domingo, 9 de novembro de 2025

ANÁLISE: uma operação como campanha política

 

                28/10/25. Moradores das comunidades dos Complexos do Alemão e da Penha, tradicionalmente dominadas pelas facções rivais Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP) madrugaram em forte tiroteio. Quem já aguardava transporte para ir ao batente se escondeu como pode para escapar das balas.
                Ao amanhecer, telejornais das maiores emissoras iniciaram coberturas aéreas da movimentação de forças policiais. Uma parcela das forças subia entrando nas elevações com mata, e outra com suas viaturas nas vias principais indicando um cerco. Cenas rápidas mostravam ônibus como barricadas. Era uma operação.

Megaoperação Contenção
                A Secretaria de Segurança Pública-RJ foi acionada ainda de madrugada. Nas primeiras horas da manhã, os telejornais já cobriam a operação policial, cuja extensão progredia rapidamente. A alcunha Contenção dada ao atributo se deve à guerra entre as facções, iniciada na noite de domingo.
                No fim da manhã, as fontes noticiosas já descreviam a tornada megaoperação como “a maior da história do Estado do Rio de Janeiro”, que colocou nas ruas em torno de 2500 policiais, destacados da PMERJ, do BOPE e do Core (batalhão especial da PCERJ), que executaram uma autêntica explosão de guerra urbana.
                No ápice da operação expandida, mais de 100 vias foram interditadas em vários acessos (Centro, zonas Norte, Sudoeste e Oeste e BR-101 em São Gonçalo) pelo cerco policial e pelas barricadas improvisadas pelos bandidos. Essa estratégia acabou prejudicando quem precisou trabalhar presencialmente.

Números
                Noticiosos cobriram a operação com atualizações constantes de dados e números, em geral espantosos ou sinistros. Local no início, a operação se dilatou resultando em grandes áreas afetadas. No seu ápice, a saraivada chegou a 200 tiros por minuto. Uma guerra urbana de proporções inauditas.
                A apreensão de armas é histórica: mais de 120 armas de fogo e munições correspondentes, sendo 93 fuzis e o restante de pistolas e bazucas ultrapassando o recorde anterior de 117 fuzis high tech exclusivos das Forças Armadas dos EUs, apreendido no condomínio de luxo Vivendas da Barra (pesada), com moradias da família Bolsonaro e do matador Ronnie Lessa.
                Mas a apreensão de drogas não chegou a 100 kg, bem menos do que os 300 kg de maconha encontrados em carga de transporte ligado à empresa de processamento de peixe do senador Jorge Seif (PL-SC).
                Até o momento, o número oficial admitido de civis mortos é 121, mas se contam, por fora, 128 “suspeitos” segundo jornalões, e “elementos” segundo a polícia – sem contar os 4 policiais, oque se somaria 125 e 132, em respectivo. De feridos, se conta somente 10 policiais. Mas, com ou sem subnotificações, foi um massacre.
                Vigiados e escoltados por agentes do Batalhão de Motocicletas da PMERJ, os motoqueiros se concentraram em manifesto pacífico à frente do Palácio. Era o momento em que Castro recebeu o ministro Lewandowski para negociar a criação de um escritório conjunto de combate ao crime organizado.
                Após mentir sobre ajuda do governo federal, e depois se desmentir (foi mal, estava doidão?), o ultracatólico Castro foi cantar louvores na missa. Não foi pela intenção dos mortos do derrame de sangue, mas pelo puro ego inflado de orgulho narcísico, quase psicopático, da garantia do aprove popular.
                No dia seguinte, a capital tentava voltar ao seu ritmo rotineiro, como se recuperasse do susto de uma notícia de acidente fatal. Um tiroteio parou a Linha Amarela, uma das principais vias expressas da zona Norte. Após a destruição do dia da megaoperação, o transporte público estava impontual.
                Invisíveis para o resto da cidade, os dois complexos comunitários reiniciaram sua lide de sobrevivência, entre lágrimas, sangue e trauma. Em vários ângulos, fotos da imprensa revelavam dezenas de corpos mortos perfilados em rua da Penha, cercados de curiosos em silente empatia aos familiares inconsoláveis. Um velório pungente.
                Segundo fontes midiáticas, os próprios familiares os teriam retirado da “mata-esconderijo” mais elevada, e os teriam posto ali, como num velório pungente. O que destruiu a cena criminal essencial à perícia forense. Aí se insurge a linha quase imperceptível entre a informação e a onda de desinformação em meio ao debate público.

