quarta-feira, 13 de novembro de 2019

A renúncia de Evo Morales foi golpe?

     Canais de imprensa do Brasil e do mundo divulgaram a notícia do último dia 10/11 sobre a renúncia de Evo Morales da presidência da Bolívia.
     O que chamou a estranheza de muitos políticos foi a suposta sugestão dos militares ao então presidente para que renunciasse. 
     Até porque, como já sabemos, os militares não costumam dizer: "Ó, presidente, sugiro ao senhor renunciar pra acalmar as feras aê...". Não, não cola.
     Civilidade não é com militares e o Brasil conhece esse filme muito bem. A Bolívia também.
     Como já sabemos como militares decidem as coisas, é certo que Morales escreveu a carta de renúncia com um cano apontado para a sua cabeça.
     Tal cena, como disse o filósofo e youtuber Paulo Ghiraldelli, trata-se de um golpe militar clássico. A mesma cena originou o golpe dos anos 1960-70.
     Claro que nenhuma mídia brasileira reportou a cena. Nem precisa: a comemoração de Bolsonaro e seus próximos militares diz tudo
     Ontem, a imprensa divulgou foto do comandante do Exército sentado à mesa antes ocupada por Morales. E hoje, na posse, a autodeclarada Janine Aiñez recebe a faixa presidencial através de militares.
     Aiñez é do Libertad Demócrata, partido de direita francamente liberal de estreitas ligações com militares e religiosos que pregam o retorno da teocracia. Ela tomou posse empunhando uma bíblia.
     Embora Evo Morales possa não ser inocente quanto aos fatos relativos à eleição, saliento que a OEA está longe de ser comandada por gente impoluta. Longe mesmo.
     Vale lembrar que, até hoje, permanecem obscuros fatos relativos à reeleição de George Bush filho, num sistema eleitoral em papel impresso.
     E, vale lembrar sempre: a OEA acusou indícios de fraude. Indício não é prova. Vale deduzir que a série de fatos pré-resultado da eleição pode ter sido tramada pelos militares para dar consistência à deposição de Morales.
     E reitera-se: até prova em contrário não se inocenta nem Evo, nem os opositores. E na América Latina nunca se estabiliza politicamente devido a interesses do "grande irmão do Norte".
     
     
     

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Evo Morales e a sedução do poder

     Há alguns dias atrás ocorreram as eleições presidenciais e o ganho foi novamente para Evo Morales Ayma, em disputa pelo quarto mandato consecutivo.
     Ao entrar na presidência em 2006, Evo chamou a atenção do mundo pela origem popular e por ser o primeiro presidente indígena.
     A maior parte da sua eleição se originou das regiões onde vive grande parcela dos cocaleros, que plantam e vendem folhas secas de coca nas feiras nas cidades andinas do interior. Entre eles, o povo uru-aymara, a etnia de Evo.
     Os cocaleros estão entre os mais pobres, que sofreram com barreiras alfandegárias à produção agrícola e carência de serviços públicos essenciais a aumentar o sofrimento.
     Após passagem pelo sindicalismo e pelo Congresso pelo MaS (Movimento ao Socialismo), Evo Morales disputa a presidência duas vezes, ganhando na segunda, em 2005.
     Fez alianças externas com Kirchner, Lula, Fidel e Chávez, com quem inaugurou o bolivariano, de esquerda nacionalista, visando afastar as investidas dos EUA.
     Nacionalizou a exploração de gás natural e tentou implantar política de combate ao tráfico (sem sucesso) sem, no entanto, atingir os cocaleros, considerando-lhes a tradição.
     De fato, quéchuas e aymaras mascam folhas de coca há mais de 1000 anos visando espantar o cansaço e o soroche (mal das alturas), sem um registro de problemas desse consumo. O hábito se deve ao intenso esforço físico em grandes altitudes.
     Outros registros positivos de seu governo, que lhe garantiram relativa estabilidade, foram o crescimento econômico médio de 3% ao ano, maior atenção à educação e à saúde, e redução significativa da pobreza, no mais pobre país sul-americano.
     Tal estabilidade da era Morales quebrou há três semanas,quando a OEA revelou indícios de fraude eleitoral. Foram solicitadas novas eleições, o que Morales acatou, mas sem pacificar os violentos manifestos populares.
     Tais indícios foram revelados na incoerência entre a negativa ganha na consulta pública e a reeleição de Morales. Este insistiu em permanecer no poder, e o povo foi para as ruas. Intimado por militares no gabinete, escreveu carta de renúncia.
     Há uma acusação de estratégia político-jurídica de Evo Morales, mas sem provas. De qualquer forma revela-se um problema que afeta a maioria dos mandatários: se deixar seduzir pelo poder.
     A submissão da razão pela ambição de continuar no poder o impediu de refletir sobre uma saída elegante com alta popularidade, possibilitando um retorno triunfal mais tarde.
     A sedução do poder leva líderes populares a terminarem impopulares, mesmo após políticas socioeconômicas efetivas. O maior ônus cobrado pela sedução do poder é um bom nome terminar na sarjeta da rejeição e do esquecimento.


