domingo, 5 de janeiro de 2025

Ligeirinhas 8 (3ª guerra, golpismo, Brasil real)

 

A iminência de guerra global

            Há uma tradição universalizada em todo o mundo, segundo a qual o início de cada ano corresponde a um novo ciclo, que pode ser interpretado de diversas formas: renascimento, reconstrução ou recuperação. Por isso desejamos o melhor ao outro.
            Mas a crua visão da realidade prática nos mostra que nosso desejo compartilhado se torna inviável. Entre as más notícias que vemos diariamente estão os crimes cometidos por agentes políticos e a escalada das guerras internacionais.
            Os homens guerreiam entre si há milênios. Algumas guerras são seculares e intermitentes, engatilhadas por novos motivos. Estes são os casos da guerra Israel x árabes, e a russo-ucraniana, afinal os dois principais conflitos, encobrindo outros tantos por aí.
            Ambas são exemplos notórios da imensa disponibilidade de arsenal bélico, do qual apenas uma pequena parte tem potencial destrutivo suficiente para exterminar a humanidade – ou mesmo toda a biosfera planetária – mais de uma vez.
            Por envolverem potências como EUA, China e Rússia, só essas duas guerras despertam o temor midiático da iminência da terceira guerra mundial. A julgar pelo arsenal bélico, na prática ela já ocorre – só falta o anúncio oficial. Quem viver, verá.
            Esse anúncio pode ocorrer neste ano – mesmo que alguns países se declarem neutros, como nas primeiras guerras mundiais. Só espero ardentemente que o Brasil seja um dos neutros. Meus pêsames às famílias dos mercenários que entram nessa imbecilidade internacional.



A nova face do golpismo

            Ao fim de 2024, as instâncias judiciárias tomaram ciência das muitas evidências materiais que provam o papel de Bolsonaro como líder da série de crimes ligados à tentativa de golpe de Estado com início desde o pós-eleição de 2022
            Daí sabermos que, neste presente novo ano, as novas descobertas feitas pela continuidade das investigações da PF aumentam o nível de certeza de que a prisão é o destino mais adequado ao ex-presidente e demais lideranças envolvidas.
            Por outro lado, a correnteza das regras institucionais encontra um revés, como a remada contra um recife submerso que redireciona as correntes d’água. No caso, as instituições enfrentam a possibilidade de represália.
            Depois da intentona de 8/1/23, o terror suicida de Tio França – seguido do incêndio de sua casa e a estranha morte da sua ex no Sul – precedeu uma nova tentativa fracassada de terror, dessa vez sem suicídio, em Brasília.
            São fatos recentes que revelam a nova faceta assumida pelo bolsonarismo, adictas à continuidade das fake news. Cientes, as autoridades do DF reforçaram o esquema de segurança para a festa da virada de ano, que costuma atrair muita gente.
            A efetividade da segurança na festa da virada se manterá até o aniversário da intentona, contra novos ataques. Mas parece faltar o mesmo com a desinformação massiva na rede, apesar das medidas severas aplicadas pelo TSE de Xandão.
            A suspensão de perfis divulgadores de mentira e ódio não garante a transparência necessária, proposta na arquivada PL das fake news na advertência às big techs sobre as postagens falsas ou ofensivas de seus usuários.
            Na prática, alcançar a transparência é muito difícil. Se propõe advertir big techs a notificar postagens suspeitas e autores às autoridades judiciárias. Este é o temor dos políticos envolvidos na intentona de 8/1. E, quiçá, também das big techs.
            Será que as bjg techs respeitarão as regras em prol da democratização da verdade? Afinal, o ódio gera muito, muito lucro. Quem viver, verá.


Como diferenciar identidade e identitarismo?

