sábado, 21 de dezembro de 2024

Ligeirinhas 3 (oposição + mercado)

 

PEC da Anistia não morreu

              Após a votação de um pacote Haddad-Tebet brutalmente desidratado pela Câmara, o presidente da Câmara Arthur Lira foi entrevistado por algumas redes de mídia sobre temas na reta final de seu comando na Casa. Entre os temas, a PEC da Anistia.
                    O interesse da mídia sobre o assunto em específico se dirige ao fato de o Senado já ter aprovado a proposta que perdoa os partidos que tenham desobedecido à cota de gênero, de 30% das cadeiras ocupadas por não homens, da lei eleitoral.
                    A mesma PEC desperta entre os bolsonaristas um interesse quase desesperado, despertando suspeita de haver outros perdões além da cota de gênero. E eles não escondem, usando o pretexto da Constituição em relação aos vândalos do 8/1.
                    Só que na prática, isso é mentira. Eles querem mesmo é livrar suas próprias peles de possível cassação de seus mandatos, se aproveitando da súplica de Bolsonaro pela anistia. A prisão dos militares da trama golpista, culminada na de Braga Neto, os desespera de medo de a espada da justiça apertar seus âmagos.
                    E Lira lhes dá injeção de ânimo:  a PEC da Anistia não foi arquivada, só aguarda o momento certo de ser novamente votada. O mercado, quiçá, agradece: eles são seus aliados.


Sem trono, mas com poder

            O deputado Arthur Lira e o senador Rodrigo Pacheco estão em reta final de seus mandatos de presidentes das respectivas casas que ocupam. Foram mandatos em que muita água dos fatos correu nas calhas da política, movimentando bastante os bastidores.
                     Do alto de sua imponente estatura e voz de radialista, Rodrigo Pacheco manteve com o STF uma relação de conflito contido. Liberou a votação da proposta da restrição de decisões monocráticas do STF, mas ignorou os apelos bolsonaristas pelo impeachment de Xandão.
                    Com o Executivo, Pacheco também foi contido nos conflitos, que foram contornados pela capacidade dialógica de Lula. Aliás, apagou o fogo dos bolsonaristas na questão ao receber apoio do presidente para tentar o governo de MG em 2026.
                    Já Lira difere do senador em sua têmpera impulsiva e 100% de calculismo frio. Criou a resolução que suspende mandatos de indecorosos por 6 meses, mas, desmascarado por Glauber Braga, não puniu ninguém dessa forma, preferindo rodar o Conselho de Ética.
                    Essa persona o torna sujeito a vários inimigos. Enquanto enfrenta Glauber Braga, que o denuncia publicamente por abuso de poder político e econômico, Lira desconta em Lula 3 devido às restrições impostas às emendas parlamentares por decisão inicial de Flávio Dino (STF).
                    Enquanto Pacheco parece sair da presidência com mais ponderação, para dar lugar a Davi Alcolumbre, outro nome tradicional do Centrão que já presidiu a casa, Lira sairá do comando da Câmara passando a impressão de um rei destronado, mas com o mesmo poder de comando.


Possível futuro de Lira

             Como finalizado nas últimas linhas do texto anterior, Arthur Lira passará o cetro simbólico do comando da Câmara em fevereiro de 2025, para voltar aonde começou: como mais um deputado federal entre tantos na tribuna. Mas mantendo a sua forte influência e poder.
                    Dada essa postura, o deputado alagoano já carimbou na história e mesmo na cultura do povo alagoano a sua influência de coronel local moderno. E, ciente da marca de seu poder, ele espera alçar novos projetos para o futuro, dentro da sua carreira política.
                    Há muito tempo, um dos temas de sua rixa com Lula 3 residiu na ocupação do Ministério da Saúde. Em discurso, o presidente o desarmou ao recusar demitir a ministra Nísia Trindade, cuja gestão incomoda os servidores da saúde federal com o esfacelamento da rede no Rio de Janeiro.
                    Circula nos bastidores um rumor de que, na reforma ministerial de 2025, Lula 3 talvez nomeie Lira para comandar a pasta da Saúde, caso Nísia saia mesmo. Mas tudo isso ainda é especulação: oficialmente não há afirmação alguma das partes, nem de Lira, nem de Lula.
                    Somente teremos uma resposta mais sólida após a eleição dos novos presidentes do Congresso. Mas já fica o aviso aos servidores da Saúde Federal: se com Nísia Trindade a coisa está feia, não esperemos dias melhores se Lira for mesmo nomeado para a pasta.


