terça-feira, 9 de novembro de 2021

ANÁLISE: por trás da política ambiental

 

        Em 2019, alguns países europeus se inquietaram diante da omissão do governo Bolsonaro com relação ao recorde de destruição da Amazônia, um bioma sempre a despertar emoções e interesses em todo o mundo. Ameaça de suspender a tramitação do acordo Mercosul-UE, e outros de boicotar as compras de hortifrutigranjeiros oriundos de áreas degradadas.
        Até que o presidente Bolsonaro, em um esgar na forma de sorriso, enfim ironizou: "o que eles querem lá?", insinuando sobre o interesse dos europeus pela Amazônia. Claro que não é segredo para ninguém que desenvolvimento econômico se atrela ao meio ambiente - inteiro. É um acordo global. Mas há outras coisas em jogo, e podem não ser como Bolsonaro pensa. Ou podem.
        Que a degradação afeta nossos biomas desde a colonização aguçando na República, com ápice deletério na era Bolsonaro, todos sabemos. Ele mente descaradamente desde 2019, ao ser confrontado sobre o tema, não se lixando que o mundo já saiba da verdade. 
        Não é de se admirar que o país esteja na condição de pária internacional nas áreas socioeconômica e na ambiental e que, hipocrisia à parte, seu líder seja alvo de chacota ou ojeriza internacional. Hipocrisia porque a degradação ambiental é global. Mas, vale ressaltar as diferenças explicáveis a partir da história e no cenário macroeconômico atual.

Predação colonial

        Antes da chegada dos colonizadores, as Américas já eram habitadas por uma diversidade rica de povos, que talvez ainda não seja totalmente abrangida pela arqueologia. Sabemos, pelo menos, que esses povos tiveram um impacto mínimo, talvez positivo, sobre o ambiente natural por eles colonizado.
        Embora o surgimento de aldeias e povoados mais populosos e sofisticados tenha necessitado de maior volume e diversidade de recursos naturais, o impacto sobre o meio físico é quase nulo, devido à menor taxa de crescimento populacional, incomparável aos níveis do século XX até hoje.
        Nesses séculos pré-colombianos, o que se descobriu é a domesticação de várias espécies da flora por esses povos. Uma das mais interessantes é a do arroz, feita pelos indígenas sul-americanos há 4 mil anos, conforme registros arqueológicos encontrados na Amazônia.
        O mais interessante é que os sinais dessa domesticação são encontrados em amplas áreas dessas florestas: do número total de espécies da flora já catalogadas, ¼ foi domesticado pelos povos antigos, como atesta o estudo de 2017 de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) junto à Wageningen University and Research Center, da Holanda.
        Colonização, o início da destruição- a colonização da América do Sul pelos europeus levou aos primeiros desmates para povoamento e atividade de subsistência (agricultura, pecuária, povoamento) e econômica (recursos florísticos e minerais), em graus variados, a substituir o manejo sustentado pelos povos originários. Mas foi na era colonial que surgiram as primeiras medidas ambientais.
        A Carta Régia/1542 regia exploração de recursos conforme o Direito português. As Ordenações Filipinas (1605) do rei espanhol Felipe II (que dominou Coroa e Brasil) estabeleciam preservação ao vedar agricultura e descarte de restos na água, mas permitiam explorar pau-brasil. O Juiz Conservador das Matas da Coroa (1797-9) e novas Cartas Régias restringiram corte, comércio e uso de madeiras nobres como pau-brasil, cedro, mogno, etc.
        Antes da independência houve reflorestamento de áreas litorâneas devastadas; fundado o Real Horto Botânico no Rio por D. João VI, então com 2500 ha e hoje 137; Cartas régias de exploração controlada de minérios e regularização fundiária com 1/6 de florestas em terras particulares e doadas à Coroa estabeleceram alguma manutenção ambiental.
        Império- A extinção de sesmarias e incentivo à ocupação efetiva causou intensa devastação; a Constituição de 1824 nada diz. Mas houve medidas como a de conservar espécies importantes surgindo a expressão madeiras de lei; desapropriar de terras no RJ para recuperar mananciais (ex. Floresta da Tijuca) e pôr fim à exploração de pau-brasil, só praticada em 1875.
        D. Pedro II teve ciência socioambiental. Além da conservação, ele quis construir açudes no sertão ao saber que 500 mil pessoas morreram de fome na Grande Seca (1876-9), o que não se efetivou pela falta de recursos. E sentiu a pressão dos latifundiários para proibir usucapião de terras públicas para incentivar o trabalho livre dos imigrantes e escravos libertos.
        Mas, as medidas não alcançaram êxito em recônditos como Amazônia, Pantanal e Cerrado.
        República- período de intensas oscilações na legislação ambiental e visibilização de conflitos agrários e políticos relativos ao meio ambiente. Dividida em três períodos (1889-1930, 1930-1985, e 1985-hoje).
        1889-1930- Período de má atenção ao meio ambiente, sem menção pela CF/1891. É o auge do ciclo da borracha que funda o Teatro Amazonas; expansão dos latifúndios de café e cana-de-açúcar, início da industrialização e reforma urbana. Houve estudos da flora e fauna nativas do interior para incentivar finalidades econômicas. Foi decretada a primeira grande reserva florestal permanente em 1911, mas não saiu do papel.
        Apesar desse fracasso, houve pontos como a fundação do Serviço de Proteção ao Índio (1910) pelo marechal Rondon, que se tornou a Funai e abriu alas para as demarcações de terra; a criação de parques florestais públicos em áreas históricas ou em locais nobres das capitais, no Rio e outras, preservação de nascentes de rios históricos como o Carioca, a criação do Serviço Florestal do Brasil em 1923, que seria o atual IBAMA.
        O Regulamento em Saúde Pública (1923) institucionaliza o saneamento urbano e a construção de indústrias longe de áreas residenciais, tornando-se a primeira lei com normas técnicas de ambiente urbano relativas à saúde coletiva.
        1930-1985- Período de avanços legais. Em 1934 surgem os Código Florestal Brasileiro (classifica florestas protetoras, remanescentes, modelo e de rendimento e regulamenta a proteção); de Caça e Pesca (disciplina uso de materiais de pesca e veda a caça a animais úteis à agricultura e pássaros canoros); e das Águas (sobre o uso particular e público da água, e disciplina normas sobre as águas minerais, termais e gasosas).
        A CF/1946 mantém poder federal de legislar em saúde, recursos florestais e minerais, energia elétrica, caça e pesca. O Estatuto da Terra (64) aponta a preservação ambiental para uso econômico racional dos citados recursos e em 1965, as políticas públicas de proteção e uso racional. A CF/67 substitui o antigo Serviço pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal. A CF/69 cunha a “ecologia” pela 1ª vez. Mas, pouco se executou, em parte por culpa do expansionismo militar.
        O 1º Plano Nacional de Desenvolvimento estimulou compra de grandes terras para fim econômico no centro-oeste e parte da Amazônia para monoculturas e pecuária extensivas. O 2º Plano tentou corrigir, sem êxito. Nas cidades, a Lei de Parcelamento de Terras gerou crescimento desordenado com invasão de áreas florestais. Fruto da Conferência de Estocolmo (1972), a Secretaria de Meio Ambiente (73) atuou com o IBDF; e em 1981 surge a Política Nacional de Meio Ambiente.
        1985-Hoje- época de muitas mudanças políticas com a volta da democracia. Novos avanços na legislação vieram só após a promulgação da CF/1988, que viria estabelecer mudanças relevantes no sistema penal (crimes ambientais e punições respectivas) e a substituição do IBDF pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) via lei específica.
        O IBAMA nasce fortalecido com penalização dos crimes ambientais, inclusão de terra indígena como área de preservação permanente, normas rígidas de licença ambiental para atividade econômica com pesquisa e análise de impacto, e Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), assegurando êxitos maiores no combate às ações criminosas. Até entrar a era Bolsonaro.

