quinta-feira, 11 de junho de 2020

Anonymous: antifas virtuais?

     Na última semana, logo após a explosão de manifestações nos EUA por conta da morte do cidadão negro George Floyd por um PM, na internet surgiram informações dos presidentes Bolsonaro, Trump e outros nomes importantes.
     A coisa pegou fogo porque tratam-se de dois nomes em exercício como líderes máximos das nações em destaque na tragédia do Corona. 
     Mas Bolsonaro e Trump não são os primeiros a terem informações privadas hackeadas. Outros líderes daqui e estrangeiros também o foram. E os hackers nunca são encontrados.
     Também foram alvos certos líderes religiosos que tiveram seu caráter exposto. 
     Parece coisa do outro mundo, só que é coisa daqui mesmo, e não há nada de sobrenatural. Ao que tudo indica, estão no mundo todo. E um detalhe: têm em comum o mesmo objetivo de desvendar informações altamente comprometedoras, revelando-se um grupo, o Anonymous.
     Mas, o que desejam os hackers ao devassar e publicar informações pessoais tão sensíveis e sigilosas? E quem é Anonymous?
     O hacker hoje vive de internet, pela qual a informática e derivados hoje se valem. O próprio hacker também. Divulgaram a ousadia de desviar milhares de reais de Silas Malafaia para caridade que este disse fazer (mentira!) e ficou furioso com a descoberta. Já fizeram parecido com megaempresários.
     No senso comum, hacker é criminoso virtual. Mas, como já disse Nelson Rodrigues, "toda generalização é burra". Ora, se você confia muito em um próximo sempre leal, passando-lhe seus dados privados por "extrema emergência", a cilada é bem alta. Não precisa ser hacker.
     Na verdade, o hacker é um profissional altamente qualificado no ciberespaço que, ironia ou não, trabalha para a nossa segurança. Eles podem estar por trás de sites confiáveis criados para as nossas necessidades, que operamos com raros problemas.
     Muitas vezes eles usam a deep web, ou literalmente, "rede profunda", que difere da "rasa" (por falta de melhor expressão ou vocábulo) por oferecer maior segurança de privacidade e, claro, ter a fama de inspirar conspiracionistas por conter informes algo... inusitados. 
     Apesar de usuários comuns poderem acessá-la, a deep web tem sido usada pelos teóricos da conspiração como o berço do Anonymous. Mas, agentes do FBI, entidade com alta tecnologia de inteligência artificial, não encontraram nenhum rastro na deep web. Desconsiderem...
     O Anonymous foi tema de vídeo recente de Paulo Ghiraldelli, que os relacionou ao mais completo anonimato. Faz sentido: anonymous significa "anônimo". É o nome de um grupo aparentemente muito profissional, que pelo visto se especializou em devassar os dados mais improváveis.
     O anonimato deles significa o método: surgem de repente, descobrindo os segredos mais assombrosos, e após algum tempo no ar divulgando para a mídia, somem sem deixar rastro algum. Nem se sabe o tamanho do grupo, quantos hackers são.
     Investigadores do FBI ou CIA esquadrinham para achar IDs deles e fracassam. Nem sabem se compartilham o mesmo ID. E que tipo de rede eles usam para acessar informações tão assustadoras quanto sigilosas, com tanto sucesso. 
     O máximo que eles dizem sobre si próprios está no objetivo central: tornar públicas certas verdades desconhecidas da geral para revelar o caráter por trás do marketing, declaram recusar benesses da fama e serem totalmente contra injustiças sociais de todo tipo e violações dos direitos humanos.
     Pontos que contradizem a duvidosa ética de seu feito, mas que convergem diretamente com os ideais libertários dos antifascistas que emergem em manifestos em vários países do mundo. Serão os Anonymous antifascistas? Não sabemos. Mas, até o momento, eles estão ajudando muito revelando os segredos mais escusos dos fascistas e dos ultraneocapitalistas.
     
    
     

domingo, 7 de junho de 2020

Bolsonaro: nazifascismo à brasileira?