Por trás do desastre
                 A megaoperação já se aproximava de sua etapa final quando o governador Cláudio Castro já se dispunha a conceder uma entrevista coletiva. Aparentava serenidade, mas não escondeu o sentimento de triunfo ao afirmar categoricamente que “a operação Contenção foi um sucesso”. Foi mesmo, governador?
                Para saber o verdadeiro caráter dessa operação, cabe aqui encarar de verdade os fatos que muitos se recusam reconhecer, mas saíram em vários noticiosos – fundamentados em bases de analistas devidamente qualificados.
                Cidade em risco – segundo a doutora em Segurança Pública da UERJ Jacqueline Muniz, a operação não teve planejamento adequado. Sem guarda municipal, o trânsito ficou caótico. O restante da cidade ficou sem policiamento, expondo 5 milhões de pessoas a uma situação de vulnerabilidade extrema e de medo potencializado por desinformações e boatos.
                A concentração desse contingente (de 2500 policiais) num único perímetro da cidade imobilizou efetivos policiais para além das pernas estaduais. Abriu brechas para [...] crimes violentos oportunistas e ataques pontuais e previsíveis de grupos armados em represália”, pontuou Muniz, que também já esteve à frente da SSP-RJ, no governo Cabral, por breve período.
                Calote de pânico – não foi só a população trabalhadora que se saiu prejudicada. Quem não gostou nadinha foram as empresas de transporte público. Os principais terminais foram palcos do pânico generalizado da massa que pulava as catracas tão logo algum trem, ônibus e barca chegava. Claro que muitos não pagaram.
                Qualificação policial– segundo Muniz, a força policial foi composta, em maioria, por “agentes generalistas que não trabalham em unidades especializadas e nem têm qualificação em operações policiais de alto risco” como essa, piorando o risco de vitimização de civis e policiais e de insegurança institucional. O que gera a suspeita de que o Bope treinou todos na pressa.
                Câmeras desligadas– os policiais estavam munidos de câmeras, que gravaram algumas imagens da operação na subida pelas ruas das comunidades e na mata, divulgadas pela mídia. Ainda assim, muito do conflito foi perdido. Segundo a SSP-RJ, a duração máxima da bateria é de 12 horas em uso contínuo, insuficiente para filmar toda a operação. MP-RJ pede periciamento dessas câmeras.
                Por outro lado, as imagens divulgadas pelo telejornalismo foram apenas a de policiais respondendo aos tiros que recebiam, abrindo suspeita de suposição heroica das polícias. Ou mesmo do governo estadual.  Será que os jornalões estão promovendo outro monstro “bolsonarista moderado”, como Tarcísio de Freitas?
                Vale citar aqui: uma câmera ligada revelou grupo de policiais que entraram numa residência e saquearam os poucos recursos alimentares ali contidos. Se estavam ali para uma operação de guerra que duraria horas a fio, por que não foram providenciadas provisões suficientes para as forças se alimentarem e se hidratarem por alguns momentos? Para quem não sabe, há pequenos intervalos em meio à tensão das batalhas. E roubar provisões de uma família só revelou o caráter pusilânime do grupo.
                Defensoria impedida– é unânime entre as fontes noticiosas o fato de que a Defensoria Pública Estadual foi impedida de acompanhar o trabalho da perícia. Se houve tal impedimento, certamente a única parte com tal autorização seria a SSP-RJ, a mando do próprio governo estadual. O que levanta suspeitas.
                Várias fontes apontam a proximidade entre Cláudio Castro e o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias, condenado e preso por, entre outros crimes, ter ligações com o CV. Dizem que a amizade acabou logo após a descoberta investigativa, mas a marca ficou.
                Vestes camufladas– se supõe que familiares teriam tirado roupas camufladas dos corpos na mata antes de descê-los na rua, para “ocultar provas”, o que explicaria alguns corpos só de cueca. Mas não há nenhuma menção da perícia sobre isso. E alguns vestiam bermudas, com sangue já escurecido.
                Se usaram roupa camuflada, os bandidos poderiam confundir os policiais de tocaia – também trajados assim. Além disso, dentro da mata eles usam roupa básica e revólveres potentes (evitam fuzis) para ter leveza e rapidez nas fugas com desvios, o que torna improvável o seu uso durante a fuga na operação.
                Mas, outra hipótese que rola é a de que os familiares teriam desnudado os corpos sem cabeça para facilitar o trabalho pericial do IML para identificação por DNA, impressões digitais ou marcas hereditárias, e confirmar as execuções sumárias – mancha indelével e infeliz que marca a história das forças policiais.
                Eram todos bandidos? – publicamente, só os policiais mortos receberam as condolências formalizadas nos discursos de políticos. “Dos mortos, só 4 não são bandidos”, disse Castro, em referência aos 4 policiais mortos no confronto. Como ele sabe que todos eram bandidos, se nem as próprias forças policiais os identificaram logo após o confronto?
