sábado, 3 de maio de 2025

Ligeirinhas 25 (esperanças indígenas, farsa moribunda)

 

ESPERANÇAS INDÍGENAS

                Como aprendemos hoje em História, muitos povos indígenas foram dizimados pelas consequências da colonização (doenças infectocontagiosas, escravidão e evangelização forçada, nessa ordem). No séc. XX vieram novas ameaças: militares, garimpo ilegal, grileiros e invasões por latifundiários.
                As torturas dos milicos na ditadura fizeram mais uma “limpa” significativa reduzindo a população total a menos de 100mil em todo o país. Na redemocratização, a demarcação de terras indígenas e a redução da letalidade foram suficientes para que a população indígena alcançasse 1,9 milhão hoje.
                Em meio aos tropeços, a primeira esperança dos indígenas foi o Parque Indígena do Xingu, demarcado em 1961 e hoje habitado por 16 etnias. Já ameaçada, a área virou palco da propaganda política da criação do Estatuto do Índio, para, num contexto democrático, afastar os milicos de qualquer acusação.
                A esperança não eliminou o trauma dos sobreviventes daquele tempo obscuro, que informam os fatos para os descendentes, parte dos quais entende que até a destruição cultural pela evangelização facilita a concretizar ameaças e tomadas de terras. Mas, boas notícias estão ventilando.
                No STM – pela 1ª vez na história, líderes do Acampamento Terra Livre (ATL) foram recebidos no Supremo Tribunal Militar. Relembrando as brutais violações na ditadura, eles solicitaram que os milicos “respeitem nossos espaços ancestrais”. A presidente prometeu dialogar com os oficiais.
                Restauração – outra esperança dos indígenas foi o anúncio, pelo governo federal, da liberação de R$ 150 milhões destinados para a restauração de terras indígenas destruídas por invasores da indústria e do agronegócio. Porém, talvez nem todos os povos indígenas deslocados sejam contemplados.
                Um exemplo complicado é o povo Cariri-Xocó. Sagrada para eles – como para os demais que mantêm intactas suas tradições ancestrais – e já homologada por Lula, a maior parte de sua terra virou fazenda de um político poderoso. A mata atlântica virgem foi transformada em pastagem.
                CNV indígena – em 2012 foi instituída a Comissão Nacional da Verdade (CNV), que confirmou as violações cometidas pelos militares durante a ditadura. O descreditado saldo oficial de 434 desaparecidos e mortos é, na verdade, bem maior – se estima que o saldo de mortes pode chegar a 10 mil. 
                É muito? Calma, que o caldo vai engrossar.
                Em mãos dos líderes do movimento ATL consta um documento que promete engrossar a estimativa. Com muitas páginas, ele contém, entre outros textos, o Relatório Figueiredo de 1967, que detalha as violações de milicos contra indígenas. Estima-se em 8350 mortes durante os 21 anos de ditadura militar.
                Sem falar em casos não notificados na época.
                Das 305 etnias conhecidas, só 10 foram então “estudadas”. Dessas 305, as mais afetadas foram os Cinta-largas (mais de 3000 mortos), Tapayuna, Parakanã, Araweté, Arara, Panará, Waimini-Atroari, Yanomami e Xavante foram outros exemplos atacados pelos militares.
                A pressão pela CNV indígena aumenta com a progressiva proximidade do evento da COP30, em Belém. Esta promete dar mais espaço para as lideranças indígenas, que poderão inferir possíveis consequências socioambientais da exploração de petróleo na bacia da Foz do Amazonas.
                Mas os indígenas sabem, talvez mais do que nós todos, que tudo ainda é só inicial. Ainda falta o grosso da luta. Estimulados desde o bolsonarismo, assassinatos e invasões de terras a mando do agronegócio ainda são frequentes e terminam impunes devido ao forte lobby que o setor possui.
                A despeito das pressões sofridas pelo governo, os indígenas veem nas notícias acima um esforço dele. As matérias anunciadas acima revelam o pavimentar da estrada, acendendo a centelha da esperança do reconhecimento de seu valor pela sociedade.
Para saber mais
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TEM FARSA AÍ?