Revanche mercadológica 1- ataque especulativo

             O Brasil tem experimentado um crescimento positivo na economia. Menor desemprego da história, massa salarial maior, PIB e indústria crescente têm tomado espaço nas mídias em geral. Até o fim de novembro.
                    Foi quando Fernando Haddad anunciou seu pacote que propõe socializar a arrecadação com cortes de gastos sobre os “de cima”. O dólar começou a subir, pausando rapidamente com o acidente que fez Lula ser operado no crânio duas vezes.
                    Lula voltou bem e o dólar subiu. Os juros do BC também, completando 1 ponto suficiente para atrair US$ bilhões para os cofres da dívida pública e ameaçando o mercado interno. É uma crise cambial, por déficit externo. Mas para a mídia, é como se fosse Lula o feiticeiro do mal.
                    O déficit externo brasileiro tem sido o desequilíbrio entre  o importar mais e o exportar menos. É aí que o mercado se aproveita para especular evento de crise para se reerguer. Mas com Lula, ele também é ideológico. E os jornalões mesmo sabem disso, porque também o são: basta ver o teor de suas matérias.
                    Triste é saber que só há um perdedor nessa história: as classes trabalhadoras pobres e médias da patuleia.


Revanche mercadológica 2- cangaço capital

            Enquanto as emendas parlamentares só foram liberadas pelo STF mediante transparência e limites em relação a despesas primárias, o Congresso se prepara para votar o novo pacote fiscal socializante da dupla Haddad-Tebet.
                    O intento de socialização da tributação sobe as rendas dos estratos mais ricos encontra resistência do Congresso. Mas o achatamento da valorização dos benefícios sociais e do salário mínimo não: o mercado controlador de políticos vê nisso uma melhora leve.
                    Melhora pouca, porque o mercado já percebe com bons olhos a alta dos juros e do dólar no momento. Não só porque entra mais grana no cofre da dívida pública. É porque os financistas apostam na alta como entrave aos investimentos do governo em políticas públicas.
                    Esse espírito de acumulação é a tática de um “novo cangaço às avessas”, promovido pelos estratos da Faria Lima e a turma de Arthur Lira contra o governo federal. Uma investida muito além de abuso econômico: é um golpe político ideológico.


Câmara venceu o pacote Haddad. E agora?

            Após muitas idas e vindas, o pacote Haddad foi votado na Câmara, com vitória para o governo. Bem, só que não é como imaginam. A vitória teve o já esperado sabor amargo para Fernando Haddad e Simone Tebet.
                    O congresso já deu mostras de que não inibe seu poder dominante e abusivo na relação com o Executivo federal. O texto vitorioso foi, na realidade, bem desidratado – o que não surpreendeu ninguém.
                    Mega ricos e elite do funcionalismo público permanecem incólumes. A valorização do salário mínimo e dos benefícios sociais foi achatada. O DPVAT – seguro de acidente de trânsito – não voltou. Mais uma vez, a justiça tributária não se fez.
                    Após a acompanhar a votação na Câmara, Haddad deu entrevista à mídia em tom sensivelmente desentusiasmado. Ele esperava que eles mudassem o texto em muita coisa, mas não uma desidratação tão agressiva quanto essa.
                    Embora chateado, Haddad não pensa em desistir. Agora aguarda a conduta do Senado em relação ao texto. É possível que os senadores atuem de modo a recuperar parte do que foi perdido na Câmara e readaptar de alguma forma.
                    Agora, pode ser que o ministro tenha ficado mesmo cansado, como estão dizendo. O que supõe uma possível expectativa inconsciente compartilhada com o povão de aceitação de suavização do IRRF nos bolsos.
                    Embora já esperasse o que viria, Haddad não conseguiu evitar o cansaço. Após tanto malabarismo em propostas pró-sociais com responsabilidade fiscal, ele dá mostras de que o cargo de ministro da Fazenda é o cargo mais difícil que se conhece.
                    Agora é a continuidade da velha guerra de classes, em que os “de cima” sempre vencem os “de baixo” no final dos combates.


