segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

A vacina que matou Bolsonaro 


     São Paulo, 17 de janeiro de 2021. Num saguão amplo, a enfermeira Mônica Calazans, do I. Emílio Ribas, foi a primeira pessoa a receber a vacina no Brasil. O governador João Doria acompanhou, e aproveitou um palanque, de boa.
     A vacina inaugural foi a Coronavac-Sinovac, produzida no Instituto Butantã. Além de Doria, estavam presentes o prefeito Bruno Covas e representantes do citado Instituto.
     A vacinação de Mônica foi realizada após a aprovação para uso emergencial das vacinas Coronavac e AstraZeneca/Fiocruz pela Anvisa - que fora acompanhada de declaração do seu diretor com crítica incisiva à atuação omissiva e mentirosa do MS na sindemia da C19.
     Tudo foi transmitido ao vivo pela mídia na TV fechada e na internet, para todo o Brasil, e acendeu a cálida chama de vela da esperança em meio às trevas de uma tragédia antes evitável, que hoje escancara a intenção de genocídio.
     A aprovação do uso emergencial das vacinas e a vacinação inaugural com Coronavac numa mulher negra, profissional de saúde, servidora pública e portadora de comorbidade, foram fatos suficientes para que houvesse um rebuliço geral em Brasília.

-> Breve resumo histórico da mixórdia

     Desde que a C19 foi declarada pandemia pela OMS, a comunidade científica global se mexeu para novas pesquisas. que descobriram o comportamento do vírus, a gravidade e sistemicidade que explicam a natureza complexa da doença e, enfim, a corrida das vacinas. 
     É claro que, por ter sido palco midiático do início da pandemia, a China foi também a primeira em desenvolver vacinas com a necessária ética científica e muitos voluntários. Dois laboratórios, a Sinovac (Coronavac) e Sinopharm, lançaram seus produtos, o primeiro em parceria com o Butantã.
     Mais recentemente, o ministro Pazuello declarou, ao responder a um jornalista na coletiva, que a vacinação vai acontecer "no dia D, na hora H". Ou seja, não respondeu nada, e por isso foi zoado nas redes sociais. Mas, a zoeira minou com o foco em Manaus.
     A geral se calou com as imagens fortes da tragédia: totalmente colapsada, a saúde em Manaus era pacientes com C19 graves no chão ou em macas improvisadas, servidores exaustos e adoecidos, e sem oxigênio. Numa ala inteira, 51 vítimas morreram no mesmo dia. Um cenário de guerra, o caos.
     O MS acusou as autoridades locais de "faltarem com o tratamento precoce" com o esdrúxulo kit-C19. Na live de 14/1, mentiras reiteradas sobre o caos e a defesa do kit levaram à crescente indignação popular. O Congresso começa se dar conta do efeito da panela de pressão.
     Foi a gota d'água: explodem protestos virtuais, panelaços e buzinaços, e surge a notícia: o líder da Venezuela, Nicolás Maduro, se solidariza a oferecer oxigênio, a partir de Manaus. A pressão popular pró-impeachment aumenta sobre o Congresso. Afinal, ali há muitos cúmplices na tragédia.
     Mesmo tonto, o governo continua na iniquidade. Sem plano de vacinação, sem nada, ao saber da solidariedade do vizinho "comunista", ordena à FAB levar carga de oxigênio ao Amazonas. Maduro não recuou: a sua carga já chegou ao estado.

-> E a vacina matou Bolsonaro

     Por meses Bolsonaro desfrutou de razoável popularidade, em plena sindemia de C19. Inversamente proporcional ao seu desempenho de governante, de nota 0,1 na escala de 0 a 10. Foi ligada à estratégia de marketing pessoal "paz e amor" sobre algumas obras do PAC lulista e do auxílio emergencial.
     O conivente silêncio do Conselho Federal de Medicina diante do crime de prática médica ilegal de Bolsonaro se revelou num bom apoio velado de marketing. Todavia, encontrou em médicos altamente científicos um adversário cada vez mais imperioso.
     Mas a fonte foi secando: derrotas para a ciência, destruição ambiental mais agressiva, fim do auxílio emergencial e outros cortes sucessivos de Guedes na área social1, muitas aglomerações, a segunda onda da C19 após a falsa queda2 marcada pela crescente frieza sociopática do presidente.
     O apoio esperado da parte das azeitonas das FFAA não veio a contento. Talvez com a exceção dos capachos Pazuello e dos zumbis Augusto Heleno e Villas-Boas, que não são nada entre os demais nos órgãos. Se calaram na aprovação das vacinas pela Anvisa, feita por um... servidor público estável. 
     A politização da C19 em cima do sacrifício de milhares de profissionais da saúde hoje exaustos e adoecidos, o avanço da mortandade e da vacina, o incentivo à aglomeração nas igrejas, eleitores hoje arrependidos e críticos, e prefeituras sem bolsonaristas foram outros fatores de secagem.
     O auge da rejeição a Bolsonaro veio com o horror na saúde amazonense e na explosão de protestos virtuais, panelaços e nas ruas. E mais dois fatos selariam a agonia política do presidente: a chegada dos enormes galões de oxigênio venezuelano (e de famosos), e a vacinação inaugural em São Paulo.
     Mesmo moribundo, Bolsonaro reage: a Coronavac não é de Doria, é do Brasil", mas disse que não a comprará (?). E fechou: "as FFAA decidem se vamos continuar na democracia". Até prova contrária, não há apoio amplo na instituição a um golpe, por conhecerem bem o perfil sociopático do presidente.
     Baqueado pela aprovação das vacinas pela Anvisa e as críticas desta ao inútil e perigoso kit-C19, Pazuello tentou ajudar o chefe, num discurso corrigido: em vez de tratamento precoce, "atendimento precoce". Só não dá para saber se vai ser uma volta por cima.
     Bem, é fato que, passada a ressaca da comemoração do oxigênio venezuelano e da vacinação em Sampa, Brasília está em choque. Bolsonaro está praticamente morto. O oxigênio "comunista" foi um tiro grosso, é verdade, mas a chinesa Coronavac, a única ainda disponível, foi o tiro de misericórdia.

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Imagem: Google

Notas da autoria
1. Em plena tragédia, Paulo Guedes ordenou cortes de fundos de investimentos públicos para a C&T, indústria, MPEs, saúde, sistema de aulas home office, etc.
2. Tratada como queda pela mídia, o MS de Pazuello desconsiderou as subnotificações, restringindo dados a confirmações de internados.