     

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Governo Bolsonaro e igrejas: uma herança histórica

     Pelo menos desde os anos 2000, a forte proximidade de políticos com o público cristão tem sido a tônica das campanhas eleitorais, com especial atenção aos evangélicos.
     Além de saberem de seu crescimento expressivo, eles perceberam que é um público bom de amealhar votos, tendo a seu favor (ou não) a eficaz mediação dos seus pastores ou bispos.
     São eles que indicam aos fieis os nomes a serem votados, ainda que nem todos os obedeçam com o mesmo afinco religioso. E hoje temos um governo quase evangélico.
     Tal aplicação gera o fenômeno do curral eleitoral, que frequentemente implica em patrocínios públicos flagrantemente ilegais de eventos religiosos, alvos de processos frequentes movidos por representações ateístas.
     E isso mostra outra entrelinha: o que favoreceu esse fenômeno, num Estado laico?
     Na verdade, o fenômeno é histórico, sendo sempre remodelado. Os políticos reconhecem o papel fundamental das igrejas na cultura religiosa e moral do povo brasileiro.
     A constituição imperial de 1824 determinava que somente católicos poderiam ocupar cargos eletivos. Coube a República laica quebrar esse monopólio e permitir geral, para que valores religiosos não ditem mais a lei.
     É interessante que a aliança entre Bolsonaro e igrejas evangélicas tenha herança na relação travada entre os militares (1964-85) e a Igreja Católica.
     A aliança de 1964-85 se deu por manifestos de setores católicos conservadores da elite, entre elas a TFP (Trabalho, Família e Propriedade) e Arautos do Evangelho, que apoiaram o golpe militar junto à maior parte da CNBB.
     Uma relação dúbia: o Vaticano sabia das várias frentes populares católicas que atendiam à ampla diversidade das classes populares, alijadas pelos militares e setores conservadores da elite.
     Tudo isso Bolsonaro testemunhou quando militar, e ele se tornou avesso à ICAR devido ao papel do catolicismo progressista. Daí a aliança atual com o setor evangélico, fortalecida pelo bem pago batizado no rio Jordão, em Israel, com o pastor Everaldo.
     O que nos faz entender o governo com instituições aparelhadas com militares e pastores, a direita conservadora e fortemente capitalista também dos pastores mais influentes, que vendem a sua fé sem pagar um tributo qualquer e gozam de muitos privilégios.
     Tudo isso em detrimento da imensa massa alijada que os apoia.
Guedes e a ditadura do capital parte 2

     Nessa quarta-feira, em forma impressa e online, a grande mídia brasileira divulgou, em letras garrafais, uma nova proposta de reforma elaborada pelo Ministério da Economia.
     Na verdade, trata-se da reforma de Estado mais radical e profunda de Estado assinada pelo ministro Paulo Guedes.
     Com objetivos essencialmente arrecadatórios, o referido documento expressa forte concordância com a reforma administrativa na redução de cargos de 300 para 30, e a diminuição temporária de carga horária e e salários.
     Concorda com a reforma da previdência quanto ao achatamento de benefícios de aposentadorias e pensões, mesmo pra quem já está aposentado, e na maior alíquota previdenciária dos servidores públicos.
     E também com as reformas trabalhista e da liberdade econômica quanto à questão das desonerações das empresas e ao tributar (ainda mais) 13º e férias na folha salarial, descontando ainda mais no contracheque dos trabalhadores. 
     Agrega até detalhes relativos à partilha de royalties de petróleo, que não seriam mais destinadas a saúde e educação - um detalhe, aliás, controverso.
     Spoiler: a proposta corta até metade dos recursos a serem destinados a educação, saúde e outros serviços essenciais em 2020.
     Especialistas já avaliaram o texto original entregue ao Parlamento, onde também já há comentários. Com um detalhe: as avaliações mais destacadas são negativas.
     Eles o consideram uma "proposta de aberrações" que pode paralisar a máquina pública. E não é sem razão: além do funcionamento estatal, o investimento público atrai investimentos privados.
     E não poderia dar em outra, após o impostômetro de São Paulo anunciar o recorde de R$ 2 trilhões de reais em pleno outubro. Afastando em definitivo o déficit.
     O problema não está na falta de recursos desmentida pelo impostômetro, mas na ambição do investidor Paulo Guedes, que quer repassar tudo ao sistema financeiro, submetendo governos e nações à ditadura do capital.
Ágatha: após a comoção, o bárbaro esquecimento

