sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Análise: não bastam os ossos, tem miséria menstrual

 

        O presidente Jair Bolsonaro sancionou essa semana o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual (Lei 14.214), que foi elaborada pela deputada Marília Arraes (PT-PE) em 2019 e desde então tem sido discutida pela bancada feminina da Câmara.
        Entretanto, o aprove da referida lei foi teve um veto do presidente da República, justamente o artigo que previa a distribuição gratuita de absorventes a estudantes de baixa renda e mulheres em vulnerabilidade social.
        Apesar do aprove, o veto foi bastante impactante para Marília Arraes e a relatora Zenaide Maia (Pros-RN). O motivo disso é que a distribuição gratuita a esses grupos mais vulneráveis era um dos destaques da lei, dado o objetivo de combater a precariedade ou pobreza menstrual.

Pobreza menstrual

        Por pobreza menstrual se define a condição de adolescentes e mulheres em situação de forte vulnerabilidade social, como renda insuficiente para a compra de absorventes ou falta de acesso por ser moradora em situação de rua. 
        A pobreza menstrual é consequência direta e natural da própria vulnerabilidade socioeconômica, que ocorre em todo o mundo. Se na África e na Ásia há mais massas migratórias por razão de guerra, degradação ambiental ou violação de direitos, no Brasil cresce devido ao acirramento da concentração de renda, e perda de direitos.
        A pobreza menstrual se agravou com a pandemia de C19, e entra como mais um fator de risco a configurar a sindemia de C19. Vale relembrar: sindemia é a doença complicada por fatores prévios e predisponentes ao seu agravamento (vulnerabilidade socioeconômica, comorbidades, idade avançada, cultura específica. etc.).
        A relatora do então PL lembrou que uma a cada quatro adolescentes deixa de comparecer à aula presencial por estar menstruada e não ter acesso a absorventes e produtos de higiene, por conta de sua vulnerabilidade socioeconômica. Isso, no Brasil.

Lei 14.214/2019

        Diferentemente das propostas e leis em geral, o ainda PL já nascera como um texto bem conciso e curto, dotado de apenas oito artigos simplificados, que atestavam a objetividade clara e direta em duas direções: a promoção à saúde e uma extensão assistencial às meninas e mulheres em vulnerabilidade social.
        O ainda PL constava na sua previsão, além de medidas visando a promoção da saúde menstrual, a garantia de aceso gratuito a absorventes e acessórios para higiene feminina, no seu objetivo mestre de combater à precariedade menstrual, que é a soma da pobreza menstrual e acesso ao programa de promoção da saúde.
        O leque objetivo do PL teria caráter de promoção à saúde feminina e também assistencial. Essa junção se somaria no combate à precariedade menstrual, que tem crescido com o empobrecimento que assumiu uma velocidade recorde na era Bolsonaro.
        Vetos polêmicos- Ao sancionar a Lei, Bolsonaro vetou o artigo referente ao acesso gratuito de absorventes e produtos de higiene feminina, e o outro artigo, o 6º, que apontava as beneficiárias da gratuidade. 
        Outro artigo também vetado foi o 5º, que versava sobre as despesas desprendidas pela União ao SUS, para a aquisição dos novos insumos, que entrariam no rol como "específicos" para a saúde feminina.
        O veto não impediu a manutenção do Art. 2º da lei, que acaba sendo o cerne central que trata da institucionalização do Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual como uma estratégia de promoção à saúde feminina.
        Neste artigo, o governo alegou que absorventes estão fora dos insumos-padrão do SUS, e também da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename). A lista de beneficiárias foi considerada pelo governo como "contrária ao princípio da universalidade do SUS". 
        O alcance social da lei sancionada se restringe às ações, informativas, preventivas e de promoção da saúde pelo poder público (SUS) contidas no Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, de modo a prevenir meninas e mulheres das más consequências sobre a saúde feminina.

Reflexões

        O veto de Bolsonaro ao Art. 1º, que versava sobre a oferta gratuita às socialmente vulneráveis, não atingiu o Inciso I do Art. 2º da referida lei, que define a precariedade menstrual como "falta de acesso a produtos de higiene e a outros itens necessários ao período da menstruação feminina, ou a falta de recursos que possibilitem a sua aquisição". 
        Parece ironia que tenha sido mantido, pois o objetivo do veto foi justamente impedir o acesso dos insumos para as meninas e mulheres socialmente vulneráveis, que define o objetivo assistencial do projeto. 
        Das duas, uma: ou foi um escape despercebido no momento do veto, ou uma interpretação diferenciada por parte do presidente e dos ministros Guedes (Economia) e Milton Ribeiro (MEC). É muito mais certa a segunda hipótese, uma vez que o veto do Art. 6º dissolveu a especificação tácita das beneficiárias potenciais.
        Essa análise crítica se recai sobre dois pontos necessários, ligados às alegações do governo sobre os vetos: a) os absorventes não integram o rol dos insumos-padrão do SUS; e b) a especificação de beneficiárias contradiria o princípio da universalidade do SUS.
        De fato, eles não se incluem na lista-padrão, mas o projeto previa o rol de "insumos especiais" ou "para beneficiárias específicas" a ser incluído no SUS, o que, por si, já dissolve a alegação do governo. Já em relação à Rename, a alegação se faz razoável, pois absorvente não é medicamento.
        Já a especificação de grupos beneficiários não fere necessariamente a universalidade do SUS, pois o então PL já dava a entender que o acesso aos absorventes se estenderia às hospitalizadas em condição menstrual, independente de ser, ou não, socialmente vulnerável.
        Já existem ferimentos, ocasionados pelos gestores em saúde pública ou pelo MS, ao princípio da universalidade do SUS, impedindo a pronta prática do mesmo. Alguns hospitais públicos adquirem fraldas geriátricas para serem usadas em pacientes internados, e outros não, indicando lacuna legal. 
        Daí ser comum usar fraldas geriátricas em internadas menstruadas, justamente pela ausência de absorventes para essa condição específica. E daí haver custo elevado devido a trocas muito frequentes, uma vez que, mesmo menstruadas, as pacientes urinam e eventualmente defecam, arriscando infecção.
        A inclusão de absorventes para fins específicos (hospitalizadas menstruadas e cessão àquelas em risco social) no rol de insumos especiais do SUS pode aliviar os altos gastos com fraldas geriátricas, que seriam utilizadas apenas para os pacientes muito dependentes, que necessitam de uso constante1 delas.
        Intenções do governo: já é de amplo conhecimento que as citadas alegações do governo não são mais credíveis para a maioria popular. Pois desde o início o governo tem agido para a deterioração paulatina dos serviços públicos essenciais e da economia. 
        Tal deterioração parte dos cortes profundos e sucessivos de recursos de serviços essenciais, da privataria de estatais e demissões em massa. Aprovado em comissão especial, o trecentésimo texto da PEC32 está nas mãos do plenário da Câmara, apesar da pressão das representações dos servidores públicos.
        Apesar da vacinação, a sindemia de C19 continua sendo usada pelo governo para causar nova onda da doença e, daí, novo esgotamento na saúde pública e novas atividades nazistas na saúde privada. Um ministro da saúde que xinga populares em outro país vai se preocupar com saúde feminina?
        Claro que não. E, para completar, que o diga Paulo Guedes que tanto depreciou a nossa economia, que reduziu o poder alimentar popular a fragmentos e ossos. Claro que não vão bastar os ossos, valerá a miséria menstrual para completar o quadro, Tudo faz parte do projeto.
        