                Desde que virou réu por liderar a intentona golpista, o ex-presidente Bolsonaro foi ao RN para ouriçar sua galera. Após os milicos deporem, o STF convocou Bolsonaro para a sua vez em 5 dias. Foi a senha para ele correr em busca de um refúgio hospitalar, parando em Natal.
                Não surpreendeu ninguém: já sabemos que ele se hospitaliza a cada pontada judicial.  Foi assim desde 2018, quando ele usou sua licença da facada para fugir dos debates de presidenciáveis na corrida eleitoral. Mas desta vez, vale apontar algumas coisinhas.
                Cirurgia – Bolsonaro já apresentava cicatrizes de cirurgias anteriores no abdômen quando foi agora no hospital justificando complicações da facada. Mas a nova cirurgia na linha mediana que aparece em imagens no Instagram se estende pela barriga inteira.
                 A extensão revela fator bem maior do que uma faca média usada por Adélio, conforme fontes. Repetida à larga, a cena mostra só uma perfuração rápida, sem rasgar a barriga inteira. Não conheço uma lâmina tão larga quanto a barriga inteira na vertical de um homem alto. Nem machadinha chega a tanto.
                Sonda nasogástrica – é usada em casos em que a alimentação enteral é necessária. Bolsonaro tem estado com uma o tempo todo. Embora os esparadrapos superficiais possam enganar, com atenção bem afiada dá para ver que está fora, perto da ponta do nariz.
                UTI lotada – a UTI é um local onde pacientes são submetidos a cuidados intensivos; quase asséptico e isolado. Visitas, só individuais e por tempo restrito, evitando contato físico. Mas a de Bolsonaro vive lotada de gente farreando sem máscara e com lives longas. Bem estranho.
                Foi em seu leito de UTI que o ex-presidente recebeu a oficial de Justiça com a nota intimatória de Alexandre de Moraes. Bastou para que o próprio desse um chilique cuspindo vitupérios. A sorte é que a servidora estava com duas máscaras a impedir a penetração das gotículas de enxofre (aqui é zoeira).
                CFM – o Conselho Federal de Medicina (CFM) não tem se lixado para a farra da UTI de Bolsonaro desses dias. Até aparecer a oficial de Justiça. Aí soltou notinha. Mas não para denunciar a farra irregular da galera, e sim de repúdio à “audácia” de Xandão em mandar intimar numa UTI.
                Já o Conselho Regional de Medicina (CRM) do DF foi o único a se manifestar com sensatez contra a “casa da mãe Joana” em que tornou a UTI de Bolsonaro. Mas, diferente da nota do CFM, esta não foi tão divulgada. Enquanto isso, uma imagem viralizou nas redes sociais.
                Ela foi como meme com a nova “coincidência” de Bolsonaro se internar no momento de ser chamado pelo STF para depor. Embora enganosa, ela parece revelar um intento denunciador mais realista do que essa hospitalização, que mais parece transparecer uma farsa. Pois é, no mínimo, muito estranho, ou suspeito.
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sábado, 26 de abril de 2025

Ligeirinhas 24 (Caiado e PM-G, Anistia)

 