            Brasil, desde 2013: vemos mudanças profundas. As conversas se tornam mais ríspidas em discordância de temas diversos. Se intensificam ataques racistas e de classe; igualmente a terreiros de religiões de matriz africana. Há mais violência contra a mulher.
             Brasília: a partir de 2015 surgem ideias legislativas retrógradas. Direito a porte de armas para cidadão em posse legal; punição a meninas e mulheres que abortarem até nas circunstâncias legais; protesto reacionário à sanção da tipificação criminal do feminicídio.
            O auge bolsonarista em 2019-22 se desenhou na pandemia de C19, na boiada antiambiental, na liberação geral de armas e no ódio profundo a minorias – em que se rendeu bem, ocasionando divisões e consequentes hostilizações internas quase constantes.
            A hostilidade entre grupos minoritários nos dá pista para entendermos que identidade e identitarismo são conceitualmente distintos, mesmo que haja ligação entre um e outro, de forma que a patuleia entenda ambos como sendo um só.
            Identitarismo é a resposta ampla, eloquente ou até agressiva a um estímulo discriminatório. Identidade é a consciência confiante de seu pertencimento específico (racial, cultural-ancestral, sexual, de procedência, social, etc.), sem se rebaixar à discriminação.
            Exemplos identitários são os movimentos pela legalização da união homoafetiva para ter os mesmos direitos da união heteroafetiva; e os feministas pela equidade entre gêneros em direitos e deveres. Historicamente, os negros são um exemplo valioso.
            Nesse sentido, o identitarismo não é necessariamente negativo. Pelo contrário. Seus movimentos históricos protagonizaram a pressão sobre os governos para criar leis mitigadoras de injustiças sociais. Ele propiciou, assim, o sentimento confiante da identidade.
            Se torna negativo quando alguém usa sua prerrogativa para prejudicar alguém (pessoa ou empresa) sem justificativa provável. Ou se a organização usa a pauta identitária para se promover junto à sociedade, à mídia e ao governo, a fim de lucrar mais.
            Nesse sentido, a pauta identitária deve ser usada com sabedoria, em justificativa e materialidade documental ou testemunhal. Estamos num país que abriga 75% de minorizados, um povo imenso que pode ser usado no tema em prol do capitalismo.
            Isso é um recado para a esquerda, em sua pretensão de atingir o auge político. Com tantas minorias diferentes constituindo uma nação, o melhor a ser feito para atendê-las é maximizar a universalização das políticas públicas. Aí, o problema passaria a ser a direita elitista do Congresso.



O antidemocrático ataque ao jornalismo

            No blog há artigos referentes aos meios de comunicação jornalística em diferentes tópicos: a importância do jornalista, os tipos e portes de mídias existentes e quem as detém, e enfim, a intenção do PT na polêmica regulamentação da imprensa.
            Mesmo distintos entre si, os tópicos referidos se ligam de alguma forma. O jornalista tem papel informativo e contributivo à investigação (ramo investigativo), e seus informes chegam ao público, pendendo para o campo ideológico de seu empregador.
            Os jornalões são meios hegemônicos antigos, de viés liberal-capitalista, longos textos de teor academicista e recebem concessão pública. Eles alcançam as classes populares via TV, rádio ou versões impressas ou online de matérias de linguagem acessível.
            Meios não hegemônicos ganham espaço público crescente mediante redes sociais, canais do Youtube ou newsletters de e-mails. Alguns são independentes, sobrevivendo da ajuda financeira de assinantes e de compartilhamentos das matérias visualizadas.
            Mas o valor das mídias não as torna imune a ataques. O ataque a jornalistas – principalmente mulheres – pelo bolsonarismo virou moda. Principais alvos, os jornalões O Globo virou “Globolixo” e a Folha de SP viraram, respectivamente, “globo lixo” e “folha lixo”.
            Bolsonaro se foi, mas o ódio dos apoiadores à mídia continua. E vale destacar que, no Brasil moderno, as primeiras críticas vieram de grupos de esquerda. Mas as críticas podem ser tão construtivas quanto o contrário, este revelado nas expressões bolsonaristas.
            A crítica às mídias em geral – especialmente os jornalões, dado o alcance de público – são salutares para a posterior correção. Até as matérias cujos títulos já revelam viés ideológico devem ser apontadas criticamente para responsabilização dos difusores.
            Matérias desinformativas ou muito enviesadas não torna as mídias “lixos”. Não há jornal imparcial, porque ninguém o é. O que falta é regulamentação para democratizar a informação em diferentes vieses, capazes de alimentar a reflexão crítica do público – o papel maior do jornalismo.