     A mudança político-ideológica no Brasil, através de Bolsonaro, vista por alguns como 'nova política', significa o retorno aos preceitos fascistas no Brasil.
     No seu eterno discurso de 'combate à ideologia', Bolsonaro traduz por "combate ao socialismo", que na prática nunca houve no Brasil. No máximo, a política social-democrática do período lulista.
     Na sua condução política, ele conseguiu confundir o significado de ideologia, para avançar seu poder, E o consegue mesmo aos tropeços. Tanto que os seus seguidores confundem nazismo com... esquerda.
    Alguns esquerdistas ligam Bolsonaro ao fascismo de pinta nazista pelo preconceito anti-diversidade que o presidente exibe com natural arrogância, tida pelos seguidores como sinceridade.
     Diante dessa confusão, vale traçar uma análise reflexiva sobre fascismo e nazismo para se entender cada um deles. Afinal, eles podem confundir à primeira vista, mas têm diferenças.
     Em seu livro Anatomia do Fascismo, Robert Paxton define fascismo como, inicialmente, "uma curiosa mistura de patriotismo [...] e de nacional-socialismo", que Mussolini mais tarde acrescenta "ataques à propriedade [...], propensão para atos violentos, anti-intelectualismo, rejeição à soluções de compromisso e de desprezo pela sociedade estabelecida".
     Nessa linha mussoliniana se verificam elementos comuns ao nosso bolsonarismo, entre os quais o mote patriota (nacionalismo), o gosto pela violência e o anti-intelectualismo, que se mostra na estagnação de programas científicos e culturais.
     O filósofo paulista Paulo Ghiraldelli nega Bolsonaro fascista, dada à redução do Estado, em contraste com o Estado corpulento do fascismo italiano, embora não negue muita semelhança entre ambos, particularmente no conservadorismo e no autoritarismo.
     Faz sentido: enquanto no fascismo italiano a autoridade estatal se simboliza nos poderes estabelecidos, no bolsonarismo há supervalorização da pessoa do presidente (personalismo), a despeito da inegável presença operante do Legislativo e do Judiciário.
     Mas Gustavo Monteiro aduz, em sua resenha, que "os governos [...] caracterizados como fascistas apresentam diferenças ideológicas e práticas difíceis de serem incorporadas em mesma caracterização", o que se entende que algumas distinções não desfazem a essência ideológica.
     Nesse sentido, é interessante que o fascismo se encaixe em ditaduras socialistas soviética e similares, pela mistura de personalismo e Estado opressor, independendo, assim, de direita ou esquerda. Aliás, extremismos dissolvem ligação com algum direcionamento ideológico. 
     Mas, há alguns opositores que também consideram Bolsonaro simpático ao nazismo, pelas pérolas referentes a Hitler e Goebbels e desprezo à diversidade. Como já se sabe, Hitler foi longe em perseguir , à exceção dos aliados italianos.
      No estudo de Rollemberg, o nazismo foi um movimento ideológico, e o fascismo, político. O nacionalismo extremista se centrou na unidade racial e cultural alemã, ao ponto de pregar o extermínio de judeus, comunistas, minorias sexuais e outros. 
     O termo "socialismo" serviu de isca para fisgar socialistas e comunistas. Tal afirmação serviria como informe aos defensores da extrema-direita que ligam erroneamente o nazismo à esquerda. Apesar do conhecimento histórico, a distorção ressurge forte no bolsonarismo, que chegou a ser criticado pela embaixada da Alemanha no país.