Era Bolsonaro, o neocolonialismo: reflexão final

        Mesmo com elementos novos, a era Bolsonaro tem velhas políticas que contradizem slogans de campanha. Ela nasce alinhada à ideologia e disciplina anarcocapitalista do mercado transnacional, principalmente dos EUA. Para tanto, o governo intervém nas instituições públicas e em mudanças constitucionais para que as privatizações possam ser facilitadas.
        Como intervenção significa aparelhamento, ideológico ou não, o IBAMA teve sua chefia substituída por militares que praticamente paralisam as atividades, sem poder frear os recordes de destruição dos grandes biomas originários e até terras indígenas. Vários servidores foram ameaçados com processos administrativos, e um grupo de brigadistas chegou a ser preso.
        Os EUA sempre tiveram seu lugar cativo na América do Sul, inclusive sobre a delicada questão ambiental. Não por acaso, há muito se diz que somos "o quintal dos EUA". Mas, há um diferencial na política ambiental bolsonarista. 
        A prioridade aos interesses exploratórios dos EUA é o grande fator a estimular a política ecocida do governo. A volta do antigo status de desindustrializado exportador de bens primários a oferecer terras para exploração ampla e irrestrita já indica claramente o verdadeiro objetivo: o neocolonialismo. Desta vez, pelos ianques.
       
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Imagens: Google (montagem pela autoria do artigo)

Notas da autoria

Para saber mais
https://www.ecodebate.com.br/?s=Hist%C3%B3rico+e+evolu%C3%A7%C3%A3o+da+Legisla%C3%A7%C3%A3o+Ambiental+no+Brasil%2C+Parte+2%2F3
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51377232 (o que ameaça a floresta em cada um dos 9 países, 2019)
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-49471483 (o que eles querem lá, ironiza Bolsonaro sobre a crítica da UE sobre as queimadas na Amazônia, 2019)
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/22/eps/1571696000_250069.html (o que há por trás das queimadas na Amazônia)
https://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/02/ciencia/1488466173_526998.html (indígenas foram os primeiros a domesticar o arroz na Amazônia há 4 mil anos).


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Análise: tempestades de areia e caos climático

 

        Quando a ONG ambientalista austríaca All Rise se preparava para protocolar ao TPI denúncia acusando Bolsonaro de crimes contra a humanidade a partir da devastação proposital e sistemática do meio ambiente, instituições como o INPE e registraram ocorrências repetidas de tempestades de areia que atingiram vastas áreas de alguns Estados, em especial São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Goiás.
       Foi uma surpresa filmada por vários cidadãos e viralizada nas redes sociais, onde debates começaram a pipocar. Mas, como podemos compreender o fenômeno da tempestade de areia? Quais os fatores para a sua ocorrência? Eles podem se repetir?

Tempestade de areia

        Quando se fala de tempestade de areia, todos nós associamos o fenômeno a climas semiáridos e áridos, onde ele ocorre por livre e espontânea naturalidade, e a ela os habitantes dessas áreas já se acostumaram há séculos. Mas, há algumas décadas o mundo aprenderia que tempestades de areia não ocorreriam exclusivamente nessas áreas.
        Em condições normais, a tempestade de areia é conhecida pelos habitantes dos desertos como prenúncios de verdadeiras tormentas a despejar centímetros cúbicos de água em poucos dias, suficientes para renovar a vida adaptada a esses ambientes.
        Fenômenos em escala- Ela é uma enorme nuvem de areia e outros detritos de granulometria[1] correlata transportada por “braços” de ventos fortes de ciclones próximos ou distantes centenas de quilômetros. Por sua natureza, a tempestade de areia é tecnicamente classificada de litometeoro (lithos = pedra; rocha, da qual areia é fragmento; e metheoris = referente a ventos).
        Ciclones se originam de encontros de massas de ar quente ascendente e ar frio descendente, que não se misturam, daí o movimento giratório conhecido. Esse movimento ocorre em nuvens de tempestade como cúmulos-nimbos e supercélulas. No Hemisfério Sul eles giram no sentido horário, e no Norte, no anti-horário.
        Essa diferença diretiva se deve à força de Coriolis, que a partir do Equador movimenta a atmosfera nos sentidos citados. Essa força se relaciona à gravidade terrestre e explica também porque durante quedas livres, os corpos se direcionam ligeiramente para o leste, pois a rotação do planeta faz sentido anti-horário.
        A tempestade de areia protagoniza um grande evento no Saara: ventos imperiosos leste-oeste carreiam toneladas de areia para o Atlântico, onde grãos maiores e pesados caem, e os mais leves e finos atingem as Américas, do sul dos EUA ao norte da América do Sul, onde reforçam a fertilidade natural dos solos graças à alta concentração de minerais essenciais à agricultura.