Brasil de classe média... só que não
            
            Lula foi eleito pela maioria para restaurar o país. Reconstruir não significa pôr na mesa picanha maturada com cerveja gelada – isso é só uma metáfora. E duas reconstruções foram as políticas de valorização do salário mínimo (SM) e da distribuição de renda.
            Essa valorização – superior à inflação oficial + rendimento do PIB no ano anterior – permitiu às classes populares consumirem mais de fato. A fila do osso virou fila da carne real, de segunda ou, eventualmente, de primeira: tudo é válido na vida do povão.
            Outros dados econômicos revelados nas mídias foram o crescimento do PIB e da indústria, e a queda do desemprego, facilitando o salto macroeconômico do país. Apesar da alta dos juros e, mais recentemente, do dólar pela crise cambial.
            Agora, mídias de vieses diferentes como a liberal O Globo e a centro-esquerda Brasil de Fato divulgaram que o Brasil se tornou um “país de classe média”: tudo porque “mais da metade dos lares brasileiros passou a ter renda acima dos R$ 3,4 mil”.
            Claro que, para o Globo, a otimização da economia geral e o crescimento da renda média são produtos de “muita sorte” no governo Lula 3, enquanto que para o Brasil de Fato, tudo é fruto do esforço da equipe do governo. Mas esse não é o foco do artigo.
            Na real, R$ 3400 de renda estão abaixo da soma de 3 SMs de 2025 (R$ 1.518), ou seja, R$ 4.554 – abaixo do SM sugerido pelo DIEESE, de mais de R$ 6 mil, para satisfazer necessidades de uma família de 4 pessoas, conforme a CF de 1988.
            Considerando-se a desvalorização lenta e progressiva do SM oficial até 2022, bem como o conceito de classe média a que tenha hoje renda igual ou maior que R$ 4.554, podemos dizer que o país ainda é classe pobre melhorada. O resto é falácia midiática.
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quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Ligeirinhas 7 (destaques do ano, critica aos críticos, etc)

 

Pacote fiscal: uma bronca aos críticos

            Como soubemos publicamente, o pacote Haddad teve o teor socializante na tributação relacionada ao poder de renda (os do topo. Mas também prevê valorização menor do salário mínimo (sm) e dos benefícios sociais a ele vinculados.
            Por pegar também na base da pirâmide, o pacote Haddad sofreu fortes críticas da maior parte dos grupos de esquerda. Não sem razão, claro. Até porque essa frenagem foi facilmente aprovada pelo Congresso, com uma tesourada a mais.
            A crítica residiu principalmente na restrição de requisitos para obtenção do direito ao benefício de prestação continuada (BPC). Ela foi explorada por parlamentares bolsonaristas para desinformar o povo sobre a real intenção do governo.
            Foi um sacrifício convencer os desinformados da realidade. Na prática, a intenção era restringir o direito ao BPC a pessoas com 25% do SM ou menos, e portadores de deficiências ou necessidades especiais de fato incapacitantes para o trabalho.
            Somando-se todas as deficiências e necessidades especiais na população geral, se estima que até 36 milhões tenham algo. E destes, 18,6 milhões (8,9% da população geral) são, de fato, incapazes de trabalhar necessitando, assim, do BPC.
            Portanto, a parcela com deficiências e/ou necessidades especiais leves têm capacidade para ocupar cargos compatíveis com a sua condição individual. As cotas de concursos públicos e vestibulares preveem essa compatibilidade.
            A afirmação acima não é uma ideologia capacitista, nem identitária. Se a educação e, principalmente trabalho já preveem, por lei, meios inclusivos, vale frisar que a mesma afirmação é, na verdade, uma injeção de autoconfiança aos portadores.
            Isso não invalida de todo a crítica da patuleia esquerdista à menor valorização dos ganhos no andar de baixo. Mas vale a bronca por não criticarem duramente o Congresso de ter deixado os super ricos incólumes à benemérita tributação.


