domingo, 20 de abril de 2025

CURTAS 86 - ANÁLISES (a saga de Glauber Braga)

 

GLAUBER 1 – O GIGANTE

        O deputado federal Glauber Braga (Psol-RJ) não é novidade absoluta no blog. Já escrevi algo sobre ele, embora o tenha posto como um personagem secundário no hoje multicolorido campo das esquerdas. O que, admito, pode ter sido um erro. Ou não?
                Pensando bem, talvez a secundarização de Glauber tenha me proporcionado a chance de repensar melhor sobre a verdadeira importância de Glauber Braga no panorama político nacional no contexto democrático. O culpado é a cadeia de fatos da presente história.
                Advogado, natal de Nova Friburgo (RJ), Glauber entrou jovem na política, seguindo sua mãe, a finada Saudade Medeiros, ex-prefeita de Teresópolis. Filiou-se ao partido dela, PSB, cujo diretório do RJ ele presidiu. Eleito deputado federal em 2014, se filiou ao Psol em meados de 2015.
                Em 2016 ele se revelou. Na votação do golpe parlamentar travestido de legalidade, Glauber disse que o então presidente da Câmara Eduardo Cunha de “gangster” e “o que (sustenta a) sua cadeira cheira a enxofre”. “Por aqueles que nunca escolheram o lado fácil da história [...] eu voto não!”.
                Os nomes citados foram Carlos Marighella, Plinio de Arruda Sampaio, Luís Carlos Prestes, Olga Benário e Zumbi dos Palmares. Com exceção deste último, do séc. XVII, os demais são hoje pautados na História como os principais inimigos dos governos autoritários da República.
                Em 2019, já com Sâmia (Psol) como companheira, ele proferiu sem titubear: “ministro, o senhor é um juiz ladrão”. Foi durante audiência da Câmara com o então ministro da Justiça Sérgio Moro, ainda estrela dos jornalões por ter condenado Lula à prisão ilegal no caso tríplex do Guarujá, pela Lava Jato.
                Sua combatividade cresceu com as ameaças de Lira, as provocações públicas de militantes do MBL e o assédio de Eduardo Bolsonaro. Em 2022 chamou Lira de “ditador” ao ter o microfone cortado durante a sua fala. A Eduardo disse, em 2023, “seu pai deve responder sobre as joias sauditas”. Dudu saiu pisando duro.
                Em 2024, ele viralizou um vídeo após aprove quase unânime de resolução de Arthur Lira de suspender mandatos por 6 meses por indecoro, batizando-o de “AI-5 do Lira” apontando “voto de ingenuidade”, pois “irá, na prática, focar nos parlamentares da esquerda e não nos arruaceiros” (bolsonaristas).
                Essa postura combativa tem sido a sua tônica na posição de deputado federal desde a primeira eleição em 2014. Agora, em seu terceiro mandato, ele assim continua – e cresce, na mesma medida em que cresce o número de seus inimigos. Todos os tons da esquerda o reconhecem nele o gigante que atemoriza os anões políticos.
Para saber mais
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GLAUBER 2 – O CONSELHO SEM ÉTICA