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Imagens: Google (montagem autoria do artigo)

Notas da autoria
1. Uso temporário ou permanente, em internação hospitalar.

Para saber mais
- http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/Lei/L14214.htm#:~:text=L14214&text=Institui%20o%20Programa%20de%20Prote%C3%A7%C3%A3o,essencial%20o%20absorvente%20higi%C3%AAnico%20feminino. (lei 14.214 de 2019, por planalto.gov.br)
- https://www.opovo.com.br/noticias/politica/2021/10/07/bolsonaro-veta-distribuicao-gratuita-de-absorventes-a-mulheres-pobres.html
https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/10/07/bolsonaro-veta-distribuicao-de-absorventes-a-estudantes-e-mulheres-pobres

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Análise: Viraremos zumbis de offshore?

        Neste 3/10/2021, surgiu nas diversas mídias notícia sobre as ligações do ministro da Economia (ME) Paulo Guedes com empresas brasileiras e no exterior, produzindo capital volumoso em dólares em pouco tempo. Ele investe em seu próprio nome e no de sua esposa. 
        A descoberta foi feita pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, em inglês), que também aponta políticos e gente de alto escalão do governo como o presidente do Banco Central (BC) Roberto Campos Neto, neto de Roberto Campos, deputado privatista já falecido.
        Não seria nada demais, pois investir no exterior não é ilegal em si, não fossem detalhes como as relações entre o ME com os envolvidos no descalabro exposto antes pela advogada Renata Morato na CPI, e o fato de que o ME seja chefiado pelo próprio Guedes como ministro, que é uma função pública e causa furor.
        Mas, por que tanta midiatização do tema? O que o depoimento de Morato sobre as relações tem a ver com isso? Há muita coisa em jogo, e procurar refletir as possibilidades é o objetivo deste artigo.

Entendendo um pouco a seletiva agressividade de Guedes

        Paulo Guedes já foi explorado em outros artigos deste blog, desde a biografia até a formação em Harvard e seu apreço à economia anarconeoliberal, que lhe dá fama de investidor agressivo, com certa razão, na forma como se investe na fonte de recursos. Uma agressividade bem seletiva.
        O investimento é agressivo quando vai sobre a fonte para obter os recursos para si. No mercado financeiro, a vendida "necessária mitigação do Estado" explica a forte apropriação de recursos desta fonte. Há duas maneiras: expansão de atividades em outro país, e a privataria.
        Na expansão de atividade econômica, a nossa legislação garante subsídios fiscais por certo prazo. Quando os subsídios extrapolam o prazo legal, a empresa lucra um extra nem sempre declarado, para investir em paraíso fiscal, na conivência do governo. É uma agressividade que Guedes assente como crescente econômico disfarçado de motes populistas. 
        A privataria é uma eficiente apropriação de serviços e recursos de instituições antes públicas. Os recursos são mais volumosos e os métodos de obtenção, mesmo duvidosos, estão mascarados pela lei. Essa prática neoliberal é ainda mais agressiva.
        Mas a agressividade acaba quando o grupo financeiro alcança a meta de acumular capital. Aí, ele se torna conservador, para conservar e acumular mais dinheiro - em paraíso fiscal. O que Guedes vê como sucesso econômico. Uma filosofia aberta aos negócios externos, de offshore.
        E quando se fala em paraíso fiscal, se fala em offshore, que é investimento em empresa, conta ou ação no exterior. Como no capitalismo financeiro o vale-tudo é norma, a empresa pode ser fantasma, como aquela em Bali envolvida na tramoia bilionária com vacinas da Covaxin.
        A reportagem sobre essa conexão da família Guedes, de Roberto Campos Neto, empresários e políticos brazucas com negócios situados em paraísos fiscais faz parte do projeto Pandora Papers, do próprio ICIJ, que reúne mais de 600 profissionais de 117 países e territórios e 150 veículos.
        Breve histórico- tudo começou em 2014, quando Guedes, então sócio da gestora de recursos Bozano Investimentos, fundou a sua Dreadnoughts International, nas Ilhas Virgens Britânicas, paraíso fiscal no Caribe, como estratégia para escapar das turbulências ligadas à reeleição de Dilma Rousseff. 
        A citada offshore surgiu em setembro com US$ 8 milhões, correspondentes a quase R$ 50 milhões hoje, com pai e a filha Paula juntos. Em 2015, a esposa Maria Cristina entra como acionista e diretora, subscrevendo (transferindo) mais US$ 1,55 milhão, totalizando US$ 9,55 milhões.
        A abertura da offshore da família Guedes foi feita pela assessoria especializada Trident Trust, com informes ultraconfidenciais.  Quando a esposa de Guedes entrou, a documentação foi transferida para a funcionária do Crédit Suisse em Atlanta, EUA, conforme mensagens escritas trocadas entre elas.
        Até 28/9/2021 Guedes foi controlador da Dreadnoughts International, à qual se relaciona a maior parte dos 11,9 milhões de papeis do Pandora Papers, com informes como certificados de acionistas em nome de beneficiários, justificativas de aberturas de empresas, comprovantes de aportes de recursos, e e-mails de funcionários encarregados da criação de offshores.
        Outros nomes- a verificação da montanha de papeis relaciona, além de Guedes, os ministros da Economia de Gana, Cazaquistão e Paquistão em offshores. Em países desenvolvidos a coisa explode: a investigação Panama Papers de 2016 ferrou a carreira política de David Cameron, do Reino Unido.
        Roberto Campos Neto criou sua offshore em 2004 com US$ 1,09 milhão, R$ 5,8 milhões hoje, e a fechou oficialmente em outubro de 2020, com capital ignorado devido a aumento do limite mínimo de transferência para US$ 1 milhão, e à má transparência das transferências brazucas. No controle privado tendo cargo público por 1 ano e 10 meses, ele poderia ser enquadrado na lei. 
        Além de Guedes e Campos Neto, outros nomes envolvidos em investimentos em offshores são os donos da operadora de plano de saúde Prevent Senior, envolvida na sujeira nazista com kit-C19; Flávio Rocha, dono das lojas Riachuelo; e Luciano Hang, o famoso Véio das lojas Havan,

