segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

CURTAS 15 - ANÁLISES

 
O paradoxo Augusto Aras

        O procurador-geral da República do governo Bolsonaro Augusto Aras se destacou muito mais em blindar a imagem do presidente da república do que prestar as suas reais funções. Tanta blindagem sobre o presidente garantiu a ele a fama de “prevaricador-geral da república”.
        A fama de Prevaricador não pareceu incomodar Aras. Nem mesmo os escândalos expostos pela CPI da C19 pareceram abalá-lo. Seguro de si, foi reconduzido ao cargo após sabatina pelo Senado, o que foi uma luva para os parlamentares com pencas de processos espinhosos nas mãos do legalista STF.
        E assim seguiu seu sucesso em omissões. Ainda presidente, Bolsonaro fez um último ato: assinou indulto aos PMs partícipes e condenados pelo massacre de 111 presos na Casa de Detenção (Carandiru) em SP,  ocorrido em 1992.
        O indulto, que beneficiou outros policiais condenados, foi alvo de críticas dentro e fora da internet. Bolsonaro explicou então que, para os condenados do Carandiru, não havia ainda a tipificação de crime hediondo no código penal. Ainda assim, juristas apontaram irregularidade no indulto.
        Um motivo é que na Constituição de 1988 há artigos que preveem um endurecimento penal para crimes de altíssimo poder ofensivo. O outro aponta o fato de que policiais recentemente condenados por crimes de natureza semelhante ou idêntica foram igualmente contemplados pelo indulto. 
        Por não se aplicar aos PMs condenados mais recentemente por homicídios ilegais, a explicação de Bolsonaro aplicada aos PMs do caso Carandiru torna o seu próprio ato irregular. E isso mexeu com Aras, que tomou uma decisão impensada: pediu ao STF que anule o indulto presidencial.
        De fato, essa decisão foi surpresa. Para o cientista político e youtuber Carlito Neto, o ato inédito de Augusto Aras pode ser considerado um indício de abandono a Bolsonaro, dadas as irregularidades e ao fato de o presidente decidir viajar para os EUA e retornar algum tempo depois da posse de Lula.
        Faz sentido. Essa pode ser a primeira de uma possível série de decisões que Aras pode tomar até setembro, quando será substituído por um novo PGR já no governo Lula. Se acontecerem, essas decisões futuras reverterão a blindagem a quem oficialmente se tornará oficialmente ex-presidente.
        Mesmo aos poucos, a reversão da imoral blindagem pode ser para o religioso Aras uma remissão dos pecados. Mas a patuleia não perdoará fácil: por muito tempo sua imagem permanecerá manchada pelo paradoxo judiciário que representou nos 4 anos mais terríveis desde a redemocratização.

Para saber mais
- https://www.youtube.com/watch?v=z6wCXMuu5S8&pp=wgIGCgQQAhgB (O Historiador, Aras abandona Bolsonaro e pede que STF anule indulto do presidente).
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A real fuga de Bolsonaro

        Desde antes do Natal, o ainda presidente Jair Bolsonaro já anunciava fazer uma viagem aos EUA para “ter um período sabático de alguns meses”. Inicialmente houve confusão sobre o dia certo da viagem, se 28/12 ou em janeiro, mas acabou sendo neste dia 30/12, precedido dois dias antes por avião da FAB “por segurança”.
        Foi rumo á mansão do ex-lutador Aldo, mas intenta encontrar o ex-presidente Donald Trump e o guru deste, Steve Bannon. Como partiu antes da posse de Lula, internautas consideraram uma fuga covarde ocorrida em momento em que atos terroristas tomavam corpo e o próprio Bolsonaro se negou a prestar satisfação sobre isso.
        Como ele viajou após uma live “chorosa”, noticiosos divulgaram que a partida antes de janeiro se deu por conselho de advogado para escapar da justiça, expondo ser clara fuga feita com dinheiro público a sustentar a família e assessores lá fora. Foi uma fuga porque ele plantou razões para tanto.
        Foi pusilânime com seus apoiadores em não dar satisfação na live sobre sua viagem. E judicialmente responde a vários processos por crimes comuns e políticos. Sem foro privilegiado em 2023, pode ser condenado em primeira instância.
        Em fria análise, a longa estadia no exterior aufere mais tempo em liberdade e calma aos fãs. Bolsonaro quer anistia, que o senador Randolfe Rodrigues diz ser impossível por haver crimes hediondos no curriculum vitae de submundo.
        A permanência lá fora não imuniza Bolsonaro de leis extraterritoriais, que podem determinar a deportação para um julgamento devido. Não ter endereço fixo apenas dificulta a sua localização. E o problema judicial se estende ao exterior: ele já foi condenado pelo Tribunal Permanente dos Povos (TPP)¹, que é uma instituição internacional.
        O TPP julga opinativamente via análises jurídicas de processos criminais, em especial contra povos e minorias. Esses julgamentos opinativos não impedem a aceitação do seu veredicto pela maior instância, o Tribunal Penal Internacional (TPI) como base essencial para julgamentos futuros.
        Criado pelo Tratado de Roma² em 2012 para julgar crimes de guerra, o TPI (Haia, Holanda) hoje julga crimes contra a humanidade, como limpeza étnica ou de minorias por diversos meios políticos, situação em que Bolsonaro se encaixa em 5 processos já aceitos, analisados e aprovados.
        Os processos do TPI se baseiam em denúncias de genocídio indígena (limpeza étnica), contra a saúde pública (baseado no relatório final da CPI da C19), ecocídio em larga escala de ameaça global contra a humanidade (baseado em estudo publicado em revistas científicas renomadas).
        Ao intento de postergar pendengas judiciais, se junta o de se esquivar daqueles que traiu com mais força: seus apoiadores, que chegaram a perder saúde, empregos, família e dignidade ao verem a covardia ao invés da propalada coragem, da parte daquele cujo nome foi tão endeusado nos últimos anos.