                No texto anterior foi descrito o resumo histórico do perfil combativo do deputado federal Glauber Braga. Mesmo crítico de Lula 3, ele defendeu o presidente de ataques à sua honra. Ao desconhecer o medo, ele joga fatos na cara de gente do MBL e de Arthur Lira.
                A franqueza é sua arma de combate – a mesma usada por sua companheira Sâmia Bonfim. Uma arma de palavras, bastante incômoda a muitos na Casa, em especial os nomes mais poderosos. Foi então acionado o Conselho de Ética da Câmara.
                Já abordado antes, o Conselho de Ética da Câmara é um grupo de 20 parlamentares, criado para apreciar uma ação processual, expor a descrição dos fatos e julgar a parte acusada na ação por conduta adversa. Ele pode cassar mandato por voto próprio e do plenário.
                Num Estado democrático de direito, a falta de limites é tão grande quanto a variedade político-partidária. Criado para conter os destemperos, o Conselho prefere, como alvos, os deputados da esquerda, revelando que indecoro virou só pretexto para fins ideológicos.
                Vimos, assim, dois processos contra deputados do Psol. Um deles partiu da reação dos nomes da ultradireita ao protesto de 6 deputadas contra o Marco Temporal, que foram absolvidas. O mais recente ainda não terminou: é o que ocorre contra Glauber Braga.
                Neste último, os jornalões vendem a história baseada na reação de Glauber aos repetidos assédios ofensivos de Costenaro, um militante do MBL. Esse fato foi aproveitado no julgamento pelo Conselho de Ética, como boa cortina de fumaça para disfarçar a verdade.
                O tema real é a acusação de Glauber a Lira devido à continuação do orçamento secreto, por nova ação do Psol que fez Flávio Dino (STF) decidir por reter, em 2024, R$ 4,2 bilhões, dos quais R$ 800 milhões foram liberados para atender a serviços de saúde pública.
                Glauber só foi temerário ao relembrar a agressão física do relator do conselho Paulo Magalhães, sobrinho do coronel ACM da Bahia, a um jornalista. E, talvez por vingança, e por ter recebido R$ 248 milhões, a maioria do grupo votou pela cassação do psolista, que até já esperava de certo modo.
                A incolumidade de vários nomes claramente indecorosos da ultradireita, como Nikolas, Éder Mauro e Eduardo Bolsonaro, em contraste aos atos mais simples de parlamentares da esquerda, apenas revela a verdadeira identidade: o Conselho Sem Ética da Câmara. Porque, mais antiético do que sua seletividade ideológica, impossível.
Para saber  mais
- https://www.youtube.com/watch?v=9kGORJHiSJY (Mídia Ninja – reportagem sobre R$ 248 milhões em emendas pix ao grupo do Centrão)
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GLAUBER 3 – O RESGATE DA ESQUERDA

                Como vimos nos últimos dias, o processo movido pelo Conselho de Ética da Câmara contra Glauber Braga se iniciou em 2024, no proveito dos fatos muito midiatizados envolvendo o militante do MBL Gabriel Costenaro, que vive de postar assédios a progressistas.
                Em dia tumultuado, o parecer final do Conselho foi votado, com 15 votos a favor da cassação (com o presidente Lomanto Jr), e 5 contra. Calado, Glauber assistiu, já esperando o resultado e em início de uma decisão corajosa ou, para alguns, extrema e temerária.
                Ele entrou em greve de fome – decisão que teve, mas com o devido cuidado: passaria a dormir no plenário da Casa, vivendo de líquidos e isotônico. Foram 9 dias sem se alimentar. Mas, por que ele se decidiu assim, se poderia recorrer à CCJ contra o resultado?
                A ingenuidade passou longe: formada majoritariamente pelo Centrão e bolsonaristas, a CCJ tem o bizarro comando de Caroline de Toni (PL-SC), conhecida por sua postura reacionária e machista. Glauber não gastaria energia inútil. Daí decidir pela greve de fome.
                Foram 9 dias que agitaram Brasília, partidos e movimentos sociais no país inteiro. Lula 3 e parlamentares petistas se lançaram solidários. E mexeram até com Hugo Motta, que foi dialogar uma solução acintosa: que Glauber postasse pedido de desculpas a Lira.
                Glauber imediatamente recusou a proposta: “é um limite intransponível”. Motta disse então que o processo “será levado para o 2º semestre”. O psolista adotou moderação em suas postagens, sem ataques, enquanto retorna gradualmente ao normal. 
                Apesar da promessa de Motta, Glauber interrompeu o jejum devido “aos sinais do corpo”. Pois “a cabeça está firme e a missão de continuar nesta batalha mais ainda. Não vou desistir, jamais!”. Aliados tentam costurar alternativas para salvar o seu mandato.
                Análise final – em todo o exposto nos três artigos, o perfil político de Glauber tem muitos significados. Um deles, o mais visível, é a essência de alguém que abraça a política por convicção mais visceral, pela qual ele acredita que a política é o dever em nome da nação.
                Ao proferir sua defensa num mandato como popular – uma vez que é eleito para tanto – Glauber assume o perfil de combate ao corporativismo político que criou o Centrão – grupo que recusa a alcunha de extremista ideológico, mas o é na ambição de poder.
                Ele encarna a esquerda clássica a partir da sua luta árdua, mas correta, contra essa contaminação. Mesmo sabendo da ciência do atual “trabalhador de chão de fábrica” do novo mundo de trabalho, ele vê abraça a política como arma popular nos velhos tempos.
                Por sua luta, ele busca levar às classes trabalhadoras modernas que as transformações atuais só firam possíveis graças à lide dos ascendentes por direitos trabalhistas junto a entes empregadores e benefícios sociais a serem assegurados pelo Estado.
                A solidariedade dos petistas e outros políticos de centro-esquerda não é só formalidade. Pode significar uma reaproximação das esquerdas em prol de uma política comum, na qual veem em Glauber como o maior símbolo do resgate da esquerda.
Para saber mais
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sábado, 12 de abril de 2025