Para saber mais
- https://oglobo.globo.com/sociedade/primeira-vacinada-enfermeira-do-emilio-ribas-em-sp-24842682
- https://www.poder360.com.br/governo/pazuello-associa-colapso-em-manaus-ao-clima-e-a-falta-de-tratamento-precoce/
- https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/01/pazuello-diz-que-periodo-chuvoso-e-falta-de-tratamento-precoce-pioraram-cenario-de-manaus.shtml
- https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,contrariando-bolsonaro-diretores-da-anvisa-refutam-remedios-ineficazes-e-defendem-a-ciencia,70003584926
- https://www.youtube.com/watch?v=3pS8RLATucc (Ghiraldelli)

domingo, 17 de janeiro de 2021

Bolsonaro e as PMs: prenúncio de golpe?


     Mal começou 2021 e o governo Bolsonaro, em meio às muitas discussões na web sobre se vacina ou não, já prepara um novo plano sobre as polícias: retirá-las da responsabilidade dos estados. Ele já dialogou com aliados na Câmara para elaborar PLs sobre o tema.
     A ideia, que já estava em mente do governante há tempo, emergiu junto a outra proposta paralela que inclui a lava-toga, que versa sobre impeachment de ministros do STF por abusos.
     A matéria caiu na rede e entre os internautas que a acessaram, a maioria expressou preocupação. As críticas foram expressas sobre a ameaça representada às instituições, à democracia e à República.
     Entre os mais ferrenhos críticos à ideia do governo federal estão os governadores estaduais, que detêm o poder sobre as instituições policiais, além de usarem as supracitadas ameaças como a alegação de base.
     Mas, vale salientar: Bolsonaro nunca escondeu que tinha um plano de "reestruturação" das polícias. Porque o excludente de ilicitude, incluído no projeto do ex-ministro da justiça Sergio Moro, é a menina dos olhos do presidente.
     Muito das análises a seguir mostrarão aos leitores não só a relação antiga e próxima do presidente com as polícias, como pretendem abrir possibilidade de novas reflexões entre os leitores.

-> Reflexão sobre um breve apanhado histórico

     Embora as mídias hoje em dia pouco tratem de aspectos mais ou menos detalhados, é conhecida entre o povo fluminense a estreita relação entre Jair Bolsonaro e as polícias, com especial carinho com as militares, assim como com as FFAA. Tudo se mostra a partir dos anos 1990, quando Bolsonaro entra na política.
     É razoável entender tal inclinação por conta da formação militar de Bolsonaro, onde ele tentou uma carreira militar definitiva, interrompida precocemente por sua própria índole desenfreada. E foi nesse período que construiu a sua ideologia política, que se concretiza aos poucos na presidência.
     Na política sempre defendeu a ditadura militar, a sociedade "pura de costumes cristãos", armada e com segurança ostensiva para combater a guerra urbana. Defende maior liberdade de ação da polícia e alistamento obrigatório de mulheres nas FFAA - características do arditti1 político. 
     Ele conquistou popularidade nessas máximas. Mas, revelaria a sua verdadeira face mais tarde, por meio de entrevistas e declarações: sonegador de impostos e defensor da "segurança" das milícias nas comunidades. E, eleito presidente, os outros meios se explicitam num apressado conta-gotas: explosão das violências de todo tipo, etnocídios, desmatamentos, rolo com a C19, etc.
     As milícias são os modernos esquadrões da morte dos anos 1970-90. Elas coincidem com a família Bolsonaro (aviso: Queiroz é tão antigo nelas quanto na amizade com a família). Antes inimigas do tráfico, hoje se juntam (narcomilicianos) e às igrejas neopentecostais somando-se um imbróglio só. 
     Não por acaso as operações das PMs ocorrem só onde é domínio do tráfico, mas sem grande número de mortes: é mais do que mera identidade com os colegas corrompidos.
     A validação das práticas acima revela a existência de uma fidelíssima guarda pretoriana composta por PMs um tanto quanto... suspeitos. Não é aquela guarda oficial de Brasília, mas seus seguranças que saíram do submundo.
     Na fatídica reunião ministerial de 22/4, enquanto o então ministro da justiça e segurança pública Sergio Moro estava em silêncio catatônico, Paulo Guedes externou a sua ideia de falar sobre alistar jovens de favelas nas FFAA por 1 ano coo treino para proteger suas famílias e integrar... milícias.
     Segundo Guedes, os jovens pobres entrariam nas FFAA onde ficariam por um ano no treinamento militar de praxe, com ajuda de custo de R$200, e completado esse tempo poderiam tentar a sorte na PM ou para compor grupo paramilitar.
     Bolsonaro acenou positivamente. Embora dissesse não ter intenção de efetuar um golpe mesmo considerando fácil, o sorriso franco estampou claramente haver uma intenção mais atrás. Não revelada no momento, mas presente em sua mente.
     Intenção esta que se esboça abaixo, alvo das reflexões finais.

-> Reflexões finais: esse golpe é possível?

