terça-feira, 18 de abril de 2023

Análise: um pesadelo para BR e Lula

 

           Teoricamente, o que se espera de um advogado que deseja obter escalões mais altos e estáveis em tribunais e outros órgãos públicos está muito além de um aprove no exame da OAB. Os dois principais requisitos são: o notável saber jurídico e a conduta ilibada e imparcial na condução judicial.
                O último requisito nos faz lembrar dos nomes notórios que não o têm: Sergio Moro, Deltan Dallagnol e Gabriela Hardt, no caso Lula. Já houve desconfiança, sem prova, de suposta sugestão de Dias Toffoli para Bolsonaro para fugir e escapar da Justiça e da prisão. É o saber das brechas legais.
               Gabriela Hardt seria apenas mais um nome na lista do vasto universo judiciário brasileiro, se não condenasse Lula em processo colado e adaptado no caso triplex para o sítio de Atibaia, mantendo a ilegal incompetência de Curitiba para esses casos. E não pararia por aí.
               Ela continuou na incompetência local ao autorizar a investigação do caso paulista PCC-Moro, um tema de morte súbita na mídia após confirmada sua forja pelo senador. E não sossegou mesmo assim, o que teria explicação quiçá hereditária, em uma descoberta jornalística bombástica sobre um crime vitimando a Petrobrás (BR).

                
Jorge Hardt Filho

                A BR teve boom em 2006 na descoberta do gigantesco campo petrolífero do pré-sal na bacia de Santos, por tecnologia de exploração ultraprofunda cobiçada pelas estrangeiras. Graças à competência intelectual e técnica de seus profissionais, inclusive terceirizados de empresas de tecnologia  - do que a estatal ainda pode se gabar.
                Nessa cena entra Jorge Hardt Fº, engenheiro químico que atuou na Gerência de Engenharia da Unidade de Negócios SIX/BR, onde viu surgir a eficiente e menos poluente tecnologia Petrosix e depois viraria consultor de empresa privada após se aposentar com importante conhecimento de Estado.
                A Petrosix foi projetada nos anos 1970 pela equipe técnica da SIX/BR para extrair óleo e gás em terra até em xisto, um tipo de rocha metamórfica antiga de subsolo muito profundo. Se produz hidrocarbonetos, se aplica o termo Xisto betuminoso para distinção dos xistos improdutivos.


Documentos muito confidenciais

                Para evitar roubo, documentos da Petrosix foram criados e salvos de forma secreta em apenas um dos computadores da SIX. Em 2007, já consultor da Tecnomon, contratada da SIX para modernizar a planta da BR, que Hardt voltou à SIX e depois foi trabalhar para a empreiteira Engevix.
                A Engevix foi investigada pela Lava-Jato, com diretores e o presidente presos a mando de Moro. Hardt Fº, João Carlos Gobbo e João Carlos Winck aparecem em documento do Dept Interno do Sistema BR de 2008 como um dos destinatários para envio de docs confidenciais da SIX.
                O acesso aos três aposentados da SIX/BR foi o passo para o escândalo de pirataria industrial que viria, pois em documentos da estatal havia segredos tecnológicos da Petrosix totalmente confidenciais.


Um X9 lá fora

                Eles aproveitaram o contrato BR-Engevix de US$ 18,5 milhões para a venda da Petrosix para EUA, Marrocos e Jordânia – os dois primeiros abandonaram o projeto no fim do contrato de 2 anos. O governo jordaniano autorizou a BR continuar a prospecção do xisto, mas foi necessário a estatal ter aí nova parceria.
                A parceria foi com a Forbes & Manhattan (F&M), do Canadá. Mas em 2012, o gerente-geral da SIX José Alexandrino Machado se reuniu às pressas com executivos da BR para mostrar slides de outra empresa, a Irati Energia, formada por ex-funcionários da SIX e controlada pela... isso mesmo, a F&M. Guardem bem esse nome.
                Slides – revelaram que a Irati se declarou detentora da Petrosix. Era o vazamento de informe secreto da BR para a canadense, que já tentava prospectar na mesma região jordaniana sem a ciência da própria BR, e com uma tecnologia criticada pelo governo do país árabe. Claro indício de pirataria.
                De imediato a BR abortou o trato com a Forbes e logo suspeitou de Jorge Hardt Filho, a quem antes confiara o destino dos documentos da Petrosix. Mas como, se ele não trabalhava para a Irati?
                