Ligeirinhas 23 (Dudu Bolsonaro, Léo Índio, Lula e o povo, Saúde)

 

O NEGÓCIO DOS BOLSONARO

                Após seduzir a galera, então majoritária, com sua política de fake news em favor dos cidadãos de bens e causar violência por anomia social, a matéria investigativa de Juliana Dal Piva (UOL, hoje ICL) sobre os 51 de 107 imóveis comprados com grana viva pela família.
                O que surpreendeu foi o número de imóveis de uma mesma família e, em geral, todos de alto valor, pelas poucas imagens então divulgadas. Sem falar na investigação das rachadinhas do filho 01. A matéria originou, depois, o livro O negócio do Jair, escrito por  Dal Piva.
                Tudo veio à tona durante o seu governo sem a merecida atenção judicial, até que sua política destrutiva o derrubou nas urnas em 2022. Hoje inelegível e réu na tentativa de golpe, Jair vê seu filho Eduardo se licenciar do cargo e fugir da prisão para os EUA.
                A fuga é real, mas é uma estratégica nuvem de fumaça a esconder os intentos mais obscuros do 03. Afinal, já foi exposto no blog que Eduardo Bolsonaro é o representante brasileiro da internacional nazifascista, que agora ameaça até a pacata Nova Zelândia, contra os indígenas Maoris.
                Mas a tese tem sua razão. Com sua voz pra lá de esquisita e com vestido de festa, a mulher do 03 postou vídeo mostrando aos seguidores espaçosos aposentos e a vista externa de uma imensa casa, que seria a “humilde residência” de Eduardo, capaz de caber mais famílias de boa.
                Segundo checagem do Estadão, a casa situada no Texas foi sede de empresa de sociedade entre Eduardo e Paulo Generoso, fechada em 2024. Mas outro vídeo mostra a mulher distribuindo cartões aos vizinhos. Não se sabe se o deputado comprou o imóvel, mas a desconfiança é muito grande entre os internautas.
                Caso seja propriedade de fato – falta confirmar –, Eduardo mente ao afirmar que “dormimos em colchões infláveis”. Pelo patrimônio juntado na remuneração mantida na Câmara, no ganho com a empresa e na movimentação de R$ 1,6 milhão para os EUA, a família vive bem.
                Não é ilegal comprar imóvel residencial por lá, ninguém questiona isso. Desde que seja tudo dentro da lei e conforme a renda. É a fala dele que coopta mentes a acreditar que não pode, daí a falácia de mansão de Xandão por lá. Tudo isso é cortina de fumaça para manter a impunidade de uma família muito estranha.
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PRISÃO PARA LEO ÍNDIO: SIGNIFICADOS