Tempestades inabituais

        Zonas de climas úmidos também podem ser atingidas por tempestades de areia, mas muito raramente, devido à cobertura vegetal mais abundante que fixa os solos. Mas através de satélites, instituições de pesquisa aeroespacial como INPE, Nasa e na União Europeia observaram maior frequência desse fenômeno, também em climas úmidos. E, com isso, os cientistas apontam dois fatores: mau uso do solo e mudanças climáticas.
        Há muito o mau uso do solo é uma dor de cabeça para pesquisadores agrônomos e analistas ambientais. Por causa desse mau hábito os solos perdem horizontes de fertilidade, ocasionando perda de biodiversidade natural e do antigo potencial agrícola. Porta aberta para sua exposição às intempéries, e aos ventos. Nesse sentido, há um evento trágico conhecido: o Dust Bowl.
        Dust Bowl- Antes da Grande Depressão (1929-33), o governo dos EUA abriu um programa de incentivo à agricultura nas grandes planícies do meio oeste, aproveitando o alto valor de cereais como milho, trigo, cevada e aveia. Centenas de famílias foram se estabelecer nos férteis campos, e prosperaram com a atividade intensiva e mecanizada.
        O problema estava no desconhecimento sobre as irregularidades climáticas no vasto interior, sujeitos a secas severas e chuvas mal distribuídas, invernos rigorosos e até tornados. Os solos perderam a fertilidade e o clima irregular se acentuou piorando as condições dos solos e levando à perda de plantações inteiras.
        Ventos furiosos fustigaram solos expostos formando nuvens enormes e repetidas que carregaram grandes volumes de areia até alcançar a costa leste e o Atlântico. Muitos migraram, e outros morreram pela fome e ferrados pelas nuvens. Este fenômeno, o Dust Bowl, durou quase 10 anos, mesmo após o fim da Grande Depressão.
        O impacto do Dust Bowl foi tão profundo que pesquisadores foram estudar as causas do fenômeno no fim dos anos 1930. Ao perceberem o tamanho da tragédia, eles descobriram o grande fator: o péssimo manejo do solo, aliado à ignorância sobre o clima. Após o estudo, foi elaborado um programa voltado para restaurar a região.
        O estudo foi sobre as interações entre a atividade humana e aspectos naturais (clima, solo, vegetação) locais. O programa agronômico recuperou a cobertura vegetal nativa, criou sistema de manejo escalonado de canteiros cíclicos, e surgiu uma lei de conservação de área natural em propriedades privadas. A capacidade econômica local se recuperou, mas agora, há outro risco.
        Mudanças climáticas- a lição do Dst Bowl foi aprendida e poderia ser aplicada globalmente, só que não. Hoje deparamos com aquecimento global (aumento das médias térmicas globais) e mudanças climáticas (irregularidade cíclica e extremos sazonais). Apesar dos muitos eventos sobre o tema, a atividade antrópica capitalista se intensificou.
        Aquecimento continuado, aumento da frequência de eventos extremos, alterações na rota normal das correntes marinhas, redução de água doce em vários continentes e irregularidade cíclica escancaram as mudanças climáticas intensificadas pela ação humana.
        É fato que a destruição ambiental é global, mas no Brasil é a mais intensa. e estarrece o desprezo do governo Bolsonaro ao valor dos nossos biomas úmidos na regulação climática global, uma vez que ele incentiva fazendeiros e outros predadores ambientais em suas atividades temerárias.
        Vastas áreas da Amazônia viraram savanas, resultando em menor distribuição de chuvas e maior rarefação da vegetação (já alterada) em áreas do Centro-Sudeste-Sul, outrora bem abastecidas, e aumentando, daí, a frequência de ventos secos e as recentes tempestades de areia, após seca prolongada de inverno.

Tempestades de areia e o caos climático brasileiro: reflexões finais

        A tudo isso se segue uma pergunta: o Brasil terá mais tempestades de areia, ou elas foram excepcionais? A resposta certa é: elas tendem a se repetir. O acontecido em setembro, que repercutiram na imprensa internacional e causaram debates nas redes sociais, atingiram até Estados nordestinos como Ceará., Piauí e Maranhão, onde a seca é natural, mas se intensifica devido a abusos locai, redundando em áreas desérticas com leitos secos de rios..
        Devido ao intemperismo[2] químico intenso no Brasil, partículas finas a microscópicas são abundantes e fáceis de serem transportadas pelos ventos a distâncias imensas, explicando em parte o alcance geográfico dos eventos de setembro.
        Cabe lembrar que mau manejo do solo se traduz em má ocupação do mesmo em centros urbanos. Cidades pobres em vegetação sofrem mais com as consequências de secas prolongadas, como as tempestades de areia. E, quanto mais próximas de áreas expostas, pior. É o exemplo de numerosas cidades do vasto interior brasileiro.
        E por que esse fenômeno se repetirá? Porque o brasileiro insiste em abusar do solo nas cidades e na fazenda. e se insiste, há dois motivos: a falta de conhecimento da maioria sobre as relações entre o ente natural e a atividade urbana, e o capitalismo predatório, para o qual a desinformação é excelente para a manutenção de seu ritmo.
        Apesar dos sustos, o Brasil pode ver no Dust Bowl um exemplo de que temos condições de evitar repetição das tempestades de areia. E nos trópicos úmidos há reciclagem mais rápida dos elementos. Refletir a chance sobre isso é dar chance à importante virada nos conceitos sobre nossas relações abusivas com o meio ambiente.
        Cabe lembrar, porém, que existe intimidade entre o homem e o capitalismo predador. A partir do momento em que o homem repensá-lo como sua própria criação, poderá domá-lo antes que seja tarde demais. Pois vale o doce sabor da ironia: a continuidade do avanço indiscriminado sobre os recursos da Terra destruirá o que tanto leva a praticá-lo: o capitalismo.



[2] Decomposição física e química das rochas de fora para dentro, causada por fatores climáticos. Nos trópicos úmidos impera o químico, capaz de decompor até unidades minúsculas; e nas zonas mais secas, o físico (variações térmicas). Em clima temperado tende ao equilíbrio. (nota da autoria)



[1] Medida de grãos, medida muito usada por geólogos para estudos de rochas e sedimentos e para entender processos.


Imagem: Google (localidade não especificada, apenas para ilustração)

Para saber mais
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Dust_Bowl
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Tempestade_de_areia
https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/a-tempestade-de-areia-e-a-urgencia-da-virada/

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Análise: o fim de Bolsonaro pode ser Haia. Ou não

        Enquanto a entidade não-governamental All Rise, na Áustria, apresentava um vídeo-campanha sobre a ameaça à vida humana global por conta da má política ambiental do governo Bolsonaro, o relator da CPI da C19, o relator, senador Renan Calheiros, apresentou à tribuna os vários volumes de seu caprichado relatório, onde indicia 80 nomes, entre eles o presidente Bolsonaro.
        Antes de apresentar o vídeo que já foi colocado nas redes sociais para visualização, a equipe da All Rise, formada por intelectuais altamente gabaritados, havia protocolado uma denúncia contra Bolsonaro por crimes contra a humanidade com uso de ecocídio. 
        O documento se referenciou em pesquisa ampla e completa sobre as relações estreitas entre a biosfera e a vida humana: além de afetar a biodiversidade, o ecocídio afeta profundamente a saúde e ameaça à vida humana em escala global. Tudo porque o estudo afirmou que a nossa Amazônia agora mais emite do que absorve CO2, o que aumenta a concentração dele na atmosfera.