Anatomia de um crime: da descoberta à apuração

                A suspeita tinha fundamento. A patente expirada da Petrosix não impediu o controle da BR sobre seis dos mecanismos de transformação do xisto. O conteúdo dos slides apontou a violação da cláusula de confidencialidade do contrato BR-Engevix. Mas havia outra razão no imbróglio.
               Ao buscar novos requerimentos de patentes da Petrosix no Brasil e exterior, a BR descobriu que Hardt Fº, Gobbo e Wink requeriam patentes de uma tecnologia muito parecida, a Prix, cuja descrição comercial dizia ser “processada com mais de 30 anos de comprovada operação”. Bingo!
               Há duas razões de ser mentira: a Petrosix nunca saiu do papel, e não há fontes sobre a prática do Prix. Podia-se dizer, assim, que a Prix era uma aprimoração da Petrosix. A BR não perdeu tempo: criou um grupo investigativo que, durante as tarefas, desvelada a anatomia do crime de pirataria e seu valor.
                Informes privilegiados – em Relatório de Comissão Interna de Apuração de dez/2012, a BR destacou: “evidências apontadas permitiram identificar que as empresas IRATI ENERGIA, FORBES ENERGY e GOSH, todas vinculadas ao grupo FORBES & MANHATTAN, utilizaram-se de informações privilegiadas”.
               A BR esclareceu que Hardt Fº, Gobbo e Wink tiveram acesso direto aos informes ilicitamente usados pela Forbes & Manhattan, e “fizeram visitas à SIX que não se limitaram ao período e às exigências do contrato com a Engevix”. E a petroleira foi mais adiante na apuração: 
               “No contrato firmado com a Engevix existe previsão impondo à Contratada o dever de sigilo das informações disponibilizadas pela Petrobras, o que se estende para suas subcontratadas, de maneira que qualquer utilização indevida de informações por funcionários da Engevix ou suas subcontratadas ensejaria a obrigação de indenização dos prejuízos causados”.
                Por conta disso, a estatal foi mais longe ao desaconselhar, no relatório de apuração, qualquer novo contrato com a F&M, e notificar extrajudicialmente empresas por apropriação indébita de propriedade intelectual visando obter patente de projetos alheios de natureza confidencial.


Lava-Jato: relações suspeitas e consequências

              Após corte de contrato, a F&M disse ao governo da Jordânia que não prospectará mais o xisto e se limitará ao consórcio com a BR, uma vez que 'sem BR, sem Petrosix'. A BR descobriu ainda que a F&M quis vender projeto para uma empresa chinesa com informes obtidos da visita à SIX. 
               Nos relatórios da BR ainda aparecem dois nomes que assinaram documentos com a F&M em seu nome: Demarco Jorge Epifânio e Jorge Luiz Zelada, presos pela Lava Jato após terem suas vidas reviradas, mas não tiveram relação com a passagem pela SIX, cujo caso não foi investigado pela midiática operação.
                A parcialidade investigativa da citada operação deixou Jorge Hardt Filho passar incólume. Por ser pai da juíza que substituiu o hoje senador Sergio Moro em processos de interesse, como o que condenou José Dirceu por suposta propina da Engevix. Mas o caso Petrosix nunca foi tocado.
                 Bolsonaro – isso tudo foi um facilitador para o governo Bolsonaro, que de praxe na sua mente criminosa, desobedeceu aos conselhos da estatal e vendeu a Petrosix, por R$ 200 milhões, para a... F&M. Isso mesmo. E esse valor equivaleu a apenas 1 ano de rendimento para a fábrica. A F&M venceu a BR, de um jeito ou de outro, e Bolsonaro saboreou a doçura do crime.