O engodo da uberização
    
            O trabalho online tem muitas formas, mas há algo em comum: a autonomia. Uma delas é a prestação autônoma de serviços por plataforma, ou uberização, nome inspirado nos motoristas da Uber – uma alternativa mais barata do tradicional táxi.
                    Por sugerir uma “parceria empreendedora”, a uberização conquistou sonhadores portadores de veículos automotivos. Esse canto da sereia impulsionou a forma de trabalho mais epidêmica no Brasil. Só que a realidade não obedece à expectativa dos sonhadores.
                    A uberização é, na prática, uma nova forma de trabalho precário e carente de direitos dos “parceiros” e dos deveres das empresas-plataformas. Alguns analistas consideram a consideram uma forma de escravização moderna: é muito serviço para parco ganho.
                    O governo atual bem que tentou com uma proposta, que terminou rejeitada pelos próprios trabalhadores. Dado o caráter desse tipo de serviço, o governo passou a considerar esses trabalhadores, dotados de CNPJ e ganho mínimo, como nanoempreendedores.
                    Essa consideração do governo é bastante apropriada, pois pretende respeitar a autodesignação íntima desses trabalhadores de aplicativo. Por outro lado, não deixa de considerar a precariedade da legislação trabalhista pertinente, que os coloca à própria sorte.




















Ligeirinhas 2 (bastidores da política)

 

Revanche reacionária 1 – armas livres

            Flávio Dino (STF) disse que opera a “democracia do piti” no Congresso desde a sua decisão da transparência e restrição sobre as emendas. O Centrão de Lira e Pacheco ainda range os dentes com a minimização da mamata extra.
                    Os ministros Fernando Haddad (Fazenda) e Simone Tebet (Planejamento) já sabem que o novo pacote fiscal será descaracterizado para seu aprove, como aconteceu com a já promulgada PEC da reforma tributária.
                    Em seu mundo paralelo – só convergente com real quando há dinheiro –, os bolsonaristas se aproveitam dos indiciamentos e prisões preventivas de milicos golpistas para se movimentarem na sua listinha de vinganças.
                    E quase tiveram orgasmo numa delas: o senado aprovou a exclusão das armas de fogo da lista do imposto seletivo, que sobretaxa produtos que atentam contra a vida individual, social e ambiental para desmotivar o seu consumo.


Revanche reacionária 2 – fumaça antifeminista

            Os parlamentares bolsonaristas têm especial gosto de fazer guerra ideológica. Seja em ofensa à honra de Lula e aos colegas opostos, ou por suas propostas estapafúrdias, como as contrárias aos direitos sexuais e reprodutivos.
                    A revanche bolsonarista contra o aborto não é novidade. Nos anos 2010, Marcos Feliciano e Eduardo Cunha puxaram a corda contra LGBTQIA+ e aborto. Os bolsonaristas apenas aprofundaram a bizarrice da coisa.
                    Só neste governo vieram a PL1409, que propõe punir por até 20 anos a estuprada grávida que abortar – mais do que o meliante; e a PEC do aborto, que propõe condenar a interrupção inclusive nos casos legais previstos.
                    Na realidade mesmo, se trata tudo isso de cortina de fumaça contra possível descoberta de parlamentares que incentivaram ou financiaram a intentona de 8/1/23, enquanto a PEC da Anistia não pode ser votada. A prisão de Braga Neto os deixou apavorados.


Revanche reacionária 3- desinformação na escola

              Na escola e na universidade aprendemos informações formais fundamentadas na ciência e repassadas didaticamente. Sua prática refinada e em reconstrução é o conhecimento, passível, portanto, de reforço ou reconstrução pela ciência.
                    Nesse sentido, qualquer ditame sem fundamento que contradiga o estabelecido é considerado enganoso ou falso. Mesmo assim, a era digital – que amplia o acesso aos saberes – dá espaço crescente a plataformas ou canais de desinformação.
                    O maior canal é o milionário Brasil Paralelo (BP), cujos “documentários” em vídeos visualmente bem feitos seduzem um público crescente e mais jovem, em centros educativos e igrejas nas favelas, mal assistidas pelo Estado.
                    Através das redes sociais, onde investe R$ milhões em anúncios, a BP veicula negacionismo científico e histórico destruindo o espírito crítico e político fomentando, portanto, ódio, intolerância e violência. E isso já preocupa as autoridades cientes de seu método.
                    As autoridades conhecem o poder financeiro da BP, bem como o seu poder de desinformar e apontam a consequente anomia social a partir do esgarçamento das instituições educativas e democráticas – e até mesmo da República (res publica, a casa pública).
                    É preciso combater a BP e a extrema-direita que a financia. Esta última é pelo voto, o que necessita de nova forma de convencer a massa. já combater a BP necessita de mais cálculo, estratégia e dinheiro – e o mecanismo certo de ataque.