                Enquanto aqui no Brasil a geral comemorou inicialmente a decisão final do STF em colocar o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus capangas no inquérito da intentona de 8/1, um personagem conhecido da família Bolsonaro está na mira da Justiça: Leonardo Rodrigues de Jesus.
                Mais conhecido como Léo Índio – que de indígena não tem nada –, ele é primo dos três filhos mais velhos do ex-presidente, por ser sobrinho da ex-mulher deste, Rogéria Nantes Braga. Ficou na memória popular por ter dividido moradia com o primo vereador Carlos, com quem tem maior proximidade.
                No governo de seu tio, ele tentou ingressar em cargo de confiança e tentar a carreira política. Mesmo sem ser policial, foi indicado por Carlos para chefiar 3 PFs na equipe de transição do em 2018, se candidatou a deputado distrital no DF e a vereador em Cascavel (SC), sem sucesso em todas as tentativas.
                Um dos milhares de partícipes da intentona golpista, ele é um dos muitos que fugiram para a Argentina visando escapar da prisão e acreditando na proteção do presidente argentino Javier Milei. A pedido da PGR, Alexandre de Moraes (relator da ação) pediu a prisão preventiva de Léo e demais foragidos.
                Resultado de descumprimento de ordem cautelar, a prisão preventiva fez com que Léo perdesse o aguardo de julgamento em liberdade. Portanto, caso volte ao Brasil, o seu destino imediato será a prisão. Mas ele pode ser extraditado, se houver pedido do Brasil.
                Portanto, é muito provável que Léo Índio não volte ao Brasil – não tão cedo. Exceto através de acordo de extradição entre os dois países. Só que, segundo um vídeo recentemente divulgado nas redes, ele está em local ignorado (ou não revelado) a mais de 1000 km de Buenos Aires.
                Se ocorrer, a prisão poderá ser vista como “só mais uma”. Ou mais do que isso. Afinal, Eduardo Bolsonaro fugiu para os EUA, e Léo tem certo afeto do ex-presidente por ser muito afim de Carlos. Ou seja, ela pode iniciar o desmantelamento do cerne do núcleo golpista. Ou não.
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LULA 3 E A CONTRADIÇÃO POPULAR

            Todos os anos, o governo do momento tem a sua popularidade testada pelos institutos de pesquisa, que são os mesmos que fazem levantamentos sobre a intenção de voto. Boa parte da patuleia não acredita nessas pesquisas, mas elas existem em todos os países, democráticos de fato ou duvidosos.
            Mandatário atual, Lula sempre gozou de forte simpatia popular, graças à natural vocação de comunicador com sua linguagem simples e direta, mesmo diante de grandes eventos e entrevistas coletivas. Seus governos anteriores terminaram com mais de 80% de bom/ótimo.
            Mas, como já escrito antes, desde 2023, os levantamentos têm revelado números de aprove mais baixos do que antes. Os fatores, já sabemos: mudança de mentalidade, onda de mentiras dos bolsonaristas nas redes e prioridade em rádio e TV distante da patuleia em rede.
            Em fevereiro, uma pesquisa da Genial Quaest sobre avaliação do governo tem revelado números de aprovação tão baixos quanto 27% e mais de 50% de reprovação. A última avaliação já revela virada de 11 pontos, com queda de 6 pontos na rejeição e subida de 5 pontos de aprovação.
            Como cada pesquisa tem duas fases – a avaliação e a intenção de voto se a eleição fosse no momento – entra um paradoxo: a intenção de voto revela, nas duas pesquisas, que o presidente Lula lidera em todos os seis cenários, conforme junção na figura deste texto.
            Dado o momento corrente, os maus números sobre o governo refletem a insistência de fatores como a influência bolsonarista na mentalidade, as mentiras em rede, o viés mercadológico dos jornalões de massa e comunicação fraca do governo, mesmo com Sidônio à frente.
            Por outro lado, a tendência para a reversão da impopularidade na pesquisa simulada de intenção de votos reflete a resposta mais agressiva sobre investimentos de indústrias estrangeiras e consequente empregabilidade, apesar dos juros – tudo isso noticiado pelas mídias.
            Tal resposta também pode ser um contra-ataque aos jornalões de massa, que insistem em desacreditá-lo em tendenciosos títulos, e à oposição que armam maneiras de brecá-lo². Fatores, que, nas pesquisas, revelam a relação contraditória dos populares com o governo.
Nota: ¹,² a ser falado na próxima rapidinha.
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Reflexão
DIA MUNDIAL DA SAÚDE: OS MUITOS DESAFIOS