                Quando 100 corpos haviam sido identificados, a lista nominal não havia sido publicada e o deputado Henrique Vieira criticou: “se já tem um número de identificados e um de liberados, por que isso ainda não é público? A única conclusão é que o Secretário ainda não autorizou”. Glauber Braga também acompanha de perto.
                De fato, a autorização da publicação é da Secretaria de Segurança Pública. Se foi decisão autocrática do secretário ou do governador, não sabemos. No dia seguinte ao massacre, a polícia disse não ter identificado no tiroteio, e depois admitiu 17 inocentes (hoje, 47!), e nenhum procurado entre os mortos.
                Lamento de fugas– na mesma entrevista coletiva concedida por Cláudio Castro após a operação, o secretário de segurança Victor Cesar Carvalho dos Santos lamentou: “não conseguimos capturar os chefes do CV”, sem contar os foragidos. Embora não apagasse o brilho dos olhos do governador, a fala afirma o fracasso operacional.
                Reportagem de várias mídias apontam que o próprio governo estima a fuga de mais de 200 integrantes do CV. Em 3/11, a própria polícia admitiu que dos 121 corpos, 17 eram de inocentes – hoje são 47. E nenhum era procurado. Pergunta-se: a operação destruiu o CV? Não! A facção já repôs com substitutos? A essa altura, Sim!
                O governo Castro reitera que planeja nada menos do que 10 novas operações nos morros cariocas. O escape admitido dos 200 ou mais criminosos é a justificativa oficial. Talvez o tiroteio do dia seguinte ao massacre seja, segundo o governo, a resposta desses fugitivos à operação. Mas não é só esse o motivo desse plano.
                Adversidades – quem tem um mínimo de leitura crítica dos fatos pode observar algumas incongruências. Não bastasse a denúncia de Henrique Vieira sobre a demora na publicação da lista de identificados pelo IML, a Defensoria pública apontou ter sido impedida de acompanhar a perícia. E se observou seletividade da imprensa.
                O perito forense pode ter qualquer formação superior, o que permite atuar em vários setores. Embora sempre acionado, ele tem, por lei, liberdade para trabalhar honesta e publicamente. Mas o desrespeito é comum: a Defensoria Pública-RJ disse ter sido impedida de acompanhar a perícia local e dos corpos.
                Outra incongruência é a já mencionada não autorização pela SSP-RJ na publicação da lista de identificados pelo IML, apontada por Henrique Vieira. E a terceira incoerência é a seletividade das notícias pelos jornalões, em especial sobre as imagens das câmeras: só foram mostradas as de policiais recebendo tiros.
                Impedimento ao acompanhamento da Defensoria no trabalho pericial, demora extensa na publicação da lista de identificados e seletividade noticiosa nos jornalões são fatos que denunciam a suspeita de interferência de autoridades do governo fluminense a respeito da operação. Mas a verdade sempre chega à tona.
                Decapitações– vários cadáveres apareceram sem cabeça, o que despertou a ira da população. Segundo especialistas e peritos, disparos à queima-roupa na nuca por arma potente e destrutiva podem decapitar – o que afirma a execução sumária relatada por moradores. Segue apuração.
                Vitimização– após tantas vítimas na história das operações policiais e do crime organizado, pesquisas recentes revelaram que a maioria dos cariocas apoia as operações policiais como melhor meio de combater a criminalidade. Mas, por trás disso há muita complexidade ignorada pela patuleia.
                Uso político e popularidade– após afirmar o “sucesso” da letalidade policial, Claudio Castro foi ovacionado na missa em que compareceu depois. Se sentiu flutuando em nuvens fofas de algodão. Não demorou para uma pesquisa de rua revelar o aprove majoritário dos cariocas à operação. Foi o suficiente para que o governador já se sentisse eleito senador.
                Apesar do lamento do secretário da SSP-RJ de que os principais chefes do CV nos morros conseguiram fugir, Castro reforçou, com acorde do secretário, que “haverá mais operações”. Tudo isso para um só objetivo: reforçar a sua mortífera popularidade até 2026, sem se dar conta de que muita água rolaria.
                O plano reforça a visão de Muniz de que as polícias viraram “mercadorias políticas manipuladas”, com suas vidas “tão barateadas quanto as vidas dos moradores das periferias de onde saiu a maioria dos agentes”. E dá sentido ao que revela a mãe de policial morto: “o governador sabia que não tem força para enfrentar o CV”.
                E também reforça a velha “guerra contra as drogas”, das instituições policiais e por governantes, como uma retórica apenas populista e mentirosa, que nasceu para o redundante fracasso – que se repete a cada operação, em qualquer lugar do Brasil.