Mas nem tudo está perdido - e reflexões finais

                Em meio a tantas preocupações e imbróglios internos, o governo Lula poderá passar o controle total da Petrosix em até 15 meses – dos quais já se passaram 5 meses. Enquanto isso, com os relatórios e os conselhos da BR em mãos, o TCU investiga o suspeito negócio por inteiro e no mais completo sigilo.
                O governo sabe disso. Enquanto os canadenses esfregam as mãos otimistas com o desfecho, Lula espera os resultados obtidos da investigação do TCU, que talvez caiam no conhecimento midiático somente em momento oportuno, o que ainda dá fôlego de esperança à estatal e aos poucos brasileiros que acompanham a matéria.
                E enquanto essa parte não fecha, se seguem as reflexões finais sobre a narrativa resumida dessa importante matéria. Em primeiro lugar, ela revela como o perfil deletério de Moro caiu como luva na era Bolsonaro, mesmo tempos após ele deixar a então equipe de governo em 2020.
                A venda da Petrosix foi uma das tacadas finais de Guedes antes de seu desaparecimento, que foi anterior à fuga do próprio ex-chefe e silenciado na grande mídia, que assim se torna cúmplice de todo um processo criminoso que, mais uma vez, coube à mídia independente descobrir e revelar a céu aberto.
                Vemos, assim, um crime em dose dupla: o proposital interesse de Sergio Moro e procuradores envolvidos na Lava Jato em segredar um crime de assalto e espionagem industrial de valor ainda a serem mensurados, e a venda de uma tecnologia orçada em R$ dezenas de milhões.
                Não por acaso, em 2022 Bolsonaro publicou o relatório Poço Transparente propondo o fracking (já abordado no blog) como meio de extração do gás de xisto – o que é tão poluente quanto caro, e seus contaminantes e resíduos têm toxicidade ainda mal abordada na nossa literatura.
                Foi para afastar a ideia do fracking que a BR projetou a Petrosix que, embora nunca tenha saído do papel, prometia menos impactos ambientais e à saúde da biosfera e humana de modo geral. O roubo industrial culminado com a privataria ainda pode ser revertido. Agora é aguardar os próximos capítulos.
                
Para saber mais
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sexta-feira, 14 de abril de 2023

Análise: um velho flagelo com novo perfil

 

           EUA: entre os anos 1990 e 2020, escolas dos EUA têm se tornado frequentes alvos de tiroteios cometidos por atiradores solitários ou em dupla, com várias vítimas fatais e feridas em cada vez. Alguns se notabilizaram, como o massacre de Columbine, com dezenas de mortes, em 1992.
                Há muito tempo o fenômeno tem ocasionado debates acalorados entre especialistas, políticos e a opinião pública estadunidense, o que engrossa com ocasionais tiroteios em massa em templos religiosos durante cultos – o último contra fieis negros, levantando suspeição de autoria de supremacista branco.
                Brasil: no país é conhecida a rotina escolar marcada por agressões verbais e físicas gerando riscos à integridade da comunidade escolar por ser diária. Tiroteios em larga escala ligados a PM e tráfico eram isolados, até em 2011, quando a violência escolar passaria passou a tomar rumo parecido com o dos EUA.
                Por falta de registros anteriores dessa natureza, considera-se a estreia o “massacre do Realengo”, em escola pública no bairro do mesmo nome na zona oeste carioca.
                O protagonista do fato foi Wellington Menezes, de 24 anos e ex-aluno da escola Tasso da Silveira, onde abordou 13 meninas, às quais perguntou se eram virgens. Como 12 delas afirmaram, ele disse que “devem morrer por Deus”, e atirou à queima-roupa matando-as, e se matou atirando na cabeça.
                 Wellington já estava morto quando os PMs chegaram. Investigação da PCERJ descobriu na casa dele anotações nas quais “precisava entregar virgens a Alah” e se suicidar, desejando ser “envolto em pano branco por ser também virgem”. Mas terminou em saco preto e enterrado como indigente.
                 O caso abriu porteiras para o que viria a seguir para engrossar aos poucos uma nefasta estatística: desde então foram 24 ataques, sendo os dois últimos no Norte. De 2022 a 23 foram 7 casos, e no Rio, a cada 10 escolas, sete já foram alvos de pelo menos um ataque de tiroteio.