     O plano de Bolsonaro para as polícias é a de restringir o poder dos estados sobre elas, para ter certa autonomia e liberdade de ação (lê-se excludente de ilicitude), e facilitar o interesse e acesso dos jovens à carreira. A proposta será apreciada pelo Congresso, que foi previamente sinalizado pelo presidente.
     Um dado que vale apontar é o indulto concedido por Bolsonaro a agentes de segurança pública que cometeram crime culposo, em 23/12/2019. Segundo Leonel Radde (PC-RS), além de inconstitucional, esse perdão é porta aberta para os excessos e o fortalecimento das milícias.
     O apontamento de Radde também é um alerta de que, na prática, o perdão pode ser um facilitador para a aprovação da atual proposta a ser tramitada no Congresso. E, ele mesmo já disse em suas redes sociais, os excessos já são corriqueiros e as milícias têm mais zonas de domínio no país.
     Na reunião de 22/4, Bolsonaro defendeu população armada e "mais policiada", e Guedes soltou a supracitada pérola. Afinal, a idealização primordial do presidente é fortalecer sua "guarda pretoriana", com quem tem relação tão antiga quanto amigos nela.
     A proposta pode escancarar duplo intento: formar uma polícia jurídica para combater excessos no judiciário, e outra parecida com a antiga Polícia do Exército (PE) para controle da população. O que expõe a intenção de interferência do presidente nas instituições policiais. 
     A combinação das peças da proposta é criticada pelos governadores, juristas e pelas mídias de várias inclinações. Para Celso de Mello, é um retrocesso inaceitável, o que bate com as posições da Carta Capital, que acredita em uma possibilidade de golpe, e da IstoÉ, que vê nisso uma ameaça a 2022.
     As críticas dos governadores e juristas insinuam a intenção de Bolsonaro executar um autogolpe, com o seu séquito paramilitar e sem precisar enfrentar forças adversárias à altura - estas não existiriam. A população se calaria sob intensa pressão, devido ao risco de derrame de sangue.
     Mas, será que tal risco existe? Bem, vale salientar que a polícia de controle social ressuscita a PE da ditadura, só não sendo subordinada ao Exército. E, desnecessária, pois já existe a Força Nacional de Segurança (FNS).
     Mas, vale lembrar da paranoia ideológica de Bolsonaro: a FNS foi criada na era PT, e para dissolvê-la visando criar a sua, formada por fidelíssimos cães de guerra, pouco custa, ou nada. Todavia, não há nada oficialmente que garanta tal afirmação. Mas, vale a crítica de Celso de Mello e Leonel Radde.
     Mas há uma luz no fim do túnel: a proposta pode ser deixada de lado por conta da crescente pressão popular pelo impeachment de Bolsonaro, que respinga grosso no Congresso. Maia já sonda os colegas na Câmara, com 107 favoráveis ao processo até o momento. O que ainda é pouco, mas...
     Porém, tudo ainda é possível, o Congresso atual é imprevisível. Resta dizer: impeachment ou golpe? Quem viver, verá.

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Imagem: Google

Notas da autoria
1. Movimento ideológico de extrema-direita criado por militares italianos de patentes inferiores, há quase 1 século.

Para saber mais
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2019/02/governo-bolsonaro-quando-milicias-e.html
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2020/05/recrutar-jovens-militarismo-ou.html
- https://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/21/politica/1469054817_355385.html
- https://ponte.org/indulto-de-bolsonaro-milicia/
- http://professorcorreia.com.br/policia/milicia-de-ecko-expandiu-atuacao-para-o-porto-de-itaguai-mangaratiba-e-angra-dos-reis-segundo-investigacoes/
- https://oglobo.globo.com/brasil/governadores-criticam-projeto-que-restringe-poder-dos-estados-sobre-as-policias-24833283
- https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/07/politica/1541621514_210694.html
- https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/01/autonomia-policial-acende-sinal-amarelo-sobre-golpismo-de-bolsonaro-em-2022.shtml
- https://piaui.folha.uol.com.br/o-perigo-da-independencia/
- https://istoe.com.br/a-guarda-pretoriana-e-a-milicia-policial/
- https://opiniao.estadao.com.br/noticias/notas-e-informacoes,bolsonaro-soldados-e-policiais,70003578054
- https://www.youtube.com/watch?v=dQ3gg2mTMSE (Bemvindo Sequeira - PMs e possível golpe)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Ford, BB e o inferno Brasil


     Tudo indica que o Brasil iniciou 2021 ruim das pernas. A montadora Ford decidiu fechar as suas fábricas no país, a princípio até o fim do ano, limitando-se à venda automóveis. Em seguida, o governo anunciou nova etapa do desmonte do Banco do Brasil (BB), encerrando 361 agências.
     Os mais impactados, lógico, são trabalhadores. Pois isso implica jogar na sarjeta o total de 10 mil funcionários de várias esferas de produção, alguns com décadas de experiência e aperfeiçoamento. 
     Nas redes sociais, que repassaram a notícia, reinaram a estupefação com o sentimento de horror, entre a quase totalidade dos internautas, que nem imaginava um fato que na real não tem nada de surpreendente.
     Mas tais reações e sentimentos são naturais, e não deixam de ter sua razão. Afinal, é a primeira vez, desde a sua primeira fábrica, que a empresa estadunidense anuncia o fechar das portas de seu setor produtivo.

-> BB: vida e riscos de um patrimônio histórico

     Primeira instituição financeira no Brasil, o Banco do Brasil evoluiu em quatro versões: a primeira (1808) com D. João VI; a segunda (1851) com Barão de Mauá1; a terceira (1853), pelo Visconde de Itaboraí2; e o retorno ao original em 1906. Sua sede inaugural foi na então capital Rio de Janeiro.
     Surgiu para incentivos à indústria local, isenção de impostos sobre matéria-prima, exportação de industrializados; foi banco central emissor3 de títulos e de papel-moeda, até as várias funções atuais. Já foi o único remunerador de funcionários públicos, e hoje compartilha função social com a poupança.
     Hoje é uma entidade de economia mista, com 50% de capital público e 50% privado, com amplo destaque em ativos financeiros, depósitos totais, carteira de crédito, volume de clientela, câmbio de exportação, administração de recursos de terceiros e faturamento no cartão de crédito.
     Com o governo, o BB sofre sérios riscos. Ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes tem como uma das metas prioritárias a privatização da metade pública do BB, desconsiderando o seu valor histórico e a sua contribuição para a competitividade do Estado brasileiro na economia. 
     Segundo o governo, com o fechamento das 361 agências e a demissão em massa, há a planificação de demissão voluntária (PDV), uma vez que a contratação dos funcionários é via concurso público.
     
-> Ford do Brasil: vida e ocaso

     O estadunidense Henry Ford foi um desbravador: expandiu sua indústria automotiva fora dos EUA. Sua primeira filial foi na Argentina (1914) e a segunda foi aqui, em São Paulo, em 1919, num galpão antigo. Dali saíram os primeiros produtos brasileiros, o modelo T de passeio e o TT de caminhão.

Fordlândia: breve história de um fracasso
     Nos anos 1920, o governo do Pará queria doar terras a plantadores de seringueiras, e H. Ford quis investir. Ciente disso, o cafeicultor Jorge Dumond Villares obteve 7 áreas. Mas vendeu 1 milhão de ha de área privada e solo ruim de plantação a Ford, obtendo U$ 125mil com o golpe.
     Ainda assim, vieram a vila Fordlândia e a plantação. Uma embarcação servia de hospital; e embora morassem em casas modestas de madeira, os operários, qualificados ou não, ganhavam acima da média brasileira. Mas logo veio o preju: o ritmo da plantação era muito baixo e o "mal-das-folhas" arruinava a produção. E, em 1932, Ford contratou o especialista James Weir.
     Weir recomendou a mudança da vila para a região de Belterra, mas o ritmo da plantação continuou baixo. Na II Guerra Mundial surgiu a borracha sintética, que minou o interesse pelo látex, bem como a indústria mudou e veio a terceirização. Resultado final: hoje, Fordlândia é uma cidade-fantasma.

