domingo, 11 de fevereiro de 2024

CURTAS 62 - ANÁLISES (religiosidades)

 

Reagindo à pressão gospel

            Segundo o mapa religioso do Censo IBGE 2022, cerca de 35 milhões de pessoas se declaram evangélicos, 80% dos quais nas alas pentecostais e neopentecostais. E 63% se declaram católicos – uma encolha de 27% desde 1990. 2% são minorias e sem religião.
            Inexiste comparação relacional de católico-pagão¹ e católico-protestante, considerando-se temporalidade. A Igreja Católica tentou erradicar o paganismo afro e indígena por 500 anos, mas em 35 anos, ela recuou diante da investida gospel. Fenômeno fora da curva? Sim, mas tem explicação.
            Tolerância – mesmo tradicional, a instituição ICAR deixou de perseguir para tolerar as demais fés por influência de fatos externos como o Iluminismo, a Revolução Francesa, o avançar da ciência e o reconhecimento das fés pelo II Império. O laicismo republicano ajudou no aprofundamento dessa relação.
            Como tolerância é só respeito e não aceitação, a ICAR viu no protestantismo um aliado na evangelização massiva dos praticantes afro-brasileiros. Foi um sucesso, ao ponto de as práticas quase desaparecerem.  Mas a coisa mudaria. O antigo temor da “ameaça protestante” retornou, desta vez o de eliminar “a maior nação católica do mundo”.
            O mecanismo de conversão gospel é ritual: nos cultos há imitação de ritos africanos e atendimento a queixas de cada fiel. O sucesso ainda se mantém, mas o censo de 2022 revelou detalhes interessantes.
            Resistência – se em 2010 eram 64% católicos e 31% evangélicos indicando forte inversão (- 1% católicos e + 2% gospels por ano), o censo 2022 em respectivos 63% e 32% indica diminuição da velocidade de inversão, com tendência a estabilizar.  
            Talvez seja o carisma popular do reformista Papa Francisco, por ser mais interativo com os fiéis e ser sul-americano, facilitando a afinidade. E o catolicismo não está sozinho nessa resistência, o que não é problema para as lideranças gospels.
            Nesse contexto de mescla político-religiosa da extrema-direita, o foco se volta inteiramente para eliminar totalmente as práticas de matriz africana e ateus. E, para isso, adotam um viés mais agressivo do que antes. 
            Ataques: só no RJ, 91% dos terreiros foram depredados por fanáticos, bandidos² ou não.  Seguem BA, AL e DF. Ataques a fiéis são mais institucionais do que pessoais, como alunos de fé afro-brasileira impedidos de entrar nas escolas, por exemplo. Ainda assim, o povo de fé afro-brasileira resiste. E os sem religião também.
            O Censo 2022 revelou mais de 1% dos brasileiros declarados fiéis de matriz africana, um salto imenso em relação a apenas 0,3% em 2010. Os sem religião também avançam, superando 20% entre os mais jovens., de acordo com pesquisa do DataFollha, que também revela menos católicos e gospels.
            Essa é uma demonstração de que a religiosidade no país não é estática. O mapa muda constantemente. Se o catolicismo luta agora para não perder espaço para a pressão gospel, as fés afro são a cara da resistência ao fascismo, ao racismo religioso e à intolerância prosélita, na busca da harmonia dentro da diversidade.

Nota da autoria
¹ sem intenção depreciativa, o termo agrupa todas as fés não cristãs, apenas para generalização.
² traficantes, milicianos ou PMs desonestos que, fiéis ou em acordo com pastores intolerantes, expulsam praticantes de fé afro-brasileira e depredam templos.