Prisão de milicos golpistas 1- valores invertidos

              As Forças Armadas e as PMs são simbolizadas como instituições de disciplina, força e hierarquia. Mas a História nos revela que isso não tem nada a ver com caráter. Que o digam Mauro Cid e os kids pretos da intentona bolsonarista de 8/1/23.
                    Preso por crimes ligados às joias sauditas e como partícipe da reunião do golpe na casa de Braga Neto, Cid foi enrabado pelo STF para contar tudinho o que sabe, o que contribuiria para a operação Contragolpe da PF que desmantelou  a quadrilha golpista.
                    Essa operação indiciou o ex-presidente Bolsonaro e mais 39 pessoas, várias delas militares. Isso levou o general Braga Neto a procurar o pai de Mauro Cid para conseguir informações da nova delação.
                    Só que Braga Neto foi pego na botija e foi em cana. Por isso e por ter reunido a quadrilha na sua casa. Sua prisão revela que as instituições militares carecem muito dos valores corretos – que incidem no caráter.


Prisão de milicos golpistas 2- lições

              A Comissão Nacional da Verdade (CNV) 2012 reconheceu apenas o ex-coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra como criminoso por tortura e morte na ditadura militar. Decepcionou por manter impunes os demais milicos igualmente criminosos.
                    O veredicto do CNV reforçou a descrença popular na chance de militares serem punidos de fato um dia. A patuleia vê o STM (Supremo Tribunal Militar) como um desperdício de dinheiro, por manter tantos exemplos de impunidade.
                    Mas, na era Lula 3, desde a CPMI do Golpe vimos milicos da PM-DF e do Exército serem presos pela Intentona do 8/1. Entre os do Exército estão presos o tenente-coronel Mauro Cid, 6 oficiais kids pretos (forças especiais), e o general Braga Neto, todos do Exército.
                    Após Cid, Braga Neto quer prestar delação premiada. Pelo visto, a prisão de milicos gera ao menos duas lições: a lei cumprida horizontaliza as relações de classe; e a prisão faz os milicos entenderem o valor da retidão.
                    E para Lula, em particular, se ergue o privilégio da história de ser o governante a testemunhar a ação da institucionalidade pela democracia e pela República.




                    












quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Ligeirinhas 1 (vieses mercadológicos)

 

Golpe do capital

            O pacote Haddad sobre IRRF intentou cobrar impostos dos super-ricos mesmo com alíquota menor do que os 27% pagos por quem tem 2 salários-mínimos, matar a morte ficta relativa a milicos expulsos e isentar quem ganha menos de R$ 5 mil.
            O pacote foi entregue ao Congresso. Foi apenas uma ação protocolar de cumprimentos e rapapés. No final, milicos e super-ricos continuam incólumes, o povo continua pagando pelos “de cima”, mídia hegemônica comemora em editoriais requintados.
            A negativa não surpreendeu Haddad. Mas sua formação pessoal, política e acadêmica não o permite jogar tão facilmente a toalha. Só que agora a equação estará mais difícil: como não desagradar o social sem melindrar o mercado?
            No Brasil, o golpe ideológico do mercado torna desnecessárias intentonas civil-militares como a de Bolsonaro ou de 1964. O capital sozinho já golpeia com eficiência o povo desde sempre.


Embate 1 – contra o STF

            Arthur Lira virou todo-poderoso que fez da Câmara um balcão de negócios. Então presidente, Bolsonaro pagou com orçamento secreto para que evitasse sua deposição e conseguiu. Emendas legais foram insuficientes.
            Extinto pelo STF após Lula eleito, essa grana deu lugar às emendas pix, nova forma opaca de sacar dinheiro. Pelo STF, Flávio Dino viu o ilícito e o suspendeu, irritando Lira profundamente.
            A voadora jurídica mexeu com o Congresso, que declarou guerra com o STF emperrando a votação de propostas do governo. Por birra, o governo foi por ora prejudicado. Até que houve liberação.
            Dino liberou, desde com transparência, e que as despesas com emendas não podem crescer além das facultativas do Executivo a partir de 2025. Lira rangeu e ainda range os dentes, mas aceitou. O STF venceu – até nova farra vir à tona.


