sexta-feira, 15 de novembro de 2024

ANÁLISE - Eleições EUA 2024 (e o final - reflexões)

 

Kamala x Trump: a ditadura do capital

            Após a confusão da eleição eleitoral na Venezuela que gerou um racha diplomático entre Brasil e o “reeleito” Nicolás Maduro, o mundo se atentou aos Estados Unidos neste dia 3/11. Não era para menos: trata-se de uma eleição presidencial histórica.
            Após a confusão da eleição eleitoral venezuelana que gerou um racha diplomático entre Brasil e o “reeleito” Nicolás Maduro, o mundo se atentou aos Estados Unidos neste dia 3/11. Não era para menos: trata-se de uma eleição presidencial histórica.
            Voto facultativo, sistema confuso – o voto popular nos EUA é facultativo, mas o povo de  lá preza as eleições presidenciais, talvez mais do que para o Capitólio, o Congresso de lá, a despeito do poder parlamentar ser quase como aqui e ser votado junto.
            Em alguns Estados o voto é de papel; em outros, eletrônico; e em outros, por carta enviada via Correios. As motor homes (casas automotivas) com urnas foram disponibilizadas para atender à maior demanda popular deste ano.
            Só tem um problema: o voto popular tem menor peso decisivo do que o dos chamados delegados para definir o eleito. E entra aí a força da Suprema Corte (o STF de lá). Isso já basta para desmontar o mito da “maior democracia do mundo”.
            Diferente do Brasil, os EUA têm um sistema eleitoral meio louco para nós. Em alguns Estados o voto é presencial de papel; em outros é por carta; em outros, eletrônico. Portanto, cartórios, Correios e motor homes recebem os votos.
            Essa diversidade de locais de votação e de votos é, na prática, uma “loucura” organizada. Há maior perda de tempo de contagem a sujeita o sistema a recontagens com possível interferência institucional – o que margeia um abismo fraudulento.
            Os candidatos: perigos subjacentes – os jornalões e seus satélites mencionam 2 partidos políticos nos EUA: Democrata e Republicano. Na prática, ambos embutem cerca de 100 siglas, número superior ao total de partidos no Brasil.
            Se o republicano Trump segue a cartilha nazifascista com negacionismo, racismo, misoginia e xenofobia, Kamala se aproxima da colega Alexandria Ocasio-Cortez na defesa dos ideais femininos, socioambientais e outros e criticar os preconceitos do adversário – em teoria.
            Na prática, a cor de pele e a origem diferente não tornaram Kamala progressista. Em momento vimos críticas à violência policial contra afro-estadunidenses e a manifestantes pró-Palestina, nem mesmo o surreal manifesto neonazi em bairro judeu.
            Relação Brasil-EUA- a parceria entre os dois países é complexa e, invariavelmente, marcada pela dominação dos EUA. A geologia rica em minérios e hidrocarbonetos e a economia de mercado tornam o Brasil um quintal especial para os ianques.
            Implicações – as implicações aqui devem ser consideradas nos dois contextos políticos, interno e externo.
            Política interna- democratas e republicanos só diferem um pouco em direitos humanos. Kamala se limitou a criticar o aprove da proibição total ao aborto, sem criticar a violência policial contra afro-estadunidenses e manifestantes pró-Palestina.
            Embora criticada por ser 100% privada e seletiva, a saúde aparentemente não foi devidamente coberta pelas mídias. A economia interna foi bem coberta, por causa da alta recente da inflação e do crescente domínio da avançada indústria chinesa.