Fria análise final: verdades não faladas e preço político –
                O aprove popular levantado na pesquisa feita pela AtlasIntel é verificado em todo o país, numa média pouco acima de 60%. Nas favelas, os índices são mais altos: 80% no país e 89% no Rio de Janeiro. Nada mais natural: a tensão e o medo constantes os fazem se perguntar, silentes, se verão o dia seguinte, a cada dia.
                É por conta desse clima constante, não surpreende que os maiores índices de transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade, estresse pós-traumático e pânico estejam nas populações faveladas. E, para piorar, suas mentes se tornam abertas ao populismo penal requentado durante os cultos pentecostais. É aí que mora o poder da negação dos governos fluminenses em ampliar atendimento público à saúde mental dos periféricos, uma vez que os CAPS estão lotados desde a psicopática era Bolsonaro.
                Ironicamente, as igrejas que radicalmente criminalizam as meninas e mulheres que porventura abortem (mesmo espontaneamente, não importa o fator) são as mesmas que, mais tarde, pregam o “bandido bom é bandido morto” – mesmo se são menores de idade ainda na infância ou adultos feitos, não importando se são inocentes ou envolvidos com o crime, mas não constados nas lista de caças da polícia.
                Além da politização, a operação também desperta outra forte suspeita: a de acordo de cavalheiros. Há relatos de que os primeiros tiros na madrugada foram uma reação da facção à entrada das forças policiais nas comunidades. E há relatos consistentes de invasão ilegal e violenta de domicílio por policiais, com detenção de moradores que filmaram tal ato.
                Vale frisar que o maior controle de uma orcrim é sobre a população, na qual impõe medo por ameaças e violência. E o que explica porque as orcrims nunca são derrotadas em operações policiais é a parceria de suas cúpulas com o próprio Estado – mediante alianças com a classe política. E isso é uma tradição.
                Desde a ditadura militar se observa a intocabilidade dos grandes bicheiros, protegidos pela polícia fluminense e próximos de políticos e de outros segmentos da elite. O mesmo se observa entre as facções do narcotráfico e mesmo das milícias, hoje. Todas essas organizações criminosas se mantêm incólumes porque têm parceiros no Estado.
                Ideologia da vítima– quando o atual ministro da Secretaria da Presidência Guilherme Boulos fez 1 minuto pelas vítimas fatais, muita choça foi feita sem olhar adequado. Em operações, policiais e bandidos são vítimas uma parte da outra. E, no meio do fogo cruzado, o povo pobre trabalhador é mais vítima ainda, por estar refém das partes inimigas.
                Na prática, em silêncio quase palpável, todos estão no mesmo balaio de um sistema autoritário de cúpulas do capital que integra orcrims, política, mercado e o próprio Estado. Como disse Muniz, as linhas de frente – povo, soldados das polícias e do crime organizado – são vidas baratas, abundantes e substituíveis.
                A maior vítima disso tudo é o povo inocente, que divide a labuta exaustiva e mal remunerada, insegurança, violência, ausência do Estado e fronteira entre bem-estar e doença mental ao chorar por outro ente amado morto arbitrariamente após a perda anterior – após servir às vontades preguiçosas de seus ricos patrões. Ele não é vítima só dos bandidos que dominam o morro e da polícia. É vítima do sistema.
                Lucro das facções – como as milícias, facções do tráfico fornecem serviços “legais” (transporte, gás, eletricidade, gatonet, segurança) a preços extorsivos, indicando que o tráfico sozinho não dá o lucro exuberante para a maior parte dos integrantes. A maior parte do lucro do tráfico vai para a camada do cimo da estratificada pirâmide social do crime, a cúpula que ninguém vê.
                As bases da sociedade do tráfico nos subúrbios aprenderam com as milícias a extorquir os moradores com tais serviços. O poder político foi aprendido com bicheiros, que também investem nas bets. Formadas por ex-agentes públicos, as milícias já são a versão enviesada do próprio poder público, daí serem intocáveis pelos governadores. Daí a suspeita forte de que a operação Contenção de Cláudio Castro tivesse ocorrido com o objetivo de expulsar o CV e o TCP para entregar os territórios aos milicianos. Ao invés de o próprio Estado oficial tomá-los e desenvolvê-los.
                O preço da operação política – no epílogo deste longo artigo, a repercussão profunda e global da operação fez o STF retomar o julgamento da ADPF das Favelas, com normas sobre operações policiais nas periferias urbanas. Políticos bolsonaristas criticaram a ADPF replicando mentiras que foram disseminadas entre apoiadores fanáticos.
                E não parou aí: Xandão exigiu que Castro ordenasse a preservação das provas periciadas e a continuidade da investigação. E ainda exigiu amparo psicológico e material às famílias prejudicadas pela operação. Por sua vez, o TSE estuda julgar o processo que pode resultar em cassação do mandato da chapa Castro-Curi.
                Nesse processo, um dos motivos é o vazamento midiático da informação de, antes da operação, o governador ter enviado a proposta do CV terrorista a Donald Trump, para os EUA interferirem no Brasil. O fator desse envio é o reforço no já crescente poder do CV ao se juntar ao PCC no mercado financeiro e no de apostas (bets).
                Como já se sabe, o poder adquirido pelas facções traficantes – assim como o das milícias – se deve a décadas de alianças com altos escalões da política, do judiciário e do setor empresarial. Além do maior arsenal bélico, as facções aprenderam com o mercado financeiro como alimentar o seu poder.
                E nesse histórico repetido de fogo cruzado, os maiores derrotados não são as forças de segurança ainda na oficialidade.  São os moradores periféricos, entre os quais alguns que vivem entre o orgulho e a ansiedade diante de seus pupilos fardados, com sério risco de morrerem ou de serem engolidos pelas perigosas facilidades do lado B do Estado. E, em mais um conflito entre as forças policiais e os bandidos, quem venceu foi o crime organizado. 
                 Enquanto as comunidades periféricas rezam com esperança de que essa repetida e derrotada política contra as drogas acabe um dia, nos vemos a pergunta: para satisfazer esse desejo popular, existe solução? A resposta mais adequada é: para curto prazo, não. O melhor caminho é o rompimento das alianças viciadas já citadas – mas como as autoridades, que tantas vezes compartilham o lucro do crime, terão coragem para tanto, ainda não sabemos, nem em longo prazo. Enquanto isso, o crime organizado junta todos os troféus das "guerras contra as drogas".