Embate 2- Lira encara um gigante

            Arthur Lira apresentou nova resolução disciplinar que suspende por 6 meses o mandato de parlamentar por indecoro. Quase o total aprovou. Glauber Braga (Psol-RJ) então divulgou um vídeo de alerta.
            O alerta sinalizou que a resolução de Lira abre portas para uma escolha seletiva de quem teria mandato suspenso, com preferência sobre os de parlamentares mais à esquerda e/ou governistas.
            O tempo mostrou a sua razão. Após vários episódios em que bolsonaristas continuam incólumes, Glauber agora corre o risco de cassação por motivo torpe. É. Não é suspensão, é cassação quase direta.
            Boulos amenizou sua situação, mas o risco de cassação ainda é alto. Se cassar, Lira não conseguirá tirar a mancha de seu caráter. E também nunca conseguirá apagar o gigantismo de seu adversário de alma popular.


Assédio sexual 1: viés ideológico

            As acusações de assédio sexual contra o ex-ministro Silvio Almeida e dos professores Alysson Mascaro (que já foi orientador de Silvio na USP) e Jaime Martins (UnB) fizeram este crime ser novamente midiatizado.
            Este grave crime contra a dignidade íntima suscita forte apoio popular às vítimas, mas também acusações de “exagero identitário”. É interessante, face ao momento de recrudescimento da extrema-direita desde os anos 2010. É mera coincidência?
            Pensemos. Se por um lado, o crime que ofende 1 mulher a cada 6 minutos e 1 homem a cada hora (estimativa de 2024) é uma realidade que merece atenção, por outro vale saber por que ele aumentou tanto desde a metade da curta era Dilma 2.
            “Coincidindo” tal aumento justamente com a alta do bolsonarismo a partir de então, nós nos levamos a refletir sobre o crime ser mais do que mero revanchismo tradicional de machos feridos.
            Sim, há algo a ver, com certeza. O antifeminismo bolsonarista conseguiu ideologizar todas as formas de violência contra a mulher – especialmente a sexual, o ápice da violência de gênero, que constata ainda mais o Brasil como um país hostil às mulheres.


Assédio sexual 2: o caso Mascaro

            O Intercept Brasil publicou matéria que denuncia o professor de Direito da USP Alysson Mascaro de assédio sexual sobre alunos rapazes. A matéria repercutiu em forte controvérsia no debate público.
            A USP entrou com sindicância sobre o caso. Mesmo sem crítica pública à mídia, Mascaro foi para as redes sociais, nas quais nega as acusações atribuindo as supostas denúncias a perfis falsos.
            O professor não ficou só nas redes. Defendido por grupos de esquerda, que acusam o Intercept de se aliar à ONG Me Too para fazer a matéria, ele corre para buscar reparação na Justiça. E corre contra o tempo.
            Enquanto não sabemos quem diz a verdade, ele virou alvo do governador Tarcísio de Freitas. Por trás dessa treta toda está a suspeita de que as denúncias de assédio foram inventadas porque o professor é um dos maiores intelectuais marxistas do país.
            Sim. Em universidades elitizadas e contaminadas pela extrema-direita, denúncias falsas podem surgir para mascarar uma perseguição político ideológica.


Assédio moral: viés ideológico

            Se existe um ambiente social no qual o assédio moral já é normalizado de tão comum, este é o de trabalho. No âmbito jurídico, ele é tipificado como crime contra a dignidade e a honra pessoal, mas ocorre até mesmo em tribunais.
            Nesse sentido, o assédio se revela uma herança do escravismo de mais de 3 séculos, atuando como reprodução dos papeis sociais na teoria de Pierre Bourdieu. Direta ou indiretamente, esse fato tem outra função intrínseca.
            É uma relação de domínio para demonstrar poder. Chefes à antiga se sentem “donos” do pedaço e dos subordinados. No lugar da chibata, as ofensas ou desestímulos como sobrecarga sem retorno ou isolamento com retirada de funções.
            Na classe política, o que mais tem são patrões à antiga – tanto esquerda quanto na direita. Mas é entre aqueles com vínculo mais íntimo com os desígnios do capital que a herança e a representatividade escravista tanto se esmeram.