     A violência urbana diária é notícia constante na nossa imprensa. Parece uma volta aos tempos de chumbo da ditadura militar, quando a censura imperava.
     Esse fenômeno se deve ao aumento continuado da violência envolvendo mortes. O mesmo fato ganha diferentes notas, conforme a tendência da fonte noticiosa.
     Embora os estados do Nordeste liderem hoje as estatísticas, o caso do Rio de Janeiro é surreal: a PM está envolvida em quase todas as mortes em comunidades cariocas neste ano.
     A morte de Ágatha, de 8 anos, causou comoção nacional repercutida no exterior e revela um fenômeno que transcende as 124 mortes oficiais envolvendo PMs no primeiro semestre deste ano, segundo o G1 Globo de 16 de outubro.
     Um detalhe macabro: os 124 casos excluem as muitas notificações silenciadas e esquecidas em túmulos identificados com cruzes numeradas nos bastidores do tráfico, da milícia e da PM do governo Witzel.
     Tais cruzes cobrem áreas inteiras de cemitérios grandes espalhados nas periferias da cidade, muitos deles a substituir terrenos baldios, muitos dos quais antigos locais de desova.
     E outro detalhe: a PM que mata pobres periféricos não surgiu com Witzel, ela é identificada desde pelo menos os anos 1970, quando dos primeiros especiais sobre o tema.
     Ágatha e outros tantos cidadãos de todas as idades se tornaram números nos fundos das gavetas do banal esquecimento coletivo, que barbariza tanto quanto as rajadas de balas a cortar a breve paz do momento.
     
 
Eduardo Bolsonaro e AI-5: opinião pessoal ou ameaça real?

     Nesta última semana Jair e Eduardo Bolsonaro se tornaram alvos de reportagens que mostrariam situações tensas para a família.
     O nome do presidente ecoou em depoimento do porteiro sobre movimentações de milicianos envolvidos no assassinato de Marielle Franco, que tem seguido sem novas investigações por algum tempo.
     O filho Eduardo virou alvo de chumbo grosso das mídias em geral por defender "a necessidade" de um novo AI-5 "se a esquerda se radicalizar".
     Neste artigo, vale sinalizar o objetivo exploratório sobre a fala do deputado federal e suas implicações possíveis. Mas afinal, oque foi o AI-5?
     O AI-5 é o mais famoso dos Atos Institucionais decretados pelos militares para o controle social empregando meios violentos de abordagem e banimento de opositores políticos nos porões dos DOI-CODI sob torturas e muitas mortes.
     Ou seja, no Brasil, mais radical do que a extrema direita, impossível.
     Ainda assim, só a declaração do deputado não seria suficiente para que a oposição protocolasse pedido de cassação e haver abaixos-assinados online para o mesmo fim.
     Afinal, ele pode ter apenas exposto uma opinião, mais efusivamente. Assim como há quem defenda os crimes políticos de ditadores como Stalin e Mao-Tsé, por exemplo.
     Mas há uma entrelinha percebida pela oposição. 
     O problema foi que a declaração teve tom de ameaça: é como "se a esquerda se radicalizar será necessário impor um novo AI-5". É, de fato, ameaça.
     Além da ameaça, o AI-5 foi criminalizado pela CF de 1988, o que pode complicar a vida de quem faz apologia a ele e a quaisquer outras violações de direitos humanos.
     Sem mencionar que Eduardo Bolsonaro tem faltado com o decoro parlamentar várias vezes, aproveitando-se de seu poder de filho do presidente da República. Apesar do nome Bolsonaro queimado pelas ligações próximas com milicianos.
     Vai ser o processo de cassação mais moroso que se tem notícia contra um deputado, por conta da contraditória relevância do nome Bolsonaro.
     