     Ciente de algumas confusões, Rollemberg cita distinções como distorção científica nazista (experiências bizarras de Mengele com prisioneiros) com o anti-intelectualismo fascista; e o racismo italiano estrutural, em comparação com o alemão, francamente ideológico.
     Aponta também semelhanças: "antiburguesia" (exceto a alemã), violência, totalitarismo e cristocentrismo, antipatia ao ateísmo socialista e à laicidade democrata-liberal capitalista. É desse gap de correlações político-ideológicas que surge o nazifascismo, hoje absorvido em alguns grupos extremistas isolados.
     O nazifascismo se definiria, na visão de Rollemberg, como um foco contrarrevolucionário, oposto frontal à natureza revolucionária e popular do comunismo e do socialismo. E a junção dos elementos nazifascistas, de certa forma, germinaria no Brasil como bolsonarismo.
     O bolsonarismo veio pela aparência popularesca de Bolsonaro, que diz defender a liberdade e a democracia, mas saúda o cristocentrismo, a homogeneização sociocultural e o totalitarismo de ambos, com a diferença de absorver o neoliberalismo entreguista de seu ministro Guedes e distorcer a realidade dos fatos.
     Dessa forma é possível compreender o bolsonarismo como uma soma político-ideológica de alguns elementos nazifascistas, que o apraz em sentir-se à vontade ao expressar preconceitos à diversidade social e ser favorável a métodos violentos para exterminar opositores políticos e grupos sociais que divirjam de seus desígnios.
     O desprezo do bolsonarismo à cultura não é total, ele se volta contra todas as manifestações que não agradem ao líder. Da mesma forma, as religiões, a diversidade étnica e sexual que o presidente vê como obstáculos ao seu desejo de poder autocrático.
     A misoginia e a violenta repulsa ao opositor ou diferente (podendo chegar à morte em um contexto político) são preconceitos adicionais no bolsonarismo. O primeiro o difere do nazismo e do fascismo, que usavam as mulheres nas suas práxis, e o segundo, embora fosse elemento nazifascista, também teve influência olavista.
     Outra característica do bolsonarismo é as falácias conspiracionistas que hoje são alvos da CPMI das fake news. Houve falácia nazista contra os judeus alemães, culpando-os pela severa crise econômica local, e para justificar suas práticas cruéis.
     Outro elemento fascista do bolsonarismo é a ameaça. Em entrevista ao Uol, o ex-deputado Fernando Gabeira analisou a intenção de Bolsonaro pela reunião ministerial de 22/4. Segundo ele, as FFAA já perceberam que armar a população é para a guerra civil contra a autoridade contrária a ele, e nada fazem para conter ou dissuadir.
     A análise de Gabeira é importante tendo-se em vista o caráter agressivo do bolsonarismo com vistas a retirar direitos (inclusive à vida) em nome de um poder absoluto fantasioso e do ultraneoliberalismo de Guedes.
     E a maior parte da população brasileira parece ter percebido a faceta fascista do líder, daí os movimentos em massa e os 36 pedidos de impeachment, 35 nas mãos de Rodrigo Maia, que nada faz. Uma expectativa cujo passar do tempo tende a se transformar em angústia e também em depressão.
     Mas, como salientam Paxton, Rollemberg e mesmo Ghiraldelli, a história tem mostrado que extremismos têm a antipatia da maioria das nações, por significarem opressão sobre os povos em censura e perda de liberdades e mesmo de direitos. E que, sempre que ressurgirem, devem ser combatidos.  
     Portanto, o bolsonarismo, como um nazifascismo à brasileira travestido de liberdade civil, e dada a sua agressividade, deve ser prontamente eliminado. Antes da nossa falência final. Ou nós, ou ele.