            O tema Saúde aparentemente não teve para ambos a mesma relevância que política externa ou economia. Ou as mídias não deram cobertura mais ampla, o que pode ter sido um erro: o sistema 100% privado – e seletivo – é muito criticado.
            Imigrantes latinos não têm direito à assistência. O país enfrenta multidões miseráveis nas ruas e a explosão do vício em fentanil e derivados, superando a da heroína. As autoridades não sabem o que fazer com os zumbis nas ruas.
            A epidemia de violência policial também deveria preocupar. Por força do trumpismo, policiais brancos não precisam fazer operações como as feitas aqui no Brasil: lá os não brancos são gratuitamente abordados nas avenidas das grandes cidades.
            Política externa- os EUA não têm palavra: criaram a OTAN e a guerra fria com os socialistas, prometendo findar tudo em caso de paz (leia-se fim da URSS). URSS e Pacto de Varsóvia morreram e OTAN e guerra fria continuam fortes como antes.
            Com parte dos BRICs, América Latina e África e outros países emergentes do Sul Global, a relação dos EUA de Kamala ou Trump continuará dominante, no velho protocolo pseudodiplomático. Para ambos, são quintais de culturas exóticas e linda biosfera.
            O discurso de narcisismo ianque de Trump e o identitarismo de Kamala não amenizarão o clima belicoso das relações com Oriente Médio, Rússia e as pseudocomunistas China e Coreia do Norte. A guerra fria seguirá terceirizando mão-de-obra bélica.
            E falando em guerras, a política externa de Biden passa aos contrários a falsa impressão de que os republicanos são mais pacíficos. Só que não: os governos George Bush pai e filho arrasam Afeganistão e Iraque, respectivamente, deixando-os em ruínas.
            O fator dessa falsa impressão é o discurso de exaltação ao egocentrismo estadunidense. A promessa de não mais ajudar a Ucrânia não significa o fim da guerra russo-ucraniana, assim como o genocídio palestino e as guerras civis na África ocidental.
            Meio ambiente – talvez esse tema seja o de mais franca oposição entre ambos. Trump é o conhecido negacionista do antropismo climático (mudança climática induzida pela atividade humana). Já Kamala compartilha a preocupação científica.
            Em seu governo, Trump retirou dos EUA a assinatura histórica no Tratado do Clima de Paris de 2015, o qual tratou da exacerbação do aquecimento global pelas emissões humanas de gases estufa. Já Kamala pretende manter a assinatura recolocada por Biden.
            Mais do que a identidade de gênero e cor, meio ambiente foi o que motivou a declaração de apoio de Lula à democrata. Mas o problema é mais do que político. Ele alcança os interesses de mercado, cuja relação predatória com os recursos do planeta ainda domina.
            Política brasileira- cabe o destaque do Brasil aqui. Possivelmente Kamala pretende seguir Biden nas relações políticas com o Brasil de Lula, após críticas daquele às tentativas de golpismo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
            Pode haver algum entrevero diplomático em assuntos bem específicos, como a rivalidade monetária entre dólar e BRICs pelo temor de perder a hegemonia, e tentativas de espionagem estadunidense ou israelense, a exemplo do incidente ocorrido entre Dilma e Obama.
            Por outro lado, em caso de vitória de Trump, é mais possível a continuidade de convivência relativamente pacífica do que a tão esperada relação belicosa alimentada pela claque liderada pelos Bolsonaro. Até porque Trump nada poderá fazer contra o judiciário brasileiro.
            Ou seja, os EUA politicamente seguirão como dantes no quartel de Abranches, conosco aqui e com o restante do mundo. É a ditadura do capital.