Para saber mais
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Mais religião, menos Estado social

            O censo IBGE-2022 levantou um dado importante: o número de sedes religiosas é maior do que a soma das de educação e de saúde no país. São 597.700 templos contra 264.400 de ensino e 247.500 de saúde. A cada 100 mil pessoas são 286 templos na média nacional, em distribuição desigual.
            A região Norte tem 79.650 templos, e média de 459/100 mil pessoas. A menos concentrada é o Sul, com uma média de 226/100 mil. Em seguida vem a Nordeste, liderada por Sergipe e Bahia. No geral, 95% dos templos são igrejas, maioria gospel. Mas, o que levou a esse paradoxo no Brasil atual?
            Vários motivos – para os leigos, o suposto fervor religioso já explica. Ok, um povo recorre à fé, em especial quando há constante ou recorrente descaso dos poderes públicos. Mas só isso não explica o disparate que destaca o país no rumo inverso ao do resto do Ocidente.
            Pesam fatores como: facilidade para abrir templos, incentivo político e investimento tímido na ampliação de serviços públicos essenciais.
            Facilidade de abertura – o candidato católico ou gospel à vida religiosa precisa se qualificar em Teologia, que pode ser superior (em universidades e seminários) ou intermediária (como um curso técnico). Candidatos a padre sem ensino médio o fazem nos seminários antes de cursar, e alguns se especializam em universidades.
            Milenar e protagonista na nossa história, a ICAR possui seus templos, conventos, mosteiros e universidades. O pastor faz um simples registro em cartório para abrir a sua igreja, geralmente iniciada em espaço alugado ou próprio. Tal como capelas católicas, a construção de seus templos também tem ajuda popular.
            Incentivo político – a CF-1988 consolidou a liberdade plena de culto, bem como o tombamento de espaços religiosos históricos. Mas por laicidade, a CF veta o patrocínio público de eventos religiosos de massa, e os líderes religiosos de indicar candidatos a cargos eletivos durante os cultos e festividades.
            Mas os políticos e religiosos são os primeiros a transgredir as leis. A começar pelos eventos de fé em locais como instituições públicas em geral, até o ilegal patrocínio a eventos gospels de massa – o que potencializa, se somado às vultosas emendas ao Congresso, um velho problema.
            Mau investimento – em parte, a complexidade geográfica e sócio-histórica do país explica a precariedade de recursos materiais e humanos em saúde e educação. Mas há outros problemas, como pressões política sobre o destino da grana pública e a conduta dos gestores estaduais e municipais com a mesma. Mas não é só.
            No lugar das antigas sedes de saúde e/ou escolas surgem estacionamentos, shoppings ou igrejas. A benesse pública a igrejas evangélicas teve auge na era 2019-22, quando a dupla Bolsonaro-Guedes tentou abster o Estado de atenção essencial, além de permitir a imposição de bíblias e orações no ensino básico.
            A proposta foi federalizar as PMs estaduais para legalizar as milícias regionais, e atribuir assistência social, educação e o SUS às igrejas evangélicas. O ex-prefeito Crivella tentou fazer no Rio, repassando recursos bilionários à sua IURD. Inconstitucional, a PL foi rejeitada no Congresso.
            Priorizar os interesses de líderes religiosos rebaixa as necessidades populares essenciais e entrega o povo na armadilha mercantil-ideológica sob a profissão de fé. Isso aguça o ódio intolerante insuflado pela elite gospel sendo uma ameaça à Carta democrática, que exige ao Estado acolher todo o mosaico social com qualidade.
            
Para saber mais
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sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

CURTAS 61 - ANÁLISES (indígenas x capital; Anielle Franco; pastores x tributos)

