-e-reprimir-movimentos-sociais/
https://apublica.org/2023/05/companhia-de-docas-se-aliou-a-ditadura-para-monitorar-funcionarios-no-porto-de-santos/
https://apublica.org/2023/05/petrobras-participou-de-torturas-e-monitorou-ate-orientacao-sexual-de-funcionarios/
https://apublica.org/2023/05/empresas-cumplices-da-ditadura-e-preciso-fazer-das-informacoes-um-ato-de-justica/
https://apublica.org/especial/as-empresas-cumplices-da-ditadura-militar/
https://apublica.org/2023/03/familiares-de-mortos-e-desaparecidos-na-ditadura-pedem-a-retomada-de-comissao/
https://apublica.org/2022/08/projeto-quer-escavar-e-esquadrinhar-em-sp-um-dos-piores-centros-de-tortura-da-ditadura/
https://apublica.org/2023/03/visao-da-ditadura-sobre-amazonia-operou-totalmente-na-gestao-bolsonaro-diz-pesquisadora/
https://apublica.org/2022/09/a-falsificacao-da-historia-do-golpe-de-1964-forjada-pela-comunicacao-do-governo-bolsonaro/
https://apublica.org/2022/07/novo-estudo-expoe-contradicoes-do-pensamento-militar-sobre-a-defesa-da-amazonia/
https://apublica.org/2022/07/e-a-volta-dos-que-nunca-foram-diz-pesquisador-sobre-militares-no-governo-bolsonaro/
https://apublica.org/2023/06/racismo-perseguicao-e-assassinatos-nas-instalacoes-da-csn-nos-anos-da-ditadura/
https://www.brasildefato.com.br/2023/05/09/servidores-de-minas-gerais-denunciam-governo-zema-por-perseguicao-e-assedio-moral
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