BC: autonomia pelo capital

            As instituições públicas são independentes quando o gestor nomeado pelo ex-presidente da República continua seu mandato no tempo mínimo obrigatório mesmo com o novo governante. São assim o Ministério Público e o Banco Central.
            O Banco Central (BC) adquiriu essa independência durante a era Temer (2016-18). Em 2022, para presidi-lo, Bolsonaro nomeou Roberto Campos Neto, por indicação do seu dileto ministro ultraliberal Paulo Guedes.
            Lula 3 conseguiu demonizar Campos Neto, por ter assumido o poder sob juros de 13,75%/ano, maior taxa do mundo. Lula teve razão, pela dificuldade de investimento imposta pela cifra. Campos Neto alegava que foi para controlar a inflação.
            O que impediu a patuleia de saber que, quanto mais altos os juros, maior é a dívida pública (hoje, 48% do PIB) que vai para o mercado financeiro – que, insatisfeito, ainda cobra do governo mais corte nas investidas sociais.
            O mercado agradece pela independência. Mesmo sendo ingrato com a população consumidora que mais o alimenta com impostos.



















sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

CURTAS 84- ANÁLISES (golpistas pegos, pacote Haddad)

 
Golpistas indiciados hoje. E depois?

            Brasília, 8/1/2023: o Brasil se estarreceu com a transmissão, via TV e Internet, as imagens terríficas da destruição dos prédios públicos da Praça dos Três Poderes, em Brasília. Desenrolava-se então a Intentona Bolsonarista do 8/1.
            Por intentona se define qualquer insurreição social por insatisfação política. Por muito tempo aprendemos sobre a intentona Comunista de 1935 da coluna de Carlos Prestes. Agora, os novos livros de História incluirão a de 8/1.
            Breve cronologia do golpismo – em 7/9/2021, o então presidente Bolsonaro governou declarou guerra ao STF mirando especialmente o “Xandão”, que mandou prender fãs bolsonaristas e o bombado Daniel Silveira pelos crimes antidemocráticos de 2020-21.
            2022: para divulgar fakes sobre o sistema eleitoral brasileiro, Bolsonaro fez lives exigindo voto impresso “ou não terá eleição”, reuniu embaixadores e incitou os seus fãs contra Xandão, então presidente do TSE, posando-se de vítima.
            A atuação de Xandão no TSE controlou a violência nas cabines de votação no 1º turno, mas foi desafiada por assédio eleitoral no trabalho e em cultos evangélicos e, no 2º, pelas blitzes ilegais da PF nos lulistas Nordeste e norte mineiro.
            Eleito Lula, jornalões relataram a “triste reclusão” de Bolsonaro no Alvorada – mentira que abafou os planos por trás das bizarrices de bolsonaristas que bloquearam estradas e acamparam à frente dos quarteis em todo o país.
            O silêncio de Bolsonaro fez barulho. Na surdina, ele recebeu três ministros do STF: André Mendonça, Kássio Nunes e Dias Toffolli. O encontro foi extraoficial. Toffoli soube do barulho silente dentro do Alvorada.
            12/12: durante o dia, Xandão diplomou Lula eleito presidente. À noite, Brasília virou palco de terror, com os radicais bolsonaristas acampados incendiando 3 carros e 5 ônibus, e atacando posto de gasolina e delegacia da PMDF.
            24/12: foi descoberto artefato explosivo embaixo de um caminhão-tanque no Aeroporto de Brasília. Acionada, a PF percebeu que uma tragédia só não ocorreu porque o troço foi mal ajambrado. Esse terror foi, na prática, ameaça ensaiada.
            Golpe de Estado- estava para acontecer até 31/12, daí Bolsonaro fugir aos EUA em 30/12, em estratégia para assistir de longe.
            2023: em 8/1, a Intentona na praça dos Três Poderes, que levou à condenação de centenas de bois de piranha. Entre 18/5 e 20/11 houve a CPMI do 8/1, cujo o relatório final acusou Bolsonaro, vários militares e dezenas de outros nomes de alto escalão pela tentativa de golpe.
            2024: paralelamente ao caso Marielle, a PF visitou parlamentares e milicos bolsonaristas às 6h da matina. Um milico desmaiou, e alguns parlamentares explodiram nervosos de desespero durante comissões nas tribunas após as visitas.
            Assim, paulatinamente, talvez a partir do ano passado, como uma casa tijolo a tijolo, se construiu a nova operação da PF.
            Operação Contragolpe – esse nome caiu no conhecimento público no mesmo repente em que vimos o ex-presidente ser anunciado entre os 37 indiciados na tentativa de golpe de Estado. 6 milicos pararam atrás das grades.
            Em arquivos de mensagens salvos na nuvem online, o teor da trama revela o plano Punhal Verde-amarelo para matar Lula, Alckmin e Xandão, abrindo portas para uma junta militar pela qual Bolsonaro reassumiria o poder em molde totalitário.
            Uma ditadura, entenda-se, tão anarcocapitalista selvagem quanto sanguinária.
            A operação desesperou os bolsonaristas na Câmara, onde a PEC da Anistia ainda arrisca a ser tramitada a despeito da forte pressão popular e das explicações de juristas e especialistas em vários canais das mídias sociais.
            Visitas discretas- em 28/11 soubemos que Bolsonaro recebeu na surdina os juízes do STF André Mendonça, Kassio Nunes e Dias Toffolli 12 vezes de junho a dezembro/22, período em que a tramoia estava sendo desenvolvida.
            As visitas foram descobertas por mando de Xandão para investigar movimentos no Alvorada registrados pelo GSI no fim de 2022. O relatório do GSI não informou o motivo, mas quem, sim.
            Fria análise- não nos surpreende parte dos milicos terem participado dos planos de golpe – incluso o de matar três autoridades. É de sua formação autoritária, caráter da cultura militarista.
            Com isso, é admirável que a maioria não tenha se envolvido na bagunça. Freire Gomes e Tomaz Paiva, este último chefe das FFAA hoje, nos mostraram que ao menos há militares capazes de pensar e de respeitar as leis.
            Mesmo com muitos agentes bolsonarizados, a PF ao menos voltou à sua normalidade de instituição de Estado. E ainda terá muito o que fazer na presente operação Contragolpe: com tantos envolvidos ainda a pegar, o golpismo ainda não acabou.