Nota da autoria
¹ causa socioambiental, direitos reprodutivos femininos e direitos de minorias marginalizadas.

Sal Ross
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Deu Trump: e agora, José?

            O mundo todo estava de olhos voltados aos EUA, dado o clima eleitoral para a presidência e para a nova legislatura. Não foi por menos: são vários os problemas globais em cujos cernes estão os EUA, que gostam de dar a última palavra em tudo.
            Mas, por incrível que pareça, o processo final não foi nada acirrado. Diferente dos pleitos anteriores, o resultado foi um tanto rápido num sistema diversificado e com contagens manuais, mecânicas ou eletrônicas. Deu Trump.
            Embora oficialmente derrotada, Kamala Harris já escreveu um capítulo considerável de sua história. Não só na sua identidade feminina. É por ser a primeira mulher negra a chegar quase lá, enfrentando a cultura viril da Casa Branca.
            Um choque global – após a (falsa) esperança de que os EUA fossem quebrar o tabu de gênero na presidência, o anúncio da vitória de Trump soou como uma verdadeira onda de choque, com diferentes reações pelo mundo. E não é à toa.
            Há muitas razões. Não só pela natureza de seus crimes, com tentativa de golpe de Estado e tudo. Nem pelo peculiar topete laranja esbranquiçado. É um condenado tornado presidente, com todo o vigor reacionário e anticientífico.
            E agora, José?
            Nazifascismo conspiratório- Donald Trump não é pioneiro na extrema-direita. No contexto das Américas, MacCarthy foi o pioneiro. Foi dele a criação do pânico moral anticomunista que mais tarde inspirou as ditaduras militares na América do Sul.
            Esse pânico anticomunista ressuscitou na ideologia de Trump quando de sua estreia política tardia, mas triunfante como presidente, em 2016. Sua vitória favoreceu a eleição de Bolsonaro por aqui, engrossando a política anticientífica e falaciosa.
            A 1ª era Trump ficou na memória do mundo. Ele retirou a assinatura dos EUA do Acordo do Clima de Paris, negando o efeito humano no padrão climático, e também negou a crise social interna de pobreza e drogas. Tudo isso Bolsonaro replicou aqui.
            Sem falar da pandemia de C19 – o ápice do negacionismo científico de ambos, com incentivo a grupos antivacina devido a falácias sobre as vacinas. Resultado: EUA e Brasil foram os campeões letais da C19, com mais de 1 milhão e de 700 mil, respectivamente.
            Como Biden reassinou o Acordo de Paris, Trump prometeu retirá-la novamente. E o pior é que ele costuma cumprir suas piores promessas. Já nomeou, para seus Departamentos (ministérios), cristofascistas que são seus reflexos no espelho ideológico.
            Oportunidade aos dominados – a vitória eleitoral de Trump pode ser assustadora em suas consequências imprevisíveis. Por outro lado, ela oportuniza os governantes de países espoliados por sua ambição, em especial os constituintes dos BRICS.
            Em horas como essa, governantes progressistas democráticos podem apontar recusas como a de Trump como uma admissão obrigatória de culpa pelas consequências globais de seus atos. E antes mesmo de Trump, podemos apontar Biden.
            Biden encerrará o seu mandato marcado sob grossa camada de impopularidade entre os estadunidenses. E não só devido à economia interna. Também pesa em seus ombros a espada do genocídio palestino ao patrocinar Israel com tecnologia bélica.
            Trump foi eleito graças ao discurso de apelo ao narcisismo coletivo ianque que promete solução quase mágica para a economia interna. Mas ele também disse que “tarifa é a palavra mais bonita do dicionário”, em promessa de fechar a macroeconomia externa.
            O que pode não ser nada positivo. Os governantes dos países parceiros – como o Brasil de Lula – farão sua cobrança em eventual pagamento adicional de tarifas. Pois a macroeconomia também se reflete na economia interna.
            Ainda que a extração de recursos fósseis seja compartilhada entre os parceiros, ao menos Trump pode ser cobrado pelos governantes no que tange à ambição pelo urânio do Irã, cujo território foi alvejado por Israel com tecnologia bélica estadunidense.
            Eleições no Brasil e alhures- em tempo vale alertar sobre os reflexos ideológicos nas eleições presidenciais na América do Sul. O movimento dos políticos bolsonaristas no Brasil, com episódios recorrentes de terror, já acendem o alerta laranja.
            Vale alertar que as lideranças brasileiras à esquerda devem se reaproximar de suas bases com novas gerações de líderes populares para manter a frente. O isolamento político de Trump é essencial para manter a ordem democrática e, se possível, até planetária.

Para saber mais - referências válidas para os dois textos
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quarta-feira, 13 de novembro de 2024

CURTAS 83 - ANÁLISES (julgamento caso Marielle/Anderson)