Indígenas = soberania x capital

        Um dos primeiros focos reconstrutivos de Lula foi resgatar a dignidade dos povos originários a partir da crise humanitária dos ianomâmis, ocasionada principalmente pelo garimpo ilegal que os impedia de sair para caçar e coletar. O governo partiu para uma ofensiva contra os ilícitos por força-tarefa de longo prazo.
        Força conjunta – Ibama, PF, militares e SESAI entraram em tarefas precípuas. Incêndios de balsas e de dragas e avaliação ambiental (Ibama), prisão dos invasores e apreensão de material (PF), salvamento e envio de suprimentos (militares) e atendimento à saúde dos indígenas (SESAI) foram os meios.
        Como já sabia das informações coletadas pela FUNAI, o governo pretendeu estender as ações a outros povos indígenas, também abalados pelos criminosos – em parte, a mando do agronegócio. O governante vê no resgate dos originários uma parte importante da complexa e ameaçada política ambiental.
        Política ambiental – essa pauta é complexa e vai desde a mitigação de contaminantes ambientais, recuperação de áreas degradadas, até preservação de povos originários e captura de carbono. Nas COPs 27 e 28, Lula considerou essa política uma questão soberana, apesar do incoerente investimento em recursos fósseis.
        Soberania – o governo considerou o resgate como parte da política ambiental e questão de soberania, dada a importância do tema socioambiental para a manutenção do potencial alimentar do país e de preservação da vida no planeta.
        E, por ser uma questão soberana, a conjuntura dos fatos – incluindo o resgate aos originários – exige um prazo longo para que tenha efetividade de ação e eficácia de resultados. E com bons resultados, tal política deve continuar em constância para assumir um caráter preservativo permanente.
        Dois problemas – a luta pela soberania a partir da prioridade socioambiental e manutenção das culturas originárias é complexa não só por englobar uma série de práticas envolvendo diversos setores. Mas existem dois problemas, um no campo pragmático e outro no econômico.
        Militares – devido à bolsonarização, as forças militares têm relutado em efetivar o atendimento aos indígenas em situação de calamidade. Indígenas relatam que as entregas têm sido escassas desde a política de resgate no início de 2023.
        Há relatos de que parte desses suprimentos teria sido desviada para outros destinatários, o que pede boa investigação para a sua confirmação.
        Capital – este é mais complicado. Para alcançar seu objetivo, o capital tanto pode financiar licenças ambientais para explorar recursos naturais quanto bancar estudos ou políticas sustentáveis. Este patrocínio visa a manutenção do domínio desse sistema sobre os destinos da vida sociopolítica e a biosfera.
        O Brasil é velho terreno fértil da dominação do capital. Instituições financeiras e oligopólios dominam a grande mídia e a classe política e pesam no rumo das votações de muitas pautas no Congresso. Quiçá, haja possível influência sobre tentativas do Congresso nos rumos do STF, como ocorreu com o Marco Temporal.
        Ainda que seja retórica, a declaração de Lula sobre a proteção aso povos indígenas como meta soberana é razoável. O problema é como convencer como isso pode ser salutar para o mesmo capital que comemorou o aprove do Marco Temporal.

Para saber mais
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Anielle e o identitarismo

        Irmã da vereadora psolista Marielle Franco, assassinada em 2018 por milicianos, Anielle Franco foi nomeada por Lula 3 para ser ministra da Igualdade Racial. Foi uma homenagem à parlamentar carioca que em carreira tão breve incomodou muita gente. E parece que a ministra “recebeu o santo”.
        Mas, calma, que vamos entender no final.
        Torcida do São Paulo – a protagonista foi a secretária que acompanhou Anielle em Sampa para um evento. Elas foram ao Morumbi assistir ao jogo do time da casa. Talvez empolgada com o cargo de comissão, a moça depreciou a torcida do escrete usando língua neutra: “pauliste”, “bambi”, “europeiste” (este relativo à pele branca). E publicou em rede social.
        A coisa pegou mal e, retornando a Brasília, Anielle teve que exonerar a moça e lançou uma nota de desculpas.
        Buraco negro – em entrevista, a ministra disse que “buraco negro” é uma “expressão racista e sexista”. O alarido logo veio, com alguns dizendo que ela “não sabe do que diz”, outros a depreciaram por “racializar” a expressão astronômica, que foi explicada depois por Ciro Gomes.
        Embora repreensível, a fala de Anielle se explica: ela aludiu à história escravista, em que os senhores brancos abusavam de algumas escravas usando termos hoje considerados sexistas, mas normais para a cultura machista daquele tempo. Mas, ela teve que novamente se render, pois o nome astronômico permanece válido para um fenômeno que suga até a luz.
        Chuvas no RJ – antes de 15/01, o RJ reviveu dias trágicos por conta de temporais que mataram 12, desapareceram 2 e ainda causaram estragos materiais nos subúrbios. Em Brasília, a ministra nomeou a tragédia como “racismo ambiental”.
        A princípio ela não errou: de fato, a pobreza e os desastres afetam mais os não-brancos. Mas há importante parcela de brancos nesse meio. Nesse sentido é melhor a expressão elitismo ambiental, pelo qual se empurra famílias mais pobres para morar em áreas de risco, parte delas loteamentos das prefeituras.
        Como todo governo, Lula 3 é  novavítima da “reforma” ministerial imposta pelo centrão, em que nomes horríveis entram no lugar dos bons. Por muito pouco Anielle Franco escapou da fritura no ano passado. Mas é bom se cuidar daqui para a frente. O Centrão tem pavio curto e não podemos ceder tanto assim.