Para saber mais
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sábado, 25 de outubro de 2025

ANÁLISE- Serviço público: moderno ou precário?

 

Reflexão

                Todo país tem Estado. Todo Estado tem basicamente 3 poderes: executivo, legislativo e judiciário, cujos níveis variam com o regime político. E quem dá vida e funcionalidade ao Estado são os servidores públicos, para os quais o governo responde com salários através de impostos pagos pela população.
                Ok, nós já sabemos disso. E, acreditem, esse sistema organizado existe desde as cidades-Estados das primeiras civilizações urbanas. Desde então, o setor público foi muito modificado, com diversidade de serviços prestados e entidades correlatas e a instituição e regulação dos vínculos trabalhistas.
                Na 2ª Revolução Industrial (séc. XIX), atividades lucrativas foram reguladas legalmente como empresas, com incentivo fiscal como feedback do governo aos empregos ofertados. Com isso, os empresários assumiram não só poder econômico: é também político, influenciando na seara pública.

Brasil – 
                O breve histórico acima vale para o contexto brasileiro. A partir de 1943, Vargas universalizou para empregados públicos e privados a sua recém-criada CLT. No setor público, o então robusto decreto trabalhista foi reforçado na reforma administrativa 200/1967 e virou regime jurídico único (RJU) em 1990.
                O RJU ou estatuto do servidor público (lei 8112/1990) foi uma resposta ao previsto na Carta-1988 e se tornou obrigatório para a admissão de servidores efetivos por concurso público de provas e títulos. Ele garante a estabilidade trabalhista que aufere aos contemplados a segurança jurídica contra perseguições políticas em descoberta de irregularidades.
                Mesmo assim, jornalões e governos reféns do mercado veem na estabilidade um “símbolo de ineficiência e de obsolescência”. A partir dos anos 1990, os governos anunciaram reformas estruturais como automação dos serviços. Sim, isso aconteceu, mas trouxe junto uma enxurrada, não regulada, de contratos de terceirização.

                Ventos privatizantes – em 2024, o STF validou a emenda constitucional de 1998, que previa o fim da obrigatoriedade do direito público como regime trabalhista para contratação efetiva por concursos públicos. Antes restrita e sem regulação legal até a sanção de Temer em 2017, a terceirização (CLT) passou a ser o meio mais comum de contratação em serviços públicos essenciais.
                Entre os cargos de formação específica, como na saúde e na educação, a substituição de efetivos por profissionais temporários (terceirizados privados ou da União-CTUs) gera o risco de precarização em tarefas mais complexas. Não por incompetência, e sim falta de tempo de devida à alta rotatividade. Cada um tem seu tempo.
                Os serviços de natureza administrativa têm sido os mais afetados, e isso é arriscado. Na compra fraudulenta da Covaxin exposta pelo servidor do Ministério da Saúde Luís Ricardo Miranda, na CPI da C19, a estabilidade o salvou da exoneração, apesar do assédio moral. Mesmo diplomado, um terceirizado só mantém seu emprego se obedecer aos interesses dos seus superiores.
                Além disso, os servidores efetivos são, na prática, mais baratos para as contas públicas do que os trabalhadores terceirizados. Estes são verdadeiras minas de ouro para as empresas empregadoras, que cobram até 5 vezes o valor salarial básico per capita – o que fomenta a forte suspeita de corrupção empresarial sobre os poderes públicos.
                Ainda assim, os políticos querem reforma administrativa. Após a draconiana PEC 32/2020, que previa fim do RJU e da estabilidade mesmo de servidores atuais, a PEC de Lula 3 mantém o RJU, mas prevê ampliação das contratações temporárias de direito privado (CLT ou mesmo pejotização), e médias salariais menores de novos servidores. Os efeitos disso a longo prazo são imprevisíveis, daí a preocupação dos servidores atuais.