 
Parte 1: homens, bolsonarismo e penas


    
        Ocorrida em março/2018, a execução da vereadora Marielle Franco (PSol-RJ) e do motorista Anderson Gomes poderia ter passado batida. Houve, porém, resposta de movimentos sociais à paralisia judicial experimentada em toda a era bolsonarista.
           Devido à longa paralisia, a Justiça só respondeu ao apelo popular na era Lula 3. O ex-MJ Flávio Dino federalizou o caso para retomar investigações. Os Bolsonaro se enervaram, o que desenterrou entre os antibolsonaristas a suspeita de eles estarem por trás do crime.
           Mas as informações divulgadas das delações premiadas dos envolvidos presos não envolvem os Bolsonaro, e sim os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, respectivamente conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do RJ, e deputado federal.
            Segundo as delações premiadas, eles estão entre os denunciados por Marielle por autorizar loteamentos ilegais em áreas de preservação no entorno de favelas da zona oeste dominadas por eles e pela milícia a eles relacionada.
            Mas isso não acalma a famiglia Bolsonaro: eles têm forte ligação com os envolvidos, tanto com os assassinos, da milícia Escritório do Crime, especializada em matadores de aluguel, quanto com os Brazão.
            O julgamento – enfim, após muitas reivindicações de movimentos sociais, partidos políticos e familiares de Marielle, o julgamento se iniciou em 30/10 contando com a presença, em primeiro plano, das famílias da vereadora e do motorista.
            Nesse dia, a mídia mostrou um Chiquinho Brazão abatido na prisão e declarando preferir “ter morrido no lugar de Marielle”. Em aparente frieza na videoconferência, Ronnie pediu perdão aos familiares, sem impedir a sentença determinada no dia seguinte.
            Condenações- ao ler a sentença em tom delicado, porém firme, a juíza Lúcia Glioche disse que “a sentença não serve para tranquilizar as vítimas que são os familiares. [...]. A pessoa que é assassinada deixa um vácuo que palavra nenhuma descreve”.
            Apesar da participação dos Brazão, até o momento os dois condenados foram os assassinos. Ronnie Lessa pegou 78 anos, 9 meses e 30 dias, e Élcio de Queiroz, a 59 anos, 8 meses e 10 dias de reclusão, por duplo homicídio qualificado.
            Além das prisões em regime fechado, Lessa e Queiroz ainda terão que indenizar os familiares das vítimas em cerca de R$ 706 mil. Em suma, essa é uma das penalidades mais duras aplicadas a homicidas qualificados.
            Mas o contentamento geral ainda não foi plenamente alcançado. Falta ainda julgar os irmãos Brazão, considerados, até prova em contrário, os mandantes do crime.
            Mudem os jurados – no segundo e último dia, o julgamento teve júri popular. Normalmente, o grupo tem 7 pessoas e a sua função é contribuir com observações pessoais sobre a gravidade e o contexto do crime e suas consequências sociais e às famílias das vítimas.
            Nessas observações, eles dão um tom menos frio, mas com razoabilidade.
            Os componentes são escolhidos por sorteio. Legalmente, o tribunal pode substituir até 3 pessoas, a pedido da acusação ou da defesa dos réus. Mais comum do que se imagina, o processo aconteceu nesse julgamento.
            Aí aconteceu a singularidade: a defesa dos réus exigiu a substituição das duas mulheres por homens. Formou-se um júri masculino de meia idade e pele clara. Quatro desses homens se revelaram alinhados com valores bolsonaristas.
            E veio uma inquirição aterradora. A acusação e a assistência de acusação inquiriram aos familiares com essa pergunta: “Qual a falta que Marielle faz para a família dela?”. Me perguntei se os inquiridores são assim tão insensíveis às suas próprias famílias.
            Os familiares e a Mônica tiveram que explicar, como que para provar, o quão essencial foi Marielle em suas vidas. Coube à viúva reunir as duas Marielles – a pessoa e a política – em uma só, já que a defesa dos réus a dividiu para justificar o crime.
            Pois é. Os familiares tiveram que explicar, de forma cabal, por que a vida de Marielle tinha tanto valor e por que o tamanho da falta. A defesa dos réus conseguiu a façanha de medir o valor da vítima.
            Furtivamente, esse foi o intento da defesa: repassar o julgamento dos réus sobre a vítima. A substituição das mulheres pelos homens reforçaria o ideário bolsonarista, cujos os defensores são majoritariamente homens.
            Mas, segundo Fábio Vieira, promotor do MP-RJ, por mais que a intenção seja incutir um tom emocional ao tema em julgamento que pudesse se contrapor à tese favorável à vítima, a tendência do júri popular é a de atuar levado pela força dos fatos, e não pela identidade dos envolvidos.
            Fria análise final – o peso da condenação foi coerente com a gravidade do crime.  Atendendo à cobrança da parcela mais consciente da sociedade, a justiça não teve outra escolha a não ser a penalização.
            O peso contextual do duplo homicídio qualificado pesou muito mais do que a defesa de valores bolsonaristas entre o masculinizado júri popular, tornando-se uma unanimidade entre eles. O que concorda com a afirmação do promotor do MP-RJ.
            O peso contextual do duplo homicídio qualificado cometido pelos réus foi decisivo para a unanimidade do júri popular, mesmo masculino e branco, em favor da sentença aplicada, o que concorda com a afirmação do promotor Vieira.
            Contudo, a efetivação da justiça sobre o caso ainda não se fechou. Agora cabe ao STF julgar os irmãos Brazão. Dados os seus cargos (um deputado e um conselheiro judiciário), ambos têm foro privilegiado.
            Agora, a patuleia solidária às famílias das vítimas agora olha para o STF. A presença de Carmem Lúcia e o legalismo de nomes como Alexandre de Moraes e Flávio Dino podem garantir, ou não, punições igualmente pesadas aos mandantes do crime.
            Em nenhuma hipótese os privilégios podem justificar a suavidade penal. A punição deve ser coerente com o peso de mando da barbárie, e também um recado aos bolsonaristas financiadores da intentona de 8/1 e preparativos prévios. O elitismo penal tem que ser combatido!