Polêmica - à guisa de reflexão final

        Segundo a Piauí, a abertura de offshores ou de conta no exterior em si não é ilegal, desde que seu saldo seja declarado à Receita Federal e ao Banco Central, e que não desempenhe função pública "com acesso a informações privilegiadas em razão do cargo ou função", conforme o art. 5º da Constituição.
        Paulo Guedes alega ter se desligado da função privada desde que assumiu o cargo público, em resposta à ação pública movida pelo PDT ao STF. Mas, não respondeu à Piauí, mídia do ICIJ, sobre especificidades como a declaração e continuidade de subscrição de recursos para a offshore.
        Tendo fechado sua offshore oficialmente em outubro de 2020, Roberto Campos Neto ficou como controlador privado e presidente do BC por quase 2 anos, o que chancelaria o seu enquadramento. Ele alegou que todas as suas empresas foram declaradas à Receita e ao BC, e quando sabatinado, revelou ter atuado no exterior "com recursos próprios e sem transferências recentes".
        Verdade ou não tais respostas, é certo que o status público-privado dessas pessoas seja ruim, por conflitar com princípios éticos e legais, e à alta nebulosidade que encobre irregularidades nos paraísos fiscais, onde a tributação é muito baixa ou nula e há muita lavagem de dinheiro, pondo criminosos e investidores juntos.
        Verdade ou não as respostas vagas, é certo que a situação público-privada dessas pessoas seja má devido a conflitos com princípios éticos, morais e legais, e à alta nebulosidade que encobre práticas antiéticas em paraísos fiscais, onde a tributação é muito baixa ou nula, e lavagem de dinheiro é típica, colocando criminosos lado a lado com os investidores. 
        A respeito de seus negócios em paraísos fiscais, os investidores com função pública se calam, o que chancela a suspeita de práticas ilegais. Eles agem em sigilo, para blindar seus patrimônios de oscilações econômicas e escapar de tributos mais altos nos países natais (elisão fiscal).
        O Brasil tributa mais de 20% do volume de grana a ser repatriada. Nos paraísos fiscais, as taxas são quase nulas ou inexistem. Cinicamente, Guedes chegou a cogitar uma taxa de repatriamento de até 6% no máximo, bem acima do cobrado nos paraísos fiscais com imposto (até 2%).
        Reforma administrativa- Como Guedes tem o típico perfil de acumulador financeiro, o assunto mexeu com uma parte dos servidores públicos, na crença (não sem razão) da possibilidade de Guedes chancelar, na privataria dos serviços públicos, a captura de grana pública para investir na offshore. O que também explica a extrema ansiedade do ministro pelo aprove pleno da PEC32, da reforma.
        A crença faz sentido. O exemplo se inicia com a ideia de privatizar os Correios pelo deputado cassado Eduardo Cunha, quando, na era Dilma, se iniciou o melhor período lucrativo da instituição, a atingir recorde recentemente. Agora o ente está privatizado, só não sabemos quem o detém hoje.
        Há dois exemplos anteriores, um deles daqui: a privatização de entidade do MS responsável pela excelente logística de medicamentos do SUS, de vacinas e de materiais médicos e hospitalares, em 2018, virando a atual VTClog que se envolveu nos absurdos logísticos da era Bolsonaro.
        O outro foi a colapso da carreira política de David Cameron, que ocorreu logo após o amenizar da privataria das instituições britânicas iniciada nos anos 1990, que por sua vez inspirou o então governo FHC fazer o mesmo por aqui. 
        O termo privatização está implícito na PEC32, mas se entende na "entrega dos serviços públicos à iniciativa privada". Não só o Estado se "livra" de tais serviços, como também R$ bilhões serão títulos da dívida pública, ou repassados aos paraísos fiscais. Em sigilo, como Guedes sempre fez.
        E tal como o Chile de Pinochet-Guedes, o Estado brazuca se resumirá a um zumbi controlado pelos mesmos patronos das offshores.
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Imagem: Google

Notas da autoria
1. 

Para saber mais
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2021/04/analise-um-orcamento-as-custas-de-vidas.html (PEC 186)
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2021/01/analise-o-pior-golpe-e-o-do-capital.html (ações de Paulo Guedes)
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2020/07/paulo-guedes-antieconomia-milhoes-de.html (sujeito a correção)
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2020/08/quem-de-fato-governa-o-brasil-cada.html (governo Guedes)
- https://www.youtube.com/watch?v=vfZ2_5Vs7p4 (Paulo Ghiraldelli e as offshores)
- https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2021/10/4953211-guedes-e-campos-neto-mantem-empresas-em-paraisos-fiscais-revelam-jornalistas.html
- https://piaui.folha.uol.com.br/paulo-guedes-tem-offshore-milionaria-em-paraiso-fiscal/

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Análise: após mil dias, a encarnação do macrossistema

 

        Nessa semana, o presidente Jair Bolsonaro completou 1000 dias como governante da República. Até aqui, temos visto tudo que pelo menos afasta, entre os fatores negativos, o tédio. Sim, tudo por conta da intensa atividade com direito ao que pensamos ser inimaginável.
        Logo de cara, passado a oficial de posse, Bolso lançamento o Decreto 9661 que regulamenta lei de 2015 sobre política de valorização de salário mínimo a longo prazo, e o 9663, que aprova o estatuto do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão criado em .1998 por lei específica e muito citado na mídia sobre as malversações de recursos públicos cometidos pela classe política.
        Já sabemos que o mau uso de recursos públicos é parte essencial da nossa cultura política. Escaldados por tantas lições de nossa história sociopolítica, aprendemos que basta uma informação nova "de corredor" para já percerbermos que esquemas milionários já rolaram ou vão rolar, graças a denúncias de colegas da independente ou da imprensa. Mas, isso é só um detalhe, comum em todos os governos.
        Além desses esquemas, hoje em ápice até então desconhecido, Bolsonaro divulgado, por trás de seus olhos azuis (que certamente justificariam haver mulheres fãs) e de seu esgar aparentando sorriso, a sua verdadeira essência, que nos leva à referência no capítulo bíblico do Apocalipse , em especial sobre os quatro cavaleiros que revelariam como mazelas vividas pela humanidade.
        Vocês leitores perguntaram: "como assim?". Não é complicado. Se seguirá um compilado das quatro mazelas "apocalípticas" representadas nas atuações do governo Bolsonaro.