A PERIGOSA POLÍCIA DE CAIADO

                Ex-presidenciável em 1989, ex-parlamentar federal e atual governador do Estado de Goiás pelo partido União Brasil, Ronaldo Caiado é, com certeza, o político de maior influência de seu Estado. Localmente, ele também é o nome que lidera a poderosa classe latifundiária da soja e do milho.
                Não precisa ser especialista para observar que as condutas assumidas por Caiado refletem abertamente o seu forte sentimento de classe. Elas se estendem ao fato de fazer o Palácio governamental uma extensão de sua residência particular, e de implicar censura às mídias sobre surtos de adoecimentos graves por agrotóxicos.
                E ele vai mais fundo na ousadia. Em reunião de governadores com o presidente Lula sobre a unificação das polícias estaduais para combater as organizações criminosas e amenizar a guerra urbana, Caiado disse: “a PM de meu Estado é um exemplo para todo o país, não há mais criminalidade”.
                Se Caiado, velho opositor político de Lula, quis atingir o governo federal, a fala ressoou entre os demais, que se entreolharam calados. Embora a patuleia do Sudeste já esteja envolta em problemas locais, Brasília e mídias de massa sabem que Goiás não é o paraíso de segurança que ele diz ser.
                A reunião do governo serviu para comunicar a regulamentação da lei de 2022 que cria o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), e investir mais em inteligência para maior eficácia no combate ao crime, e mesmo na guerra urbana. Caiado quis dizer que “a PM-GO não precisa disso”.
                Só que, divulgados pelas mídias, os levantamentos anuais do Anuário da Violência desmentem Caiado. Goiás é o campeão de trabalho escravo no campo, e cenas de violência são obtidas pela imprensa: os PMs não usam câmeras contrariando a lei federal, e rondas são feitas em viaturas sem placa.
                Eu quero a testemunha, na sexta-feira à tarde. Eu tô de viatura, caçando esse covarde. Se eu pego eu atiro, sem dó e compaixão. Minha emoção é zero, um verdadeiro inferno”. Entoada por policiais, a canção de guerra revela o verdadeiro perfil da PM-GO e a tensão vivida pelas periferias urbanas.
                Um dos mais letais do Brasil, o perfil da PM-GO reflete a verdadeira face da política de segurança pública alardeada por Caiado nas campanhas para o governo estadual. A morte gratuita, fora dos limites legais, na verdade é a sua política. Como disse Jaqueline Muniz¹, “por trás da polícia que atira está o governador”.

Nota: ¹socióloga especialista em segurança pública.
Para saber mais
- https://www.youtube.com/watch?v=bVn4wKd9EzQ. (Folha Democrata, 13/4/25 – futuro da segurança pública no Brasil)
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Idade crítica
PMs, MORTE JUVENIL, PREVIDÊNCIA

                A previdência social é, com certeza, a maior fonte de benefícios sociais aqui e lá fora. Nossa história se inspirou no modelo europeu desenvolvido há mais de 100 anos e tem caráter contributivo solidário, em variados níveis de cota. Servidores públicos contribuem até mesmo durante a aposentadoria, para o RPPS¹.
                Mas não vamos nos centrar sobre servidores aqui. O objetivo deste texto é procurar explicitar, em linguagem simples, a relação entre a letalidade da PM sobre crianças e jovens periféricos e a situação previdenciária atual. E também, até que ponto a reforma de 2019 pode ajudar ou atrapalhar.
                A reforma de 2019 aumenta o tempo mínimo de contribuição, com direito a ganho integral após 40 anos, aumentando a engorda do sistema que beneficia, também, estratos provadamente incapazes de trabalhar ou famílias mais pobres. Outros contribuintes podem ser jovens trabalhadores.
                No Brasil, a maioria dos jovens periféricos inicia a carreira trabalhadora formal como jovem aprendiz (14-18 anos). Essa é uma fase crítica, não só para testar sua persistência e vontade de aprender. Essa é, historicamente, a fase mais alvejada pela letalidade policial, no pretexto da guerra às drogas.
                No período entre 2023-24, os Estados campeões em letalidade policial nas periferias foram São Paulo, Goiás, Rio de Janeiro e Bahia (ordem aleatória aqui). Segundo a Agência Brasil, com dados do Anuário da Violência, o recorde pertence ao Estado de SP, com aumento de 121%.
                Além de empobrecer subitamente as famílias periféricas, a letalidade policial sobre jovens periféricos invoca num vácuo geracional que diferencia em até 22 anos a expectativa de vida comparada entre periferia e bairro rico. E ocasiona um déficit de contribuintes em atividade de impostos e na previdência social.
                Para reduzir o impacto desse déficit, os governos futuros criarão medidas impopulares. Num país refém do mercado financeiro, sobrará para os futuros aposentados CLT passarem a contribuir no INSS, como os citados servidores. O que nos revela o quão inócua se torna a reforma de 2019, que mira a galera jovem, com muito tempo pela frente.
        Nesta, o impacto direto é menos população com potencial longo de contribuição, o que poderá implicar em governos futuros criar medidas para contribuição contínua de aposentados CLT (e o sequente empobrecimento). O que revela, ao menos aí, a nulidade da reforma trabalhista de 2019, que mira o povo ativo mais jovem.