Autoria

                A autoria é bastante variada. Em áreas tomadas por orcrim’s, pode ser um bandido para mostrar domínio, ou policiais corruptos. Em qualquer local, pode ser um desconhecido. Mas geralmente é aluno ou ex-aluno ou, em menor escala, quem trabalha ou já trabalhou na escola. Em maioria, a autoria tem sido solitária.
                O autor do ataque a machadadas que matou 4 crianças e feriu outras 4 em SC é Luiz Henrique Lima, desconhecido das famílias das vítimas e dos educadores. Mas é conhecido da PM-SC pela conduta pregressa agressiva e perigosa, já tendo esfaqueado o padrasto e um cão, engrossando a ficha corrida.
                O que difere de Wellington, cujos escritos revelaram possível surto psicótico ou delirante, o que depois foi arquivado como fato resolvido, cometido por um insano mental.

Ataque comum ou atentado?

                Essa pergunta nova nos suscita a refletir sobre as motivações ou gatilhos que detonam os ataques finais. As mídias têm chamado os últimos ataques de atentados. Mas vale frisar que todo atentado é um ataque, tentado ou consumado, mas nem todo ataque é atentado.
                Os motivos dos ataques são variados. Surto psicótico do autor drogadito ou não, operações da PM nas comunidades tomadas pelas orcrims, mostra de domínio pelo tráfico ou milícia, ou por lideranças religiosas corruptas a fim de tomar o espaço como templo, policiais corruptos, e até motivos ideológicos.
                O motivo da pergunta acima é o de que as mídias estão usando o termo “atentado”, aplicado aos casos em que houve conotação religiosa e/ou político-religiosa. E, coincidência ou não, nos últimos ataques a escolas, os autores tinham, em seus objetos e redes sociais, alguma relação com o nazismo.

Extrema-direita

                Como sabemos, o nazismo foi o extremo das ideologias de extrema-direita na história sociopolítica geral. E, tomado como crime em grande parte do globo, o nazismo encontrou no Brasil o território fértil para, ao menos, perpetuar e formar uma poderosa herança: o bolsonarismo.
                A evidência dessa relação de Bolsonaro com grupos neonazistas nas redes sociais tem sido notada. O The Intercept Brasil descobriu que os Bolsonaro frequentemente se comunicavam com descendentes de nazistas há 10 anos. No governo de Jair, frases de Joseph Goebbels e colegas eram slogans diários.~
               Vocês devem se perguntar o que tem a ver Bolsonaro, redes neonazistas e ataques nas escolas. Em parte, ela é razoável, pois nem todos têm motivação clara. Mas o atacante de 13 anos portava símbolos do nazismo, e o de Santa Catarina era apoiador de Bolsonaro. E suas convicções eram muito parecidas.
               Segundo várias mídias, o crescimento de núcleos neonazistas foi explosivo entre 2018-2022, acompanhando a entrada de Bolsonaro na corrida eleitoral para a presidência e já no governo, e chegou ao ápice em 2020-21, período coincidente com os maiores índices de popularidade do ex-presidente.
                
Há saída?