                Em fria análise final, modernizar serviços públicos virou pretexto para justificar a privatização dos mesmos. Mesmo sem abstenção total do Estado comum na era FHC e, hoje, alguns governos estaduais neoliberais radicais, o governo atual privatiza a gestão de instituições diretamente essenciais ao povo.
                A aparência ampla e polida das instituições privatizadas gera na população usuária a falsa impressão de eficiência mascarando uma realidade de péssima remuneração, alta rotatividade, assédios e intensa pressão das chefias, muitas vezes por metas impossíveis de atingir, e mesmo a suspeita de corrupção nos altos escalões. Daí refletirmos muito sobre a tal modernização pública.
                Além de estrutura física adequada com a automação, modernizar poder público abrange estabilidade empregatícia, capacitação e valorização funcional, e servidores RJU livres de perseguição política ao descobrirem eventuais fraudes. E, finalmente, requer gestores qualificados e éticos em relações com quadros funcionais e com usuários.
                Em suma, modernizar não é privatizar as instituições por inteiro ou conceder a sua gestão para a iniciativa privada. As péssimas experiências vistas nos modelos privatizados nos revelam a verdade dos fatos, marcada pela precarização da prestação dos serviços para a população,  e da corrupção dos altos escalões.

Sal Ross
                












CURTAS 102 - ANÁLISES (Charlie Kirk, terror de Trump)

 

O NOVO MÁRTIR DA ULTRADIREITA

                Brasília, 11/9/25: o ex-presidente Bolsonaro e mais 7 réus do comando da intentona do 8/1, 6 dos quais milicos, foram condenados pela 1ª turma do STF. Desesperados, os parlamentares bolsonaristas criaram mais furdunço pela PL da anistia dos golpistas e a PEC da impunidade.
                Mas um fato incendiou o forte clima político de Brasília: jornais noticiaram o homicídio do influenciador político estadunidense Charlie Kirk, durante sua palestra no pátio de universidade em Utah. A bala acertou o pescoço de Kirk, que bateu as botas a caminho do hospital.
                Nas investigações iniciais, a polícia prendeu o jovem Tyler Robinson, entregue pelo pai. Diante das lacunas encontradas no depoimento do rapaz e da incerteza de testemunhas, a polícia o mantém detido como suspeito enquanto ainda rastreia a autoria criminal pelas circunstâncias.
                Por ter ocorrido nos EUs, o fato chegou ao Brasil reverberando com profundidade e alimentando conspirações enquanto os investigadores estadunidenses apenas têm um suspeito em mãos. Mas, por que os bolsonaristas conspiram tanto em torno de uma história ainda em investigação?
                Quem foi Kirk – Charlie Kirk seria só mais um não fosse a febre política. Incialmente radialista moderado, ele se tornou um influencer extremista, ultracristão e defensor da supremacia anglo-saxônica e sociedade homogênea com milhões de seguidores. Era casado e pai de 2 crianças.
                Relevância – a relevância está muito mais na conexão ideológica entre bolsonaristas, Trump e Kirk do que a morte deste último. A ligação tem muito a ver com as prioridades políticas da ultradireita, que se distanciam da necessidade de bem-estar social e agudizam o ultracapitalismo.
                A relevância também está na suposta ideologia do assassino. Enquanto simpatizantes à direita o acusam de ser extrema-esquerda, grupos de esquerda dizem o contrário. Vasculhando comentários em postagens nas redes de Kirk, a polícia percebeu que alguns o consideravam moderado.
                Em fria análise, cabe dizer que, ao contrário do Brasil, os EEUU não criminalizam o nazismo e seus correlatos. Já houve manifesto de neonazis em rua de um bairro judeu de Nova Iorque, sem nenhum incômodo policial – bem diferente dos reprimidos movimentos de esquerda.
                Apesar de Kirk defender a supremacia branca, não está claro se ele era antissemita. Daí a polícia apostar na ideologia do assassino ser extremista. Tyler Robinson se disse mais à direita do que a família, sem mencionar antissemitismo. O que pode ser uma pista importante.
                Spoiler: o ódio antissemita não se restringe aos judeus. Ele se estende a todos os descendentes da cultura Sem (referência ao filho de Noé no mito bíblico), um povo do Neolítico tardio que viveu na então fértil Península Arábica (de 10.000 a 5.000 antes da era comum).
                De qualquer forma, para Trump, Kirk já está na sua galeria de mártires, e no sentimento dos bolsonaristas. E, pela política externa estadunidense se arrogar em dominar o mundo, isso é muito perigoso para o delicado equilíbrio da balança geopolítica global.
Referências
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O TERROR SEGUNDO TRUMP