Os crimes de Bolsonaro na CPI

        Inicialmente o relatório da CPI incriminou Bolsonaro em 11 crimes, mas dois foram refutados por falta de consenso: genocídio e homicído. O que, para juristas, não mitigou o rigor investigativo da comissão. A seguir, os crimes listados, conforme artigos do Código Penal e na Lei 1079/1950:
        Epidemia resultando em morte (Art 267 do CP)- O presidente atuou premeditadamente ao atuar pela disseminação do Corona, com aglomerações diversos cantos; omissão reiterada como recusas à compra de vacinas oferecidas e ênfase no ineficaz e perigoso kit-C19.
        Infração de medida sanitária preventiva (Art 268 do CP)- reiteradamente, Bolsonaro promoveu aglomerações, abusou de falácias contra as medidas preventivas (uso de máscaras e de álcool gel), e afrontou governadores e prefeitos. com aglomerações e ataques às medidas restritivas.
        Charlatanismo (Art 283)- defesa reiterada de tratamentos ineficazes com suposta "cura infalível" (o tratamento precoce com o kit-C19) e discurso antivacina, contrariando a ciência.
        Incitação ao crime (Art 286)- em seus discursos, ele incentivou os populares a violar as medidas sanitárias impostas por autoridades regionais, e invadir hospitais supostamente vazios para mentir.
        Falsificação de doc particular (Art 298)- Bolsonaro inventou que o TCU superestimou os óbitos pela C19, apresentando um suposto doc com timbre do tribunal, que depois negou a autoria do texto, que foi, na prática, feito por um auditor bolsonarista no TCU, Alexandre Marques.
        Emprego irregular de verbas públicas (Art 315)- dar a um recurso público destino diferente do legal. O presidente (mentor) e seu ex-MS Pazuello (operador) empregaram volumosos recursos para produção e compra da cloroquina mesmo após comprovada sua ineficácia contra a C19.
        Prevaricação (art 315)- Bolsonaro não fez nenhuma medida para conter irregularidade de compra da vacina Covaxin (e outras), que foram canceladas após descobertas pela CPI. E ele ainda retardou o quando pôde a aquisição de vacinas, que acabou sendo iniciada pelos governadores.
        Crimes de responsabilidade (Lei 1079/1950)- o relatório da CPI reconhece duas modalidades, a violação intencional de direito intocável à vida, e incompatibilidade com a dignidade e decoro do cargo. A punição é o impeachment, sobre o qual, vale lembrar, são mais de 120 pedidos que o venal Arthur Lira se recusa a analisar.
        Na violação, Renan atribui como descompromisso "com o combate à pandemia de C19 e, em consequência, com a preservação da vida e da integridade física de milhares de brasileiros"; e na incompatibilidade com o cargo, a repetida conduta de ofensas chulas, especialmente contra jornalistas mulheres.
        Crimes contra a humanidade- conjunto de crimes que envolve extermínio, perseguição e outros atos desumanos, e se baseia na legislação internacional (Estatuto de Roma). O caso em tela está em b (extermínio), h (perseguição), e k (atos desumanos intencionais).
        Em 'extermínio' está a crescente privação de acesso a alimentos e remédios para eliminar parte da população. 'Perseguição' é a violação de direitos fundamentais de identidade de grupo ou coletivo. No caso em tela, Renan se refere ao caos na saúde em Manaus, que se tornou um "laboratório humano".
        Reflexos macabros- Caos este que, na real, se estendeu a outras regiões onde faltou oxigênio, respiradores e anestésicos para intubação, obrigando profissionais de saúde a amarrar os pacientes nos leitos para executar processo tão doloroso e traumático quanto inevitável para tentar salvar vidas.
        Vale mencionar a atuação da médica Mayra Pinheiro, responsável pelo hoje desativado TrateCov e por mandar administrar cloroquina e ivermectina em casos suspeitos de C19, incluindo grávidas e até bebês, no auge do caos em janeiro, evidenciando a intenção de instaurar um laboratório humano. Isso, somado aos testes da Prevent Sênior e Hapvida, e Flávio nos hospitais federais fluminenses.
        Outra evidência apontada por Renan é a de "ataque sistemático [...] contra a população indígena", em especial por Bolsonaro, por "medidas [...] concretas e de omissões deliberadas que resultaram no número de contaminações e de mortos entre as populações indígena proporcionalmente superior ao que atingiu as populações urbanas". 
        Daí a intenção demonstrada pelo senador de incluir o crime de genocídio, refutado pela maioria dos senadores. Outro crime retirado da pauta foi o de homicídio.

Quais crimes de Bolsonaro interessam mais ao TPI?

        O Tribunal Penal Internacional (TPI), sediado em Haia, Holanda, foi fundado em 2002 através do Tratado de Roma, que se embasa na legislação internacional, e fiel à Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948). O Brasil é um dos signatários dos dois documentos, se sujeitando, portanto, a seus desígnios.
        Apesar de eventualmente acusado de violações de direitos fundamentais, o Brasil nunca teve um governante de fato denunciado, nem mesmo na ditadura militar. Bem, mas nesse caso, vale mencionar interesses de nações como os EUA, que a História explica muito bem.
        Entre os juízes, o TPI teve uma brasileira, a juíza do TRF3 Sylvia Steiner, que atuou de 2003 a 2012, período de atuação dos juízes nomeados na entidade. Ela acompanhou a CPI da C19 e a minúcia caprichosa dos detalhes do relatório elaborado por Renan Calheiros.
        Segundo Steiner, a retirada de homicídio e genocídio não mitigou a gravidade das evidências da conduta comprovadamente criminosa de Bolsonaro, apontado o relatório como mentor intelectual por trás de tudo que foi operado com ajuda dos outros 79 indiciados. 
        Ela explica isso pela menção clara de crimes contra a humanidade, a mesma acusação aparente em denúncias já protocoladas à entidade. Pois essa categoria de crimes é bastante ampla, podendo incluir ou não o genocídio, por si um homicídio em massa por pouco tempo, em tempos de guerra ou não.
        Aliás, em se tratando de guerra, vale rever seus conceitos, pois ao violar o direito à vida em várias formas, inclusive impedindo acesso à segurança alimentar e à saúde, e perseguindo certos coletivos, Bolsonaro travou guerra contra seu próprio povo desde o início, e ao usar a C19 para o extermínio. 
        Em relação à denúncia entregue pela All Rise, Steiner explica que "ecocídio não existe para o TPI", daí a ONG ter apontado "crime contra a humanidade" ao explicar, via estudo, a influência da degradação da Amazônia e outros biomas brasileiros sobre a saúde e a vida humana em escala global.

Enfim...
        A julgar pelas explicações de Steiner, a CPI acertou, batendo com conceitos de denúncias já entregues ao TPI: por sua abrangência circunstancial e operacional, crimes contra a humanidade são bem mais graves do que genocídio e homicídio isolados que, aliás, estão implícitos nas evidências.
        E, por isso tudo acima exposto, o que antes era considerado improvável se torna bastante provável que o destino de Bolsonaro (e sua caterva) seja Haia. Claro que há outros tiranos na lista, mas o caso brasileiro chama atenção pela diversidade e amplitude dos meios utilizados para seus interesses.
        Até por conta da morosidade da justiça brasileira, que se perde em interesses particulares de outros e disputas de poder, típicas na cultura dos altos escalões. O TPI talvez seja mais rápido, embora toda reserva seja necessária quanto à expectativa pela sua execução. 
        O que todos desejamos, com ou sem pressão do grande mercado e outros poderes, é justiça em nome de mais de 600 mil brazucas mortos pela C19, dos povos da floresta, da floresta e da sobrevida do Estado brasileiro.