                Com o retorno de Lula, foi percebida a queda de novas adesões a esses núcleos, pelo menos desde o final de 2022. A divulgação de sucessivos escândalos de corrupção e outros crimes de Bolsonaro talvez tenha colaborado: foi justamente o “combate à corrupção” que os motivou a apoiá-lo.
                Parece abrir aí uma perspectiva de que o mal possa ser minado pelo investir em educação política. O que pode ser quase impossível: mesmo que os neonazistas sejam presos e os núcleos fechados, o estrago já está feito. E as vítimas mais vulneráveis dele são justamente os jovens.
                Desinformados e sem referência familiar politicamente positiva, eles descarregam sua frustração em amigos, colegas e professores indiferentes ou progressistas. E ainda contam com referências negativas na própria escola: alguns educadores se licenciaram devido à perseguição política de colegas de profissão.
                Mesmo que os núcleos neonazistas sejam fechados e seu pessoal preso, pois mesmo fora do poder e desgastado, Bolsonaro continua influenciando as convicções desse povo. E o problema atinge as escolas: há notícias de perseguição a educadores progressistas, que se licenciam das atividades para se protegerem.
                Governo federal e parlamento pensam em medidas de combate. O ministro Silvio Almeida (DH) defende reconciliar escolas e famílias ferradas no governo anterior, e parlamentares extremistas propõem policiamento ou professores armados, ou seja, a imediata violência como resposta à violência.
                Os políticos se divergem, mas talvez a melhor medida seja a educação política. É difícil e resulta em longo prazo, mas a relação Bolsonaro -nazismo deve ser abordada sem medo, tratando o propósito de espalhar C19, violência e fome entre 2019-22 como análoga à “solução final” de Hitler. Agora, o problema será como aplica-la.

Para saber mais
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Tiroteio_em_escolas 
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quinta-feira, 6 de abril de 2023

ANÁLISE: As muitas ligações entre Brasil e Cuba

 

                Por muito tempo a falácia dos EUA sobre o suposto comunismo ateu intolerante invocou o terror sobre a maioria dos países ocidentais. Esse terror foi o elemento principal da Guerra Fria (1950-90) imposta pelos EUA para impedir uma suposta onda socialista nas Américas que os estadunidenses julgavam sob seu domínio.
                    Mas tanto terror não impediu que a pequena e paradisíaca ilha de Cuba fosse palco da revolução popular de Fidel Castro que em 1959 tirou do poder o sanguinário Fulgêncio Batista. Os EUA tentaram derrubar o castrismo invadindo a ilha em 1962, mas a intervenção soviética os fustigou e até impediu uma guerra nuclear.
                Durante a fase mais proeminente do regime castrista, o estabelecimento oficial de um Estado ateu, com o fechamento de templos e proibição de manifestações religiosas em público. Foi então que os EUA construíram a famosa paranoia da ameaça comunista que fecharia igrejas na América Latina.
                A partir dos anos 1992, a queda do sovietismo ocasionou um alívio entre os temerosos do comunismo, na suposta libertação das populações antes dominadas. Grupos de extrema-direita então se recuaram na confortável onda democrática capitalista, mas não morreram, observando o crescimento de não cristãos e de ateus sem considerar os fatores não políticos.

Cuba
                Nesta paradisíaca ilha caribenha, por influência direta do sovietismo então pleno, o regime castrista impôs o fechamento de templos e as manifestações religiosas públicas, o que consolidou a crença coletiva ocidental na falácia de Estado ateu totalitário, bem como o ideológico embargo econômico imposto pelos EUA sobre Cuba.
                O embargo apenas reforçou o laço entre os cubanos e Fidel, que estabeleceu uma importante política de saúde, saneamento, educação, segurança e ambiente natural. A ideologia do medo no resto das Américas invocou desinformações sobre a ilha. E uma delas foi a de que os cubanos seriam proibidos de acreditar em Deus.
                Mas, ao contrário do que até hoje os grupos de extrema-direita divulgam, há muito em comum entre nós brasileiros, e os cubanos.