Nos centros industriais, produção e ocaso
     Em 1967 a empresa no Brasil lançou o Ford Galaxie, a primeira linha de automóveis seguindo o padrão dos EUA. Com o controle acionário da Willys Overland do Brasil, passou a produzir as linhas mais conhecidas, como Corcel, Belina, Perua, Escort, etc.
     Apesar do anúncio supracitado, a possibilidade de fim da produção da Ford no país já era esperada. Em 2018 se limitou a fabricar SUVs e caminhonetes. Em 2019 encerra atividade em São Bernardo do Campo, e, neste ano, pelo Brasil, alegando "baixa de vendas e capacidade ociosa da indústria".
     Aponta-se também a C19 descontrolada como causa da redução das vendas. Embora a previsão de início seja temporária, a empresa já está no plano de indenizações aos empregados demitidos, o que gera a incerteza sobre o retorno da atividade industrial da Ford no país.

-> O governo e a Ford

     Diante dos impactos da notícia, o presidente Jair Bolsonaro acusa a Ford do Brasil de “querer subsídios em vez de investir mais na indústria”. Uma mentira deslavada. Toda empresa recebe a sua cota de subsídios estatais como medidas de incentivo à produção no território nacional. 
     Essa cota não é ilegal, desde que não prejudique os serviços públicos essenciais. Limite que sempre foi desrespeitado por empresas (Ford é um exemplo) e políticos. O acinte leva a geral a encarar os subsídios negativamente. É aí que Bolsonaro explora o tema com mentiras a seu favor e bel prazer.
     A maioria não sabe, mas eles existem desde a era JK, em países desenvolvidos e nos periféricos como o nosso. O método varia. No Brasil as empresas preferem a cota em grana pública, considerada menos burocrática, mas algumas acatam a isenção de encargos por tempo determinado em contratos, 
     Essa isenção pode ser mais burocrática, mas não ameaça tanto os serviços públicos essenciais. Em 1999, a própria Ford deu piti contra uma proposta mista do governador Olívio Dutra (RS), que não prejudicava os serviços públicos, e foi para Camaçari, na Bahia.
     A grande mídia diz que subsídio é interferência estatal na economia. Pelo contrário, é empresarial sobre o Estado. E nisso os bancos, para quem Guedes trabalha, são exemplos claros: por eles o ministro corta recursos dos serviços públicos convertendo-os em dívida pública para as entidades.

-> Reflexões: o inferno Brasil

     O encerrar da produção da Ford do Brasil e de 361 agências do BB trará um impacto bem imediato à população: mais de 10mil novos desempregados de uma só vez, o que causa demanda posterior sobre o próprio Estado.
     No final de 2015, o desemprego era menos de 10%. No fim de 2016 eram 12%. Em 2019, 13,5%, e 2020 fechou com 14,3%. E mais de 10 mil, pela mídia. Em 2020 mais de 2 milhões foram ferrados em razão da falência das micro e pequenas empresas, que empregam mais de 70% da geral4.
     O artigo não deprecia o impacto inerente à Ford e ao BB, só salienta que não houve alarde na mídia e no governo sobre os milhões de desempregados no ano passado. O alarde só veio com o fechamento da Ford, até mais do que o BB e várias sedes da Petrobrás, que no conjunto demitiu mais de 10 mil.
     Além disso, vale salientar que o desemprego antes de Bolsonaro não foi resolvido com a reforma trabalhista, que alterou a CLT na alegação de desonerar as empresas com pessoal. Se funcionasse de fato, não teria havido a crescente disparidade de mais demissões e menos contratados. A ociosidade alegada pela Ford se explica aí.
     Outra consequência é a desindustrialização, que embora já ocorresse há uns 30 anos, atingiu uma velocidade inaudita na era Bolsonaro. E se uma indústria fecha, vem efeito cascata devido à relação entre elas: uma montadora depende da miríade de fábricas que fornecem todo tipo de material a ser usado na montagem. E o desemprego acompanha. 
     O problema: Paulo Guedes. Sua atuação e o passar de pano pela grande mídia são insustentáveis. Desmontar o Estado não funciona, este precisa existir para solidificar a economia interna. EUA e UE são exemplos claros de Estados fortes.
     O Brasil tem jeito, bastando tributar as grandes fortunas e cortando parte dos excessivos auxílios da classe política, que a tornam a mais cara do globo, para se recuperar e investir no retorno do mercado privado, sem precisar privatizar uma vírgula. É um Estado forte que gera crédito, e não um inferno privatizado.

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Imagem: Google

Notas da autoria
1. Título de nobreza de Irineu Evangelista de Souza.
2. Título de nobreza de Joaquim José Rodrigues Torres.
3. Foi o quarto emissor do mundo, atrás dos Bancos da Suécia, da Inglaterra e da França.
4. Números oficiais do IBGE, que só considera desempregado o trabalhador desocupado. 

Para saber mais
https://pt.wikipedia.org/wiki/Banco_do_Brasil
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ford_do_Brasil
https://congressoemfoco.uol.com.br/economia/banco-do-brasil-pdv-fechamento/
- https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/fim-de-uma-era-presente-no-brasil-desde-1919-ford-encerra-producao-de-veiculos.phtml
- https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/fim-de-uma-era-presente-no-brasil-desde-1919-ford-encerra-producao-de-veiculos.phtml
- https://exame.com/negocios/oito-marcas-de-carros-que-decidiram-abandonar-o-brasil/

    
    

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

#Curiosidade: a dependência sufocante


Este é o décimo artigo da categoria #Curiosidades, na subcategoria Transtornos de Personalidade, que visa desmistificar os transtornos e ajudar alguém.
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     Ele está no meio familiar: o filho que não consegue cortar o cordão umbilical que o prende afetivamente à mãe. A mulher que não tolera o divórcio. O idoso que não supera o luto da morte de algum familiar, seja filho, esposa ou irmão.
     Ele também está nos relacionamentos amorosos: a jovem que persegue o rapaz, ou vice-versa; o esposo que se apavora à simples imaginação da possibilidade de viver sem o(a) parceiro(a); o casal inseparável, que troca juras de amor eterno e que se entrega incontrolavelmente.
     São cenários que sinalizam uma espécie de distúrbio, o transtorno de personalidade dependente, sobre o qual este artigo se dedica.