Guerra

        Essa referência consta da " guerra cultural ". Baseando-se na intolerância radical contra a diversidade cultural, sexual, étnica e político-ideológica, a guerra cultural se revela de forma híbrida, ou seja, a soma da agressão verbal (pessoal ou por redes sociais, com uso de notícias falsas ou teorias da conspiração) e física, se for o caso. O radicalismo eliminatório se justifica na assimilação do princípio catastrófico, de aura mística, da destruição como o caminho para a reconstrução nacional.
        A guerra cultural aparece no bolsonarismo como direta do olavismo, conjunto de ideias pregadas por Olavo de Carvalho, autoproclamado filósofo e astrólogo que se coloca como um dos principais ideólogos não-políticos da extrema direita. Mas herda também traços tradicionalistas pregados por Steve Bannon, ex-braço direito do ex-presidente dos EUA Donald Trump, ideólogo do trumpismo.
        O trumpismo e o bolsonarismo têm pontos em comum, como a intolerância radical acima carregada e a anticiência. Outro elemento, o cristofacismo (ideologização autocentrada do cristianismo), revelação o caráter político-religioso da ideologia do tradicionalismo , já citado em artigo anterior neste canal. Com o trumpismo, o bolsonarismo ganhou seu corpo atual, solidificado na queda do petismo em 2016.
        Essa solidificação testemunharíamos antes da eleição. Ainda em 2018, foram divulgadas na mídia várias denúncias de agressões, em especial verbais e como corrigidos, praticadas principalmente por pregadores do bolsonarismo. Em certas igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais, o curral bolsonarista revelou o movimento político-religioso via aliança de Bolsonaro com esses segmentos.
        Já governante, Bolsonaro guerra a inimigos imaginários, depois tornados reais por sua culpa exclusiva, tanto externamente quanto internamente. BRigou com o mundo como o fez com a maior parte do nosso povo, composto majoritariamente de minorias as mais diversas: LGBTQIA +, negros e pardos, indígenas, não-cristãos e sem-religião, trabalhadores (incluindo servidores públicos de escalões mais baixos) e opositores políticos (também na direita).
        Os meios foram diversos: socioeconômicos (privataria de entidades públicas, retiradas de direitos conquistados a duras penas, demissões em massa, cortes sistemáticos e reiterados nas áreas sociais, extinção de conselhos populares), sanitários  ( espalhe do vírus da C19), ecocídio ( destruição sistemática dos biomas somada a assassinatos de líderes indígenas e evangelização forçada), violação da liberdade de informação falsas, e perseguição a opositores políticos e servidores públicos.

Peste

        Talvez o grande azar percebido pelos brasileiros tenha sido uma pandemia de C19 ocorrer na era Bolsonaro, não atual recorde de mortos, seguindo de perto os EUA, que com o atual surto que causa 2 mil mortes diárias pela variante Delta, também dominante no território tupiniquim, segue à frente. No Brasil, além da Delta, Beta e Gama, há o recente Mu, identificado na Colômbia na época da Copa América.
        Com o Corona identificado em um brazuca vindo da Itália, por sua vez de tomada pelo primeiro surto, o ex-MS Mandetta quis fechar aeroportos e outras medidas cotidianas para evitar o espalhe do vírus, mas Bolsonaro negou mantendo tudo. Os governadores proibiram viagens interestaduais. Irritado, Bolsonaro criou como grandes aglomerações e propagou o kit-C19 (cloroquina e hidroxi-, ivermectina, azitromicina e dipirona), mesmo com os primeiros estudos já afirmando a sua ineficácia para uma doença - reiterada até hoje em novos estudos.
        Demitido Mandetta, entrou Nelson Teich que mal esquentou uma cadeira do MS, saindo em 28 dias, por discordar da panaceia kit-C19 de Bolsonaro, como tratamento oficial. Depois de meses de ausência, o Pazuello geral, sem formação em saúde, é nomeado ministro. E viria protagonizar a pior fase da sindemia, " cumprindo missão " após mais de 300 mil mortos. Em seu lugar, entra o cardiologista Marcelo Queiroga, um Pazuello civil.
        O horror na era Pazuello viria escancarar o que para os critérios já era óbvio: por trás da maior tragédia sanitária brasileira se desenhava um genocídio . Como algumas mídias divulgaram, o espalhe do vírus pelo mito da imunidade de rebanho foi estratégia proposital - o que se reitera a cada aglomeração festiva do presidente, após (oficialmente) cada números de mortes semanais. 
        Alcançada a marca de 500 mil mortos (oficiais), veio a CPI da C19 a escancarar a dimensão multifacetada do horror cometido pelo conjunto de governo, empresários e parlamentares. A Prevent Sênior protagonizou, junto a políticos amazonenses e outros, práticas comparáveis ​​às do nazista Mengele. Além de fraudes bilionárias em compras de vacinas inexistentes, no maior esquema de corrupção desde a redemocratização. Fora o que ainda não sabemos...

Fome

        A fome é um flagelo mundial com altas opções nas nações socialmente desiguais e subdesenvolvidas, e todos sabemos disso. Muito mais do que resultado da má distribuição da disponibilidade alimentar, ela se tornou um problema fomentado pelo sistema econômico globalizado, pois existe até nas nações mais desenvolvidas.
        No Brasil, ela sempre existiu, sendo piorada no capitalismo clássico com êxito na ditadura militar, quando as desgualdades sociais bateram recordes. Com o plano Real de FHC e as políticas assistenciais e de incentivo à economia popular na era PT, o flagelo diminuiu. Mas a coisa voltou na era Temer (2016-8) devido ao teto dos gastos públicos que reduziu a responsa estatal na economia popular, ao e ao desemprego à fragilização dos direitos trabalhistas.
        Mas, a velocidade de empobrecimento extremo, miserabilização e fome dobrou nos 2 anos da era Bolsonaro, ao ponto de mais de 100 milhões estarem hoje em insegurança alimentar, quando não se sabe se no dia seguinte terá o que comer. 
        Segundo a Brasil de Fato, uma FAO / ONU considerada um país fora do mapa da fome quando é igual ou inferior a 2,5 pessoas a cada 100 habitantes. Hoje, está em desuso, entrando aí a capacidade de o governo fornecer políticas efetivas de combate à fome, como o conjunto Fome Zero na era petista, que seria copiado pelos países africanos.
        Embora isso explique a felicidade dos cabeças do governo (Bolsonaro e Guedes) desde que intensificaram as políticas anarconeoliberais, o sinistro da economia quer aprofundar mais ainda essa política, agora através da "reforma" administrativa, que prevê a privatização dos setores essenciais à população. A proposta abarca servidores de todos os poderes, à exceção da elite do funcionalismo.
        Ou seja, a fome pode aumentar a níveis ainda imprevisíveis, se Arthur Lira continuar com o seu discurso igualmente nazfascista recusando a urgente necessidade de interditar o presidente.