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Imagens: Google (fotomontagem da autoria do artigo)

Notas da autoria
1.

Para saber mais
- https://www.terra.com.br/noticias/coronavirus/afirmacao-de-bolsonaro-sobre-vacina-e-aids-deu-ultimo-gas-a-cpi,30d887e2e697b8990972efa2994063bdayp4p4mh.html
- https://www.jb.com.br/pais/politica/2021/10/1033570-entenda-os-crimes-atribuidos-a-bolsonaro-pela-cpi-da-covid.html
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2021/06/analise-vacinoduto-e-reforma-do-estado.html


 

terça-feira, 26 de outubro de 2021

ANÁLISE: a fome pelo agronegócio - e os agrotóxicos

 

        Não faz muito tempo que o canal de esquerda Meteoro Brasil, no Youtube, apresentou um vídeo sobre a relação entre o uso de agrotóxicos e o aumento da situação de fome no Brasil. A dupla jornalística Álvaro Borba e Ana Lesnovsky, que capitaneia o canal, apresentou essa relação de forma interessante, que interdepende a biota, o meio abiótico e a ação humana. E aqui caberá mais uns adendos. 

Evolução da agricultura

        Definida como o conjunto de atividades para a produção alimentar, a agricultura se iniciou no Neolítico inferior (±15 mil anos) e por muitos séculos seguiu os ciclos sazonais: alguns alimentos eram de primavera-verão, e outros de outono-inverno, daí a baixa produtividade, que sacrificava os mais pobres para alimentar as classes medianas, religiosos, nobres e governantes.
        Mais tarde, com as descobertas químicas, em especial na orgânica, e depois na biologia (genética) no século XIX, a ciência abriria portas para atender ao desejo humano de aumentar a produtividade agrícola para poder alimentar maior número de pessoas. Com os primeiros experimentos com plantas tóxicas, surgiriam os primeiros agroquímicos.
        Tais compostos eram extraídos de plantas capazes de repelir ou matar animais daninhos e parasitas na lavoura e na pecuária, respectivamente. Da planta Piretrum derivariam os piretroides sintéticos dos inseticidas atuais, e das usadas para o gado viriam os antiparasitários de hoje. Depois viriam os herbicidas e, finalmente, os antibióticos.
        O surgimento secular da indústria química e farmacêutica antecede a de automóveis e tratores. Estes vieram para ajudar os agroquímicos, que seriam aspergidos nas culturas pelos primeiros pulverizadores. Surge aí a agricultura mecanizada, que gerou empregos no campo. O melhoramento genético na lavoura e pecuária produziu variedades mais resistentes à ação do tempo e a doenças, e ainda mais produtivas do que as originais.
        Tudo isso gerou uma simbiose econômica, que refletiu no aumento considerável da produtividade agrícola, e daí, na lucratividade das indústrias envolvidas. Com os posteriores investimentos públicos, a imagem do produtor rural humilde, com enxada ou arado, cedeu lugar ao chapéu de latifundiário bordado com o cifrão da riqueza: surge o agronegócio (agrobusiness, em inglês).
        Agronegócio- deriva da ‘Revolução Verde’, como foi batizado o boom agrícola ocorrido nos anos 1980. A julgar pelo nome, ele surge para gerar divisas de grande volume, através da megaprodução visada para exportação e importação. Hoje ocorre no mundo todo, com forte desenvoltura em países em desenvolvimento – as explicações virão.

Um paraíso agrícola chamado Brasil

        "Em se plantando, tudo dá". O Brasil é a terra “abençoada” pela natureza por ter até três colheitas anuais. A tropicalidade climática reinante permite maior disponibilidade alimentar. Até hoje, a maior parte da patuleia se alimenta do oriundo de produtores de pequeno e médio portes, em grande parte cooperativados, que também usam agroquímicos e tratores para produzir mais.
        Embora alguns produzam o suficiente para exportação (geralmente grãos), a maior parte se volta para o mercado interno. A insegurança alimentar deriva da grave desigualdade originada de más políticas econômicas, e não por suposta indisponibilidade de alimentos: eles estão disponíveis, mas muitos não têm acesso.
        Mas, como país estratégico no cenário econômico global, o Brasil se tornou também um paraíso para o agronegócio que, por seu turno, não é unânime em matéria de opinião popular e de analistas. Até por conta de suas consequências socioambientais. Essa divisão opinativa tem suas razões, a serem bem explicadas a seguir.