-> Conceito, características, comorbidades, diagnóstico e tratamento

     O afeto é uma propriedade emocional desenvolvida em várias espécies animais, e na humana atinge a sua dimensão mais desenvolta, fomentando relacionamentos estáveis mesmo em situações de atrito. 
     O Transtorno de Personalidade Dependente (TPD) é uma desordem psíquica sobre o controle emocional nas relações afetivas, com submissão, comportamento "pegajoso" com o outro, inadequação na habilidade de resolver as coisas por si e de independência do sentir.
     O paciente se acredita incapaz de autocuidar e se submete ao outro para isso. Só toa decisão após conselhos, opiniões ou sugestões do parceiro ou familiar, que fica responsável por grande parte de sua vida. Pode concordar com algo errado por temer perder o parceiro, ou crítica de familiar ou amigo.
     No trabalho, prefere tarefas de pouca responsabilidade por se achar incompetente e necessitar de apoio constante. Só acha seu trabalho bom se o colega supervisor aprova. Essa dependência não só o incapacita de se promover, como pode torná-lo inconveniente nas relações produtivas.
     As interações sociais se ligam às relações de dependência. Se termina uma relação amorosa, logo de imediato procura outro que lhe corresponda às suas muitas necessidades, para perpetuar no "conforto" da submissão e da dependência.
     Comorbidades: são comuns somas com depressão maior ou distímica, transtorno ansioso, ou outro de personalidade como o TPB ou o histriônico (TPH)1.
     Prevalência: em média, menos de 1% na população geral; mulheres parece ser maioria, mas pareia com os homens (1:1), segundo dados nos EUA. Casos comórbidos são comumente internados. Brasil: atualizações indisponíveis (não publicadas).
     Etiologia: ainda não bem esclarecida; já se observou em contextos familiares muito solidificados afetivamente e comportamento discreto (hereditário ou ambiental?).
     Diagnóstico: critérios específicos; sintoma-chave: forte necessidade de cuidado do outro, submissão e apego; outros: precisar de conselhos e opiniões; dificuldade de discordar num debate; medo do abandono; sentimento de desamparo quando sós; nova relação urgente após o fim da anterior.
     Tratamento: principalmente psicoterapia (cognitivo-comportamental e dinâmica), e antidepressivo a depender do caso.

-> Reflexões finais

     O TPD lança luz na reflexão sobre a contradição do humano enquanto ser gregário, que explica os muitos episódios de solidariedade viralizados na mídia e nas redes sociais, e as dores de perdas de parentes e amigos muito próximos. Somos dependentes emocionalmente por isso?
     Na verdade, temos um toque de dependência afetiva saudável que nos gera estabilidade de vivência sem prender o outro em nossas necessidades. Nossos laços afetivos em família são os mais sólidos, mas nem por isso doentes.
     Como aponta a Psicopatologia, o doentio está na exacerbação, no descontrole emotivo, exagero de apego ao apoio ou cuidado de alguém, ou na relação afetiva em que o paciente TPD não suporta a ideia da perda. São sinais, e mesmo assim nem sempre muito fáceis de distinguir do normal. 
     Vale salientar que o diagnóstico supracitado não é universal, pois depende das características de comportamento relacional em diversos grupos étnico-culturais. O supracitado é válido para as culturas ocidentais, que valorizam a individualidade, a iniciativa e a independência.
     No tratamento, o TPD é outro que gera desânimo adicional pela carência de acesso a psicoterapeuta, o que leva à covardia sobre o paciente que, na luta para melhor qualidade de vida, acaba dependendo de medicamentos, em muitos casos possivelmente desnecessários.
     Ainda assim não se deve perder a esperança: apesar da dificuldade, ainda há terapeutas em alguns centros públicos de saúde em médias e grandes cidades. A informação sobre quais unidades e dias de disponibilidade é uma boa dica.
     E, para finalizar, é necessário enfraquecer ou combater preconceitos contra os pacientes TPD: isso não é frescura, é uma luta difícil para ter ou restaurar a qualidade de vida. Difícil pela dificuldade de ter psicoterapeuta disponível, ou uma medicação mais acessível ou adequada à sua gravidade.
     Espero que, com este artigo resumido, possa ajudar alguém ou alguém próximo.

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Imagem: Google

Notas da autoria
1. Será tratado neste blog a posteriori.

Para saber mais
https://www.msdmanuals.com/pt-pt/profissional/transtornos-psiqui%C3%A1tricos/transtornos-de-personalidade/transtorno-de-personalidade-dependente-tpd
- http://www.psiquiatriageral.com.br/dsm4/person3.htm#:~:text=Os%20poucos%20dados%20de%20estudos,ao%20utilizar%20uma%20avalia%C3%A7%C3%A3o%20estruturada.

domingo, 10 de janeiro de 2021

#Curiosidade: Evitando o real

Este é o nono artigo da categoria #Curiosidades, do subtipo Transtornos de Personalidade. A intenção de artigos como este é desmistificar e ajudar no combate à discriminação.
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     Você vê uma pessoa amiga, a cumprimenta, e é correspondido, até param para uma rápida prosa, que se direciona a certo assunto que, num repente, parece chocar ou impactar a pessoa. 
     Você se assusta, afinal sequer lhe passou à mente qualquer intenção. Ao susto vem a vergonha e pede desculpas à sua amizade, que continua a evitar qualquer conversa, e numa despedida rápida vai embora.
     Você estranha ainda mais, sem saber que aquele comportamento repentino pode ter explicação: o transtorno de personalidade esquiva ou evitativa. É este o tema da abordagem deste artigo.