Para saber mais
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Bônus
Executores condenados. E os mandantes?


            Consternados pelo assassinato bárbaro executado por Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz (indiretamente) sobre Marielle e Anderson, os movimentos pelo Brasil ecoaram a primeira pergunta: “quem matou Marielle e Anderson?”.
            Tão logo as primeiras investigações à época confirmaram a suspeita de que os criminosos eram ex-PMs envolvidos na milícia Escritório do Crime, a segunda pergunta substituiu a primeira: “quem mandou matar Marielle e Anderson?”.
            Em meio a essa pergunta em coro, Lula foi preso, algumas cabeças rolaram por oferecerem abrir a boca sobre o crime e Bolsonaro foi eleito presidente. Em 2019 Ronnie Lessa foi preso, as investigações paralisadas, e muitas trocas de delegados da PF. O resto já se sabe.
            O julgamento do crime que ceifou duas vidas – da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes – marcou forte na imprensa. Como revelado no artigo anterior, as fontes independentes foram mais longe nos detalhes do processo.
            As famílias de ambas as vítimas estiveram unidas o tempo todo, indo da dor torturante de 6 anos para o alívio parcial da condenação de Élcio de Queiroz, o condutor do carro, e Ronnie Lessa, o carona que mandou a morte pelas balas do fuzil.
            Sim, só parcial.  Pois, apenas os executores do crime foram condenados. Falta ainda condenar quem o encomendou.
            Os mandantes – a descoberta dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão como mandantes do duplo homicídio foi fruto de uma investigação da PF que levantou uma intrincada teia de relações envolvendo a milícia Escritório do Crime e políticos.
            A milícia de matadores de aluguel Escritório do Crime foi chefiada por um parça de políticos como os Bolsonaro e Brazão: Adriano da Nóbrega. Ela guardava a especulação imobiliária ilícita em áreas dominadas da zona oeste – denunciada por Marielle.
            Ainda em 2019, a investigação apontou a teia de relações envolvendo Flávio e Jair Bolsonaro. As lacunas de então só foram preenchidas na retomada em 2023. A primeira delas foi o ex-delegado Rivaldo Barbosa, que foi preso pela PF.
            A PF descobriu que Rivaldo arquitetou o delito. Mas ainda faltavam outras lacunas, em que o arquiteto tinha alguém acima na teia. As delações premiadas de Élcio e Ronnie preencheram as lacunas faltantes: eram os irmãos Brazão.
            Votada no Congresso, a prisão de Chiquinho rebuliçou Eduardo Bolsonaro e seus aliados, que votaram contra. Mas foram vencidos pela força do mando judicial partido da PGR, avalizado pelo STF e feito pela PF.
            O especial incômodo a Eduardo Bolsonaro faz sentido: a execução de Adriano da Nóbrega na Bahia “coincidiu” com sua própria passagem em Salvador. Um reforço à suspeita popular na pergunta “quem mandou Brazão mandar matar Marielle?”.
            Passos para o final feliz – o primeiro passo foi dado no julgamento de Élcio e Ronnie, que terminaram condenados a reclusões longas e multa pesada. Pela sua idade, Ronnie desfrutará de liberdade por progressão muito tarde em sua vida.
            As penalidades não só indicam que a justiça foi feita pela atualização do código penal. Mas cabe dizer que Élcio e Ronnie foram os bois de piranha, assim como os terroristas golpistas do 8/1 que terminaram condenados de 14 a 17 anos de reclusão.
            Enquanto os irmãos Brazão serão julgados pelo STF, Rivaldo – chefe da PCERJ em 2018 – será julgado pela Justiça comum. Sua condenação poderá ser acrescida pela falsidade ideológica (falsa promessa de ajuda às famílias das vítimas).
            Como finalizado antes, aqui assim termina: se os executores foram condenados à altura de seus crimes, se espera o mesmo para os mandantes e o arquiteto do delito. É a espera do final feliz para as famílias vitimadas, para a justiça e o sofrido povo.
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domingo, 3 de novembro de 2024