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Fontes:
http://dagobah.com.br/wp-content/uploads/2016/09/PAXTON-Robert.-A-Anatomia-do-Fascismo-1.pdf
   
   

terça-feira, 2 de junho de 2020

Bolsonaro x STF, fascismo x democracia

     O STF determinou à PF realizar uma devassa em bolsonaristas que participaram nas disseminações de fake news nas redes sociais, blogs e no Youtube. Entre eles, figuram youtubers, jornalistas e até os irmãos Carlos e Eduardo Bolsonaro.
     Em relação a estes a imprensa mencionou apenas "indícios" e daí não deporem na PF. Mas a maioria do povo sabe que os filhos comandam o Gabinete do Ódio.
     Parafraseando Mussolini, Bolsonaro cavalgou em arredores de Brasília, indiferente ao patamar de 30 mil mortos pelo Corona. Tal frieza já se espera de alguém que antes parafraseou Hitler e, depois, o fascista italiano.
     Fanáticos bolsominions empresários e extremistas foram às avenidas de São Paulo, Rio e outras, provocando milhares de populares capitaneados por torcidas antifascistas de times de futebol. E a PM, claro, a atacar estes últimos e acarinhar aqueles.
     As paráfrases de Bolsonaro, antecedidas por secretários já afastados, e as consequências atuais suscitam o debate sobre a volta do fascismo no Brasil. Apesar dos alertas ecoados desde a nossa melhor fase democrática (1995-2013), é válido lembrar de que a "mistura ideológica" (e cristocêntrica) é típica do bolsonarismo, já tratado neste blog.
     O rumo do bolsonarismo preocupa os ministros do STF. Celso de Mello enviou mensagem privada aos colegas comparando o governo atual com o da Alemanha nazista. Gilmar Mendes foi entrevistado, se declarando um defensor da democracia.
     Faz sentido a preocupação, dado o caráter privado e tarde da noite. Ameaça? Não há como saber ainda. Em caso de suspeita, esta pode recair sobre os extremistas do "300 do Brasil", que têm a simpatia dos Bolsonaro e do blogueiro Allan dos Santos, um dos pegos pela PF.
     Mas, o que se sabe até agora não dá clareza sobre todos os seus integrantes, impedindo um apontamento de qualquer suspeita de autoria de ameaça perigosa contra o STF. Só mesmo o desaforo para lá de desrespeitoso de Sara.
     Por sua participação sobre os Bolsonaro e também por portar o documento de impeachment, o STF ganha a simpatia de uma maioria que partilha de oposição a Bolsonaro com seu governo de caos e indiferença à vida. Uma entidade que se declara progressista, em confronto direto com o fascistalesco bolsonarismo.
     Mas o ministro decidiu arquivar o pedido de apreensão dos celulares do presidente e filhos. A justificativa foi a de ser "competência do MPF, sem [...] terceiros", como enfatizou Augusto Aras, da PGR, próximo de Bolsonaro. 
     Um dado é que até o MPF, órgão independente de auxílio à justiça assim como a PF, está aparelhado com a família do presidente. E Celso sabe disso, daí reiterar "defender o estado democrático de direito e a Constituição".
     Para Paulo Ghiraldelli, Bolsonaro é apenas "um fascistoide", mas não é um fascista de fato por operar pelo caos via dissolução do Estado: os governos fascistas têm Estados fortes, como mostra a História - e Trump atualmente.
     Mas é por aí que se deve considerar uma faceta nova de fascismo. Afinal, em confronto com a ordem democrática defendida pelo STF, Bolsonaro prega o fascismo caótico bolsonarista.

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Com informações de artigo anterior deste blog, Revista Fórum e G1 Globo.



     
     

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Recrutar jovens: militarismo ou milicianismo?