Memória: um governo em risco

            Quando Lula foi declarado eleito pelo TSE, a margem apertada fez muitos pensarem que a vitória só foi possível graças à lábia da Frente Ampla. Com certa razão, pois Bolsonaro só ficou no governo pagando muito caro ao Congresso de forma ilícita.
            Por isso, Lula teve que maximizar o esforço de refinar a sua velha sagacidade política para obter o apoio da ampla rede partidária da Frente Ampla, com o fim de derrotar Bolsonaro. Entre a lábia e o dinheiro, a competição foi acirrada.
            Antes de tomar posse, Lula teve que governar por fora, na PEC da transição, pela qual conseguiu recursos para recuperar o país do desastre. E desde já, ele recebeu olhares hostis, que se rebelariam de verdade após a posse.
            Seu ministério foi como a propaganda do desodorante Rexona: sempre cabe mais um. Pela frente ampla, Lula distribuiu alguns ministérios ao conjunto partidário do Centrão, e nomeou um aliado de Arthur Lira para tomar frente na Caixa.
            Acontece que isso não diminuiu a hostilidade do Congresso, por sua composição de centrão e extremistas à direita nas bancadas da bala, da bíblia e do boi, todas controladas também por uma força maior e unida: o mercado.
            Para se manter, o governo teve que ceder em muita coisa: não conseguiu a desejada justiça tributária na PEC da reforma nem no novo pacote; viu a pirotecnia agrobolsonarista durante a seca; e enfrenta um problema especulativo de juros e dólar altos, de difícil controle.
            Mesmo assim, houve algumas vitórias, mesmo amargas, para cumprir muitas das promessas de campanha. E agora, a restrição de emendas, determinada pelo STf, pode ser mais um desafio imposto pelo Congresso contra a sua governabilidade frente às adversidades.
            Enquanto há rumor de Lira ministro da saúde em 2025, Lula 3 avalia como agirá a partir de janeiro. Mas é certo que, com “tesão de jovem de 18 anos”, ele conclua o governo com chance de tentar se reeleger. E a guerra mercadológica certamente continuará.


A inversão no SUS amplo

           Embora se espalhe em todo o território nacional, a saúde federal operada por servidores diretamente vinculados ao Ministério da Saúde (MS) tem, ao menos, 70% de sua concentração de instituições e trabalhadores na cidade do Rio de Janeiro.
            Herança dos tempos de capital federal, essa concentração tem 6 hospitais federais (HFs) de controle pelo DGH (Departamento de Gestão Hospitalar), e 3 institutos nacionais (INs) de serviço hospitalar e suporte de ensino e ciência e tecnologia.
             Iniciada há mais de 70 anos, essa rede é operada principalmente por trabalhadores efetivos do Ministério da Saúde (RJU-MS), que paulatinamente perdem espaço para os temporários da União (CTUs) por falta de concursos públicos.
            Até aí temos aguentado. Mas a coisa piorou desde 2023, quando o MS declarou “impossibilidade” de continuar gerindo toda a rede no RJ, durante uma negociação. E desde então, os servidores vivem uma guerra hercúlea com Brasília.
            O motivo da guerra é o fatiamento: a Ebserh (que controla os HUs) pegou um HF; o município, dois outros HFs até o momento; e o até então obscuro Grupo Hospitalar Conceição (GHC) pegou outro. Dois HFs ainda estão sem futuro definido.
            Tudo isso acima é repetido, para informar os que ainda estão por fora dos acontecimentos, sem ciência das consequências de todo esse processo – que já se concretizam, por trás da promessa de um SUS mais amplo e completo.
            Desde que tomou controle dos HUs, a Ebserh acabou com a reabilitação cardíaca no HUAP da UFF-Niterói; e na última semana de 2024, o GHC simplesmente “matou” a referência nacional em Nefrologia no HF de Bonsucesso, no Rio.
            Mais um passo, para que o SUS seja fragmentado até a completa dissolução de seu princípio maior: o de ser para todos. Triste será ver nos jornais futuros: “O lucro bilionário do SUS (leia-se empresas) é o resultado de um acerto do governo”.