Nota: ¹RPPS = regime próprio da previdência social, de servidores públicos e classe política.
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Reflexão
A ANISTIA DA VERGONHA

                A nova era Lula – Lula 3 – é diferente das suas passagens anteriores que revelaram o nosso ápice democrático. Ele depara com um Brasil mais hostil e polarizado, a mentalidade mais bolsonarizada, que influencia em baixas nas pesquisas de análise de seu governo.
                A condenação de centenas da horda fanática à prisão pelo STF pelos crimes da intentona de 8/1 fez o senador Gal. Hamilton Mourão elaborar o PL da Anistia com o objetivo de livrar financiadores, incentivadores e partícipes da intentona, desde 30/10/2022 a 8/1/2023.
                O texto encontrou apoio irrestrito dos deputados, que correram para coletar assinaturas suficientes para votar direto em plenário. Mas o processo não encontrou apoio popular. Desde então, pesquisas repetidas de opinião pública revelaram a maioria favorável à condenação.
                Na prática, o perdão judicial proposto a todos os envolvidos na intentona tem como objetivo final livrar o ex-presidente Bolsonaro e o generalato da prisão por tentativa de golpe. Muito difícil: no julgamento da denúncia da PGR, o STF declarou todos eles réus do processo.
                Os milicos denunciados e já presos, como o reformado Braga Netto, seguiu Mauro Cid ao afirmar Bolsonaro como o mandante número 1 do plano de intentona golpista. Perto de chegar a sua vez, Bolsonaro, que passeava no Nordeste, acabou sendo hospitalizado.
                Convenhamos, já não surpreende mais. A enésima internação para operar o intestino da já controversa facada em plena convocação para depor é, sabidamente, um plano eficiente de fugir da responsabilidade de depor sobre no julgamento do processo da intentona de 8/1.
                A anistia de 1979 só foi possível naquela época mediante acordo espúrio: que os militares com as mãos retintas de sangue também fossem perdoados e o regime naturalizado – o que alimentou o saudosismo de muitos e o instinto golpista de milicos alinhados a Bolsonaro.
                A anistia de 1979 também deve ser lembrada como uma chantagem contra a nação, para manter os privilégios de uma casta de farda – tornada cultura atrativa aos jovens desejosos por carreira militar estável. Politicamente foi péssima, ao chancelar o enfraquecimento da democracia.
                O PL da Anistia agora foi estancado pelo presidente da Câmara Hugo Motta, que recebeu duro recado de Lula 3 que atingiu aliados que apoiaram a ideia. Em resposta, muitos retiraram suas assinaturas, sobrando apenas os bolsonaristas liderados por Sóstenes Cavalcanti e Silas Malafaia.
                Se aquela anistia já foi ruim, agora querem repeti-la para que novas intentonas nazifascistas fossem tentadas até o seu sucesso final. Assim, se fosse aprovada, seria a anistia da vergonha.
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quarta-feira, 23 de abril de 2025