     A política armamentista já era promessa de campanha de Bolsonaro, para chamar o apoio de classes médias desgostosas com a histórica ineficácia no combate à violência urbana. Como se isso não fosse um problema dos Estados.
     Além de associar a vergonha ao PT, os asseclas do bolsonarismo (alguns na mira da PF por ordem do STF) prometeu militarizar as escolas públicas no mote de "salvar as jovens gerações pela disciplina". Tanto é que, antes do Corona, as redes sociais eram lotadas de fotos, vídeos e notícias sobre esse tema. Claro, alguns desmentidos.
     Passada a eleição e 2019, nada. Estamos em meio de 2020 e nada. Mídias oposicionistas tiveram tempo de sobra para desmistificar essa política, e agora em maio, um evento revelaria segredos ligados à militarização das escolas. Com a ajudinha do Corona.
     Em 22/4 ocorreu a reunião ministerial. Mas nunca foi noticiada, até ser revelada em rede de massa em 22/5, após o vídeo parar no STF, que recebeu denúncias de irregularidades e pegou para analisar. Quem analisou? Celso de Mello, o mesmo que está com pedido de impeachment de Bolsonaro em mãos.
     O vídeo não mostrou o que deveria ser uma reunião de governo, mas de mafiosos.
     Em cena, Guedes deu sugestão daquelas: recrutar 1 milhão de jovens nas FFAA, em forma de "primeiro emprego" remunerado em R$ 200 mensais, via alistamento e seleção normais.
     A princípio, a geral engoliu como dar forma à política armamentista genérica defendida por Bolsonaro. Faz sentido. Só que há outra, subjacente e tão perigosa quanto, se revelando a partir do imenso contingente de ingressados, bem maior do que o normal.
     Por trás dessa beleza de segurança há uma feiura. Segundo Guedes, eles passariam 1 ano treinando usos de armas diversas e... como não há garantia de progressão em carreira militar, mesmo se houver interesse, sobraria que opção? É só pensar.
     A ideia absurda bate com a defesa de Bolsonaro da milícia legalizada como uma segurança alternativa em periferias pobres urbanas, como "reforço" às PMs estaduais. Por terem posse e porte de armas, os jovens já qualificados "protegeriam suas famílias".
     A família Bolsonaro, incluindo o presidente, defende as milícias há muito tempo, mesmo se esquivando das sucessivas investigações das mortes de Marielle Franco e de duas juízas que, antes, condenaram milicianos por outros crimes.
     O presidente negou intenção de golpe apesar de admitir "ser muito fácil" no momento. Mas, como diz o professor Paulo Ghiraldelli no youtube e em seu blog, ele quer a democracia não por gostar, mas porque as milícias "gostam da democracia", e ele se aproveita esgarçando os limites da lei.
     O apontamento de Ghiraldelli bate com a minha observação de que a sobrevalorização das milícias se iguala ao mesmo gesto sobre as igrejas evangélicas como substitutas do Estado em atenção pública, mesmo sem qualificação para tal.
     Além de formar um tripé formado por famílias armadas, milícias com PMs e s igrejas, essa política explica também as alianças sinistras das igrejas com o tráfico em algumas favelas, um fenômeno, o narcopentecostalismo, já estudado desde 2013.
     Em comunidades dominadas pelas milícias, aliança idêntica se verifica, mas desta vez com esta organização criminosa. Esse fenômeno, mais sutil, pode ser observado localmente. E se concretizar a sugestão de Guedes, será desses locais a maior parte desses jovens nas FFAA.
     E assim, se formaria um governo que, ao prezar o militarismo, mas defender a segurança paralela, cuja principal atividade, na prática, será reforçar a política de extermínio de todos os incômodos: políticos opositores, movimentos sociais e minorias em geral, fundará o novo fenômeno militar: o milicianismo.
   