Sal Ross
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Pastores x humildade

        Com o poder de volta, Lula 3 trocou um punhado de gente nos maiores escalões de Brasília. Entre os órgãos afetados com o retorno da normalidade após o aparelhamento bolsonarista figura a Receita Federal.
        Com isso, alguns fatos relacionados à RF ganharam relevância, como a correção ainda muito tímida do Leão, que já dá espaço para o boato de que salário mínimo será mordido novamente. Mas o destaque mesmo foi outra coisa.
        Fisco – a isenção de imposto extensiva a instituições filantrópicas foi comemorada por alguns parlamentares, como os da bancada da bíblia, na promulgada PEC da reforma tributária. Mas havia outro motivo: os pastores se viam totalmente livres.
        Mas neste ano veio um balde de gelo. Norma fiscal da RF revoga outra da era bolsonarista, que isentava os salários dos pastores de tributos, sob alegação de “ajuda de custo por serviços prestados”. A correção de uma ilegalidade deixou a pastorada histérica criando fake news massiva nas redes acusando Lula de “perseguir as igrejas”.
        Inconsistência – a nova norma corrigiu inconsistência na bolsonarista. Se ela alegava os salários como ajuda de custo como a dos padres que fazem voto de pobreza, por que a previu como “produto de participação nos lucros”? Afinal, isso ocorre na iniciativa privada e nas estatais de regime trabalhista de direito privado (CLT).
        A norma bolsonarista expôs as igrejas como empresas privadas lucrativas, e os pastores empresários ilegalmente subsidiados com isenções e penduricalhos que lhes garantem lucros incompatíveis com o salário em si e um voto cristão bem conhecido.
        Voto de pobreza – o catolicismo interpreta passagens do Novo Testamento em que Jesus prega o compartilhar¹ como sinônimo de humildade perante Deus. Padres franciscanos, por exemplo, recebem apenas ajuda de custo sem tributo, enquanto os diocesanos e pastores protestantes recebem salário tributável e podem ter bens.
        O voto de humildade dos formandos é um selo de cristandade. Mas parece não ser unanimidade no protestantismo, pois se observa um número crescente de jovens pastores seguindo os passos do enriquecimento. Na teologia da prosperidade, ser rico parece ser a regra, seja pelos dízimos suados dos fiéis, ou pela isenção ilegal.
        Vale citar um fato: a religião hoje tem perfil capitalista. Além do contexto econômico, o teor biopsicológico explica o apego material como válvula de escape final ao pânico moral que castra e pune. O que não deve ser o caso dos famosos por aí.