ANÁLISE: SUS x Capital, o novo round

 

            A primeira era petista deixou marcas profundas, com a melhoria de várias políticas públicas, como menor desigualdade social, arrefecimento da fome, empregabilidade recorde e reforço do Estado via concursos públicos RJU (cargos efetivos).
            A fragilidade do Estado pela privataria na era FHC motivou o petismo a abrir concursos públicos de cargos efetivos RJU, o que se tornou outra de suas marcas, junto ao PAC e às políticas sociais.
            
Serviços essenciais- saúde, educação, segurança, energia, saneamento e meio ambiente foram os serviços essenciais contemplados para reposição de pessoal, devido às muitas aposentadorias e algumas exonerações voluntárias ou não.
            Se em alguns desses serviços (e outros) houve mais concursos RJU, saúde e educação sofreriam um revés silencioso, mas sentido pelos servidores efetivos ativos com o passar dos anos. A saúde federal nunca mais veria um grande concurso RJU desde 2005, graças à lei dos contratos temporários da União (CTUs).
            A contratação via CTU e terceirizações são as mesmas através das organizações sociais (OSs) e das organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIPs), há anos tornadas as regras de recrutamento de profissionais na saúde nos Estados e municípios.
            Mas as novas levas de CTUs não resolveram a defasagem da saúde federal a contento: elas eram inferiores ao necessário. O ápice foi na era Bolsonaro-Guedes, que precarizou ainda mais os serviços e manteve os salários congelados até o fim de 2022.
            E pensar que em 2020 um decreto de privatização das UBS municipais foi assinado, sendo revogado por fúria de usuários e servidores. Daí não ter ido além no vespeiro nem mesmo na saúde federal. Até os servidores se esperançarem nas eleições de 2022.