-> Conceito, características, associações, diagnóstico

     O Transtorno de Personalidade Evitativa ou Esquiva (TPE) é uma desordem psíquica relacionada a habilidades sociais, com temor de avaliações negativas, om sentimento de inadequação e má adaptação diante dessa situação.
     O paciente é hipersensível à menor crítica; teme reprovação, humilhação, rejeição; é muito atento às conversas alheias. É tímido, quieto, tem jeito ansioso e limita interações sociais. Pode ser irritável ao evitar o momento. Temendo humilhações, age com forte reserva nas relações afetivas.
     Pode recusar promoção de trabalho, evitar reuniões e mesmo novos amigos por temer reprovações, exceto na certeza de se sentir aprovado. Crê que vai passar por testes rigorosos para ser aprovado. Para evitar riscos pessoais ou profissionais novos, exagera algum sintoma ou o suposto perigo.
     Tem baixa autoestima. Inibe interações novas por, na verdade, se sentir desagradável ou inferior. Evita falar de si por temer humilhação, rejeição ou crítica. Teme reagir em rubor ou choro às críticas. Na verdade, o paciente se autocritica, mas não tem ciência disso.
     É comum o TPE se associar a: depressão maior, distimia, TOC, transtorno de ansiedade (pânico ou fobia social), borderline e dependente1. A soma com fobia social é a mais grave. A etiologia pode ser intrínseca (genética) e/ou ambiental (rejeição ou marginalização na infância). 
     Acredita-se que o TPE esteja presente em 2,4% na população global, por dados de 2018. No Brasil não há dados atualizados, como se espera nos anuários de saúde mental no país. Ele pode surgir ainda na infância, mas se evidencia mais a partir da vida adulta jovem. 
     Diagnóstico: critério específico pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (em inglês DSM); análise comportamental do paciente (medo de humilhações e críticas, evitar amizades e situações sociais, sentir-se inepto, reserva excessiva na intimidade, etc.) a partir dos 18 anos. 
     Tratamento: o TPE é bem tratável, com psicoterapia focada em habilidades sociais, e medicação ansiolítica e antidepressiva.

-> Reflexões finais

     É normal evitar ao máximo situações constrangedoras ou desagradáveis, e não tolerar humilhações ou acusações. É uma defesa, que não nos impede de acatar críticas. O que evidencia o patológico são o sentimento de inadequação e a exacerbada autocrítica de origem inconsciente.
     A pessoa TPE não deve se envergonhar: a aceitação do transtorno é o primeiro passo contra ele. No trabalho, a Saúde do Trabalhador deve ser informada para proceder adequadamente e criar, se possível, meio de conscientização coletiva para informar e combater estigmas contra o colega afetado.
     Apesar de gerar sofrimento, o TPE é bem tratável, podendo ser reversível se o paciente puder seguir as orientações conforme receita. O paciente cm TPE isolada tem vantagens no diagnóstico e prazo de tratamento, os com TPE e outro transtorno demoram mais, dependendo da soma e da gravidade.
     Pacientes TPE com depressão são mais apáticos e isolados, e os com ansiedade ou fobia social são os mais graves, pois sobrevêm um pânico social incontrolável, que requer tratamento a longo prazo. Mas, todos os casos são contornáveis.
     No Brasil, o problema da psicoterapia muitas vezes é a inacessibilidade econômica: a saúde pública enfrenta grave precariedade de profissionais. Há também a concentração: quase 70% dos servidores da saúde estão no Rio de Janeiro, o que não deve ser muito diferente com os psicoterapeutas.
     Mas é fundamental ao paciente se informar sobre unidades de saúde com psicoterapeuta disponível em sua cidade, visando poder marcar alguma sessão, mesmo que seja por meia hora. É uma condição para melhorar a sua qualidade de vida social, e um direito de cidadania.
     
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Imagem: Google.

Notas da autoria
1. Será tratado em breve neste blog.

Para saber mais
https://www.msdmanuals.com/pt-pt/profissional/transtornos-psiqui%C3%A1tricos/transtornos-de-personalidade/transtorno-da-personalidade-esquiva-tpe
- https://gratular.com.br/2020/07/21/transtorno-de-personalidade-evitativa/

sábado, 9 de janeiro de 2021

200 mil mortos: até quando banalizar a vida? 


     Nessa primeira semana útil de 2021, a sindemia1 de C19 no Brasil atingiu a faixa de 200.000 mortos. Sim, 200 mil, após recorde de mais de 1800 mortos em 24 horas, entre quarta e quinta feiras. São números oficiais do Ministério da Saúde, divulgados pelo consórcio de imprensa.
     Mas, segundo estimativas de um modelo estatístico da Fiocruz, que considera as subnotificações, essa marca pode ser bem maior, na faixa de 260 a 280 mil vítimas. Ou, quem sabe, até mais. Em menos de 1 ano, a C19 encolheu 1% da população brasileira.
     Não bastando a C19, as mais de 82 mil vítimas fatais de homicídio (incluindo autoria policial) e trânsito em 2019, atingindo em cheio as camadas mais desfavorecidas do poder público e econômico, que são significativas na população em geral.
     Enquanto isso, o governo não se manifesta conforme o esperado. Assim como ainda não definiu novo plano de vacinação após aquele que nenhum cientista viu e que deu chabu, ainda defende armar a população e descriminalizar o excludente de ilicitude. Por que ele nada soluciona?

-> Por que o governo banaliza a morte: reflexões

     Cientistas do Butantã afirmaram a eficácia de 100% da Coronavac contra adoecimento moderado e grave e 78% em leves, dissolvendo fake news sobre os efeitos desta vacina. Todavia, o MS preferiu a Pfizer, conforme discurso de Pazuello e carta de recomendação do fármaco de Bolsonaro à Índia.
     Chinesa, a Coronavac é a segunda vacina com dados de testes fase 3 concluídos em brasileiros, após a Pfizer, que já apresentou os seus. Ambos os laboratórios solicitaram o uso emergencial das vacinas no país. Com dados ainda em análise, Janssen e AstraZeneca/Fiocruz ainda não se pronunciaram.
     Enquanto os laboratórios já se adiantam, o governo brasileiro segue na moleza e já irrita os sensatos, sem plano definido de vacinação analisado por pesquisadores. Nada. Algumas prefeituras se ajustam conforme o plano de prioridade: profissionais de saúde, idosos, comorbidades e a população geral.
     No tema da guerra urbana, este blog já abordou sobre a morte como constante na era Bolsonaro, seja na violência legitimada na ação das PMs, pela criminalizada participação de criminosos comuns, seja pelo descaso completo com a saúde pública "em nome da economia". E segue o baile.
     Ao que tudo indica, a morte é algo que acompanha o currículo do presidente. "Sou especialista em matar", dissera ele em uma ocasião na Câmara federal, na mesma época em que fez defesa explícita às milícias. Apesar de, até prova em contrário, nunca ter sujado as mãos diretamente.
     De família de classe média baixa e assimilado os valores da sua formação militar, Bolsonaro teria, na tradição moralista, uma ética mais humanista. Só que não, pelo menos segundo o laudo psiquiátrico do EB2 para motivar a sua expulsão transformada em reforma, pela qual teve patente de capitão.
     Devido à ambição exagerada de se enriquecer, a política foi o caminho mais cômodo, onde mostrou a sua boa expertise em conquistar votos junto ás parcelas mais reacionárias da sociedade e se expor como é pessoalmente. Não é por mero acaso que se sente tão à vontade na política.