Nota da autoria
¹ Marx interpretou a filosofia historicamente, como consciência coletiva e de classe de Jesus, já que ele viveu uma época de elite judaica pró-Roma.
Para saber mais
https://www.youtube.com/watch?v=uWyeMmwGJ2g (UOL com Reinaldo Azevedo – RF acerta em cobrar impostos sobre os salários dos pastores)
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terça-feira, 16 de janeiro de 2024

CURTAS 60 - ANÁLISES (violência e capital na AL; raciocínio bolsonarista)

 

Na crise criminal, radicalismo capital

        Equador e El Salvador têm muitas coisas em comum, das quais vale muito saber.
        Paisagens – situados na zona tropical da América Latina, eles têm paisagens com ricas florestas, praias do Pacífico e vulcões. Equador tem a turística Avenida dos Vulcões, El Salvador tem picos vulcânicos em meio ao verde. Se espera eventualmente sismos e vulcanismos em ambos. Coisa de cinema mesmo.
        Limites – eles não têm fronteiras com o Brasil. El Salvador é o menor país da área continental da América Latina. Já Equador é mais extenso e seu nome se vincula à sua localização da área equatorial.
        Indicadores humanos – também se parecem. Boas partes das populações descendem de povos originários diversos. São hispânicos de colonização e religião dominante, mas mantêm as culturas ancestrais e coloridas. Seus indicadores sociais são baixos, com desigualdade econômica.
        Suas políticas públicas são deficitárias, refletindo-se em baixos índices de desenvolvimento humano (IDHs). Basicamente, ambos são produtores e exportadores de matérias-primas.
        A criminalidade tem sido um problema. Equador é o maior produtor e exportador de cocaína do mundo, e seu principal consumidor os EUA. El Salvador está na rota do transporte aéreo da carga, o que alimenta o narcotráfico local. Agora Equador vive guerra interna desencadeada após a fuga do megatraficante 'Fito', que assassinou o político Villavicencio.
        Passagem política – como demais nações latino-americanas, os dois países viveram regimes alternados de ditaduras e democracias que não resolveram os graves problemas socioeconômicos. O líder salvadorenho é Nayib Bukele, e o equatoriano Daniel Noboa, outsiders (fora da curva) da política.
        Os outsiders adotam medidas radicais para “resolver problemas do povo”, como a violência urbana imposta por facções do narcotráfico, e política econômica liberal. Bukele adotou o bitcoin como moeda, e Noboa o dólar – mas os problemas internos continuam.
        Política controversa – Bukele meteu uma política de segurança pública de enfrentamento radical às gangues que dominavam as cidades salvadorenhas. Polícias à noite capturaram os criminosos arbitrariamente e os julgamentos muito rápidos os sentenciavam às megaprisões de segurança máxima construídas pelo governo.
        A eficiência dessa política desperta suspeita em versados em DHs¹, mas populares a elogiam: “agora podemos viver nossas vidas em paz, sair à noite”. Não é possível julgar a posição favorável dos cidadãos. O problema, porém, é que esse sucesso costuma ter curto prazo.
        Mas essa política radical inspira Noboa, que quer combater a todo custo a guerra urbana que atormenta o povo equatoriano a partir da captura e prisão de Fito, e construção de megaprisões de segurança máxima para facções do narcotráfico. Daí o estado de exceção criado pelo governo.
        Governos autoritários – como outsiders, Bukele e Noboa se declaram como “antissistema”. Não existe antissistema, mas extremos do sistema. Tal como Milei e Bolsonaro, eles são da extrema-direita, dado o viés neoliberal das políticas econômicas. E, claro, tal contexto satisfaz muito um personagem: o capital.
        O toque de recolher e a adoção de moedas de alto valor são apenas detalhes autoritários que não surpreendem. A efemeridade dos seus efeitos está na satisfação popular imediata. Mas ao fim do prazo, sinais indesejados já aparecem e não tardam a causar decepção.
        O dólar e o bitcoin como moedas correntes dão sucesso imediato e ilusório por seu alto valor. Mas a falta de políticas anti-inflacionárias e de juros descontrolam as contas públicas e geram a perda de poder aquisitivo, resultando em forte pobreza das classes populares nesses países.
        Talvez por terem juros menores que os brasileiros ocorram certos investimentos externos, que não resolvem os graves problemas internos e a grande pobreza. E isso propicia feedback para um beneficiário às custas das suas populações: o capital – que ama governos autoritários.