        O agro é tech, mas não é pop- No capítulo da política fundiária, a Constituição de 1988 prevê o uso social da terra, que se define a destinação para uso alimentar para a nação, geração de empregos no campo e permitir uso de terras improdutivas por assentados visando a produção, sem prejuízo do meio natural, público e privado.
        Mas, isso esbarra na cultura do latifúndio, sintoma histórico do elitismo. A elite brazuca é originalmente rural e parte dela ainda o é: são os ruralistas do agrobusiness, que empregam jagunços para protegerem suas terras e até grileiros para apropriação indevida de outras terras visando expandir sua produção.
        Daí, ao contrário dos pequenos e médios produtores, a elite rural não faz bom uso social de suas terras, e são frequentes as denúncias de invasão ilegal (e violenta) de terras públicas preservadas (indígenas ou não) e de posseiros e assentados. Por isso, cresce a pressão sobre aqueles que alimentam a patuleia nacional.
        A grande mídia apoia sem pudor o agro como o grande propulsor da economia nacional, como forma de angariar entre os cidadãos a impressão de termos “a melhor agricultura do mundo”. O Brasil tem, sim, vocação agrícola imensa, mas vale refletir com frieza sobre as consequências da realidade por trás do agronegócio.
        Sociais- são vários: emprego de violência no campo (expulsão ou assassinatos diversos para apropriação indébita); mão-de-obra trabalhadora em situação irregular (sem EPIs, sem contrato trabalhista) ou escrava (sem alimento ou água, e exposição plena a animais perigosos por falta de abrigo adequado). Famílias expulsas de suas terras migram ou se agregam em movimentos organizados como MST para sobreviver; miséria e fome.
        Ambientais- em grande escala, degradação do meio físico (consumo de água e outros, incêndios, destruição de biomas para expansão ilegal de pasto ou plantio, mitigação da biodiversidade), químico (grande contaminação da água e do solo por agroquímicos), e climático (maiores emissões de gases-estufa como CO2 e metano). O agro é um dos fatores da progressiva savanização da Amazônia.
        Os agroquímicos são potentes contaminantes ambientais, daí serem agrotóxicos. E para Bolsonaro, quanto pior, melhor: mais de 500 deles, proibidos no resto do mundo, foram liberados aqui. E se prejudicam o meio ambiente, ferram a nossa saúde, afetando vários sistemas, principalmente o nervoso, o digestivo (hepatopatias), e podem ser carcinogênicos e até abortivos.
        Sim, abortivos. Em 2020 a mídia chegou a publicar alguns casos de abortos espontâneos, a princípio sem se saber do fator. Após minuciosa análise dos casos, como residências próximas a grandes campos de soja e outros ícones do agro, se soube da causa: o glifosato, agrotóxico muito apreciado pelos ruralistas.
        Estudos apontam que o Brasil perdeu até 16% de água doce em 30 anos, e o ecocídio de Bolsonaro pode estar acelerando o processo: os recordes destrutivos ocasionaram fenômenos climáticos incomuns neste ano, como secas prolongadas, tempestades de areia e irregularidade de distribuição e concentração de chuvas, com sérias implicações na produção alimentar.
        Econômicos- há duas linhas de análise: nos mercados destinatários e na disponibilidade alimentar.
        Sendo o principal mercado o externo, o que fica vai para polos industriais e o comércio. Os preços dos produtos afrontam a economia popular, mesmo na queda de exportações, e há locais onde “sobra gado e pasto e falta gente”.
        Na outra linha analítica está a relação disponibilidade alimentar e status ambiental e climático. É sabido que os fenômenos já citados afetam a produtividade regional, que poderá se tornar nacional se nada for feito para barrar o problema. E quanto menos disponível, mais caro, e com isso, mais miséria, fome e doenças.
        Já existem estudos que apontam haver uma íntima relação entre o uso de agroquímicos e as alterações ambientais que, pois muitos deles, mesmo tendo outras finalidades, afetam, direta ou indiretamente, as culturas. Em dois sentidos: os efeitos na bioquímica dessas culturas, levando à sua alteração genética ou morte; e a ação sobre insetos e outros animais benéficos.
        Por mais seletivos que sejam para eliminar as ervas daninhas, os herbicidas, em excesso, afetam as próprias culturas, podendo impactar a disponibilidade alimentar e macroeconômica. Eventos climáticos negativos apenas potencializam o estrago desses agroquímicos.
        Os inseticidas diminuem populações de insetos daninhos, mas também intoxicam ou matam os que mantêm as culturas pela polinização, ou esparrame das sementes por fazes, patas ou bicos. Apesar de mais efetivos do que o controle biológico, esses agroquímicos minam a biodiversidade por afetar animais que comem os daninhos.
        Os fungicidas são igualmente perigosos, pois não são muito seletivos, minando também fungos benéficos à proteção das culturas e à fertilidade dos solos, o que também contribuem contra a biodiversidade.

        Nessa reflexão sobre os males dos agroquímicos, vale ressaltar que, se usados em quantidades menores, eles podem ser inócuos à saúde humana e não afetar tanto a biodiversidade e, em logo prazo, a disponibilidade alimentar. Só não ajudariam a minimizar ou combater a violência e as irregularidades no campo.
        Pois nesse campo, entra outro assunto de extrema relevância, que o governo fez questão de engavetar: a reforma agrária. A CF/1988 faz a sua parte. A grande mídia é também culpada ao omitir o protagonismo dos grandes ruralistas no ecocídio, na posse indébita de terras e de toda sorte de violações no campo e à natureza.
        É aí que o agrobusiness mostra a sua verdadeira face: ele não tem nada de pop, ele mata.

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Para saber mais
- https://www.inca.gov.br/exposicao-no-trabalho-e-no-ambiente/agrotoxicos
- https://exame.com/economia/imagem-do-brasil-no-exterior-preocupa-representantes-do-agronegocio/
- https://reporterbrasil.org.br/2020/07/como-o-agronegocio-atua-para-garantir-a-pulverizacao-de-agrotoxicos-pelo-ar/

        

Análise: Brasil Paralelo e a captura ideológica nas periferias

 

        Recentemente, mídias grandes como as paulistas Folha e Estadão reportaram, em tom otimista, sobre uma suposta ação social de amplo alcance a ser empreendida em cerca de 300 comunidades pobres urbanas. Além de doações, essa ação também contaria com eventos culturais e curiosidades. Bem, a princípio todo otimismo tem sentido quando se trata de solidariedade.
        Mas, quando os atores são identificados, toda reserva se faz necessária. Afinal, escaldado pelo sofrimento histórico, o povo já sabe: "o milagre quando é muito até o santo desconfia". Ainda mais num país como o Brasil, onde os mais ricos sugam dos mais pobres até as últimas gotas. Daí, algumas mídias independentes têm lançado nota desconfiada acerca desse lance.
        Na imprensa on-line, uma que se destaca é o Diário do Centro do Mundo, conhecida mídia de esquerda, e alguns canais disponíveis em redes sociais.
        Entre os canais do Youtube, um dos que se destaca é O Historiador, apresentado pelo sergipano Carlito Neto, historiador e filósofo cursando sua terceira faculdade (Direito) e especialista em Ciência Política. 
        No citado canal ele expõe suas análises políticas, e num de seus vídeos ele identifica os atores da elogiada ação, em tom de denúncia: são o Brasil Paralelo e a G10. Para ele, por trás dessa generosidade de grande porte há duas intenções, o lucro e outra mais profunda, uma vez que o Brasil Paralelo é bem conhecido no Youtube.

G10 e Brasil Paralelo

        Segundo as mídias, a G10 é uma organização social (OS) tida como “filantrópica”, por seus gestores que, quando indagados sobre se juntar ao Brasil Paralelo, se limitaram a dizer que era “pra difusão informativa e cultural aos jovens carentes”. A emenda saiu pior do que o soneto.
        Pois bem, na saúde elas atuam como fornecedoras terceirizadas de recursos humanos qualificados. Mas, também são citadas em várias denúncias de irregularidades financeiras, pois seus gestores são políticos e/ou empresários, em geral estreitamente ligados a políticos. Todos compartilham ética bem duvidosa.
        Como a Associação Filantrópica Nova Esperança, uma das Oss em saúde no Rio, cuja receita quintuplicou em 2 anos, e seus gestores têm estreita relação com o senador Flávio Bolsonaro, por sua vez acusado de comandar “rachadinhas” (peculato, corrupção) com assessores, e sabidamente ligado a milicianos. E, também, ligado à cúpula da G10 e, claro, do Brasil Paralelo.
        O Brasil Paralelo é um canal conhecido no Youtube há anos, mas também atua em outras redes sociais como Twitter e o Instagram. Com efeitos audiovisuais, tem narrativa com lógica própria e afirmações e negações categóricas sobre fatos e pessoas sem permitir margem a dúvidas e questionamentos.
        Apresentado pelo astrólogo vidaloka Olavo de Carvalho e outros, o canal exalta figuras, ditadoras ou não, da direita capitalista, e deprecia fatos e nomes tidos como de esquerda ou comunistas pela grande mídia. Há um cristocentrismo notório e desprezo à diversidade. E, detalhe, Olavo é guru da família Bolsonaro.
        Confusão mental- Considerando-se essa soma de característica, o Brasil Paralelo é tratado pelo filósofo e youtuber Paulo Ghiraldelli como meio de disseminação de confusão mental, que ele chama de DCP, ou deficiência cognitiva programada, como resultado da intencional desconstrução da veracidade dos fatos sociopolíticos.
        Ghiraldelli assinala que o canal traz desinformação anticientífica (terraplanismo, C19 não existe, discurso antivacina e pró-tabaco[1]), e violência ideológica, disseminando falácias como “ditadura comunista” do PT, chip chinês comunista e “globalismo marxista”, tudo isso usado em fake news que ajudaram a eleger Bolsonaro.