Para saber mais
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Haddad x Kapital: dura batalha

            Após mais de 7 anos sem correção, o IRRF (imposto de renda da Receita) tem devorado rendas cada vez mais baixas. Só o salário mínimo (SM) escapou no fim de 2022. E veio 2023 com Lula 3, que recuperou ministérios.
            As pastas da Fazenda e do Planejamento têm Fernando Haddad e Simone Tebet à frente. Haddad se sentiu em casa, em harmonia com Tebet, sem deixar de lado suas intenções progressivas. Mas, não sem polêmica.
            Ele tem trabalhado para manter investimentos públicos com fiscalização e reduzir desigualdades. Mas deparou com um Congresso da pá virada. Com muito custo conseguiu corrigir a tabela do IRRF. Timidamente.
            Vitória amarga. Haddad queria isentar do Leão até R$ 4mil, quase 3 SMs. Mas o Congresso achatou o teto a 2 SMs, ainda ferrando boa parcela do povo. Mas conseguiu manter popularidade equilibrada a Lula 3.
            Uma popularidade longe de outrora, pelo contexto com segmentos bolsonarizados como evangélicos e policiais, e sem alarmar mercado e jornalões. Até recentemente.
            Presente de Natal?27/11/2024: em rede nacional, Haddad anunciou em rede nacional nova correção de IRRF para 2026, com teto de isenção a R$ 5 mil, sem prejuízo da arrecadação do Tesouro. É o pacote Haddad.
            O pacote Haddad foi uma resposta do governo à velha pressão do mercado de “cortar os gastos públicos”, ao que Lula é contrário por já haver o arcabouço fiscal, que limita despesas até em áreas essenciais.
            E como o mercado é voraz, o governo respondeu apresentando uma solução. Para manter arrecadação, haverá cortes em pensões de milicos expulsos e tributar mais a galera dos supersalários e as classes rentistas.
            Se bem cumprida pelas partes, estima-se economia de R$ 70 bi/ano, com bom investimento público no mercado e em empregos, e isentar do IRRF 26 milhões de pessoas. Estaria cumprida a intenção de Haddad.
            Haddad sempre considerou injusto isentar luxos inúteis do 1% mais rico do país tributando alto as classes populares. Não é só questão de justiça, nem de ideologia: ele quer seguir o resto do mundo. Ainda assim, sua ação gerou uma rebordosa.
            Reações díspares – as classes populares reagiram bem ao ver o Leão mais longe. Já as elites (rentistas, CEOS empresários, religiosos super ricos, altos milicos) não querem cortes em seus vultosos ganhos por “populismo barato”.
            A geral popular tem uma visão mais pragmática, enquanto os “de cima” politizam o fato, daí a reação negativa. O mercado é tão ideológico quanto econômico, daí dominar a conduta da classe política.
            Daí haver toda uma problematização a ser considerada sobre o pacote.
            Morde a elite – segundo Haddad, portador de doença crônica provada contemplada na lei com renda até R$ 20 mil fica isento de IRRF; se saudável, paga. Rendas a partir de R$ 10 milhões/mês terá alíquota mínima de 10%.
            Essa mínima é bem menor do que 27% pagos por trabalhadores com renda pouco acima de R$ 4 mil. Por que pegou tão leve nessa turma? Porque os ganhos são tão surreais que um pouco de cada um já rende R$ bilhões/ano.
            Mas outros segmentos entrariam para ajudar.
            Milicos – o pacote mata a morte ficta, a pensão passada a descendente solteiro de militar expulso e dado como morto pelas FFAA. A morte ficta é acintosa, mas os milicos reagiram jogando sujo.