CURTAS 87- ANÁLISES (Ideologização da fé, papa Francisco)

 

FÉ REACIONÁRIA PELO CAPITAL

                Talvez a mais profunda marca da colonização europeia e representada principalmente pela Igreja Católica, a religião exerceu papel fundamental na evolução sócio histórica brasileira. Na política, a ICAR foi instituição de Estado até 1891, quando a 1ª Constituição da República impôs a laicidade.
                Laicidade à parte, a CNBB¹ da ICAR sempre vigiava. Desde 1955, o país viveu tensão pró-golpe pelos milicos. A era JK foi possível por acordo com os militares. Nos anos 1960, o pânico do comunismo e a política agrária de Jango despertou a fúria da elite urbana e rural, apoiado por militares e ultracatólicos.
                Mais conhecido movimento sectário no Brasil, o Tradição, Família e Propriedade (TFP) foi fundado por grupo liderado pelo deputado extremista Plínio Correa em 1928, de ideal ultracatólico, antiesquerda e antimaçônico. Em 1960 assumiu o nome atual e foi abraçado pela elite e milicos protagonistas do golpe de 1964.
                Nisso, o TFP consolidou o pânico coletivo pela ideologização religiosa no Brasil, contribuindo para o regime de terror que tentou eliminar a diversidade para a higienização política. Desde então, o povo associa o citado movimento com as Forças Armadas. Mas, só que não.
                Primórdios – nos anos 1950-70, os EUA eram dominados pelo macarthismo, ideologia reacionária legada pelo presidente McCarthy. A mando dele, missionários cristãos e judeus anticomunistas vieram ao estratégico Brasil para popularizar a fé pela ultradireita. Veio então a primeira era de pânico moral político.
                Dado o intento macarthista de dominar globalmente pelo capitalismo estadunidense, os missionários cristãos alcançaram até comunidades originárias, destruindo suas culturas e resultando em intolerância a não cristãos – e fortaleceu o pânico moral político de então.
                Apesar de a maioria missionária ser pentecostal, o catolicismo se manteve hegemônico no país por mais 50 anos. Mas isso não gerou conflito inter-religioso, pois a aliança ideológica foi mais forte, incutida pelas classes abastadas sobre a patuleia, com reflexos até na atualidade.
                Ódio virtual – surgidos nas redes sociais, os novos movimentos de ultradireita (Vem pra Rua, MBL e bolsonarismo) inauguraram no Brasil a segunda era de pânico moral por ódio virtual, em que líderes religiosos deram peso às fake news difamatórias a adversários políticos.
                A bancada da bíblia teve papel coadjuvante, mas essencial ao apoiar o bem-sucedido golpe parlamentar que depôs Dilma Rousseff em 2016, impulsionado pela popularização do antipetismo. Isso abriu portas para campanhas de presidenciáveis impensáveis nas eleições de 2018.
                Foi pela nova popularização da fé reacionária que o extremista Jair Bolsonaro foi eleito – e em sua passagem se desenrolou toda a história de necropolítica e submissão aos EUA novamente contaminados pelo reacionário trumpismo. Ele liderou o pânico moral virtual, que mantém a velha essência, agora no neopentecostal, sob o manto da democracia, pelo capital.
Nota: ¹Confederação Nacional dos Bispos do Brasil.
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FRANCISCO, O GRANDE