-> Reflexões finais

     Nomes como o jornalista Leonardo Sakamoto e José Fernandes, do canal do Youtube Portal do José, afirmam ser Bolsonaro reflexo direto de nossos defeitos de valores culturais. É válida por ser correta, mas por si só não completa a definição da personalidade do presidente, nem se entende suas políticas.
     É triste, mas vale refletir sobre a personalidade do presidente, pela psicologia ou psiquiatria. A personalidade é a soma do inato (índole, têmpera) com adquirido sociocultural (caráter). O primeiro é estável, o segundo é mutável. São inatas de Bolsonaro agressividade, ambição e desejo de controlar o outro pela ética militar retratada na repressão (valor cultural).
     O negacionismo de Bolsonaro reflete a têmpera desafiadora, dirigida contra a ciência, a profilaxia de vida, as regras de boa convivência, ao defender o indefensável, como as milícias nos morros e o ato do excludente de ilicitude3, evento potencialmente fatal de ação policial, e minimiza a gravidade da C19 comemorando cada milhar de novos enterros e negando a vindoura vacina.
     O desafio se estende ao negar a entender o aborto como um problema de saúde pública. Bolsonaro diz se preocupar com a vida intrauterina, mas despreza as milhares de vidas infantis abandonadas, sem família, sem escola, sem assistência, doentes, roubando para sobreviver - a estas últimas enseja morte.
     Bolsonaro é um egoísta inato, e mostra suas atividades políticas não só como o desafio à sensatez, como claramente reflexos de si mesmo: "quem manda sou eu". Em seu nome o vírus contagia todos os lugares passíveis de lotação, as balas mandam nos morros, a imprudência mata no asfalto.  
     O seu machismo, em parte aprendido em família e o resto no Exército, se multiplicou em desprezo à vida feminina: assim foram extintas as políticas de proteção à mulher, a mulher morre por violência doméstica que para ele é como discussão de botequim, sem importância alguma.
     Assim ele vive, e assim ele repassa a seus apoiadores, a maioria masculina e classe média não por mero acaso, acompanhada de algumas quimeras como mulheres e LGBTQs. E os apoiadores, tal como lobotomizados, reproduzem a visão distorcida de seu "mito". E assim a relativização da violência e a banalização da vida e da morte seguem o triste baile desse Brasil.
     Vamos continuar a moda de banalizar a vida depois de mais de 200 mil mortos? Quem viver, verá.

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Crédito das imagens: Google

Notas da autoria
1. Termo criado pelo antropólogo e medico Merrill Singer para definir a interação mútua e sinérgica de 2 ou mais problemas de saúde gerando danos maiores que sua soma de complicações, em determinado contexto social.
2. EB = Exército Brasileiro.
3. Proposto por Sergio Moro, se refere à atitude eventual: o policial desacorda ou mata a pessoa "sob forte emoção". 

Para saber mais
https://dasa.com.br/blog-coronavirus/sindemia-covid-19
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Sindemia
- https://preprints.scielo.org/index.php/scielo/preprint/download/901/1262/1322 (leitura acadêmica em pdf)
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2020/05/e-dai-o-esgar-genocida-e-dai-lamento.html
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2020/11/violencia-instituida-sim-cidadania-zero.html
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2020/10/ustra-bolsonaro-mourao-e-barbarie-de.html
- https://www.dw.com/pt-br/o-brasil-vive-a-banaliza%C3%A7%C3%A3o-da-morte/a-54663838
- https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/07/22/mortes-por-covid-19-no-brasil-na-pandemia-superam-soma-de-vitimas-de-homicidios-e-de-acidentes-de-transito-em-2019.ghtml
- https://g1.globo.com/bemestar/vacina/noticia/2020/12/16/anvisa-diz-que-pfizer-enviou-dados-de-testes-de-fase-3-de-vacina-contra-a-covid-19.ghtml

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O "golpe Trump": o que houve e o que pode vir


     Em 6/1/2021, o Capitólio, sede do Congresso dos EUA, foi invadido por seguidores de Donald Trump que, como o seu ídolo, se recusam a aceitar a vitória eleitoral de Joe Biden nas urnas e no Colégio Eleitoral.
     A sessão solene que ocorria foi interrompida, os parlamentares participantes tiveram que sair do anfiteatro por segurança, já que muitos entraram armados, representando risco a todos.
     Houve, de fato, troca de tiro, porrada e bomba entre os manifestantes e os guardas, terminando em saldo negativo de quatro mortos, todos populares. Após a confusão, a sessão retornou sacramentando Biden o novo presidente dos EUA.
     
-> A invasão foi tentativa de golpe?

     Os manifestantes pró-Trump que invadiram o Capitólio eram principalmente grupos supremacistas brancos que se declaram anglo-saxões e seguidores de teorias conspiratórias que insistem em sustentar a desmentida tese de fraude nas eleições presidenciais de 2020.
     O fato é considerado inédito na história da república estadunidense desde a independência do país em 1776. Tanto pela reiterada resistência de Trump quanto pela violenta bizarrice da invasão, com todo direito a tiros, porrada e bomba de gás lacrimogênio e de efeito moral, terminando em quatro mortes.
     Na real, eles não agiram por conta própria, foram incitados por Trump. Desde o anúncio da vitória do democrata, o republicano não tem aceitado a sua derrota, sacramentada na primeira contagem e corroborada na recontagem de votos em alguns estados.
     Vale um ponto interessante: no primeiro dia útil do ano o deputado federal Eduardo Bolsonaro fez visita surpresa na Casa Branca, a convite da filha de Trump. Todos sabemos que os Bolsonaro e fãs são ferrenhos defensores de Trump e não aceitam a derrota deste, justificando-se com fake news.
     O deputado já estava fora da Casa Branca quando invadiram o Capitólio. Ele foi para a Virgínia se encontrar com Olavo de Carvalho e amigos para um alegre café, onde manteve silêncio, imitado pelo pai aqui, que se limitou a defender o voto impresso e a ditar fake news sobre as eleições nos EUA.
     A fidelíssima ala bolsonarista do Congresso não disfarçou a alegria com a invasão, com sorrisos e a novas ameaças ao legislativo e ao STF. Vale lembrar que os Bolsonaros estão por trás da remuneração de grupos antidemocráticos aqui e dos 'misteriosos'1 117 fuzis de uso restrito às FFAA dos EUA.
     Os fatos fora vistos como tentativa de golpe de Trump. Faz sentido: incitar apoiadores a invadir uma sessão congressista de certificação da vitória eleitoral de Joe Biden significa, na legislação dos EUA, uma traição à Constituição, ou como apontaram alguns, terrorismo doméstico.
     Analistas no Globo News de 7/1 apontam que os fatos chamam a atenção para as instituições dos EUA de garantir a solidez da democracia política que, mesmo madura, tem certa vulnerabilidade. Mas, por sorte, a legislação estadunidense tem uma carta na manga.
     