Morte: além da C19

         A morte é uma marca forte no Brasil. Hoje, a C19 está no centro do debate como fator da maior tragédia sanitária da nossa história. Mas, quanto a C19 se trata de sindemia (doença que que se complica na presença de comorbidades prévias e sociais), tanto se morre dela por complicações diretas ou indiretas. Mas, isso é só um detalhe no amplo espectro da saúde pública.
        Segundo a última estatística do MS (2018), a principal causa de mortalidade são as doenças crônicas . Não há fontes sobre dados de 2019, e desde 2020 a C19 domina e tende a persistir. Por complicar doenças preexistentes e ter muita subnotificação, a C19 impede a estatística confiável, e os cortes absurdos de recursos ao SUS pelo governo agravam a crise, ajudando a ampliar os índices de mortalidade.
        Com tanto desinvestimento, outros velhos inimigos, como o sarampo e a tuberculose, retornam com mais força no governo Bolsonaro, ameaçando a volta de outras infecções, então fortemente mitigadas ou mesmo erradicadas.
        Se a tragédia da C19 surpreende por ter sido perfeitamente evitável se não fosse um governo psicopático, a nossa própria história nos revelação um contexto amplo e macabro que seguiu a formação da sociedade brasileira, desde a colonização das plagas tupiniquins elaborada pela turma de Cabral.
        Sabemos que a turma de Cabral não descobriu o Brasil, pois em seguida os colonizadores já chegaram com sangue nos olhos para disseminar o catolicismo e explorar os recursos naturais. Isso alimentou nos colonizadores a agressividade contra os nativos e, depois, contra os africanos, vindo nos primeiros morticínios, repetidos de tempos em tempos.
        Marcas pretéritas que se refletem hoje. Com bagagem lotada de estupidez, preconceito, ódio e sede de sangue, Bolsonaro sorri com o aumento da violência policial, segundo o Anuário Estatístico de 2019 sobre homicídios. Antes desse Anuário, já sabia que o Brasil tem mais índices do que todos os países da UE, Canadá e Austrália juntos.
        O domínio por milícias e / ou tráfico, tendo a polícia e / ou copartícipes FFAA frequentes, derruba o folclore do "criminoso de rua" como o maior homicida. A grande evidência está nos grandes centros do RJ, SP, CE, PB e outros estados. No Rio se verifica hoje forte ligação entre chacinas policiais nas favelas, milícias, mortes e por "queima de arquivo".
        Homicídios cometidos pelos criminosos sem ligação com ORCRIMs e milícias são geralmente motivados por brigas pessoais, de ódio (racismo, homotransfobia, feminicídio, etc.), ou latrocínio (roubo seguido de morte).
        As mortes no trânsito também destacam. A Lei de Trânsito de 1997 anterior cassar a carteira de habilitação em 20 pontos de infrações cometidas, caindo de mais de 40 para 25 mil. O governo Bolsonaro aumentou a 60 os pontos para a cassação da carteira, daí o aumento da imprudência e as mortes. Em 2020 morreram quase 30 mil, segundo o Portal do Trânsito.

Final de reflexão

        Mesmo respeitando princípios constitucionais, governos pós-ditadura e antes de Bolsonaro não cosneguiram impor índices sociais europeus no Brasil. Mas, fizeram a sua parte em alviar os vergonhosos indicadores de outrora. Até vir Bolsonaro com sua caterva para destruir tais esforços, até ser desmascarado pelos fatos subsequentes.
        Ele seduziu plateias mais crédulas e excitáveis com a ilusão de seus olhos azuis e esgar à guisa de sorriso e seu discurso moralizante de político antissistema. Entre os mais crédulos e excitáveis, ele foi eleito como "enviado de Deus para salvar o Brasil", segundo seus guias nos cultos de algumas denominações cristãs.
        Não é necessário se referir à Bíblia para entender como flagelos sociais se pronunciam em governos e regimes totalitários, desde a Antiguidade, e revelam, hoje, quem é Bolsonaro e quais são suas intenções. Hoje, aqueles religiosos mais crédulos, que agora acordam do sono profundo, ou veem como o Anticristo e seus ministros e aliados, seus cavaleiros.
        O Anticristo é interpretado por uma parcela de estudiosos da Bíblia como o homem mais poderoso economicamente e extremamente autoritário. Para outros, é uma representação do macrossistema econômico e geopolítico global, contra os quais alguns governos travam guerra através de esforços de bem-estar social.
        Seja como for, o Anticristo é uma alegoria. Mas, para o atual momento brasileiro, reviver como mazelas como eram na ditadura militar já personifica viver como quatro grandes pragas acima explicitadas, tendo Bolsonaro o seu grande artífice e comandante. O político que tanto se dizia antissistema se revelação, enfim, a encarnação das práticas do macrossistema.

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Imagem: Google (edição: autoria do artigo)

Origem do artigohttps://pingback.com/pensamentos/analise-apos-mil-dias-a-encarnacao-do-macrossistema 

Fontes referidas no artigo
https://brasil.elpais.com/brasil/2021-01-21/pesquisa-revela-que-bolsonaro-executou-uma-estrategia-institucional-de-propagacao-do-virus.html
https: // www.brasildefato.com.br/2021/06/30/afinal-o-brasil-esta-ou-nao-no-mapa-da-fome-da-onu
https://www.portaldotransito.com.br/noticias/em-2020-80-pessoas-morreram-por-dia-em-consequencia-de-acidente-de -transito-no-pais /

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Análise: CPI e a Auschwitz Prevent

        Desde o seu início, a CPI coletou dados que revelaram as reais intenções do governo na emergência da C19, extensiva a todo o espectro amplo do SUS, em falta de respiradores, testes e medicações e depois, pelos atrasos na vacinação.
        Protocolos do MS criados por gente estranha do gabinete paralelo, negociatas bilionárias com muitos intermediários suspeitos com inexistentes vacinas e muita propina... o maior escândalo imoral da história da República parou na CPI.
        Mas, como se não fosse suficiente, vazaram denúncias de médicos da operadora de plano de saúde Prevent, que chegaram à CPI como dossiê anônimo. O inimaginável (para muitos) seria revelado a público.