                No Brasil, terrorismo é “ação premeditada e deliberada contra a ordem pública e o patrimônio” por motivos variados de ódio, inclusa a diversidade social, cultural-religiosa e política. A ONU o define como “ato para invocar terror público por motivos e fins políticos”.
                Donald Trump criou seu conceito de organização terrorista. Antes da morte de Charlie Kirk, ele incluiu o narcotráfico sul-americano. Após o assassinato, grupos antifascistas (“antifas”) entraram na lista. Excluiu os fundamentalistas cristãos e judeus, mas mantém os islâmicos.
                Lula 3 discordou baseando-se na legislação e na autodeterminação dos povos. Trump contradiz a lei e prega islamofobia e arabofobia. E ainda mente omitindo a destruição sistemática de escolas, hospitais, igrejas e mesquitas palestinas pelas forças de Israel.
                Narcotráfico e milícias – a visão trumpista de narcotráfico terrorista pode ter sentido, por haver ligações entre políticos e líderes de facções poderosas. Aí entram também as organizadas milícias, que ameaçam e extorquem geral impondo clima de tensão constante nas comunidades.
                É uma bomba-relógio que explode em tiroteios gerando caos social local. As orcrims então são terroristas? Se coincidir com as especificações da nossa lei, sim. Mas, pelo eco midiático, elas podem sê-lo internacionalmente? Só o Direito Internacional dirá.
                A contaminação do terreno político pelo crime organizado ameaça o funcionamento institucional adequado, com ameaças de destruição e bombas, para terem mais poder e controle. A depender do momento, elas podem, sim, assumir perfil terrorista, conforme a nossa lei.
                Fundamentalistas- são radicais. No viés religioso, os islâmicos são mais conhecidos aqui. Mas grupos organizados cristãos e judeus também impõem terror pelo ódio, mutuamente. No viés ideológico há movimentos extremistas à direita e à esquerda com ódio mútuo.
                Radicais islâmicos odeiam cristãos e judeus. Judeus atacam islâmicos e cristãos. Na presente guerra, fanáticos judeus militares bombardearam todas as mesquitas e igrejas palestinas. A guerra católico-protestante é secular. No Brasil, cristãos depredam terreiros de axé.
                Um exemplo fático de terror ideológico considerando-se nossa legislação é a intentona golpista de 8/1/23: depredação de patrimônio tombado por puro ódio, como ponto culminante do inconformismo com a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022.
                Antifascistas (antifas)– são correntes antiautoritárias não organizadas. Democráticos na essência, em parte veem o Estado como fonte do autoritarismo. Eles podem tanto propor quanto seguir manifestos populares contra a repressão política e/ou institucional.
                O que não impede uma visão controversa sobre eles. No Brasil, parte da elite os considera radicais, não só por condenarem toda forma de extremismo, mas também por criticar os governos que se curvam aos caprichos do mercado, que, sim, também pode ser extremista.
                Em fria análise final, a inclusão do narcotráfico como terrorista por Trump pode fazer sentido. Mas, com cautela. Alguns líderes políticos conhecidos têm ligações com grupos criminosos, que podem incitar ações terroristas em situações muito específicas.
                A alegação de Trump de serem narcotraficantes carregando drogas em pequenas embarcações atacadas pelos EUs em águas internacionais, sem provas, não cola. As imagens não provam nada da sua fala. Quem realmente está invocando terror aí? Com certeza, não são os barqueiros.
                A exclusão de radicais cristãos da lista de Trump tem motivação clara: sua campanha teve forte impulso do pentecostalismo, que mantém o caráter fascista dos tempos de McCarthy, e envia missionários patrocinados para a América do Sul visando a dominação política e religiosa.
                O viés democrático dos antifas destitui de sentido a inclusão deles como terroristas por Trump. Mas a razão dele é objetiva: ele quer calar a oposição ao seu governo. Mas o que mais o incomoda é que os antifas revelam, nos manifestos pelos EUs, que ele próprio é o grande terrorista.
Nota:
¹se refere o personagem Abrahão, personagem constado no Talmud judeu, no antigo testamento bíblico e no Alcorão.
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sexta-feira, 24 de outubro de 2025

CURTAS 101 - ANÁLISES (os aporofóbicos, fintechs)

 