Lula 3, a fúria – o pesadelo do desmonte do patrimônio público por Bolsonaro-Guedes foi finalmente substituído pelo voto de sobrevivência dos servidores da carreira PST, que ajudaram o Nordeste a eleger Lula em 2022.
            Mas a esperança de novos grandes concursos RJU e de valorização substancial na saúde pública – em especial na federal – se desmoronou aos poucos, a cada nova rodada de recrutamento de profissionais CTUs e negociações muito difíceis.
            A valorização da carreira de Previdência, Saúde e Trabalho (PST) por meio de adicional de qualificação (AQ) – pois muitos servidores de cargos de nível médio têm curso superior – não veio. Os reajustes foram inferiores aos concedidos a outros tipos de carreira. E o problema não parou aí.
            -Trocas- em meio às negociações sobre a reposição salarial após congelamento de 7 anos, a cobertura do Fantástico alardeou geral e, em seguida, o ministério da saúde (MS) determinou a “reestruturação da gestão dos hospitais federais (HFs)” para resolver a crise noticiada, que existe há décadas.
            Nomeada para afastar o olho grande de Arthur Lira, a ministra Nísia Trindade fez substituições substituições na cúpula do Depto de Gestão Hospitalar (DGH) do Núcleo de Saúde-RJ (Nerj), centralizando ali setores como o de RH e o de aquisição de suprimentos.
            -Perfil dominante no DGH- sabemos que a substituição de nomes não gera resultados em curto prazo, especialmente em se tratando de um conjunto de hospitais de atendimento em alta complexidade e de referência a nível nacional.
            Mas nas substituições ocorrentes no DGH sobreveio entre os servidores a dúvida a respeito do olhar dos novos gestores em relação à amplitude do SUS, fruto de décadas de luta daqueles que se comprometeram com a saúde ampla, gratuita e de qualidade. Daí viria uma surpresa.
            -Entregas- o MS anunciou a concessão dos HFs a outras formas de gestão, como parceria público-privada, municipalização e outras instituições, como o Instituto Fernandes Figueira da Fiocruz e a Fiotec (ambos da Fiocruz), deixando os servidores surpresos.
            Representações dos aturdidos servidores se sentaram com a ministra da saúde para tratar do assunto. Ela declarou que o MS está “sem competência” para gerir sozinho “máquina tão grande e de alta complexidade” dos hospitais federais do RJ.
            Já corrente por valorização da carreira PST e reposição de perdas salariais de 7 anos, a greve de parte da saúde federal via Sindsprev-RJ se fortaleceu, contrária à conduta entreguista da ministra, que nunca visitou as unidades no RJ, nem mesmo os institutos.
            Nesse tempo eleitoral, o MS anunciou a municipalização do HF do Andaraí tendo-se em pauta o mesmo com o outros dois HFs, como o Cardoso Fontes. Antes de ser reeleito, Eduardo Paes pareceu evitar o assunto, mas não negou o presente.
            Enquanto isso, outro susto: o HFSE (Servidores do Estado) foi fundido ao Gaffrée-Guinle da Unirio sob gestão da Ebserh. E o último foi a entrega do HF de Bonsucesso aos gaúchos do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), empresa pública de duvidosa ética.
            A essa altura engrossado com mais aliados, o grupo grevista acampado em Bonsucesso cresceu em resistência até ser contido com truculência pelo choque da PMERJ, que terminou detendo as lideranças mais resistentes. Elas foram depois liberadas.

A continuidade da resistência – nesse round vencido na brutalidade pela PMERJ e pela intenção privatista do governo federal, os protestantes foram civilizados até o fim, mesmo puxados por um sindicato judicialmente desqualificado para representar a saúde.
            Enquanto os monstros públicos de direito privado invadem os redutos antes exclusivos do MS, com promessa vinda de Brasília de que “a reestruturação dos hospitais federais do RJ fortalecerá o SUS”, os servidores seguem em protesto.
            Só que, após a força bruta do choque da PMERJ, esse protesto segue em comentários críticos nas redes sociais do governo federal. Mesmo sendo tais redes vulneráveis à espionagem cibernética, que deveriam ser melhor aplicadas contra os chefões das orcrims.
            No crescente grupo dos servidores mobilizados, não são poucos aqueles que discordam das redes sociais como meio eficaz de protesto. Mas todos os partícipes se convergem em, pelo menos, reconhecer a vantagem de resposta instantânea aos anúncios de Brasília.
            Além disso, dado que a mídia pode favorecer maior truculência da polícia em caso de protesto de rua, os servidores entendem que, com a proximidade do G20 no Rio de Janeiro e a determinação de GLO pelo governo federal, toda cautela nessa hora é necessária.
            
Para saber mais
- https://www.bbc.com/portuguese/brasil-54727328. (como foi o decreto 10.530/2020, logo revogado após repercussão negativa)












CURTAS 116 - ANÁLISES (os traidores da pátria; reforço a Flávio)

  A CARTA DA ALTA TRAIÇÃO                      Já dentro do prazo de 90 dias da eleição, o Brasil entrou no defeso eleitoral , um conjunto d...