Notas da autoria
¹ Tribunal regido por leis extraterritoriais, criado em 1979 (vide Wikipedia, link abaixo).
² Tratado assinado por mais de 100 países signatários, para criar um tribunal internacional ao molde do de Nuremberg. mas permanente.

Para saber mais
- https://www.youtube.com/watch?v=VFPmuCx0GUE (Professor Leonardo, Bolsonaro chora em live humilhante, implorou para não ser preso)
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Qual é o pior crime de Bolsonaro?

        O baixo investimento dos governos conservadores em desenvolvimento social é conhecido, mas a era Bolsonaro gerou um nível inédito de prejuízos, com impacto tão profundo que impediu a sua reeleição. Apesar de tão negativa, essa era permite interessantes reflexões sobre o curriculum vitae criminal do ex-presidente Jair Bolsonaro.
        Disfarce- ele se revelou mestre em disfarçar seu desmonte por lemas de moral cristã e de disciplina militar, que gerou catarse entre os fanáticos, ao ponto de agora invocar terror e desvios na saúde psíquica deles.
        Precarização- se traduziu no avanço do desemprego, contratações por vínculos frágeis e sem garantias de direitos, e atendimento público enfraquecido pelo alto déficit de servidores diante do crescimento da demanda.
        Guerra urbana- traduziu-se na piora da violência urbana cotidiana pela política de armamento civil e irregularidade em títulos de CAC (caçadores, atiradores e colecionadores). A criminalidade assumiu status de guerra urbana.
        Violência política- essa marca ocasional e histórica foi inovada por Bolsonaro via armamento civil e discurso de guerra civil, bem como a diversificação de currais eleitorais indo aos ambientes de trabalho e durante cultos de certas igrejas gospels. O terrorismo no fim de 2022 foi motivado pelo discurso de guerra civil de Jair Bolsonaro, alimentado há décadas.
        Crimes de ódio- também pioraram em violência por influência do discurso bolsonarista. Feminicídios e homicídios de minorias sexuais¹, não brancos, pobres, MSTs e outras bateram recordes.
        Genocídio- 700 mil vítimas da C19 (mais de 400 mil por influência da negação presidencial e de empregadores); 2000 pela violência policial nas periferias das capitais; 1000 indígenas mortos (700 pela C19, o restante por invasores e pelo ecocídio); e dados ainda não expostos de vítimas materno-infantis, por doenças negligenciadas e crônicas².
        Testes pró-nazistas- o nazismo é crime no Brasil, mas o bolsonarismo tem muitas afinidades e herança do nazismo alemão. A CPI da C19 revelou testes médicos³ que remetem os realizados em campos de concentração.
        Perda de direitos- perdas nos campos trabalhista, previdenciário, de pensões e outros levou a uma deterioração de 50 duros anos de conquistas sociais importantes. Houve também aumento de impostos, e a não correção do IR agora ferra até quem recebe o salário-mínimo.
        Uma família, muitos imóveis- investigação jornalística do UOL revelou 107 imóveis em nome dos Bolsonaro, sendo 51 provadamente comprados em grana viva. Agora descobriu-se mais de 20 imóveis em locais caros nos EUA em nome da família, que seguem alvos de investigações sob sigilo.
        Corrupção- o mais conhecido método dos Bolsonaro é o peculato (“rachadinha”), em que o funcionário devolve uma parte do salário ao contratante. Os Bolsonaros exigiam devoluções de até 90% dos valores salariais. Investigações pararam devido aos sigilos impostos pelo então presidente, expondo ainda mais a suspeita de seu protagonismo.
        Milícias- há evidências de ligação dos Bolsonaro com milicianos como Adriano da Nóbrega, Fabrício Queiroz e Ronny Lessa. Marielle Franco, Renato Freixo, Patrícia Acioli estão entre as vítimas de milicianos. Como as investigações desses crimes também foram abortadas e as evidências sigiladas, a suspeita de envolvimento da família com os crimes só aumenta.
        Nem todos os crimes estão aqui, mas os expostos já nos dão ideia de sua diversidade e vítimas envolvidas, e o debate em torno de uma pergunta: qual deles foi o mais cruel? A pergunta terá muitas respostas, que virão conforme a o emocional de cada leitor. Mas, uma resposta é certa: todos os crimes têm potencial ofensivo e merecem ser devidamente punidos.