Prevent Sênior: ontem e hoje

        A Prevent Sênior é uma das muitas operadoras de plano de saúde surgidas nos anos 1990, fundada em São Paulo pelos irmãos Eduardo e Fernando Parrillo, focando-se na clientela de terceira idade, de início fornecendo ambulâncias e depois, o tratamento médico, com preços mais acessíveis.
        Antes exclusiva em São Paulo, a Prevent Sênior atua hoje em Brasília, Curitiba e Porto Alegre, tendo maior campo de ação. Hoje, dos 456 mil clientes, 346 mil têm mais de 61 anos, e atende os mais jovens, em geral dependentes dos clientes mais antigos. Fatura hoje perto de R$ 4 bilhões.
        Em 2019, a empresa estava em quinto lugar entre as operadoras de plano de saúde destacadas em São Paulo, sede do hospital Sancta Maggiore. Como toda empresa doramo, ela recebe reclames, no Procom ou na Justiça comum. Tudo bem aí, até chegar a sindemia de C19, em 2020.
        Quando a sindemia começou a se agravar, o Sancta Maggiore se tornou uma referência em C19 na saúde privada. Mas, já criticado pelo ex-MS Henrique Mandetta, passou a ser investigado pelo MP-SP por suspeita de omissão de mortes pela C19, em abril de 2020.

        Pedro Benedito Batista Jr.- médico e diretor-executivo da Prevent Sênior, atua na direção do Sancta Maggiore. Por conta da citada investigação e crítica de Mandetta, Pedro alegou falha no acesso ao monitoramento epidemiológico de SP. O inquérito foi arquivado 4 meses depois.
        Em abril, estudo inconcluso na Prevent afirmou que a soma de hidroxicloroquina e azitromicina1 reduziu as internações de suspeitos de C19. Duramente criticado devido aos erros metodológicos e de amostragem, o estudo não foi publicado em nenhuma revista científica, mas foi elogiado por médicos cloroquiners e pelo próprio Bolsonaro.
        Tendo iniciado em março e recebendo autorização da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) em abril, o estudo depois acabaria sendo suspenso pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), alegada fraude científica. 
        Ainda assim, diante do silêncio do CFM, os elogios a este e outros "estudos" desse naipe seriam contínuos, mesmo sem evitar nenhuma morte, e com sequelas medicamentosas graves. Podem saber, de graça esse elogio não é.
        No corrente setembro/2021, Pedro Benedito foi convocado pela CPI para explicar sobre os fatos expostos em dossiê anônimo enviados por ex-profissionais de saúde da Prevent Sênior. Pedro negou sobre a exclusão da C19 em mortes de internados testados com os supramencionados fármacos e outros fatos, mas caiu no cerco de Randolfe Rodrigues.

Fatos que lembram Auschwitz

        O conjunto de fatos mencionados no dossiê, se destacaram trabalho exaustivo sem EPIs, ameaças da direção, hino nazista de banda de rock dos donos da operadora no início do dia, etc. O depoimento da advogada dos denunciantes, Bruna Moratto, revelou detalhes macabros.
        Trabalho sem EPIs- os profissionais de saúde eram obrigados a trabalhar sem EPIs, em contato direto com os doentes de C19. Por conta disso, natualmente muitos deles adoeceram e mesmo doentes eram obrigados a trabalhar arriscando-se a contagiar os colegas e pacientes sãos, devido às ameaças.
        Ameaças- pesadas e com slogans nazistas, como atestam inúmeras mensagens em mensageiros instantâneos como whatsApp e Telegram, as mensagens eram feitas pela direção para os funcionários estentendo-se às famílias dos mesmos, por qualquer motivo, como falta ao trabalho, a suspensão do kit e incluir C19 como causa mortis em vítimas tratadas com o kit.
        A demissão de alguns médicos foi voluntária, motivada pelas ameaças. Estes formaram o grupo que, representado pela advogada Bruna Morato, enviou o dossiê à CPI.
        Testes- cerne da barbárie detalhada no dossiê, os testes não se resumiram à imposição do kit-C19, há outros a serem enumerados aqui. Os testes eram impostos pela direção da direção da operadora, sem autorização dos familiares que, claramente, não recebiam informações sobre os mesmos.
        Kit-C19- inicialmente era somente a soma de cloroquina (e hidroxi-) e azitromicina. A vitamina D e a dipirona, esta ainda usada em dor e febre, vieram depois. No início da C19, o kit foi aceito devido a primeiros estudos com suposta imunomodulação por cloroquina e redução infectiva por azitromicina. Esses resultados foram refutados em repetidos estudos posteriores, publicados em canais científicos.
        Só agora se soube que os estudos da suposta eficácia de cloroquina, ivermectina e azitromicina, propalados pelos cloroquiners na CPI, na verdade, eram os da Prevent Sênior, não publicados, mas usados como referência pelo estranho pessoal do gabinete paralelo.
        Ozonioterapia retal- trata-se de aplicação de doses de ozônio por via retal. Idiotice inventada por prefeito de Itajaí (SC), causou polêmica ao ser assimilada pelo MS, segundo a mídia na época. Parte opcional do kit, seu uso era imposto pela direção da Prevent Sênior. Merece artigo em separado.
        Células-tronco mesenquimais (CTM)- foi usado pela Prevent Senior para tratar casos graves, antes da primeira publicação científica, um ensaio clínico duplo-cego, sobre o CTM pelo Diabetes Research Institute e Universidade de Miami, em junho de 2021. 
        Este ensaio verificou a possibilidade de diminuição de mortes com uso de CTMs para recuperar pulmões seriamente comprometidos pela C19. Autorizado em 2020 para experiência, a pesquisa só foi publicada em 2021. Já o feito da Prevent nunca foi publicado.
        Gabinete paralelo- tema apontado desde o depoimento de Pazuello. Segundo a advogada Bruna Morato, ele surgiu como alternativa à recusa do então MS Mandetta em aceitar médico vinculado à operadora. Citou o dr. Pedro Benedito, diretor-executivo da Prevent, que apresentou os médicos desse gabiente. 
        O gabinete paralelo foi criado pelo virologista Paolo Zanotto, professor da USP licenciado desde junho para o Canadá, estranhamente coincidindo com o vazamento midiático. Outros médicos fazem parte da equipe, entre eles Nise Yamaguchi e Anthony Wuong, vítima fatal da C19.
        Papeis dos médicos- o proctologista Wuong autorizou a ozonioterapia; o virologista Paolo Zanotto informava sobre o Corona e Yamaguchi sobre resposta imune. A Prevent entrou para contribuir nas ações junto a essa equipe.
        Detalhe: a imposição contínua do kit-C19 mesmo após provada ineficácia, ozonioterapia e outros testes já citados, bem como o App extinto TrateCov, foram coisas do gabinete paralelo, que fez a proeza de reduzir o MS a uma espécie de zumbi para formalizar a coisa toda. É macabro.
        O senador petista Rogério Carvalho classificou os testes como "só comparáveis ao visto na II Guerra Mundial", em alusão a testes macabros de Joseph Mengele, em campos de concentração da SS nazista, nos quais mais de 6 milhões de pessoas morreram e os sobreviventes sequelados.
        