                Definida como bem-estar físico, mental, emocional, psicossocial e ambiental, a saúde também tem conceitos de natureza institucional e política. Desde os aforismos de Hipócrates aos atuais sistemas abrangentes e personalizados de atendimento e tratamento, dezenas de séculos se passaram.
                Conforme momentos históricos e políticos, muitos governos pelo mundo organizaram sistemas amplos para serviços de saúde. Como o serviço britânico de saúde-previdência, que atendia trabalhadores formais e inspirou o nosso ex-INAMPS, e o abrangente sistema Semashko, criado por Lênin, na URSS.
                O Semashko influenciou o surgimento de organizações de saúde que atendem a populações isoladas na forme e nas guerras, como a Médicos Sem Fronteiras (MSF), e foi o modelo inspirador para o nascimento do nosso Sistema Único de Saúde (SUS), hoje referência global em saúde pública.
                Substituindo o modelo Semashko, morto junto com a União Soviética, a filosofia de saúde para todos do SUS inspirou outros países, cada qual à sua forma. Sempre se aprimorando conforme a OMS, a saúde pública levou à erradicação de surtos e epidemias, e até da recente pandemia de C19.
                Por reconhecer essa importância global da saúde pública, a ONU criou o Dia Mundial da Saúde, fixado em 7 de abril, homenageando trabalhadores do setor do mundo todo. Mas, para os responsáveis na linha de frente por salvar vidas, o dia é só mais um na dura rotina repleta de diferentes desafios.
                Guerras lá fora que eliminam hospitais, mudanças climáticas globais, impedimentos religiosos à saúde feminina em alguns países, profissionais antifascistas demitidos nos EUA, doações escassas ao MSF e ameaça privatista na saúde pública brasileira são os principais desafios enfrentados.
                O dia 7/4 é lembrado por todos os profissionais de saúde por serem reconhecidos pela ONU. Mas seu trabalho de remar contra a maré das mortes evitáveis é árduo demais para ser comemorado e mostrar seu valor. Pois, por meio das guerras ou em canetadas com governos, o capital espreita para devorar a saúde pública.
        























Ligeirinhas 22 (Selic, golpe de Ciro, povo e Lula3)

 