Esquema em favelas: reflexões
        A denúncia de Carlito Neto em seu vídeo concorda com a narrativa de Ghiraldelli sobre a ideologia e conteúdo do canal Brasil Paralelo, revelando a intenção de doutrinar ideologicamente os favelados, usando a ação caritativa da G10 para angariar confiança e consequente aceitação das desinformações.
        Carlito Neto ainda deixa evidente que canais de esquerda como Henry Bugalho, Plantão Brasil e outros em conjunto já ajudam os favelados. Se sabe que até Felipe Neto, que não é esquerda, faz suas ações sociais. Todos sem alarde e sem promessas vãs.
        Carlito menciona que cerca de 300 favelas estejam nos planos de alcance da dupla, mas sem especificar cidade ou região. Vale conferir isso, pois a julgar pela teia de ligações políticas, as maiores favelas dos principais redutos bolsonaristas do país podem ser os alvos diletos dos operadores.
        Nisso, se chega à ideia de que, de todos os redutos bolsonaristas, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina se tornam os pontos cruciais a partir dos quais os tentáculos se espalhariam para as demais regiões. No Rio, milicianos podem dar uma forcinha extra na jogada, nas grandes e populosas áreas de domínio.
        Já operante- como demonstram as matérias das mídias paulistas, é possível que a dupla já esteja em ação, sem aviso para não dar alarde. Talvez por isso, curiosamente, alguns líderes locais não saibam. É o que veio mostrar a matéria do Diário do Centro do Mundo, na qual, indagado sobre o tema, o líder da Associação dos Moradores de Paraisópolis, em Sampa. Estranhou: “quem é esse Olavo?”.
        Esse desconhecimento pode parecer estranho, mas faz sentido pleno, uma vez que evidencia a natureza insidiosa da atividade e as segundas intenções por trás do slogan caritativo e socializante que publiciza a ação da dupla G10-Brasil Paralelo sobre os jovens mais carentes e religiosos, a parcela mais impressionável das patuleias faveladas.

        Verificando-se o encaixe das diferentes fontes informativas, inclusive dentro do próprio Youtube, onde inúmeros vídeos do canal Brasil Paralelo ainda estão disponíveis, é fácil concluir que tanto Ghiraldelli quanto Carlito Neto têm razão sobre a orientação e as reais intenções da dupla com as populações periféricas.
        E a ação da dupla pode ser apenas um reforço de peso: em palestra, o autor da Teologia da Libertação Leonardo Boff disse que foi nas esquinas das periferias que as bases do bolsonarismo encontraram os pontos mais férteis para crescer e se consolidar. Sim, faz sentido.
        Não que os cidadãos favelados apoiem a associação entre entes tão distintos quanto os religiosos, outros filantrópicos, empresas e políticos por uma ideologia violenta e destrutiva como o bolsonarismo e correlatos. Mas sim, que os mais carentes são mais crédulos e vivem sob pressão do crime organizado que se liga a tal movimento.
        As favelas, portanto, são os postos-chave de disseminação de ideologias. E, não por acaso, ante o avanço de Lula na liderança das expectativas para 2022, que o Brasil Paralelo e o G10 vão disseminar novos delírios para a captura das periferias contra a volta da “esquerda”.


[1] Para Olavo, o prejuízo clínico pelo tabaco é uma mentira para desacreditar a indústria e o produto, apesar do próprio sofrer de DPOC devido ao vício.


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Imagem: Google

Para saber mais
https://www.youtube.com/watch?v=w8pm1ITix6o (denúncia de Carlito Neto, O Historiador)
- https://www1.folha.uol.com.br/colunas/gabriel-kanner/2021/10/parceria-entre-brasil-paralelo-e-g10-favelas-une-propositos-e-desperta-esperanca.shtml
- https://www.diariodocentrodomundo.com.br/olavo-paraisopolis-brasil-paralelo/

domingo, 17 de outubro de 2021

Análise: dinheiro terceirizado

 
        2019: o governo Bolsonaro anunciou a privataria de estatais, incluindo a estratégica Casa da Moeda do Brasil (CMB), pela alegação do ministro Paulo Guedes de que ela "fará a economia brasileira decolar", mesmo com o avião econômico dando ré. Servidores reagiram contra, e especialistas apontaram riscos econômicos graves.
        2020: quanto mais Guedes prometia a decolagem, mais ré a economia dava. Com a sindemia de C19 grassando ao bel prazer presidencial, a privataria ocorria por baixo dos panos ferrando a economia. A CMB ficou no abafa até divulgarem a cédula de R$ 200. Escaldado, o povo intuiu a hiperinflação por perto.
        Essa cédula nunca chegou aos nossos bolsos. Mas, dezenas de maços dela foram encontrados pela PF nas cuecas de um senador bolsonarista. Em seguida, suspenderam a sua produção por motivos em sigilo. Mas já se sabe da procedência não usual do papel-moeda e da tinta. De qualquer forma, nada a ver com o traseiro do senador.
        2021: com a privataria dos serviços públicos como tona da PEC32 (reforma administrativa), que por sua vez avança no legislativo deixando servidores em alerta máximo, o Conselho do Programa de Parceria de Investimentos (CPPI) recomendou a retirada da CMB da lista do Programa Nacional de Desestatização (PND). A solicitação foi publicada no DOU1 de 21/9. 
        O governo terá que editar decreto autorizando a retirada. Até o momento não foi encontrada fonte sobre o decreto, se foi retirada ou não. Tal como especialistas da FGV, o citado CPPI apontou os mesmos riscos da privatização da CMB: na economia e maior vulnerabilidade ao descontrole da falsificação.