                No bloco Ligeirinhas 15 há dois artigos referentes a um dos papas mais populares do catolicismo global. O primeiro versa de forma sintética sobre a trajetória do Papa Francisco. O outro, sobre os inimigos extremistas que ele involuntariamente teve em seu papado.
                Tal como nesses artigos, neste presente será tentada a síntese da trajetória biográfica de Francisco, dada a riqueza de detalhes. Foi tentado juntar ao artigo da ideologização religiosa, mas uma certa falha de conexão foi percebida. Daí a opção por um novo texto.
                Uma vida de fé – filho de imigrantes italianos, Mario Jorge Bergoglio nasceu em Buenos Aires, em 1936. Sua juventude se voltou entre a fé praticante e alguns empregos – já atuou até como segurança de casa noturna. Teve uma namorada, que conhecera numa missa.
                Mas foi durante uma missa de ordenamento de padre que quis ser padre. Como seminarista conheceu zonas de pobreza na Itália e na América do Sul. Queria ser simples paroquiano para ajudar os pobres, mas, como que numa tramoia do destino, progrediu a bispo, arcebispo e, enfim, cardeal.
                Até 2001, Bergoglio testemunhou mudanças políticas. Conheceu e admirou as lutas de opositores do ditador Videla. Silenciado ante a captura e morte deles, foi acusado de omissão ou cumplicidade. Meio que a contragosto, sua partida a Roma ocorreu a chamado do Vaticano.
                Em Roma viu pessoalmente os papados conservadores de João Paulo II e de Bento XVI. Mas admirava Paulo VI (1963-78) por ter tirado a ICAR do medievalismo, e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) com os vulneráveis, através da Teologia da Libertação.
                Papa a contragosto – em 2013, após 6 séculos, Bento XVI renunciou. Bergoglio foi eleito: o Vaticano queria um papa popular como João Paulo II. Deu certo: apesar da aceitação inicial a contragosto, Bergoglio, agora Francisco, de imediato ganhou a simpatia popular.
                Ser Francisco é inédito: a ICAR nunca teve um. Bergoglio se inspirou em São Francisco. Diferente dos anteriores, ele optou pela simplicidade nas vestes, nos aposentos – até no seu sepulcro. Seu papado foi agitado, humanista, de relações espontâneas.
                Nada de latim na missa. Andou entre populares, cerimoniou lava-pés com pobres, deu comida e cobertas ao povo de rua, fez a ICAR inclusiva até para a minoria multissexual – um fuzuê na Cúpula. E foi boa figura política.
                Culpou o “capetalismo” pelas desigualdades e pela destruição do planeta. Foi caloroso com lideranças democratas e frio com extremistas. Após criticar a política migratória de Trump, recebeu o vice deste em 20/4. No dia seguinte, não resistiu à insuficiência cardíaca e ao AVC.
                Legado e sucessão – Francisco deixou marcas indeléveis na ICAR. Por trás da simplicidade e carisma, ele ferrou o domínio europeu nomeando 108 novos cardeais de várias origens (das Américas, África e Ásia) diversificando, assim, a concorrência papal que virá.
                A ICAR inclusiva não foi tão ampla, mas a conectou mais à pluralidade social mitigando a rapidez da evasão de fiéis e com diálogo mais acolhedor com outras formas de fé. As Jornadas Mundiais da Juventude contribuíram com isso e atraiu uma patuleia mais jovem.
                A maior pluralidade nacional de possíveis novos papáveis pode contribuir – ou não – para essa evolução no seio da ICAR. Dependerá muito do ponto de vista do sucessor, a ser definido somente em maio. Pois vale lembrar de que a era Francisco teve muitos inimigos.
                Tais inimigos são principalmente os políticos da extrema-direita, como Trump e Bolsonaro.  Na cúpula do Vaticano, os altos prelados ultraconservadores. Uma onda de mentiras poderá influenciar – e muito – o rumo do conclave. Mas, e se o eleito for um progressista?
                A chance do sucessor progressista em continuar o trabalho de Francisco é certa. Se for um conservador, o retrocesso pode dominar. Mas, nesse intervalo, tudo é especulação. Do eleito, só saberemos quando, após a fumaça branca, o novo papa se apresentar na sacada da Basílica de São Pedro.
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ANÁLISE: Himalaia: o alerta global

                      A Terra é um planeta dinâmico. Entre os leigos, toda cadeia de montanha é quase uma coisa só. Mas geógrafos e geólogos...