TAXA SELIC E DÍVIDA PÚBLICA:  INTIMIDADE

            O povo sempre escuta os jornalões reportando sobre as oscilações das taxas de juros e suas implicações na economia. Ao assumir o poder, Lula 3 viu juros a 13,75% e criticou o então presidente do BC Campos Neto, devido às dificuldades expostas pelo tamanho da taxa.
            Pelos jornalões, o povo também memorizou a taxa de juros Selic como ligada ao controle de metas inflacionárias visadas pelo governo, muitas vezes ultrapassadas. Sem tempo de relembrar o aprendido no ensino básico, o povo se pergunta: como funciona essa taxa Selic?
            O economês é chato, mas vamos relembrar: juro é taxa sobre capital. O simples taxa a grana inicial; o composto é taxa sobre taxa em cada aplicação de capital; o moratório se refere à dívida não paga, e o compensatório, à aplicação de capital alheio. Mas... e a taxa Selic? Como ela é definida?
            O Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) é a taxa básica de juros sobre a nossa economia interna, definida pelo Copom, grupo de 9 pessoas do alto escalão do BC, incluindo o presidente da instituição, que se reúne para definir as taxas a cada 45 dias.
            Em teoria, ela responde por controle da inflação, retorno de aplicações financeiras e é referência em câmbios de moedas. E isso os jornalões passam o tempo todo para a patuleia. Mas, e sobre a inflação e os valores entre as moedas, qual é a sua relevância?
            Na prática, a definição dos valores da Selic se relaciona a operações de compra e venda de títulos públicos federais. Basta 0,5 ponto acima ou abaixo para subir ou descer quantias em dezenas de R$ bilhões. Sobre a inflação, o inverso esperado é quase nulo.
            O efeito quase nulo das altas no controle inflacionário ou cambial se explica por este não ser o principal objetivo da Selic. O principal é dar lucro à improdutiva classe rentista, que nem chega a 200 mil brasileiros. E em nome de tão poucos, um lado perde.
            São os serviços públicos e os setores produtivos, principalmente os nacionais e de micro, pequeno e médio porte. Quanto maior é a Selic, menor o investimento público e privado produtivo, menos emprego e, também, serviços públicos mais precarizados.
            No Brasil 2025, os títulos públicos são 75% do PIB, com recorde de 81% em 2020.  Ainda assim é muito, mas é menos do que EUA e Bélgica, países onde ultrapassam 100% (os jornalões, nem um pio). E por que o rentismo no Brasil ganha tanto? Isenção de imposto – lá fora é tributado.
            O novo pacote fiscal-tributário de Haddad alveja a classe rentista para aliviar para rendas mais baixas. Mas isso é texto para outro artigo que já escrevi. O que quero aqui é fomentar a consciência: o Brasil é o paraíso fiscal do rentismo. E isso nos escraviza.
Notas: ¹ Comitê de Política Monetária, formada por 9 membros da diretoria do BC, incluindo o presidente.
Para saber mais
- ASSIBGE – Associação de Servidores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, dirigida por especialistas



LULA 3 E A CONTRADIÇÃO POPULAR

                Todos os anos, o político de plantão tem sua popularidade testada pelos institutos de pesquisa, que são os mesmos que fazem levantamentos sobre a intenção de voto. Boa parte da patuleia não acredita nessas pesquisas, mas elas existem em todos os países, democráticos de fato ou duvidosos.
                Mandatário de plantão atual, Lula sempre gozou de forte simpatia popular, graças à natural vocação de comunicador com sua linguagem simples e direta, mesmo diante de grandes eventos e entrevistas coletivas. Seus governos anteriores terminaram com mais de 80% de bom/ótimo.
                Mas, como já escrito antes, desde 2023, os levantamentos têm revelado números de aprove mais baixos do que antes. Os fatores, já sabemos: mudança de mentalidade, onda de mentiras dos bolsonaristas nas redes e prioridade em rádio e TV distante da patuleia em rede.
                Há 1 mês atrás, pesquisa da Genial Quaest sobre avaliação do governo tem revelado números de aprovação tão baixos quanto 27% e mais de 50% de reprovação. A última avaliação já deu queda de 6 pontos na rejeição e subida de 5 pontos de aprovação.
                Como cada pesquisa tem duas fases – a avaliação e a intenção de voto se a eleição fosse no momento – entra um paradoxo: a intenção de voto revela, nas duas pesquisas, que o presidente Lula lidera em todos os seis cenários, conforme junção na figura deste texto.
                Como refletem um momento corrente, os números ruins sobre o governo Lula 3 refletem a insistência de fatores como a mudança de mentalidade política no Brasil, a onda bolsonarista de mentiras e a fraqueza da comunicação governamental mesmo com Sidônio à frente.
                Por outro lado, a tendência para a reversão da impopularidade na pesquisa simulada de intenção de votos reflete a resposta mais agressiva sobre investimentos de indústrias estrangeiras e consequente empregabilidade, apesar dos juros – tudo isso noticiado pelas mídias.
                Tal resposta também pode ser um contra-ataque aos jornalões de massa, que insistem em desacreditá-lo em tendenciosos títulos, e à oposição que armam maneiras de brecá-lo². Fatores, que, nas pesquisas, revelam a relação contraditória dos populares com o governo.
Nota 1 e 2: a ser falado na próxima rapidinha.