Os campeões da ética e moral em 2024

            Quando Lula disse, ainda preso na PF em Curitiba, que “não abre mão da dignidade para ter liberdade”, Lula oportunizou uma observação interessante sobre as possibilidades de haver dignidade na política.
            Isso porque a política se tornou mais do que uma ciência da diplomacia em nome da ordem nacional a partir da governança. Ela se revela um termômetro onde os princípios éticos são constantemente testados na guerra dos discursos.
            A política é mais do que um octógono do MBA. É um campo minado onde impera a guerra ideológica – na qual o mercado marca presença quase constante – em que diferentes figuras se notabilizam em matéria de dignidade, ideológica ou ética.
            Guilherme Boulos: fez boas observações nos Conselhos de Ética da Câmara. Graças às suas análises, André Janones foi absolvido da acusação de rachadinha, e o risco de cassação de Glauber Braga foi enfraquecido ao expor a tática do MBL.
            Glauber Braga: presidente da Comissão de Gestão participativa, não se intimidou com o poder de Arthur Lira ao expor acusações sobre este. Enfrenta processo no Conselho de Ética por ter expulsado um cara do MBL e expor a aliança do movimento com o neonazismo.
            Alexandre de Moraes: num dos cargos mais desafiadores, mostrou-se pleno legalista contra os abusos golpistas do ex-presidente Bolsonaro, e como relator do inquérito da intentona de 8/1/23, com numerosas condenações. E preside inquérito dos cabeças do golpe.
            Flávio Dino: após dar um banho nos bolsonaristas em 2023, com tiradas de simpático cinismo, ele se tornou o terror da turma de Lira ao reter R$ 4,2 bilhões em emendas de comissão de transação ilícita, das quais liberou R$ 370 milhões para manter o piso da saúde pública.
            Esses foram os campeões de dignidade em 2024 em relação à condução política – mesmo que, para tantos casos tenha sido necessária a intervenção da justiça.


O que esperar em 2025

           Enquanto milhões de pessoas se aglomeram nos principais pontos de referência para assistir ao colorido espocar de fogos e música pelo Brasil afora, aqui em Juiz de Fora, MG, a virada é ribombada por um raio. E em Brasília? Não sei, não assisti à TV.
            Mas imagino como deve ter sido. Para os moradores da capital brasileira, um breve momento de descanso decorre após tanto movimento no ano que mal acabou de morrer. E, pasmem, muitos fatos ainda continuarão em 2025. Exemplos a seguir:
            No STF, Dino reterá as emendas restantes até que seja elucidada a sua transação; e Xandão continuará relator dos inquéritos das fake news (iniciado na era Bolsonaro) e da intentona de 8/1/23, acrescida com o plano de matar Lula, Alckmin e ele próprio.
            Na Câmara, Glauber Braga ainda aguarda a continuidade do julgamento, pelo Conselho de Ética, do processo relativo à guerra ideológica implantada pelo MBL, e por estar à frente da Comissão de Legislação Participativa, que visa a participação social.
            A decadência de Bolsonaro gerará rebuliço no PL, compossível evasão de alguns nomes para partidos do Centrão ou mudança de apoio para o próprio Lula. É uma indicação de que o extremismo de Bolsonaro não faz mais sentido de manter.
            Pensando em seu futuro, a esquerda se divide entre pauta identitária e políticas sociais. Ante um eleitorado conservador, o pragmatismo das políticas públicas deve ser posto em 1º plano, deixando o identitarismo como consequência natural.
            Torçamos para que dispositivos como a PL da Anistia e os retrocessos nos direitos fundamentais tenham como destino a poeira da gaveta do arquivo. A primeira envergonhará a República, e as demais são socialmente inviáveis.
            Espero que haja consciência de se ter mais escolas e hospitais do que templos religiosos arrecadatórios. E que o SUS permaneça na Adm Pública regido por servidores estáveis, e não caia mais na rede empresarial de direito privado.
            Que o sol da mudança climática rache as cabeças dos poderosos para tomar ciência de maximizar a mitigação da destruição ambiental, para preservar as áreas socioambientais remanescentes e a capacidade produtiva do próprio agro e da indústria!
            Não quero muito. O que escrevi acima não é milagre. É o suficiente que possamos todos fazer para um futuro melhor. Quem torna melhor o mundo não é o novo ano, e sim a nossa sabedoria e humildade de fazê-lo.
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domingo, 29 de dezembro de 2024