            Circula um vídeo da Marinha no qual mostra um treinamento militar enquanto a geral civil só curte a vida. Chamou de vagabundos todos que pagam impostos para sustenta-los. Até o momento, o vídeo não foi punido.
            Mercado – o teor do pacote foi alvejado pelos especuladores: a cotação cambial do dólar aumentou (chegou a R$ 6), o que levou o BC a subir juros no pretexto de controle da inflação e entrar mais dólares no país. Só que...
            Essa grana obtida dos juros altos não se destina à nação. Ela cai nos títulos da dívida pública, mais de 45% do PIB hoje. Títulos esses que alimentam... o rentismo, no qual as megaempresas também investem como ações.
            Nem a patuleia escapa – mas há pontos no pacote fiscal que podem afetar a patuleia. Eles são as restrições sobre valorização do SM, dos benefícios previdenciários (aposentadorias, LOAS, BPC) e mesmo sobre o Bolsa-Família.
            Essa parte gerou uma divisão nas representações de esquerda. Até dentro do próprio PT. Achatar a valorização do SM e demais benefícios a 2,5%/ano é injusto e pode despencar a popularidade de Lula.
            Congresso e milicos – antes da Marinha vazar o vídeo, Arthur Lira disse aos jornalões que o pacote “é impossível de aprovar”. E não é só pelo mercado que o controla. Ele está em guerra com o STF.
            Flávio Dino mandou bloquear as emendas bilionárias devido à falta de transparência (novo orçamento secreto). Ele só as liberou exigindo a transparência das transações. E vai ter um teto.
            Com intermédio de José Múcio, os milicos convenceram o governo a não mexer no tempo de contribuição na previdência, mesmo aceitando o fim da morte ficta.
            Avanço de um vício - após descobrir que beneficiários de Bolsa Família gastavam com bets, o governo meteu a voadora na farra. Fez certo, mas o povo extra isentado se jogará mais. Um perigo.
            As bets viciam porque são programadas para induzir o jogador a querer insistir, mesmo sem nunca ganhar. Crime organizado e alguns influencers agradecem, enquanto a CPI das Bets não indiciá-los oficialmente.
            Fria análise final – ao observar o incômodo causado por seu pacote, Haddad viu que a chance de aprove é dificílima. Mas entende o motivo: a progressividade tributária incomoda os “de cima” – que têm Lira como exemplo político.
            Como os milicos, a elite financeira também joga sujo. Queda da bolsa e aumento do dólar derivam são especulações, manipuladas na grande mídia para impedir o ação da consciência socioeconômica. Afinal, o pacote nem saiu do papel, como ele vai fazer isso?
            Sobre os benefícios sociais não há corte, mas menor crescimento valorativo. Mas é ruim: o SM não satisfaz o previsto na lei nem para uma pessoa, quanto mais a família inteira – daí o Bolsa-Família ou BPC ser um complemento bem-vindo.
            Daí parte da esquerda considerar o pacote um risco. Mas, se o arcabouço em vigor já corta e a reforma tributária só foi aprovada após muito alterada, algo tem que ser feito e Haddad foi escalado para isso. Segue o baile e quem viver, verá a dura batalha Haddad x Kapital.

Para saber mais
- https://youtube.com (canais O historiador, Portal do José, Desmascarando, Brasil de Fato e outros em vídeos de referência)
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