Notas da autoria
¹ Comunidade LGBTQUIAP+ e profissionais sexuais.
² Principalmente por falta de medicações no SUS, que sofreram cortes.
³ Via depoimentos de sobreviventes e médicos que passaram em hospitais de planos de saúde alinhados com Bolsonaro.

Para saber mais

Lula 3, o retorno

            Neste primeiro dia de janeiro, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva teve o seu grande momento. Diante do testemunho de 120 chefes de Estado - um recorde em posses presidenciais no país -, Lula marcou seu retorno pela quebra de alguns protocolos. Quebras visíveis, mas com consequências no geral positivas.
            Uma das quebras mais interessantes foi a ausência da salva de 21 tiros de canhão. A tradição, que simboliza o poder republicano, foi banida por decisão da agora primeira-dama Janja, que alegou o respeito aos portadores de transtorno de espectro autista (TEA) e aos pets, que reagem assustados com os barulhos muito altos.
            Outra quebra foi a subida com a diversidade: o cacique Raoni; o menino negro Francisco; o "deficiente" Ivan Baron; os trabalhadores Wesley (metalúrgico), Aline (catadora), Jucimara (cozinheira) e um professor. A ausência de LGBTQIA+ e de um sem-terra foi compensada em discurso de Lula em prol de "todos os oprimidos".
            A decisão de subir a rampa com representantes do povo foi de Janja, dada a recusa de Bolsonaro em aceitar a vitória eleitoral de Lula e fugir aos EUA. O então interino Hamilton Mourão se ofereceu a passar a faixa, mas Lula preferiu que um dos populares acompanhantes passasse. Passada de mão em mão, a faixa foi posta por Aline.
            A cerimônia teve forte aparato de segurança, composto por agentes da Força Nacional de Segurança e da PF, e atiradores de elite. Lula desfilou no tradicional Rolls Royce aberto, e helicópteros da PF voavam. Uma pessoa foi presa portando armas, e um drone suspeito foi pego. A liberação de imagens deste último à mídia foi proibida.
            Após a cerimônia de posse e as assinaturas dos primeiros decretos, veio a festa que agitou a multidão que fez um mar de camisas vermelhas com a bandeira nacional. A multidão dessa posse foi maior do que a de Bolsonaro em 2019, que também havia lotado a Praça dos Três poderes e entorno. No geral, tudo foi pacífico e alegre.
            Significados- a posse de Lula teve vários significados. A começar pelo retorno de um líder proletário que já presidiu o país em dois mandatos saindo com ampla aprovação popular. Lula entra para a história também como o primeiro presidente eleito pelo povo três vezes. E foi em nome do povo que Lula e Janja quebraram protocolos.
            A subida na rampa com a diversidade representa a volta da inclusão que havia sido banida pela política do antecessor. A recusa à salva de 21 tiros não só respeitou pessoas com TEA e animais, como simbolizou o fim do pesadelo de violência e ódio personificado no armamento civil. Afinal, canhões já foram armas no passado. 
            Lula retorna. Como previsto numa frase viral na internet: "se vou preso virarei herói; se me matam viro mártir, e se me soltam virarei presidente". Se a frase foi falada mesmo não sei, mas os fatos e a relação dele com o contexto sociopolítico e a popularidade a fizeram soar profética.
            Ao menos, deixemos aqui o nosso desejo de que faça um governo pragmático e melhor do que o antecessor, dado o seu retorno.
            
Para saber mais
https://www.msn.com/pt-br/noticias/brasil/imprensa-internacional-d-c3-a1-destaque-a-posse-de-lula/ar-AA15Tq8S
- https://www.bbc.com/portuguese/brasil-64142066 (representantes de grupos sociais na posse de Lula)
- https://jc.ne10.uol.com.br/cultura/2023/01/15151881-posse-de-lula-veja-ao-vivo-os-shows-do-festival-do-futuro-festa-da-posse-de-lula.html
- https://www.msn.com/pt-pt/video/ents-tv-big-brother/milhares-de-brasileiros-na-posse-de-lula-da-silva/vi-AA15RVpB?category=foryou (para ver, desativar o filtro familiar).
- https://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-simbolismo-do-beijo-de-lula-e-janja-no-palco-do-futuro-por-nathali/ 
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