Ligeirinhas 6 (de Alagoas à inflação)

 

Alagoas: pequeno, rico e precário

                 Em meados de 2023, durante uma reunião do Consórcio Sul-Sudeste (Cossud), o governador mineiro Romeu Zema discursou em desprezo aos nordestinos, dizendo que eles “vivem de auxílio emergencial”, enquanto “o Sudeste e o Sul trabalham”. Pegou bem mal.
                    Controversa nas redes, a fala de Zema foi muito criticada por políticos nordestinos e mineiros. O deputado petista mineiro Rogério Correia disse que Zema tem “profunda ignorância” do conceito de nação e da proximidade geográfica, histórica e cultural entre o norte mineiro e o Nordeste.
                    Vamos ajudar Zema: o Nordeste foi a região que mais cresceu economicamente quando o PT esteve mesmo no poder (hoje não está). E, individualmente, um Estado se revela o mais rico proporcionalmente ao seu tamanho: Alagoas, terra natal do deputado Arthur Lira.
                    Bem, pelo menos era para ser. Presidente da Câmara dos Deputados, o parlamentar mais poderoso do Brasil nesse momento, Arthur Lira é o responsável pelo direcionamento das emendas para Alagoas. As prefeituras influenciadas por ele são as que mais verbas recebem.
                    Mas a lupa social nos revela um Alagoas com extrema desigualdade na oferta de serviços públicos, saúde e educação precarizados e sem profissionais no interior, a despeito dos volumosos recursos recebidos das emendas. O populismo coronelista dos Pereira Lira vale ouro.
                    Não é por acaso que a mídia investigativa Agência Pública sofreu censuras judiciais por parte de Lira. Mas Lira não inaugurou esse coronelismo. Os Mello, clã do ex-presidente Fernando Collor, é um exemplo clássico, tendo Arnon Mello como protagonista pretérito.
                    Arthur Lira sairá em breve da presidência da Câmara. Seu indicado Hugo Motta é o seu mais provável sucessor, dada a relevância pelos jornalões, que bajulam o alagoano. Este perde o trono pelo tempo legal esgotado, mas segue o seu poder no rico, mas precário Alagoas.