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O GOLPE (NADA) SECRETO DE NOGUEIRA

            Visando cumprir uma promessa de campanha do presidente Lula, o ministro Fernando Haddad – comprovado qualificado na área – escreveu o texto de modo a isentar rendas até R$ 5 mil e tributar em taxa baixa quem ganha mais de R$ 50mil mensais, em suave taxa.
            Para zero surpresa da geral, ao receber a papelada assinada por Lula, o presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos) já disse que o texto passará por alterações. Mas, talvez, o maior problema não esteja exatamente em Motta, mas sim em outro líder da direita.
            É o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP de Arthur Lira. Em meio ao foco no destino de Glauber Braga na Câmara, o senador se reuniu secretamente no com assessores e uma mulher no que chamou de “conciliábulo da Faria Lima”, no BTG Pactual.
            Só que o segredo vazou. É um áudio de diálogo entre Ciro e uma mulher, com vozes ao fundo. No diálogo se destacaram dois temas distintos, embora interligados: a possibilidade de Lula se reeleger em 2006; e a busca de alternativa para livrar os super ricos do IRRF.
            Para ele, Lula “dificilmente se reelege” devido à saúde, mas “é possível” porque “a aprovação da isenção até R$ 5 mil é inevitável”, mas que “é preciso” que “ele não se reeleja”, e apontou que a mulher risonha fosse “adequada” para blindar a elite. A mulher assentia, zombeteira.
            Ela é ninguém menos do que Daniela Marques, que trabalhou no ministério da Economia de Paulo Guedes na era anterior (2019-22)., e de quem tem sido fiel escudeira. Ela presidiu a Caixa no então governo. Para o senador, ela é “adequada” para blindar a elite.
            Ao afirmar que o governo Lula tem “excesso de assistência social” e que “não pode se reeleger”, Ciro não só se lança presidenciável.  Ao se declarar “não sou bolsonarista, mas Bolsonaro sim”, ele se revela a alternativa para a elite, como também golpista como Bolsonaro.
            E, para evitar esse novo golpismo duplo, a população deve se atentar, uma vez que será tão vítima quanto a democracia nesse novo objetivo em nome do capital acumulativo e que não contribui para nada.
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domingo, 6 de abril de 2025

Ligeirinhas 21 (atenção, São Paulo!)

 