Alinhamento com Ministério da Economia
        A advogada Bruna Morato revelou que o gabinete paralelo "é totalmente alinhado ao ministério da Economia", bem como à Prevent e ao ideal de Bolsonaro contra o isolamento social: "essa aliança tinha um nome: hidroxicloroquina".
        Muito dinheiro foi investido nessa história. A Prevent Sênior foi bem paga para contribuir com a equipe do gabinete paralelo contra o necessário lockdown, usado por muitos países para conter o espalhe da pandemia. A fonte do pagamento, muito possivelmente, foi o BNDES.
        "Segundo informações, o dr. Pedro2 foi informado que existia um grupo de médicos assessorando o governo federal e que esse conjunto estaria totalmente alinhado ao ministério da Economia", disse. Ainda emendou que, para Bolsonaro e Luciano Hang, "eleições primeiro, a vida a gente vê depois".
        A última frase também chama a atenção pelo fato de comprovar que Hang vem atuando, junto a grupos aliados paralelos, em incentivo à intensa campanha de reeleição que marca o governo desde, pelo menos, as primeiras mortes pela sindemia ainda concentrada no Sudeste, em 2020.
        O alinhamento de toda essa gente ao ministério da Economia revela o quão explosivo se mostra o depoimento de Bruna Morato. E tão arriscado também: ela contou que o escritório dela foi arrombado na procura do dossiê desde as primeiras denúncias, e acredita ser gente da Prevent Sênior. Daí ela ter solicitado ao Senado segurança por sua vida e de sua família.

Reflexão final
        Diante de tanta coisa exposta pela advogada Bruna Morato, representante dos denunciantes contra a Prevent Sênior, o dossiê é encarado com extremo carinho e cuidado pela cúpula da CPI, que em sua fase final, sob intensa pressão, se endurece em busca de mais detalhes.
        Vários pontos tornam o depoimento de Morato tão valioso quanto explosivo: revelou a face mais escrota e decrépita dos protagonistas nas empresas e nos ministérios da Saúde e Economia. E, claro, do Palácio do Planalto.
        O depoimento de Morato sobre o alinhamento nefasto do gabinete paralelo com a Economia de Paulo Guedes se deve à extrema prioridade focada na sustentação do anarcocapitalismo.
        Se Rogério Carvalho comparou apropriadamente os testes da Prevent Sênior aos testes macabros de Mengele, a conjuntura dos fatos, a saber pela intenção, caráter e alinhamento ideológico dos atores ao bel-prazer nazifascista de Bolsonaro, sobrevém a pergunta: o campo de concentração se limita às unidades da Prevent Sênior, ou o Brasil inteiro virou um campo de Auschwitz?

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Imagem: Google

Notas da autoria
1. Os fármacos passaram a compor, com dipirona e vitamina D, o famigerado kit-C19, comprovadamente ineficaz contra a virose, mas usado para promover a mortandade como tampão dos interesses escusos.
2. Pedro Benedito Batista Jr., médico e diretor-executivo da Prevent Sênior, citado em artigo anterior.

Para saber mais
https://pt.wikipedia.org/wiki/Prevent_Senior
- https://g1.globo.com/politica/cpi-da-covid/playlist/videos-cpi-da-covid-ouve-pedro-benedito-batista-junior-diretor-da-prevent-senior.ghtml
- https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/09/28/advogada-aponta-pacto-da-prevent-senior-com-gabinete-paralelo-para-evitar-lockdown
https://brasil.elpais.com/brasil/2021-09-28/abismo-da-prevent-senior-se-amplia-com-depoimento-de-advogada-a-cpi-e-ameaca-tragar-governo-bolsonaro.html
https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2021/09/4952234-advogada-prevent-senior-obrigava-medicos-a-cantarem-hino-da-empresa.html
- https://saude.abril.com.br/medicina/ozonioterapia-pode-tratar-covid-19-entenda-a-polemica/
- https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2021/01/05/celulas-tronco-pode-reduzir-o-risco-de-morte-por-covid-19-diz-estudo.htm
- https://www.cnnbrasil.com.br/saude/celula-tronco-e-usada-contra-covid-19-mas-especialistas-fazem-alerta/
- https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/06/09/virologista-que-teria-integrado-gabinete-paralelo-do-ministerio-da-saude-recebe-autorizacao-da-usp-para-morar-no-canada.ghtml
- https://revistaforum.com.br/politica/advogada-de-medicos-detalha-gabinete-paralelo-que-agia-totalmente-alinhado-ao-ministerio-da-economia/
https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2021/09/analise-odio-desafio-da-cpi.html

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Análise: ódio, desafio da CPI

        Enquanto o presidente Jair Bolsonaro passa reveses raivosos em Nova Iorque por conta do Encontro anual da ONU e Paulo Guedes continua na surdina acompanhando a votação das suas sonhadas propostas de desmonte estatal, a CPI da C19 continua a todo vapor.
        A todo vapor mesmo, tanto pela vontade da cúpula da comissão, que deseja consertar seus próprios deslizes em novos depoimentos via reconvocação de depoentes que negaram colaborar, quanto dos abusos de depoentes pelo direito ao silêncio e ameaças dos Bolsonaro.
        Tendo retornado após o recesso de julho, senadores da CPI ainda deparam com a continuidade da série de abusos já conhecida deles, em especial o do silêncio concedido parcialmente1 pela justiça e numerosas mentiras e distorções.
        Percebe-se que certa impaciêcia na tribuna diante dos abusos, mas ninguém quer arregar. E estão certos, uma vez que desejam ir a fundo para mais provas além do volume já recolhido pelo relator Renan Calheiros - mais disposto do que nunca a desmascarar os próximos abusadores.
        Mas, agora, os senadores envolvidos diretamente com a CPI estão diante de mais um abuso: as ameaças e afrontas diretas.