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Youtube Paulo Ghiraldelli: https://www.youtube.com/channel/UCBMKrkHv07GoYb5ITLt0sYQ/videos
   

terça-feira, 26 de maio de 2020

Monarquia: solução à crise sociopolítica?

     Numa roda de conversa, são captadas algumas mensagens que remetiam à possibilidade de restauração da monarquia no Brasil. Esse assunto se encontra forte em alguns grupos por conta da explosiva crise política encabeçada por Bolsonaro.
     Quem nunca se atentou ao assunto antes achará que isso é de momento, principalmente com dois impeachments só na Nova República (1985-hoje). Mas, a ideia é bem antiga, vem desde os início da República.
     Mas, por que a monarquia? Será ela uma solução para os problemas sociopolíticos do Brasil? Antes de responder às perguntas, vale identificar uma corrente que surge com esse movimento: o monarquismo.
     Fundado por herdeiros da família imperial, o monarquismo é uma corrente ideológica que apregoa a manutenção ou retorno da monarquia como regime no Brasil. Há dois grupos, o colonialista e o imperialista, sendo este o majoritário.
     Os colonialistas defendem o reino à moda europeia. Já os imperialistas, o retorno da família imperial ao poder, com governo parlamentarista.
     Os seguidores acreditam que a República foi um golpe militar que trouxe forte corrupção e problemas políticos e sociais. É compreensível.
     De fato a República foi um golpe militar comandado por Deodoro da Fonseca. Floriano Peixoto se recusou a montar resistência imperial e ainda sucedeu Deodoro na presidência. Os monarcas se exilaram na França, levando um pequeno saco de terra, com o qual D. Pedro II seria enterrado conforme desejara.
     Monarquistas creem que o Brasil império viveu estabilidade sociopolítica. Só que não. D. Pedro I foi impopular até falecer, em 1836, pelos gastos exorbitantes de dinheiro público na Casa. Com D. Pedro II, o Brasil virou palco de revoltas como a dos Farrapos (1835-45), da Garrafada (1831) e da Cabanagem (1834-40).
     A Guerra do Paraguai (1864-70) endividou fortemente o país e fez escravos como soldados, com muitas baixas. O que piorou a nódoa do sistema escravista no Brasil imperial.
     A maior parte da população era analfabeta e rural. Prevista na Constituição de 1824, a política de educação em massa só sairia do papel com a emergência da economia industrial e urbana no país, em plenos anos 1930.
     Segundo os monarquistas, a corrupção seria quase nada se o Brasil ainda fosse império, devido ao poder moderador, pelo qual o imperador poderia demitir os parlamentares acusados e mesmo o primeiro-ministro. Mas, na prática...
     Houve corrupção e outros males, como nepotismo, compra de títulos e troca de favores. A família de D. João VI se fixou no melhor local carioca, via troca de favores com o traficante de escravos Elias Lopes, que teve títulos de nobreza. D. João VI "gerou" mais marqueses, condes, barões e viscondes do que Portugal em 700 anos. Antes dele, terras públicas e privadas daqui eram usadas como moedas de troca e a "caixinha", cobrada do povo para comprar títulos. 
     Essas práticas contagiaram os pobres devido ao aperto burocráticos e centralistas, herança lusitana, agudizando-se no Império. O cafezinho após o almoço no restaurante surgiu quando os funcionários públicos, nobres na época, diziam: "se pode servir o almoço, por que não pode o mesmo com café?". Dessa cultura de privilégios vem a elite egoísta e preconceituosa e muito burocrática que conhecemos.
     A intensa burocracia que se agudizou no Império corrompeu os mais pobres, que juntavam pó de pirita ao ouro para vender mais caro para os aventureiros, e esconder cargas preciosas em imagens de santos para escapar de impostos pesados, surgindo o dito "santo do pau oco", para apontar o esperto que se faz de bondoso. Daí o atual jeitinho brasileiro, fruto da necessidade de sobrevivência.
     Embora imorais e tipificadas no atual código penal como delitos, as más práticas são muito frequentes, algumas delas bem sofisticadas, graças à evolução digital no sistema bancário. O que demandou da parte de instituições como a PF e o MP inteligência artificial para chegar às evidências criminais e seus autores. 
     Ainda assim, os monarquistas dizem que falta o poder moderador. Na verdade ele não se extinguiu, apenas foi transformado em entidades independentes e auxiliares do judiciário: PF e MP, que atuam sobre crimes contra o erário público, inclusive o nepotismo.
     Claro que D. Pedro II foi um visionário em alguns aspectos. No meio ambiente, recuperou grande extensão de terras tornadas públicas após falência do café, resultando na atual Floresta Nacional da Tijuca. Na imprensa também. Assim como tivemos presidentes com desempenho razoável em algumas políticas, como Vargas, JK e Lula. Apesar dos pesares. 
     Mas, com a escravidão foi contradito, através de concessão de alforrias, mantendo o tráfico de escravos. O herdeiro e hoje deputado federal Luis Phillipe de Órleans e Bragança, disse no ano passado que escravizar "é aspecto da natureza humana", justificando a herança escravista no abismo socioeconômico e no racismo, mesmo dizendo que "a família imperial tem sangue negro".
     São contradições que correram na história brasileira desde os seus primórdios coloniais até hoje. Fosse hoje monarquia e Bolsonaro imperador, ele esgarçaria o regime, as leis e o estado democrático de direito, com intensa criminalidade no poder, exatamente como faz agora. E os monarquistas de hoje clamariam pela... República.
     Portanto, o problema não está no regime, se monárquico ou republicano. O problema está em quem governa e a qualidade de seus relacionamentos, resultante muito mais numa história de valorização do engodo em detrimento de uma educação que fomente a cidadania partícipe da vida política. Essa, sim, é a grande "salvação da pátria".


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Com informações baseadas em Wikipédia, Uol política e Aventuras na História.
     

     
     

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Reunião ministerial do crime