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Turbulências no Cone Sul: alertas ao Brasil

     Nos últimos dias, diversas fontes midiáticas têm ostensivamente registrado, com direito a pérolas fotográficas e filmagens, a turbulência sociopolítica na América do Sul.
     As fontes revelam uma distribuição ampla: Peru, Colômbia, Paraguai, Argentina, Venezuela, Equador e Chile. Embora nem todos tenham manifestos populares muito relevantes. As aparentes exceções à regra são Bolívia, Paraguai e Uruguai.
     Os fatores da turbulência são vários, em especial medidas austeras neoliberais, aumento de tarifas e impopularidade de governantes, que convergiram em forte crise política e grandes manifestações populares.
     Após Venezuela e Argentina, esta última tentando se resolver na eleição, agora as câmeras se voltam para Equador e Chile, ainda que a turbulência seja simultânea em todos.
     Nestes, as causas foram aumentos de preços de combustíveis e de transporte. Mas é claro que só isso pode não mobilizar tanta gente como mostram fotos e vídeos. 
     Há algum tempo os nossos vizinhos hispânicos já mostravam indignados com seus governantes, a maioria de direita, entre eles Macri na Argentina, Piñera no Chile, e Lenín no Equador. O Paraguai também tem governante de direita.
     Com exceção de Venezuela e da Bolívia, que se declaram da esquerda bolivariana.
     E falando de esquerda, Argentina elegeu neste domingo Fernández e Kirchner, de centro-esquerda. No Uruguai, o pleito terá segundo turno, havendo predileção para o atual, Daniel Martínez (esquerda) em relação a Pou, de direita.
     A tiracolo, o ex-presidente Pepe Mujica foi eleito senador, expressando seu apoio a Martínez. Próximo de Lula, o tupamaro é odiado por Bolsonaro.
     A eleição também ocorreu na Bolívia, que também experimentou uma estabilidade política e reelegeu o socialista Evo Morales. Mas a oposição derrotada alega fraude no pleito desse sábado.
     No Equador, manifestos populares fizeram Lenín recuar nas suas medidas. Já no Chile, a violenta repressão policial de Piñera não intimidou a população, que explodiu em manifestos massivos a sacudir o país por dias.
     E cabem ao Chile pérolas de um movimento épico. Como a bandeira Mapuche que homenageia a resistência secular do povo nativo no alto da estátua de Lautaro, e as homenagens ao músico Victor Jarra, torturado e morto pela ditadura de Pinochet.
     Outra razão das pérolas é o cansaço do povo chileno das sucessivas imposições neoliberais e da ainda vigente Constituição pinochetiana, da qual o autoritarismo de Piñera é reflexo.
     O andar da carruagem sul-americana se direciona agora à esquerda, impondo certo silêncio ao Brasil de Bolsonaro. Este já declarou que não cumprimentará Fernández, certamente se estendendo a Evo e, se eleito, Martínez.
     Cabe salientar que o Brasil sempre foi referência aos outros países do Cone Sul. Mas o contexto geopolítico pode mudar as coisas. E, além de revelar um Piñera impopular, a resistência popular chilena pode ser um alerta para o Brasil.
     Afinal, não bastasse Bolsonaro esta antipatizado pelos vizinhos, os chilenos recebem uma crescente solidariedade dos brasileiros, até de alguns bolsonaristas arrependidos, revelando cansaço por aqui também.
     Fora que, em paralelo, Olavo de Carvalho foi oficialmente banido como guru devido às orientações esdrúxulas e desastrosas.
     Nessa conjuntura, o Brasil se depara com a possibilidade de isolamento político e econômico com os países do Cone Sul. E parece haver uma inspiração chilena no ar.
     O incômodo visível do presidente revela o receio de se isolar dos próprios vizinhos. Não por culpa das escolhas eleitorais deles, mas sim por birra ideológica dele mesmo. Uma birra infantiloide que pode botar tudo a perder.
     
     

     
     
     

     

ANÁLISE: Himalaia: o alerta global

                      A Terra é um planeta dinâmico. Entre os leigos, toda cadeia de montanha é quase uma coisa só. Mas geógrafos e geólogos...