Nota da autoria
¹ Direitos Humanos

Para saber mais
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O racionalismo do bolsonarista

        Um vídeo recente viralizou nessa semana. Trata-se de corte de uma entrevista ocorrida na Paraíba, concedido por um radialista muito conhecido por lá.
        Nesse trecho rápido, o entrevistado disse que votou em Bolsonaro nas duas vezes, mas elogia o Lula, a quem considera “melhor do que Bolsonaro”, apontando a baixa dos preços dos combustíveis e da picanha e que “o povo está comendo mais”, que “o velho é bom”.
        Quando o repórter pergunta em quem ele votaria em 2026, o imponente radialista com boné de casa de aposta diz com toda a tranquilidade: “voto em Bolsonaro”. O repórter estranhou a incoerência, que o radialista explicou à sua moda: “Lula tá melhor, mas eu gosto mesmo é do Bolsonaro”.
        Como o pequeno corte viralizou por destacar a incoerência, surgiram explicações para a mesma ainda ocorrer, e que o radialista paraibano não se trata de um caso isolado. Segundo João Cesar de Castro Rocha, especialista em extrema-direita, o bolsonarismo tem uma base sólida: a emoção.
        Afeto, afinidade ou emoção – como a fé, o voto brasileiro é emocional. Lógica e razão se secundarizam em valor. Isso é válido tanto para líderes autoritários quanto democráticos.
        Área das reações, relações e afinidades, a emoção é objeto direto da manipulação por políticos e líderes religiosos. Nomes como Malafaia e Bolsonaro dão até cafezinho como toque final de garantia de seus interesses.
        A afinidade do radialista paraibano com Bolsonaro é um exemplo claro disso. Ele desconhece a origem nazifascista do “Deus, pátria, família e liberdade”, daí não podermos julgá-lo como nazifascista.
        A mitigação do valor da consciência racional é o mecanismo funcional e objetivo dessa manipulação. E, embora tenhamos visto maior eficiência entre a extrema-direita, líderes à esquerda de origem popular também sabem conquistar grande número de pessoas. Lula é o nosso exemplo mais conhecido.
        A diferença está na velocidade da capilaridade de um discurso, e isso depende da quantidade dos que o fazem. E talvez isso explique porque a direita ganha da esquerda aí. A esquerda tem carência nesse ponto.
        Daí ser fácil concluir que a nossa patuleia não é de direita nem de esquerda. Ela é conquistada por quem a atinge mais fundo em seus anseios. E nesse sentido, a galera da direita a atinge antes.
        Agora, por outro lado, a razão é secundarizada, mas não anulada. Se a direita ganha no engodo emotivo, a esquerda tem mostrado que se sai melhor no pragmatismo. E o pragmatismo suscita mais racionalidade e consciência. E é aí, sem secundarizar a emoção, que a esquerda deve conquistar a patuleia.
        Lula já dá mostras disso – por mais vazios ou contraditos que seus discursos possam ser. Ele pode estar atrás os bolsonaristas quanto à capacidade capilar, mas tem um público fiel e enorme, que o defende, mesmo que o critique quando julga necessário. E nisso, Lula trabalha mesmo consertando muitos estragos do antecessor.

Para saber mais
https://www.youtube.com/watch?v=fncCYhQMPn4 (ICL – bolsonaristas estão bugando com os avanços do governo Lula, 12/1//2024)
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CURTAS 116 - ANÁLISES (os traidores da pátria; reforço a Flávio)

  A CARTA DA ALTA TRAIÇÃO                      Já dentro do prazo de 90 dias da eleição, o Brasil entrou no defeso eleitoral , um conjunto d...