-> A 25ª emenda

     A 25ª Emenda é um dispositivo constitucional que trata sobre a sucessão presidencial nos EUA, com procedimentos sobre vaga de vice-presidente, bem como sobre a substituição do presidente devido a incapacidade ou morte. Possui quatro seções que indicam os procedimentos conforme as motivações específicas.
     A menção da emenda ocorreu devido ao comportamento de Trump e a gravidade do fato. Em 6/1, após voltar à normalidade, membros do gabinete de Trump concordaram com a aplicação da mesma, cuja seção 4 prevê remoção imediata do presidente sem impeachment, conforme a carta dos membros democratas do Comitê Judiciário da Câmara, para o vice Mike Pence.
     Com a saída "precoce" de Trump, Pence o substituiria como presidente pro tempore (interino) até a posse de Biden, em 21/1/2021.

-> Reflexões finais: consequências possíveis

     Se presumem consequências importantes sobre o futuro de Donald Trump após sua saída. Uma delas é a quase certeza da prisão por, pelo menos, dois crimes: a sonegação de impostos e tentativa de golpe contra a sessão solene de reconhecimento de Biden como novo presidente da República.
     No cenário interno, o partido Republicano junta os cacos da vergonha pela atitude de Trump. Em dezembro, seus membros e a Suprema Corte reconheceram a derrota eleitoral como legítima, contra o presidente, que mostrou ser capaz de tudo - o que nos dá uma mostra de seu perfil.
     Além de investidor2, Trump é um sonegador conhecido da Fazenda estadunidense. Não é à toa ser um bilionário. Embora não costume perdoar sonegadores, o Leão dos EUA é passível de ceder a certos caprichos dos muito ricos, como tradicionalmente ocorre aqui: Trump o sonega há 10 anos.
     Se a vitória de Trump em 2016 ocorreu porque a geral considerou a influência econômica e máscula, a derrota em 2020 foi um atestado de irresponsabilidade na tragédia da C19, que ceifou quase 400 mil vidas, pelos dados oficiais dos órgãos de mídia.
     Na cena, já se observam rastros. Fatos políticos nos EUA têm forte repercussão internacional devido a interesses mais amplos. E o ocorrido no Capitólio por incitação de Trump é visto positivamente por líderes de extra direita aliados do republicano, como Bolsonaro.
     Como já citado, a ala bolsonarista retoma o tom de ameaça ao Congresso e STF. É possível grupos antidemocráticos reaparecerem nas ruas, e Bolsonaro insinuar ameaçar a oposição de esquerda e outras "bobagens" que podem ser indicativos sérios, para se reeleger em 2022, mesmo contra o voto popular.
     Comparadas às estadunidenses, nossas instituições se fragilizaram pelo aparelhamento, ameaçando não interferir em presumível golpe de Bolsonaro. Mas a cena política interna não lhe é muito favorável, e globalmente a situação do Brasil já não é boa: os outros conservadores não vão desafiar Biden e Kamala, e se afastarão do brazuca.
     Porque o "golpe Trump" fracassou com Biden reconhecido presidente pelo congresso. O que já é suficiente para Bolsonaro desistir da tosca ideia. E nossas entorpecidas instituições podem, em tempo oportuno, acordar pela democracia para para o próprio Brasil não morrer de vez.

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Imagens: Google

Notas da autoria
1. A carga foi descoberta pela PF em investigação sobre a execução da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) por milícia.
2. Cassinos, agência de modelos, hotelaria, ligação internacional com empresários do ramo de casas noturnas.

Para saber mais
- https://maquinandopensamentos.blogspot.com/2020/11/bolsonaro-vs-biden-brasil-vs-eua-quando.html
- https://www.bbc.com/portuguese/internacional-55578201 (o que é a 25ª emenda)
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Vig%C3%A9sima_Quinta_Emenda_%C3%A0_Constitui%C3%A7%C3%A3o_dos_Estados_Unidos
- https://www.jn.pt/mundo/uso-da-25-emenda-para-afastar-trump-da-presidencia-seria-inedito-13205109.html
- https://oglobo.globo.com/mundo/invasao-do-capitolio-foi-apice-de-tentativa-de-golpe-dizem-especialistas-24827036
- https://www.bbc.com/portuguese/internacional-55578201 (traição à constituição)
- https://www.metropoles.com/brasil/politica-brasil/a-convite-da-filha-de-trump-eduardo-bolsonaro-visita-a-casa-branca
- https://blogdolindenberg.com.br/eduardo-bolsonaro-faz-visita-surpresa-a-casa-branca-a-convite-da-filha-de-trump/
- https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2021/01/em-silencio-sobre-invasao-do-capitolio-eduardo-bolsonaro-toma-cafe-com-olavo-e-amigos-nos-eua.shtml
- https://blogs.correiobraziliense.com.br/vicente/ala-ideologica-do-governo-vibra-com-a-invasao-do-capitolio-nos-eua-e-sonha-em-fazer-o-mesmo-com-o-congresso-no-brasil/
- https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/03/20/marielle-o-que-se-sabe-sobre-as-pecas-que-serviriam-para-montar-117-fuzis.htm
- https://exame.com/mundo/invasao-ao-capitolio-incitada-por-trump-e-considerada-terrorismo-domestico-entenda/



     

CURTAS 116 - ANÁLISES (os traidores da pátria; reforço a Flávio)

  A CARTA DA ALTA TRAIÇÃO                      Já dentro do prazo de 90 dias da eleição, o Brasil entrou no defeso eleitoral , um conjunto d...