Pontos em comum
                Como o Brasil, Cuba é fruto da colonização ibérica latina católica dominante, com forte miscigenação cultural proporcionada pela presença africana, que como aqui, tem parcela significativa da população cubana. Só que, diferente de nós, em Cuba a herança indígena aruak parece ser quase nula.
                Politicamente, os dois países compartilham a herança mesclada de governos democráticos e ditatoriais, em termos republicanos – mas com diferenças. Se em Cuba a revolução castrista de 1959 depôs o ditador Fulgencio Batista (1952-59), aqui uma ditadura militar golpeou um governo social-democrático.
                Cuba religiosa-  devido à colonização ibérica, que dizimou os nativos aruaks e trouxe importantes levas africanas ocidentais escravizadas, se formou uma herança cultural católica popular, em sincretismo semelhante ao nosso, como Santeria, espiritismo, palo e outros – um sincretismo análogo ao brasileiro.
                Atualmente, em torno de 60% dos cubanos se declaram católicos de fato, enquanto outros são sincréticos populares, ou seja, se manifestam em outras fés, sobretudo africanas. Para completar essa multirreligiosidade, surgem igrejas evangélicas de diferentes denominações, em crescimento gradual de sua população.

Reflexões
                Mesmo não sendo socialista como o castrismo cubano, o retorno de Lula ao poder pode ser visto como quase revolucionário, após o autoritário e desastroso governo Bolsonaro – que também tentou censurar, ilegalmente, numerosas informações ferindo o princípio constitucional da publicidade, e ainda anistiou as ricas denominações evangélicas sob a desculpa de entidades filantrópicas.
                Já na religiosidade, em Cuba se vislumbra um rolo compressor evangélico em ascensão, embora bem mais discreto, e por uma razão bastante forte. Diferentemente daqui, lá o Estado tem mão de ferro para controlá-lo, impedindo segmentos religiosos mais ricos de terem vida política – o que ainda sustenta aquela antiga falácia do Estado ateu proibitivo.
                Com templos fechados, os cubanos manifestavam sua fé privadamente, sem impedimento do governo. O que apenas revelou tal fechamento como uma ordem expressa com objetivo de impedir infiltração de opositores políticos em meio ao coletivo - algo que seria bem difícil nas velhas habitações. E, apesar do autoritarismo nesse ponto, o castrismo revelou uma singular qualidade.
                O suposto ateísmo castrista foi, na prática, plenamente laico. Ao contrário da brasileira, a laicidade cubana é totalmente impermeável aos desejos de possíveis representantes bíblicos. Uma verdadeira lição a ser aprendida pelo Brasil, cuja laicidade porosa quase foi destruída pelos interesses dos políticos pastores.
                Uma lição que se mostra muito válida para nós, que erradamente evitamos melindrar os líderes evangélicos. E que, ao contrário de impedir, reforçaria ainda mais as já profundas ligações entre Brasil e Cuba.

Para saber mais
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segunda-feira, 20 de março de 2023

ANÁLISE: MST e MTST, invasões necessárias

 

                A grande mídia foi nostálgica ao noticiar as “invasões” do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), principalmente em terras do sul baiano, atualmente de suposta propriedade da Suzano, empresa brasileira de papel, celulose e eucaliptocultura fundada em 1924.
                Ao mexer com a opinião pública, que desconhece os objetivos do MST e da versão urbana MTST, vem a tese falaciosa de que são movimentos “invasores criminosos de propriedades privadas”.
                Há outros movimentos menores e quase desconhecidos: os rurais MLST (L de libertário), MRC (RC de resistência camponesa) e outros, que têm atenção midiática muito rara. Protagonista de uma barbárie em Brasília, o primeiro piorou a imagem do MST devido à confusão pública.
                Para justificar a sua liberdade de expressão, a patuleia bolsonarista comumente cita o art. 5º da CF 1988, que versa sobre as garantias e direitos fundamentais. Mas desconhece as dimensões e limites dessas liberdades, estendendo-se ao direito à propriedade privada.