Breve história da CMB

        A CMB foi fundada em 8/3/1694 pelos administradores coloniais da Coroa Portuguesa em Salvador, para fabricar moedas com ouro da colônia. O primeiro cunhador, José Berlinque, foi substituído pelo ourives baiano Domingos Ferreira Zambuja. A CMB foi transferida para o Rio de Janeiro em 1699, para Recife em 1700, e volta ao Rio, desta vez em definitivo, em 1702. No século XX surgiram sedes em MG e DF.
        Logo a CMB virou símbolo do Brasil independente e soberano, tornando-se o fabricante oficial da moeda nacional. Em 1843, produziu o primeiro selo postal das Américas e o terceiro do mundo, o Olho de Boi. Até hoje ela fabrica os selos postais, além de moedas comemorativas.
        Há locais que possuem acervo histórico de moedas nacionais fabricadas pela CMB. Entre esses locais, se destaca a cidade de Juiz de Fora (MG), com o Museu do Banco de Crédito Real, em prédio fundado no II Império. Aberto para visitação pública nos dias úteis, este Museu tem valioso acervo histórico datado desde o Império.

Segurança 
        Com o tempo, a segurança se tornou uma preocupação na fabricação de cédulas de dinheiro, ao ponto de, hoje, haver tecnologias a produzir mecanismos de segurança contra falsificação, estendidos aos selos e documentos especiais que são remetidos a outras empresas.
        A falsificação de dinheiro é crime de ocorrência eventual, tipificado nos arts 289 a 292 do CP2, punível com 2 a 15 anos de cadeia e multa, dependendo da natureza e contexto. O cidadão de boa-fé que porventura receba e circule dinheiro falso também pode ser penalizado em até 3 anos de cadeia e multa. O art. 291 trata de porte e posse de apetrechos para falsificação.
        Já deparamos com várias notícias de flagrantes de grandes volumes de dinheiro falso. Mas, não é comum, até prova em contrário, o envolvimento da classe política. Aliás, quando o agente político é envolvido, o crime é mais grave, pois o político é, essencialmente, um agente público, e seu crime tem natureza privada.

Caso da cédula de R$ 200

        Em agosto/2020, correu uma licitação sortear empresa fornecedora de tinta e papel-moeda para a impressão de novas cédulas. Por ordem do governo, a empresa vencedora foi mantida em sigilo por um tempo por motivos de segurança para evitar crime de falsificação. Pela legislação, os produtos precisam ter segredo industrial (segurança química). 
        A circulação da cédula de R$ 200 foi anunciada em setembro/2020. Em outubro, Bolsonaro falou em live sobre o assunto: "ela foi feita por falta de papel-moeda". Mas, a explicação para a ausência da cédula circulante foi outra: "pra evitar uma corrida aos bancos, antes não podia falar, agora posso". Geral não se atentou na falta de nexo da fala, mas outros fatos logo viriam para dar sentido.
        O senador bolsonarista Chico Rodrigues (DEM-RR) foi flagrado com a bunda grande e quadrada em seu apartamento pela PF. Na averiguação. foram encontrados vários maços de cédulas de R$ 200. Alegou inocência, mas deixou a vice-liderança do governo no Senado, exaltando Bolsonaro como "grande líder", soando mais como exposição do presidente no escândalo.
        Em paralelo, dois fatos: a solicitação do MPF para apurar irregularidade no transporte de materiais na sede carioca da CMB após denúncia da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) em São Paulo; e a ação civil pública da Defensoria Pública da União (DPU) para suspender a produção das cédulas de R$ 200. Isso, enquanto a patuleia zoava com a bunda do senador.
        Na denúncia da ABCF, a Ceptis venceu licitação para fornecer tinta de impressão das cédulas de R$ 200, mas reclamou do fornecimento ilegal de sua tinta pela CMB à concorrente Sellerink. A ABCF reuniu documentos, e procurou o MPF-RJ e o Núcleo de Repressão à Falsificação de Moeda da PF em Maringá (PR) para investigar os fatos, que podem abrir as portas para a falsificação.
        Em seguida surge a ação pública da DPU para suspender a produção das cédulas de R$ 200 devido ao descumprimento da Lei de Inclusão: as medidas das cédulas eram idênticas às da de R$ 20. Pessoas com deficiência visual distinguem valores ao diferenciar os tamanhos.
        Como não houve alarido público pela mídia sobre esses assuntos, a geral acreditou que a parada da produção estaria ligada ao escândalo de corrupção envolvendo o supracitado senador, e às notícias de Paulo Guedes em grotesca brisa loka de recuperação da economia no trimestre final de 2020.

Enfim, será uma forçada de barra para a privatização? 

        A licitação de empresa fornecedora de matéria-prima para confecção de dinheiro físico é um meio legal, alternativo à privatização. Mas, quanto à confecção das cédulas de R$ 200, os meios utilizados deixam no ar uma forte sensação de suspeita.
        Suspeita essa que recai diretamente sobre o governo federal, uma vez que o sigilo relacionado aos envolvidos em irregularidades advém de ordem direta do Executivo. O sigilo veio, dessa vez, sobre o fornecedor da nota de R$ 200.
        É aí que a coisa pega. A CMB sempre teve o mister de lançar dinheiro novo e produzi-lo, mesmo que a tinta e o papel-moeda sempre fossem fornecidos por empresa sorteada em licitação. No caso da cédula de R$ 200, à qual a patuleia não teve acesso, se revela claramente que a sua produção ficou a cargo de terceiros.
        A denúncia da Ceptis captada pela ABCF nos leva a pensar sobre a terceirização da produção de dinheiro na era Bolsonaro, retirando da CMB uma atribuição que ocorre há mais de 300 anos. Nesse sentido, a inédita terceirização da produção de dinheiro significa mais uma tentativa do governo de retirar outra atribuição estatal.
        Daí serem estranhos os fatos acima, pois até onde se sabe, todos os países produzem dinheiro por órgãos estatais com servidores. O significado é claro: patrimônio de soberania. Que, aliados aos fatos acima citados, motivam a recomendação do CPPI de que se retire a CMB da lista da privataria.
        Como já citado antes, a privataria é objetivo-fim da PEC32, a reforma administrativa. Se já foi produzida a cédula de R$ 200 fora da CMB ainda pública, imaginem no pós-privataria: além de gerar falsificação à vontade, se dissolve praticamente o que nos resta da resquicial sensação de soberania.

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Notas da autoria
1. Diário Oficial da União, órgão de imprensa estatal que oficializa atos administrativos de autoria da União.
2. Código Penal Brasileiro (Decreto 2848 de 1940).

Para saber mais
- https://www.poder360.com.br/governo/bolsonaro-afirma-que-nota-de-r-200-foi-lancada-por-falta-de-papel-moeda/
- https://noticias.r7.com/brasil/dpu-entra-com-acao-para-suspender-circulacao-da-nota-de-r-200-13102020
- https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/10/15/senador-flagrado-com-dinheiro-na-cueca-chama-bolsonaro-de-grande-lider-e-diz-que-provara-inocencia.ghtml

ANÁLISE: Himalaia: o alerta global

                      A Terra é um planeta dinâmico. Entre os leigos, toda cadeia de montanha é quase uma coisa só. Mas geógrafos e geólogos...