OS APOROFÓBICOS

                Dizem que o bolsonarismo e o MBL não se concordam. Ledo engano: ambos são duas faces da ultradireita nazifascista. Deputado federal, Nikolas Ferreira é conhecido por seu ódio contra minorias étnicas, sexuais e não cristãs. Fundador do MBL, empresário e influencer, Renan Santos não faz nada diferente nas redes.
               O mineiro filho de empresário da fé e o paulista almofadinha se juntaram para revelar seu ódio aos periféricos urbanos. Vamos a Diadema.
                 Diadema é uma das cidades do Grande ABCD (Grande São Paulo) industrial, que abrange Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Enfrenta – também – problemas típicos como degradação ambiental, criminalidade, pobreza e favelização.
                 Mudanças – entre 2016-19, periferias de Diadema foram reestruturadas com o modelo de casas-cubo de 2 andares para famílias até 4 pessoas. Com os anos, algumas famílias tiveram carros que, então ao ar livre, se sujeitavam a roubos ou desmonte, outras famílias aumentaram. Só restou uma saída: ampliar os imóveis.
                 À frente, garagens, acima, sobrados. Marca típica, os tijolos expostos se tornaram os objetos do desprezo viral de Renan e Nikolas aos periféricos nas redes.
                Ação e reação – Renan Santos foi o primeiro a se pronunciar. Negando os fatores de origem e de continuidade da pobreza, ele disse que “eles têm a mentalidade de favela”. Seguindo essa linha, Nikolas se manifestou no X apresentando teor de ódio e que teve 5 milhões de visualizações e comentários preconceituosos.
                No post, duas fotos, uma das casas-cubo originais; e outra recente, já com as modificações de tijolos expostos. Apontou a pobreza como problema moral: “falta caráter, espírito, cultura”, negando fatores socioeconômicos. Renan Santos enfatizou que “não adianta fazer nada, eles têm mentalidade de favela”.
                Reação dos moradores – claro que a indignação tomou os moradores locais. Se a midiatização do endereço já não foi agradável em si, a depreciação foi pior, conforme reportagem do Intercept Brasil. “Eles não conhecem a nossa luta diária” e “eles nunca trabalharam, não sabem nada” foram as respostas mais comuns.
                Eles contaram que, em dias chuvosos, as casas-cubo apresentavam problemas estruturais como goteiras, ou não protegiam o suficiente contra o frio. Uma moradora contou foi construído um sobrado para abrigar a avó e a mãe que perderam sua frágil casa em outro local após uma enchente.
                O ex-prefeito à frente do programa habitacional relatou que as casas foram projetadas como “abrigos dignos” aos que então moravam em barracos precários, alguns no meio da rua. E admitiu que não houve consideração pela possibilidade de mudanças futuras na vida dos moradores.
                Em fria análise, o manifesto de Nikolas e Renan não surpreende. Eles são reflexos da cultura elitista, que molda o comportamento da sociedade, apesar dos mais abastados dependerem dos seus empregados pobres para comprar um pão sourdoug na padaria dos bairros ricos.
                Mas o fato de eles serem reflexos da cultura elitista não justifica a sua perpetuação. Aversão ou medo de pobres, a aporofobia é como racismo: é crime e merece ser punido, não importa a condição financeira nem o papel social dos responsáveis. O destino final será o mesmo: todos na irmandade dos túmulos.
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POR TRÁS DO PIX, AS FINTECHS

                O pix resolveu muita cefaleia financeira dos brasileiros. Apesar da vinculação à conta bancária, ele facilita movimentações em tempo real sem taxa, sem que os trabalhadores precisem interromper seu expediente para ir aos bancos físicos (mas estes continuarão existindo para pautas específicas).
                Se facilitou para a patuleia trabalhadora, os bancos estão felizes. A soma do total movido desde sua instituição alcançou a marca de R$ trilhões, nunca antes imaginada na nossa história. Mas há inconformidade proporcional, percebida pelo governo na arrecadação registrada pela Fazenda.
                A arrecadação de menos de R$ 3 tri de arrecadação anual não acompanha o ritmo alucinante das transações financeiras. Os grandes bancos lucram dezenas de bilhões de reais livres. E as marcas de dezenas de trilhões em pix afirmadas pelos próprios e percebidas pelo governo? Incomoda.
                Fiscalização e mentiras – quando Lula 3 lançou medida que autoriza a Receita fiscalizar valores pix acima de R$ 5 mil, a ultradireita se moveu. Nikolas Ferreira viralizou a falácia de taxar pix até R$ 5 mil, cujo efeito geral que fez o governo errar em recuar já sabemos.
                Enquanto o governo luta para conseguir a sonhada justiça tributária na renda, a PF estoura o gigantesco crime financeiro envolvendo PCC, políticos, Faria Lima, bets e as virtuais fintechs, do tipo Nubank. E em meio a essa descoberta se viu uma estranha coincidência.
                Pra cima das fintechs – a PF descobriu que o pix foi o formato da transação criminosa e o volume cresceu após o vídeo de Nikolas, conforme descrito no artigo O porta-voz do crime, neste blog. Não por acaso, a nova MP do governo federal agora mira as fintechs.
                As fintechs não são ilegais. Mas não são reguladas, não patrocinam eventos populares, não pagam R$ 1 de imposto e movem muita grana não fiscalizada. Daí a MP do governo. O problema: mexe com interesses de muitos no Congresso. Daí o nervosismo que levanta suspeita.
                Análise final – não por acaso, a condição “anômala” das fintechs facilita o envolvimento de algumas em crimes financeiros gigantes. Se o vídeo de Nikolas teve, ou não, algum propósito relacionado ao esquema, cabe à PF investigar: Acusação, só institucional,  só com prova material. Coincidência? Impossível responder.
                Agora, quanto ao deputado, se a maioria no Congresso tivesse vergonha na cara, Nikolas já estaria sabatinado a um Conselho de Ética ideologicamente diverso e não monolítico na ultradireita como este que arquivou o processo contra Eduardo Bolsonaro.
                Por isso o governo tem toda a razão em se preocupar com a inconformidade descrita no início deste texto, e daí regular as fintechs como o são os bancos e tributá-las. Mas, claro, insistir em tributar também o topo social, pois o povo cobra justiça tributária.
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ANÁLISE: Himalaia: o alerta global

                      A Terra é um planeta dinâmico. Entre os leigos, toda cadeia de montanha é quase uma coisa só. Mas geógrafos e geólogos...