                Constituição- alcunhada “constituição cidadã”, a CF/1988 marca o retorno da democracia e estabelece direitos e garantias civis e coletivas, vários deles pétreos como os direitos a trabalho seguro, lazer, previdência, alimentação, vestuário, habitação, etc. E também alguns pétreos deveres.
                O art 5º prevê direito à propriedade privada urbana e rural, mas com função social, pois a lei apregoa o bem coletivo. O art 182 trata de imóvel urbano e o 186, do rural. O art. 184 diz sobre desapropriação de imóveis em situação irregular e inspirou o Estatuto da Terra¹.
                
                Ocupações- mesmo que a grande mídia seja incisiva ao tratar como invasões, as ocupações seguem temas de exaustivos debates, com discordâncias contínuas. Até que ponto uma ocupação pode ser encarada como invasão sem o risco de acusar injustamente os movimentos em tela?
                Nas cidades há milhares de imóveis abandonados, muitos deles prédios de vários andares e, em menor quantidade, casas e casarões seculares. Alguns dos prédios eram incialmente públicos, mas por vários motivos não continuaram a ser usados ou simplesmente nunca foram totalmente acabados.
                Alguns viraram moradas improvisadas para a galera sem-teto, que explodiu nos últimos 4 anos tendo como perversas companhias a fome, sede, exposição à violência, ação climática e doenças. Um flagelo social a revelar outra crise histórica: a habitacional.
                Mas a miséria não é a única causa da crise: via especulação imobiliária, classes mais abastadas adentram áreas florestais e de comunidades populares promovendo crescentes remoções com ajuda da PM, e políticas habitacionais compensatórias não contemplam todas as famílias atingidas.
                Com forte impacto na nossa economia, o agronegócio é visto positivamente pela grande mídia. Quem não sabe do “agro é tech, agro é pop, agro é tudo”, publicidade criticada pela esquerda?
                Antes de se julgar a esquerda como ignorante sobre o valor econômico do grande agro, vale considerar que ela aponta irregularidades, como não respeitar os limites impostos pelo código florestal, invadir terras públicas protegidas além dos limites do terreno e recusar o uso social – como nas cidades.

                Invasão ou ocupação?- os artigos daCF referentes à função dos imóveis urbanos e rurais subsidiam nossa compreensão sobre a conduta dos movimentos sociais e dos empreendimentos – bem como a dos meios midiáticos sobre o tema, principalmente a troca da verdade por eufemismos.
                Ocasionalmente se reporta sobre monoculturas irregulares em terras indígenas (TI) centrando-se em conflitos agrários; e sobre imóveis de luxo em áreas urbanas proibidas. Mesmo reconhecidos como afrontas, os casos não são tidos como invasões, ao contrário do que ocorre sobre MST e MTST.
                No âmbito jurídico existem processos cujos veredictos condenam o MST, e já foram publicados em portais midiáticos e em portais de tribunais. A dúvida sobre a veracidade se deve aos interesses que favorecem, nesses casos, os donos das terras, mesmo com estes em dívida com o fisco e com a lei.
                Já na seara urbana, as condenações de investidores imobiliários pelas irregularidades provadas se relacionam quase totalmente a áreas de proteção ambiental (APAs). Ainda assim, nem sempre os réus cumprem as penalidades impostas em veredictos, dada a certeza de recursos reversivos e impunidade.
                É válido ressaltar que, seja na cidade ou no campo, o imóvel vazio ou improdutivo e sem resolução a ser definida pelos proprietários devem, sim, ser entregues para uso social pelos sem-teto e sem-terra. A luta pela justiça social deve ser constante e resistente, “hasta la vitória!”.

Nota da autoria
¹ Trata do uso social e ecologicamente correto da terra.

Para saber mais
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ANÁLISE: Eleição 2026-dos ilícitos à vitória democrática

                Antes de apresentar o artigo a seguir, peço sinceras desculpas pela demora em publicar novos artigos. É que, pelo momento es...