Dino, hoje e amanhã

                  O maranhense Flávio Dino se formou em Direito, foi juiz federal e entrou na política – onde se revelou um nome muito popular em seu Estado. E o seu retorno ao Judiciário como ministro do STF não o licenciou da popularidade conquistada. Ainda mais agora.
                    Ele continua mantendo suspensas as emendas de comissão de R$ 4,2 bilhões, que supostamente envolveu um homem conhecido como “rei do lixo”, que teria atuado como laranja nessas emendas. Tudo porque, com relação à transação, tudo está muito obscuro.
                    O Congresso (leia-se centrão e extremistas) se desespera pela liberação da quantia retida. Só que o ministro endureceu na sua exigência de resposta urgente às suas perguntas contidas em ofício enviado à Câmara, devido à falta de transparência e rastreabilidade na transação.
                    Esse fato revela o brilho próprio da personalidade ética de Dino como ministro do STF. Mas cabe a reflexão: Dino nunca escondeu a sua inclinação política, mesmo sendo esta última um mundo à parte, no qual rola todo tipo de conduta ilícita para se obter vantagens.
                    Ele próprio já respondeu, numa entrevista, sobre sua possibilidade de retorno futuro à política. Embora não tenha afirmado literalmente, ele deixou lugar para a expectativa de, sim, poder retornar – ainda mais na incerteza de Lula concorrer à reeleição ou sair de cena.
                    Lula já está cravado na História política moderna. Mas, aos 78 anos e vitimado por um acidente doméstico recente que o levou a duas cirurgias cranianas, já pensa nas suas incertezas pessoais, e sabe que falta uma figura carismática e de boa comunicação popular como ele.
                    E Dino tem as qualidades adequadas: popular, carismático, assertivo e, quando precisa, rigoroso em tom cínico. Aos 56 anos, ele ainda tem fôlego suficiente para mais anos de empreitada no mundo da política. E, se for para ser presidente da República, o Brasil agradecerá em festa.


Perigos à sociedade, à democracia e à República

                  Por mais segmentada em particularidades econômicas e culturais, a sociedade nacional (ou nação) lida com um problema: o crime. Sua tipificação no Direito concorda com os valores éticos e morais de cada sociedade nacional, configurando sistemas penais distintos.
                    Entre as categorias criminais estão os crimes políticos, cometidos em função da posição de agente político. Mandatos com foro privilegiado são julgados pelo STF. No Brasil, a penalização é historicamente seletiva no viés ideológico, com predileção sobre a esquerda.
                    Tal seletividade se opera por interesse de força maior, do mercado privado. Mas, nesse governo, a pressão do debate público fez com que as instituições investigativas e os tribunais se voltassem contra nomes da extrema-direita, se obrigando a irem pela ética.
                    A mudança na ética institucional privilegia o governo atual, após o pretérito lawfare que levou ao golpe de 2016 e à prisão de Lula. E os fatos nos dão ciência do quão arriscado foi manter livre o caminho para a eleição de gente que agora sabemos ser tão perigosa.
                    Perigosa à sociedade por ter impedido a consciência pública de seus atos. Perigosa à República, pela política destrutiva ao patrimônio público com privatizações irresponsáveis e aos serviços públicos. Perigosa à democracia, por tentar se manter no poder para criar o caos anarcocapitalista.
                    E cabe salientar que o perigo dessa gente é tamanho que, mesmo com prisões, a sede golpista que inunda a mentalidade e as vontades ainda está bastante viva. Os que deram resistência à democracia – povo e instituições – devem ter toda a atenção possível.


Bets responsáveis, só que não

                 Durante o governo anterior, a condução mortífera na pandemia de C19 e as consequências sociais do anarcocapitalismo implantado foram os protagonistas que silenciaram publicamente um problema: as apostas eletrônicas.
                    Conhecidas como bets, as apostas se tornaram uma verdadeira praga a partir de 2022. No governo atual, elas viraram preocupação, por seus vários anúncios e fácil acesso sem regulamentação. Daí, elas despertam outra preocupação.
                    Além da falta de regulação, as apostas bets exercem forte poder psicoativo no jogador. Como são programadas para driblar a habilidade do jogador, elas o induzem a continuar indefinidamente, tornando-se dependente delas.
                    É uma dependência psicológica que pode ser severa. Relatos apontam perda de pertences pessoais e de empregos, descuido com a saúde e até perda de moradia. Ou seja, as bets não diferem das apostas tradicionais em nada, quanto ao seu modus operandi para se capitalizar.
                    A falsa garantia de responsabilidade das empresas de bets é uma armadilha para os apostadores, como é o caso da Vai de Bet, que tem celebridades entre os seus donos. Gustavo Lima e Deolane Bezerra foram alvo da polícia por envolvimento com bets.
                    A busca do governo em regular as apostas online visa mitigar esse poder viciante. Beneficiários de Bolsa-Família e correlatos foram proibidos de apostar em bets. Mas o vício vai dominar pessoas até então estáveis no trabalho e na família. Responsabilidade? Não mesmo. Sem vício não há lucro.