     A reunião ministerial ocorreu no Palácio do Planalto em 22/4, mas aparentemente não despertou interesse da geral. O interesse veio após o já ex-ministro Sérgio Moro depor sobre um vídeo não divulgado da mesma.
     O motivo: a interferência do presidente na instituição no RJ e em Brasília para impedir o progresso de investigações contra seus filhos Flávio e Carlos.
     Além da evidente interferência, o decano do STF Celso de Mello, ao avaliar o vídeo na íntegra, descobriu um conteúdo muito pior do que se pensava. Estarrecido, ele autorizou divulgar na mídia. A cobertura maior foi da Globo News.
     O vídeo estarreceu geral. Muitos palavrões em tom explosivo verteram de quase todas as bocas ali presentes. Alguns ficaram mudos. A metralhadora de Bolsonaro, foi a campeã com 29 do total de 41 do xingatório contabilizado pela imprensa.
     "Não vou esperar foder minha família [...] Se tiver que trocar, eu troco e ponto final", explodiu, sobre as nomeações da PF, em desafio ao STF. Em vários momentos, "puta que pariu", e outras finezas.
     "Vamos vender essa porra do Banco do Brasil logo", bradou explosivamente o ministro Paulo Guedes. Ele mandou o povo "se foder" em aplicações em bancos privados, que cobram taxas maiores, após a entrega do BB.
     Presidente da Caixa, Guimarães também se referiu à própria instituição como "merda" em um momento de sua longa e confusa fala, que envolveu a detenção da mulher e filha de um amigo no Rio que havia furado o isolamento numa praia.
     Os governadores também foram taxados: Doria (SP) de bosta, e Witzel (RJ) de estrume, respectivamente. O motivo, obviamente, é a defesa destes ao isolamento social para retardar a velocidade de crescimento de contaminações e mortes pelo Corona.
     Detalhe: o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, também foi xingado em evento anterior, por conta do caos provocado pelo descontrole da doença na cidade, que enfrenta um colapso sem precedentes na saúde e no funerário.
     Não bastando os palavrões, a verborreia de ofensas marcou a reunião que mais pareceu um encontro de botequim ou, certamente, de mafiosos da Cosa Nostra. Se é que estes chegavam a tal nível nas suas reuniões do passado.
     "Tem que prender todos os vagabundos aí, a começar pelo STF", bradou Weintraub, que atacou a instituição "que não serve para nada". A ofensa foi também dirigida ao Congresso Nacional devido à possível votação de impeachment.
     "Tem que prender todos os governadores e prefeitos", propôs Damares, para demonstrar apoio ao presidente. Ao tratar sobre a contaminação dos índios pelo Corona, delirou como se fosse uma atribuição dos governos anteriores. 
     Outro que delirou absurdo foi o Salles, do Meio Ambiente: "Temos que aproveitar e passar a boiada em cima (da Amazônia), aproveitando a distração com o Covid". Com que Guedes concordou dizendo que "vamos ganhar muito dinheiro vendendo tudo isso aqui".
     Fala recorrente de Bolsonaro foi sobre armar todos os brasileiros: "todos os brasileiros de bem têm que ter armas, pois vai ter uma guerra aqui", sugerindo distribuir armas para a geral. E emendou: "É muito fácil tocar uma ditadura aqui, tem que armar todo mundo!", de modo a selar a sua política de caos e morte.
     Entre os poucos calados estavam os ex-ministros Moro, Teich e o vice Mourão. O segundo parecia não esconder o nervosismo, ou medo, que afirmou ter sentido na reunião, numa entrevista neste dia 24/5 na Globo News.
     É perfeitamente razoável a definição dos ministros do STF para o vídeo: "um festival de horrores", de tão baixo o nível e espúrias e criminosas as intenções da equipe de governo. É de assustar e atemorizar qualquer pessoa minimamente consciente da liturgia dos cargos.
     As propostas são muito mais do que frutos de uma política alucinada e estapafúrdia. São mais do que insanas. São criminosas, contra a democracia e a soberania, e merecem uma punição exemplar. Mas, isso vale para o STF.
     Quanto à reunião, dada a urbanidade protocolar exigida nas liturgias dos cargos ocupados, resta finalizar: mais pareceu mesmo uma reunião de perigosos serial killers influentes, uma autêntica formação de quadrilha.
     