Atenção, paulistas!
O VETADOR-GERAL DO ESTADO

            Nas eleições de 2022, para governador do estado de São Paulo, os finalistas no segundo turno foram Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad. O primeiro é carioca, o segundo, paulista de nascimento. Após corrida acirrada de empate técnico, no final a patuleia escolheu, enfim, o carioca.
            Isso não é nenhum problema. É perfeitamente aceitável. O problema é que, diferente de Haddad, Freitas não tinha endereço em São Paulo até então. Como governador eleito, o seu endereço fixo passou a ser o palácio dos Bandeirantes, a residência oficial do governador do Estado.
            Mas, não é esse o objetivo desse texto, e sim as condutas assumidas por Tarcísio desde que se apossou do cargo. Elas não só revelam a vocação pela política de interesses, de ética duvidosa, nas suas relações com o adverso Lula 3, por exemplo. Mas isso faz parte da política na democracia.
            O problema mesmo é interno. Privatizações indiscriminadas aproximam Tarcísio de FHC tornando-o novo queridinho dos jornalões – que não criticaram a intenção de privatizar toda a rede estadual de educação básica, e se calam também sobre outro feito preocupante.
            É que Tarcísio se tornou o governador recordista ao vetar 238 projetos de lei criados e aprovados pela Alesp desde que assumiu o cargo. Apesar dos Legislativos estaduais também terem a competência de revogar o veto do Executivo, isso não houve. É ruim, mas tem explicação.
            É que o presidente da Alesp nesse momento é André do Prado, um bolsonarista assumido, que assentiu aos vetos de Tarcísio – bolsonarista que os jornalões em jocoso carinho consideram “moderado”, mesmo sendo do partido dos Republicanos. Mas, isso não importa nem um pouco.
            A consideração carinhosa dos jornalões explica em dois pontos: SP é o Estado-referência em termos econômicos, e Tarcísio foi tornado político-modelo para presidir o país, cujo Estado, bem mais magro do que a média entre os países da OCDE¹, ainda é considerado inchado por eles.
            É certo que os vetos assentidos se relacionem a pautas incômodas aos bolsonaristas, como direitos humanos, meio ambiente, inteligência policial aprimorada, valorização dos servidores, fiscalização de luz e de saneamento, etc. Aí Tarcísio veta geral, a patuleia padece e o capital e agradece.
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NA PRIVATARIA DE SP, A REDE DE ENSINO

            O governador de SP Tarcísio de Freitas mostra porque é a versão bolsonarista de FHC. Privatizou várias estatais paulistas com direito a marteladas estúpidas na mesa da Bovespa, aplaudidas pelos presentes. O que mais rendeu protesto foi o da Sabesp (saneamento).
            Como já sabemos por experiência, o processo rendeu resultados nefastos para a população, se expressando especialmente em mensalidades caras e serviços prestados com precariedade. Como o serviço de energia (Enel), com seguidos apagões e muitas demissões, e as contas estratosféricas de água e esgoto.
            Entretanto, as péssimas notícias exibidas pelos jornalões (imaginem!) não abalaram a frieza de Tarcísio. Ele continua com a sua sanha de “vender tudo que der” no Estado. Agora, ele se volta sobre um dos setores mais nevrálgicos da seara pública: a rede estadual de ensino.
            Tendo como secretário de Educação o grandão da Leader Renato Feder – que por muito pouco não foi ministro de Bolsonaro –, o governo abriu edital para entregar a gestão de 143 escolas para a iniciativa privada, gerando protestos de professores e pais de alunos.
            Uma ação processual de educadores foi entregue ao MP-SP, que o repassou ao TJ-SP, responsável pela liminar que revogou inicialmente o edital para 33 escolas. O imbróglio parou no STF, que julgou e revogou a liminar em favor de Tarcísio. Um acinte antipopular.
            O MP-SP foi acionado em ação processual dos educadores acusando haver irregularidades no edital em 33 escolas. O MP entregou o documento para o TJ-SP, cuja liminar suspendeu o edital. O imbróglio parou no STF, que revogou a liminar favorecendo o governo.
            A CF-1988 e a LDBEN¹-1996 predizem que a educação é “direito do povo e dever do Estado e da sociedade”. A participação desta é a matrícula obrigatória no ensino básico (infantil ao ensino médio), pública ou, se a renda familiar sustentar o suficiente, no particular.
            Portanto, a privataria do ensino básico não só atenta contra o dever do Estado. Ameaça as famílias periféricas, cujas rendas se esvaem em consumo de 1ª necessidade, que inclui gás, roupa e luz. É obrigá-las a praticar o crime de abandono intelectual, punível com prisão e multa. É o novo ápice higienista educacional.
            Cabe agora a galera paulista refletir: vai mesmo querer encarar Tarcísio à frente da presidência da República, como os jornalões neoliberais tanto querem?
Nota: ¹Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, uma espécie de Constituição educacional.
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