Lei Maria da Penha, ontem e hoje

                  Lula 1 criminalizou a violência doméstica ao sancionar a lei 11.340/2006, ou Lei Maria da Penha, numa homenagem à cearense Maria da Penha Fernandes, sobrevivente às tentativas de feminicídio cometidas pelo ex-marido Marco Antônio Heredia Viveiros nos anos 1980.
                    A sanção foi tardia – mais de 30 anos após a violência sofrida pela biofarmacêutica e assistida pelos três filhos então menores. Após o fim do casamento, mesmo tornada cadeirante, Maria da Penha virou ativista contra a violência de gênero e o feminicídio.
                    Mas, antes tarde do que nunca. Pois, mesmo que não tenha combatido o crime e o bolsonarismo tenha ajudado a revitalizar o machismo ferido de muitos, o índice de encorajamento para denunciar casos de violência doméstica no Disque 180 aumentou bastante.
                    A Lei Maria da Penha não combate o crime de violência de gênero – isso, só a educação relativa resolve. Mas oportuniza as políticas de apoio às vítimas, como disque 180, delegacias da mulher, abrigos temporários para as mais vulneráveis e punição dos criminosos.
                    Mas ainda há desafios. A cultura da violência de gênero ainda vivente se estende nas delegacias dedicadas às vítimas, e desde o fim dos anos 2010, a bolsonarização dessa violência tem embrutecido os números desse crime mantendo impunidade em muitos casos.
                    Ainda assim, se com a lei Maria da Penha em vigor ainda estamos longe de ser um país amigável às mulheres, pior sem ela!


Os vilões da inflação dos alimentos

                 Apesar do importante crescimento da economia de forma geral, com maior controle inflacionário em comparação com o governo anterior, a equipe econômica de Lula 3 deparou com a disparada dos preços dos alimentos neste 2024.
                    O governo frequentemente culpa as taxas abusivas de juros, em geral justificadas mais na crise cambial, arma do ataque especulativo do mercado contra os investimentos públicos. Só que, na prática, a lista de fatores é mais ampla e complexa do que parece.
                    Portanto, cabe apontar que há outro fator para a inflação dos preços de alimentos: o empurrão de impostos, com as isenções seguidas para a elite do agronegócio, que gera menos divisa do que a agricultura familiar, que alimenta 70% da nação e paga impostos.
                    Cabe assinalar o altíssimo consumo de água pelo agronegócio, pela indústria de celulose e bebidas e pelos data centers das big techs, comprometendo a disponibilidade natural de água na natureza e para pequenos agricultores.
                    E houve ajuda do clima. O clima quente e seco em 2024 amplificou a extensão dos incêndios florestais, em maioria criminosos. Só o clima não explica o tamanho fogaréu que se espalhou pelo Brasil. Por trás de tanto fogo, vale mencionar uma “coincidência”.
                    Quando Bolsonaro foi visitar aliados em campanha eleitoral no interior paulista, os primeiros focos “coincidiram” com sua presença; até então inexistiam. A moda de repente pegou, indo até no então chuvoso Sul do Brasil; a úmida Amazônia caiu em chamas.
                    Essa soma de fatores comprometeu o ritmo de produção alimentar no Brasil, um dos raros celeiros do mundo com três safras por ano. O Brasil seria uma potência para tudo, não fossem os vilões que nele habitam e são donos do poder.
                    Por saber que isso pesa muito na sua popularidade, Lula 2 que se cuide.
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CURTAS 116 - ANÁLISES (os traidores da pátria; reforço a Flávio)

  A CARTA DA ALTA TRAIÇÃO                      Já dentro do prazo de 90 dias da eleição, o Brasil entrou no defeso eleitoral , um conjunto d...