     
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sábado, 23 de maio de 2020

Necropolítica, a um passo da ruína

     O artigo promete ser longo. Peço desculpas, mas é inevitável, face às novas informações que mostram como a morte se torna maior.
     Após o MS divulgar mais de 800 novos óbitos em 24 horas subindo para mais de 15 mil, Jair Bolsonaro faria um pronunciamento às 20:30h. O que desencadearia os panelaços em todo o país, planejados em redes sociais.
     Ele desistiu, com um triunfo na manga: já sabia do protesto e de um manifesto de seus apoiadores no domingo em frente ao Palácio, para por o seu plano final em ação.
     Ele se aproveitou da crise pela demissão de Nelson Teich por divergências nos protocolos profiláticos e de tratamento, para difamar o isolamento em favor da economia, gerando catarse entre seus fanáticos apoiadores de classe média empresarial.
     Mas, maior foi a razoável indignação com a insensibilidade do presidente que, como chefe de Estado, deveria prestar condolências em cadeia de comunicação em massa.
     Surge novo pedido de impeachment no próprio STF, pelas mãos do decano Celso de Mello. Um peso grande: o presidente não tem imunidade perante a mais alta instância judiciária.
     Mais de 60% dos brasileiros se alegram. Pelo risco de falência institucional e econômica e pelo vídeo comprometedor da reunião ministerial com depoimento de Sergio Moro, o tempo para decidir urge, e ruge. E os ministros do STF sabem disso.
     E veio a semana. Na noite desse dia 19/5, 1179 mortos em 24 horas, segundo o MS. Pelo andar da carruagem, um patamar previsto. Mas, para muitos, não a reação de Bolsonaro, que gargalhou: "Nada posso fazer. Quem é de direita toma cloroquina e quem é de esquerda toma tubaína".
     A piada insana foi parar nas paradas das hashtags das redes sociais. A princípio, houve uma vaga referência ao refrigerante Itubaína, que logo foi substituída pela da intubação do paciente grave de Covid-19. Errado: a referência foi outra, essa sim, terrível.
     Tão cruel quanto qualquer outra tortura, a tubaína foi um método de origem da inquisição medieval, consistindo em enfiar na boca da vítima um cano curto encimado por um funil, onde era vertida a água utilizada para afogamento. Foi tão comum quanto o famoso pau-de-arara.
     A repercussão desse aumento estatístico divulgado por todas as mídias a partir de centros de pesquisas em saúde, como o do estadunidense Johns Hopkins, foi claramente negativa. Não bastasse o ainda não esquecido caso Amazônia, o mundo desenvolvido se volta não contra o Brasil, mas contra o seu governante.
     Após nova ameaça à OMS de suspender os seus preciosos dólares solidários devido a um novo anúncio igualmente solidário da China (um embate tão ideológico quanto econômico), Donald Trump não só soube de novos dados da nossa triste estatística, na quarta-feira.
     Os novos saldos do MS foram anunciados a ele pelo Johns Hopkins Institute nos EUA, via grande mídia: 881 vítimas fatais no novo total de 310 mil "coronados". Foi a senha para o balde de água fria de Trump: "não quero essa gente vindo aqui e infectar o nosso povo".
     Spoiler: imaginem se aqueles deportados pelos EUA chegassem agora. Doce ironia...
     Mais balde de água fria ainda: mais 1001 mortes em 22/5 e quase 331 mil infectados pelo Corona. Por enquanto, sem nova fala pública de Trump apesar da repercussão no mundo. Nem precisa, ele já deu seu recado.
     Os números tétricos, mesmo oficiais, confirmam o que a imprensa internacional e a OMS já sabem: o Corona virou uma tragédia brasileira. Isolado política e sanitariamente, sob risco de falência institucional, chefiado por verdadeiros assassinos profissionais de terno e gravata, o país parece à deriva num mar infindo, sem sinal de ancoragem no horizonte.
     Mas, o Corona caiu como uma luva para Bolsonaro. Não por acaso ele festejou intimamente a cada 24 horas de dados do MS, com direito a churrasco no iate no meio do Paranoá. Para qualquer líder de uma nação em tragédia, o normal era prestar condolência pública.
     Mas Bolsonaro não faz condolências por ignorar o remorso e qualquer sentimento nobre. Até aos filhos, que chama de 01, 02, 03 e 04, que são seus reflexos ideológicos da violência e ódio antissocial profundo. Só os ricos interessam. Mesmo sorrindo, expressam olhar rancoroso e postura agressiva. 
     Essa influência gera reflexos também no Estado policial, cujo terror imposto aos pobres das periferias teve aumento considerável desde o ano passado. Em 2020, como se não bastassem as mortes pelo Corona, a atuação da PMs estaduais completa os ideais genocidas de Bolsonaro. 
     E a essa tragédia toda Bolsonaro sorri satisfeito. É a concretização de sua política, da busca de um poder absoluto ("quem manda sou eu"), só alcançado na ideia de que não se deve ter ninguém para atrapalhar. Isso ficou visível na reunião ministerial de 22/4, que será falada no próximo artigo.
     Um poder absoluto irreal que vale o exemplo dos déspotas do passado para hoje, resumido na máxima popular: "quanto mais alta a montanha, maior a queda".


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Crédito da imagem da charge: Google
Com base em: Veja, Uol e pílulas-diárias.
     

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