Afrontas e ameaças dos Bolsonaro

        A CPI tem sido afrontada desde o seu início, nem sempre de forma direta. E os seus principais autores são, diretamente, os Bolsonaro. O presidente tentou desmoralizá-la para seu fã-clube. Eduardo fazia o mesmo na Câmara, Carlos mexia com fake news e Flávio tem tumultuado.
        Por ser senador, Flávio foi direto, com tumulto, olhar intimidador e até ameaças veladas. Depoentes mais dispostos a falar sofreram. Carlos Wizard se viu tão intimidado que se silenciou bem e fez verborreia com sermões bíblicos, que foram explorados por Simone Tebet para desarmá-lo. 
        Na sua segunda aparição na CPI, o ex-MS Pazuello abusou da mentira. Além de servir para sair da reta, serviu para acalmar Flávio, que tumultuava o tempo todo, ao ponto de Renan interferir para ser chamado de vagabundo, e responder à altura, calando o colega. Renan era o alvo dileto do abuso.
        Flávio usou o tumulto quando a intimidação com o olhar não era exitosa o bastante. Mas a sua verborreia foi por vezes calada, pelos sermões de Omar Aziz, presidente da CPI, ou por outros colegas impacientes e cientes das suas intenções. 
        Mas dois depoentes foram indigestos para Flávio: os ex-aliados e agora desafetos deputado Luiz Miranda, e ex-governador do RJ Wilson Witzel. Sem se intimidarem, foram peças-chave em jogarem muito dejeto no ventilador, inclusive envolvendo diretamente os Bolsonaro nas tramoias.
        Witzel chegou a desafiar Flávio na tribuna durante tumulto. Após depoimento público, explorado neste blog, expôs mais coisas em reservado e ainda solicitou aos senadores proteção para si e sua família, pois conhece bem as influências da família.
        Jair Renan- o filho 04 do presidente da República tem sido alvo de olhares investigativos devido às ações empresariais para lá de suspeitas. A começar pelo número de empreendimentos, superior à sua própria idade, conforme revelado pelo canal Meteoro Brasil, no Youtube.
        Daí se compreender por que ele é investigado por tráfico de influência. E, como se não bastasse, o próprio postou vídeo à vontade em seu quarto, mostrando uma maleta com armas dirigindo-se para a CPI, com um sorriso cínico. Foi claramente uma ameaça.
        Diante dessa afronta, o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) protocolou convocação de Jair Renan para depor na CPI. Ele é apontado em alguns depoimentos já relatados como estando por trás de empresas partícipes de negócios obscuros com o MS. 
        Bem, se ele foi convocado para se explicar sobre tais participações, ou por causa da ameaça clara por conta do vídeo, ou ainda, por ambos os temas, ainda não sabemos muito bem.

Afrontas de depoentes

        Alguns depoentes também deixaram marcas tumultuadas na CPI, com direito a sessões encerradas para reconvocação posterior. O pico de calor veio no depoimento do jovem CGU Wagner Rosário, cuja arrogância só mostrou a escolha a dedo por Jair Bolsonaro. É um determinado bolsonarista.
        Rosário teve na afronta o meio de enrolar nas respostas, gerando muitos momentos tensos. Aziz o reprimia o tempo todo, mas não adiantava muito. Depois de afrontar Randolfe, desrespeietou  Simone Tebet, no clímax do dia, ao ponto da maioria dos senadores solidarizar-se com a emedebista.
        Tudo porque, tal como Randolfe, Simone Tebet mostra sua abordagem fecha-cerco, com mostras de documentos e outras imagens reveladoras dos crimes tratados. A agressividade de Rosário com ela derivou do xeque-mate de Tebet ao questionar a atuação dele como CGU.
        Nesse dia 21/9 foi a vez de Pedro Benedito Batista Jr., diretor executivo da Prevent Senior, que prestou testes com tratamento com kit-C19 solicitados conforme protocolos descritos pelo então MS Pazuello, cujas evidências revelaram intenções análogas às dos nazistas.
        As evidências foram laudos de morte excluindo C19, contendo descrição do tratamento precoce preconizado pelo ex-MS Pazuello, bem como denúncias de ex-médicos de ameaças a proceder tal tratamento e excluir a C19 (e sequelas do próprio tratamento errado persistido) como causas mortis.
        Entre documentos de vítimas mostrados a pedido de Randolfe Rodrigues, estavam o dr. Wuong (o "dr. Cloroquina") e Regina Hang, mãe do nefasto Luciano Hang, que foi chamado de "desalmado" por Otto Alencar, graças à propaganda e campanha de promoção do kit-C19.
        O citado diretor foi esquivo quando conveniente, e sorria com deboche. Negava a sua atuação apesar das evidências, para responder "não posso falar sem autorização..." terceirizando a sua própria responsabilidade pelos danos. Foi quando Aziz o comparou aos peixes muito lisos.
        Neste 23/9 foi o empresário Danilo Trento a depor, abusando do direito de silêncio ao ponto de a CPI querer dialogar com o STF sobre isso. Sobre a relação de Trento com os Bolsonaro, a afirmação veio na trocentésima vez, perguntada por Randolfe. Nesse ponto a CPI venceu pelo cansaço.
        Danilo Trento está envolvido até o pescoço em várias "empresas de prateleira" especializadas em lavagem de grandes somas de dinheiro público. Como finalizou o senador Fabiano Contarato, Trento é "o lavador geral da República", por conta da atuação dessas empresas, incluínda a Precisa. 

Reflexões finais
        As mentiras reiteradas, abusos no direito de silêncio, deboches fazem parte do pacote ideológico do bolsonarismo, pois vale tudo para que tenha caminho de se esgueirar nas inquirições da CPI. Isso além da afronta agressiva, ameaças e olhares intimidadores, cortinas de fumaça e tumultos.
        Essa diversidade de meios de enfrentar o interrogatório da CPI é usada para desviar, depreciar, tripudiar, enganar. distrair ou desconcentrar, tentar vencer pelo cansaço. São as armas do pacote, de acordo com o temperamento e as preferências de cada depoente envolvido com os Bolsonaro.
        Tudo isso revela o cerne da retórica bolsonarista: o ódio. Por tantos meios de se desmonstrar tal sentimento, não é por acaso que o ódio é o maior dos desafios da CPI. Ainda que tenha colhido alguns bons frutos, valiosas provas que, quiçá, possam levar o feitiço voltrar-se contra o feiticeiro.
        Quem sobreviver, verá.

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Imagens: Google 

Notas da autoria
1. A concessão em permanecer em silêncio só se permite em indagações sobre fatos a comprometer o depoente solicitante, não cabendo a qualquer fato abordado no interrogatório.

Para saber mais
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2021/06/analise-cpi-witzel-e-merda-no.html
- https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2021/07/4937694-tebet-aponta-flavio-bolsonaro-ele-nao-tem-coragem-de-falar-o-que-me-disse.html
- https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/09/21/em-depoimento-tenso-wagner-rosario-nega-omissao-da-cgu-no-caso-covaxin
- https://g1.globo.com/politica/cpi-da-covid/noticia/2021/09/21/ministro-da-cgu-nega-prevaricacao-e-diz-que-nao-teve-acesso-a-informacoes-sobre-lobista-na-saude.ghtml
- https://www.metropoles.com/brasil/politica-brasil/cpi-da-covid-depoimento-ministro-cgu-wagner-rosario
- https://congressoemfoco.uol.com.br/legislativo/cpi-da-covid/apontado-por-prevaricacao-ministro-da-cgu-depoe-a-cpi-da-covid/

 

CURTAS 116 - ANÁLISES (os traidores da pátria; reforço a Flávio)

  A CARTA DA ALTA TRAIÇÃO                      Já dentro do prazo de 90 dias da eleição, o Brasil entrou no defeso eleitoral , um conjunto d...